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Oct
17
2012
Conto em Série

O silêncio sussurra – O Som do Silêncio texto II

Escritor: Bruno Sanje

som-do-silencio

“As trevas escondem o acontecimento futuro”

Teógnis


Podia sentir o bafo quente tocando os pelos da minha nuca. Eu corri e como, sem rumo, mais uma vez. O ar rasgou os meus pulmões, que imploravam por mais. Como aquilo aconteceu? O que foi aquela porra toda? Eram perguntas que gritavam na minha mente enquanto corria. Algo estava atrás de mim, algo incrivelmente cruel e vil. Seja o que fosse, ou quem fosse, estraçalhou todos naquele pulgueiro que eu estava. Lançados aos pedaços, com as línguas separadas dos corpos, por todo o motel.

– Deus! Que inferno, porra! O que você quer?

Não ouvi resposta, apenas o som dos passos, que permaneciam como ecos dos meus próprios. Corri, atravessando o jardim da Luz, entre os viciados e os traficantes, entre os marginais e pivetes de rua, apenas corri, com algo atrás de mim. Sem olhar pra traz, sem sequer piscar para o que eu deixara nas minhas costas . A lua estava banhada em sangue, uma lua vermelha como eu nunca havia visto antes, mergulhava São Paulo em um brilho rubro . Agora sem Outdoors para iluminar as ruas, o que restava era a deficiência da iluminação publica.

– Pensa Rafael, pensa… – Sussurrei para mim mesmo, enquanto corria, tentando organizar  meus pensamentos. Atravessei por baixo de um viaduto, parando os carros que insistiamem passar. Oque estava atrás de mim ficou para trás, mas não desistiria tão fácil. Eu estava cansado e precisava parar, respirar, pensar um pouco naquela merda toda..

– Que porra é essa? O que eu faço?

Minha cabeça começou a rodar, o som da vadia gritando no quarto ao lado estava tão presente na minha memória quanto o cheiro fétido daquela cidade. Algo estava muito errado. Levantei e continuei andando, a visão cada vez mais turva e a cabeça cada vez mais confusa.

… Um sussurro.

– Ei … – Virei-me, alguém me chamava, mas não vi ninguém.

– Ei, idiota. – Tinha certeza que havia ouvido.

– Moleque, seu idiota, o que você esta fazendo aqui?

Então eu vi, logo depois do viaduto, entre uma grade e a parte mais baixa da ponte, um velho negro, envolto em um manto sujo, que se aproximava de mim com os pés descalços.

– Qualé, se enfiou em mais uma confusãom né, palhaço?

– Você me conhece? – Ainda não tinha minhas lembranças, minha cabeça era um buraco vazio com instintos, apenas.

– Não. – Ele disse secamente com a cabeça baixa. Com uma das mãos, que não tinha o polegar, ele me chamava na direção das trevas onde estava parado. Fui.

Com certeza mais um mendigo implorando dinheiro,  pensei.

– Não, não sou.

– Como? – Perguntei, atônito. O velho agora sabia o que eu estava pensando?– Não entendi o que disse, cara.

– Ora, não se faça de idiota, garoto. – Ele chegou mais perto, então eu vi. os olhos cinza, sem expressão, sem emoção, sem visão de qualquer coisa.
– Caralho, você é cego!

– Temos um gênio aqui. – Ele tossiu, escarrando uma porra verde no asfalto frio.

– Não tenho tempo pra isso agora.

– Pois devia, aquela coisa está atrás de você. – Meu corpo voltou a tremer, como se não bastasse, não era por não ter muitas roupas e estar um frio absurdo, mas por medo de que o que tinha me seguido estar perto novamente. Sentia um cheiro, morte com certeza, e que estava perto.

O velho não disse mais nada, e eu mesmo estava amedrontado demais para perguntar, a voz simplesmente não saia. Ele me puxou para dentro de um buraco, entre um beco escuro próximo à rua Santa Ifigênia. Por que o segui? Quando você esta em uma merda de situação, onde uma é pior do que a outra, você escolhe a que vai te fuder menos.

– Que merda é essa, velho? – Ele não me encarava, mas tentava seguir minha voz. Não respondeu. Passamos por algo que parecia um bueiro. Nunca vi essas coisas aquiem São Paulo, mas não estávamos mais sobre a rua, e sim embaixo dela. Havia alguns mendigos espalhados. Continuei seguindo o velho, que para um cego caminhava bem rápido.

Ouvi sons estranhos, gemidos ou sussurros, não sei, mas era angustiante. O velho sumiu no escuro. Continuei andando, mas não tinha como voltar, o local por onde entrei se perdeu, e estava escuro demais para ver onde estava. Me senti cego também.

– Porra, me enfiei em outra merda de novo!

Os gemidos ficavam cada vez mais altos, cada vez mais tristes. O ar pesava como chumbo e algo podre preenchia todo o espaço. Ouvia os gemidos agora como se estivessem nos meus ouvidos. Uma luz tímida se estendia ao fundo do lugar.

Caminhei com cuidado. Meus passos me levaram ate uma parede com grades. Algo estava acontecendo lá dentro. Minha visão ainda não havia se acostumado bem com a escuridão, mas vi formas nuas, estendidas no chão.

– O Que…é… isso?

O corpo de uma criança, de aproximadamente uns dez anos, coberta por pequenos cortes, estava largado no chão, e havia algo  do lado dela  bebendo seu sangue.

– Porrá, não é possível, tá de brincadeira comigo!

Um homem nu, com a boca coberta de um vermelho vivo pelo que bebia. A criança? Morta.

– Oh, droga! Agora fudeu mesmo!

Corri com aquilo rosnando atrás de mim. Não tinha saída, não tinha a merda de uma porta ou janela, nada. O cara era rápido, muito, como um bicho ou sei lá o quê. Estava quase me alcançando quando o velho cego apareceu do nada.

– Some, cacete, tem alguma coisa vindo ai. – Ele sorriu, e senti que não era felicidade em me ver.

– Sempre tem, garoto.

Continuei correndo. Seja o que fosse, ignorou o velho e continuou atrás de mim. A luz rasgou a escuridão pelo teto, segurei as alças de aço em volta do que eu pensava ser uma rachadura, e empurrei com meu ombro, rompendo a madeira. Mas era tarde. O cara estava em cima de mim, se arrastando como um bicho pronto para atacar, resmungando uma língua estranha.

– Cara, na boa, não quero encrenca, seja lá que merda você estava fazendo lá atrás, não quero encrenca pra mim.

Algo me puxou, e tão rápido quanto subi, ele me acompanhou. Saltou sobre mim, mas o que caiu foi sangue e um corpo nu. Estava paralisado, tentando entender o que havia acontecido. Atrás de mim, dois velhos de uns sessenta anos. O mais alto com uma pequena arma ainda em punho.

– Mas quem? – Era minha duvida, embora acho que a pergunta deveria ser o quê?

– Esses malditos parasitas, infestam essa cidade como pragas que são.

– Victor, esqueça. Tem certeza que é esse ai? – O velho com cara de índio perguntou, apontando pra mim.

– Uma boa questão, Filemon.

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Publicado por Bruno Sanje

– que publicou 3 textos no ONE.

Atuo em todos os tipos de artes, e ja escrevi historias para quadrinhos, estudo roteiro pra cinema, estudo narrativa, construção de personagens, jornada do heroi, entre outras coisas para usar no meu livro que esta em construção.

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