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Apr
17
2013

ANTARTICA UNA

UM

 

Seu nome era Gaia.

As avós de suas bisavós sabiam contar muito bem a história. A pequena Gaia sabia apenas fragmentos – o que já seria confuso para uma mulher adulta – ainda mais para uma menina de sete anos.

Estava absorta em seus pensamentos infantis sobre a difícil vida na Terra, quando foi interrompida por uma voz estridente.

– Gaia! Berrou a professora, que devia ter uns 100 anos (era o que os alunos achavam). Quantos continentes a Terra possui?

– S… sete, dona Lucrécia.

– Muito bem, e quantos são habitados?

– Apenas um, dona Lucrécia.

Dona Lucrécia foi perturbar outro aluno, na diminuta turma de 120 crianças.

Para os padrões do superpovoado continente Antártico, era uma turma pequena. Aliás, a escola da pequena Gaia era uma das mais caras em um raio de 250 km. A aplicada aluna estava ansiosa para terminar o semestre letivo, que correspondia aos seis meses de luz natural que banhava as áreas próximas ao pólo sul, único habitat do homem. Nos outros seis meses de “noite eterna”, a população literalmente hibernava, graças às pílulas do sono, inventadas 80 anos antes.

Gaia podia ter apenas sete anos, mas tinha uma inteligência bem acima da média. Já tinha percebido, até pelas histórias que a mãe contava, que algo muito grave havia acontecido com a Terra, poucos séculos antes.

Sempre que perguntava ao pai, ele vinha com evasivas, dizia que “não era bom criança pequena ouvir coisas ruins”. O pai era um importante cientista, um clima-sei-lá-o-quê, Gaia não sabia repetir.

– A Antártica precisa de mim, dizia Théo, o orgulhoso pai, já com 82 anos de idade. Este continente é o único lar que nos resta.

Gaia tinha um incontável número de meio-irmãos. A poligamia era obrigatória, desde a fundação da República da Antártica Una. Era uma decorrência implícita de um curto artigo da constituição do único país do mundo: “os cidadãos e cidadãs devem reproduzir-se o máximo possível, sempre”. Quem não cumprisse, receberia a pena capital, em julgamento ultra-rápido.

Mas nada disso era assim na época das avós de suas bisavós.

DOIS

 

QUASE DUZENTOS ANOS ANTES…

– Senhores, aqui está o novo relatório trienal sobre a Grande Migração. Vamos abandonar todos os habitantes, entre o Trópico de Capricórnio e o Trópico de Câncer, declarou, enfático, o presidente dos Estados Unidos da América, no encontro de chefes de Estado, fechado para a imprensa. “Vamos abandonar” era um eufemismo para “vamos condenar à morte lenta e sofrida”. O presidente brasileiro sabia bem disso, e já estava chorando. Apesar de corrupto, ele amava seu país, agora ex-país, e amava seus compatriotas condenados.

A decisão claramente favorecia os EUA, Europa, Rússia, China e Japão. A África subsaariana e grande parte da Ásia (incluindo Índia) estavam condenadas.

A Grande Migração já estava em seu trigésimo ano, porém, mesmo em um mundo “tecnologicamente avançadíssimo” (assim diziam os cientistas), simplesmente não era possível realocar toda a população mundial, de 650 milhões de seres humanos, no continente Antártico. A Terra já detivera o incrível recorde de 12,9 bilhões de habitantes, em seu auge populacional, mas isso foi antes do período mais cataclísmico da História.

“Seria perfeitamente possível, pois a Antártica é maior do que a América do Sul”, diziam alguns cientistas, “se os ricos e a classe média abrissem mão de seu padrão de vida”. As poucas vozes científicas que clamavam esse absurdo foram devidamente abafadas, em um espaço de três meses.

Trinta e oito anos antes, a Terra entrou em colapso climático irreversível. As temperaturas no norte da Europa, no inverno, atingiam 23 graus positivos. Bilhões já haviam sucumbido ao calor, quando o mundo entrou na Quarta Guerra Mundial, a segunda guerra nuclear multilateral que o mundo enfrentava. Dizia-se “guerra nuclear multilateral” porque, depois de alguma discussão, os historiadores chegaram a um consenso de que, em 1945, o mundo enfrentou “uma guerra nuclear unilateral”.

O solo do planeta estava acidificado, em quase sua totalidade, portanto inútil para o plantio. A água, o ar, e grande parte do solo – outrora agricultável – estavam radioativos.

Coincidência ou intervenção divina, um asteróide de setecentos metros de diâmetro, ironicamente batizado de Thanatos – morte em latim – atingiu a Cordilheira do Himalaia, e o estrago foi maior do que a Quarta Guerra Mundial. Consideravelmente maior. Não serviu para exterminar o Homo sapiens, mas bastou para que os governantes dessem início à Grande Migração, um megaprojeto de longo prazo que já havia sido considerado outras vezes, mas terminava sempre na gaveta.

Depois de rápidos estudos ecológicos, agronômicos, demográficos, estatísticos, genéticos e até antropológicos, que contrariavam frontalmente a imparcialidade que deve ter o método científico, chegou-se a uma cifra cruel: a Antártica, já extremamente combalida pelos consecutivos cataclismos planetários, suportaria apenas 200 milhões de moradores. Os outros 450 milhões de habitantes da Terra seriam abandonados à própria sorte. Os critérios para a escolha dos “felizardos” – assim chamados pela imprensa – foram mais abjetos do que a própria pesquisa.

O Tratado da Antártica, de 1959, foi totalmente revogado em nome da sobrevivência da espécie humana.

A Antártica, a partir de então, seria o novo lar e última esperança do homem. Povoar a Lua, ou Marte, era bonito na ficção, mas não era factível, pelo menos nesse ponto os cientistas concordavam.

TRÊS

A mãe da pequena Gaia recitava histórias para ela dormir, contadas desde a época das avós de suas bisavós.

– A Terra já foi um lugar bom para se viver, minha filhinha, dizia a mãe. Marta, mãe de Gaia, levava duas horas para fazer a criança adormecer.

Marta estava preocupada. Ela acompanhava o trabalho do marido, Théo, um climatologista, talvez o mais experiente da República da Antártica Una.

– A situação está péssima, querida. Nossas sondas não trazem informações boas.

As sondas eram veículos não-tripulados lançados semestralmente para verificar os níveis de radiação do ar e da água, temperatura do ar, acidez do solo, e outros indicadores ambientais, das áreas inóspitas do continente.

Desafortunadamente, apenas 18% do continente antártico era habitável, tamanho o estrago que a humanidade infligira ao planeta. Eram as áreas mais próximas ao pólo sul, e as cordilheiras mais altas. “Foi o asteróide”, diziam os mais jovens, mas os idosos sabiam que era uma mentira deslavada. O corpo celeste piorou bastante a situação, é verdade, mas o aquecimento global desmedido e a Quarta Guerra Mundial já estavam dando conta do recado.

Quanto aos outros continentes, a Ciência simplesmente mantinha imagens de satélites. Não se podia perder mais tempo. O foco da sobrevivência humana era – e tinha de ser assim – a Antártica.

O continente se tornara o habitat abrasador da espécie humana: o último registro de uma temperatura negativa na Antártica já tinha 25 anos.

A fundação da República da Antártica Una não foi tarefa fácil. Não se tratava apenas de realocar 200 milhões de seres humanos – todos contribuintes – confortavelmente, o que fez a Grande Migração ser jocosamente apelidada de “o décimo terceiro trabalho de Hércules”. Um país inteiro teve que ser construído: prédios, estradas, ferrovias, energia elétrica, meios de comunicação, abastecimento de água. Metrô para as cidades, coleta de lixo, saneamento básico, escolas, hospitais. Não havia portos na nova República, a temperatura no litoral da Antártica beirava os 50 graus Celsius. Além do mais, quem precisaria de portos, já que só havia um continente habitado na Terra? Não faria sentido. Transporte aéreo apenas para bilionários, mas não fazia diferença para o cidadão comum: o sistema de transportes terrestres era excelente, para orgulho dos engenheiros e arquitetos que o projetaram.

Toda a infra-estrutura agrícola foi criada a partir do zero: escolha das áreas ainda agricultáveis, adubação do solo, manipulação genética das sementes. Os últimos avanços da Ciência eram, na verdade, a esperança de sobrevivência do homem: substâncias capazes de neutralizar 90% da radioatividade da água e dos alimentos. Mesmo assim, os 10% de radiação restantes prejudicavam bastante a saúde geral da população antarticana, como eram chamados.

A Grande Migração não foi apenas de seres humanos. Era imperativo povoar o continente antártico com um mínimo de fauna e flora. O transporte de animais e plantas apresentou desafios logísticos inusitados. Animais considerados inúteis, como algumas espécies de mamíferos que bravamente resistiram a todos os cataclismos globais, foram deixados para trás sem piedade. Ficou determinado, já no “rascunho” de sua constituição, que a República da Antártica Una teria um gigantesco Jardim Zoológico Central, e um Jardim Botânico Central igualmente grande, para atuarem não apenas como centros de pesquisa, mas para a “conscientização ambiental” de toda a população.

Quanto ao idioma a ser usado na última República da espécie humana, não houve discussão: seria o Inglês e ponto final. Quem não soubesse, que tratasse de aprender, e bem rápido. Poucos governantes ousaram opor-se a essa decisão.

O arcabouço jurídico da República era sua constituição. A meta era simples, porém cada dia mais difícil de ser alcançada: a continuidade da espécie humana. Quando os homens, os cidadãos comuns, ficaram sabendo da “reprodução humana obrigatória, o máximo possível”, conforme rezava a Lei, o índice de estupros legalizados subiu 950%. Qualquer mulher biologicamente fértil – não importava sua idade – não apenas podia, mas devia engravidar. Com o tempo, as mulheres nem resistiam mais, sob pena de serem acusadas de descumprimento da Lei, e receberem a pena de morte. A consequência lógica foi um boom populacional na Antártica, e uma queda na qualidade de vida de todos, o que a pequena Gaia sentia muito bem. Os 200 milhões de colonizadores – os chamados “felizardos” – seguiram a Lei à risca, e a população saltou para 550 milhões, a grande maioria crianças.

Os criminosos culpados de delitos cuja pena não fosse a morte eram deixados nos Territórios Livres, designação da parte “considerada não-habitável” da Antártica, ou seja, 82% da superfície do continente. Na prática, uma pena de morte. Os julgamentos, de qualquer crime, eram sempre ultra-rápidos. De qualquer maneira, a criminalidade era quase nula na República da Antártica Una.

A água potável era escassa. As avós das bisavós da pequena Gaia, que estavam entre os 200 milhões de “felizardos” da Grande Migração – 185 anos antes – já enfrentavam um racionamento severo do precioso líquido. Desde então, o abastecimento de água só piorava. Era cada vez mais difícil aos cientistas minerar água totalmente livre de radioatividade, por isso os hospitais viviam entupidos. Um tanto irônico, o continente antártico era riquíssimo em petróleo, ouro, ferro, carvão, mas as últimas almas da civilização humana não conseguiam beber petróleo, ou comer ferro.

Marta estava preocupada com a queda de cabelo de sua “princesinha Gaia”, como a mãe carinhosamente a chamava. Ela sabia ser a radioatividade, o mesmo mal invisível que a fez perder o útero, duas semanas antes, depois de cumprir o dever cívico de povoar a República da Antártica Una com vinte e nove filhos e filhas, de sete pais diferentes. Marta começou a engravidar aos onze anos, e nunca mais parou – essa era a Lei, “talvez a principal Lei de todas”, diziam os homens, que adoravam a poligamia. Agora, sem útero, sabia que era apenas uma questão de tempo até que Théo a deixasse. Embora a amasse verdadeiramente, ele também tinha o dever cívico de “reproduzir-se o máximo possível”.

“Essa é a Lei”, suspirou Marta em seus pensamentos, enquanto contemplava o rosto da pequena Gaia, quando Théo entrou no quarto.

– Querida, lembrou de dar o hormônio sexual para a Gaia?

– Lembrei, querido.

Estava na Lei: as mulheres deveriam tomar hormônio para começarem a menstruar mais cedo. Gaia ainda não menstruava, mas estava quase. A Ciência já havia reduzido a gestação humana normal para sete meses, sem nenhum prejuízo para o bebê. Havia gestantes com até noventa anos de idade, mas esse prazer Marta não teria, agora sem útero.

O incesto era permitido na Lei, mas sob condições específicas. A Ciência da Genética havia avançado muito, e já era possível saber se o filho nasceria com problemas ou não. Uma vez comprovado que não haveria problemas, o incesto era permitido – mas não obrigatório – ao contrário da Lei da poligamia: “reprodução humana obrigatória, o máximo possível”.

Embora não obrigatório, quase todas as famílias da República da Antártica Una praticavam o incesto. Marta mesmo ficou grávida de um filho, e Théo engravidou três filhas. Estavam cumprindo o dever cívico, não havia mal nisso, afinal o que estava em jogo era a sobrevivência do Homo sapiens.

Théo havia dito a Marta que as sondas não traziam informações boas, mas não era totalmente verdade. No fundo, estava eufórico, mas não queria dar falsas esperanças para sua amada esposa. A Engenharia Genética havia desenvolvido sementes capazes de resistir às tórridas temperaturas do litoral antártico, e ao elevadíssimo nível de radiação. Nove anos antes, cinco veículos depositaram as sementes em diferentes pontos da costa. Agora, as imagens das últimas sondas não-tripuladas revelaram o sucesso da experiência: pequenos bosques de árvores de médio porte, e até algumas de grande porte, vicejavam nas encostas da Antártica. A polinização era feita meticulosamente pelas sondas robotizadas. O próximo passo seria a introdução de insetos e pequenos vertebrados, e quem sabe, em um futuro ainda longínquo, o homem conquistaria todo o continente.

Os outros continentes do planeta, com temperaturas infernais e níveis de radioatividade infinitamente altos, estavam a salvo da nefasta ação do Homo sapiens. “No mínimo, pelos próximos 15.000 anos”, especulavam as maiores mentes da República da Antártica Una.

Bom para a Terra, bom para os descendentes da pequena Gaia.


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