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Publicado por Lee Rodrigues

– que publicou 2 textos no ONE.

mulher1

Sou apaixonada pela diversidade de emoções que são afloradas através das letras, amadora na escrita, transbordo de quando em vez, dando vida, formas e cores aos meus pensamentos.

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Jul
08
2013

Amor a Três

os 3Num ciclo vicioso de brincadeiras perversas estamos gastando nossas vidas, e não há nada mais constrangedor que ganhar o sustento com o suor do próprio rosto.

Crescemos na malandragem, treinados em pequenos golpes, digamos que somos descuidistas baratos, uma carteira dando mole num ônibus apertado, uma barra de chocolate das lojas americanas, a aposentadoria mixa de um velho coitado… O que nos uniu? A arte de dar sempre um jeitinho, as letras, os contos, a doçura da poesia e claro a iminente inclinação para a solidão.

Até que tentamos ser boas pessoas, afinal tantos conseguem, não custava tentar, mas o trauma de não ser lido nos leva a devaneios em nossas mentes afogadas em gim.

Mauro Alves moreno alto, que tive o prazer de conhecer no Largo Quincas Berro D’água, num show cultural com a participação especial do Teatro Mágico. A frente do palco um carioca de 1.92 de longas canelas e boina cobrindo a entrada da calvície que já se mostrava aos 30 anos, um vascaíno a paisana no conjunto arquitetônico colonial barroco português, com uma mão no bolso da bermuda sarja ocre, bebericava uma latinha de cerveja como quem quisesse que ela jamais chegasse ao fim, já estava há tanto tempo na mão esquerda dele, que no mínimo seu sabor já beirava um chá mate que tendo o pires tampando a boca da xícara aguarda a infusão.

Já o Marcos Leite, jovem mineiro que saiu fugido de São Paulo entrou na minha vida num momento nada sexy, nos conhecemos entre as sessões de quimioterapia, os antieméticos não surtiam o efeito esperado, e a minha mira de vômito nunca foi certeira, isso garantia nossos encontros, e ele como um cavalheiro sempre pontual, impecável chegava num macacão azul de bolsos grandes, luvas de borracha amarela completavam o look da entrada triunfal empurrando um carrinho balde espremedor.

Valorize um homem que limpa seu vômito, principalmente se enquanto limpa, ele lhe conta estórias de reino encantado com marujo barbudo, não reclama se você dormir no meio do conto e ainda deixa sob seu travesseiro um folheto com desenhos de elefantes feitos a nanquim, escrito a promessa de lhe levar para dançar quando o médico der alta.

Ficamos juntos, os três, não da forma que estão pensando, o Mauro gostava de mim, eu gostava do Marcos e o Marcos, bem, esse gostava de cadáveres. Tinha constantes recaídas, por isso trabalhava em hospitais, gostava do cheiro do formol, da pele fria e arroxeada. E quem era eu para recriminar o que apetece a alguém? Ele gostava, eu achava estranho, mas que mal há nisso? Ele não mutilava os corpos, apenas gostava de dançar com eles e quando conseguia tal façanha, voltava para casa todo feliz, e se isso o fazia bem, fazia bem a mim e ao Mauro também, pois ele faxinava cantarolando, se quisessem saber o dia que o Marcos havia dançado com mortos, era só olhar a limpeza da casa, e ela andava sempre limpa e perfumada.

Tínhamos tudo para dar errado, mas não nos importávamos com suposições, algo especial nos ligava uma química talvez, o certo era que não havia um sem os outros.

Certa vez ouvi Miguel Falabella fazendo uso da frase que diz que nada se cria, tudo se cópia, e eu tratei de usá-la como meio de vida.
Eu copiava quadros, já que os originais demoravam a fluir da minha mente, e quando fluíam levavam algo a mais que óleo de linhaça e tintas, meu ser era derramado, de modo que o peso do valor sentimental sobrepunha o comercial, então eu dava os que criava e vendia os que copiava.

Morávamos num pequeno apartamento, nem precisávamos de muito espaço, quando não estávamos na rua, estávamos os três no quarto, ficávamos horas sem sentir o tempo passar, trocávamos o sol do verão da Bahia por tardes inteiras naquela cama king size, com molas ensacadas e espuma da NASA, e mesmo que o clima fervesse eu estava sempre frienta, desejosa de cobertas pesadas, nos esquecíamos das contas a pagar, da geladeira vazia, do celular que não tinha crédito para ligar, podia nos faltar tudo, mais entre nós nunca faltou notebook e wi-fi.

A lei de Newton diz que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço, digo que três espaços ocupavam o mesmo corpo, pois no teclado nossas mentes se fundiam, estávamos vivendo a essência do primeiro amor, sorrisos, cheiro, gosto, as descobertas na diversidade nos gêneros da escrita, três mundos distintos, três teclados, uma cama.
Marcos com Joss Stone, Mauro com Ramones e eu vendo girassóis com Nina Simone.

Mauro, vulgo caveira a essas alturas já havia se tornado um pequeno empresário no ramo naturalista, um dos dois pequenos quartos do nosso lar fora transformado num rendoso jardim de inverno, ele era muitíssimo habilidoso no cultivo e na comercialização da Cannabis.

Bem… Eu não levava muito jeito com plantinhas, apenas as consumia vez ou outra para relaxar, pois o curto período que consegui um emprego com carteira assinada virou minha vida de ponta, a empresa era boa, pagava bem, não tenho queixume do salario que recebia, mas a expansão a levou a ruina, clientes insatisfeitos, PROCON, dor de cabeça, estresse… Essa terrível experiência me fez entender o porquê das igrejas, bares e bocas de fumo estar lotadas, a intolerância, a gana, cobrança… O homem necessita de cano de escape, e cada um tem o seu jeito torto de aliviar seu fardo, o nosso era escrever, embora o Mauro andasse reclamando de fortes dores de cabeça, quando escrevíamos ele teclava também.

Não vivíamos segundo o padrão já moldado da sociedade, mas do nosso jeito andávamos bem, e o nosso jeito era um dia de cada vez, sentimos a falta dos nossos parentes, que não entendiam nossa relação, achavam-nos loucos, um carioca enorme escrevendo contos psicodélicos com mortes futuristas, um mineiro que apesar de não passar dos 25 anos portava-se e falava como se estivesse vivendo ainda em 1930 e uma mulher que misturava sangue com poesias.

Primeiro foram os meus parentes, que de uma hora para outra pararam de nos visitar, as portas estavam sempre fechadas para mim, minha mãe da ultima vez que tentei abraça-la teve uma crise de choro e me virou as costas. Já há alguns meses que eu dava desculpas para mim mesma, que era uma questão de tempo para os nossos entes aceitar, mas o tempo passava e nada mudava. Depois da minha família a do Marcos também se afastou, só os pais do Mauro que ligavam de vez em quando, até se afastarem também.

Mesmo que estivéssemos longe, ou passado alguns dias sem aparecer em casa, havia um encontro marcado entre nós sempre as terceiras sextas-feiras do mês, com dinheiro ou não, estávamos lá, entre um gole de gim e outro, como pagar resolvíamos depois, sempre havia uma carteira fácil, um “mauricinho” querendo cigarros naturais… O Marcos às vezes tinha uns espasmos, babava uma espuma esbranquiçada, mas mesmo assim ele ia.

O que não sabíamos era que a trilha sonora daquela sexta seria The Phantom Of Opera. Carregávamos um caderno, não um diário, apenas um caderno, e o momento que a inspiração chegava, não importava o que estivéssemos fazendo, parávamos e escrevíamos, porque se você deixa para escrever depois, poderá não lembrar e se acontecer de lembrar, não será na ínfima.

Como via de regra, o Marcos foi o primeiro a pedir licença para usar a toalete, as pessoas chamam “WC”, sanitário, banheiro, latrina, o Marcos não! Ele tinha que dar certo glamour até no verter da água, para ele era Toellet.

Na ida ao tal Toalete deixou cair descuidadamente o seu caderno, não sei se por descuido ou intencionalmente, o fato é que o peguei do chão, e a demora dele em retornar foi como uma chave para abrir cadeados, pois entre risos na mesa com o Mauro, abrimos e lemos as excitantes linhas daquele moço polido e aparentemente tímido com os vivos, e ao final, onde ele deixava bem claro a colocação de uma etiqueta no meu dedão numa mesa fria, fez meu sangue correr apressado nas veias.

Fumando um charuto que havia tirado da cartola, Marcos nos oferta um brinde, mas só o Mauro bebeu, os copos se encontraram no meio da mesa, mas retornou para apenas uma boca. E entre gargalhadas contamos o que havíamos lido no caderno descuidado, o que nos encurralou para mostrarmos os nossos cadernos também.

Comecei abrindo o meu caderno, mas num estalo o fechei, um mau pressagio arrepiou minha espinha, e desconcertada passei a vez para o Mauro, sugeri que deixasse a dama por ultimo, e eles eufóricos na abertura do próximo caderno, acabaram chamando a atenção das pessoas que estavam assentadas nas mesas ao lado, lançavam olhares de reprovação para o Mauro, pareciam assustadas.

As escrituras do Mauro empalideceram o Marcos, e eu fiquei sem chão, minha cabeça girava não apenas pelo gim, porque nem sentia o gosto do álcool na boca, mas por aquela sensação de termos estado numa situação igual antes.

As letras borradas no caderno do Mauro diziam que, o câncer havia me vencido, e o Marcos trocou as etiquetas no necrotério do hospital, deixando meus parentes enterrar em meu lugar uma indigente, eu fui mantida lá por alguns meses, congelada numa gaveta, onde o Marcos aplicava formol em mim até me embalsamar, ele tirava o meu corpo, aplicava o formol e dançava comigo, parecia o plano perfeito, até o Marcos surtar de vez, comprar com o dinheiro do decimo terceiro um freezer vermelho já usado e levar o meu corpo para a casa. Para disfarçar o odor do formol, ele limpava a casa inteira e borrifava o meu perfume, chagava do trabalho sempre com girassóis na mão, colocava Nina Simone para tocar e dançava com o meu corpo, até que uma prima querida, vindo o visitar próximo às festas natalinas, abriu o freezer para guardar o peru que trouxe de Minas, deu de frente comigo, um cadáver enfeitado de girassóis com fones no ouvido.

Priscila Pereira moça cristã, entendendo que o primo estava precisando de ajuda psicológica, junto com a família entregou o meu corpo para o hospital que abafou o caso para evitar escanda-los. Mas Marcos não suportou a perda, que segundo ele mesmo dizia, me perdeu por duas vezes, uma de morte morrida e outra de morte enterrada, pediu a Mauro que aplicasse nele formol na veia, Mauro aceitou, mas antes fumou tanto que não conseguia segurar nem a si mesmo em pé, muito menos uma agulha.

Mauro abruptamente fecha a aba do caderno e pede que terminássemos de ler em casa, na nossa casa. Levantamo-nos sem pagar a conta e ninguém veio atrás cobrar.

O virar da maçaneta, fez ficarmos parados em silencio antes de entrar em casa, fomos lufados por um cheiro forte de mofo, ficamos observando a sala empoeirada, a cadeira de balanço antiga do Marcos cheia de teias de aranhas. Eu não me lembrava de antes ter visto aquele apartamento tão sujo.

Acendemos a luz que insistia em apagar, acendemos de novo até mantê-la acesa, sentamos os três no nosso velho quarto, que há tão pouco tempo atrás tinha lençóis perfumados e agora estranhamente exibia uma colcha suja, como se houvesse passado varias estações sem que ela fosse trocada, algumas latas amassadas de cerveja e butucas de cigarros espalhadas pelo chão.

– Mauro o que aconteceu com nosso castelo? – Perguntei intrigada com toda aquela sujeira e desorganização, parecia um lugar abandonado.

– O castelo caiu Leelinda! – Respondeu Mauro com ar de cansado depois de um longo suspiro.

Troquei olhares com o Marcos que também confuso acenou para que eu pegasse das mãos do Mauro o caderno, assim fiz e comecei a ler em voz alta a partir de onde paramos no bar.

– Sei que muitos dirão que eu bebia demais, que usava ervas e isso me dava alucinações, que já era louco e perdi o resto do juízo quando depois de ser cumplice em guardar dentro de casa o corpo da Lee Rodrigues eu acordei com o Marcos morto ao meu lado. Mas a verdade é que sempre estiveram aqui comigo, às vezes me davam um pouco de trabalho porque eu tinha que ouvir três estilos de musica ao mesmo tempo, tinha que digitar por três pares de mãos, ouvia suas vozes, às vezes até o cheiro, Marcos nem depois de morto deixou que eu o chamasse de Marquinhos e reclamava quando encontrava a tampa da privada levantada, a Lee continuava com náuseas e vomitava pela casa às vezes no meio da madrugada, o Marcos limpava cantarolando sozinho, arrastando aquele carrinho balde espremedor pela sala, e isso me deixava louco. – Nesse momento minha garganta travou e o choro não me deixou continuar a ler, o Marcos continuou.:

– Não que eu não goste deles, mas tenho que beber por três, já não consigo dormir, o “PC” liga sozinho, minha coberta é puxada no meio da noite, o frasco de perfume borrifa espalhando o cheiro de miríades pela casa, até bater em porta de parentes deles eu tenho ido, mas eles não acreditam e me destratam, já fui em sessão descarrego, já procurei padre, mas nada, nada adianta. Estou cansado, e como não tenho coragem para cortar os pulsos, e não consigo uma overdose apenas com cigarros e gim, resolvi denunciar a policia os traficantes aqui do bairro, agora é só esperar.

Antes mesmo de o Marcos fechar o caderno, ouvimos o barulho da porta sendo arrombada. Tiros numa rachada de balas que pareciam fogos de artificio em nosso quarto, num reflexo de medo o Mauro se joga da janela do 15º andar, tentamos segura-lo, mas foi em vão, nossas mãos escorregavam nos braços dele, descemos as escadas mais rápido que aquelas balas, por sorte não fomos atingidos, mas perdemos o Mauro, o corpo dele estava estendido no asfalto, caiu de costas, pernas semiabertas, os braços cruzados por cima do tórax como quem desejasse proteger alguma coisa, porque nem no susto do impacto da queda ele os descruzou, os olhos estavam abertos, esbugalhados para fora, nos davam a terrível impressão de que ele buscou ver algo ainda no seu ultimo momento, como quem quisesse a redenção, ou apenas os abriu quando seu crânio no encontro do solo desabrochou em pétalas encefálicas, a queda fora amortizada por dois toldos, mas isso não impediu que o peso e a velocidade na qual ele alcançou o chão espalhassem seus miolos.

Uma aglomeração de curiosos se formou em volta do nosso Mauro, os estranhos sentiam dó, os conhecidos coxeavam entre si que ele era um lunático, e sempre que ia ao bar da esquina pedia três copos mesmo estando sozinho, o cobriram com um saco preto de lixo preso por pedras da rua para não voar, não vimos o momento, mas roubaram a carteira dele.

Com a chegada tardia da policia, as pessoas voltaram para suas vidinhas, e nós tentamos ser ouvidos pelos guardas, mas era inútil, era como se não estivéssemos ali, estávamos agachados no chão ao lado do corpo, quando escutamos uma tosse pigarrenta, familiar do Mauro. Era ele, em pé, encostado no poste, olhávamos para o corpo, olhávamos para ele. Meus olhos nem piscavam.

Não precisou de palavras para que tomássemos consciência do que estava acontecendo ali, e de qual era a nossa real condição.

Não tínhamos mais o corpo físico, só nosso espirito e durante meses sem perceber nos tornamos espíritos obsessores, fazíamos o Mauro beber o que queríamos, ouvir o que gostávamos de ouvir, atormentamos ele fazendo-o escrever a continuação dos nossos contos inacabados, o comportamento dele o afastou do convívio com outras pessoas, estávamos exatamente como queríamos, com o Mauro apenas para nós, sozinhos.

As lembranças se acenderam em nossas mentes, o Marcos dançava comigo mesmo morta porque não conseguiu cumprir a promessa enquanto eu era viva, sempre deixamos para depois, é uma coisa e outra, e acabamos deixando de lado o que realmente dá sentido a nossa vida, sem saber que o amanhã pertence a Deus, um dia fui para o hospital e não voltei, não havia outros cadáveres, era sempre com o meu corpo congelado que ele dançava, enquanto meu espirito o esperava em casa, e depois que fui sepultada, o Marcos passou um longo período internado numa clinica de repouso, mas de pouca valia, ele não superou a perda e retornando ao trabalho teve acesso a medicamentos injetáveis, o Mauro nervoso com a petição do Marcos em aplicar nele formol, se drogou tanto que nem viu o Marcos injetar nele mesmo.

Eu continuava zanzando pela casa e não entendi que o Marcos havia morrido, porque depois da confusão toda de um jovem ter cometido suicídio e o Mauro ter quer fazer algumas visitas à delegacia, o Marcos retornou e continuava fazendo o que sempre fez limpar e limpar… Acho que no fundo sabíamos que estávamos mortos, só não queríamos aceitar, não queríamos enxergar e deixar para trás todas as coisas que em vida gostávamos de fazer, e tinha o Mauro, como ficar longe dele? Amávamos o caveira, só que quem ama cuida, deixa livre, e nós não cuidados, o usamos para dar sentido a continuarmos num plano que não mais nos pertencia, aprisionamos o Mauro com nossos vícios e passamos a viver a vida dele, e ele perturbado por nossa obsessão vivia para nos satisfazer.

Mauro buscou socorro, mas as diversas opiniões só o deixavam mais confuso, e as pessoas tem uma mania triste de repudiar o que não conhecem.

Muitos o tinham por louco, afinal era viúvo duplamente, pois vinha de uma tripla relação onde à mulher morreu de câncer e o homem se suicidou com formol depois que descobriram que ele guardava um cadáver no freezer de casa, outros diziam que ele precisava de um exorcista, pois andava acompanhado por demônios.

Talvez tivéssemos nós agido como demônios, movíamos objetos em casa, falávamos ao mesmo tempo na mente dele, penso o quanto no inicio ele deve ter tido medo, afinal não é fácil dormir com espíritos que roubam suas cobertas no meio da noite. E se ele fez aquela besteira de cutucar traficantes era porque buscava o que conseguiu, a morte, não enxergou outro caminho além desse.

Mauro agora estava tão desprovido de matéria quanto nós, em baixo daquele poste descobrimos a verdadeira essência do livre arbítrio, poderíamos permanecer ali, da forma que estávamos, usando pessoas para satisfazer nossos desejos terrenos, estar perto de coisas que não conseguimos nos desligar ou, poderíamos escrever novas linhas num caderno em branco.

O carro do IML veio chegar perto do alvorecer, estacionou rente a calçada, dois homens barrigudos retiraram o plástico que nos poupava a visão dos miolos espalhados, os braços já levemente enrijecidos foram forçados a abrir quando a pericia percebeu que guardado pelos membros superiores havia um caderno de capa dura, esse caderno passou de mão em mão até ser esquecido em cima do capô de uma viatura, caindo na pista quando o carro deu partida virando a esquina.

Ainda estávamos lá, encostados os três no poste, observando a rua solitária que agora recebia uma leve garoa que delicadamente espalhava o sangue do Mauro que já estava intrínseco no asfalto, quando passa um casal certamente voltando da balada, despreocupados com os respingos de agua que o céu liberava na mansidão de um amanhecer de um sábado qualquer.

Acompanhamos com o nosso olhar o riso solto da moça que recebia cafungadas no pescoço, e nos enchemos de vida quando ela após tropeçar em algo ao virar a esquina, pega do chão um livro escrito na capa Amor a Três por Lee Rodrigues, Mauro Alves e Marcos Leite.

– A cama ficará apertada Lee.

– Ora Mauro… Onde cabem três, cabem cinco!

– Mademoiselle queira nos acompanhar estou desejoso por um gole de gim!

Na versão da imprensa, num jornal qualquer…

Desbaratada quadrilha de traficantes com a morte da ultima carta do baralho. Após longa investigação, carioca resiste à prisão se jogando da janela do 15º andar.


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3 Comments»

  • [email protected] says:

    Lindo conto que li há algum tempo atrás, bem no seu estilo…rs Que bom que se cadastrou e esta usando o site, pode levar tempo pra conseguir seguidores, mas com seu talento não tenho duvida que eles virão! bjbj

  • Lee Rodrigues says:

    Ow anjinho me cadastrei para acompanhar você e acabei encontrando textos muito a cima da média que estamos acostumados a ler no outro site. Encontrar seguidores rsrs não, acho que não rs. Meus textos estão aquém dos que tive o prazer de ler aqui, não acredito que publique outros, deixo os que já estão, só dois rs. No meio de tanta gente boa, sou o “patinho feito”, prefiro ser leitora, que é o que realmente sou. Bjoss!

  • J.Nóbrega says:

    Lee,
    .
    Eu achei o texto magnífico, jamais imaginei esse desfecho, você casou com perfeição a linha temporal dos personagens e conseguiu manter o suspense, sem falar, nas reflexões contidas ao longo de todo o texto que leva-nos a pensar.
    .
    Digo com sinceridade que adorei, e sempre que postar algum conto me avisa para que eu tenha o prazer de ler.

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