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Publicado por Ardaia

– que publicou 1 textos no ONE.

Um medroso cuja vida resume-se em transformar qualquer barulho noturno em algum tipo de monstro e, em seguida, criar terias que o tornam possível e impossível para ver se consegue dormir.

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Dec
13
2013

O grito de Anu

Por L. J. Ardaia

O GRITO DE ANU

anu negro

 

ARNALDO

Agosto de 2013, período de seca aqui em Rondônia, calor desgraçado, a floresta faz com que tudo fique mais abafado, não consigo me acostumar com este clima, e olha que já estou aqui faz um ano.

Meu nome é Arnaldo, vim com minha mulher, Sílvia, de São Paulo, ela passou no concurso para juíza federal e, por infortúnio do destino, foi mandada pra Porto Velho.

Porto Velho é a capital do Estado. É uma capital grande mas não desenvolvida, o único shopping da cidade fora construído há apenas cinco anos, como é o único da cidade, recebeu o nome de Porto Velho Shopping. É, o povo daqui não é nada criativo. Bom, pelo menos os que habitam aqui atualmente.

O Estado é cheio de tribos indígenas – alguma ainda isoladas – e, por isso, há grande quantidade de lendas mas, atualmente, a população é constituída em grande parte por imigrantes. Se dizem que o Brasil é o país com mais diversidade étnica, com certeza, Rondônia é o Estado mais miscigenado do Brasil. Isso se deu por conta dos dois ciclos da borracha – quando todo o Brasil virou-se para o norte visando o látex, caso você tenha faltado as aulas de história.

Bom, diferente da minha mulher, eu sou jornalista – isso mesmo, daqueles com faculdade e tudo mais – e trabalho em um jornal de circulação “em crescimento” – como gosto de dizer – chamado O Olho do Mapinguari.

O nome soa horrível mas pelo menos é criativo. Mapinguari é uma criatura da Floresta Amazônica, das lendas indígenas, descrita como uma criatura de pelos longos, apenas um olho, com a boca na barriga, com aproximadamente dois metros de altura e com garras extremamente afiadas. A lenda diz que ela é capaz de sentir a presença de seres humanos e seu cheiro, extremamente forte, atordoa as vítimas, permitindo que elas sejam pegas com facilidade.

Eu sou o cronista do jornal, temos pouco pessoal, os funcionários têm funções mais ou menos definidas, mas todos trabalham no que podem. Os colegas de trabalho não são ruins, mas o chefe, Edvaldo, é um pé-no-saco.

Como todo mês de agosto, acontecerá o festival folclórico Duelo da Fronteira, em Guajará-Mirim – uma cidade do interior a trezentos quilômetros de Porto Velho. A cidade é ruim, já fora um grande centro econômico do Estado, sendo – junto com Porto Velho – umas das duas cidades mais desenvolvidas durante o ciclo da borracha, mas, atualmente, não possui nada, vive – como gosto de chamar – o ciclo do contracheque. Porém, o festival é o segundo maior do país, perde apenas para o festival de Parintins, e isso, para Rondônia, já é grande coisa. O responsável por cobrir o festival seria o Eugênio, mas ele adoeceu e então eu aproveitei a oportunidade e pedi ao Edvaldo que eu fosse no lugar dele.

– Edvaldo, posso falar com você um minuto?

– Que foi, Arnaldo?

– É que eu soube que o Eugênio adoeceu…

– E que que tem? – interrompeu-me, o desgraçado!

– Então, pelo que soube, você ainda não indicou ninguém para cobrir o Duelo da Fronteira no lugar dele.

– Hm?

– E eu queria ter esta oportunidade. Posso ir no lugar dele?

– Vá, Arnaldo, pelo menos assim você não me enche o saco.

– Obrigado, garanto que não vai se arrepender.

– Tá, que seja! Você já entregou a crônica de amanhã?

– Estará na sua mesa em exatos cinco minutos.

Entrego as crônicas e vou para casa. Como sempre, chego antes da Silvia, o que vai ser bom, terei tempo de preparar algo para ela receber a notícia. Terei que viajar daqui um dia, ela não vai gostar, talvez, se preparar algo especial, ela ouvirá com bom humor. Decido preparar um jantar, moqueca de dourado, o prato preferido dela.

Quando termino de cozinhar, penso que talvez seja melhor ao ar livre, então, arrumo a mesa de jantar na varanda do quintal e vou me arrumar.

Assim que termino de me arrumar ouço a maçaneta girar, desço rapidamente a escada.

– Olá, meu amor. – digo eu, beijando-a.

– Oi. Porque você está de terno? E porque a casa está tão arrumada assim? – pergunta-me ela, desconfiada.

Erh, eu preparei uma surpresa.

– Surpresa, é? Arnaldo, Arnaldo, o que você aprontou dessa vez?

HAHAHAHAHA! Não aprontei nada, meu amor, é uma boa notícia.

Falo para ela vestir-se apropriadamente e a guio até o quintal, onde está servido o jantar.

– Olha só, quem fez isso tudo? – pergunta-me Silvia.

– Ora essa, eu mesmo que preparei, especialmente para você.

Começamos a comer. Sílvia conta-me como fora seu dia de trabalho, finjo relativa atenção, não consigo imaginar quão chato é o trabalho de um juiz, ficar sentado o tempo inteiro e por muitas vezes ter que ouvir besteiras que são ditas, durante várias vezes ao dia. Não sei como a Silvia ama tanto essa profissão.

– Então, que boa notícia é essa que precisa de tudo isso para ser contada, Arnaldo? – diz Silvia, meio brincalhona.

– Então, meu amor, te contei do Eugênio, certo?

– Contou sim, ele melhorou?

– Não, não, infelizmente. Enfim, ele cobriria o Duelo da Fronteira, em Guajará-Mirim, e como ele não poderá, o Edvaldo designou-me no lugar dele.

– O QUÊ?! E você aceitou, Arnaldo?

– Não tive escolha, você sabe como ele é, apenas disse que seria eu e pronto! – não planejara mentir mas ela pareceu mais zangada do que imaginava, a mentira saiu no improviso e, apesar disso, o ímpeto me ajudou a fazê-la soar mais sincera.

– Não gosto da ideia, Arnaldo. Quando você vai?

– Vou nesta sexta…

– Mas hoje já é quarta!! – interrompe-me Silvia.

-…eu sei, meu amor, mas ficarei apenas o final de semana, segunda já estarei de volta.

– Eu não gostei mesmo, Arnaldo. Quem vai com você?

– Bom, você sabe como é o jornal, não temos muito pessoal, apenas eu fui designado. Vou só.

– Isso não é bom, Arnaldo. A BR-425 é ruim, todos reclamam da buraqueira que é.

Digo a ela para não se preocupar, que tudo ficará bem, mas ela sempre teve muito medo. Quando nos mudamos, fez com que o irmão dela viesse comigo para eu não ter que trazer o carro sozinho.

Quinta amanhece tímida, o sol está ameno – para essa época do ano é quase um milagre – e há muitas nuvens no céu. Silvia vai trabalhar, enrolo mais um pouco em casa. Temos apenas um carro, acho desnecessário termos dois, além do mais, meu trabalho é a apenas três quadras daqui, vou andando.

Estou ansioso para a viagem, não consigo escrever nada, então, pego uma crônica que escrevi outro dia, mas que ainda não fora publicada. Umas das primeiras que escrevi quando cheguei aqui, ainda era mês de maio, quando algumas frentes frias conseguem chegar até aqui. A crônica fala de como as pessoas se vestem – como se estivessem nos Andes – de como elas tratam o frio como algum milagre divino. Até entendo, o calor aqui é maçante, mas o calor pode ser resolvido com qualquer aparelho de ar condicionado ou um bom banho.

O tempo passa devagar, vou corrigindo o texto, fazendo algumas pequenas alterações que me passaram desapercebidas na época que escrevi.

– Já terminou a crônica de sexta, Arnaldo? – pergunta-me Edvaldo, no tom de voz que sempre teve.

– Estou apenas terminando a correção, Edvaldo; já estará na sua mesa.

– Estou esperando.

Termino a crônica, acho que consegui deixá-la com um pouco mais de humor. Não procuro ofender ninguém, apenas levantar uma característica deles que não devem ter consciência, mas este povo ofende-se fácil.

Entrego a crônica e peço para ser liberado, assim terei tempo de preparar as coisas para a viagem, reservar alguma pousada e tudo o mais. Faço exatamente isso quando chego em casa, arrumo a mala e reservo um quarto numa pousada qualquer, procurei na internet, não me parece ruim e também não é tão cara. Ponho o dinheiro necessário para o fim de semana todo – inclusive para pagar a pousada – e está tudo pronto.

JOSÉ

Aconteceu de novo, fazia tempo desde a última vez, tínhamos esperança. Maria era tão jovem, tinha sequer 15 anos completos, e isso a matou. Os jovens não costumam ouvir os mais velhos – bem sei disso –, acham que sabem de tudo, que sua coragem pode vencer o mundo, mas o mundo é cruel e não perdoa os corajosos demais, Maria agora sabe disso, soube cedo demais para a vida e tarde demais para se salvar.

Todos os dias eles vêm, empoleiram-se nos telhados, bicam as telhas e as janelas. Me pergunto por que não entram, eles poderiam entrar se quisessem, poderiam bicar a casa abaixo e pegar quem quisessem. Mas não, gostam de causar medo, ficam observando-nos pela janela a noite toda, sem um pio sequer, bicam as janelas, andam pelo telhado, é possível ouvi-los a noite toda e alguns ficam parados, parecem mortos as vezes, mas estão te olhando com aqueles olhos vingativos.

Querem ser desafiados, esperam que algum tolo abra a porta e vare noite adentro em desafio, Maria foi uma dessas. Assim como todos nós, sentia medo e não aguentava mais, certa noite, o desespero foi tanto, que abriu a porta e saiu correndo para a noite, gritando na esperança de espantá-los. Pobre Maria, seus gritos de nada adiantaram, de nada fizeram aos bichos e tudo terminou com mais um grito, não de Maria, mas dela, aquele grito infernal, desejava não ouvi-la nunca mais, rezei para que não tornasse a ouvir aquele barulho ensurdecedor. Faz o sangue gelar, o ar fica pesado e aperta o peito, você pode tentar, mas sua voz simplesmente não sai – o grito dela deve ser o último a ser ouvido – e, no instante seguinte, todos atacam. Aqueles bicos pequenos e tortos, dezenas deles, beliscam a pele fora da carne e depois a carne fora dos ossos, mas mesmo assim, ainda assim, mesmo que você consiga correr, é impossível gritar, mesmo com toda aquela dor, você não consegue gritar.

Lembro quando ouvi pela primeira vez. Perguntamos a nosso pai por que não podíamos sair à noite, por que tinham tanto medo daqueles simples pássaros. Éramos jovens, eu e Marcos, impetuosos, não tínhamos medo de nada, rimos quando meu pai nos contou a lenda.

Ficamos decididos a acabar com esse medo bobo de todo da vila. Certa noite, acordamos durante a madrugada e lá estavam eles olhando, parecia que sabiam o que pretendíamos fazer, mas afastei esse pensamento da cabeça. Marcos era mais velho, mais forte, mais destemido, pegou a espingarda de nosso pai e mandou que eu pegasse uma lanterna. Saímos noite adentro, caminhamos pela estrada, parecia-me que estávamos sendo observados e seguidos o tempo todo.

– Marcos, estou com medo. – disse eu, e realmente estava amedrontado.

– Medo de que? Não seja tolo, José, não acontecerá nada.

– Mas olha para eles, parecem estar nos seguindo. – e os malditos estavam, de pulo em pulo, saltitavam atrás da gente, estavam na rua, nas estacas das cercas, não tinha como voltar.

– Estão apenas curiosos, vamos só até a antiga aldeia e voltamos, não é muito longe, e, se alguma coisa aparecer, atiro em suas fuças. – disse Marcos balançando a espingarda, mas não fiquei convencido, o ar estava pesado e era difícil respirar.

A noite estava densa, não havia um único raio de lua para iluminar o caminho, a luz da lanterna era pouco eficiente na negritude. Aqui não há névoa ou coisa do tipo, as noites são apenas escuridão, profundas como o céu que rodeia as estrelas.

– PARE! – disse Marcos de repente.

Estávamos cansados, a aldeia não era longe e não tínhamos andado mais que meia hora, estávamos cansados demais.

– Você viu aquilo? – perguntou-me Marcos, apontando para a noite.

– Aquilo o que? – pergunto eu assustado e dirigindo a luz da lanterna na direção apontada.

– Nada, deve ser só minha imaginação, estou cansado, talvez seja o sono. – disse ele, vendo que nada havia.

Mas eu vejo, vejo o vulto passando, assusto-me, deixo a lanterna cair.

– O que foi isso, José? – pergunta-me Marcos, agitado.

– Eu…eu…eu vi, EU VI, ALI ESTÁ! É Ela, Marcos, vamos voltar.

Tarde demais, quando viramos para correr a estrada estava tomada pelos malditos, pareciam estar sorrindo, eu podia sentir o sorriso deles. Marcos atira, assusto-me e caio no chão.

– LEVANTA, ZÉ! CORRE!

Mas eu não conseguia, continuei caído, estava com medo demais para me mexer. Marcos já começara a correr quando olhou para trás e me viu, eu ainda estava lá e estava cercado. Estava caído de frente, encolhi-me com a cabeça em direção ao chão, não queria olhar, cobria a cabeça com as mãos, mas podia sentir Ela estava atrás de mim.

Ouvi um segundo tiro e Marcos correu na minha direção, abrindo caminho por entre os malditos, chutava-os todos e corria para mim. Chutou-me também, não com força, chutou-me como quando o fazia para brincar comigo, provocar-me, com um sorriso de deboche no rosto, tênue, podia não admitir, mas eu entendia, era o jeito de dizer que me amava.

– Corre, seu burro! – dissera ele, não estava assustado, estava calmo, sorria-me.

Corri, consegui levantar e corri, como nunca fizera antes, corri e não olhei para trás, mas pude ouvir, toda a vila pôde ouvir, aquele grito agudo, horrendo, quebrou a noite, calou tudo, sequer o vento ousava zunir, só pude ouvir o farfalhar de asas e o ploc frenético das bicadas mortais.

ARNALDO

Chega sexta, partirei depois do almoço. Silvia está apreensiva, a estrada para Guajará-Mirim é horrível e viajarei sozinho, mas ela acreditou que fui obrigado a cobrir o evento, então estava tudo certo. Almoçamos em casa mesmo, nada demais, depois do almoço, ponho minhas coisas no carro e preparo-me para ir embora.

– Você não vai descansar um pouco? – pergunta-me Silvia, preocupada.

– Não, meu amor, sabe que não durmo depois do almoço e já é hora de ir, não quero dirigir de noite pela estrada.

– Está certo, bem, boa viagem então. – diz ela beijando-me – Te amo, vá com Deus.

– É só um final de semana, meu amor, fará bem para você ficar um tempo sem mim. – digo eu, brincando.

Entro no carro, dou a partida.

– Também te amo, segunda já estou de volta, não se preocupe. – e vou-me embora.

O começo da viagem é tranquilo, a BR-364 pode não ser as melhores mas não é ruim. Bastante movimentada nesse período, espero que nenhum movimento do MST ou de camponeses qualquer esteja bloqueando a pista.

Paro numa cidadezinha chamada Nova Mutum. Fora construída no lugar de Mutum Paraná, por causa das construções das novas usinas hidroelétricas. A antiga cidade seria alagada pela enchente do rio, então a empresas construíram uma nova cidade para os moradores e mudaram todos para cá. A cidade é bonitinha, bem planejada, mas monótona, todas as casas são iguais, até os comércios são iguais. Faço um lanche rápido e sigo viagem.

Já são sete da noite, faz seis horas que saí de Porto Velho, a estrada é pior que eu imaginava e meu carro não é dos melhores – tampouco 4×4 – para eu ignorar toda essa buraqueira. Está escuro, nem notei que anoitecera – pergunto-me se escurece mais cedo no interior ou se eu que nunca noto a noite chegar. Julgo estar perto, já passei o município de Nova Mamoré, o último antes de chegar em Guajará-Mirim.

Começo a sentir-me estranho, acho que estou ficando com sono, bom, certamente estou cansado, o ar está pesado, não consigo respirar direito. De repente, um vulto cruza no meio da estrada, uma sombra negra como a noite, assusto-me e freio o carro imediatamente – graças a Deus essa estrada não é tão movimentada –, por pouco não acertei o sujeito, que, para minha surpresa, continuou correndo, cruzou a estrada e adentrou o matagal, como se nada tivesse notado.

Passados alguns segundos de perplexidade, tento ligar o carro, que com muito custo, liga. Na freada, acertei em cheio um baita buraco, que acabou estourando meu pneu. Sem qualquer opção – a não ser ficar parado naquela escuridão deserta, que certamente não o faria – dirijo pelo acostamento, esperando que tenha algum distrito ou assentamento, qualquer coisa, no caminho.

Depois de alguns minutos dirigindo, vejo uma sombra parada do outro lado da estrada, estranhamente familiar, como a que cruzara na frente do meu carro. Esfrego os olhos com força – percebo que estou com sono, perdi a noção de quanto tempo estou na estrada – e olho novamente, não há nada lá. Deve ser apenas o sono, tenho que chegar em algum lugar logo.

Pouco tempo depois, surge uma pequena vila e – que Deus seja louvado – uma oficina. Estranhamente, todas as casas já estavam com as luzes apagadas, haviam apenas corvos nas ruas e empoleirados sobre as casas. Não sabia que existiam corvos nessa região, nem mesmo sabia que existiam corvos no Brasil, mas também, não sou lá grande entendedor da natureza.

Enquanto dirijo pela rua, sinto todos os corvos olhando para mim e, novamente, o ar fica pesado, não consigo respirar direito, o sono e o cansaço estavam me abatendo cada vez mais forte.

Paro em frente à oficina, bato a porta da casa adjunta mas ninguém atende, bato novamente e nada. Espero um pouco, recupero o fôlego, tenho a impressão de que os corvos estão mais perto de mim. Bato, novamente sem resposta, bato mais uma vez, com toda minha força, e dessa vez, grito:

– ALGUÉM EM CAAAAASA??

Ouço o eco do meu grito, gritara alto demais. Os corvos assustam-se, levantam voo de uma só vez. O farfalhar daquelas dezenas de asas juntas dava certo medo, voaram todos pela rua da vila, em direção a estrada por onde eu vim. Espremi-me contra a porta da casa com medo de ser levado pelos pássaros – que pensamento ridículo. Mas o que me assustou de verdade foi quando a porta abrira atrás de mim, com o ranger mais alto que eu já ouvi, como se o mundo estivesse partindo-se, e, de repente, sou puxado para dentro por uma mão esquelética.

JOSÉ

Era uma sexta à noite, estava deitado no meu quarto, quando ouço o vento bater à porta. Só o que me faltava, já não bastasse os malditos neganus bicando o telhado e as janelas a noite inteira, agora a porta batia com o vento. Malditas aves, todas noites, tomam conta da cidade, ficam por todas as partes, empoleirados nos telhados e bicando as janelas, bichos demoníacos!

Só eu sei quantas vezes já pensei em sair deste maldito lugar, mas não tenho para onde ir e ninguém quer comprar esta casa. Imagino que não seja só eu quem quero ir embora, por isso ninguém daqui gasta um tostão que consegue ganhar sequer e a oficina não dá tanto lucro assim.

tuc, tuc, tuc, tuc, tuc!

Ouço o vento bater na porta mais uma vez. Engraçado, não lembro do tempo estar fechado quando entrei em casa, sequer ventava.

DUM, DUM, DUM, DUM, DUM!!!

O barulho fica mais alto, mais frenético. Levanto-me da cama, vou ver o que é, e de repente, ouço um grito:

– ALGUÉM EM CAAAAASA??

Assusto-me com o grito, fico alguns segundo paralisado e nos segundos seguintes, ouço o farfalhar de dezenas de asas juntas, malditos neganus! Corro para a porta, abro-a, para meu espanto tem um homem espremido contra ela, tremendo de medo, puxo-o de supetão e fecho a porta rapidamente.

AAAAAAH! – gritou o sujeito, assustado com o puxão que lhe dei.

– Para de gritar, porra!

– Meu Deus, achei que seria levado por aqueles malditos corvos. – disse ele, ainda tremendo.

– Corvos? Que corvos? – pergunto-lhe sem entender.

– Aqueles malditos pássaros pretos que estavam me encarando, achei que essas aves nem existissem no Brasil.

– Não eram corvos, eram neganus.

Neganus? Que nome estranho.

– São mais que estranhos… – paro de falar, não vale a pena perder tempo com estrangeiros – Estranho é você! Que acha que tá fazendo batendo essa hora na minha porta?

– Meu carro quebrou na estrada, o pneu estourou, vi que essa é a única oficina na cidade. – diz ele, acalmando-se – A propósito, meu nome é Arnaldo.

– Eu sou José. E não trabalho de noite – aviso-o logo – vai ter que esperar até amanhã de manhã se quiser que eu conserte o carro.

– Mas tenho que chegar em Guajará-Mirim ainda hoje.

– NÃO TRABALHO DE NOITE! – grito com ele, impaciente.

– Tá bom, senhor, desculpa. Onde tem uma pousada aqui que eu possa me hospedar?

– Tem uma pousada a três casas ao lado.

– Beleza, amanhã de manhã volto aqui. – disse-me, caminhando em direção a porta.

Espera! – digo a ele – Pode dormir aqui, tenho um colchonete.

Pego o colchonete no armário, bato a poeira dele.

– Aqui, tome! – entrego o colchonete a ele.

– Não, tudo bem, eu vou pra pousada. – disse ele com um olhar estranho, como se me achasse suspeito.

– Você não vai querer sair de noite, meu rapaz. E não me olhe dessa maneira, se há alguém suspeito aqui, esse alguém é você.

Deixo-o na sala, volto para o meu quarto, fico algum tempo fitando o teto, ouvindo-os caminhar por ele, olho para janela, e lá está, um neganu encarando-me, desafiando-me mais uma vez, desgraçado. Viro para outro lado, mas não consigo mais dormir, sinto o peso daquela ave maldita a me encarar.

Amanhece, devo ter adormecido, não notei o tempo passar, lembro-me vagamente do que julgo ser um sonho, os neganus voam atônitos, pareciam…os desgraçados pareciam estar gargalhando de alegria, gargalhando sem som algum.

Arnaldo ainda dorme, todos uns folgados essas pessoas da cidade-grande.

– Ei, levanta rapaz, já amanheceu. Vamos olhar o seu carro.

– Certo. – responde ele acordando – Ah! Aqui não pega sinal de celular?

Rhá! Não seja bobo, é claro que não tem sinal de celular.

– Droga, tentei ligar para minha esposa ontem à noite, mas o celular não conseguia sinal de modo algum.

– Não há um telefone sequer na cidade inteira, meu jovem. – digo a ele, enquanto vamos em direção ao carro.

Puta que pariu! A Silvia vai me matar.

– Vou examinar seu carro.

O pneu do carro tinha estourado e o aro estava todo amaçado por ele ter dirigido mesmo assim e, o pior, todo o eixo das rodas dianteiras estava torto, ia levar pelo menos mais um dia.

– UM DIA? – pergunta-me Arnaldo.

– Sim, um dia. Como você conseguiu fazer isso?

– Não sei, estava com sono, vi um vulto passar em frente ao carro e freei de repente, acertei um buraco em cheio, mas achei que tivesse apenas estourado o pneu e, no máximo, entortado o aro por eu ter dirigido mesmo assim.

– O vulto de uma mulher? – pergunto-lhe apreensivo.

– Não sei, não vi direito, apenas um vulto, estava escuro e eu já estava com sono. Mas, agora que você disse, até que pensando bem, parecia-me uma mulher sim. Porquê?

– Por nada, rapaz. – que tolo sou, perdendo meu tempo falado essas coisas com este jovem – Bom, de qualquer forma, não posso fazer mais rápido, você vai ter que esperar.

– Não tenho mesmo opção, não é?

Fico consertando o carro, Arnaldo decide dar uma olhada pela vila, aviso pra ele chegar antes de anoitecer.

ARNALDO

O velho disse que levará pelo menos um dia para terminar meu carro. Droga, só o que me faltava, preso neste fim de mundo.

Decido caminhar pela vila, é pequena, não havia mais que sete casas ao todo, a oficina de José e a tal Pousada.

Vejo alguns rostos nas janelas enquanto caminho, as pessoas daqui são estranhas, vi poucas pessoas na rua e apenas de passagem. A única pessoa que vi fora de casa durante um tempo fora uma mulher, lavando a roupa. Esfregava um lençol branco no tanque, bateu-lhe com um pedaço de madeira em forma de maça, desses que as mulheres de antigamente usavam para sei lá o que.

Vou até a tal pousada, Pousada Esperança o nome, uma pousada chamada pousada, parece-me que os interioranos também não possuem muita criatividade. Entro e dirijo-me ao restaurante, está quase vazio, bom, há poucos lugares nele, como era de se esperar, mas mesmo assim está vazio. Vou em direção ao caixa.

– Bom dia. – digo eu para a atendente.

– Dia. – responde-me ela com aspereza.

– Quanto custa o café-da-manhã?

– Custa o tanto que você comer.

– Certo. Então me vê um pastel de queijo e, hm, o que tem para beber?

– Temos sucos caseiros e alguns refrigerantes também.

– Refrigerante? Ao menos isso. – digo eu sorrindo mas ela não aprova a piada – Vou querer uma coca junto como pastel, por favor.

Pego meu pedido e sento-me em uma mesa qualquer. Há um jovem comendo em minha frente, ele me encara por algum tempo, encaro-o de volta, não sou homem de fugir de olhares. Ele desvia o olhar, esqueço-o, continuo a comer.

Não há nada na pousada, pelo visto o velho falava sério quando disse que não existiam telefones aqui, mas ele esquecerá de comentar que não existia quase nada. Era de se admirar que ainda existisse eletricidade num lugar como esses e, mesmo assim, ela vinha de geradores, não poste algum. O restaurante da pousada é ambientado apenas por um rádio a pilha, com uma música que não consigo distinguir, mas é umas dessas músicas caipiras, que fica alguém qualquer cantando rápido ao fundo e tocando violão.

JOSÉ

O carro estava péssimo, a suspensão estava acabada, por sorte, eu tinha umas peças que dariam jeito. Não eram do mesmo modelo, mas não causariam problemas ao carro, talvez ficasse um pouco mais pesado, mas nada que prejudicasse na direção.

Algum tempo depois, Arnaldo retorna.

– Ei, José, andei por toda a vila, mas ninguém quis falar comigo, contar da vila ou responder qualquer coisa que eu perguntasse, só falaram para cobrar o almoço. – disse ele com uma risada na boca – Por acaso, o senhor é o mais simpático aqui?

– Ninguém gosta muito de estranhos por aqui, ainda mais os do seu tipo.

– Ei, para com isso, não sou estranho. Enfim, queria lhe perguntar outra coisa, cadê os tais neganus que estavam por aqui ontem? Aqueles pássaros me assustaram naquela escuridão toda. Hahahahaha!

– Partem de manhã, graças a Deus. Só aparecem à noite

– Como assim? São só alguns pássaros.

– Olhe aqui, meu rapaz, não sei por que vou perder meu tempo para te falar isso, mas quem sabe você não para de falar besteira. Essa vila é próxima de uma pequena aldeia indígena, quer dizer, onde tinha uma aldeia, há algumas centenas de metros naquela direção. Era uma tribo de caripunas. Diz a lenda que era um povo hospedeiro, simpático com os estrangeiros, e até conversavam com povo todo que veio construir a estrada do trem. Nessa aldeia, viviam em torno de trinta pessoas e, entre eles, tinha uma jovem. Ela tinha os cabelos negros, tão negros que por isso, deram a ela o nome de Anu, em homenagem aos neganus. A índia era linda, e todos os estrangeiros queriam ela pra eles, mas ela não queria nenhum. Um dia, Sebastião, que era o homem mais forte dos construtores, chamou mais alguns colegas de trabalho e, no meio da noite, resolveram invadir a tribo para pegar as índias. Sebastião, como era o mais forte, queria Anu para si. Então eles atacaram a vila, bateram em todos os índios, mataram os homens e estupraram as mulheres. Durante todo esse tempo, os índios ficaram com tanto ódio que não falavam nada, nem mesmo enquanto eram mortos ou estupradas, não soltavam um único grito. Sebastião não gostou disso, como era perverso, queria ouvir Anu gritar, então, pegou várias penas das roupas que os índios vestiam e espetou nela, com muita força, enquanto a violentava. Dizem que Anu soltou um único grito, ensurdecedor que até mesmo assustou os outros, ficando apenas ela e Sebastião. Dizem que Sebastião nunca voltou ao acampamento dos trabalhadores. Dias depois, um bando de neganus começou a aparecer todas as noite e atacar os trabalhadores, mataram alguns deles. Alguns diziam que também viam a sombra de uma mulher, que parecia ter penas pelo corpo, negra como a própria noite que só era possível distingui-la porque o ar ficava pesado e sentiam um medo de congelar o sangue vindo de onde ela estava. Por isso a estrada foi terminada às pressas nessa parte, e todos foram embora. Pouco tempo depois, algumas pessoas se estabeleceram aqui porque não tinham mais nenhum lugar para ir, como meu avô. E acredite você ou não, todas as noites os neganus vêm, e algumas vezes, alguns jovens tolos não acreditam nas histórias, decidem desafiar a noite, então é possível ouvir, nessas noites, quando a vingança acontece, Ela grita.

ARNALDO

Minha barriga e meu maxilar doíam sem parar e, só muito tempo depois, consegui parar de rir. José me olhava calado, sério, com raiva, mas aquela história era tão estúpida que era impossível não rir da cara dele.

– Sabia que não devia ter contado. – disse José, irritado.

HAHAHAHAHA! É claro que devia, e devia ter contado antes, essa história é ridícula.

– Olha, se é tão ridícula assim, que foi que você viu na estrada ontem?

– Foi só um vulto, na verdade, nem sei se vi ou se peguei no sono, eu já estava muito cansado, essa estrada é horrível.

– Bom, você tem a opção de acreditar ou não.

José pouco falara comigo depois disso, continuou consertando o carro. Pouco tempo depois, terminou mas já estava escurecendo.

– Pronto, terminei seu carro. Bem a tempo! – disse ele.

– Bem a tempo de que? – disse eu, caçoando dele.

– De entrar, já está anoitecendo. – respondeu-me ele, sem sequer notar que estava sendo caçoado.

Já seria domingo no outro dia, não adiantaria ir a Guajará-Mirim. Certamente eu seria despedido e a Silvia, com certeza iria me matar! Não quero nem pensar nisso.

Paguei José com o dinheiro que tinha para a estadia em Guajará-Mirim e me preparava para ir embora.

– Você vai embora de noite? – perguntou-me José, preocupado.

– Vou, vou sim. Não posso esperar mais, tenho uma esposa me esperando e muito que explicar para o meu chefe.

– Olha, rapaz, deixa para ir amanhã de manhã, não custa nada. – era possível sentir o medo na voz dele, esse caipira realmente acreditava no maldita lenda.

– Não, vou agora, minha mulher está preocupada, ademais, não há nenhum neganu esta noite. – apesar de não acreditar na lenda, não tinha gostado nada dos malditos pássaros.

– É verdade, eu não tinha notado.

– Viu? É apenas uma lenda.

– Isso nunca aconteceu, é mais estranho ainda. Não vá, Arnaldo, estou avisando-o.

A noite estava tranquila, escura como todas as noites aqui são. Coloquei minhas coisas no carro e parti. Finalmente deixara aquele fim de mundo, talvez até voltasse, apesar de tudo, simpatizei com aquele velho ranzinza.

Já saíra da vila a algum tempo, estava tudo tranquilo, o carro tinha ficado um pouco mais difícil, mas nada que dificultasse na direção. Passei por alguns carros mas não tinha muito movimento na estrada.

De repente, passa em frente ao carro um neganu, tomo um pequeno susto, reduzo um pouco a velocidade, mas ele se vai para a floresta. Tranquilizo-me, aquele velho maldito encheu-me a cabeça de minhocas.

Admito que fiquei impressionado, é uma lenda forte, quem sabe até não escrevo sobre ela quando voltar, já que não pude ir a Guajará-Mirim, talvez essa história me sirva.

Outro neganu passa. Começo a me questionar, a ficar apreensivo mas tento não me desconcentrar, não podia acertar outro buraco em cheio e a estrada estava cheia deles.

Outro pássaro, mais outros e muitos mais. Vários começam a surgir, voando sem volta do carro, passando na frente, pelos lados. Aumento a velocidade, os pássaros começaram a rondar o carro, são tantos, não enxergo quase nada, acerto vários buracos, os malditos continuam rodando freneticamente em volta do carro. Continuo dirigindo em frente, mas não sou capaz de enxergar nada, os malditos pássaros não dão um pio sequer…NÃO DÃO UM PIO!

– “os índios ficaram com tanto ódio que não falavam nada…” – dissera José.

A lenda não me parece mais tão absurda assim, não consigo respirar direito. Perco a direção do carro, estou desesperado, o carro fica desgovernado, não consigo parar, bato em uma árvore.

Acredito ter ficar desacordado por alguns segundos. Abro os olhos, os pássaros estão todos empoleirados no carro, não enxergo nada. O vento começa a zunir…O VENTO? Os neganus voam, olho a noite, não há nada, os pássaros estão voando sobre o carro, mas não há nada na noite. De repente, fito a árvore na qual bati, sinto o sangue gelar, o ar fica pesado, não consigo respirar, tento abrir o carro, a porta emperrara com a batida. A sombra vai se aproximando, Ela vai se aproximando, consigo vê-la, consigo distinguir as penas pelo seu corpo e, de repente, some.

Sinto-me aliviado alguns segundos, tento abrir a porta novamente, mas quando viro-me em direção a porta, A MALDITA ESTÁ NA JANELA. Ela está tão perto, não consigo mais respirar, tampouco me mexer. Eu devia ter acreditado no velho, maldito seja eu, devia ter ficado com o velho.

Vejo-a abrindo a boca lentamente, no meu último reflexo cubro as orelhas, mas não consigo deixar de fita-la, a boca abre-se mais…

JOSÉ

Eu tentei alerta-lo, falei para que ficasse, não custaria nada. Mas ele recusara e recusara de novo, não quis ouvir, mas são sempre assim, eles nunca ouvem, esses homens da cidade.

Pelo menos pagou-me bem, talvez até dê para sair daqui. Isso mesmo, partirei amanhã, poderei manter-me uns dias com o que recebi pelo carro, mas não vou agora, não mesmo. Esperarei amanhecer.

Até agora, nenhum neganu apareceu, graças a Deus! Talvez tivessem ido embora, encontrado outro lugar para atormentar, talvez tivesse. Mas eles nunca deixaram de aparecer, nunca, isso é realmente estranho.

Arnaldo já foi, voltou a Porto Velho, disse que não adiantaria ir para Guajará-Mirim.

Hoje à noite está ainda mais escura, não há sequer um raio de luz da Lua. Mas os neganus não apareceram e, estranhamente, isso não me causa nenhuma paz.

Tento adormecer, amanhã vou embora, vou de vez, nunca mais volto para esta terra desgraçada.

Não consigo adormecer, levanto, vou a cozinha, bebo um pouco de água. Sinto calafrios, olho para a janela, é como se tivessem sombras dançando lá fora

Volto para o quarto rapidamente, algo me atormenta, o ar está pesado, mal é possível respirar, tento adormecer novamente, procuro pensar em coisas boas, procuro pensar no que vai acontecer quando sair desta vila. Sinto-me esperançoso, até mesmo feliz, a pressão da noite aos poucos vai aliviando.

Já estou quase adormecendo, o farfalhar das folhas ao vento não me incomodam. Espera, farfalhar das folhas? Não, não são folhas, aqui não venta, as folhas não farfalham. Olho para a janela, não vejo nada a não ser sombras da própria noite, mas o farfalhar continua, mais alto, mais alto e mais alto, porém longe, não é aqui. Paro de respirar inconscientemente, o ar fica ainda mais pesado que antes, e então ouço pela última vez, o grito, tenho certeza que é Ela, meu Deus, foi o mais alto que já ouvi, não era o que se ouvia as vezes, era mais agudo, mais feroz, era…era…mortal.


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