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Mar
12
2014

Persona | Capitulo 1 e 2

Persona, é uma história real, que começou há pouco mais de três anos e não acabou bem. Apercebi-me que escrever sobre tudo o que se passou ajuda e, no final da história (ainda estou a escrever), gostava de saber a opinião sincera de quem ler (se lerem) porque não é propriamente uma história “bonita” e, em relação ao futuro, eu ainda não sei o que fazer e que rumo lhe dar. Não sei se hei-de desistir dela, ou lutar por ela. De qualquer maneira, escrever ajuda e espero que alguém tenha o tempo (e a paciência pois vai ser longa) de a seguir e ler.

Prólogo

“Love takes off the masks that we fear we cannot live without and know we cannot live within. I use the word “love” here not merely in the personal sense but as a state of being, or a state of grace – not in the infantile American sense of being made happy but in the tough and universal sense of quest and daring and growth.”
? James Baldwin, The Fire Next Time
Talvez o importante não seja o final feliz. Às vezes, o importante é a história.
Capitulo 1

Abri a persiana da janela no meu quarto para ver como estava o dia. Ia ser um dia bastante importante: o primeiro dia do resto da minha vida. O que quer isto dizer? Mais tarde irão perceber.

Fechei os olhos automaticamente quando um raio de sol me “cegou”. Resmunguei com os meus botões – sim, tenho um bocadinho de mau humor matinal – e esfreguei a minha cara com as mãos, parando com os punhos nos olhos que me ardiam. Quando a minha vista já estava a funcionar decentemente, a primeira coisa que visualizei foram os gatos da vizinha a brincar no pátio do meu prédio. Sorri. Pelo menos aqui tinha gatos… Eram o meu animal favorito. “Aqui” porque esta era a minha nova casa desde há dois dias para cá. Mudei-me de uma pequena cidade do interior para a o Porto, a segunda capital do meu país (Portugal) e agora dividia a casa com mais duas raparigas e o meu quarto ficava na cave. Se estão a pensar que me mudei para estudar, estão certos. Ia começar a faculdade hoje, daí o dia de hoje ser importante.

Devo dizer que foi a melhor coisa que me aconteceu na vida: sair de casa, mudar de ares e ter a minha independência. Já não aguentava mais a rotina e as pessoas que me rodeavam. Então, para minha felicidade, a partir de hoje, a minha vida ia mudar… Pelo menos era o que eu esperava.

Peguei na minha toalha e nos meus produtos de higiene, dirigindo-me à casa de banho para tomar um banho rápido antes que as minhas colegas acordassem. Liguei a água e despi-me, parando antes de entrar para a banheira ao deparar-me com o meu reflexo no espelho. Nem parecia eu. Apesar de estar com umas olheiras que me chegavam até à ponta do nariz, de estar branca como a neve e de o meu cabelo parecer um ninho de cegonhas… o meu aspecto parecia muito mais saudável. Apesar da palidez, as minhas bochechas estavam ligeiramente rosadas e os meus olhos brilhavam levemente. Apercebi-me então que estava genuinamente excitada e esperançosa em relação a esta nova vida. Não que a outra tenha sido má mas simplesmente não a estava a viver decentemente. Até aos meus dezasseis anos vivi como a típica adolescente: era popular, conhecia toda a gente, tinha os meus amigos e era bastante feliz. Foi então que, há dois anos atrás, a minha vida mudou. Não interessa como, nem porquê mas mudou. O que interessa saber neste momento é que, com os acontecimentos desencadeados nesse dia, encontrei no teatro um escape à realidade, decidindo que era o que eu queria fazer para o resto da minha vida e hoje aqui estou: prestes a começar o meu primeiro dia na faculdade.

Com um suspiro, saltei rapidamente para a banheira para me despachar o mais rapidamente possível. Depois de um banho rápido, penteei o meu longo cabelo castanho encaracolado e fui vestir-me para o quarto. Peguei na minha saia roxa favorita, no meu top branco e no casaquinho também roxo. Vesti-me o mais depressa que consegui, calcei as minhas sabrinas pretas e depois de quase me entalar com o leite e os cereais, saí de casa com a minha mala castanha a tiracolo.

Depois de andar cerca de vinte minutos a pé, cheguei ao campus e dirigi-me com uma das minhas colegas de casa (que também entrou na minha faculdade) ao edifício onde os caloiros se tinham de reunir. Como chegamos antes das nove da manhã ainda não tinha chegado muita gente.

– Clara! – ouvi alguém gritar a minha alcunha e virei-me na direcção da voz, sabendo que era a minha melhor amiga, Cris.

Conhecemo-nos só há dois anos mas mal nos conhecemos, criámos logo uma ligação quase de outro mundo. Tanto que nunca mais nos largamos e viemos as duas para a mesma faculdade, embora ela fosse estudar cinema. Ela tinha a minha idade e era baixinha, media um metro e meio, que diferia bastante do meu metro e setenta;  tinha o cabelo ruivo e conseguia ser mais pálida do que eu. Quando me alcançou, abraçou-me toda contente.

– Estou tão ansiosa! – verbalizou, afastando-se – E contente!

Ri-me:

– Eu também.

Ia apresenta-la à minha colega de casa mas essa já tinha desaparecido. Sem dar qualquer atenção a isso, desatei a tagarelar com a minha melhor amiga.

– Sabes o que vai acontecer hoje? – perguntou-me baixinho.

Dei-lhe uma cotovelada, revirando os olhos.

– Como é que poderia saber?

– Sei lá… Podias ter ouvido rumores…

Por acaso até podia, pois a minha colega de casa conhecia alguns dos alunos mas como eu gosto de ser surpreendida, decidi não fazer perguntas.

Segundos depois, o funcionário da escola mandou-nos entrar no edifício e encaminhou-nos até ao auditório, onde três professores com cara de poucos amigos nos esperavam.

– Rapazes para um lado, raparigas para o outro – ordenou uma das professoras.

Ergui um sobrolho. Isto era o quê? Um colégio de freiras?

Olhei para a Cris e esta olhava-me tão chocada como eu. Agarrei-a pela mão e, encolhendo os ombros, arrastei-a até ao lado das raparigas.

– É preciso tanto tempo para se organizarem? Já não estão no secundário – reclamava a outra.

Cinco minutos depois a confusão acalmou e o auditório ficou em silêncio. Toda a gente parecia “assustada”.  Os professores começaram por se apresentar. Não liguei aos nomes mas a mais velha era directora do curso de Design, a outra – e a mais assustadora – de Teatro (o meu curso!) e o rapaz mais novo de Arquitectura.

– Se vocês pensam que estão aqui para se divertir… esqueçam – disse o rapaz, mortalmente sério – A boa vida ficou no secundário.

– Aqui há regras – acrescentou a mais velha.

– Não se fuma no recinto público, apenas a dez metros da entrada; o mesmo para as demonstrações de afecto. – enumerou a de Teatro – Isto é uma escola, não uma fraternidade. Estão aqui para aprender.

O meu sobrolho franzia-se cada vez mais, a cada minuto que passava. Mas era tudo maluco? Parecia pior que uma academia militar e eu só conseguia pensar “onde é que eu me vim meter?”.  

– Ai, onde nos viemos meter, C.? – verbalizou a Cris. Na maior parte das vezes era mais fácil chamar-me “C” em vez de Clara. E, honestamente, eu até gostava.

O professor de Arquitectura lançou-nos um olhar hostil.

– Durante as aulas, não queremos cochichos – frisou, olhando directamente para nós.

Lancei-lhe um olhar zangado perante a sua agressividade.

– Não podem beber água, ter o telemóvel ligado ou tossir – continuou, desviando o olhar.

Não se podia tossir? Abafei uma gargalhada. Ok, isto não podia mesmo ser verdade.

A minha melhor amiga olhou-me assustada.

– É praxe – sussurrei-lhe subitamente iluminada.

Só podia ser praxe, não havia outra lógica possível.

Desviei o olhar dela quando a voz do professor de Arquitectura se elevou ainda mais. Parecia zangado:

– E eu gostava de saber porque é que temos um caloiro dentro da sala, numa aula, com óculos de sol! Estamos a brincar a quê?

Toda a gente olhou para o fundo da sala, para onde o homem estava a olhar. Eu não senti essa necessidade e suspirei irritada.

O auditório ficou uns segundos em silêncio e depois só se ouviu uma voz fria e grossa a falar:

– Há alguma lei que o proíba?

Senti-me tentada a olhar na direcção da voz e assim o fiz. O tal caloiro dos óculos levantou-se e deu um passo em frente depois de falar. Torci o nariz. Algo me dizia que isto ia dar barraco.

– Quero saber, qual é a lógica de estar dentro de uma sala, com óculos de sol – insistiu o professor.

Credo, que sujeito irritante.

Olhei o caloiro – que não tinha nada ar de caloiro – curiosa com a sua reacção.

– Há alguma lei que o proíba? – voltou a perguntar, calmamente mas num tom de voz que até metia medo. 

Parecia super seguro de si mesmo. Todo vestido em tons escuros: preto e cinzento. Parecia bem mais velho que nós. A barba preta e os óculos não me deixavam analisar o seu rosto.

– Quem é? – questionei baixinho à Cris, sem saber bem porque.

Foi outra rapariga que estava sentada atrás de mim que respondeu.

– Não sei bem… Sabe-se que tem vinte e três anos e entrou em Teatro.

Sorri-lhe agradecida. Teatro? Bem, ia ser divertido.

Os professores começaram a disparatar com ele. Era tudo louco nesta escola, acreditem no que vos digo.

– Mostrem-me um papel que o proíba e eu tiro os óculos – desafiou o rapaz – Até lá estou no meu direito.

Numa maneira muito sombria, ele tinha razão. Não tinha de tirar os óculos se não quisesse, embora fosse contra as regras de etiqueta.

– Retire-se – ordenou a professora de Teatro, começando a escrever num papel – E vai ter uma queixa à direcção.

O rapaz encolheu os ombros, pegou no seu casco cinzento e retirou-se como se não fosse nada.

– Parece um mafioso – comentou a Cris ao meu ouvido.

Ignorei-a, concentrando-me na reacção dos professores.

– Alguém quer seguir o exemplo deste aluno? – interrogou o professor ameaçadoramente – É bom que não.

Isto estava mesmo a exceder os limites do razoável. A minha suspeita só aumentou quando disseram que íamos ter que escrever e ler textos em francês nas aulas porque era a segunda língua oficial e queriam incentivar à aprendizagem da mesma. Por favor! A língua francesa não estava no requerimento para a inscrição. Seguramente, só podia ser praxe.

Como para responder afirmativamente ao meu pensamento, um bando de alunos trajados entrou pelo auditório a dentro. Uma rapariga loira e baixinha, que trazia uma colher de pau gigante começou a falar:

– Olá, caloiros. Podem respirar de alívio, isto foi praxe. Foi a chamada “aula fantasma”.

Lancei um olhar de “eu bem te disse” à Cris e ela olhou-me acusadoramente:

– Só sabias porque arranjaste maneira de saber, correcto?

Revirei-lhe os olhos.

Afinal, a professora “assustadora” de Teatro era, na realidade, a funcionária da Biblioteca; a outra senhora era mãe de um ex-aluno e o mais novo ainda era aluno e veterano da faculdade.

– Só queremos avisar que o incidente com o caloiro dos óculos não foi brincadeira e que a direcção da escola vai ser informada – disse ele, com a mesma postura de mau da fita.

– Agora, ordenadamente, quem quiser, pode seguir-nos para continuar a nossa praxe. – informou-nos a rapariga loira da colher de pau.

Eu e a minha amiga, seguimo-los para ver no que isto ia dar. Os Doutores levaram-nos para uma praça lá perto onde nos puseram em filas e alinhados e cada vez que gritassem o nosso nome, tínhamos de nos ir apresentar a altos berros. Enquanto não chegava a nossa vez tínhamos de ficar quietos e calados, a olhar para o chão pois não se podia olhar directamente para estes seres superiores a nós. Estava um calor insuportável e eu já estava a ficar chateada com isto. Pensava que a praxe era uma coisa mais divertida. Para aí uma hora depois, chamaram o meu nome e lá fui eu para o meio dos Doutores e Veteranos. Como estava ansiosa por despachar aquilo gritei com todos os meus pulmões as informações que pediram: nome, idade, curso e de onde vinha. Fiquei com a ideia de que não foram muito com a minha cara pois alguns torceram o nariz e reclamaram com a minha agressividade. Opa, estava chateada e agora ia ficar com fama de mal encarada logo no primeiro dia. Ah, fantástico!

Depois de nos apresentarmos todos, deram-nos um kit de caloiro com uma t-shirt branca com o nome da faculdade e o ano de caloiro a laranja, nas costas; trazia também um apito, um BI cuja impressão digital era um casco de um burro e a foto era do Homer Simpson e um passaporte com todas as informações e músicas de praxe. De seguida, levaram-nos a almoçar – e tivemos de comer massa à bolonhesa só com uma colher. Para além de ser impossível, devo admitir que foi bastante divertido. Por aquela altura já tinha perdido a Cris, que estava por aí com outro grupo.

Quando acabamos de comer, conduziram-nos até ao largo em frente à faculdade onde iríamos iniciar um peddy-paper pela cidade e foi aí que o vi pela primeira vez. Era um dos rapazes mais bonitos que eu alguma vez vira – se não o mais bonito. Era Doutor e secretamente desejei que ele fosse o monitor do nosso grupo. Tal não se sucedeu e só o voltei a ver ao fim do dia, quando voltei da aventura pela cidade. Ele estava na faculdade, na última paragem do nosso peddy-paper. Fiquei completamente fascinada quando ele olhou para mim. Ele tinha o sorriso mais doce e o olhar mais meigo que eu alguma vez vira. Fazia lembrar-me muito o meu ex-namorado e deve ter sido por isso que o meu coração acelerou. Lembro-me de ter dito alguma coisa que o fez rir… e que sorriso. Era perfeito, garanto! Uns minutos depois, fomos novamente encaminhados para o auditório onde íamos assistir à actuação da TUNA da faculdade. Desci, contrariada, sem querer tirar os olhos dele. Já na sala, procurei-o com o olhar e lá acabei por o encontrar. Estava umas filas sentado atrás de mim. Céus, era possível haver alguém tão bonito?

Sobressaltei-me quando alguém se sentou ao meu lado.

– Estás a olhar para quem? – perguntou a voz da Cris.

Olhei-a com desagrado.

– Não me enganas, Clara! Estas meia corada e estavas toda concentrada em alguém.

– Não sejas chata – refilei.

Para minha sorte – outra vez – a TUNA começou a sua apresentação e depois a actuação. Tenho a dizer que amei o espectáculo. Eles eram super divertidos e, apesar de o talento não ser enorme, aquilo estava fantástico! Dei por mim a rir como não me ria há muito tempo. Senti que as coisas podiam ser bem diferentes agora. Estava a adorar o dia e estava mesmo contente. Adorei as pessoas, o ambiente e estava com a minha melhor amiga.

“E encontraste um rapazinho jeitoso” – acrescentou uma vozinha intrometida.

Ignorei-a. Estava mesmo com as minhas energias positivas a fluir e tinha mesmo esperança que tudo corresse pelo melhor a partir de agora.

Nessa noite, os caloiros foram convidados para se juntarem aos Doutores num bar no centro da cidade, não muito longe da faculdade. O bar chamava-se Labirinto e ficava a poucos minutos da minha casa.

Vesti o meu vestido preto com as minhas meias cinzentas até aos joelhos e, com um casaco e umas sabrinas também pretas, por volta das dez da noite, eu e a Ana – a minha colega de casa da faculdade – fomos a pé até ao local, o que nos levou uns bons vinte minutos.

Quando lá chegamos, estavam alguns Doutores presentes que nos convidaram a sentar com eles. Ainda não tinha chegado nenhum caloiro à excepção de nós, obviamente, e do caloiro que foi expulso da “aula fantasma”. Supostamente, a expulsão do rapaz não tinha sido encenada e o Veterano que fazia de professor de arquitectura tinha-se mesmo passado com o desrespeito dele. Tanto que até fomos alertados para ter cuidado com ele. Honestamente, eu não tinha engolido nada aquela história mas tudo bem. Ele estava, num canto do bar, a fumar com os óculos de sol postos. Enfim, cada um sabe de cada qual.

Uns minutos depois começaram a chegar mais caloiros que se juntaram a nós. Às tantas já éramos um grupo jeitoso e conversávamos alegremente uns com os outros mas o outro teimava em continuar sozinho com o seu cigarro e óculos de sol.

– Clara? – chamou-me uma das caloiras, com uma cotovelada – Estás a ouvir-me?

– Não acham que o devíamos chamar para aqui? – perguntei, ignorando-a e mantendo o meu olhar fixo nele.

Todas as cabeças à minha volta viraram-se na direcção para onde eu estava a olhar. De seguida, cada uma delas apresentava uma expressão de reprovação.

A rapariga que me deu a cotovelada – nem me lembrava do nome dela mas sabia que estava no curso de cinema – foi a primeira a falar.

– Ai, não! Ele assusta-me.

Fiquei ligeiramente chocada:

– Porquê?

– Acho que assusta toda a gente – comentou a minha colega de casa.

– Porquê? – repeti. Não entendia mesmo.

– É super… estranho e obscuro. – disse ela.

– Parece um mafioso – acrescentou outra que também não me recordava o nome.

Senti-me ainda mais estupefacta. Agora julgavam as pessoas pela maneira como elas aparentavam ser? Ok, que tinha uma maneira de vestir um bocado… adulta e clássica, que juntamente com a sua barba negra e aqueles óculos lhe davam um aspecto misterioso mas isso não queria dizer que fosse um tipo perigoso ou assim – apesar da descrição de “mafioso” lhe assentar que nem uma luva. Ninguém devia ser julgado pela sua aparência, não era justo.

-Sim, porque aqueles óculos não têm jeito nenhum. – prosseguiu a da cotovelada – É uma falta de respeito numa aula e aqui, num bar, à noite é simplesmente ridículo.

Abri a boca para protestar mas ela não se calava:

– Deve querer meter medo às pessoas com a mania que é o maior… Não queria nada ter de levar com gente assim aqui.

Senti-me zangada. Isto era tão injusto.

– Carmo, muito menos, ok? – subitamente ocorreu-me o nome dela – Não sejam parvos, está bem? O rapaz é livre de andar como quiser, de se vestir como quiser e de usar óculos quando bem lhe apetecer.

A mesa inteira parou e ficou a olhar para mim. Apesar de me ter sentido intimidada, continuava chateada.

– Além disso, pode ter um problema qualquer na visão que não queira admitir assim sem mais nem menos – acrescentei, pensando sobre o assunto – Por isso, não sejam injustos e não se ponham a julgar.

Detestava ter este tipo de papel mas simplesmente não suportava injustiças.

– Eu concordo – verbalizou o Doutor que estava mais perto de nós – Não julguem os outros sem os conhecerem.

Anui com a cabeça e sorri-lhe agradecida. Pelo menos não estava sozinha nesta luta.

Os restantes pareceram ofendidos mas rapidamente mudaram de assunto e desataram a tagarelar. 

Comecei a brincar com os meus anéis aborrecida. A Cris não conseguiu ir e, honestamente, não me apetecia socializar com ninguém que ali estava. Observei o Doutor que me ajudou a defender o caloiro. Chamava-se Pedro e, pelo menos tinha sido justo, fazendo com que eu até o gostasse de conhecer melhor. Como se me lesse a mente, dirigiu-me a palavra e estivemos à conversa sobre coisas super banais durante um bom bocado. Depois, à medida que ia chegando mais gente, tornou-se difícil a comunicação e eu fiquei novamente aborrecida. Confesso que estava esperançosa de ver o Doutor de hoje… o lindo, mas não havia qualquer sinal dele.

Com um suspiro, encostei-me na cadeira e comecei a brincar com uma caneta que estava em cima da mesa. O meu corpo estava ligeiramente ressentido e eu sentia-me cansada. Olhei para o relógio. Passava pouco da uma da manhã. Fiz uma careta. Queria ir dormir!

Como para me despertar do sono, a minha colega de casa agarrou-me por trás e, completamente histérica, levantou-me e arrastou-me até à casa de banho.

– Credo, Ana! O que foi?!

Agora estava a ficar mal-humorada.

Ela desatou a falar super rápido, com as lágrimas nos olhos e eu não estava a perceber nada. Ai, que a minha paciência estava a chegar ao limite.

– MAIS DEVAGAR, ANA – gritei. – Respira fundo.

Obedientemente, ela respirou fundo três vezes. Fiz-lhe sinal para esperar uns segundos até que se acalmasse. Quando o fez, recomeçou já mais devagar:

– Estás a ver o caloiro que foi expulso da aula?

– Sim…

– E estás a ver o caloiro que estava sentado a falar comigo? O de cabelo comprido?

Pensei no assunto e tentei visualiza-lo na minha mente. Fui sucedida.

– Sim…

– Ele viu-o a passar um envelope com alguém de mau aspecto e a receber dinheiro – contou quase em pânico – Ele reparou que ele viu, arrastou-o até à casa de banho e ameaçou-o! Com uma faca!!!

Pisquei os olhos confusa.

– Quem é que viu quem e quem é que ameaçou quem?

– O que estava a falar comigo, o , viu o que foi expulso a passar um envelope e a receber dinheiro. – explicou – Provavelmente droga! Tanto que depois, como viu o Zé a espreitar, agarrou nele e ameaçou-o com uma faca na casa de banho. Disse que se contasse a alguém o que viu estava lixado. O Zé entrou em pânico e voltou assustadíssimo para a mesa, eu percebi e arranquei-lhe a verdade.

Demorei uns segundos a recolher e a organizar toda a informação na minha cabeça. Quando o fiz, senti a minha sobrancelha a erguer-se lentamente. Ok, a minha teoria fazia cada vez mais sentido.

A Adriana olhava-me suplicante para que dissesse ou fizesse alguma coisa. Dei-lhe uma palmadinha nas costas para a acalmar e depois falei.

– Foi uma encenação. Aposto que estão a gozar connosco.

As minhas palavras foram tão firmes e seguras que era como se eu tivesse a certeza do que estava a dizer. Certeza absoluta não tinha mas estava convencida de que era verdade.

– Mas o Zé estava assustadíssimo! – insistiu ela – Devias ter visto.

– Chama-se representar, Ana. Acredita, eu sei.

Ela não parecia convencida.

– Relaxa e não stresses. Confia em mim… Vais ver que estou certa.

Soava certa e confiante aos meus próprios ouvidos.

– Tu não viste, Clara!

“Nem tu”, pensei comigo mesma.

Encolhi os ombros e dirigi-me à porta da casa-de-banho.

– Como queiras… Acredita no que quiseres. Só te dei a minha opinião.

Sem dizer absolutamente mais nada, saí, voltando até à minha mesa. Já não havia qualquer sinal do “mafioso” e o tal de Zé falava alegremente com os outros. Era cá uma personagem também. Tinha quase a certeza de que eles estavam feitos um com o outro e que isto não passava de uma grande partida. No entanto, não podia provar nada. Era apenas o meu sexto sentido – que é apuradíssimo – a falar. Bem, de uma coisa eu tinha a certeza: raramente me enganava.

Capitulo 2

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Às nove da manhã do dia seguinte, já estávamos todos na faculdade. Na parte da manhã iam-nos levar a conhecer a cidade – dado que alguns alunos, como eu, vinham de fora – e da parte da tarde íamos até ao maior parque da cidade, onde íamos ser praxados.

Já nos conhecíamos melhor uns aos outros e eu e Chris estávamos com mais dois colegas a conversar alegremente quando nos chamaram para que nos juntássemos a um grupo maior para podermos começar o nosso passeio. Assim o fizemos e, durante toda a manhã, deambulamos com os nossos chapéus laranjas e camisolas azuis, liderados por meia dúzia de gatos pingados trajados, pelo centro da cidade a visitar os lugares mais importantes. A meio da manhã, deu-se um momento engraçado quando um grupo de cerca de vinte turistas chineses nos pediram para tirarmos uma foto. Nos cedemos de bom grado e, no fim, eles ainda deram uma nota de dez euros aos doutores. Claro que nós, “reles caloiros”, não tínhamos direito a nada.

À hora de almoço, indicaram-nos um supermercado para irmos comprar o nosso almoço para podermos levar para o parque. Assim sendo, um dos Doutores que eu achava mais simpáticos, guiou-nos a mim, à Cris e a mais alguns caloiros até ao mesmo. Depois de comprarmos qualquer coisa para comer, voltamos a reunir todas as pessoas à porta da faculdade e, novamente em grupos, fomos levados até à paragem de autocarro mais próxima. Meia hora depois – e depois de eu quase morrer dentro do autocarro, já que sofro de claustrofobia -, chegamos ao nosso destino e lá estava ele: o rapaz mais bonito que eu alguma vês vira. Eu tentei, juro que tentei mas não conseguia tirar os olhos dele. Sempre que podia, o meu olhar ficava preso na sua figura e se calhar eu já o estava a começar a assustar, dado que ele também me fitava.

Almoçamos todos sentadinhos no chão, em filinha, e o que se seguiu foi o pior dia de praxe daquela semana. Senti-me ridícula quando uma Doutora me mandou levantar e cantar e dançar a música mais parola da história. Meia contrariada e sem paciência, lá o fiz. De seguida, agruparam-nos em grupos de cinco e tínhamos de fazer alguns jogos, num dos quais acabei encharcada e outro em que tivemos de inventar e coreografar uma música para os nossos “excelentíssimos” Doutores. Com isso pude eu bem, o que se seguiu é que me deixou extremamente irritada. Estar mais de meia hora de quatro é tudo menos saudável para o meu joelho lesionado e, como eu não sou de me queixar, lá me deixei estar até ao fim. No entanto, quando me levantei, parecia que os meus ossos tinham sido esmagados por um ferro ou qualquer coisa assim e, quando foi para começar a dançar e a cantar as músicas de praxe, não consegui evitar mancar. Apercebendo-se que eu não estava bem, um Doutor veio ter comigo e, depois de eu lhe explicar o meu problema, mandou-me sentar e estar quietinha. Obedientemente, sentei-me no muro mais próximo, ligeiramente amuada. Detestava sentir-me diferente dos outros e queria estar ali a pular como uma pipoca e a cantar feita doida com os meus colegas caloiros.

No fim da tarde, deram-nos ordem para ir embora e para estarmos às oito da noite na escola, pois ia haver um churrasco para todos. Eu, desesperada por um banho, agarrei a Cris e quase a arrastei dali para fora. Fiquei a meio do caminho pois fui interrompida por um Doutor que se cruzou comigo.

– Olha a caloira dos olhos bonitos! – disse com um sorriso.

Ergui um sobrolho, meia chateada.

– Bonitos? – ecoei – São castanhos…

– Mas têm expressão – justificou, piscando-me o olho e seguindo o seu caminho.

Ao meu lado, a minha melhor amiga ria-se.

– Subtil – comentou, gozando com a minha cara.

Dei-lhe uma cotovelada e ia dizer-lhe que se calasse e para se despachar mas algo me deteu.

– O que foi? – perguntou ela.

– Nada – respondi, desviando os olhos do meu alvo – Vai andando que eu já vou ter contigo.

Ela olhou-me desconfiada.

– Uma Doutora ficou com o meu telemóvel e tenho de o ir buscar – menti – Já te apanho na paragem do autocarro.

Ela murmurou um “está bem” nada convencida mas fez o que eu queria e foi andando. Quando ela e os outros caloiros já iam longe, olhei para o grupo de Doutores que ficou para trás na conversa e o pensamento “eu sabia!” surgiu na minha mente. Escondi-me atrás da árvore mais próxima para deles não me verem e comecei a espia-los feita anormal. O “caloiro” mauzão, o que tinha sido expulso da aula, estava sentado a conversar com os Doutores. Semicerrei os olhos, cada vez mais convencida de que se tratava de um caloiro infiltrado. Abanei negativamente a cabeça e virei as costas para ir ter com os meus colegas.

Uns minutos depois encontrei-os na paragem de autocarro e, quase uma hora depois, consegui chegar a casa. Depois de tomar um banho super rápido e de vestir a minha saia castanha, com o meu tope preto e as minhas botas castanhas, saí de casa com a Adriana em direcção à faculdade. Quando lá cheguei, deixei a minha colega de casa e fui ver quem andava por ali. A Cris estava atrasada e, assim sendo, basicamente não conhecia ninguém e não me ia estar a colar aos outros. Foi então que o voltei a ver e, como de costume, foi como se o mundo à volta deixasse de existir. Mas o que é que se passava comigo? Eu nem sequer o conhecia, nunca tinha falado com ele, nem sabia o nome dele… Só sabia o que lia nos seus olhos e no seu sorriso… eram os mais belos, doces e meigos que eu alguma vez vira. Abanei negativamente a cabeça, tentando por a cabeça no sítio. Com os olhos postos no chão, dirigi-me à banca das bebidas e pedi uma cerveja. Uns minutos depois outra e depois outra. Felizmente, a Cris acabou por chegar e eu quase corri na sua direcção.

– Tenho de saber o nome dele! – sussurrei meia histérica ao seu ouvido.

Ela afastou-me e ergueu um sobrolho:

– De quem?!

Discretamente, apontei-lhe a pessoa em questão e, depois de o olhar de alto a cima, ela exibiu um sorriso perverso.

– Ele é mesmo… lindo – descreveu. Realmente, não havia outro adjectivo que o descrevesse tão bem.

– Eu sei! Não consigo deixar de olhar para ele e assim… Até me sinto mal. Como se fosse uma perseguidora ou assim.

– Eu não tenho qualquer problema com esse título – murmurou com um sorriso maldoso.

Como as melhores amigas decidem ser “loucas” umas pelas outras, a Cris desapareceu e, nem cinto minutos depois, apareceu novamente ao pé de mim e deu-me uma cerveja.

– Chama-se Filipe, está no segundo ano de Design, é Capricórnio e a sua cor favorita é verde – contou-me rapidamente, fazendo-me piscar os olhos umas tantas vezes.

Agarrando a cerveja, soltei uma gargalhada.

– Wow, tu és boa. Assustadora… Mas boa. – brinquei, apesar de ser verdade.

Ela encolheu os ombros, com um sorriso convencido nos lábios.

– Tenho os meus talentos.

Ri-me e, antes de poder sequer fazer mais perguntas, fomos informadas que agora devíamos ir para um bar na baixa. Acabei a minha cerveja rapidamente e seguimos a multidão.

Era um bar engraçado e acolhedor na cave de um edifício antigo. Quando lá chegamos e depois de despirmos os casacos, eu pedi outra cerveja enquanto que a Cris foi directamente para o absinto.

– Não abuses se não vou ter de te levar a casa e vou ser eu que vou ter de ouvir da tua tia – alertei. Ela vivia com a tia – daí não viver comigo – e a senhora não era das mais agradáveis.

– Hey, não te preocupes… Sou pequena mas sou forte! – exclamou, cheia de confiança em si mesma.

– Como queiras – suspirei e dirigi-me com a minha cerveja para o sofá mais próximo enquanto que a minha melhor amiga foi para a pista de dança.

Pois, dançar não era nada comigo e, quando dançava, não era bonito de se ver. Apenas fiquei ali, a observar a minha amiga e os meus potenciais amigos. Estava também um pouco amuada pois não havia sinal do Filipe. Foi então que reparei na Ana a falar com o rapaz misterioso e supostamente “assustador”. Claro que ele estava com os óculos de sol. Não pude deixar de revirar os olhos aquela cena pois há vinte e quarto horas atrás, a Ana estava cheia de medo dele como se ele fosse um demónio e agora ali estava ela: toda amigável e sorridente. A hipocrisia das pessoas era algo que eu não conseguia suportar.

Sobressaltei-me quando a Cris apareceu subitamente ao meu lado, implorando-me para ir dançar com ela.

– Já sabes que odeio dançar – relembrei, desviando o olhar dos outros dois.

– Na outra vida! Não és tu que estás a dizer que esta vida é uma vida nova? Talvez nesta gostes de dançar!

Ergui as duas sobrancelhas e fitei-a imbecilmente.

– Boa tentativa.

– Pelo menos podes experimentar! – insistiu – Por favor! Por mim?

Ela olhava-me como se fosse um cãozinho abandonado e isso fez-me rir.

– Está bem – cedi – Uma música!

– Ou duas – cantarolou, arrastando-me para a pista de dança.

Claro que nem uma nem duas foram. Cada vez que eu me tentava i embora, ela agarrava-me e suplicava mais um bocado. E, obviamente, que eu não lhe conseguia dizer que não. Após pelo menos cinco músicas, consegui fugir-lhe com a desculpa que tinha de ir à casa de banho. Depois de esperar uns minutos na fila, entrei no cubículo das mulheres e simplesmente me encostei contra a porta pensando numa maneira de escapar aquela forma de tortura que era a dança. É que nem o tipo de música ajudava. Talvez um rock me ajudasse pois, pelo menos, eu gostava da música. Saí da casa de banho decidida a ir para casa pois na manhã seguinte tínhamos de estar às 10 na escola para mais um dia divertido de praxe. Assustei-me quando fui contra alguém e, olhando para cima, deparei-me com o rapaz dos óculos de sol.

-Desculpa – murmurei com um pequeno sorriso.

Ele limitou-se a acenar com a cabeça e seguiu o seu caminho.

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O dia seguinte foi bastante divertido. Andamos de barco pelo rio, fizemos mais umas palhaçadas e comemos gelado. Correu tudo muito bem até o “caloiro dos óculos” – como eu lhe chamava – ter armado confusão com um dos Doutores e ter sido expulso de praxe. Pelo que nos chegou aos ouvidos, até socos foram trocados e os Doutores iam chamar a policia pois tinham-no no visto com drogas. Também nos alertaram para não nos aproximarmos dele. Para mim, aquilo tudo ainda me soava a uma grande fantochada mas o resto dos alunos parecia assustadíssimo. Até a Cris. Decidi não me debater muito no assunto e comecei a acreditar que, desta vez, podia estar errada.

Não se falava noutra coisa enquanto nos dirigíamos para o sítio onde ia ser o nosso jantar de praxe. Era um pequeno restaurante/bar num barco  e, supostamente, ia ser o evento mais importante da semana.

Depois de entrarmos todos e de nos sentarmos quietos, mandaram-nos encostar a cabeça no prato durante não sei quanto tempo – que me pareceu uma eternidade. Quando a minha testa já doía, ordenaram-nos que levantássemos as cabeças e olhássemos para o nosso lado direito. Quando o fizemos vimos meia dúzia de caras familiares trajadas. Estupidamente, cresceu-me um sorriso no rosto.

– Caloirada, apresento-vos os caloiros infiltrados deste ano – informou um dos veteranos, fazendo-me sentir realizada.

Entre eles estavam os dois rapazes que eu sabia que eram caloiros infiltrados: o “caloiro dos óculos” e o cabeludo, o Zé.

Lancei um olhar de “eu bem disse” à Ana e à Cristina, enquanto que o veterano os apresentava um por um. Quando chegou ao “mafioso” resolvi prestar atenção: chamava-se João, era o seu terceiro ano na faculdade e estudava, realmente, teatro. Bem, jeito tinha ele. Observei-o por um instante pois era-me super estranho vê-lo sem os óculos escuros. Ele mantinha um ar de durão mas o seu sorriso – um pouco vaidoso – estava nos seus lábios e quase que parecia outra pessoa.

Apresentações feitas, eles foram-se sentar e começamos todos a jantar. Como ainda era praxe, demoramos mais tempo a comer do que o normal e, uma hora e meia depois, saímos para finalizar a praxe ao ar livre. Foi na fila para a saída que me apercebi que a Ana estava com cara de quem esteve a chorar. Preocupada, aproximei-me dela:

– Ana, estás bem?

Algum Doutor gritou “calou” e, obedientemente, fiquei caladinha, mantendo-me sempre ao lado dela. Lá fora, quando estávamos todos quietos a olhar para o chão, alguém se aproximou da Ana– que estava ao meu lado.

– Estás bem? – perguntou uma voz que não me era estranha.

O meu lado curioso fez com que eu ergue-se ligeiramente a cabeça para ver de quem se tratava e era o tal – agora – “Doutor dos óculos”, o João. Baixei rapidamente o olhar e, mesmo para eu não poder ouvir nada do que eles diziam, começou tudo a cantar. Consegui apanhar coisas como “eu entendo a tua posição” mas acabei por desistir e juntar-me aos cantos e às danças.       

Uns minutos depois, deram a praxe por encerrada e a noite ia continuar lá dentro, no mesmo restaurante – que também era um bar. Assim sendo, agarrei a Ana por um braço e arrastei-a até à casa de banho.

– O que se passa? – perguntei enquanto despia o meu kit de caloira.

Pelos vistos ela estava assim por o João e o outro serem caloiros infiltrados. Ela tinha gostado muito do outro, o Zé, e acreditou mesmo neles e no episódio da droga, o que fez com que se sentisse ligeiramente traída. Eu fazia um esforço para manter o meu sobrolho no sítio porque, sinceramente, para mim a sua reacção não fazia sentido nenhum. Depois dela sossegar, voltei para o meio da multidão para procurar a Cris, o meu príncipe encantado, para beber e me divertir. Foram ambas fáceis: eu e a Cris atacamos as bebidas, eu continuava de olhos postos nele – que estava na outra ponta do bar – e estava-me a divertir. 

Acabei por escolher o meu padrinho: era um fofo e também era do meu curso, vegetariano como eu, logo era perfeito.

Assustei-me quando senti uma mão no meu braço, o que fez com que eu me virasse rapidamente para quem quer que tenha sido a pessoa que me tocou. Deparei-me com o caloiro infiltrado/Doutor dos óculos/João, que me sorria como quem pede desculpa. Sorri-lhe também em resposta, quase sem me aperceber.

– Olá – cumprimentou, aproximando-se de mim que o pudesse ouvir – És tu a Clara?

O meu sorriso cessou um bocadinho.

O que é que eu fiz?”

– Sim… – respondi meio a medo.

Ele exibiu um largo sorriso:

– Já soube que foste a única caloira que me defendeu.

Fiquei surpresa com a sua afirmação, sentindo-me corar um bocadinho e a minha boca ficou aberta por uns segundos, enquanto que eu procurava uma resposta.

– Não foste? – insistiu ele.

– Como sabes disso? – perguntei por fim.

Calculei que tivesse sido o Doutor presente nessa noite a dizer-lho e tenho que admitir que nunca me tinha passado pela cabeça que tinha sido a Ana, como ele me veio a dizer.

– Eu agradeço. – acrescentou simpático – Apesar de aquele não ser mesmo eu, é bom saber que ainda existem pessoas que não julgam pelas aparências ou sem as conhecerem.

Sorri meia encavacada, sem saber o que dizer.

– Vais estudar o quê? – questionou. Pelo menos ele facilitava a conversa.

– Teatro.

Os seus olhos iluminaram-se de compreensão.

– Tinha de ser: para não teres preconceitos. – observou satisfeito.

Tal afirmação fez-me sorrir genuinamente. Gostei dele de imediato.

Ficamos ali durante uns minutos a falar sobre teatro e como nós amávamos o que fazíamos. Era fácil conversar com ele, saía tudo naturalmente – até o meu sorriso.

– Já tens padrinho? – inquiriu de repente, parecendo-me mais uma oferta que uma pergunta.

Ia responder que sim mas o meu padrinho de praxe, como se nos ouvisse, apareceu e abarcou-nos aos dois.

– Padrinho! Afilhadinha! – cumprimentou-nos, abraçando-nos aos dois.

Olhei para o João surpresa e ele retribuiu-me o mesmo olhar. Ele era padrinho do meu padrinho? Isso fazia com que me fosse o quê?

– Ia-te apresentar a minha primeira afilhada mas já vi que já se conheceram – tagarelou o meu padrinho – É linda, não é?

Pronto, devo ter corado outra vez e ainda mais quando o João anuiu. Não sou, por norma, uma pessoa tímida, excepto quando me elogiam.

– Sendo assim, ele é teu avô – informou o meu padrinho.

Avô, hã? Era engraçado.

Sorri-lhes satisfeita. Pareciam ambos pessoas excelentes e eu gostava do que via. Entretanto, quando o meu padrinho desapareceu, o João agarrou-me pela mão – o que me deixou ligeiramente desconfortável – e levou-me até ao balcão para me pagar qualquer coisa. Acabamos por beber dois ou três shots com o Dux (o “chefe” da praxe) e, depois disso, fui procurar a Cris e limitamo-nos a dançar. Não valia a pena dizer-lhe que não.

Estávamos nós a dançar super divertidas, quando um Doutor que parecia podre de bêbado, veio na nossa direcção.

– Olá – cumprimentou aproximando-se demasiado de mim – Como te chamas?

O cheiro a álcool era inegável.

– Clara – respondi simplesmente, decidida a não lhe dar conversa.

Ela também disse o seu nome – que não me ficou na cabeça – e, infelizmente, não parecia com vontade de ir embora, dado que ficou ali horas a tagarelar e a dizer a toda a gente que passava que eu era a Clara. Honestamente, já me estava a irritar. As coisas melhoraram quando vi o meu “príncipe encantado” a aproximar-se de nós e o meu pensamento foi “já que está a dizer a meio mundo que eu sou a Clara, que lhe diga a ele”. Felizmente, as minhas preces foram ouvidas e foi assim que aconteceu:

– Esta é a Clara – gritou-lhe, quando ele se aproximou dele pois pelos vistos eram conhecidos.

Ele riu-se – e que riso… – e virou-se para mim com um largo sorriso:

– Olá, Clara. Sou o Filipe.

A sua voz a pronunciar o seu nome parecia mel aos meus ouvidos.

Trocamos uns dedinhos de conversa e, o que meu mais queria, aconteceu: ele convidou-me para dançar. Claro que, estupidamente, recusei dando a desculpa do meu joelho lesionado pois ver-me a dançar não era algo bonito.

– Oh, nem um bocadinho? – insistiu.

– Não posso – lamentei-me, sentindo-me miserável e idiota.

Ele afagou-me o braço:

– Fica para a próxima.

Com isto, virou costas e foi para a pista de dança. Podia jurar que fiz beicinho.

Pelo menos não fiquei ali especada por muito tempo pois a Cris arranjou-nos boleia num carro de alguém mais velho para o centro da cidade. Ela entrou para o lugar de pendura e quando eu abri a porta traseira, sorri automaticamente quando vi o meu avô de praxe, o João, dentro do carro.

– Olá outra vez – cumprimentei, sentando-me e estava prestes a fechar a porta quando o meu padrinho entra também dentro do carro.

– Aww, a minha família quase toda reunida – murmurou meio emocionado. O álcool tinha esses efeitos.

A viagem de dez minutos que se seguiu foi bastante divertida pois o meu padrinho de praxe – cujo nome era Emanuel – era hilariante. Confesso que também foi um bocado esquisita pois eu tinha a sensação que o João estava demasiado interessado em mim quando falava comigo. Há coisas que se sentem. Senti-me ainda mais desconfiada quando, após eles pararem o carro em frente à minha casa, ele fez questão de sair e me levar à porta. Quando nos despedimos entrei em casa, pensando que talvez estivesse enganada e ele fosse apenas uma pessoa amigável. Não só para mim mas para toda a gente. Afinal, porque haveria de ser algo mais? Eu era apenas… Eu. eu.

No dia seguinte – o ultimo dia da semana –, já não havia mais praxes ou brincadeiras. Ao meio dia tínhamos uma apresentação ao curso com o nosso coordenador e eu estava entusiasmada pois era suposto ele ser um mestre do Teatro. Eu e a Ana acordamos por volta das onze – pois ela também tinha a apresentação do seu curso – e decidimos tomar o pequeno-almoço no café em frente à escola. A Cris estava lá à nossa espera juntamente com o João, o meu avô de praxe, e outro Doutor com o qual não tinha falado. Estranhamente, não me senti embaraçada quando o cumprimentei pois estranhamente sentia-me tão bem ao pé dele, como se já o conhecesse desde sempre e claro que as minhas suspeitas desapareceram durante a noite. Ele apresentou-nos ao seu amigo, o Marco, que estudava cinema. Ficamos ali à conversa durante meia hora até nos dirigirmos, finalmente, para as nossas apresentações. Como não estava muita gente na sala – éramos cerca de dez – não durou mais que outra meia hora. Limitámo-nos a apresentar-nos e o nosso professor, e coordenador de curso, explicou-nos muito vagamente em que ia consistir a nossa avaliação durante o semestre. Após sair da sala com a minha melhor amiga, cada uma se dirigiu para sua casa pois era fim-de-semana e tempo de voltarmos para a nossa verdadeira casa e passar tempo com a nossa família. A minha mãe esperava-me na estação dos comboios com um sorriso de orelha a orelha e a querer saber tudo o que me aconteceu nesta primeira semana. Apesar de estar feliz de a ver e de dormir na minha própria cama, era estranho estar em casa. Sentia-me vazia, como se me faltasse algo. Só não conseguia perceber o quê.

 

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