O Nerd Escritor
Feed RSS do ONE

Feed RSS do ONE

Assine o feed e acompanhe o ONE.

Nerds Escritores

Nerds Escritores

Confira quem publica no ONE.

Quer publicar?

Quer publicar?

Você escreve e não sabe o que fazer? Publique aqui!

Fale com ONE

Fale com ONE

Quer falar algo? Dar dicas e tirar dúvidas, aqui é o lugar.

To Do - ONE

To Do - ONE

Espaço aberto para sugestão de melhorias no ONE.

Blog do Guns

Blog do Guns

Meus textos não totalmente literários, pra vocês. :)

Prompt de Escritor

Prompt de Escritor

Textos e idéias para sua criatividade.

Críticas e Resenhas

Críticas e Resenhas

Opinião sobre alguns livros.

Sem Assunto

Sem Assunto

Não sabemos muito bem o que fazer com estes artigos.

Fórum

Fórum

Ta bom, isso não é bem um fórum. :P

Projeto Conto em Conjunto

Projeto Conto em Conjunto

Contos em Conjunto em desenvolvimento!

Fan Page - O Nerd Escritor

Página do ONE no Facebook.

Confere e manda um Like!

@onerdescritor

@onerdescritor

Siga o Twitter do ONE!

Agenda

Agenda

Confira os contos e poemas à serem publicados.

Login

Login

Acesse a área de publicação através deste link.

Publicado por Lucas Valadares

– que publicou 15 textos no ONE.

Sou estudante de engenharia, leitor voraz, e aspirante a escritor.Vejo minha escrita como a tentativa de materializar as idéias e histórias que contam-se em minha cabeça. Tenho muitas idéias sobre coisas para escrever, e aos poucos passo as coisas para o papel. Não se algum dia chegarei a escrever um livro inteiro, mas a leitura e a escrita me fascinam.

>> Confira outros textos de Lucas Valadares

>> Contate o autor

* Se você é o autor deste texto, mas não é você quem aparece aqui...
>> Fale com ONE <<

Mar
04
2014

X-Bacon – Projeto Conto em Conjunto, Capítulo Um

xbacon

“Filho, onde você tá?” Perguntou Olavo aos berros.

Bernardo, como sempre, estava na frente do computador. Teclando com uns amigos no facebook enquanto olhava para a as fotos no perfil de Ana, a garota mais gostosa das turmas de Direito. Ele não cursava direito, não via nenhum sentido em ficar debatendo sobre as vírgulas e entrelinhas de um código de leis extenso e chato. De fato não servia para o direito, sua mente sempre fora voltada para a matemática e para as ciências – embora odiasse que chamassem-no de ‘nerd’ – e por isso cursava engenharia. Conheceu Ana por acaso – se é que pode-se chamar de acaso reprovar pela segunda vez em Cálculo II – quando não conseguiu encaixar quase nenhuma matéria da engenharia naquele semestre por não ter os pré requisitos das mesmas, e resolveu fazer Língua Portuguesa – uma matéria eletiva – com as turmas de Direito.

Ele se lembrava da primeira vez que botou os pés na sala de aula dessa nova turma, não se lembrava de ter vistos tantas garotas bonitas na mesma sala de aula desde que começara a faculdade, cinco semestres atrás. As classes de engenharia sempre foram dominadas por todos os tipos de espécie – ogros; selvagens; homens-das-cavernas; a prole infernal de George Lucas que teimava em vestir-se de Star Wars para ir as aulas; e os nerds-nem-tão-nerds, como Bernardo; – mas exemplares da espécie sexus femininus sempre foram raros no seu curso. Já naquela turma de direito havia garotas em abundância, parecia irreal. Algumas bonitas, outras pegáveis. Mas nenhuma como Ana, ela sim era linda. Morena com cabelos cor de chocolate e a pele caramelada. Um sorriso simpático e sincero, que parecia convidar as pessoas a puxar conversa. Mas o que mais chamava a atenção de Bernardo eram seus olhos, verdes e grandes como se fossem esmeraldas, que lhe davam um olhar de mulher que sabia o que tinha a oferecer. Bernardo estava lá, babando hipnotizado enquanto passava fotos na tela a sua frente quando a voz do pai irrompeu o ar novamente.

“Ô, Bernardo! Cade você caramba?”

“No meu quarto!”

Momentos depois a porta se abriu.

“Está com fome?” Bernardo assentiu. “Então levanta que você vai ir comigo comprar um xis.”

A ideia era boa, mas a preguiça de abandonar o computador protestou.

“Ah, traga um xis-frango pra mim. Estou ocupado, tentando trovar uma guria.” Mentira. Não estava tentando nada com Ana, não ainda. Queria esperar o momento oportuno, e não gostava de alugar as garotas pelo facebook.

“Nada disso. Você está sempre nessa porcaria de computador e quase nem vê sua família. Levanta essa bunda que você está indo comigo!”

“Por quê você não leva a Bruna? Ela adora ir passear e comer xis.”

“Sua irmã não está em casa, foi para sua tia e ficará uns dias por lá. Vamos, chega de ficar enrolando.”

Bernardo tentou protestar de novo, mas o pai voltou a falar antes dele em tom solene.

“Por favor, meu filho, têm algo importante que preciso conversar contigo.”

Aquilo desarmou Bernardo, que acabou concordando com seu pai sem reclamações posteriores. Rapidamente se arrumou, pegou sua carteira, seu smartphone e em menos de cinco minutos já estava com a ponta do indicador pressionada contra o botão luminoso do elevador. E quando este chegou, Bernardo já ia entrando sem olhar para frente e quase deu de cara com uma garota que estava saindo de lá.

“Opa!” Disse ele após ter esbarrado na moça. “Desculpa, não estava olhando.”

“Não foi nada.” Disse ela sorrindo, e Bernardo prestou melhor atenção nela. Era uma garota loira de uns dezessete anos e vestia uma mini-saia e uma blusinha que destacavam seu corpinho provocante. E então ela se foi e entrou no apartamento no final do corredor, mas não sem antes dar mais um sorriso doce voltado a Bernardo.

“Quem é essa garota?” Perguntou ao pai. “Nunca vi ela por aqui antes.”

“Sei lá, acho que é Carol o nome dela. Mudou-se para cá nessa mesma semana. Quem sabe amanhã você não banca o vizinho civilizado e dê boas vindas para a moça. Talvez ela até te convide para entrar e você não precise mais ver tanto site pornô.”

Bernardo retribuiu o olhar mais indignado que conseguiu fazer ao pai, que rachava-se a rir.

Depois de quarenta minutos do trânsito mal planejado das cidades brasileiras, Bernardo e Olavo chegaram a lanchonete do Zézinho – onde costumavam comer. A noite era como qualquer outra noite de abril: o outono estava chegando e era sempre bom levar um casaco pra fugir do vento gelado que cortante que surpreendia os desavisados. A primeira coisa que Bernardo notou depois de sair do carro foi o odor rançoso da gordura que dominava suas narinas sem permissão. Normalmente gostava do cheiro de bacon, mas quando vinha acompanhado do cheiro de outras gorduras e óleo queimado não era nada agradável.

Entraram na lanchonete, um desses típicos bares de esquina que tinham uma entrada para cada rua que se interceptavam ali. A lanchonete do Zezinho sempre fora famosa entre os moradores da cidade, e mesmo depois que grandes cadeias de junk-food se instalaram seus negócios não se afetaram, pois sua clientela sempre lhe fora fiel. Os lanches eram um tanto gordurosos, diga-se de passagem, mas o sabor era irresistível para qualquer bom amante de colesterol que não se preocupava com algo tão trivial como ter suas veias entupidas.

Eram quase oito da noite e a lanchonete já estava cheia. Pessoas de todos os cantos da cidade, a maioria estudantes, mas também via-se famílias ou trabalhadores que estavam num intervalo de trabalho ou prestes a ir pra casa. O burburinho de conversas se misturava ao bater de talheres e risadas regadas a cerveja.

“Sabe, esse bar já era famoso na minha época de faculdade. Perdi a conta quantas vezes vim aqui depois das aulas comer um xis-bacon antes de sair para uma cervejada com os rapazes da Ciência da Computação. Bons tempos, esses da faculdade.” Disse Olavo.

“O pessoal da engenharia também costuma vir aqui antes de sair pra tomar um trago. Mas não sabia que o Zézinho estava aqui a tanto tempo.”

“Bom, na verdade ‘Zézinho’ naquela época era o pai do Zézinho de hoje. Na verdade seu nome nem Zé não é, mas depois que o velho morreu ninguém quis mudar o nome da lanchonete e o novo dono passou a ter o mesmo nome do antigo, pois as pessoas continuaram a chamá-lo de Zézinho”

“E deixa eu adivinhar: o Zézinho vai ter um filho e quando morrer o filho também se chamará Zézinho. O neto dele também e assim por diante, perpetuando o clã dos Zézinhos.”

Os dois riram.

“Você já foi pegar sua carteira de motorista?”

“Bem lembrado. Já fazem sete dias que eu passei na prova, e a mulher do cfc havia me dito que ia chegar de cinco a sete dias. Vou lá amanhã, e quem sabe na noite você me empresta o carro.”

“Vai sonhando.”

“Nem se fosse pra levar a nova vizinha dar uma volta, tomar uma cerveja, quem sabe?”

“Você deve ser muito burro mesmo se acha que vou te emprestar meu carro depois de falar na minha frente que vai sair pra beber.”

Bernardo amaldiçoou a péssima escolha de palavras.

“Mas quem sabe, se até lá você tiver tirado essas ideias imbecis da cabeça, e se realmente conseguir algo com a vizinha. Dai talvez eu possa pensar no teu caso.”

“Melhor que nada. O garçom está demorando né?” Já faziam dez minutos que Bernardo e o pai estavam conversando e ninguém havia se prestado a atendê-los.

“Não mais. Olhe quem está vindo.”

Zézinho era um mulato de quarenta e poucos anos que sempre trabalhara naquele lugar. Levava a vida na boa e eram raras as ocasiões onde era visto sem um sorriso no rosto.

“Olavo, meu velho, quanto tempo. Achei que já estivesse gordo demais para vir comer aqui!”

“Você sabe que eu não troco a banha daqui por nenhuma outra!”

Risos.

“Bom, o que vocês vão querer? Estamos um pouco cheios, por isso a demora para serem atendidos, mas é só pedirem o que querem que eu darei um jeito de apressar lá na cozinha.”

“Eu vou querer um xis-bacon, e você Bernardo?”

“Xis-frango para mim. E um guaraná pra tomar, por favor.”

“Falou chefia, quinze minutinhos e já vão poder acalmar o estômago no capricho.” E então Zézinho saiu, jovial como sempre ao som do samba que tocava no rádio da lanchonete.

Ficaram em silêncio por alguns minutos, até Bernardo lembrar-se de algo que o pai havia mencionado.

“Pai, você disse ter algo para falar comigo.”

O riso que havia nos lábios do pai murchou, como se não quisesse ter de entrar no assunto naquele exato momento.

“Bom, tenho sim.” Olavo suspirou, ficou um tempo calado e pensativo. “Eu queria saber… Na verdade eu e sua mãe queríamos saber se você não estava afim de passar uns dias na casa de algum amigo, o Rafa talvez, ou o John. Se eles não quiserem, ou não puderem, talvez com seus primos. Vocês se dão bem então…”

“Pai, do que você tá falando? Por que eu ia querer ficar fora de casa por uns dias?”

“Bem, é que… Eu e sua mãe… Tem coisas acontecendo entre nós, filho. Precisamos de um tempo para ficar a sós, conversar através de algumas coisas. Sua irmã já está na casa de sua tia. E talvez você também devesse ir para um novo ambiente por uns tempos.”

Alguma coisa estava errada, Bernardo percebeu na hora. Olavo sempre fora um péssimo mentiroso e agora mesmo suas bochechas estavam vermelhas e ele olhava para os lados sem jeito. E que motivo teriam seus pais para quererem ficar sozinhos? Bernardo não sabia de nenhum problema entre os dois, e achava ridículo pensar que talvez seus pais estivessem se divorciando, o casamento deles parecia estar tão bem.

“O que está acontecendo, pai? Me diga a verdade.” Exigiu Bernardo, já tinha dezoito anos e não iria ser tratado como uma criança.

“Uns problemas meu filho, mas nada grave, posso te assegurar. Tudo de que precisamos é de um tempo para…” O telefone de Olavo tocou. “Agora não, caramba.” Reclamou baixo, mas quando pegou o olhou para o identificador de chamadas seu semblante pareceu perder a cor. “Preciso atender, filho, é da empresa.” Foi tudo o que disse antes de sair para a rua onde havia menos barulho para falar ao telefone.

O pai de Bernardo trabalhava numa grande empresa de software como programador, e era comum ser requisitado no meio da noite devido a algum erro de um funcionário novo ou estagiário inexperiente, ou as vezes por um simples cliente burro que não sabia nem ler as instruções de um programa na sua frente.

Bernardo olhava cada vez mais intrigado para o pai, que estava visivelmente alterado enquanto falava ao telefone. Gesticulava freneticamente, as vezes quase acertando algum pedestre desavisado. O filho tentou prestar a atenção nas palavras do pai, mas tudo que sua leitura labial conseguiu decifrar foi Olavo falando “não” repetidamente e “é muito cedo”. Então o pai se virou e Bernardo não pôde entender mais nada.

“O quê foi?” Perguntou Bernardo, quando o pai voltou.

“Tivemos um problema na empresa. Parece que algum imbecil acabou apagando o banco de dados de um cliente muito importante para nós, e eu vou ter de ir lá conversar com eles. Só acalmar a situação e ver o que pode ser feito. Não deve demorar mais de trinta minutos, logo estou de volta. Você se importa de comer aqui e pedir para embrulharem o meu para a viagem?”

“Mas e a nossa conversa?” Começou a protestar.

“Vai ficar para outra hora. Ah, e peça para o Zézinho um Xis-Especial com abacaxi para levar, sua mãe também vai querer alguma coisa. Desculpe, filho, mas eu realmente preciso ir. No máximo em quarenta minutos estou de volta.”

E partiu, deixando Bernardo a pensar em quem comeria um xis com abacaxi. Quando olhou para a cadeira desocupada do pai, viu que ele havia esquecido o casaco ali.

“Pai, o casaco!” Ele tentou chamar, mas Olavo não ouviu e se foi.

“Onde foi seu pai?” Perguntou Zézinho, uns minutos depois, quando veio servir o guaraná de Bernardo.

“Foi resolver algum pepino na empresa, sabe como é. Ele pediu para embalar o lanche dele para viagem, e também um Xis-Especial com abacaxi.”

“Ele quer o quê?” Zézinho parecia ter perdido seu semblante jovial.

“Um xis-especial com abacaxi. Disse que é para a mãe. O estranho foi que eu não vi esse xis no cardápio.”

“Era um especial das épocas que seu pai estava na faculdade. Rapidinho lhe entrego.” E sumiu, sem falar mais nada com Bernardo.

“Aqui está, tenha um bom apetite.” Disse a garçonete simpática que lhe entregou os lanches. Bernardo agradeceu, mas quando reparou viu que o seu também estava embrulhado para viagem. Estava prestes a chamar a moça novamente, antes que estivesse muito longe, para que ela trouxesse-lhe um prato quando seu smartphone tocou. Número restrito, que estranho. Pensou Bernardo.

“Quem diabos pode ser?” Bernardo resolveu não atender, estava com fome e o aroma do lanche dava água na boca. Se quisessem falar com ele, que ligassem de um número identificado.

O telefone parou de tocar, e Bernardo passou a prestar a atenção no seu lanche com uma voracidade singular.

O celular vibrou. Uma mensagem. Bernardo deslizou o dedo na tela sensível ao toque e o texto apareceu.

< Se quiser continuar vivo atenda o telefone, sua anta! >

Bernardo pulou da cadeira, alarmado. Olhou para os lados, procurando alguma indicação de perigo, mas não viu nada. Alguém estava querendo tirar uma com sua cara, só faltava essa agora. O celular voltou a tocar – número restrito novamente. Vou falar umas verdades para esse palhaço. Pensou, com raiva, enquanto tentava acalmar o coração aos pulos.

“Quem você pensa que é pra tentar me assustar desse jeito seu filho da…”

“Presta atenção!” Disse a voz do outro lado da linha, e para a surpresa de Bernardo era voz de garota, levemente familiar. “Para de mimimi e me escuta. Há dinheiro no casaco a sua frente e um molho de chaves. Ambos são para você, pegue-os agora.”

“Quem está falando?”

“Alguém que está tentando salvar sua vida. Agora que tal você colaborar um pouco. O casaco a sua frente, dinheiro e chaves, vamos.”

Bernardo obedeceu, consternado. No bolso direito do casaco do pai havia um pequeno rolo de notas de cinquenta, que ele passou para o próprio casaco disfarçadamente. No esquerdo havia uma chave da Chevrolet com o controle do alarme. Que estranho, o pai tem um Corolla. O que uma chave da Chevrolet está fazendo…

Pegou já?” A garota interrompeu suas divagações.

“Sim, mas como sabia que estavam lá? Quem é vo..”

“Isso não importa agora. Se quiser sobreviver me escute. Pegue uma das notas no seu bolso, deixe-a na mesa e saia. Não se esqueça de trazer os lanches. Mas faça-o agora, eles estão vindo.”

“Quem está vindo?” A garota só podia estar louca. “Do que você está falando? Eu não vou a lugar algum enquanto meu pai não voltar. Ele vai estar aqui a qualquer momento e…”

“Seu pai não pode fazer mais nada por você, Bernardo, ele não voltará. Mas se me ouvir posso te ajudar a permanecer vivo e quem sabe você possa fazer alguma coisa por ele. Eles já estão chegando, mexa-se!”

“Quem está chegando? Por que alguém ia querer algo comigo?” Eu não fiz nada.

A porta se abriu. Foi como se o próprio tempo tivesse parado, toda conversa do bar cessado. Dois sujeitos vestidos de preto acabavam de entrar na lanchonete. Para Bernardo eles pareciam águias, examinando todo o recinto na busca por sua presa.

“Eles estão aí!” Veio o grito pelo telefone. “Corra Bernardo, corra.”

Bernardo pensou ser brincadeira, mas quando se deu conta os sujeitos mal encarados estavam olhando para ele. Única e exclusivamente para ele. Aquilo não era uma coincidência. Bernardo pegou a sacola dos lanches e correu em direção a porta que dava para outra rua. Bem a tempo de ouvir o copo de guaraná explodir no exato lugar onde estivera no momento anterior. O barulho do tiro alarmou todo mundo que estava na lanchonete, gerando um caos de gritos e pessoas tentando escapar – o que facilitou a fuga de Bernardo, que aproveitou a confusão para deixar a lanchonete do Zézinho.

Assim que pôs os pés fora do bar, Bernardo pensou em correr, mas viu outro sujeito vindo de encontro a ele da mesma direção que pretendia fugir. O homem também vinha por ele. Um terror cresceu no âmago de Bernardo, aqueles homens iriam matá-lo. O único som que conseguia ouvir era o seu próprio coração, que pulava desgovernado como um touro no rodeio. Mas então algo diferente brotou em sua mente. Uma vontade primitiva e egoísta de viver, que faria qualquer coisa para conseguir seu propósito. O homem estava perto e estava puxando algo da cintura.

Bernardo agiu rápido, em puro extinto, e em segundos pegou a primeira coisa que viu na frente  – uma garrafa de cerveja vazia – e atirou contra o homem. Talvez tenha sido pura sorte, talvez tenha sido o destino. Mas o fato é que a garrafa acertou em cheio no alvo, espatifando-se em meio a face do perseguidor enquanto do seu nariz agora vertia sangue. O homem atordoou-se e Bernardo fugiu. Passou correndo pelo assassino, que estava ao chão tentando se orientar e alcançar a arma em sua cintura. Segundos depois Bernardo já dobrava a esquina, enquanto o baque surdo de um tiro errava sua cabeça e explodia num poste de concreto meio metro para a esquerda, espalhando cacos e poeira pelo ar.

Enquanto corria, Bernardo lembrou-se do celular, que voltou a por no ouvido.

“… está ai? Responda!”

“Estou aqui.” Respondeu ofegante. “Estou bem. Quem eram aqueles caras? Eles estavam tentando me matar.”

“Eu avisei, seu imbecil. Se tivesse apenas ouvido antes. Onde você está?”

“Correndo.”

“Vire para esquerda, corra duzentos metros, e quando chegar a esquina dobre a direita. Entendeu? Diga que entendeu e só volte a falar comigo quando estiver lá.”

Bernardo obedeceu, correndo tão rápido que pensou estar quebrando algum tipo de recorde mundial em corrida, até chegar no lugar designado.

“Estou aqui.” Ele disse enquanto encostava-se numa parede de tijolos a vista para recuperar o fôlego. “O que eu faço?”

“Está vendo um tonel de lixo na metade do quarteirão?” Bernardo respondeu que sim. “Vá até lá, há alguma caixas de papelão do lado dele. Entre na maior delas e fique lá até eu dizer que está seguro sair. Entendeu?”

“Sim.”

“Ótimo, não podemos perder tempo com conversa inútil agora. Vá!”

Bernardo entrou na caixa, uma caixa de máquina de lavar, que estava do lado do lixo. Era um pouco apertado, mas escondia-o bem. O único problema era o aroma do lanche que o distraía. As mãos de Bernardo começaram a tremer involuntariamente e ele não estava conseguindo se manter mais focado em nada. Qualquer passo ouvido na rua poderia estar vindo de seus perseguidores, qualquer carro que passava cantando pneus parecia vir por ele. O perigo estava em toda a sua volta e não havia para onde escapar. Ele queria gritar de frustração, mas o medo impedia-o disso também.

“Você está ai?” Disse a voz feminina, o que pareceu ser uma eternidade depois.

Bernardo confirmou.

“Está tudo limpo, pode sair agora.”

Ele abriu a tampa da caixa, olhou para os lados, e não viu ninguém.

“E agora?”

“No quarteirão da próxima rua há um estacionamento, e lá está um carro que é ligado pela chave em seu bolso. Vá até lá.”

Bernardo foi o mais rápido que pôde até o estacionamento, mas uma dúvida formou-se em sua cabeça quando lá chegou.

“Como vou achar o carro?” Perguntou para o telefone.

“Já pensou em tentar ver qual responde ao alarme?”

“Ah, claro.”

Bernardo pegou a chave do bolso sentindo-se um idiota e começou a apertar o botão de abrir no controle enquanto apontava sua mão em todas as direções. Conforme foi andando um carro azul marinho finalmente respondeu. Não pode ser. Ele pensou, quando viu na sua frente um Opala 4.4 que respondia a chave em sua mão. O carro tinha um azul escuro metálico que tirava-lhe o folego, e ainda continha as listras pretas que atravessavam capô e teto.

“Uau!”

“Sim, muito impressionante. Agora que tal entrar no carro!”

Bernardo obedeceu. A porta abriu e ele sentou-se no carro, que apesar de ter saído de produção décadas atrás, ainda tinha um ar de carro novo.

“Se você já está dentro do carro, tenho três conselhos para te dar se quiser minha ajuda para ver o amanhã. Está prestando a atenção?”

“Sim, pode falar.”

“Primeiro de tudo, abra o porta luva, encontrará lá duas coisas: um celular, e um envelope. Abra o envelope primeiro.”

Bernardo abriu o envelope e espantou-se: lá estava sua habilitação, com a foto horrível que havia tirado de ressaca no dia em que começou a auto-escola.

“Como é que você..?”

“Não importa agora, não há tempo. Segundo: veja se o celular está com bateria. Se estiver, haverá uma mensagem com um endereço nele. Confirma se procede, mas não repita o endereço em voz alta.”

O endereço estava lá, e para a surpresa de Bernardo era o endereço de seu próprio prédio.

“Sei onde é. Mais alguma coisa?”

A mulher falou uma última ordem antes de desligar e Bernardo jogar o próprio smartphone pela janela.

“Sim, agora o mais importante de tudo. Se quiser sobreviver até amanhã, é melhor que não derrube o meu xis-bacon.”


Categorias: Conto em Conjunto,Contos |

32 Comments»

  • Lucas Valadares says:

    Eu postei ao mesmo tempo na agenda e no projeto, não sei se era assim que deveria ficar, qualquer o Guns ajeita. Bom, está aqui o primeiro capítulo. A minha única dúvida é sobre quem vai seguir o conto? Devo indicar alguém ou esperar alguém se manifestar? Decidam-se ai e dai eu passo alguns esquemas sobre a trama para quem for continuar.

    • Eu acho que se tiver um bom número de voluntários vale a pena indicar/ sortear hehe. Se não tiver tantos, ai vai quem quiser…

      • Lucas Valadares says:

        Pois é, acho que vai ser por ai mesmo. Mas e questão de tempo. Até quando se decide quem vai continuar a história ? Estava pensando em deixar até depois do carnaval, até lar ver o que acontece.

  • Evandro Furtado says:

    Tem uma baita onda de mistérios que o próximo escritor pode aproveitar, muito bom!

    Mas uma dúvida: você colocou capítulo 1 aí em cima. A ideia é criar um novo post com capítulo 2 ou continuar nesse mesmo?

    • Lucas Valadares says:

      A idéia é justamente essa, deixar muitos mistérios para que o próximo autor leve a história para onde bem entender, embora eu ainda tenha algumas dicas a dar sobre a trama pra manter as coisas um tanto interessantes.

      Cara, eu coloquei capítulo um para indicar que era o primeiro mesmo, mas acho que os próximos virão em posts diferentes, talvez com capítulo 2 ou o que for. Senão acho que ficaria muito grande colocar tudo no mesmo post. O nome também não sei se continuaria ‘xis-bacon’. Pra mim esse me pareceu o nome certo para o primeiro capítulo, mas não sei dizer o resto.

      • Não deixa dicas não, a graça é ver no que vai dar!

        • Lucas Valadares says:

          Pode ser também, por mim é indiferente. Também quero ver no que vai dar.

      • Evandro Furtado says:

        Achei o nome legal. É meio hilário. Talvez eu só mudaria para simplesmente “X-BACON”, ou “Operação X-Bacon”, algo do tipo. Acho que ficaria bom.

        • Lucas Valadares says:

          Pois é, eu coloquei o nome justamente com a intenção de ser engraçado. Mas entre x-bacon e xis-bacon eu não opinar. Operação x-bacon é uma boa!

  • Achei irada a iniciativa e f0d@ o capítulo 1. Com certeza quero participar. No momento acho que não teria como, mas eventualmente gostaria de escrever um capítulo, sim, mais lá pra frente na história. Creio que vai render várias partes, né?

    • Lucas Valadares says:

      Que bom que gostou. A ideia é motivar a galera a escrever. E cada autor daria uma contribuição para a história e para a trama, mas enquanto ao tamanho: não tenho idéia. Só conheço a história até o final desse capítulo. Mas espero que dê bons capítulos ainda e que bastante gente participe.

  • Percebi uma coisa. Se selecionar Agenda e Conto em Conjunto, como categoria… ele multiplica os comentários por dois.

    Quem programou isso?! 😛

    • Humm.. se serão publicações diferentes para cada parte.. qual será a melhor forma de linkar um ao outro. E como deve ser feito a publicação?! Trato como “contos normais” cada parte?! Acho que poderia ser. Se essa estiver ok, já poderia sair da agenda. Mas… como saber dai que o conto ainda esta em desenvolvimento?! 😮

      • Lucas Valadares says:

        Também acho que devia ser tratado como conto normal. Não sei também como fazer pra linkar, talvez pelo espaço dos ‘contos em conjunto’?

        Acho que cada autor ia numerando um capitulo e quando parecer que vai acabar posta-se com título de ‘Final’ e começa-se outro. Não sei.

        Se quiser tirar da agenda pelo número de comentários como os outros eu acho uma boa.

        • Lucas Valadares says:

          Ah, e no meu ver não há mais nada a mudar. Só se a galera quiser que mude o nome ou algo do gênero (afinal é uma história em conjunto, digam suas opiniões).

          • Lucas, tive uma idéia para organizar isso! Veja o que tu acha.
            Se achar maneiro.. podemos fazer.

            Tu cria um post.
            Nele coloca uma sinopse da história que esta propondo.
            Um link apontando para este texto.
            E publicar ele na categoria de Projetos de Contos em Conjunto.

            Aquela área ficara só com estes posts de projetos mesmo… com as sinopses.
            Nisso, no que o pessoal for continuando a história, eles podem colocar o link da continuação nos comentários deste post… ai o conto ganha vida com uma organização mais organica.

            E este conto em sí, é publicado como um conto normal na agenda.

            O que me diz? (se eu expliquei direito isso….)
            Se topar, cria lá o post, que eu faço as alterações no ONE para re-organizar tudo. 🙂

          • Evandro Furtado says:

            Hmmmmm. Boa ideia. Mas como fazer com que duas pessoas não escrevam ao mesmo tempo?

          • Boa pergunta. Hehehe.. ah! se tiver mais de um, publica-se as duas e o conto vai ganhando vertentes…. e que a mais popular se destaque. 🙂

          • Evandro Furtado says:

            Haha, muito boa. Aí criamos dimensões aleatórias de uma mesma realidade e… pera, já tô viajando, kkk.

  • Pô… fiquei lendo o texto para pegar a idéia para a imagem do conto. Deu maior fome. 😐

    • Cara, curti a história! A narração flui muito bem, tu tem uma boz voz para ela. 🙂

      E.. ficou um suspense alí. O Morpheus no telefone e tal… e pqp que fome do cão. 😐

      • Lucas Valadares says:

        Haushuahshuas, também fiquei com fome escrevendo.

        É uma garota ao telefone. Mas sim, ela é foda.

        A minha principal dúvida continua sendo a seguinte: Devo passar as anotações/esquemas da trama para o próximo escritor ou não?
        Eu sei, por exemplo, quem é a pessoa ao telefone. E tenho anotações sobre o que acontece logo em seguir com o protagonista da história. Mas devo passar isso ao próximo escritor ou deixar tudo a cargo de sua imaginação?

        Pensei em criar no conto conjunto um post sobre as idéias para a trama, elementos de cenário ou personagens..

  • Gustavo Roças says:

    Muito bom!!!

    • Lucas Valadares says:

      Valeu, hehe. Espero que continue gostando do andar da carruagem. E que participe futuramente também, se for do seu interesse, abraço.

      • Gustavo Roças says:

        Mas é claro!!! Eu adoraria!
        Minha cabeça já começou a funcionar aqui explorando cada vez mais essa voz feminina do telefone que eu já tenho uma leve suspeita de quem seja!! haha
        Quem sabe a mistura que daria esse thriller de ação com um romacezinho aí no meio! 😛
        Veremos..
        Abraço

        • Lucas Valadares says:

          Como a segunda parte já saiu, essa informação já foi dada. Mas um romance sempre cai bem e é necessário numa história. Qualquer contribuição para a história é muito bem vinda!

  • J.Nóbrega says:

    Só irei participar na sexta, pedirei um xis-bacon caprichado no colesterol e entrei na onda! 😀

    • Lucas Valadares says:

      Cara, ainda não há prazos definidos para cada capítulo. O segundo saiu ainda antes do previsto, hehe. Participe quando achar melhor e tiver tempo. 😀

RSS feed for comments on this post.


Leave a Reply

Powered by WordPress. © 2009-2014 J. G. Valério