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Publicado por maria santino

– que publicou 1 textos no ONE.

Estudante de Ciências Biológicas. Natural de Manaus/ Am. Escritora amadora nas horas vagas ( e não vagas).

Dou preferência a literatura que aborda: Mistério, Terror, Crime & Morte, Humor Negro, Romance (trágicos) e tudo que aborda LOUCURA.

Meus 5 escritores favoritos: Edgar Allan Poe, H. P Lovecraft, Arthur Conan Doyle, J. M. Coetzee e Machado de Assis.

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May
09
2014

Uma Breve Missiva

breve-missiva

Este relato é a descrição sucinta de tudo que vivenciei em dias tenebrosos de nossa existência.

Uma Breve Missiva

Nós falhamos e falhamos justamente por desejarmos tanto, por sermos tão gananciosos e soberbos. Nosso primeiro grande erro partiu de dentro dos observatórios voltados para o espaço. Acumulamos tanto conhecimento e utilizamos daquela maneira, torpe. O plano foi calculado minuciosamente sob o bordão: “Tudo em prol da ciência”, mas esquecemos de completar tal frase com o termo: “Inclusive o genocídio”. Segredos escrito com sangue inocente.

Repassamos tudo para as forças superiores e logo, as mentes mais importantes reuniram-se para discutir sobre aquele assunto. O governo sabia de todo plano, afinal nenhuma ação sucederia sem a aprovação da ordem superior que regia as leis da sociedade vigente, e acredite, o governo era apenas um.

As confabulações não duraram muito e, se de um lado só se pensava em lucro e poder; do outro, havia questões mais ousadas como: o sentido da existência e o avanço que poderíamos alcançar (ainda que sobre pilares obscuros).

A ordem não demorou a vir, e assim… Lançamos a ogiva.

Eu estava lá quando ascendemos aos céus, soube do êxito da missão e passei horas refletindo no poder que tínhamos em mãos e no quão audaciosos e insensatos fomos. Um simples botão, um click e pronto, milhões de vidas estavam condenadas. Fomos ilícitos, monstruosos.

Dessa forma, não houve pronunciamento em rede nacional, aviso para que as pessoas evacuassem a área. O governo simplesmente cruzou os braços, logo assistimos e corroboramos com aquela hecatombe nutrindo a mente das pessoas comuns de programas e palavras de ordem para que permanecessem superficiais e mansos.

O brilho nos céus foi visto por algum tempo com um sorriso nos lábios da grande população, e as notícias desencontradas, dizia que se tratava de um evento natural como a passagem de um cometa. Muitos correram para ver a massa brilhosa se aproximando. Fotos e filmagens explodiam na internet carregadas de palavras cheias de beleza e inocência daqueles que acreditavam que estavam seguros.

Não demorou muito para orla marítima ser tomada por pessoas com propósitos diversos. Alguns se reuniam em volta de fogueiras simplesmente para partilhar de risos, danças e conversas. Outros faziam rituais acreditando que aquele evento seria o sinal da vinda de suas divindades. Falava-se do despertar do grande colosso adormecido no fundo do oceano, do retorno da mãe primitiva da terra e, do messias do cristianismo que surgiria dentre as nuvens e todo olho o veria.

Humanos… Tão puros, infantis, tolos. Mal sabiam que o que descia a Terra, em direção ao mar, não era nada daquilo que as pessoas comuns supunham.

O impacto tremendo fez ondas gigantescas avançarem na madrugada e milhões de pessoas morreram instantaneamente afogadas e esmagadas por destroços. Usinas, plantações… foram inundadas e devastadas pelo furor das águas que faziam ruir as construções e os mais belos adornos dignos de orgulho para humanidade. A cena de efeito cascata atrelado ao bramido dos que presenciaram a chegada da grande onda era tétrica e desoladora.

Observei homens porcos, diabólicos, assistindo tudo como feiticeiros ao redor de uma bola de cristal, e como animais que falavam, exclamavam sem pudor:

“Oléééé!”, “ Olha a onda!”Como se aquilo fosse só uma obra de ficção, e a privação dos sentidos não representasse nada. Ali, muitos de nós provaram que já não eram mais humanos.

Naquela noite famílias inteiras foram dizimadas, porém, nada disso era transmitido. A internet misteriosamente ficou horas sem sinal e na TV, os programas de entretenimento deixava as pessoas paradas com suas mentes ocas olhando para a tela. Mas nós sabíamos de tudo, nós desligamos a grande rede mundial de informações, pois o poder era nosso, éramos os maiorais.

Quando houve o comunicado oficial (palavras tardias, vagas e insossas que duraram apenas sete minutos), um amontoado de mutilações, madeira, pedra e ferro, já haviam sido arrastados para longe.

Mas ninguém arriscava pensar algo contra o governo, ninguém percebia a falha, a farsa, pois a sociedade estava condicionada a ser desde a infância, simples marionetes. Os poucos que ousavam nos confrontar eram perseguidos, fuzilados, descartados.

Vimos às sinagogas e templos serem invadidos por fiéis e no mundo todo, velas foram postas em praça pública e artistas famosos criaram obras para homenagear as vítimas do que foi descrito como fenômeno natural e Tsunami. Enquanto as pessoas ficavam comovidas e os roedores devoravam as carnes daqueles que jaziam sob escombros, nós ríamos.

Nós, políticos e homens da ciência, genocidas com nossos propósitos sinistros. Previmos a chegada, desviamos a rota e soberbos como éramos, usamos até um plano de freio, pois o nosso desejo era êxito e não uma hecatombe mundial. Depois, esperamos impacientemente pelo resgate do que estava no fundo do mar, e com o auxilio de ductos e submarinos, caçamos pelas profundezas aquilo que desceu dos céus.

Não demorou muito para encontrarmos.

Vi de perto a nave responsável por aquela catástrofe, inerte e totalmente intacta. O material que a revestia recebeu atenção dos setores da mais alta inteligência humana, afinal, o que tínhamos ali era resistente suficiente para suportar as intempéries marítimas e pressão de tamanha profundidade (o que nos fez desprender inúmeros recursos para tentar equiparar com os artefatos que tínhamos em mãos e prosseguir com o resgate).

A tecnologia ali encontrada foi extraída e logo seria transformada em adornos e armas de manipulação em massa, vendida em lojas de produtos sob o slogan: “Para o seu maior conforto”, ou, “Para o seu bem estar e livre trânsito de informação.” Tudo revestido em lucro, que só acresciam aos bolsos daqueles envolvidos nos trâmites da grande sujeirada que promovíamos. Os mesmos que se mostravam condoídos e não mediam esforços para auxiliar as vítimas da catástrofe provocada pela queda do “Asteróide” no mar, arrecadavam quantias exorbitantes.

Mas o cerne, o que estava dentro da nave era maior do que imaginávamos. Observamos os seres resgatados ávidos por fatiar seus corpos e esquadrinhar cada célula e materiais que possuíam. Aqueles seres disformes translúcidos que foram acometidos por nossas ogivas e por esse motivo chegaram até nós.

As descobertas não tardaram e de todas elas, a mais importante para nossa ganância, era a que estava ligada a fisiologia dos seres. Era ali que estava a chave que achávamos que faltava em nós e uma fonte de poderio. Mas aquele era somente mais um dos inúmeros erros que cometíamos.

Em poucos anos chegou ao mercado um fármaco batizado de “Manancial” e ali estava o preenchimento da lacuna, daquilo que nos fazia padecer e ter nosso organismo morto após anos de envelhecimento. O “Manancial” por sua vez, agia contrariamente a ordem natural dos fatores, pois era composto por uma enzima que sanava as perdas no processo de replicação das nossas células, criando uma proteção que evitava o encurtamento dos braços do DNA, e o resultado disso? Ganhávamos uma longevidade assustadora.

Mas, como viver em um planeta cheio de pessoas que não morriam mais de causas naturais? Simples, o “Manancial” teria um preço exorbitante para evitar que a massa pusesse a mão, sendo um produto de Luxo. No entanto, os humanos, com sua visão imediatista, deixaram que a fórmula vazasse para os demais. Perdemos o controle e o não prevíamos aconteceu.

A fórmula foi alterada e usada indiscriminadamente como produto da moda, divulgada sem domínio na internet. Em pouco tempo assistimos a uma explosão demográfica e fizemos mais, repassamos os genes modificados para os nossos descendentes.

Com a modificação veio o rápido desenvolvimento físico dos seres, pessoas chegavam à idade adulta em pouquíssimos anos e depois o crescimento estagnava e ficávamos mais fortes e diferentes do que éramos a cada dia que passava.

Mas a fome, era o que mais incomodava.

Santuários como a Amazônia, parques nacionais e reservas, foram transformados em pastos para aumentar a fabricação de produtos para consumos. As previsões mais pessimistas datavam que levaria apenas alguns anos para que a Terra ficasse oca, vazia de recursos. E os mais funestos ainda, estipulavam que não demoraria muito para passarmos a comer uns aos outros.

O governo falava em explosão de bombas como as de Hiroshima e Nagasaki, mas temíamos o poder da radiação sobre aqueles seres. O boom da população mundial continuava a cada dia e as tensões cresciam mais e mais. Assistimos a mudança ou evolução de nós mesmos, temerosos. Em algumas dezenas de anos devastamos a Terra e seria só uma questão de tempo para vir o pior: Nós, canibais.

Imaginávamos de onde viria os primeiros casos de antropofagia e por esse motivo, as viagens para os países subdesenvolvidos foram proibidas e as pessoas de tais locais, postas em estado de sítio.

Nossa atenção se dividia entre os céus, o estudo dos seres que aterrissaram forçadamente na terra e o controle do que nós nos tornamos. Descobertas fantásticas acabaram não podendo ser levadas adiante, pois a cada dia consumíamos mais e mais do que tínhamos.

Falhamos mais uma vez por não criarmos um plano B, falhamos por sermos prepotentes e achar que poderíamos burlar todas as regras impostas pela natureza sem um preço a ser pago. Não vimos que a morte era nosso trunfo, mas agora, nos tornávamos predadores e caminhávamos para um futuro incerto.

O governo perdeu o pulso firme, pois o poder massivo de alienação surtia efeito nos humanos anteriores e não naquela raça modificada. Caçávamos no espaço algo que pudesse nos salvar, um reduto, outro planeta… Dessa forma lançávamos dia após dia foguetes que muitas vezes não retornavam.

Em desespero, reunimos as nossas forças agindo sigilosamente para conseguir o que parecia ser impossível. Com o auxílio daqueles seres que resgatamos do fundo do mar ousamos uma última vez. Subimos na plataforma e protegemos o corpo de nosso escolhido. O casulo com a gosma gel criada a partir da tecnologia alienígena manteria a integridade dele quando a nave atingisse a velocidade adequada. Marcamos a hora de sua partida e os que possuíam alguma religião, rezaram para que estivéssemos corretos.

Ao retornarmos para nossas atividades, rumores já se espalhavam de casos isolados de canibalismo, o medo se estampava no rosto de cada um de nós. Estávamos perdendo nossa característica humana e a dúvida que pairava era: Até quando manteríamos nossa essência e pensamento lógico? Quem acordaria amanhã transformado? Acometido por esses pavores não pensei duas vezes e recorri ao papel, nunca havíamos feito viagens no tempo antes, e por esse motivo nosso enviado poderia não chegar.

Portanto, é esse o propósito desta missiva, espero que ela encontre alguém que possa espalhá-la pelo mundo, pois se há algo que eu mais deseje nesse momento, é que aquele botão não seja apertado.

Era uma noite chuvosa de abril, do ano de 2021.

Anfortas Guimarães. 15 de Março de 2121

O lugar exato, já me falha a memória.

____________________________________________________

MARIA SANTINO. © copyright

http://www.recantodasletras.com.br/contosdeterror/4745919

http://www.onerdescritor.com.br/2014/04/uma-breve-missiva


Categorias: Contos |

10 Comments»

  • Mto bom! A melhor história de zumbi q vi, embora não tenha oa mostrado explicitamente! Gosto d histórias tocadas em frente sem bla bla bla!

    Lógico que num site onde se escreve de tudo mtos de nós escrevemos histórias parecidas, eu tenho A História das Três Graces ou A Lenda do Vigésimo Terceiro cromossomo, se puder dá uma olhada!

  • Fel21t says:

    Seria um excelente prólogo para um livro/roteiro de uma fantasia pós apocaliptica!

    • maria santino says:

      Opa! Pior que era uma noveleta, desfiz para um desafio literário. Abraços e obrigada pela leitura. 😀

  • maria santino says:

    :mrgreen:

  • Este relato é a descrição sucinta de tudo que vivenciei em dias tenebrosos de nossa existência. —> muito bom!

  • Bem legal! É difícil pensar tão profunda e detalhadamente nas consequências das consequências das consequências das consequências, e assim por diante, como vc fez. E é interessante como a cada parágrafo uma reviravolta acontece. Admito que, em alguns momentos, achei que o desenrolar dos eventos foi narrado com rapidez de mais, mas, tendo em conta o propósito da missiva, isso se justifica. Enfim, parabéns pelo trabalho!

  • gilcar carvalho says:

    Olá. Lendo seu texto lembro de uma frase de um dos maiores escritores da literatura Fantástica de todos os tempos: Guy de Maupassant ” o homem é um animal efêmero sobre um globo perdido na imensidão do Universo”. A Humanidade não tem noção do que faz com o planeta e seus recursos e chama remediar de planejar. Parabéns pelo texto; Apocalíptico – atual – futurista.

  • Gosto muito desse estilo de gênero e narrativa. Aproveitando que voltei à ativa, resolvi comentar o texto do amigo. A história prende muito bem, o formato relato sempre é prático e adiciona suspense ao enredo. Muito bem escrito e elaborado. As especulações estão bem colocadas, com um final impactante. Os acontecimento podem estar ligeiramente rápidos (pleonasmo?), mas temos que lembrar que isso é um conto, não uma noveleta ou romance, tanto que o personagem principal nem tem nome – faço isso às vezes. Em suma, curti!

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