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Publicado por Belle

– que publicou 7 textos no ONE.

Leitora compulsiva. Escritora amadora.

Estudante de direito nas horas vagas…

 

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May
05
2014

X-Bacon – Projeto Conto em Conjunto, Capítulo Dezoito

xbacon

Nove horas antes.

A última coisa que Bernardo ouviu foi Renato lhe dizendo que ele precisava ver alguma coisa. Quando a enorme tela na parede mostrou Bruna, ele não registrou nada mais. Sua irmãzinha, aquela que sempre foi a princesinha da casa, ainda que tivesse um temperamento e uma personalidade mais fortes do que Bernardo já vira em alguém com uma aparência tão frágil, estava praticamente irreconhecível! Como se não bastasse toda a loucura das últimas, o quê? 24, 48 horas? Bernardo já nem era capaz de dizer. Perdera a noção há muito tempo. Só sabia que não dormia desde quinta-feira de manhã, quando se levantou para ir a faculdade e, mais tarde, foi com Olavo a lanchonete de Zezinho. E hoje era que dia, afinal? Sexta, sábado?

Ele havia segurado as pontas até agora porque acreditava que estava sozinho nessa confusão. Sabia que os pais haviam sumido, é claro, mas, não tivera tempo de pensar no quê, exatamente, isso significava. Para ele, Bruna estava a salvo na casa dos tios, se preparando para mais um dia no colégio, aproveitando com as amigas ou o que fosse. Mas, ali estava ela, sua preciosa menina, amarrada como um animal para abate, com as roupas rasgadas e o corpo maculado. Por segundos torturantes, a agonia no rosto da irmã ameaçou engolir Bernardo e reduzi-lo a um bebê chorão. Não havia nada no mundo além deles dois, se encarando através daquela tela. A queda de braço se desenrolando entre a mulher elegante ao lado de Bruna e Renato não ultrapassava a bolha que envolvia os irmãos.

Ela se recuperou mais rápido. Em questão de segundos, a expressão de humilhação, derrota e dor deu lugar ao que ele gostava de chamar quando criança de “a expressão Bruna”. O maxilar da menina travou, sua cabeça se elevou no ângulo orgulhoso e teimoso que era sua marca registrada e sua boca até mesmo se ergueu no canto direito, aquele com a pequena pinta acima do lábio superior, que sempre deixou claro para Bernardo que a irmã estava tramando alguma coisa. Apenas os olhos permaneciam devastados, repletos de lágrimas não derramadas que contaram a Bernardo tudo o que ele precisava saber sobre a tortura da irmã. A sombra daquele sorriso gerou uma corrente elétrica no rapaz e, de repente, a confusão de sentimentos dentro de Bernardo se acalmou e ele pôde pensar com clareza.

Bruna sempre fora seu porto seguro, aquela que o trazia de volta quando os compartimentos secretos de sua mente ameaçavam levá-lo para longe. Agora, por baixo daquela desordem de hematomas e sangue seco, a força de Bruna o trazia de volta para a realidade e ele quase podia ouvi-la gritando em seu ouvido: “acorda, nerd! Eu estou aqui e estou viva. Na merda, mas viva, então pare de sentir pena de nós dois e vamos resolver essa porra!”. Foi a vez dos lábios de Bernardo se repuxarem. Quem via aquela pequena mulher não imaginava a boca suja que ela tinha.

Com mais um surto daquela estranha calma que tomou conta dele em alguns momentos nas últimas horas e o levou a tomar atitudes surpreendentes, como atirar em Zezinho e dar uma de Bruce Lee para cima de Carol, Bernardo percebeu que, dessa vez, ele estava no controle. Era capaz de pensar enquanto os músculos de seu corpo nada definido, mas, que ainda assim, sabia exatamente o que fazer quando era necessário, se retesavam e pareciam se preparar para qualquer coisa. Entretanto, era sua mente que seria usada naquele instante. De repente, Bernardo percebeu o que Bruna estava tentando fazer ao fixar os enormes olhos escuros nele e fitá-lo com tanta intensidade.

Lembranças de um passado não muito distante, em que os dois eram mais unidos do que ambos gostariam de admitir o invadiram e ele se lembrou de cada sinal da linguagem muda que compartilharam. Nenhum deles se lembrava de quando aquilo começou e nem como, era simplesmente natural para os dois terem conversas inteiras através de pequenos toques e apertões nos braços, mãos, pernas e onde quer que um alcançasse o outro. E, quando o toque não era possível, olhares, piscadas, estalos de ossos e até mesmo coceiras poderiam conter mil perguntas e um milhão de respostas.

Tomando cuidado para não ser óbvio, Bernardo franziu os olhos e, sutilmente, mexeu a cabeça, como se apontasse para Bruna, que estava a sua frente: um sinal claramente interpretado por ela como “você está bem?”. De forma não tão sutil, a menina revirou os olhos e encarou o chão, o que queria dizer “o que você acha, nerd?”. Quando ela levantou novamente os olhos, a dor havia retornado e foi a vez de Bernardo de ser forte. Reunindo toda a confiança que ele não sabia que tinha, olhou firmemente para a irmã, fechou as mãos em punhos e fez um pequeno movimento com a cabeça: “a gente vai sair dessa, eu vou tirar você daí, maninha”. Ela entendeu.

Seu lábio parou de tremer e Bernardo viu a dor ser lentamente substituída por uma fúria que gelou os ossos dele. Os olhos da irmã se movimentaram para as costas de Cássia e ele interpretou a mensagem: “eu vou acabar com ela! Vou me livrar dessa cadeira e destruir essa vaca”. Foi a mesma expressão de quando Bruna, aos treze anos, pegou a melhor amiga falando mal dela para o menino de quem gostava e, Bernardo se lembrava, ela realmente acabou com aquela vaca. Contudo, agora, a situação era bem diferente de uma briga entre adolescentes e Bernardo tentou controlar o medo enviando, através do olhar apavorado, as palavras “não faça nenhuma bobagem” várias vezes para a irmã, mas, ele sabia melhor. Sabia que aquela teimosia dela não seria vencida pelos olhos dele.

Bernardo tentou se acalmar lembrando que, se havia alguém capaz de se cuidar sozinha, esse alguém era Bruna. Eles podiam não compartilhar o mesmo sangue, mas, foram criados juntos, assistiram aos mesmos desenhos quando crianças. O pensamento de que Bruna tinha o mesmo sistema de defesa criado pelo programa de mensagens subliminares escondido em algum lugar da mente dela o acalmou por alguns segundos, mas, ao olhar para o rosto dela, ele percebeu que aquilo não fora o suficiente. Nem mesmo o treinamento em artes marciais a salvara. O que o levou a imaginar que ela nem sequer tivera tempo de tentar se defender antes de ser subjugada.

Bruna era faixa roxa em jiu jitsu e gostava de mesclar diversas outras modalidades, como o muay thai e o kung fu. Até mesmo na capoeira ela já se aventurara. Sua irmã tinha muita energia quando criança, além de ser bruta e moleca demais para qualquer coisa mais feminina como dança e outros esportes, para desgosto da mãe deles e vergonha do pequeno Bernardo, que era zoado na escola por ter uma irmã mais “macho” do que ele. Entretanto, isso foi antes de Bruna ter peitos e de todo o treinamento físico dar a ela um corpo de parar o trânsito. Foi mais ou menos nessa época que os irmãos se afastaram, quando Bruna perdeu seu lado moleque e começou a se transformar em mulher, a se interessar por garotos e a ficar realmente popular. Ela sempre fora cheia de vida e cativante. Mais esperta do que inteligente e tão espontânea a ponto de ser imprudente.

Ou seja, o perfeito oposto de Bernardo, que sempre pensava e repensava cada passo, até que tivesse planos mirabolantes para as mais simples coisas, como comprar um lanche na cantina ou falar com uma menina. Durante a infância, Bernardo fora o cérebro de todas as brincadeiras deles, o que planejava tudo para que então Bruna executasse. Por isso sua surpresa tão grande ao atirar em Zezinho e atacar Carol. Era contra sua natureza pacata e racional. Só então ele percebeu o quanto o programa Branca de neve era forte e perigoso, capaz de dobrar as vontades de seus usuários e controlá-los.

Entretanto, alguma coisa estava diferente agora. Bernardo sentia como se uma peça houvesse se encaixado, como se sua visão encontrasse o foco, depois de muito tempo embaçada. Ele podia sentir a tensão em seu corpo, aquela mesma tensão que precedia os “apagões” em que ele agia como um louco homicida. Ele podia jurar ser capaz de escutar uma melodia vinda de algum lugar profundo e distante de sua mente. A presença de Bruna sempre despertou sentimentos contraditórios em Bernardo, ora amor, ora irritação e, até mesmo, uma dose natural e saudável de ciúme e inveja.

Contudo, algo sempre se manteve constante em relação a ela: o instinto de proteção. Bernardo sabia que Bruna era capaz de se cuidar e, mesmo assim, a vontade de protegê-la sempre falou mais alto. Agora, ele percebia que era esse sentimento que o mantinha lúcido, sem se render ao programa. Ali, naquele momento, em meio a um galpão lotado de pessoas que ele não sabia se eram amigas ou inimigas, enquanto o seu futuro e o de sua irmã parecia ser discutido calmamente entre o homem ao seu lado e a mulher na tela, Bernardo sentiu que o soldado preso em sua mente e o garoto assustado que ele era até alguns segundos atrás se fundiam. Simples assim. Como um “click”. E tudo porque a garota devastada na tela a sua frente ainda carregava nos olhos aquele brilho expressivo e forte, que o fazia sentir orgulho e um amor tão grande, capaz de controlar o soldado mais bem treinado, quanto mais um irmão protetor. A já conhecida melodia em sua cabeça foi aumentando de volume, até ele ser capaz de ouvir claramente as palavras:

“Não tenha medo, pare de chorar

Me dê a mão, venha cá.

Vou proteger-te de todo o mal

Não há razão pra chorar”

 

E Bernardo lembrava de duas crianças, na sala do apartamento em que cresceram, assistindo juntas a Tarzan e cantando. Bruna cantava alto e fazia coreografias, enquanto o pequeno e rabugento Bernardo jamais admitiria, mas, em sua cabecinha, gritava e pulava ainda mais do que a irmã. E foi assim que Bernardo inventou o seu próprio botão de “ligar e desligar”. Foi assim que ele percebeu como o programa funcionava: escondendo os mecanismos de defesa e ataque atrás de sentimentos que seriam despertados em momentos de grande perigo e necessidade. E, mais do que tudo, foi assim que Bernardo aprendeu a sobrepujar o programa. Ele precisava manter aqueles sentimentos sempre em sua cabeça, como se fossem um objeto deixado à mão para que fosse usado quando preciso. Como bom nerd que era, Bernardo se lembrou do Hulk no filme Os Vingadores e decidiu fazer da frase “Eu estou sempre com raiva” o seu mantra. Eles estaria sempre com raiva, com garra e até mesmo com medo; mas, não um medo paralisante e covarde, um medo que o deixaria alerta e o faria agir.

A “conversa” silenciosa entre os irmãos, assim como toda a descoberta de Bernardo, não durou mais do que um minuto. Enviando um último olhar a irmã, dessa vez com um comando claro de “fique quietinha”, Bernardo voltou sua atenção a Renato e a mulher na tela. Ele percebeu que não perdeu muita coisa, visto que os dois ainda trocavam falsas palavras gentis e que Carol ainda lutava para se libertar dos braços de Bill.

– Carol, querida, se continuar se debatendo dessa maneira o homem será obrigado a nocauteá-la. – Cássia disse, com os olhos voltados diretamente para Renato, sem nem mesmo desviar a atenção para a filha. – Além do mais, isso lá é jeito de se comportar diante da mamãe?

Com um sorriso debochado, a mulher sentou-se na elegante cadeira de espaldar alto, cruzando as longas pernas e fazendo a saia lápis cor de vinho deslizar sensualmente pelas coxas. Aquela era uma mulher que sabia usar o próprio corpo para alcançar seus interesses.

Bernardo ouviu o rosnado furioso que Carol emitiu e virou-se a tempo de vê-la cuspir diretamente na enorme tela de led, a pontaria da menina o teria divertido, se a situação não fosse tão tensa.

– Tsc, tsc, tsc… – Os olhos da mulher finalmente deslizaram para a filha, enquanto ela fingia dramaticamente, limpar o rosto verdadeiro, enquanto, na verdade, o cuspe deslizava pela tela, desde a testa dela e entre os olhos. – O que aconteceu com a princesinha a qual eu dei à luz? Pobrezinha, que tipo de educação você teve com Sara, querida?

– Cala a boca!!! – O grito da menina ecoou por todo o galpão e Bill quase perdeu o controle sobre ela, tamanha a fúria que Carol emanava. – Nunca mais ouse dizer o nome dela, sua vagabunda! Ela fez por mim tudo o que você deveria ter feito e mais, muito mais! Então, não diga uma palavra sobre ela, a menos que seja para falar sobre onde ela está!

Bernardo sabia que Carol estava prestes a perder o controle e ser dominada pelo programa, então, agindo por impulso, caminhou em sua direção e tomou-a de Bill, passando os braços em torno dos dela e colando suas costas no próprio peito. Deixando-se guiar pelos instintos, levou a boca a orelha esquerda dela e começou a cantarolar baixinho, para que só ela fosse capaz de entender, uma das músicas de seu mais novo repertório mental da Disney. Aos poucos, o corpo da menina foi relaxando e ela pareceu entrar em transe. Quando Bernardo levantou a cabeça, viu que todos os olhavam atentamente, tentando entender o que havia acontecido. Especialmente Cássia, que, com uma das sobrancelhas erguida de forma arrogante, olhava a própria filha com desprezo.

– Ora, vejam só, não é que ele conseguiu colocar uma coleira nessa garota? – Os lábios se repuxaram em um sorriso debochado. Ela fez uma pausa, esperando para ver se as palavras causavam outra reação em Carol, mas, ao ver que a menina permanecia inerte, ainda cercada pelos braços de Bernardo, continuou: – Será que agora os adultos podem conversar, Renato? Ou você prefere que continuemos a perder tempo com as crianças? Você disse que estava ansioso para lidar comigo, mas, agora que estou aqui, a sua disposição, não estou muito impressionada.

– Não se preocupe, Cássia, estamos apenas começando. E eu não estou com pressa. – O chefe dos Templários sorriu e deu alguns passos em direção a tela, tirou um lenço de linho do bolso e, quase carinhosamente, limpou o cuspe do local onde estava o rosto da Senhora. – Muito melhor, não acha? Agora, que tal voltarmos àquela sua primeira frase, como foi que você disse mesmo? Ah, sim: que nós temos dois jovens que lhe pertencem? Bem, com certeza você não pode estar falando destes dois jovens – disse, apontando para Bernardo e Carol –, visto que ambos parecem odiá-la. Pelo que vejo, você, sim, tem algo que pertence ao rapaz.

– O quê, esta coisinha aqui? – Cássia se inclinou e segurou o queixo de Bruna. Bernardo quase se deixou dominar pela fúria, mas, respirou fundo e se concentrou em não expressar suas emoções. Sabia que a mulher usaria todas as armas que ele lhe desse. – Eu a encontrei perdida, vagando sozinha pela floresta escura…  – O tom da Senhora baixou para um murmúrio penalizado e ela olhou diretamente para Bernardo, fazendo-o sentir cada palavra como se fosse uma faca em seu coração: – Parece que alguns homens maus judiaram bastante da pobrezinha, só estou me certificando de que ela esteja segura agora.

– Mesmo? Que amável de sua parte… Tenho certeza de que o irmão dela se sente muito grato. Que tal entregá-la aos cuidados dele agora? A pobre menina se sentirá muito melhor quando estiver ao lado da própria família. – O sorriso que a Senhora deu foi deslumbrante, enquanto largava o queixo de Bruna e voltava a sua posição relaxada na cadeira. Bernardo via claramente as marcas que as unhas dela deixaram no rosto da irmã e sabia que as lágrimas que Bruna derramava eram mais de ódio e impotência do que de dor. Ela estava se controlando para ficar quietinha, como ele pedira.

– Aposto que ela se sentiria melhor mesmo. É por isso que estou pedindo educadamente que você entregue as duas crianças a mim, Renato. Caso contrário, serei obrigada a fazê-la se sentir pior. Muito pior!

– Bem, Cássia, você vai entender se eu precisar de um tempo para pensar, certo? Há muitas coisas em jogo por aqui, para que eu ceda ao seu pedido tão rapidamente… – Virando-se de costas para a tela, o homem olhou diretamente para uma mulher sentada no canto direito do galpão em uma ilha de computadores ultramodernos digitando furiosamente em um dos teclados, enquanto imagens de satélite de vários locais do mundo iam se sobrepondo umas as outras na tela a sua frente. Sem usar a voz, a mulher respondeu a pergunta nos olhos de Renato: preciso de mais tempo. – Afinal, você não pode esperar que eu…

– Quer saber, Renato? Eu sempre ouvi boatos de que você é enfadonho, mas, nunca fui de dar crédito a essas coisas. Mas, meu Deus, você é mesmo! – Ela o cortou de forma incisiva, claramente perdendo a paciência para o papo furado. –  Que tal irmos direto ao assunto e pararmos de subestimar a inteligência um do outro? Nem mesmo os brinquedinhos poderosos da sua empresa serão capazes de me encontrar, assim como os meus não encontrarão vocês.

“Pelo que o meu técnico acaba de me dizer, já passamos por uns 30 firewalls e uns 4 satélites, mas, vocês sempre dão um jeitinho de reerguer as defesas. E tenho certeza de que estão enfrentando o mesmo problema por aí, não é? Nós podemos ficar aqui por mais alguns minutos, mas, posso apostar que acharemos o covil um do outro ao mesmo tempo e aí, o quê? Sairemos uns atrás dos outros para ver quem chega primeiro? No mínimo, isso gerará um desencontro. – Erguendo-se da cadeira, a mulher caminhou até parar a frente da câmera, com seu rosto ocupando toda a tela.

Então, deixe-me facilitar para você: depois de amanhã, domingo, você vai me entregar as duas crianças durante a Festa da Uva. Às 20 horas, eles devem estar num dos carrinhos do trem fantasma. Acho que não preciso ser clichê e dizer coisas, como “não tentem nenhuma gracinha”, “eles devem estar sozinhos” e blá blá blá, certo? Bom. Obrigada pela conversa, meninos. Foi revigorante. – Afastando-se da câmera, a Senhora caminhou para perto de Bruna. – Diga até logo para o seu irmãozinho, Bruna querida.”

Foi o suficiente para a menina, que havia se comportado até agora e após o “vagabunda” rosnado por ela, o barulho da mão de Cássia acertando a bochecha de sua irmã foi a última coisa que ele ouviu antes de a tela ficar escura. Enquanto o silêncio se prolongava no galpão, Bernardo se dava conta de que tremia e de que os braços estava, tão fortemente enrolados em torno de Carol que a menina respirava com dificuldade. Ele a soltou lentamente, perguntando-se em que momento ele deixara de contê-la e passara a ser o contido. O corpo dela fora a única coisa que o impedira de partir com tudo em direção a tela. Mas, então, em que isso teria ajudado? Ele destruiria alguns equipamentos, mas, sua irmã ainda permaneceria do outro lado, onde quer que seja isso.

– Ok, a mulher é ainda mais ardilosa do que eu pensei que seria. – Disse Renato, claramente decepcionado por não ter dominado as negociações. Pobre coitado de ego ferido, Bernardo pensou com desprezo. – São sete da noite. Nós temos exatas 49 horas para planejar como virar esse jogo. – Ahh, então ainda era sexta-feira afinal. – Miranda, você tem meia-hora para reunir todos os detalhes sobre o parque onde acontece a festa da uva. – Comandou, e a mulher que dominava a ilha de computadores recomeçou a atacá-los. – Eu quero saber sobre cada folha de grama, cada pedra, sobre cada entrada, saída, banheiro, lanchonete… TUDO! E quero que cada um da equipe saiba também. Nós vamos cobrir cada possibilidade de fuga.

Renato caminhava pelo galpão, ditando ordens e sendo atendido prontamente, pisando tão fortemente que cada passo levantava poeira do chão. Raiva e frustração emanavam dele. Parecia que o líder dos Templários não estava acostumado a levar um chute no traseiro. Cássia sabia exatamente onde acertar alguém para ter a reação que queria e, ali, ela acertara o ego.

Quando Renato finalmente pareceu se lembrar deles, pediu a Bill que acompanhasse Bernardo ao dormitório, já que não havia nada a ser feito por algumas horas. O rapaz quase caiu de joelhos agradecendo. Todas aquelas horas sem dormir estavam cobrando agora o seu preço. Bill levou uma Carol ainda em transe junto com eles e a deixou na enfermaria. Só então Bernardo lembrou que fora ele quem causara o estrago sangrento no rosto dela. Novamente, ele foi atingido por aquela onda de culpa e a raiva de si mesmo ameaçou nublar sua mente. Com medo de que o que ele fez ao sussurrar a melodia no ouvido dela tivesse feito mais mal do que bem, Bernardo insistiu em ficar ao lado dela até que, com os ferimentos limpos e analgésicos circulando em seu organismo, a menina apagasse numa das macas.

Como se sentisse a tensão no ar, Bill ergueu a mão e apertou fortemente o ombro de Bernardo, tirando-o de sua espiral de autoflagelação. O momento veio e passou e, antes que Bernardo ergue-se a cabeça procurando o rosto de Bill para sondar a expressão no rosto do homem, ele o ultrapassou e, tomando a dianteira, seguiu até o fim do corredor, guiando-o por três lances de escadas, escondidas atrás de uma enorme porta de aço. Ao final dos degraus de concreto, erguia-se outra porta, igual a anterior e, do outro lado, um corredor quase idêntico ao que eles haviam acabado de percorrer surgiu. Tudo era frio e sombrio naquele lugar.

Austero seria a palavra certa. A cada três metros, havia portas de aço menores do que as da escadaria, mas, igualmente reforçadas. Bill continuava liderando o caminho, enquanto Bernardo imaginava se era aquele tipo de claustrofobia que presos da segurança máxima sentiam. Não havia janelas e as luzes fluorescentes no teto piscavam em intervalos regulares, dando ao lugar um aspecto bizarro. Bernardo podia dizer, pelos lances de escada e a umidade das paredes, que estavam a uns dez metros da superfície e só conseguia se perguntar se toda aquela instalação era para protegê-los dos inimigos do lado de fora ou para manter certas pessoas do lado de dentro. Ele, talvez?

O rapaz quase deu de cara nos enormes ombros de Bill, pois não havia reparado que ele parara.

– Este é o seu compartimento. – O homem disse, apontando para a porta a sua esquerda, ignorando o desconforto de Bernardo. – Este é o meu. – Apontou para a porta a direita, exatamente em frente a de Bernardo. – Se precisar de alguma coisa… – virou-se de frente para o rapaz e aproximou tanto o rosto do dele que seus narizes quase se tocaram e o garoto sentiu uma vontade enorme de se encolher, contudo, estava paralisado. – Não me procure! – O coroa terminou a frase meio que rosnando e Bernardo suprimiu um arrepio por puro orgulho.

Alguns segundos se passaram sem que nenhum dos dois se movesse, até que Bill sorriu e suas feições duras se transformaram.

– Descanse um pouco, rapaz! Você parece pronto para cair a qualquer momento! – Uma mão pesada espalmou as omoplatas de Bernardo e a tensão se dissipou. Enquanto o homem se afastava e erguia a mão em direção a maçaneta da porta que lhe pertencia, Bernardo sentia que havia acabado de ser submetido a um teste e, que, por um milagre, fora aprovado. – Uma dica: dê uma boa olhada aí dentro antes de se largar em cima da cama e entrar em coma. Saiba exatamente onde está cada coisa, até mesmo as partículas de poeira. – Disse, enquanto abria a porta e a batia com força. E Bernardo ficou se perguntando se vira mesmo o velho piscando para ele, antes de o aço atingir o batente, ou se fora apenas coisa da sua cabeça.

Ele encontrou o telefone via satélite escondido no duto de ventilação, debaixo da cama de armar. Ele não sabia bem como pensara em procurar por lá, mas, depois de uns cinco minutos de busca ele já havia esgotado todas as possibilidades. O “compartimento” como Bill o chamara, não passava de uma caixa de fósforo de uns 3×3 metros. Além da cama, com alguns cobertores grossos para afastar a umidade do local, só havia uma cômoda com cinco gavetas e uma mesa, que podia servir de escrivaninha ou para refeições, ele não estava bem certo.

Depois de procurar dentro das gavetas e debaixo do colchão, Bernardo se rendeu aos instintos e acabou encontrando o duto. Sua ideia inicial era ver se poderia usá-lo para tentar sair dali, mas, quando retirou a grade com a ajuda do cordão “dogtag” que seu pai lhe dera quando ele tinha oito anos. O cordão pertencia a seu tio, Bernardo, que morreu antes de ele nascer e cujo nome o garoto herdara.

Enquanto segurava o aparelho, Bernardo pensava nas coisas que Bill lhe dissera. Será que o homem sabia sobre o telefone? Será que fora ele quem o colocara no duto? Mas, se assim foi, então por que não entregar pessoalmente? Antes de chegar a qualquer conclusão, o garoto se rendeu ao cansaço e apagou em cima da pequena cama.

 

4:15 da manhã de sábado.

Primeiro, veio a confusão. Ainda preso a inconsciência, Bernardo acreditou que fora tudo um sonho. Por alguns segundos, tudo havia voltado ao normal. Até que ele percebeu que os lençóis sob o seu corpo eram ásperos demais, seus pés ficavam para fora da cama e até mesmo o ar cheirava diferente. Uma mistura de mofo e poeira. De uma só vez, as lembranças o atingiram e o fizeram arregalar os olhos. A lanchonete de Zezinho, o tiroteio, a fuga, o carro, seus pais. Bruna.

Bruna. Bruna. Bruna.

Antes que ele pudesse se entregar a dor ou ao ódio por sua irmã, Bernardo percebeu o que o despertara. O celular vibrava fortemente debaixo de seu travesseiro. Ainda relutante, ele pegou o aparelho e, sem esperanças de reconhecer o número, atendeu.

– Hora de acordar, Bela Adormecida! – Foi o que se seguiu ao “alô” grogue do garoto. A voz forte e rouca era ao mesmo tempo estranha e conhecida. Ele não sabia dizer quem era, mas, tinha certeza de que já a ouvira antes. – Nós temos muito o que fazer hoje e você tem muito o que entender.

– Quem diabos está falando? – Com um humor tão bom quanto um urso que acabou de sair da hibernação, Bernardo gruinhiu.

– Erro meu, rapaz. É que achei que começar com “olá, aqui é o seu verdadeiro pai” seria chocante demais.


Categorias: Conto em Conjunto,Contos |

15 Comments»

  • Belle says:

    Muito bem, depois de tanta enrolação, cá está o meu capítulo.
    .
    Como eu disse antes, ele está enorme. E era até pra estar maior, mas, achei que nove páginas já seria correr um risco mais do que desnecessário de ser apedrejada por vcs, então, parei por aí. Além do mais, eu já estava praticamente escrevendo o resto da história sozinha, pq essa mania ridícula de me empolgar. Começo com um rascunho de três parágrafos e, quando vejo, já estou pensando em quantas páginas esse romance deveria ter.
    .
    Acontece que foi difícil me desapegar pq eu sei exatamente como o diálogo entre pai e filho se desenrola, o que acontece a seguir entre a Bruna e A Senhora, sei quem são aliados de Bernardo-pai nessa luta e, mais importante do que tudo, sei a verdadeira importância de Bernardo-filho nessa história, haha… Ou pelo menos eu achei a minha ideia pra isso bem foda! Tem algo além do fato de ele saber controlar o programa. Aliás, espero que gostem de como eu o fiz descobrir isso.
    .
    Mas, vamos lá, a graça da brincadeira é essa imprevisibilidade. Quero ver o que vão fazer com o que eu dei a vcs. Espero que não se importem com o que eu fiz com a Bruna. É que sou fã de grandes heroínas e eu vi poder nela, logo na primeira cena em que ela apareceu. Além disso, ela e o Zezinho são os meus preferidos. Ambos são mais do que aparentam.
    .
    Espero que gostem e não percam a paciência no meio do texto. 😉

  • Ai… tô louca por uma brecha aqui no trabalho para ler! Bjins

  • Evandro Furtado says:

    Muito bom Belle. Ficou grande é verdade, mas ficou do tamanho exato. Se tivesse cortado mais, poderiam se perder informações interessantes. E não se preocupa, todo mundo se empolga quando começa a escrever. Quero ver o que vai se desenrolar nessa conversa pai e filho (finalmente).

    • Belle says:

      Pois, é!
      .
      Cara, praticar o desapego aqui deve ter sido tão difícil pra todo mundo quanto foi pra mim. Fico feliz de que tenha curtido. Eu realmente estava apavorada! Esse foi o texto mais difícil que já escrevi, pq é totalmente diferente de tudo o que já fiz.

  • Tenho o gosto de um moleque de oito anos, curti o paralelo entre o Ber e o Hulk, além da frase vc fez isso tb com o esquema de contenção do alojamento. Errei?

    E nem se preocupe com a extensão, porque o leitor a essa altura do campeonato já está muito envolvido com a leitura, nem liga.
    Vamos ver o que vai rolar na festa da uva, já que a Cassia estará impossibilitada de comparecer.

    • Belle says:

      Eu também sou molecona! E meio nerd. Então, precisava ter essa referência com o Hulk.
      .
      Quanto ao alojamento… Sim, eu quis brincar com a ideia “dormitórios ou uma prisão?”. Queria que o Bernardo se sentisse acuado e preocupado, pensando se esses caras são outros vilões ou heróis.
      .
      Eu tinha esquecido completamente que a Cássia foi pega pelo Manson. Ainda bem que não ficou exatamente um buraco, já que pode-se dizer que aquilo aconteceu depois da conversa com Renato.

      • Saquei, o paralelo entre os personagens é legal pq pega uma leitura inteligente do Ruffalo quando fala “estou sempre com raiva”, o morenão poderia ter feito n interpretações dessa fala e optou pelo ar de sofrimento q amarra com o inicio de sua aparição em os vingadores, lá na índia, tipo “eu sofro, mas muitos irmão tb sofrem, então eu aguento e tento fazer algo por todos”. O Ber tem sido um tanto egocêntrico, a vida dele perfeita acabou mas não foi só a dele, então ele realmente precisava aprender a colocar-se no lugar de outro.

        Outras considerações sobre o núcleo familiar Cássia, Sara e Carolina: no meu capítulo resolvi dar outro significado a risada de Cássia ao saber do interesse de Zimmer em Hitler, no capítulo 3, já que ela é a Grande Mentirosa, o q consideramos como um deboche pode ser qualquer outra coisa, a nega ñ é confiável. Aproximei Cássia do nazismo e não sei se vc notou quando batizou a mãe da Carol, optou por um nome judeu comum. Ou seja, nazista, gay e apaixonada por uma judia? Ela fica uma vilã cada vez melhor!

        • Belle says:

          Maria,
          Eu jurava que o nome Sara havia sido dado por outro autor… Pra mim ele estava naquela lista que vc ia atualizando com os personagens vivos e mortos. Eu batizei a mãe adotiva da Carol e nem percebi, hahaha!
          .
          Mas, sinceramente, se tivesse feito conscientemente, não teria me atentado para a origem do nome…

  • “Nem se preocupe com a extensão, porque o leitor a essa altura do campeonato já está muito envolvido com a leitura, nem liga.” [2]

    Sim, ficou muito bom. Gosto de textos densos assim. Não acho arrastado nem chato de acompanhar. Prefiro esse ritmo mais lento, porque consigo imergir mais profundamente na história.

    Gostei de como ele aprendeu a “ligar-desligar” o modo supersoldado. Não sei se era esta a intenção (talvez seja só minha interpretação), mas o que, para mim, serviu de estopim para o aprendizado foi ele rever a Bruna e perceber que queria protegê-la. Seria algo como: ok, ele tem o poder, mas para que esse poder não fique incontrolável, é necessário um propósito também – no caso, proteger o que lhe é precioso.

    Esta pergunta que a Cássia propôs é bem pertinente: “Sairemos uns atrás dos outros para ver quem chega primeiro?”. Pois é! Como ela, também creio que essa guerra não pode terminar com um embate de forças direto. Sim, aparentemente todos os lados conseguem participar de um confronto nesse sentido, mas teria menos graça se acontecesse dessa maneira. Cada grupo tem se mostrado já extraordinariamente inteligente (o Zimmer menos, ok), então meu voto é por uma resolução envolvendo ardis e golpes de mestre – mas não tenho ideia de quais seriam eles. 😛

    Posso dar continuidade ao diálogo entre o Bernardo filho e o pai. Provavelmente não vou seguir o rumo que vc tem em mente, Belle, mas já estou com algumas ideias.

    • Belle says:

      Bem, eu fiquei com medo pq o meu capítulo “quebrou” a agilidade com que vcs vinham escrevendo. Os diálogos são poucos e quebrados pela descrição do momento e dos sentimentos. Mas, eu não consegui mudar isso, até tentei, mas, forçar algo que não era natural para mim estava tornando impossível escrever. Por isso a densidade, mas, eu estou feliz com o resultado.
      .
      Também acho que a ideia do programa seja essa, afinal, ele foi criado pelos próprios pais das crianças e, tirando a vaca da Cássia, não acredito que eles tinham a intenção de transformar seus filhos em zumbis inanimados. Acho que cada “anão” terá o seu próprio “liga/desliga”, mas, pelo Bernardo ser diferente dos outros, por ele conhecer os caminhos para controlar o programa, como foi dito num outro capítulo, pra ele foi até meio fácil. O sentimento de controle foi a proteção e o amor pela irmã. Acho que uma das coisas que o torna tão importante na história é que ele é quem pode ensinar os outros a sobrepujar o programa tbm. Portanto, para mim, ele o Mestre.
      .
      Mas, na minha cabeça, ele tem outra importância tbm. Algo relacionado a própria criação dos “anões” e que envolve totalmente o Zezinho. Enfim…
      .
      Rodrigo, eu acho que conheço os ardis e golpes que solucionariam essa luta. A ideia inicial era colocar tudo nesse capítulo e deixar que os próximos usassem isso para dar fim a história, mas, o capítulo acabou ficando enorme mto antes de eu conseguir colocar mais do que duas das ideias que tive… :/
      .
      Sei que a conversa não vai mais pelo rumo que eu imaginei, mas, já superei isso. Ou quase. 🙂

  • J.Nóbrega says:

    Adorei.
    .
    Conseguiu trabalhar muito bem na relação de Bernardo com Bruna, tanto que cheguei a sentir a dor dele e pensar na minha irmã kkk eu tava lendo e pensando “não importa que tenha crescido ela sempre será minha pricesinha” hehe
    .
    Ando sem tempo para dar continuidade, vou esperar vir o próximo e trabalhar as ideias que estão na mente.

  • Lucas Valadares says:

    Bah, muito foda! Muito mesmo! Gostei demais. Finalmente eu vi a continuação do diálogo do Renato e da Cássia, e ficou muito bom. A relação do Bernardo com a Bruna e com a Carol também foi muito bem explorado. Aliás, você deu uma ótima profundidade emocional para o personagem. Sua primeira participação no X está sensacional!

    Adorei o final, foda. Gostei de tudo, na verdade!

    • Belle says:

      Caramba, Lucas, fico feliz que tenha aprovado, haha!
      .
      Vc andou tão sumido que fiquei com medo de que tivesse nos abandonado. Tbm fiquei com muito medo de que tivesse sido muito descritiva no meu capítulo, mas, é o meu estilo. Ao contrário do resto da galera que prioriza os diálogos, eu gosto dos pensamentos mais íntimos de cada personagem. Gosto do panorama geral da cena e tal. 🙂

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