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Publicado por afmartins

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Mar
25
2015

Risten – A Segunda Revolta : #001 A vida no Oeste

Arco Um – A vingança nunca é o primeiro passo; e não deve ser o seguinte.

Dezembro, 1890

O dia amanheceu com uma densa névoa no vilarejo Do Sentimenteiro – que tem esse nome em homenagem a um intessor que teria confinado um doon que tornava aquela terra infértil.

Rasgando a neblina com seu machado nas costas e puxando uma galinhota, Nilre Peat seguia em direção a mata. O sol que acabara de nascer mal servia de iluminação enquanto o carpinteiro escolhia o mogno a ser cortado.

Após muitos golpes de machado caía sobre a terra o imponente tronco produzindo um enorme estrondo que fez os pássaros do arvoredo levantarem voo.

– Bom dia. – respondeu Nilre ao canto das aves.

Um, dois, três troncos. – É o suficiente, pro mês – pensou, sentado em um deles. Em seguida ergueu-se e se pôs a fatiar em toras largas os troncos de mogno. O sol já estava quase exatamente acima de sua cabeça calva quando Nilre decidiu dar por encerrado o trabalho, por hora. As mesmas mãos que espancavam a machadadas o mogno mais tarde fariam daquelas toras as mais belas portas e janelas, dentre outras coisas.

Nilre deixou o material em sua marcenaria e entrou em casa, faminto, sem antes dar um afago em Rhan, o cão, que comumente estava na varanda da casa com seu aspecto cansado mas atento a tudo. Estranhando a calmaria, Nilre seguiu até a cozinha.

– Querida! – saudou sua mulher, Loare Rori Peat, que remexia a lenha do fogão onde aparentemente fazia um ensopado.

– Amor – virou-se e espantada disse – Mas que imundice! Trate de se lavar ou nada de almoço.

-Ah, sim. Claro. – encabulado – Mas, diga, onde estão as crianças?

– O Letro foi pra escola mais cedo e ainda não deu o horário de buscar a Violess. E esse ensopado me deu um trabalho! – entreolhou Nilre, com expressão abatida e disse – Mas ande! Tome um banho para almoçarmos. – esbravejando, ele a obedeceu.

Nilre e Loare formavam um casal harmonioso e juntamente com seus dois filhos viviam afastados do restante do vilarejo. Há mais ou menos trinta anos uma moça cheia de sonhos encontrou um jovem valentão e que, não de imediato, se apaixonaram e com o tempo um foi moldando o outro. Ele moldou mais do que ela, afinal, é um entalhador.

– Que maravilha! – exclamou Nilre, dando a última colherada.

– Que bom que gostou, amor. – sorrindo. Ele sorriu de volta e disse:

– Você não está esquecendo de nada?- Loare desmanchou o riso e exaltada lembrou-se:

-Minha filha! – saiu às pressas.

 

Depois de um longo cochilo Nilre se aprontou e foi até o centro fazer compras, como raramente faz.  Já com as bolsas cheias, foi até a taverna. Ao entrar o pai de família olhou com indiferença todos aqueles bêbados e gente mal-encarada que ali frequentava,  no entanto, o dono, senhor Drephin, era um antigo amigo.

– Hey, olha quem deu as caras por aqui! – disse o cachaceiro, estendendo os braços para um abraço.

– Como vai, meu amigo? – disse Nilre dando um forte abraço em Drephin.

– Bem, como se pode ser. – e no meio do abraço – Argh! – grunhiu o taverneiro. Nilre olhou apreensivo, mas logo sorriu dizendo:

– A velha dor no ombro, não é?!

– Mas é claro! Desde aquele dia insano eu – ajeitando a proteção no ombro – nunca mais fui o mesmo. – explicou Drephin.

– Nem me fale. – disse Nilre desviando o olhar para baixo como se lembrando de algo desagradável. Drephin cortou o silêncio dizendo:

– Ouça; – diminuindo o tom de voz – existem coisas que fazemos por achar certo e depois, percebemos que não era o ideal. Mas, porque se abater pensando em como poderia ser se, agora, tudo está bem? – e sem deixar seu amigo abrir a boca, concluiu – Não precisa responder. Bem, você não veio até aqui apenas para visitar um velho amigo, veio?

Um tanto desconcertado, Nilre disse:

– Certamente poderia, mas não. Vim buscar um bom whisky, nesse frio não há coisa melhor.

 

Com tudo aquilo que pretendia no vilarejo Nilre retornava para casa quando se lembrou de uma coisa; o jornal. Seguiu até o papeleiro. Com um olhar enviesado, o papeleiro, Sr.Guterg, o notou adentrando seu estabelecimento, e disse:

-Veja só! Se não é o Sr.Peat, é ele mesmo? – perguntou a seu ajudante, enquanto Nilre parou e franziu  o olhar – Sim, é ele! O urso hibernador. A baleia das profundezas. O leão montanhês. Sabe, dizem que cada vez que o senhor vem a cidade surge uma nova estrela. E eu não tenho visto tantas estrelas no céu ultimamente. – Nilre interrompeu da caçoação aparentemente sem motivos, dizendo:

– Acho que você devia parar de olhar para o céu e enxergar seu caminho. Do contrário pode tropeçar e não levantar mais. – fixando o olhar em Guterg, que ficou paralisado. Nilre seguiu até o balcão.

– S-sr.Peat, sinceramente, se não fosse seu exímio trabalho de madeireiro e não saberia quem és. Não me leve à mal. – insistiu.

– Eu sou um artesão. E você um papeleiro. Dê-me o jornal deste mês e feche a matraca, por favor. – O vendedor puxou o exemplar e o pôs no balcão, dizendo:

-São vinte e cinco teniris.

-Vinte e cinco?! – se assustou.

-O mês começou a três dias – justificou – se quiser, leve o do mês passado por quinze.

-Pois bem. – disse Nilre, levando consigo o jornal do mês anterior e despejando o pagamento no balcão.

 

O céu já se escurecia quando Nil abria a porta de casa, trazendo a irritabilidade de uma simples ida ao centro, que ainda relembrou uma parte desagradável de si mesmo. Nilre chegou afim de valorizar aqueles que o amam, sua família.

– Mas que frio está fazendo lá fora. – disse, ajeitando o casaco na cruzeta.

– Como se não bastasse está ventando como nunca. – disse Letro.

– Oi, filho. Que bom que está em casa. – virou-se procurando o menino, que já havia atravessado a casa até a cozinha, pego um pedaço de bolo e algo para beber e estava a subir a escada, até seu quarto, quando seu pai o interrompeu, dizendo:

– Letro, venha cá. Agora. – em tom autoritário, olhou seriamente para o jovem que se encaminhou a ele e continuou – Olhe para você, meu filho.

– O quê? Tá sujo? O quê? – indagou o rapaz, se olhando, de boca cheia.

– Não .. você é um homem já! – Letro não sabia o que falar, apenas engoliu essa frase junto da fatia de bolo. Nilre o abraçou, dizendo:

– Você já não é mais aquele menininho chorão que eu carregava nos ombros, agora é um rapaz forte e decidido. Que orgulho! Precisamos passar mais tempo juntos meu filho. – desfrutando do forte abraço que recebia, Letro percebeu que, realmente, andava afastado por demais da família, e disse:

– Não se preocupe pai, eu vou estar sempre aqui. – quando finalmente soltou-o, Nil disse:

– E da próxima vez que sair mais cedo sem dar ao menos um bom dia para seu pai, bem.. Não faça mais isso!

– Pode deixar pai – sorrindo, e imediatamente disse, subindo novamente a escada – agora preciso ir, tenho que terminar uma tarefa da escola, boa noite!- deixando Nilre em pé, no meio da sala, pensando que logo o filho iria pro mundo, fazendo o ensino superior. Loare se aproxima dele e diz:

– Que cena mais linda! Confesso que fiquei um tanto enciumada, mas é bom ver que nosso filho está crescendo e não esqueceu dos valores que o ensinamos.

– Verdade. Por mais que não queiramos, eles crescem.

– E mais rápido do que conseguimos perceber. – completou.

– Por falar em crescer, onde está minha princesinha? – perguntou a sua esposa.

-A Violess já está dormindo, meu bem. – respondeu Loare, enquanto sentava-se em frente a lareira, acompanhada por seu marido.

Após ficar acordado até tarde da madrugada fazendo tarefas escolares, Letro, o filho do meio da família Peat precisou ser acordado para começar o dia.

– Filho. – com voz suave sua mãe o chamou e, sem sucesso, insistiu: Filho acorda. – dessa vez dando uma sacudidela no sonolento, o suficiente para fazê-lo abrir os olhos, e novamente fechá-los.

– Eu já to indo, mãe.

– Depressa! Você é totalmente o oposto de sua irmã, viu? Ela não faz manha para levantar e já está na escola.
– O correto é que ela é oposto de mim.
– Que seja! E arrume esses papéis. Seu pai precisa de sua ajuda na marcenaria. – Loare ordenou.

– Bom dia para você também! – O rapaz resmungou, ainda nas entranhas dos lençóis.

– Bom dia, querido! – disse sua mãe, antes de sair do quarto.

Letro desceu a escada e seguiu até o lavadouro. No caminho, espiou pela janela do corredor seus pais sentados na mesa do quintal, repleta de pães, leite e um caldeirão esfumaçante no centro. Ele juntou-se aos demais e disse:

– Ah, mas que dia lindo está fazendo!

– Hm, pelo visto acordou animado. Qual seria o motivo dessa empolgação? – Loare perguntou tendenciosa. No mesmo momento Nilre abaixou o jornal que tapava sua face, aguardando a resposta do filho, que disse:

– Nada em especial mãe. Sabe, a boa vontade de viver é autossuficiente. – Sr. e Sra. Peat se olharam, como quem estranhava a afirmação, mas ainda assim pareciam contentes. Ele continuou, abocanhando um pão de gengibre:

– Mas, se precisarem de um motivo; as aulas estão acabando, enfim!

– Ora, mas o que eram todos aqueles papéis em seu quarto? –  Loare questionou.

– Ah, o professor Roymo. Ele insiste nas aulas prolongadas e aplicadas mesmo quando a turma toda já se formou. – abocanhou mais um pão, já enchendo um copo de leite.

–  Eu acho que você deveria aproveitar ao máximo, ainda que esteja acabando. E não ficar reclamando. – sua mãe o repreendeu.

– Mas mãe, já não há mais o que aprender! – cutucando Nilre, ela disse:

– Nil, tire a atenção desse jornal e fale alguma coisa! – irritada com tal imparcialidade.

– Meu amor, me desculpe! – indignado com a interrupção de sua leitura – Filho, você já se formou?

– Sim. – respondeu, e Loare olhava aquela cena incrédula no diálogo.

– Então me passe esses pinhões. – Letro entregou-os – Obrigado. – finalizou Nilre.

Sem chances em retomar o assunto, ela perguntou ao seu marido:

– E então, o que tem nesse jornal que tanto prende sua atenção?

– Hm..– rufou, acabando de ler a frase antes de realmente responder – As coisas não estão boas pro lado da capital. Acredita que houve mais um ataque de caniano? “Os olhos vermelhos”. Essas pragas parecem que estão se propagando.

– Minha nossa. E como foi? – disse, enquanto Letro, como de costume, se empanturrava de pães, leite e pinhões.

– Bom, diferente do último ataque que só teve animais como vítimas, desta vez duas pessoas foram mortas. – Nilre informou, com voz grave e Loare fez cara de quem estava impressionada, dizendo:

– Pelo menos essas coisas estão longe daqui, afinal os ataques só acontecem em Portual.

– Sim, mas, todo cuidado é pouco. Esses bichos não parecem ter motivos ou trajeto para agirem como agem. – temeroso por sua família, continuou – Essas pragas. Imundos entregues a maldição. – quando foi interrompido por seu filho:

– Maldição? Que pensamento primitivo, pai. Eu estudei sobre genética e, esse tipo de ser aparentemente é uma mutação de algum animal. Lobo, ou urso.

– Isso não muda o fato de que devem ser exterminados. Criaturas sanguinárias – encerou Nilre.

O silêncio pairou sobre a mesa, sendo interrompida somente por um pio de falcão-de-coleira, distante. Ao terminar o gole no chá, Loare, apreensiva, declarou:

– Vocês dois, escutem aqui! Essa família nunca fez mal a ninguém, pelo contrário, estamos sempre ajudando quem precisa. A escola de Violess, a senhora Rona que a pouco teve sua plantação exterminada, a creche da Vó Pullina .. Isso sem falar que, enquanto muitos por aí vendem mercadorias inferiores por preços abusivos, Nil faz questão de vender pelo preço mais justo possível. Portanto, tenho certeza que Jezan não deixaria que algo de ruim houvesse conosco. – Letro fez expressão tediosa e Nilre observava Loare, com rara determinação e vivacidez na voz. Ela que, daquela família, era a única a ir regularmente ao sentimentário, do outro lado do vilarejo.

– Disse bem, querida. É uma mulher de fé. – falou Nilre. E antes que houvesse espaço para mais conversas, ela terminou, sorrindo:

– E por falar nisso, preciso ir ao sentimentário. Cuidem-se meninos. – e levantou-se seguindo até a casa, buscar seu livro das Origens. Após ver sua mulher desabafar, Nilre falou:

– Letro, nós sabemos que sua mãe é, digamos, propensa a essas crendices. Aliás, a maioria desse povoado parece ser. Por isso lhe peço, por mais que nós sejamos mais realistas, não desdenhe de sua mãe quando ela demonstrar a fé em Arkheo, Jezan e no livro sagrado.

– Perdão, pai. É que eu vejo nessa fé cega o principal motivo da estagnação de nossa nação. – Nilre abaixou o jornal na mesa – Eu vejo muita gente miserável jogada pelas ruas. Eu ouço falar sobre a fome que assola as terras mais a leste. E todo esse povo crendo fiel e indiscutivelmente no sentimentismo. O Grapa não parece querer fazer algo realmente sobre isso tudo. Apenas fala que é passageiro, uma provação. Que é para todos rezarem para Arkheo e Jezan. Isso me irrita!

– Tem razão, filho. Mas ao menos pense; se não fosse a fé, a loucura já teria tomado conta de todos.

– De qualquer maneira, todos já parecem bastante loucos para mim. – Nil torceu as sobrancelhas e indagou:

– Por que diz isso? – Letro olhou para o lado, pensou e virou-se novamente, dizendo:

– Esquece isso, pai. Vamos para a loja se não nos atrasaremos. – Nilre concordou com a cabeça e mesmo estranhando falou:

– Pois bem, vamos. A loja não abre sozinha e estamos esperando um comprador.

E seguiram até a lojeta, após um estendido café da manhã.

 

 

Wou-wouf  – com um latido abafado, Rhan anunciava a chegada de um estranho, o senhor Yfo.

Nilre foi até a porta recepcioná-lo.

– Bom dia, Sr.Peat!

– Como vai, Sr.Yfo?

-Bem, bem. Muito bem. Perdoe-me pela demora. Essas carruagens não foram feitas para os terrenos irregulares daqui Do Sentimenteiro. – sorrindo, respondeu Yfo.

– Infelizmente, Sr.Yfo, o progresso custa a chegar aqui. Até o ano retrasado eu precisava ir até Meio Quilate para conseguir complementos de metal para minhas mercadorias.

– Ora, Sr.Peat, é injusto que algumas cidades progridam mais que as outras, evidentemente. Mas, este local tem seu brilho. De qualquer forma, o progresso está chegando. Guarde minhas palavras.

– Pensando bem, eu prefiro meu interior que a agitação da cidade. Mas venha, suas cadeiras estão nos fundos.

Ao chegarem ao fundo da loja, Nilre deu um sinal para que Letro abrisse as janelas que iluminaram o trabalho primoroso.

– Mas, que maravilha, Sr.Peat! Realmente, estava descrente quando Barão Fegal disse-me que os melhores móveis de madeira eram feitos por alguém numa cidadezinha dessas! – disse Yfo, mesmo em tom menosprezante para o sorriso amarelo de Nilre.

Pai e filho adentravam novamente a loja, após se despedirem do Sr. Yfo, quando Letro observou o relógio de corda na parede – feito por Nilre, por sinal – e disse:

– Ei, já é quase onze horas, pai. – retirando o avental – Vou me arrumar para a escola.

– Tudo bem, pode ir. E obrigado pela ajuda com as cadeiras.

– Claro, pai, sem problemas.

Nilre então ficou trabalhando em sua loja, enquanto Letro se encaminhava para casa se aprontar para, em seguida, ir para seu último dia no Instituto de Pedra Triste, na vila vizinha.

 

No sentimentário, Loare, prostrada diante da imagem dOs Elevados, concentrava sua fé em pedidos silenciosos a Jezan, após ouvir as palavras de Fago, o intessor dali. Em pensamento, ela dizia:

– Jezan, protetora dos homens, tens visto o quanto lutei até hoje. Apesar de algumas quedas me mantive em pé, crendo sempre em ti. Agradeço pela família que hoje tenho, por meus filhos e, especialmente Letro, do qual tenho muito orgulho. Bonifica minha família como nós merecemos. Graças à Arkheo. – ela abriu lentamente os olhos e viu que aqueles que acompanhavam o discurso do dia já não estavam mais ali. Ao se levantar e dirigir-se a porta do sentimentário, foi chamado por Fago, que disse:

– Srª. Peat. Por favor. – fazendo sinal para que ela fosse até ele, no venerário. Ela foi, e falou:

– Sim, intessor.

– Bem, vejo que você parece aflita com alguma coisa. Gostaria de conversar? – Loare o olhou fixamente por alguns segundos e, ao ouvir aquela frase, desabafou:

– Intessor, eu sinto um vazio tão grande dentro de mim. – ele, piedoso, se pôs a ouvir atentamente a mulher. – Não sei explicar. Tenho uma família bela, cheia de harmonia, um marido amoroso e filhos que só me dão orgulho, tenho amigos e sou feliz com a vida que tenho. Mas, algumas vezes, fico pensando no rumo que tomou minha vida. Sabe? Quando jovem eu tinha muitos sonhos e aptidões, tudo parecia encaminhado para uma trajetória quando tudo mudou. E-eu.. Não sei. Parece que foi retirado algo de mim. – Fago pensou e confortou Loare:

– Srª. Peat conheço sua família. Sei o quanto eles a amam e, sei também, perfeitamente, o que está sentindo. Peço que não falte a reunião de amanhã, terei uma palavra de Jezan para você.

– Oh, obrigada Fago, estarei aqui. – disse Loare, que se despediu do Intercessor, sem antes ser aclarada por ele.

 

Loare seguiu até a casa de sua amiga, Rona. Ela chegou perto da portinhola, exclamando:

– Senhora Rona! Sou eu, Loare. – quando uma pequena garotinha olhou pela janela com cara de assustada e em seguida desapareceu. Rona então surgiu na porta de casa, abrindo um  sorriso, e foi até a onde estava Loare, e disse, deixando-a entrar:

– Senhorita Peat, que bom vê-la. Como está bonita!

– Oh, bondade sua, amiga. – enquanto já atravessavam o quintal até casa.

– Não seja modesta, é uma das moças mais bonitas dessa vila.

– De qualquer forma, obrigada. – e ao entrarem realmente na casa, Loare pode ver melhor a menina assustada de antes:

– Que donzela mais bela. Qual seu nome? – perguntou a garotinha que, tímida, se refugiou atrás da saia da senhora Rona, que disse:

– Não fique envergonhada, Tieny, diga “olá” para a senhora Peat. – ordenou para a acanhada moçinha, mas sem sucesso, e continuou – Ela é assim mesmo com pessoas novas, é filha de minha irmã, veio passar o final de semana com a tia. – Loare pôs as mãos no rosto de Tieny e disse:

– Tenho saudades do tempo em que minha filha era tão fofa quanto ela. – agora se erguendo, disse para Rona – Senti sua falta na reunião de hoje, por que não foi?

– Eu tive que buscar a Tieny na estrada, justamente na hora do início do discurso no sentimentário. Vamos até a cozinha. – no caminho até lá, Loare disse:

– Amiga, não deixe de ir. E como está Masi?

– É. Daquele jeito ainda. – disse Rona, servindo chá.

– Você é jovem. Se o Masi continuar assim, é melhor que se separem o quanto antes.

– Ele não é assim. Sei que Jezan há de mudá-lo, novamente.

– Eu sei amiga, mas, não deixe que ele se sobreponha a seus sonhos.

Ela concordou com a cabeça, dando um gole no chá, acompanhado por Loare, e em seguida disse, colocando a xícara na mesa:

– Vamos até a lavoura, tenho uma surpresa para você.

Apressadamente as duas foram até lá, onde havia uma cesta de legumes e folhas muito bem arrumada por Rona, que disse:

– É para você, Loare. Como agradecimento a ajuda que vocês nos deram quando aquelas lesmas gigantes acabaram com a plantação.

– Obrigada Rona, são.. Lindas. – e sorriu, abraçando sua amiga, que disse:

– É o mínimo que poderia fazer. – E após a entrega do presente, Loare brincou:

– E agora só preciso chamar o Nil para carregar isso tudo até em casa!

 

 

Após uma longa caminhada até a estrada, onde pegaria o transporte de boi-corcunda, Letro aguardava para seu último dia de aula. E aproveitou o tempo sozinho para lembrar dos momentos que viveu com seus amigos esse ano. No entanto, não demorou muito para que os imponentes animais chegassem puxando a estendida caleça.

– Boa tarde, Seu Wiono. – Letro saudou o guia, que respondeu:

– Boa tarde, Letro. E cuidado com o degrau, em! – avisou, com tom de brincadeira, em alusão ao costume que o apressado aluno tinha de tropeçar naquela escadinha.

– No último dia de aula, Seu Wiono? – brincou Letro, para a gargalhada do velho, adentrando finalmente. Ao se encaminha a seu lugar, os olhos de Letro buscavam alguém. Letro sentou-se ao lado de seu amigo.

– Oi, Letro. – Talne, que segurava um manuscrito, o cumprimentou.

– Diga lá, Tal! Ainda escrevendo esse livro?

– Se com “escrevendo” você quis dizer revisando, recriando e desistindo. Sim, estou. – disse Talne, para o riso do amigo. – Mas, agora, sem as aulas, eu termino. Espero.

– Ah, tá. – após um breve sorriso, Letro perguntou:

– É.. A Haysle. Sabe se ela vai a escola hoje?

– Não sei, companheiro. Mas ela parecia bastante tensa ontem, no fim da aula. Você sabe.

– É. Pois, estávamos tão bem e ela mudou o comportamento subitamente. Eu não entendi muito.

– Mulheres, amigo. Mulheres. – disse Talne, sem desviar o olhar dos papéis.

Ao chegarem no grandioso Instituto de Pedra Triste, os amigos se encaminharam para sua sala. Letro viu Haysle sentada na frente, onde costumava sentar e antes que pudessem falar algo o professor de história e geografia, Darve Senlou, disse:

– Ei, rapazes. Sentem-se. Vamos começar a aula. – encaminhando os garotos aos lugares. Haysle esboçou um leve sorriso para Letro, que sentou-se um pouco mais atrás.

– Muito bem, turma. O último dia de aula.  Aqui estamos. – disse o professor, pausadamente, para o riso da maioria. E continuou – Foi um ano longo, difícil para a grande parte da turma, no entanto, vejo que estamos todos tranquilos, afinal, a aprovação foi unânime.

– Uhul! – gritou Elnno, do fundo da sala, provocando gargalhadas em alguns, inclusive no Sr. Senlou, que prosseguiu:

– Eu não tenho nada a dizer a não ser: parabéns! – E a classe espontaneamente aplaudiu.

– Ah, obrigado. Sei que sou um excelente professor, que vocês me amam. – brincou Darve.

– Professor, vai ter aula hoje? – perguntou Talne.

– É .. – Darve fez um singelo mistério – Não. Eu não darei aula hoje. – Informou o professor, para delírio da turma. Ele continuou:

– Pois bem, eu gostaria de saber o que cada um de vocês pretende fazer no ano que vêm. Alguém quer falar? – a turma fez um breve silêncio, alguns se entreolharam, e Haysle levantou a mão.

– Diga, Haysle. Eu já imagino o que seja, mas diga. – falou Darve. Haysle disse:

– Eu pretendo me especializar em geografia, no Centro Formador de Portual.

– Oh, excelente escolha Hays, tenho certeza que conseguirá. Mais alguém quer falar? – a turma mais uma vez se calou, possivelmente ninguém tinha realmente certeza daquilo que pretendia. – Vamos lá, pessoal. É, você! – Darve apontou para Talne, que disse:

– Professor – sorriu – eu estou escrevendo um livro. Mas, quero estudar história.

– Ora, vejam só! Uma faceta interessante e desconhecida do Sr. Layes. E sobre o que é seu livro?

– Eu não sei. São muitas coisas juntas. Impossível definir. – todos riram.

– De qualquer maneira, boa sorte. Vocês estão muito influenciados por mim, não acham? Uma geógrafa, um historiador. Alguém de matemática, química, botânica? – Enquanto dizia, Suza levantou a mão. – Sim. – concluiu o professor.

– Eu farei matemática na cidade Central. – disse Suza, esperançosa.

– Viram? Existem loucos por aí. – Darve sarreou, e imediatamente disse:

– Brincadeira, querida, boa sorte também. Perbo, o que você pretende fazer?

– Vou ingressar no militarismo.

– Belo trajeto, Perbo. Letro?

– Eu? Quero ser advogado, em Portual.

– Nossa! Mantenha contato caso eu precise me livrar de uma enrascada! – Disse Darve, em tom de gozação. – Mais alguém gostaria de falar? – a turma, novamente, se calou. – Ninguém? – insistiu Darve – Tudo bem. Eu vou ali fora pegar uma água e já volto.

Assim que o professor saiu da sala, a turma caiu no papo.

– Advogado? – Haysle disse a Letro – Não seria jornalista?

– Sim, mas mudei de ideia. Aliás, uma coisa não anula a outra, anula?

– Não, claro que não. – ela sorriu, no momento em que o professor Darve retornava a sala. E disse:

– Turma, gostaria que recebessem o Diretor Linamo. – e deu passagem para seu superior, acompanhado de um outro. O homem se posicionou de frente para todos, e declarou:

– Boa tarde, jovens. – a turma observava apreensiva. A figura de Linamo era muito respeitada dentro da escola e, sempre que aparecia era para informar algo importante. Ele continuou – Primeiro gostaria de dizer, em nome de todos os professores, coordenadores e inspetores, o orgulho de termos uma turma cem por cento de aprovação. – os alunos, orgulhosos, se olharam sorrindo. – E mais ; nos dez anos que vocês passaram aqui, nos ajudaram a crescer também. E nós conhecemos muito bem cada um de vocês e temos certeza de que daqui sairão grandes homens e mulheres. Pessoas que irão mudar o mundo. Pois bem, minha vinda aqui tem um motivo especial. Venho lhes informar que no dia 20, domingo, professores e alunos farão uma excursão como forma de despedida, um acampamento aqui perto, no Bosque Aclarado. E, gostaria de apresentar o Sr.Agdal – apontando para o homem que adentrou a sala juntamente com ele – Agdal é cuidador de aves e esteve nos últimos meses desenvolvendo o sistema de aves de entrega aqui na cidade. Como bem sabem, já é bastante utilizado em outras cidades e será inaugurado aqui amanhã, quando suas aves enviaram a cidade de cada um de vocês o convite detalhado, que deverá ser assinado por seu responsável e devolvido ao aviário local, regressando. Espero que todos se divirtam e mais uma vez vos parabenizo. – A turma aplaudiu o discurso do diretor, que saiu de sala. Professor Senlou foi até sua mesa e perguntou:

– Gostaram? Vou dizer que nem eu sabia dessa! – a turma riu, e após mais alguns minutos de descontração em sala, o professor Roymo Tehok bateu a porta, pouco antes já observava pela vidraça. Darve foi até o lado de fora.

– Diga, Dr. Roymo.

– Francamente professor di Wees, joguinhos com essas crianças? Não deveria estar lecionando?!

– Creio que não. Estamos no último dia de aula e esse pessoal deu duro o ano todo. Me permito a um momento de divertimento com eles, eles merecem.

– Disse bem ; último dia de aula. Aula. E você aí .. percebo que me enganei sobre você. – e quando já se retirava, Darve o segurou pelo braço, na tentativa de fazê-lo esperar. Roymo agiu com violência empurrando o braço de Darve, dizendo:

– Você e a Dae facilitam demais para esses jovens. Eles não merecem isso. Deveriam ser mais rígidos com eles, para aprenderem que o mundo será assim com eles. Não é à toa que todos se formaram mesmo sendo uns.. Uns.. Imbecis. – Darve viu a expressão de nojo com a qual dizia o doutor. E falou:

– Dr. Roymo, eu queria acreditar que somente seu lado profissional está falando nesse momento, mas é difícil. Sei que você e alguns deles não possuem a melhor convivência, mas essas palavras.. Sinto vergonha por você. – Roymo olhou fixamente nos olhos de Darve e desdenhou:

– Que seja! Agora pegue suas coisas e se retire de sala. Está na hora da minha aula.

– Tudo bem. Mas, espero que essas suas palavras se atenham aos meus ouvidos.. Não queira descobrir o que eu faria se magoasse esses garotos.

– Darve, você se acha durão, não é? – disse Dr.Roymo, com um sorriso cínico. Darve olhou indignado com a pessoa que se revelava seu companheiro de trabalho, e retornou a sala.

Após uma despedida calorosa com seus alunos, o professor Darve, que era muito querido por eles, deu lugar àquele que não tinha quase nenhuma simpatia perante a turma. Percebeu-se nitidamente o clima frio e apático que entrou na sala junto do Dr. Roymo, como gostava de ser chamado o professor de matemática, química e física. Ele começou a escrever no quadro-negro, ainda sob o efeito da discussão anterior. No quadro estava um “boa tarde” assentimentado e um aviso para que pusessem os trabalhos, pedidos na aula passada, sobre a mesa dele. Sentou-se, e um por um os alunos foram até ele, deixar o trabalho.

De frente para aquela turma que, sentada e extremamente comportada, olhava para o doutor, que disse, após ter recebido todos os trabalhos:

– Abram o livro na página 315 e façam os exercícios. – a turma acatou as ordens, silenciosamente. Enquanto Roymo se debruçava na correção dos trabalhos.

Duas horas se passaram sem nenhum barulho na sala 4E, até que Roymo desviou, enfim, o olhar dos papéis em sua mesa e, olhando para a turma, começou a falar:

– Alunos, antes de entregar os trabalhos, gostaria de falar algo. Durante o ano que se passou houveram muitas atribulações e dificuldades, que fizeram nossa convivência .. um tanto, desagradável. Vocês sabem. Não peço, e não tenho interesse, que gostem de mim. – Roymo deu uma breve pausa, lembrando de alguns momentos que passou. Ele quebrou a caneta que tinha em mãos, assustando a turma. Respirou fundo e retomou – Quero que saibam que tentei, ao máximo, passar meus ensinamentos e, por mais que não veja aqui nenhum excepcional, acredito que se tornem, ao menos, cidadãos dignos. E nunca parem de aprender. Sigam bem e, peguem os trabalhos ao saírem. – Assim que terminou, o relógio marcou dezessete horas, a hora de ir embora.

Assim que chegaram do lado de fora da sala os alunos comemoravam o fim de um ciclo e já projetavam os próximos passos. Dr.Roymo Tehok permaneceu em sala.

– Ah, por Arkheo! Vou sentir tantas saudades! – disse Haysle, abraçando seus amigos, Talne e Letro. A ruiva e os rapazes se conheciam desde que ingressaram no IPT. Uma amizade muito forte e cheia de histórias.

– Até parece que a gente vai te abandonar. Não é, Letro? – Talne perguntou ao amigo e emendou dizendo a Hays – O que seria de você sem nós?

– Ah, tem razão! Acho que vou visitá-los todos os dias. Não me acostumaria longe de vocês. – declarou Haysle.

– Eu vou adorar. – Letro disse, olhando fixamente nos olhos hora azuis, hora verdes da moça.

– Tudo bem, tudo bem. – falou Talne, dando as costas aos dois, de forma a fazer ambos rirem e, logo, se abraçarem. Ainda abraçados, Hays disse:

– Eu preciso lhe falar uma coisa.

– Pois então diga.

– Não.. Não aqui. Não agora. – advertiu Hays, e Letro desfez rapidamente o abraço, e ainda juntos, disse:

– Como assim? É algo com que devo me preocupar?

– Não sei .. – Eles então se olharam e os olhos dela se encheram de água. Ela o abraçou novamente. Letro não sabia o que pensar e muito menos o que dizer.

No caminho de volta para casa, exaustos e apreensivos, Talne mal conseguiu trocar palavras com o, naquele momento, pensativo Letro. Haysle morava em Pedra Triste.
– O que a Hays disse? – perguntou Talne, incomodado com o silêncio do amigo. Letro pensou se deveria falar, afinal, se ele não sabia era por razões dela.
– Ela tem algo para me contar, não sei o quê.
– E para lhe deixar com essa cara, certamente ela não lhe disse em bom tom.
– Sim. Ela não está bem. – terminou Letro, revirando-se para a janela. A mudez tomou conta novamente. Tal voltou a revirar seus papéis, até que Letro se levantou para descer, havia chegado. Após uma despedida simples, ele seguiu até sua casa, não conseguindo esconder sua preocupação. Ele e Haysle, juntamente com Talne, sempre foram muito próximos, suas famílias se conheciam desde que eram crianças, apesar delas não se verem com tanta frequência. Nos últimos anos Letro e a garota se tornaram mais íntimos, tendo antes Hays sempre rejeitado as declarações dele, que convivia com o ciúmes da relação dela com Talne. Realmente, nada havia, além de uma grandiosa amizade entre os três. Talne, por sua vez, costumava ajudar Letro com a moça. Apesar de tantos desamores e intrigas, o trio era inseparável.

– Boa noite, filho! – exclamou Loare, ao perceber seu filho entrando.
– Boa .. – respondeu, abatido. Indo direto para seu quarto, sua mãe estranhou, mas preferiu deixá-lo seguir. Na sala estavam Nil e Violess, com as grandes janelas abertas aproveitando o luar da noite abafada, como raramente é por ali.
– Eu não consigo, papai! – disse a garotinha, sobre como tocar a bandola. Loare, que acabara de lavar a louça, chega e senta do lado de Nil, que percebe a tormenta no semblante de sua esposa.
– Tudo bem, filha, pegue esse chocalho. – disse a Violess. Olhando para a mulher, questionou – o que há?
– O Letro, chegou estranho, cabisbaixo. – explicou – Sobe lá e fala com ele?
– Hoje de manhã ele estava tão bem .. porque você não vai? – Ela estranhou as falas do marido, mas seguiu até o quarto do rapaz. Loare subiu às pressas, e desacelerou ao chegar perto da porta, entreaberta.
– Letro .. – disse, abrindo vagarosamente a porta do quarto mal iluminado. Seu filho estava deitado na cama, olhando para o teto. Ele percebeu sua mãe, mas ignorou. Ela sentou-se na cama.
– Eu e o seu pai estamos precisando de você lá embaixo, acabaram os cântigos e não somos bons em inventar histórias como você.
– Eu já vou. – disse, sem desviar o olhar, distante.
– Tudo bem .. não demore. – Loare não se prolongou, ela conhecia seu filho.
Letro descia a escada e, ainda nela, observou sua família e fez questão de esquecer qualquer preocupação naquele momento.
– Ei, olha meu garoto aí, sente-se aqui, tenho uma história para contar para vocês. – disse Nil, e continuou – Bem, era um reino Palisênico, antes das Gigantes Rochosas existirem, dois amigos caçadores.. – Que precisavam resolver o mistério do sumiço de suas ovelhas, blá,.. Você já contou essa, querido! – Loare o interrompeu, para o riso dos filhos.
– Lô! Eu esperava que eles não fossem lembrar! Então, se foram minhas histórias.
– Mas você só tem essa, pai. – disse Letro, entre risos.
– E você, filho, o que tem para contar? – perguntou Loare.
– Sobre histórias nada, mas haverá um acampamento de dois dias, organizado pela escola.
– Olha, que maravilha! Será uma excelente forma de despedida. – Loare.
– Sim, exatamente. Será depois de amanhã. Iremos a um bosque nas redondezas da Pedra Triste.
– E é seguro?
– Loare .. – Nil interrompeu.
– O que foi? Preciso saber se haverá segurança. Os professores vão? – insistiu Loare.
– Quanto a isso, é preciso pegar a carta que a escola enviou. – disse Letro, quando Violess repentinamente disse, apontando para o céu:
– Olha! Um estrela caindo! – todos olharam, a caçula jamais vira uma dessas.
– Uma estrela decadente. – disse Letro.
– Violess, sabe o que a gente faz quando vê uma estrela decadente? – perguntou Nilre.
– Não .. o quê? – e Loare concluiu:
– Nós dizemos em pensamento à estrela todas as coisas tristes de nossa vida, para que ela as leve para longe. – todos fizeram silêncio, pois, de alguma forma, cada um tinha sua angústia para entregar à estrela. No entanto, Violess disse, em tom melancólico:
– Mas eu não tenho tristezas para a estrela decadente. – os demais riram frente a ingenuidade da menina.
– Não se preocupe, filha, certamente há outras pessoas por aí para a estrela decadente fazer seu trabalho. – Nilre a confortou, gentilmente.

A família Peat acordou cedo apesar de uma longa noite de cantigas, contos e conversas. Loare lembrou-se do compromisso que tinha de ir à reunião no Sentimentário naquele dia que aconteceria, extraordinariamente, em horário diferente.
– Ah .. Letro, esses baldes não. Pegue os menores. Aproveita e chama sua mãe. – disse Nilre, com a maioria das coisas prontas para seguir até o rio, onde iriam pescar. No caminho Letro encontrou sua irmã e disse:
– Violess, anda logo. O papai está com medo que o tempo vire.
– Tá, mas eu preciso da minha vara. Está em cima do armário e eu não alcanço.
– Não se preocupe, eu pego. – disse, seguindo até a casa. E antes que se distanciasse:
– Ah! A mamãe saiu. – avisou Violess.
– Como assim?
– Ela se lembrou da reunião do Sentimentário e não poderia faltar.
– Ora, agora ela troca a família pelo sentimentismo? Tudo bem. – perguntou Letro a si mesmo, e correu para apanhar o que faltava. Ao chegar lá, primeiro foi até o quarto de Violess pegar a vara de pesca da menina. Letro não era alto e, na tentativa de puxar a vara, trouxe junto vários embrulhos empoeirados. Rapidamente ele juntou os papéis e viu neles diversos desenhos bem feitos, os quais se questionou de quem eram até ser interrompido pelo berro de seu pai.
– E você aí? – Nilre disse para Rhan, acarinhando-a. – Vamos! Deixem esses pra trás. – Rhan prontamente respondeu e ambos já seguiam até o destino.
– Espera, pai! – exclamou Violess segurando sua vara, e Letro, com todas as outras coisas.
A família se aproximava do local chefiados por Rhan, como quem conhecia bem os caminhos por ali.
– Oh, por Arkheo, esse tempo não se decide. Esses dias fez muito frio, ontem estava quente e agora parece que vai chover. – pestanejou Nilre.
– Se chover, só mais tarde, eu acho. – disse Letro, incerto.
– Papai, se chover voltaremos para casa?
– Se chover tomaremos banho de chuva! – respondeu Nilre, entusiasmando a mocinha.
Ao se acomodarem devidamente as margens do rio, que era calmo e límpido, Nilre foi até um barranco caçar minhocas para servir de isca para Violess. Ele e seu filho usariam camarões, para peixes maiores. Letro, então, perguntou a sua irmã:
– Ei, você tem desenhado?
– Sim. Porque?
– É que encontrei uns desenhos em cima do seu armário, bonitos, por sinal.
– Acho que não eram meus.
– Pois é, achei que não, pareciam um pouco velhos.
– Quando chegarmos em casa você pode me mostrar?
– É claro. Devem ser da mamãe. – Letro pegou o equipamento de pesca e foi até a beira, seu pai logo chegou e o rapaz disse:
– É, parece que o tempo realmente não vai abrir.
– Na verdade, assim é melhor para pescar. Os peixes circulam mais na flor da água nesses dias. – Nilre ensinou.
Há muito pacientados frente ao rio, a vara de Nil esboçou leve movimentação que fez Rhan latir e imediatamente ser repreendido por Letro. A vara se aquietou, assim como os demais. Após certo tempo sem sucesso na pescaria, Violess perguntou:
– Pai, vai demorar muito?
– Não se apresse. Muitas coisas na vida tem seu tempo necessário. – disse, serenamente.
– To com fome.
– Pegue os biscoitos na bolsa azul, é tudo que tem. – e antes que Violess se virasse, algo, enfim, animou aquela pescaria. A vara de Letro balançou fortemente, assustando-o quando quase dormia. Ele agarrou rapidamente a vara e começou a puxar, e recolher, e puxar, e recolher. Teve que por seus pés contra uma pedra para não se desequilibrar até que uma enorme crista dourada cortou a superfície calma do rio.
– É um tredorso! E dos grandes! Segure firme, filho! – disse Nilre, empolgado. Letro conseguiu trazer o peixe para perto, entretanto a linha arrebentou.
– Poxa! Viram aquela coisa?! Você quase conseguiu, irmão! – exclamou Violess. Nil sorriu, e disse:
– Foi por pouco, filho. Não estávamos preparados para um monstro daquele. – Letro apenas bufou, desapontado. Violess seguiu até a outra ponta do rio com Rhan para se banharem.
A pescaria chegou ao fim, com apenas alguns cabrus-cinza, biqueiros e lambidos. No caminho de volta, Rhan disparou na frente até chegar em um extenso campo florido, seguida por Letro e Violess.
– Violess, que tal colhermos algumas flores para a mamãe? Ela vai gostar. – sugeriu Letro.
– Claro! Vou montar um ramalhete bem bonito!

Após todo o discurso e ensinamentos do intessor Fago, a maioria das pessoas seguiam para a saída, enquanto alguns, inclusive Loare, formaram uma fila até o homem de fé. Esperando ser aclarada como de costume, ali mesmo, quando chegou a vez de Loare, Fago diz para ela esperar até que todos se retirassem, e assim o fez.
– Oh, Loare, como tem estado?
– Bem, intessor, mas ainda com aquela constante sensação.
– Sim, Jezan me disse. – a mulher, cabisbaixa, arregalou os olhos.
– E ..
– Sente-se. Sim, algo não está correto em sua vida. Não sei o que é, mas Jezan proverá a você o que precisa. Nossa celestialidade conhece o coração de todos e sabe a dor que sente e, breve a paz virá até você. É o que Jezan diz. – Loare, visivelmente frágil, sorriu, dizendo:
– Agradeço, Fago. – e de olhos fechados – Amém, Jezan. – Fago a aclarou e então ela seguiu para casa, feliz. Antes se lembrou de apanhar a carta do IPT, no Centro de Mensagens e lá mesmo enviou a confirmação.
Em sua residência, Loare adentrou vagarosamente e seus olhos logo apontaram para o centro da sala. Letro e Violess mexiam com papéis e em cima da mesa haviam muitas flores. Violess correu até sua mãe, com uma folha na mão e dizendo:
– Mamãe! Olha, olha! – entregando o desenho. – Eu que fiz, mãe, para você.
– Olha, uma bela .. ponte?! – Loare disse, surpresa.
– É. Fiz olhando seus desenhos. Vem. – a garota puxou a mulher até a sala, e entregou o buquê. – É pra você também, mamãe.
– Que lindo! Obrigada, minha linda. – e abraçou-a.
– E esse aqui fui eu que fiz. – Letro entregou, um tanto sem jeito, o outro buquê.
– Ah, filhote. Mas, vejam só, onde acharam isso tudo?
– Foi o Letro.
– É, estavam em cima do armário da Violess. – e olhando alguns desenhos, Lô diz:
– Celestíssima! Esses desenhos me trazem tantas lembranças. São da época de escola, pouco antes de eu vir pra Do Sentimenteiro.
– Hm.. e porquê você desenhava tantas pontes e casas, mãe?
– Isso na verdade é um aqueduto e, era o que eu gostava de desenhar. Eram projetos para caso em me tornasse uma arquiteta, como queriam meus pais.
– Você levava jeito, mãe. Será que consegue ainda? – Loare pegou um lápis.
– Hey, amor! Venham. Hoje o jantar é por minha conta. – Nilre interrompeu, em mãos, uma enorme travessa repleta de peixes.


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