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May
04
2015

Musashi

MUSASHI

O Shinkansen continua o seu percurso a alta velocidade deixando rapidamente Nagoya para trás. Musashi deixa escapar um bocejo enquanto se espreguiça no seu lugar. Detesta comboios. Está quase arrependido da sua decisão de passar as férias de Verão com o seu avô. A vontade de deixar Tokio e a casa dos pais pela primeira vez, embora apenas durante três meses, ia-se dissipando a cada quilómetro devorado pelo Shinkansen. E o avô tornava-se cada vez mais uma realidade concreta e um obstáculo às suas pretensões adolescentes de liberdade. A decisão não fora totalmente sua. O seu pai havia falecido o ano passado e o avô deslocou-se a Tokio para o funeral. Akira quase nem falou com ele, compenetrado que estava na sua perda. Mais a mais nem conhecia aquele velhote singular do qual apenas ouvia histórias, a maior parte das vezes desdenhosas, sobre ele. Mas o avô fez questão de pedir à sua mãe que o deixasse ir a Kameoka nesse Verão, para poder conhecer melhor o neto.

O Shinkansen estava a chegar à recém remodelada estação de Kyoto. Era de facto um edíficio impressionante e ultra-moderno em contraste com as infraestruturas tipicamente tradicionais de Kyoto. Tinham acabado as obras de remodelação à apenas um mês atrás. Akira saiu apesar de não ser a sua última paragem. Ainda teria que percorrer mais alguns quilómetros no Shinkansen até à estação de Kameoka. Ia conhecer um pouco da estação de Kyoto e comprar pilhas para o Game Boy e para o discman.

Quando o Shinkansen partiu novamente Akira tentou rever o que sabia do avô. Muito pouco. Sabia que vivia isolado de tudo e meio eremita, com um criado, tão velho como ele, os dois enlouquecendo sós, segundo o que diziam. A viagem de Kyoto até Kameoka era curta e o comboio de alta velocidade percorreu-a num ápice.  Depressa chegou à pequena estação de Kameoka

Junko, o velho criado do avô estava à  sua espera. Segundo aquilo que haviam contado a Akira, Junko teria sido abandonado em bébé e encontrado uma manhã em Kameoka em frente ao templo de Buda. O seu bisavô, que estava pela aldeia nessa altura, apiedou-se da criança e tomou-a a seu cargo. Junko foi o companheiro de brincadeiras na infância do avô, companheiro de estudos pois foram instruídos juntos, amigo e confidente  ao longo da vida. Para o avô era mais um irmão que um servo. E se Junko o era, era-o apenas por iniciativa própria. Como se fosse um dever para com a família. Ficou surdo muito cedo, durante a adolescência, mas parecia mudo também, pois quase nunca falava. Quase sempre que o avô precisava de algo, Junko parecia ter um sexto sentido que o alertava para essa necessidade e cumpria esse desejo antes mesmo de ser solicitado. Na maior parte do tempo entendiam-se em silêncio. E era para esse mundo silencioso que Akira se dirigia.

Akira cumprimentou-o. Junko já era bem mais baixo que ele. Usava óculos, era magro mas tinha um aperto de mão forte. Não recusou a mão estendida de Akira, mas só o cumprimentou após fazer a reverência tradicional.

O carro que Junko trouxe era fora do comum. Parecia ter mais de 40 anos. Aquele tipo de carros que se viam nos filmes americanos dos anos 50. Mas a admiração de Akira não estava no carro em si, mas no facto de Junko não o ter ido buscar numa carruagem puxada por cavalos! Constantemente ouvira o pai dizer que o avô vivia na idade da pedra.

Rodaram para fora de Kameoka. Dizer que o avô morava em Kameoka era bastante simpático já que ele morava a cerca de 5 km da aldeia, embrenhado na floresta, no sopé da montanha. Akira contemplou a paisagem. Era início de Verão e a flora exibia-se exuberantemente. A primavera cumprira bem a sua função e o Sol deste princípio de Verão ainda não se tornara demasiado impiedoso, estando tudo colorido e de aspecto fresco. Junko por vezes observava Akira com uma expressão algo estranha.

– Isto é bonito por aqui. – disse Akira esquecendo-se da surdez do velho criado.

Este não respondeu, naturalmente. Mas deu um olhar de relance pela paisagem e assentiu com a cabeça. Deve saber ler os lábios, pensou Akira.

A estrada passara do alcatrão à terra batida. Ao longe, a casa do avô começou a surgir de entre as árvores e as florestas de bambu.

A casa era extremamente bela. Parecia tirada de um postal do Japão. Era uma casa tradicional da Era Showa. Totalmente feita em madeira e com uma varanda que ocupava totalmente a frente e os lados da casa. Takahiro Musashi estava em frente à porta principal, com as mãos atrás das costas, à espera. Akira não viu nenhum fio eléctrico. Ou fios telefónicos.  Deveria ter comprado mais pilhas.

Takahiro era um velhote magro. Bastante magro. Deveria ter sido forte na sua juventude. O seu porte levava a crer que sim. Tinha também uma forma altiva de estar. A face estava  cheia de rugas expressivas que aparentemente indicavam bastante bem o seu estado de espírito. A pele era ligeiramente escurecida e já algo queimada pelas primeiras tardes de sol deste Verão.

Estava a escurecer rapidamente. O avô cumprimentou formalmente Akira e convidou-o a entrar. O jantar estava pronto. Comeram, a maior parte do tempo em silêncio. O avô ia fazendo algumas perguntas circunstanciais, como estava a sua mãe, ou sobre como era a vida de Akira em Tóquio. Se já havia estado tanto tempo fora da cidade ou como estavam a decorrer os seus estudos. Contou-lhe que o seu pai havia vivido naquela casa sensivelmente até à idade que Akira tinha, até que um dia partiu para Tókio para estudar e por lá ficou.

Junko começou a arrumar a mesa, escusado será dizer que sem lho terem pedido, e Takahiro anunciou que eram horas de dormir. Akira olhou para o telemóvel. Eram apenas 10 horas da noite! O avô explicou a Akira que tinha um quarto para ele num anexo que ficava a 20 metros da casa e  perguntou-lhe se ele não se importava de dormir lá, já que os dois quartos do piso de cima eram ocupados por ele e por Junko. Akira respondeu que não havia problema, intimamente pensando que até era uma benesse, tal privacidade e distância dos dois velhos.

Já estava bastante escuro quando saiu para o exterior. Perguntou pela sua bagagem. Junko já a havia levado para o anexo e arrumado tudo enquanto comiam. Seguiu com Junko até ao anexo e entrou. O anexo era um quarto, à primeira vista surpreendentemente confortável, com uma pequena casa de banho. Não havia era electricidade, pensou.

Junko deixou-o, com um aceno de boa noite e Akira estendeu-se na cama a jogar Game Boy e a ouvir música do discman durante várias horas. Até que os braços cansados, caíram com o Game Boy sobre o peito e ele adormeceu.

 

O primeiro dia de Akira foi complicado. Acordou muito mais cedo do que seria normal em período de férias. Mas quando chegou à cozinha e cumprimentou Junko, ficou com a impressão que este já estava acordado à várias horas. Junko começou a colocar o pequeno almoço em cima da mesa, diligentemente. Akira sentiu que não tinha outra opção senão sentar-se e comer. Apercebeu-se que realmente estava com fome. Quando terminou de comer, saiu para procurar o avô. O avô estava no exterior, cuidando do jardim Zen. Akira saudou o velho e ficou a observá-lo bastante tempo, sentado numa cadeira da varanda. Estava completamente arrependido de se ter enfiado naquele fim de mundo. Ainda por cima tinha adormecido com o discman ligado e já não tinha pilhas. Como é que vou aguentar aqui três meses? Perguntou a si mesmo. Porque vim? Porque é que ele quis que viesse?

Akira recostou-se na cadeira e passou o resto da tarde a conjecturar formas educadas de dizer ao avô que decidira ir embora. Ou então imaginava algumas mentiras inocentes. Por vezes resolvia-se a dizer-lhe a verdade impiedosa de que já se tinha fartado de estar com ele logo no primeiro dia.

O avô continuava a tratar do jardim. Movia pequenas rochas de um lado para o outro, amontoava-as, usava um pequeno pincel para as limpar minuciosamente. Com pequenas tesouras de poda dava pequeníssimos aparos nas plantas e nas flores de um jardim que parecia mais que cuidado e sem necessidade de mais atenção.

Levantou-se da cadeira para desentorpecer as pernas e decidiu explorar a casa. Desceu da varanda e passou pela arrecadação adjacente à casa onde estavam as ferramentas do jardim e os mantimentos. Sim, os mantimentos. Takahiro tinha aí enormes sacas de arroz e batatas e bastantes outros alimentos armazenados. Sem dúvida para evitar deslocações a Kameoka. Poderia viver largos meses com o que tinha ali. Essa arrecadação era mais recente que a casa, tinha sido construída à menos tempo. Provavelmente o anexo onde ele dormiu teria inicialmente a função de guardar as ferramentas e os produtos do campo que era logo ao lado. Isso seria até mais lógico. Por alguma razão foi convertido em quarto para hóspedes.

Contornou a arrecadação e observou pela primeira vez a parte traseira da casa. Aí começava a floresta de bambu e dava para ver que o terreno começava a subir a partir dali, era o início da montanha, com os bambus acompanhando a elevação, como se se estivesse a formar uma onda verde prestes a desabar sobre a casa. Akira percorreu as traseiras da casa e deu uma olhada na horta do avô e no pequeno terreno que este cultivava. Estava junto ao anexo onde passou a noite. Voltou a aproximar-se da casa e subiu novamente para a varanda, percorrendo-a até estar na frente, junto à porta de entrada. Entrou no Genkan e descalçou-se. Já conhecia o piso inferior. Subiu as escadas para aceder ao piso de cima embora nada esperasse encontrar para além do quarto de Junko e do avô. Mas havia uma terceira divisão. Akira entrou e viu numa mesa, resplandescente, uma magnífica katana japonesa. Estava suspensa numa armação de madeira, juntamente com uma outra lâmina que estava mais abaixo e era relativamente mais pequena, cerca de 30 cm apenas, embora tivesse um punho igual e os mesmos ornamentos. Ao lado um elmo e uma armadura medieval. Akira ficou a admirar as espadas até que sentiu uma presença atrás dele:

– É bonita não é?

O avô já deveria estar a assistir há algum tempo.

– Bastante bonita. – disse Akira – Fascinante.

– E perigosa. Bastante afiada ainda. Essa espada pertenceu a Miyamoto Musashi, teu e meu antepassado. Ele combateu com ela na batalha de Sekigahara. Defrontou uns anos depois, entre vários,  Yoshioka Seijuro da escola de Yoshioka e por fim Sasaki Kojiro, dois samurais célebres. Venceu-os.  A espada passou depois para Usagi Musashi, o seu filho. Este participou na defesa do Japão da invasão Mongol com ela. 40 000 samurais resistiram ao exército Mongol de 146 000 soldados na Batalha de Koan.

– 40 000 contra 146 000?

– Sim, mas o nosso exército contou com uma ajuda preciosa. Houve um furacão que dizimou uma grande parte da frota mongol nas noites antes da batalha. Daí vem o termo Kamikaze que quer dizer “Vento Divino”.

O seu sucessor ,Torii Musashi, defendeu o condenado castelo Fushimi até à morte enquanto o seu lorde se encontrava a Este com o grosso dos homens. Durante dez dias resistiu ás vagas quase sucessivas de 38 000 homens, apenas com 2000 soldados. Há outra história interessante acerca de Torii Musashi que ilustra bem o espírito samurai. Uma ocasião, Torii escoltava o filho do Lorde Fushimi desde a capital, quando durante a travessia dos Montes Akaishi, foram apanhados por um temporal e durante o nevão o filho do Lorde caiu num desfiladeiro. Antes que Torii pudesse ter alguma reacção, o seu filho, Toranosuke, acercou-se dele e disse “Eu sei o que tenho de fazer. Adeus pai.”. Logo de seguida lançou-se no abismo. Toranosuke sabia que o suicídio de Torii não seria suficiente para redimir o samurai perante o lorde, da perda do filho. O seu sacrifício fora necessário para manter a honra da família. A nossa honra.

– Tudo isto parece extremista. – disse Akira. – Tanto sangue derramado ao redor desta espada!

– Nem tudo foi violência. O filho mais novo de Torii, Takeda, herdou a espada e percorreu todo o Japão com ela numa jornada de paz espiritual e nunca precisou de a desembainhar para enfrentar alguém. O seu filho Yajiro também viveu em paz. Conheceu o missionário português S. Francisco Xavier e descreveu-lhe vários aspectos da cultura japonesa. A nossa História, o nosso sentido de honra, estes feitos que te estou a contar e alguns mais. S. Francisco ficou tão impressionado que disse “Não há nação no mundo que tema menos a morte”. A morte está sempre perto do samurai. Ser samurai é aceitar a sua inevitabilidade e desejar que seja a melhor possível, honrada.  E a morte regressou com Hattori. Hattori era neto de Yajiro. O seu pai, filho de Yajiro, morreu antes do avô. Chamava-se Kato. Impregnado de um grande espírito guerreiro Hattori elevou o nosso nome ao seu apogeu. Tornou-se ele próprio um senhor feudal mas foi também com ele que a nossa casa caiu. Ele era apoiante de Oda Nobugana durante as guerras dos shogunatos e não o abandonou quando, em batalha, um dos generais de Nobugana, Akechi Mitsushide, o traiu e virou as suas tropas contra ele cercando-o. Essa espada foi devolvida juntamente com a cabeça de Hattori, um sinal de grande respeito, e a família deste poupada embora destituída dos seus bens.

Hideyoshi, recebeu a espada do pai, mas tornou-se um samurai sem senhor, um andarilho. Pouco se sabe dele mas crê-se que foi ele o assassino de Mitsushide, que morreu exactamente cinco anos depois do dia da batalha. A cabeça de Mitsushide nunca apareceu. A sua traição não merecia essa honra. A Era de Tokugasawa, ou o período Edo como também é chamado, foi de paz e foi aí que nos estabelecemos em Kameoka. Depois veio a Era  Meiji e a proibição de transportar espadas.  O meu pai tinha a espada nessa altura. Depois com a sua morte tornei-me eu o dono. Quando eu morrer será tua.

– Minha?!

– Por esta altura pensei que já tinhas chegado lá. Com a morte do teu pai és o único Musashi que pode ficar com a espada. Eu já não vou viver muito mais tempo. A tua vinda aqui foi com o intuito de te conhecer melhor e instruir-te minimamente de modo a que possas honrar a espada e a família.

– Vai-me ensinar a lutar com ela?

– Isso seria díficil pois eu próprio nunca lutei com ela. Talvez te ensine a manejá-la. Sim, esse é o termo mais apropriado.

– E esta mais pequena o que é?

– Essa é a Wazikasha. É uma espada menor. Todos os samurais tinham uma para além da Katana, a espada maior. É conhecida por ser a espada que ficava por baixo do travesseiro quando o samurai dormia. Mas Myiamoto Musashi usava-a tanto como a Katana, em combate. Uma espada em cada mão. Essa técnica, que ele criou, é chamada de “Espadas do Céu”, e é a que passou de geração em geração na nossa família.

Akira estava estupefacto com todas as histórias em redor da espada. Junko subiu também e avô e neto perceberam que o jantar estava pronto a ser servido.

Ao contrário do jantar no dia anterior,  hoje Akira estava mais predisposto para conversar. Fez inúmeras perguntas ao avô acerca dos samurais e da espada.

– Foste um samurai avô?

– Estive muito longe de ser um samurai, mas sempre procurei seguir o Caminho.

– O Caminho?

– Sim, o caminho do guerreiro ou Bushido. O Bushido é baseado em 7 virtudes: Lealdade, honra, honestidade, rectitude, coragem, benevolência e respeito.

– E saber lutar com a espada, não?

– O samurai considerava a espada uma extensão da sua própria alma, mas um bom samurai não era avaliado pela destreza com a espada mas sim pela forma como vivia e manifestava os valores que referi.

 

Os restantes dias foram muito mais fáceis de suportar e Akira acabou gradualmente por habituar-se a essa vida tão diferente e a gostar dela. Acompanhava os afazeres do avô no dia-a-dia e aprendeu por exemplo que um jardim Zen simulava as maravilhas naturais do Japão a uma escala mais pequena. Aquele monte de pedras simulava o Monte Bandai, um outro mais distante, com a pedra branca no topo era o Monte Fuji. Aquela areia trabalhada para criar o efeito de ondas simboliza o lago Biwa, o maior lago do Japão, que se situava perto de Kyoto e fazia parte do folclore e da poesia japonesa. Todas as árvores do jardim mudavam com as estações e à medida que cresciam daí a constante necessidade de fazer alterações. O jardim que antes lhe parecia sempre igual agora parecia exigir também de Akira constante atenção e este dava bastantes sugestões ao avô para melhorá-lo.

À noite o avô tinha o hábito de preparar o chá. A cerimónia do chá como o avô lhe chamava era algo que também fascinava Akira embora ele não a percebesse totalmente. O avô retirava todos os utensílios para o chá do chadansu, que é um móvel próprio para os guardar, colocava-os no chão, fazia-lhes uma vénia respeitosa e iniciava a preparação do chá. De uma forma minuciosa, sempre de forma igual, ritmada e organizava, dispunha tudo sempre da mesma forma e vagarosamente e graciosamente preparava o chá.

– Assim o chá sabe melhor? – perguntou o jovem.

O avô deu um gole e sorriu.

– O objectivo deste ritual não é fazer chá. Acredites ou não, a preparação do chá fazia parte do treino do samurai. Ajudava-o a tornar-se um melhor assassino. Manejar a espada requer não apenas firmeza, mas também delicadeza. É também um momento de paz espiritual. A cerimónia do chá, ou cha no yu, é uma arte. Complicada e simples, superficial e profunda. Em muitas maneiras uma metáfora do ideal samurai. Aprender a cerimónia do chá pode fazer de ti um melhor samurai.

– O avô está a falar novamente acerca de eu ser um samurai. Eu não posso chegar amanhã a Tokio, vestir as calças de ganga, chegar à escola e dizer que eu sou um samurai! Isso já não existe.

– Se só conceberes o samurai como um soldado, com armadura, capacete e espada, envolvido em batalhas sangrentas e grande espadachim, aí podes dizer que não existem samurais. E de facto esse tipo de samurai já não existe. Eu poderia dizer que desejo que tu sejas valoroso, boa pessoa, inteligente, leal e honrado. Que quero que compreendas a vida e o mundo em que vives. Que procures a sabedoria e o conhecimento. Ou simplesmente posso desejar que sejas um samurai e poupar palavras. Porque isso é um samurai e esse é o Caminho. E nem daqui a 200 anos esses valores que o Caminho defende e que os samurais adoptaram como código de conduta, estarão ultrapassados.

Conversas deste gênero eram recorrentes ao longo das semanas que passavam. Akira estava já perfeitamente ambientado e expressou ao avô o seu desejo de passar daí para a frente todos os verões em Kameoka. Por vezes ia com Junko até à cidade para poder telefonar à mãe. Nunca se lembrou de comprar as pilhas.

Uma noite, bastante quente, em que estavam na varanda virada para o jardim zen, Akira olhou o céu que se apresentava bastante estrelado e tinha uma bela e enorme lua. Contou ao avô a paixão que tinha pelos astros e que sonhava frequentemente em viajar no espaço. Akira tomou então o lugar de professor e explicou ao avô todas as maravilhas do espaço sideral que ele conhecia. O velho ouvia-o atentamente.

– Seria o primeiro samurai do espaço! – disse Akira sorrindo.

E o avô riu com prazer e tomou mais um gole de sakê.

Akira voltou a acordar cedo na manhã do dia seguinte. Não muito mais cedo do que a hora a que acordava no dia a dia em Tóquio, antes de embarcar nas suas jornadas diárias de metros, filas, horários e confusões, mas espantava-o a facilidade e a naturalidade com que o fazia agora. O que em Tóquio lhe parecia uma tortura e uma desumanidade, em Kameoka parecia-lhe exactamente o contrário. Sacrifício seria ficar mais tempo na cama.

A manhã estava bastante húmida. Não havia chovido mas estava tudo molhado devido ao denso nevoeiro. Percorreu a casa à procura de alguém. Entrou pela cozinha e chamou. Não houve resposta. Olhou no jardim. Ninguém. Pareceu-lhe ver movimento no canavial . aproximou-se da orla da floresta de bambu e efectivamente estava lá o avô. Acompanhado , como não podia deixar de ser, pelo inseparável Junko. E o avô tinha na mão a espada!

– Estava à tua espera.

– O avô vai-me ensinar a usar a espada? – disse Akira emocionado.

– Precisava de mais do que um Verão para te ensinar minimamente. Mas acho que não faz mal nenhum sentires o peso dela e aprenderes a segurá-la convenientemente.

Takahari passou-lhe a espada para as mãos. Akira ficou impressionado pelo facto de a espada ser muito mais leve do que ele imaginava. Não devia pesar muito mais que um quilo. Akira ergueu a espada e contemplou-se nela. O reflexo era perfeito. Tão pura! Como era possível? Não apresentava nenhum sinal de desgaste! E o avô dizia que tinha mais de 600 anos!

– Queres experimentá-la? Queres tentar cortar este bambu? – perguntou Takahiro.

Akira olhou para um bambu com a espessura de uma perna e agarrou a espada com as duas mãos, juntando a mão esquerda à  mão direita que já segurava a espada.

– A espada japonesa é uma forma de arte e a sua confecção um processo complexo. Era considerada uma arte sagrada e eram necessárias semanas ou até mesmo meses para fazer uma única espada. Qualquer espada era capaz de separar um braço ou uma perna do corpo de um inimigo…

Entretanto Akira tentou cortar a cana de bambu agarrando a espada com as duas mãos e aplicando toda a sua força num golpe da direita para a esquerda. Apenas conseguiu que a espada ficasse cravada no bambu, que abanou bastante e fez abanar as canas adjacentes, provocando a queda de milhares de gotinhas de água que estavam pendentes nas folhas das canas de bambu, provocando uma chuva efémera. A cara de Junko tomou uma expressão estranha. O avô pelo contrário sorriu e prosseguiu:

– … desde que manejada com a técnica necessária, claro. De facto o samurai que adquiria uma espada fazia esse teste usando cadáveres de criminosos que eram postos à disposicão deste para esse efeito.

Takahiro estendeu o braço e Akira passou-lhe a espada.

– Não podes usar a espada como se fosse um machado. O nosso antecessor e primeiro dono desta espada, Myiamoto Musashi, criou a técnica das “Espadas do Céu” , como já te disse.Para ele era desnecessário usar as duas mãos para segurar a espada, sendo preferível lutar com duas espadas, uma para cada mão. A outra mão usualmente utilizando a Wazikasha.

Acercando-se do bambu que Akira tentara cortar, Takahiro colocou-se numa posição bastante diferente. Pegando na espada com a mão direita mas colocando-a sobre o lado esquerdo, como se esta estivesse embainhada e ele a estivesse prestes a desembainhar. O braço esquerdo estava colocado na direcção contrária, com a palma da mão  virada para baixo e estendida. Seria por certo, ou para dar maior equilíbrio, ou para compensar a ausência da espada na mão esquerda, respeitando a técnica das duas espadas.

Num repente, como um relâmpago, Takahiro fez um movimento com a espada, ligeiramente de baixo para cima. Foi de tal forma rápido que Akira quase só viu a posição final, quando o avô parou, com a espada acima da cabeça.

Por um escasso momento, muito rápido, mais rápido que um piscar de olhos mas ainda assim perceptível para quem assiste, deu a impressão que Takahiro não acertou sequer no bambu. Porém a metade superior do bambu pareceu separar-se lentamente da base revelando um corte ligeiramente na diagonal,  caindo depois perante o olhar estupefacto de Akira.

– Agora tu, outra vez. – disse o avô.

O resto dessa manhâ foi dedicado ás tentativas de Akira para cortar os bambus. Algumas vezes conseguiu, mas na maior parte das vezes a espada ficava fincada a meio do bambu, outras vezes nem isso, apenas escorregava para cima. Durante a tarde Akira aprendeu a cuidar da espada, a limpá-la, a guardá-la e a carregá-la.

 

Nessa noite o avô estava mais soturno que habitualmente. Comeram quase em silêncio, como no primeiro dia. Junko arrumou tudo. A noite não estava tão quente como a anterior e Junko havia montado a mesa aquecida. Ao invés do chá, nessa noite o avô optou pelo sakê, facto corroborado pela garrafa que Junko trouxe e colocou em cima da mesa. O avô pediu surpreendentemente, mais dois copos. Serviu-se, serviu Akira e serviu Junko, que estranhamente aceitou o seu. Bebeu um gole. Akira também. O sakê queimou-lhe logo a garganta. Não estava habituado. O avô guardou algum silêncio e finalmente disse:

– Ainda não sabes toda a história dos teus antepassados. Ainda há algo que tenho de te contar antes que a espada possa ser tua. O passado dela pode guiar o seu futuro e o daquele que a possuir.

– Alguma história que o avô se tenha esquecido de contar? – perguntou Akira, já quase totalmente recuperado da ardência na garganta .

– Sim, a minha história.

Akira ficou em suspenso. Sempre imaginou que o avô tinha algo a esconder. Algo que o atormentava e não o largava.

Takahiro voltou a virar o copo e a deixar que o sakê lhe percorresse a garganta.

– Foi em 1944. Durante a guerra. Estava colocado em Peleliu, essa maldita ilha. Lutamos incessantemente durante mais de dois meses. Quase não dormíamos, não havia mais rações. Comia-se ratazanas. Estávamos enfiados em buracos imundos e tinha chovido sem parar durante 3 dias. Quase todos estávamos acossados por terríveis febres. Um dia, o nosso capitão ordenou-me, a mim e a mais dois soldados, que fôssemos, imagina, atacar o acampamento americano. E cada um de nós apenas com um cartucho de munições! Era uma missão suicida. Não havia lugar para a recusa, obviamente. Era ir ou morrer ali. Esgueirámo-nos pela ilha durante duas horas em direcção à morte. De repente, um dos meus colegas não aguentou mais. Começou a chorar e sugeriu que nos rendêssemos. Nem eu nem o outro soldado respondemos. Limitámo-nos a baixar as cabeças e prosseguir. Mas a minha cabeça entrou numa espécie de tumulto febril com pensamentos em catadupa e sentimentos em ebulição. Entregar-me ao inimigo? Como é que eu podia estar sequer a considerar isso? E a minha honra? E a honra dos meus antepassados? Ficaria irremediavelmente corrompida. Mas depois lembrei-me da tua avó. Estava grávida quando a deixei. Pensei no teu pai que devia ter nascido há pouco tempo e que eu nunca iria poder ver. Eu tinha 22 anos. Apoderou-se de mim uma indescritível vontade de viver. Quando estávamos relativamente próximos do acampamento, parámos. Não havíamos sequer discutido o assunto da rendição, mas havia como que um mútuo acordo silencioso. Despimo-nos totalmente e prosseguimos em direcção ao acampamento. Sim, para cúmulo da minha desonra, teria que me render ao inimigo completamente nu. Tinha que ser. Os primeiros soldados japoneses a renderem-se detonavam granadas ou começavam a disparar assim que se encontravam junto aos soldados americanos para levarem no seu suicídio, o maior número possivel de inimigos a morrer com eles. Claro que os americanos naquela altura já não faziam prisioneiros. Mesmo nus ainda havia a possibilidade de sermos recebidos a tiro. Isso não aconteceu. Entramos no acampamento com as mãos na cabeça, por entre risos trocistas, incitamentos aos superiores para que nos executassem e alguns pontapés e empurrões. Num assomo de coragem e de loucura misturados, um dos nossos tentou alcançar a arma de um americano. Era o que eu deveria ter feito. Foi imediatamente crivado de balas. O outro, o que sugeriu que nos rendêssemos, não esboçou nenhum gesto, estava meio atarantado, mas isso não impediu que uma saraivada de tiros de uma metralhadora o varresse. Miraculosamente, o mesmo não aconteceu comigo, ninguém disparou sobre mim. Eu sabia inglês. Deixei-me cair de joelhos e supliquei, meio sufocado, “Please…”.

O avô fez um silêncio.

– O avô fez o que era preciso para sobreviver. Não deveria torturar-se com isso. – disse Akira.

Takahiro não respondeu. Olhou para a sua chávena com saké e bebeu mais um gole. Depois prosseguiu:

– Fui mantido prisioneiro e levado para um campo de concentração nos Estados Unidos. Quando terminou a guerra libertaram-me. Durante o meu cativeiro prometi a mim mesmo imensas vezes que iria cometer Seppuko quando regressasse.

– Seppuko?

– Sim, o suícidio ritual do samurai. Ou Hara-Kiri como é mais conhecido. Para o samurai caído em desonra, o Seppuko é a única forma de recuperar a honra pessoal e limpar o nome da família. É um ritual em que o samurai faz um corte na barriga, da esquerda para a direita e depois para cima em direcção ao peito. É extremamente doloroso e o samurai não pode demonstrar dor. Por isso havia sempre um familiar ou amigo com uma espada pronta a decepar a cabeça do samurai logo que este terminasse os cortes, para evitar que fosse vencido pela dor assim que ela se tornasse insuportável. Quando regressei ao Japão estava decidido a terminar com a minha vida mas quando vi novamente a tua avó e pela primeira vez o teu pai, que já andava e dizia as primeiras palavras, isso encheu-me de uma alegria tal que não fui capaz. Preferi viver apesar da vergonha.

O velho ancião ficou em silêncio. Bebeu mais dois goles de saké e pousou o copo. Junko entretanto havia-se retirado. Ficaram longos momentos em silêncio até que Junko regressou, fazendo correr a porta.

– Junko acabou de arrumar as tuas coisas. Vais regressar mais cedo a Tókio. Amanhã será um dia longo para ti.

– Mas ainda faltam duas semanas para o final das férias! – Exclamou em tom de desapontamento o descendente do clã Musashi. – E a espada?

– Nunca demonstres demasiado interesse em possuir alguma arma. Nem no momento de segurar uma. Nunca sabes em que circunstâncias é que se sucederá.

– Não é a espada em si…sabe… o treino…

– Eu sei. – condescendeu Takahiro – Não te preocupes. O resto do treino ser-te-á administrado pela vida. Agora vai.

Akira afastou-se. Um misto de emoções pulsavam em si.  O avô, que ele por esta altura já admirava tanto, afinal não passava de um cobarde? E esperava que ele seguisse um código que o próprio não havia seguido? Mas também, que direito tinha ele em julgar o avô? Ele sabia lá o que era a guerra…Faria ele as coisas de forma diferente se alguma vez se visse envolvido numa situação semelhante? Ainda assim…

Quando abriu a porta do anexo, confirmou que já estava tudo pronto para a sua partida. Deitou-se de barriga para cima e continuou a navegar nos seus pensamentos. Meditou novamente naquilo que havia pensado, no caminho de casa ao anexo. Pensou na sua partida no dia seguinte, pensou em Tóquio e na facilidade com que afinal conseguiu adaptar-se a viver fora da metrópole. Lamentou deixar Kameoka. Pensou nos samurais. No Bushido. Recordou a história do avô. Meditou acerca do facto de o avô ter lutado na 2ª Guerra Mundial. Ainda havia gente viva que sofreu os desastres da guerra. Nunca havia pensado nisso. A 2ª Guerra era algo dos livros de História da escola. Parecia fazer parte de um passado terrivelmente distante. Mas tinha acabado apenas há 53 anos! O avô tinha passado pela guerra, os bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki, o crescimento do bloco comunista russo e consequente desintegração, a chegada do Homem à Lua, o milagre económico japonês e o subsequente crescimento até terceira potência económica mundial.

Começou a chover intensamente no exterior. Os pensamentos de Akira continuaram a deambular. Afinal a vida é bastante longa, pensou. E a vida no planeta não se altera devagar mas sim a uma velocidade estonteante. Quantas mudanças na sociedade e nos costumes o avô nos seus 75 anos já presenciou. E as que o próprio Akira na sua curta vida já havia presenciado. E não eram apenas os avanços tecnológicos. Há cinco anos apenas, as coisas eram diferentes. As pessoas eram diferentes. A sociedade é varrida por vagas alternadas de optimismo ou pessimismo generalizadas. Os valores alteram-se assim como as ambições. Trovoava agora. Gerações despreocupadas dão lugar a gerações carregadas de ansiedade. Tudo isto é imperceptível de um dia para o outro mas bastante evidente a médio prazo se nos debruçarmos sobre isso.

De repente, por entre o barulho da chuva que fustigava o telhado e das gotas de chuva que rolavam pelo telhado até à borda e depois se despenhavam copiosamente no chão Akira ouviu algo mais. Suspendeu a respiração. Fosse o que fosse aproximava-se da porta. A porta correu e surgiu Junko, bastante molhado apesar do guarda-chuva que trazia. Pousou outro guarda-chuva, que transportava fechado na outra mão, numa cadeira próxima e olhou para Akira com uma expressão que queria inequivocamente dizer: “Segue-me”.

Akira levantou-se de um pulo e aproximou-se da porta. Já não havia sinais de Junko. Vestiu-se rapidamente e saiu para a chuva, ignorando o guarda-chuva que Junko lhe havia trazido. Ficou completamente ensopado enquando se dirigia, com um nó no estômago, para a casa. Algo não estava bem, ele sabia-o.

Havia luz no salão principal. Akira atingiu a varanda, desviou da testa o cabelo molhado e avançou em direcção da porta. Fez deslizar suavemente a porta e sentiu uma fragrância adocicada de incenso. O avô estava no centro do salão, sentado, com as pernas cruzadas.Vestia um kimono completamente branco e escrevia, compenetrado, algo num papel. Junko já lá se encontrava e trazia com ele a espada e a wazikasha. Seppuko! – pensou horrorizado Akira.

– Avô, que estás a fazer?

Takahiro, mesmo nesse momento, manteve o seu hábito de não responder a perguntas estúpidas. Fez um gesto com a pena com que escrevia, que parecia ser o gesto de quem marca bem um ponto final. Colocou o papel numa bandeja que Junko trazia e este foi estendê-lo numa mesa que estava um pouco mais atrás e que tinha o Shinto da família, fotos de Takahiro com a avó de Akira, fotos do seu pai, de pessoas que Akira não conhecia e também do próprio Akira e de Junko.

Akira não conseguiu evitar as lágrimas.

– Você não precisa…

– Eu já vi tudo o que tinha a ver e vivi tudo o que tinha a viver. O meu maior desejo é morrer pela espada, como um samurai. Não tenho mais razões para continuar a viver com os meus fantasmas e o seppuko redimir-me-á. Não me lamentes, eu fui feliz e realizei-me, mas escolhi o caminho do guerreiro e este é o meu karma. Tenho a certeza que serás merecedor da honra que é possuir a espada e não irás desiludir-me nem aos nossos antepassados. Tens bom coração e a bondade da alma, para além da honra, é uma condição importante para se ser um bom samurai. O meu último desejo é que sejas tu a dar-me o golpe final. Não receies, o Junko ingeriu um veneno e seguir-me-á brevemente, mas antes disso limpará o local de forma a que pareça que foi ele. A espada será limpa e ele colocará outra aqui de forma a que fiques com essa sem problemas. De qualquer forma não haverá grandes questões. Quem me conhece não duvidará do meu suícidio.

– Mas eu não posso…

– E eu não te posso obrigar a algo assim. Se não o quiseres fazer, Junko fará, mas o meu maior desejo é que sejas tu a fazê-lo.

Akira lembrou-se dessa manhã na floresta de bambu e percebeu horrorizado porque é que o avô o instruiu no uso da espada para cortar os bambus…

– E se eu não consigo?… – balbuciou Akira todo a tremer.

– Eu sei que irás conseguir. – serenou-o o avô.

Junko pegou na wazikasha e foi entregá-la ao avô, sem a segurar, mas sim transportando-a com as mãos em bandeja. Uma mão aberta segurando o punho e a outra da mesma forma segurando a lâmina. Depois voltou para junto da mesa e pegou na espada da mesma forma como que  esperando que Akira a fosse buscar. Este dirigiu-se devagar em sua direcção. Seria isto apenas um pesadelo? Tudo parecia surreal. Akira pegou na espada e olhou para o Poema de Morte do avô:

 

Assim como o vento do Outono

Varre as folhas mortas

E a luz pura da Lua

Dissipa o nevoeiro

Assim também a espada

Marcará o fim do meu caminho

 

Akira aproximou-se do avô, que estava de costas para ele, com a espada na mão. Sentiu-se incrivelmente calmo. As lágrimas já haviam cessado de correr pela sua face. O avô desapertou o kimono.Neste momento já estava de joelhos e não sentado. Juntou as mãos e agradeceu a Buda a sua longa vida. Fez uma reverência. Pegou na wazikasha, que tinha o punho envolvido num pano branco. Akira segurava a espada tal como o avô lhe havia ensinado, de acordo com a técnica Musashi. E segurava-a com uma rigidez desconcertante. Takahiro olhou para cima e espetou o punhal. Movimentou depois os braços para a direita. Reprimiu a custo um esgar de dor. Esse era o sinal.

Akira caminhou para o exterior . Saiu para a chuva. Ficou a sentir a água a cair, os cabelos novamente a taparem-lhe os olhos e a chuva a escorrer por eles sobre a cara. A espada estava a ser lavada também. Já só se discernia um fiozinho de sangue na lâmina. O golpe tinha sido perfeito. O avô, por certo, teria ficado orgulhoso.

R.D.A. Peixoto

 

[email protected]

 


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