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Publicado por Cristani Bergamo

– que publicou 1 textos no ONE.

A simplicidade da humanidade perante este mundo grande. Sensações. Explorar olhares.

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Aug
15
2015

Café Paterno

Havia uma cabana. Era simples, de palha, eu acho. Talvez de barro, ou pedras, ou quem sabe de barro e pedras. Ficava em uma pequena colina. Colina estranha aquela, não sei se era de verdes pastos que dançam ao sabor dos ventos frescos, ou se de palha seca e morta, com um céu cinzento e negro.

Não importa. Nesta cabana vivia um velhinho. Velhinho engraçado aquele. Não era muito magro, tinha uma barriga tenra, cabelos brancos e olhos verdes. Era engraçado o olhar dele. Eu não lembrava direito do olhar dele, apesar de tudo. Mas eu sei que eu o encarei por todos os dias da minha vida, na mesa do café da manhã, em botequins nas beiras da estrada e até mesmo, outrora, em paredes de lustroso dourado e alvo, tão ricas quanto o já há muito esquecido luxo de nossas vidas.

Mas são os olhares do café da manhã os que mais me lembro bem. Me lembro de acordar, ou melhor, abrir os olhos e escutar o barulho da colher remexendo o açúcar naquelas xícaras de porcelana rósea. Me lembro do cheiro de café no ar misturando-se ao frescor da manhã, e da fragrância do ar do alvorecer ainda por vir. Vez ou outra eu levantava e ia até a mesa do café da manhã. Ele dava um sorriso muito alegre. “Filho ainda tá muito cedo, vai deitar.” Voltava a dormir e a sonhar, com a benção de seu doce beijo na testa, e em minha cabeça imaginava onde ele iria, que aventuras viveria lá fora, naquele mundão imenso, e como passaria o dia todo sem vê-lo.

Ele chegava em casa, todas as noites, permeando tudo de sorriso, alegria e cheiro de terra e chuva. Nunca chegava cansado, todo o peso de suas costas ia embora quando fechava a porta de casa e suspirava fundo, como fazia todos os dias, avisando. “Cheguei”.  Seu olhar era forte, alegre.

Eu já havia aprendido a fazer meus chás e meus próprios cafés. Era a minha colher que retumbava na caneca de porcelana, junto com a dele. Agora não me mandava mais dormir ao me ver pelas primeiras horas do dia. A manhã trazia agora o som da obrigação e do dever, mas mesmo assim, eu adentrava os portões de meu ofício escrivão não só com a benção do sorriso alegre e do olhar de esmeralda de meu pai, mas também, como sempre fora, com a benção de seu beijo. Um em cada bochecha. Seu olhar era de saudade, mas ainda, alegre.

Era o retumbar solitário da minha colher na porcelana branca. O açúcar ainda não era só meu, nem o queijo da mesa, nem o pão, nem a própria mesa e nem mesmo a colher. Não haviam suspiros aliviados no final do dia, nem sorriso e nem bênçãos. Era um caminhar solitário esse, sem abraços, sem lembranças. Só a marcha. Iniciava minha manhã, ainda escrivã, sem olhar esmeraldino, sem afago de carinho e sem beijos. Mas a manhã ainda era fresca, fria. A terra era vermelha, fresca, seca. E ainda assim, eu ouvia sorrisos que não eram meus e nem de meu pai a minha volta. Seu olhar estava longe, mas ainda assim eu sabia que ele me via, todos os dias, quando sua colher batia insistentemente em uma caneca, se de café, chá ou vodka eu não sabia. Se tomaria café, eu também não sabia. Mas que seu olhar ainda repousava sobre mim, disto todo filho que foi amado sabe.

Eu não me lembro bem ainda como que fomos parar nesta cabana, que dirá nesta colina. Eu não me lembro também quando foi que meu café se tornou solitário. Antigamente ele já estava posto e pronto sobre a mesa, agora, eu mesmo faço a mágica que enriqueceu minhas manhãs passadas. Há momentos em que nem mesmo café há, apenas um chá. Em certos dias ainda ouço o tilintar da colher em minha caneca de café. Um eco, um eco da manhã, simples, fácil. Pesado também. Não gosto de por açúcar no chá, nestas manhãs nem mesmo há colher para tilintar. De quê me serve mexer um chá sem açúcar. O aroma do café se emprenha por minhas narinas, a colher tilinta na caneca de porcelana branca. Eu fiz a colher mexer. Eu fiz o café. Eu fiz a manhã.

Galgo a colina, sempre para baixo, sentindo a grama verde nos pés e as pedras duras no meio do caminho. Ninguém me disse para ir deitar novamente, não houve beijo, afago ou olhar de esmeraldas. Não houve nem mesmo sorriso. Não há mais suspiros de alívio pelo findar do dia. Eu me esqueci de como era aquele olhar.

Eu ainda volto à cabana da colina, todos os dias, sem falhar. Quando a porta se fecha atrás de mim, eu suspiro de alívio. “Estou em casa”. E lá está ele. O olhar cansado, as costas encurvadas, a voz carregada. “Oi, meu filho”, ele ainda fala.

Ele ainda me olha, mas quase não vejo as esmeraldas de seu olhar, pois colinas de idade e cansaço me afastam de seus olhos, que já me peguei imaginando se algum dia foram mesmo de esmeralda, ou se de palha seca. “Onde você foi, pai?”. Ele não me ouviu. Na verdade, ele já não escuta tão bem quanto escutara um dia. O café que ele toma, sou eu quem faço, da manhã pelo menos. Ainda assim, é ele quem lava as colheres. Foram suas mãos que construíram esta cabana. O açúcar, a mesa, o queijo, o pão, a xícara, as colheres, a água que lava as colheres: nada disso é meu.

Não vejo mais café em sua xícara. Vodka, cerveja, uísque, meu estoque de vinhos. Seu olhar é triste, ou melhor, o olho que olha para a vida é triste. O olho que olha pra mim é feliz, sim, apesar da colher tilintar pela minha mão, apesar do café que eu faço, apesar da manhã que me pertence, as esmeraldas brilham para mim. E apenas para mim.


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