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Oct
02
2015

AGRURAS DOS VELHOS TEMPOS

O sol a pino atingira o horário mais quente e a sombra mais perto que se via, um conjunto de árvores, ficava a pelo menos duas léguas dali. Josué tinha um chapéu velho de couro que lhe servia bem para proteger a cabeça. Sua alimentação naquele dia foi um fragmento de pão amanhecido, ingerido a contragosto e por insistência de Maria, esposa e mãe de seus dois filhos.

Caminhava a passos largos e determinados. Olhava fixamente o horizonte e maldizia todas aquelas crenças que aprendera quando criança, criado junto aos seus cinco irmãos no interior do sertão. Seus pés, embora possuíssem a resistência própria da lida no campo, já se mostravam feridos pela dura caminhada em direção ao vilarejo de São Joaquim.

– Lá em São Joaquim há de ter alguém que me ajude. Moisés nunca tivera isso antes – dizia inconformado.

Em casa, Maria fazia compressas com um pano úmido e carinhosamente acomodava sobre a cabeça de Moisés. Laura, três anos mais velha, se encarregava de manter o fogo e apesar da tenra idade ajudava nos outros afazeres domésticos. Moisés, agora com dois anos e diferente de Laura, sempre teve a saúde debilitada. Porém, nada se compara com a condição deplorável que se encontra. À noite ninguém dormiu, o menino ardia em febre e emitia sons incompreensíveis em meio aos calafrios. Josué, em busca de socorro, havia percorrido as únicas cinco casas vizinhas. Duas senhoras, em vão, trouxeram-lhe algum medicamento que foram ministrados durante toda a noite.

Seguindo seu destino, Josué caminhou por mais uma hora e decidiu por tomar um gole de água. Retirou o cantil cruzado junto ao corpo. Apoiou uma das mãos num pé de seco de jacarandá e virou o liquido goela abaixo. Estava quente, não mais que o calor daquela tarde. Aquilo lhe trouxe certo alívio. Josué olhava a paisagem distante que tremulava. Limpou o suor da testa, recolocou o chapéu e caiu na estrada novamente.

– Tenho que seguir. Meu filho precisa de mim.

Seu pensamento detinha-se só em Moisés. Havia escapado da morte quando nascera, não fosse a parteira ter-lhe desobstruído as vias aéreas.  Depois, picado por uma aranha armadeira, ficou internado em São Joaquim por vinte e três dias. Definitivamente a sorte não era sua companheira.  Ainda se recuperando de uma enfermidade anterior, se vê agora sobre a cama sem comer e beber por dois dias. Sente tremores e não há sinais de melhora. Maria já havia se utilizado de todas as ervas e chás que lhe aconselharam.

Em uma baixada, quando aproveitava a ladeira para apressar os passos, Josué viu uma carruagem saindo da quiçaça do lado esquerdo. Saiu bem na sua frente. Teve vontade de pedir ajuda mais deteve-se, sem coragem. O acanhamento era seu pior defeito. Quando se dirigia a alguém, fazia-o sempre de cabeça baixa – comportamento compreensível devido à ausência de contato com pessoas da cidade. Interagia basicamente com seus familiares de primeiro grau e depois Maria, lhe apresentada por um padrinho com o único propósito do enlace matrimonial.

Apesar da imposição para o matrimônio, típico costume à época, Josué e Maria se amavam. Nem a vida difícil e a condição social lhe impediram do amor mútuo. Moravam em condições humildes e se mantinham com uma pequena plantação e criação de animais, basicamente galinhas. Talvez as agruras da vida lhe serviam ainda mais para consolidar o afeto.

Josué então decididamente considerou que aquele sacrifício era necessário, iria dizer. Seu filho não estava bem. Criou coragem, levantou o queixo e arrumou o chapéu – mais antes de balbuciar qualquer palavra o homem da carruagem lhe perguntou:

– Aonde vais amigo, nessa estrada sem fim?

Após Josué lhe explicar o infortúnio por qual passara, Sr Antunes, um homem de boas feições, disse-lhe que São Joaquim estava muito longe e chegaria já ao anoitecer, não encontrando médico naquele horário. Nenhum carroceiro aceitaria trazer-lhes de volta – não havia nenhuma possibilidade. Josué sentiu a esperança evaporar. Sua feição arriou e as pernas fraquejaram – Josué então desabou. Sentou-se a beira da estrada, tirou o chapéu, desvencilhou-se das alpercatas úmidas de sangue e, desta vez sem nenhuma cerimônia, passou a chorar copiosamente.

Albertina, esposa do Sr Antunes, ambos aparentando mais que quarenta anos, era diferente de seu marido, bem mais encorpado e com boa estrutura corporal. Ela tinha não mais que um metro e meio de altura, era franzina e falava baixo. Seus olhos eram acolhedores e as palavras que pronunciava eram suaves e doces. Desceu da carruagem, ajoelhou-se na frente de Josué e levantou seu rosto.

– Vamos ajudá-lo Senhor.

Sr Antunes acomodou todos no banco apertado da carroça. Conhecendo o comportamento da esposa, tocou os cavalos para que girassem no sentido contrário. Josué quis contrariá-lo mais foi contido por Albertina. Não teve forças para contestá-la. Ela possuía autoridade que se impunha pela bondade e sabedoria – tinha no sítio onde morava uma capela e dedicou sua vida em curar as pessoas. Josué apenas calou-se.

Percorreram todo o caminho de volta e chegaram à vila já à noite. Quando avistaram a casa de Josué ele teve um sentimento angustiante. Ao descer, não teve forças para caminhar. Josué viu um grupo de pessoas na frente da casa e uma lamparina clareava um dos quartos. As pessoas começaram a murmurarem ao vê-lo. Josué pensou o pior.

Albertina, sem mesmo esperar que a carruagem parasse, desceu rapidamente e dirigiu-se ao casebre. Pediu para que a deixasse a sós com Moisés – o caso era de urgência. Maria não concordou, nunca lhe vira antes e também não tinha mais nenhuma esperança na cura da criança, apenas esperava Josué para confortá-la e dar o último Adeus. Albertina então assentiu e pediu para que Maria apoiasse o filho em seus braços. Como um ser divino, passou a orar. Dizia palavras que Maria não compreendia e volta e meia pousava as mãos sobre a testa da criança. Evocava seres imagináveis e transpirava em demasia. Maria observava incrédula aquele ritual, que perdurou por cerca de quarenta minutos.

A mulher deixou o casebre e caminhou no meio dos moradores que nada diziam. Formaram um corredor para que ela passasse.  Exaustivamente cansada, foi amparada até sentar-se num galho de árvore no quintal.

Joaquim vendo aquela cena teve certeza que perdera seu filho. Uma corrente de adrenalina invadiu seu corpo. Saiu em desabalada carreira para o interior da casa. Quando entrou no quarto viu Maria e Laura ao lado da cama. Deteve-se espantado. Caminhou vagarosamente. Pôs a mão sobre o ombro de Maria, tirou o chapéu e o acomodou no peito – tinha certeza da tragédia. Quando baixou a cabeça, inesperadamente ouviu uma voz.

– Pai, você voltou.

Lentamente Moisés abriu os olhos e sorriu. Josué não acreditava, gritou o nome do filho e caiu em prantos. Abraçaram-se. Várias pessoas incrédulas entraram no quarto. Moisés teve uma melhora repentina e milagrosa. Quando Josué restabeleceu seu estado emocional lembrou-se de Albertina. Ao sair no quintal não mais a encontrou. Perguntou aos moradores, ninguém sabia. Albertina havia partido com seu marido e deixado para trás mais uma de suas generosidades, ofertada a pessoas que sequer conhecia.

Maria sempre foi muito religiosa, diferente de Josué que até então se comportava indiferente às crenças populares. Agora, passados vinte anos, Josué e Maria moram em São Joaquim. Possuem vida confortável e não gostam de luxo. A casa é grande e Maria ainda cria galinhas. Laura não se casou, mora com os pais e é professora em São Joaquim. Moisés teve a saúde reestabilizada e ainda jovem foi ganhar a vida no Rio de Janeiro. Formou-se advogado e teve sucesso na carreira, o que lhe proporcionou dar conforto aos pais. Seu escritório, com sede própria em São Conrado, possui um bom corpo jurídico do qual ele é presidente. Sua Sala, situada no rol de entrada, possui ao seu lado direito, um pouco acima da cabeça, um prateleira feita em mármore. Nela a imagem de Padre Cícero e Nossa Senhora. Há ainda um terço desbotado sobre o manto da santa, do qual Moisés encontrara nas mãos ao acordar no leito da morte, quando criança.

Vanderley Silva.


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