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Publicado por veloso

– que publicou 1 textos no ONE.

Eu sou a sombra que ninguém vê quando chove e eu sou a cor nas paredes dos hospitais.

Eu escrevo histórias e elas escorrem por essas paredes no cursar das frases.

As cores vagam entre as linhas e assim eu crio minha prosa.

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Nov
02
2015

O Pintor

   Eu abro meus olhos, posso sentir minhas pupilas dilatando. Minhas costas repuxam como cordas arrebentadas de um violino, meus gritos são abafados pelo mormaço que sai de minha boca quando a abro. Eu viro para o lado e vomito sangue, nele estão meus sonhos perdidos e os mais deliciosos delírios que já almejei.

   Eu me levanto e me arrasto pelo linóleo, minhas entranhas deixam um rastro no chão e com ele eu formo o mais belo desenho, a cor é perfeita. Eu a recolho num pote e abraço junto ao peito, rente aos segredos. Sempre tive uma afeição por entranhas, por vísceras, por misericórdia. A miséria é aconchegante e nela eu encontro meus tons de desdenho. De desenho.

   Eu olho para você repousando em minha cama. Seu corpo está ali, coberto por vísceras, coberto por vermes; eu mesma o cobri, mas você não entenderia quando acordasse, então fique ai. Fique parado. Fique morto.

   Morto; eu sinto seu cheiro de podridão encher minha casa, o odor penetra na madeira e me inferniza enquanto pinto, enquanto ponho seu coração em um pote e o levo rente ao peito, onde mora meu ego, onde mora meu coração. Estamos conectados por um laço de sangue que você não entenderia acordado, então não se atreva a levantar.

   Eu te amarro na cama para que não pise nas minhas vísceras, eu te acorrento à minha dor para que não deixe de me machucar. As memórias me atormentam, as vozes me deixam louca, insana, eu não sou louca, você é, mas mesmo que seja, insiste que insanidade é apenas uma forma de ser são. E eu gosto de você assim, psicótico, visceral.

   Minhas janelas choram pelo lado de fora e eu as fecho para que não me afoguem com seu choro melancólico, meus pulmões se enchem com ele mesmo assim. Eu respiro sua dor, eu respiro suas lágrimas. O som do raio que caiu me lembra do som das suas gargalhadas enquanto me acariciava com sua faca. Seu riso doentio, seus olhos melindrados, seu sorriso de escárnio, eu tenho nojo de você. Eu amo quando seus dedos ficam sujos de carvão e você os põe na água esperando diluir, quando os mergulha em sangue esperando secar. Quando olha pra mim e diz que não suporta. A dor em seu peito queima como um casebre em fogo que leva consigo toda uma floresta, e em sua tela eu sinto seu sofrimento. As paredes se esticam e me contam o quê você sussurra enquanto pinta.

   Oh querido, tão querido, tão caído, tão morto. Eu entendo porquê você não terminou seu trabalho, agora eu vejo seus motivos, agora eu consigo assimilar seus gestos meticulosos e entendo o porquê você andava descalço todo o tempo. Agora eu entendo como é boa a sensação de andar sobre a carne, de dançar sobre o sangue, de escorregar nas tripas e se deixar levar pelo cheiro. O sangue é quente e acolhedor, o gosto metálico é maravilhoso, maravilhoso como nós amor, oh meu amor, o quê eu fiz?

   Em seu ateliê eu sinto o cheiro de carvão e madeira queimada, vejo cabelos pendurados no lustre e cordas em todos os cantos do quarto, em seus baús há pincéis quebrados e sonhos quebrados; era ali onde você despejava suas desilusões. As janelas são todas barricadas com madeira e há tinta vermelha em todas as paredes. Os espelhos são virados. As pinturas são horrivelmente maravilhosas e nelas eu vejo você.

   Me lembro do dia em que acordei com seus dedos apertando meu pescoço, foi o melhor dos afagos que já recebi. E quando você dançava descalço pelos corredores enquanto eles se alongavam, gracioso como uma sombra. Em seus olhos eu via todas as cores e nenhuma delas ao mesmo tempo, e quando você sorria, eu podia preencher com amor os buracos entre seus dentes.

   Um, dois, três ratos pela cozinha. Três, sete, vinte ossos quebrados. Tinta, cera e vitrôs por toda a casa, seu corpo esguio desviando das estátuas e fantasma como se estivesse rodopiando por um salão. Eu vejo seu cabelo, está comprido demais, deveria me deixar cortá-lo com o vidro que você quebrou mais cedo, quando todos estavam dormindo e as vozes na sua cabeça o tentavam. O atentavam. O deixavam sedento.

   Um, dois, três pássaros abertos em sua mesa. O coração exposto, cheio de moscas e larvas. Três, sete, vinte espelhos trincados. Trincados como meu coração, como seu maxilar quando você está com raiva. Como quando prende seu cabelo para pintar e, vez ou outra, corta o próprio dedo para usar como pincel. Como quando, vez ou outra, corta meu cabelo para fazer pincel.

   Casa escura, paredes mofadas, paredes pintadas de sonhos vergonhosos e amores falecidos, descansem em paz, desdenhem atrás dos muros, muros pichados de almas perdidas. Você é uma alma perdida, e por isso você pinta. Por isso usa vísceras, por isso morreu por elas, por isso me deixou viva.

   Eu entendo agora o porquê você nunca terminava seus trabalhos.

   Oh meu amor, por que a última pincelada é a mais importante, a que define toda a pintura, e uma boa obra exige o sangue e suor do artista. E por isso, nesse momento, eu choro sobre seu peito vazio e canto junto com a vitrola, por que meu coração é um violoncelo numa sala vazia, e eu prometo aqui querido, seus trabalhos não foram em vão.

   Por que uma boa pintura exige sangue do autor.

   E você não morreu atoa.


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