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Publicado por Elvis R. Souza

– que publicou 1 textos no ONE.

Sou jovem ainda, tanto na vida, como na escrita. Na leitura porém tenh minhas influências, principalmente nos gêneros: Terror e Fantasia.

Principais Influências: H.P Lovecraft, Stephen King, Bram Stoker, J.R.R. Tolkien, George R.R. Martin, Eduardo Spohr

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Dec
15
2015

O Círculo das Sete Pedras

 

I

 

Posso ter enlouquecido, sim, espero que seja isto. O fato é que nunca tive sintomas de um comportamento esquizofrênico, fui somente curioso. Sempre fui curioso, especialmente ao que se dirigia aos assuntos ocultos. Aos 12 anos, depois de um terrível caso de satanismo que ocorreu na pequena cidade onde eu morava, comecei a especular sobre o assunto. Aconteceu que um pequeno grupo cultista sacrificou 7 jovens no banheiro masculino do ginásio de esportes William Holtsen; fui o primeiro a ver a chacina, havia chegado à quadra primeiro que minha turma, tinha caído no chão sujo da escola minutos antes, todos riram de mim, eles sempre riam de mim; senti-me envergonhado, sujo, então levantei e corri na frente de todos, entrei no ginásio e fui direto ao banheiro, limpar minhas roupas, e minhas lágrimas.

A cena que vi foi terrível a quaisquer outros olhos, mas para mim foi um tanto curiosa. Sete adolescentes degolados ao redor de um pentagrama feito com sangue, um balde ensanguentado com alguma coisa dentro, que mais tarde fui saber que era o coração de um dos jovens; e velas por todo lado. Fiquei com medo, sim fiquei, porém a cena me chamava à atenção, qual era o propósito de tudo aquilo? Corpos ainda frescos; alguns eu até reconhecia. Depois deste episódio de minha vida, passei a pesquisar sobre os símbolos arcanos, sacrifícios, invocações, e todo tipo de coisa profana. Aluguei uma casa em Arkham, a qual levava para lá livros, pesquisas, e objetos inanimados que recolhia de antigos locais de invocação abandonados. Eu caçava aqueles itens; subornava um policial conhecido para recolher alguns objetos ritualísticos das cenas de crime em que ele investigava, e dar para mim, pagava um bom dinheiro pelas peças.

Foi então neste período de minha vida que decidi abrir uma loja de artigos religiosos, não eram somente artigos religiosos, mas uma pequena parte da coleção desses objetos que acumulei durante anos de minha vida, e naquele momento precisava me desfazer de alguns, e adquirir outros… acho que foi a partir dai que tive contato com estranhos tipos de pessoas, tão estranhas quanto eu. Tinha clientes que me contavam sobre rituais macabros que praticavam, membros de seitas que frequentavam minha loja e deixavam-me escapar segredos; vi então ai a oportunidadede conhecer um pouco mais do oculto. Oferecia a alguns clientes dos quais me interessava mais, o objeto de minha loja que procuravam com a condição de que me deixassem assistir culto. Alguns tinham tanta necessidade de conseguir o que queriam que acabavam aceitando minha proposta, já outros preferiam oferecer quantidades exorbitantes de dinheiro para não ter de aceitar minha presença.

Mergulhei então em um mundo totalmente obscuro, assisti todo tipo de perversidade, sacrifício animal, mutilação, possessão, suicídio, e talvez o mais terrível de todos, o sacrifício de pessoas inocentes. Pode me perguntar se eu sinto algum remorso de não fazer nada por aquelas pessoas que ali estavam sendo oferecidas em sacrifício, mas eu direi que não. Eu sou somente um observador das artes ocultas, um cientista, um pesquisador. Aquelas vidas não eram da minha ossada, não cabia a mim livra-las da morte ou ajuda-las, eram só cordeiros. Chame-me de monstro se quiser, de frio, insensível, mas o papel de um observador nada mais é do que observar, tinha que ver o resultado, o que aconteceria depois.

O tempo passou, e continuei pesquisando, observando, nunca acreditei piamente na existência de seres sobrenaturais, no entanto nunca discordei que os mesmos existissem. Na verdade houve um tempo que comecei a desacreditar totalmente dessas coisas, frequentando tantos cultos tenebrosos, vi que na maioria das vezes não era obtido resultado algum ao final dos ritos, em alguns casos sim, mas as manifestações não eram frequentes. Nunca havia visto esses seres sobrenaturais surgirem fisicamente em nosso mundo, o que me levou acreditar que eles não seriam capazes disso, ou que simplesmente não existissem, e adotei esse pensamento para carregar ao longo de minha vida, pelo menos era pra ser assim… até a noite de ontem.

 

II

 

Terei que contar primeiramente o que ocorreu semanas antes do evento em que vi coisas do qual eu nunca esquecerei. Antes da noite que é culpada por eu estar internado neste lugar.

Continuava com a minha loja de artefatos religiosos em Boston, e como eu disse que tinha clientes estranhos, tinha também fornecedores estranhos. Um desses fornecedores era Howard Lancaster, um inglês que trabalhava em explorações em sítios arqueológicos de varias partes do mundo, era fascinado por símbolos antigos, diagramas arcanos, enigmas, e com certeza um dos meus melhores contatos. Howard sempre foi inteligente, talvez um dos mais inteligentes homens que eu conheci; sabia sobre tudo, traduzia trechos de cantos e ritos para mim, descrevia achados da sua carreira arqueológica, e me enviava algumas peculiaridades por correio. Mantínhamos contato frequentemente, recebia suas cartas quase toda semana e sempre as respondia. Anteriormente ele havia me falado sobre a hipótese de haver uma nova pirâmide enterrada as margens do rio Nilo; estava empolgado com a ideia, e disse-me que esta poderia ser várias eras mais antiga do que as famosas pirâmides de Gizé. Começariam com as escavações dali a duas semanas, e pedi a ele para que me enviasse relatório de suas descobertas se fosse possível; ele confirmou-me que enviaria com prazer. E como dito, passou-se uma semana quando recebi a seguinte carta, que relatarei conforme minha memória conseguiu conservar:

 

 

Cairo, Egito,

Sexta-feira, 5 de setembro de 1928.

Prezado Gammell –

As escavações estão prestes a começar, e eu estou imensamente ansioso pela pesquisa. Peço para que não revele a ninguém as informações que lhe passarei por meio dessas cartas. O projeto de escavação esta sendo mantido em sigilo, não sei por qual motivo, mas como foram me imposto ordens, e eu as estou infringindo, peço para que não revele nada a ninguém, confio em você Gammell, creio que ficará interessado pelo assunto.

A suspeita da existência da pirâmide parece ter surgido de alguma espécie de culto praticado por bruxos da região, ou sabe-se lá quem fossem. Os homens que aqui estavam antes de mim dizem presenciaram esses tais cultistas vagando a beira do Nilo durante a madrugada, e entrando em túneis misteriosos dos quais não pude ter acesso. Provavelmente esses túneis devem levar a alguma parte da antiga pirâmide. Os homens do deserto, digo, os populares, e leigos afirmam que a escavação é uma loucura, dizem que podemos estar mexendo com algo além da nossa concepção; acredito que seja mais uma daquelas crendices em “maldições da tumba”, e até mesmo alguns próprios cientistas dizem que os túneis encontrados não poderiam ser feitos com tamanha perfeição usando a nossa tecnologia atual.

Na verdade não estou tendo acesso a muita coisa ultimamente, não conheço muito bem essa gente que me contratou, estou aqui pela conquista, imagine Gammell, eu Howard Lancaster tradutor dos hieróglifos da mais antiga pirâmide do planeta, um desbravador de artefatos históricos. Realmente quero muito saber mais sobre o projeto, e certamente, obtendo mais informações, lhe notificarei.

 

De seu amigo Howard.

 

 

Fiquei curioso realmente, a conquista de Howard era um feito invejável para milhões de arqueólogos espalhados pelo mundo. Chamou-me a atenção o fato de Howard não ter acesso completo as informações, talvez ele mesmo não me quisesse me transmitir as mesmas, foi o que pensei. Ele era muito bem reconhecido, famoso, não seria sensato esconder dados de uma pesquisa para um homem tão requisitado e contratado para o serviço.

Enfim, respondi que estava igualmente empolgado com a noticia, e que gostaria de receber mais novidades em breve. Continuei ocupado com minha loja, recebendo encomendas, providenciando pedidos, atendendo clientes e cumprindo com minhas obrigações. Até que na outra semana recebi mais uma carta de Howard:

 

Cairo, Egito,

Sexta-feira, 12 de setembro de 1928.

Prezado Gammell –

         Finalmente tive acesso aos túneis, são fascinantes, não sei como aqueles cultistas conseguiram escavar de tal forma, talvez eu deva começar a acreditar em magia. São perfeitamente redondas, tubulações perfeitas, não conheço nenhuma maquina capaz de realizar tal trabalho. Mas o mais fascinante não são os túneis, é o que há no fim deles.

         Nunca vi coisa parecida, a quilômetros abaixo da superfície existe um tipo de porta, também circular, não consegui identificar os símbolos gravados nela, o material da porta é desconhecido, parece uma pedra escura, totalmente negra, está selada, ainda não descobrimos como abri-la sem danifica-la, mas estão trabalhando nisso.

         Isso deve datar de muitos anos Gammell, falo de milhares, a textura da pedra, ou seja  lá o que ela é, é indescritível, coisa nunca vista por ninguém. Esse projeto com certeza será um marco na história da arqueologia. Até a semana seguinte eles já devem ter aberto a porta, descobrirei finalmente o que há por trás daquela pedra misteriosa. Enviarei noticias em breve.

 

         De seu amigo Howard.

 

Fiquei ainda mais curioso, confiava muito em Howard para duvidar das descrições que ele havia dito. Se meu remetente fosse qualquer outro poderia ter suspeitado de sua palavra, talvez fosse uma brincadeira, mas Howard nunca faria isso, sempre foi sério, e incapaz de brincar com as coisas de sua profissão.

Respondi novamente, aguardando novas noticias, disse que estava curioso sobre o material da pedra, e cheguei a sugerir alguns tipos de rochas que se encaixavam na descrição, no intuito de ajudar na pesquisa. Enviei a carta e novamente voltei ao trabalho, li um pouco sobre as pirâmides do antigo Egito, descobri coisas interessantes, porém nada do gênero que ele me contava; sem túneis perfeitos, sem rochas negras, nada disso.

Uma semana se passou, e não recebi respostas de Howard, devia estar ocupado, ou talvez a carta tivesse sido extraviada durante o caminho. Acabei reenviando a minha carta, e aguardei mais uma semana; fiquei intrigado quando a breve resposta de Howard chegou:

 

Gammell –

         Estamos passando por alguns problemas, descobri coisas novas Gammell, coisas inimagináveis, mas não poderei contar no momento. Pessoas morreram, estamos sendo perseguidos, algo assim, estou com medo, em breve mandarei algo mais informativo.

 

         Aquela carta me preocupou, teria essas mortes algo haver com os cultistas? Passei a pensar que aquilo fosse alguma brincadeira. Nada estava normal, a historia de Howard estava parecendo um tipo de relato psicótico ou um sonho. Mas eu respondi, expressei minha preocupação e cheguei a questionar ele sobre aquilo ser uma brincadeira de mau gosto.

Esperei a resposta na semana seguinte, e ela chegou, acompanhada de um pacote grande com algo anexado:

 

 

Cairo, Egito,

Quinta-feira, 25 de setembro de 1928.

Prezado Gammell –

Caro amigo, perdoe-me pela minha ultima carta, mas quero lhe informar que nunca faria tal brincadeira com ninguém. Passei por momentos de apuros aqui, mas fico feliz em informa-lo que as coisas estão mais estáveis. Ocorreram alguns acontecimentos estranhos desde que abrimos porta, homens morreram dentro da tenebrosa pirâmide, sobre esta, digo que no mesmo tempo em que é fascinante, é maldita.

         Ao abrirmos a porta à primeira sensação que tive foi um terror indescritível. O cheiro que dali saiu era terrível, não consigo descrever com o que parecia ao certo, era um odor forte, pesado, como se um milhão de mortos tivessem apodrecido dentro de um lugar fechado e aquele cheiro permanecesse impregnado lá durante anos. Sem falar no som que ouvimos quando a porta foi aberta, uma espécie de grito, ou sussurro, não sei como dizer, a voz que pronunciou aquelas palavras era inumana, disso eu não tenho dúvida, me deixou horrorizado, e a idioma que falava não era deste mundo. Parecia ser algo monstruoso, gigante, abissal. Mas não achamos nenhum sinal de vida lá embaixo até agora, no entanto perdemos alguns homens. Alguns sumiram repentinamente enquanto vasculhávamos o lugar, outros enlouqueceram, simplesmente começaram a falar coisas desconexas e pronunciar frases em alguma língua estranha. Mas deixe-me falar sobre o lugar.

         Novamente direi que nunca vi tal coisa, fiquei fascinado pelo ambiente, apesar daquele odor terrível, era tudo tecnologicamente mais avançado do que as pirâmides comuns. As estruturas daquele lugar eram perfeitamente recortadas, as paredes negras como a noite, com pinturas e símbolos que não pude identificar em nenhum dos meus livros ou faculdades. O interior era muito bem conservado, parecia ter sido construído há pouco tempo, apesar de ser datado como uma estrutura tão remota.

         A análise da rocha não identificou nenhum tipo de semelhança com os minérios terrestres. Na verdade o material se parece muito com o de meteoritos encontrados em regiões diversas do planeta, porém não é feito puramente do meteorito, tem um tipo de miscigenação com outros tipos de rochas desconhecidas, como se formassem uma liga. Não é minha especialidade estudar objetos interestelares, mas tudo se torna cada vez mais curioso, como os homens de eras remotas conseguiriam cortar essas rochas tão perfeitamente? A idade da pirâmide não condiz com a idade das ferramentas pré-históricas, as quais não seriam capazes de realizar tal feito.

         Enfim, achei um artefato que vai lhe interessar, enviei por correio e espero que tenha chegado até você. Surrupiei de um tipo de altar que havia dentro da pirâmide, o formato dela me chamou a atenção, não irei descrever você mesmo verá. Existem alguns desenhos nela, diagramas, alguns parecem criaturas, monstros, não sei dizer. Aceite isso como um pedido de desculpas pela minha ultima carta, eu poderia ter sido menos infantil, acho que a mistura das coisas que senti e ouvi quando abrimos a porta, junto à morte dos pesquisadores e as crendices populares da região, me deixou um pouco consternado.

         Há uma suspeita de que o tal grupo cultista que frequentava esse lugar é que esta matando nossos homens, não sei se devo acreditar. Se você fosse um pouco mais religioso, pediria para que rezasse por mim. Mas creio que não precise, não morrerei até que conclua essa descoberta, isso eu lhe garanto.       Escrevo novamente na próxima semana, e peço para que analise a pedra que lhe mandei, você se encantara assim como eu me encantei.

 

                  

De seu amigo Howard.

 

O artefato que recebi junto da carta era magnífico. Um tipo de pedra negra, totalmente disforme, não tinha beleza nenhuma, mas encantava igualmente. Parecia ser muito antiga, nunca vi algo semelhante, presumi que datasse de antes da criação do universo. Tinham várias gravuras nela, contornos brancos que se destacavam na escuridão da rocha, símbolos desconhecidos por mim, eu que tanto estudei simbologia, conhecia todo tipo de desenho ritualístico, mas não aqueles. E por fim o que mais me chamou a atenção era a energia que a pedra emanava. Tinha algo místico nela, algum conhecimento, podia senti-lo, mas não desvenda-lo. Havia algo de vil naquilo; não respondi imediatamente a Howard, primeiramente analisei a pedra e tentei decifra-la. Quando enfim decidi escrever, não havia chegado a nenhuma conclusão, me faltavam informações, só a pedra e as cartas dele não bastavam. Pedi a Howard que tentasse conversar com alguns desses cultistas, que buscasse comunicação com eles, a fim de saber o que eles veneravam por debaixo daqueles túneis.

Não sei até hoje se Howard seguiu meu conselho, somente sei que depois dessa ultima carta ele nunca mais me respondeu. Me preocupei, sabe-se lá se os tais cultistas não o teriam assassinado? Não sei. Mas não soube mais nada dele.

Busquei informações sobre essa escavação em que Howard havia participado, mas não obtive êxito. É como se nunca houvesse existido nenhuma pesquisa no Cairo, nenhuma noticia de jornal, nenhuma manchete, nada. Enviei varias correspondências a ele, mas não tive retorno.

As únicas evidencias da pesquisa eram as cartas de Howard, e a pedra que me enviou. Fiquei mais alguns anos com aquele objeto, estudando-o, mas como sempre, nada. Até que certo dia recebi uma correspondência vinda Gloversville, New York.

 

Gloversville, New York

Segunda-feira, 15 de outubro de 1930

Caro Sr. Gammell –

         Soube que você tem um item que cabe muito bem aos meus interesses, e pretendo negocia-lo com o senhor caso aceite minha proposta. Pois bem, eu conheci seu amigo Howard, trabalhamos juntos no Cairo, mas infelizmente tive que partir de lá por motivos de saúde e não conclui meu trabalho ao lado dele. Ele contou-me sobre um objeto que lhe enviou na época das expedições, uma pedra, preciso dela para algumas experiências, por isso venho lhe oferecer a oportunidade de ganhar um dinheiro com isso. Diga-me o preço George Gammell, e lhe pagarei conforme a sua necessidade.

 

         Ass.: Seth Morgan.

 

         Pergunteia esse tal Seth sobre o paradeiro do meu amigo Howard, ele respondeu-me que Howard estava morando em Moscou na Rússia. O questionei sobre o motivo pelo qual ele não me respondia, foi ai que Seth falou-me que meu velho amigo havia perdido a sanidade. Não pude acreditar, ele era um homem firme, ajuizado, inteligente, não perderia sua sanidade de uma hora para outra; isso me deixou com mais vontade de descobrir o que aquela pedra tinha haver com a sanidade de Howard; e se o homem que falou comigo disse que sabia usa-la, então eu tinha de descobrir como. Eu não precisava de dinheiro, só pedi uma coisa em troca da pedra, que ele me deixa-se assistir a suas experiências. No começo Seth não quis aceitar, mas ele parecia precisar do item logo, estava se desesperando, cada vez oferecendo mais pelo objeto, até que finalmente aceitou.

 

III

 

Fiz uma longa viagem até New York, tendo comigo a pedra negra. Seth disse-me que esperaria em frente a uma velha igreja localizada ao sul da cidade. E foi lá que o encontrei. Um homem alto e já velho, com aproximadamente 70 anos de idade, mas tinha muita saúde. Conversei com o Sr. Morgan sobre a tal pedra, a qual ele pediu que eu lhe mostrasse de imediato no momento em que cheguei, ele de fato parecia conhecer sobre aquilo, mas não me deu muita abertura sobre o assunto. Somente falou-me que a pedra era usada em cultos de antigas entidades extradimensionais, e que existiam poucas ao redor do mundo, nada mais do que isso.

Entrei em seu carro, e ele me levou até o interior da cidade, subimos uma espécie de colina seguindo por uma estrada de terra, a vegetação era composta de pinheiros e árvores típicas de um ambiente gelado, porém fazia calor. Eram por volta das 18h20min quando chegamos a uma pequena casa de campo no meio da colina. A casa era de dois andares, rústica, mas não abandonada, o cercado era bem arejado e havia alguns animais andando livres por ele, galinhas, cachorros e porcos.

Seth Morgan disse-me que teríamos que esperar chegar por volta das 23 horas para que pudéssemos iniciar os experimentos. Contou-me também que alguns outros homens iriam participar, outros cientistas, disse ele. Jantei em sua casa e ele me ofereceu um quarto para que eu passasse a noite, e de pronto eu aceitei. Aquele homem apesar de amigável e inteligente, tinha algo que me deixava perturbado, sentia quando olhava para ele a mesma sensação que senti quando conheci os mais terríveis satanistas e magos da América, mesmo sem que ele quisesse deixar transmitir aquilo. Ele parecia obter um conhecimento muito elevado, podia ver em seu olhar, seu semblante não era o mesmo de uma pessoa comum, como se aquele homem tivesse visto coisas inconcebíveis a mente humana. Talvez os outros me enxergassem desse modo, minha vida sempre foi buscar as coisas ocultas, presenciá-las com meus próprios olhos; havia visto coisas terríveis durante a minha carreira, no entanto perto de Seth eu parecia um simples ignorante.

Fui ao meu quarto trocar de roupa para a chegada dos outros homens, e no caminho que se seguia pelo estreito corredor onde se encontrava o quarto, vi uma porta entreaberta. Fui impulsionado por uma incrível vontade de ver o que havia lá dentro, e como por curiosidade, abri a porta. Era uma espécie de escritório particular do Sr. Morgan, vi duas estantes enormes preenchidas por livros e uma escrivaninha no fim da sala, iluminada por uma vela. Adentrei a sala em silencio, não queria que meu hóspede suspeitasse algo de mim; dei uma vaga olhadela pelos livros de suas estantes, a maioria falava sobre astros, antigos artefatos, mas nada sobre satanismo ou algo do gênero. Aproximei-me da escrivaninha, e vi que encima dela havia um livro fechado, o qual reconheci de imediato. Tinha visto algumas cópias e folhas separadas do famoso livro do louco Abdul Alhazred, porém aquele livro parecia ser sem dúvida o original Necronomicon, o livro dos mortos. Era o mais curioso livro de magia que já tinha visto, nunca havia presenciado tal obra de forma completa, geralmente as bibliotecas que possuíam suas cópias não o emprestavam tão facilmente. Mas como aquele homem o tinha? Uma obra tão rara como aquela, talvez fosse alguma réplica, mas as marcas do tempo denunciavam a idade do livro encapado em couro, com suas paginas amareladas, quase negras. Pensei em roubá-lo, mas não seria capaz disso, e certamente Seth daria falta de algo tão precioso. Era melhor eu sair dali.

Já tinha me arrumado e descido para recebermos os amigos do Sr. Morgan, até que eles chegaram. Estavam em seis homens, todos homens velhos, com média de 60 a 70 anos de idade. Cumprimentei a cada um, mas eles não pareceram se agradar de minha presença. Trocaram olhares com Seth, como se reclamassem de minha intromissão em seus assuntos, mas isso era normal para mim, já havia lidado com este tipo de situação por inúmeras vezes, e continue agindo naturalmente. Após trocarem algumas palavras, Seth anunciou-me que subiriam a colina imediatamente; aprontei minhas coisas e parti junto deles de a pé. Eram 23 horas em ponto, éramos iluminados pela lua e pelas lamparinas que cada homem levava em sua mão. Não disseram nenhuma palavra até chegarmos ao topo; o lugar era como se fosse um assentamento de rochas, plano, com alguns arbustos e árvores ao redor. Se posicionamos no centro do lugar, os homens haviam trazido mochilas, das quais tiraram roupas negras de dentro e se puseram a vesti-las; a pedra negra tinha sido trazida por Sr. Morgan, e devia estar dentro de sua mochila. Um deles puxou uma espécie de carvão de seu bolso, e passou a traçar um diagrama no chão de rocha, naquele momento percebi que aquilo não seria um experimento, e sim uma tentativa de invocação.

Seth retirou a pedra de dentro de sua mochila, e ou outros repetiram o ato, retirando outras seis pedras semelhantes aquela que eu havia trazido. Senti um calafrio, e continuei a assistir o processo. O diagrama era um circulo com algumas linhas riscadas dentro e fora dele, com outros círculos menores nas extremidades dessas pontas; novamente eu não reconheci o diagrama, me senti mais uma vez um ignorante.

Colocaram cada uma destas pedras dentro dos outros círculos menores, e se levantaram, pondo suas mãos para cima, e rezando algum tipo de prece silenciosa. Jogaram uma espécie de pó encima do círculo e entoaram as seguintes palavras, das quais ainda consigo me lembrar, embora sejam quase impronunciáveis: abdne sghä sghä, jhokng slgadh enzos. Iä, iä, Shub-Niggurah!

         A partir desse momento não sei se o que digo é real ou imaginativo. Embora eu lembre de tudo isso com muita clareza, prefiro que seja loucura de minha mente. De fato vi abrir-se naquele diagrama rodeado de pedras negras, um tipo de buraco, ou ao que posso dizer, se é que isto existe, um portal para algum lugar que não pertence nossa realidade. Não consegui ver o que tinha do outro lado, mas exalava um cheiro horrível, pesado, podre, que nunca havia sentido antes. Os homens continuavam com seu canto maldito, enquanto uma densa espécie de névoa saía do portal, era úmida, o cheiro desta era pior ainda e mais forte. Eu estava realmente apavorado com aquilo, e ao mesmo tempo fascinado, nunca vi algo deste tipo funcionar de tal maneira.

Foi ai que todo o meu fascínio sobre o que viria a seguir perdeu-se. Ouvi um ruído vindo de dentro do portal, o som me arrepiou a espinha, não consigo descrever, mas era como se fosse um grito concebido por cordas vocais que não pertencem a esta dimensão. O pior veio a seguir, enquanto os cultistas cantavam sua prece, vi em meio ao nevoeiro alguma forma que se mexia, como se quisesse sair do portal. A densa névoa se dissipou por alguns segundos, e eu pude ver o que nenhum outro já viu, um tipo de criatura tentava escapar pelo buraco, um tipo assustador de ser que não pertencia, e não deveria pertencer ao nosso mundo. Era grotesco, mas não sei descrever com o que se parecia, não tinha nenhuma característica que se aproximasse de algum animal terrestre, era algo que minhas vistas e minha mente não estavam preparadas para ver. Só pensei em uma coisa naquele momento: impedir que aquele monstro entrasse em contato com o nosso mundo!

Pulei em direção a uma das pedras negras que estavam ao redor do círculo, na intenção de atira-las para longe e fechar o portal; agarrei-a e sai o mais rápido que pode de perto da criatura. Seth e seus homens tentaram me agarrar, e um deles puxou uma arma no momento em que dava as costas para eles com a pedra em minha posse, ele atirou três ou quatro vezes, mas não me acertou. Desci a estrada pela colina correndo, enquanto eles me perseguiam, era difícil enxergar, mas pude me orientar pela baixa luminosidade que a lua me fornecia. Cai por duas vezes, mas me pus de pé e voltei a correr, até que cheguei à casa de Morgan, arrombei a porta com chutes, e busquei pelas chaves de seu carro até encontrá-las. Ia saindo da casa quando me lembrei de que não podia sair dali sem levar algo comigo, o Necronomicon. Voltei para dentro e subi ao andar de cima, fui até a escrivaninha, peguei o livro e sai. Roubei o carro de Seth enquanto o via descer pela estrada atirando contra mim, mas fugi a tempo.

Dirigi até Boston, onde sofri um acidente de carro e fui socorrido horas depois. Os que me salvaram me julgaram um louco. Disseram que eu estava em posição fetal dentro do carro, agarrado ao livro e a pedra, sussurrando coisas incompreensíveis. Fui mandado para o hospital, onde ataquei os médicos e destruí os quartos em que me colocaram, não me lembro de nada disto. Depois de receber alta na mesma noite fui enviado para este manicômio, como não tenho família e nem amigos próximos capazes de responder por mim, espero que minha sanidade retorne após esses acontecimentos e eu possa sair deste lugar.

Não sei o que é mais tenebroso, tudo isto ser fruto de minha loucura, ou que tudo isto é real, mas entre as duas opções eu prefiro estar louco.

O Necronomicon e a pedra ainda estão em minhas mãos até este momento, passei a noite toda em claro, e creio que ainda passarei muitas. Talvez tentem me matar quando sair daqui, aliás, tenho duas coisas que não pertencem a mim, e se caso tudo isso for real, tenho duas coisas que não pertencem a este mundo, e sei que certamente virão buscá-las de mim.

 


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