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Bad motherfucker. Fã de Tarantino, Spielberg, Kubrick, cabeças explodindo, ficção científica e rock n roll. Psicótico, nerd, anti social, preguiçoso e do tipo que você não andaria na escola.

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Jan
08
2016

Corpo, fogo, vida e morte

Cozinha-Pegando-FogoEra início do verão em Ropturópolis, e as crianças começavam a sair de suas casas para brincar nos gramados, que agora brilhavam mais verdes que em qualquer época do ano. O sol estava no céu, sem nenhuma nuvem negra, e – graças a Deus – sem nenhum sinal de chuva.

Podíamos ver a casa dos Picoli com um balanço improvisado pendurado em uma grande árvore no quintal, e uma criança balançando com muita disposição e ânimo, pra lá e pra cá, curtindo o vento pela manhã, e ao lado havia a casa dos Alves, que tinha piscina com capacidade para uns mil litros d’água, cheia até a borda, com algumas três ou quatro crianças se espremendo por ela, tentando se divertir e espantar o enorme calor daquela manhã. Havia também a casa dos Monteiro e a dos Batista, dispostas lado a lado, as duas com enormes quintais em que crianças corriam, brincavam e gritavam. Estava um dia lindo!

Não muito longe dali, em um dos maiores prédios da minúscula cidade Ropturópolis morava o Dr. Ernesto Borges. Podíamos encontrá-lo no terceiro andar, quarto 302, para ser mais exato. Na verdade, “Dr.” não era a melhor definição para ele. Era um cientista fracassado de meia idade que acordara particularmente cedo nessa manhã particularmente quente. Às seis horas já estava de pé, com as roupas encharcadas de suor.

É claro que mal conseguira dormir durante a noite, pois estivera com o pensamento longe do sono, da contagem de carneirinhos ou qualquer outra espécie de mantras que atraem o sono. Estava pensando em sua mais nova experiência. Essa poderia ser a única de sua carreira, que enfim daria algum resultado produtivo, já que todas as outras foram um fracasso absoluto.

A nova experiência do Dr. Borges tinha um pouco a ver com esse calor insuportável da manhã. Não exatamente com o calor da manha, mas sim com o calor; o calor insuportável, mais precisamente. Tinha a ver com temperaturas, celsius, fahrenheit, kelvin ou qualquer unidade de medida que você prefira pensar, e tinha a ver com a resistência do ser humano.

Consistia em descobrir com exatidão até qual temperatura o ser humano podia suportar o calor e continuar com o metabolismo e todas as funções funcionando. É claro que experiências científicas com esse intuito já haviam sido planejadas e realizadas, mas, pensava Dr. Borges, nenhuma nunca fora executada da maneira que ele planejava executar assim que a madrugada caísse lenta e silenciosa na cidade, nem mesmo por um maldito cientista nazista.

Borges sempre lera, quando pesquisava, que a temperatura máxima que o corpo humano suportava, ao ficar em um ambiente era de 127ºC, por até vinte minutos. Era uma perspectiva que impressionava o cientista, já que a temperatura que a água entra em ebulição, e começa a borbulhar é de 100ºC, e colocar o dedo ali e deixar por no mínimo cinco segundos, não parecia uma boa ideia… imagine um corpo inteiro em um lugar cuja temperatura esteja 127ºC por vinte minutos…

É claro, pensava Borges, isso é só uma droga de teoria. Ninguém nunca deixou um ser humano em uma temperatura dessas por esse determinado tempo para fins científicos, já que isso era absolutamente brutal, e nem precisa ressaltar que vai inteiramente contra as propostas dos Direitos Humanos. Ninguém, absolutamente nenhum cientista em sã consciência sequer pensaria em realizar um experimento desses com um ser humano vivo. Dr. Borges, entre tanto, não era um homem em sã consciência.

Aos doze anos foi diagnosticado com leves problemas mentais por um médico de sua cidade natal, Perturbo, há cerca de 40 quilômetros de Ropturópolis. Quando enfim conseguiu entrar para uma faculdade de medicina, aos 21 anos teve um surto de personalidade que ocasionou em um acidente lamentável com um de seus colegas de classe, que acabou tendo que amputar o braço. Desde então fora considerado um perigo para a sociedade e fora internado em uma instituição social sem fins lucrativos para cuidar de pessoas com deficiência mental, a Associação São Carlos Vicente na cidade de Limoeiro, essa que por sua vez se localizava há 15 quilômetros de Ropturópolis.

Depois de três anos internado, fora diagnosticado curado, já que nunca mais apresentara comportamento delinquente, porém acabou sendo renegado pela família e nunca mais fora aceito na faculdade. Desolado, Ernesto Borges se viu sozinho e se dedicou a pequenos projetos de pesquisas científicas e invenções fracassadas. Chegou até a ter uma equipe de oito pessoas o ajudando, mas terminou completamente sozinho onde está hoje, no terceiro andar, quarto 302 de um prédio em uma minúscula cidade se dedicando a sua nova experiência.

Dr. Borges havia comprado, na semana passada uma edição do jornal impresso da cidade e se lembrava de ter ficado chocado com uma notícia específica. Pegou o jornal que estava em cima de sua mesa e tornou a reler a página dois, pela terceira ou quarta vez:

Mulher é assassinada em casa; marido é suspeito

Um crime ocorrido nessa manhã de quarta feira chocou os moradores dos arredores da fazenda Paraíso em Ropturópolis. Uma lavradora, Cristina Teixeira Guimarães, 24, foi esfaqueada cinco vezes nas barriga e duas no braço esquerdo. Segundo testemunhas seu marido Jonathan Alfredo Guimarães, 27, e a mulher havia tido uma enorme briga na frente do filho casal de apenas 2 anos, meia hora antes.

Para essas mesmas testemunhas, que não quiseram se identificar, o crime teria sido cometido por Jonathan, motivado por ciúmes, o que remete o enorme crescimento do número de assassinatos passionais (aqueles motivados por questões conjugais) no Brasil.

O Delegado da Polícia Militar, Marques Ambrósio não quis dar declarações oficiais sobre o ocorrido nessa manhã, mas em uma conversa informal com nossa equipe jornalística disse estar chocado pela brutalidade do crime.

O suspeito Jonathan está respondendo em liberdade, já que o crime carece de provas para a condenação do mesmo. Caso seja condenado, a pena deve ser de seis a vinte e três anos de reclusão na Delegacia Municipal de Ropturópolis.

A criança do casal está sob os cuidados de mãe de Cristina.”

Fechou o jornal com uma fúria inexplicável e o atirou no chão. Não sabia explicar o motivo de sentir tanta raiva desse suspeito Jonathan. Talvez fosse a brutalidade com que assassinou a esposa, ou mesmo por não ter respondido pelo crime, nem sido condenado, embora não houvesse provas. Estava claro para Dr. Borges que Jonathan havia assassinado a tal Cristina.

Já tinha decidido o que ia fazer nessa madrugada. Realizaria sua experiência científica, e ainda livraria o mundo de um verme como aquele, como pensara.

Nessa madrugada, iria até a os arredores da Fazenda Paraíso onde Jonathan morava e levaria consigo alguns litros de gasolina e um bom e velho isqueiro, além, é claro de um termômetro para medir a temperatura. O suspeito seria o a cobaia perfeita para experiência. Dessa vez tudo ia dar certo, ninguém nunca fizera uma experiência dessas, Dr. Borges pensou, e o mundo não vai sentir falta de um verme como esse. Está decidido. Mas… e se eu for apanhado? E se a polícia descobrir, que, de alguma maneira eu provoquei o incêndio na maldita casa do Jonathan…?, pensou ele, Ah, que se foda, se a justiça foi tão falha com esse assassino, há de ser falha também com a ciência!

Durante a tarde que se seguiu, o sol continuou reinando impiedoso no céu. Definitivamente o verão havia chegado. Alguns pais gritavam para as crianças entrarem, ou ficariam queimadas pelos raios solares. Algumas entraram, e outras não deram atenção aos chamados. Na casa dos Monteiro, a senhora Rita chegou a levar um protetor solar para o filho que insistia em correr pelo jardim com outras crianças. Ela disse alguma coisa como “…está fazendo 37°C, trate de entrar ou passar esse protetor solar… Oh, Céus, esse menino gosta tanto de brincar no sol que não me espantaria se morresse queimado!

Morrer queimado em 37°C. Que inocência! É claro que fora um hipérbole. Mas parecia ironia extrema se ela imaginasse os planos de Borges para a madrugada de hoje.

Quando o sol começou a se pôr e dar lugar a uma lua branca e luminosa, as crianças entraram. Dr. Borges deu uma olhada pela janela e constatou que a cidade parecia muito mais calma e triste ao cair da noite. Abriu uma gaveta e tirou de dentro um pequeno isqueiro velho e cinza. Acendeu uma vez e contemplou por uma pequena fração de tempo a chama vermelha, forte e impiedosa que saíra da boca daquela e minúscula máquina de calor. Era linda e impressionante. É claro, Dr. Borges está completamente louco hoje. Um louco com plano de matar um homem e realizar seu experimento científico. Era um louco, mas um louco que não perdera o senso de justiça anarquista.

Olhou o relógio que marcava meia noite e quarenta e dois. Pegou a chave do carro, o pequeno isqueiro e o termômetro e colocou no bolso. Desceu os andares até chegar ao subsolo, na garagem. Abriu o porta malas e colocou cinco litros de gasolina dentro. Girou a chave uma vez e o motor ligou. Foi acelerando vagarosamente pela cidade noturna, passando em frente a casa dos Picoli, Alves, onde durante a manhã e a tarde as crianças brincavam alegremente.

Enfim, deixando a sede da cidade e se aproximando da Fazenda Paraíso, percebeu que o ar era muito mais puro onde as árvores enormes estavam fixas no chão, ao invés das casas de concreto da cidade.

Quando o relógio do pulso marcava uma e vinte e cinco da manhã, Dr. Borges estava em frente a casa do suspeito Jonathan. Havia uma luz acesa pela janela, o que o fez presumir que Jonathan ainda estava acordado. Decidiu que esperaria ali, até que aquela maldita luz se apagasse e ele pudesse enfim rodear a casa com sua gasolina e acender o fogo para torrar os miolos do maldito que matara uma mulher e que não respondera pelo crime.

Dr. Borges tirou o termômetro do bolso e olhou a temperatura ambiente. 28°C naquela noite de verão. Logo aquele termômetro estaria marcando um pouco mais de 127°C, marcando a real temperatura máxima que um corpo humano suportava o calor.

Se passaram vinte e cinco minutos e enfim a luz fora apagada. Estava tudo perfeito. Dr. Borges podia sair e incendiar a casa, e livrar o mundo daquele verme maldito. Mas ele começou a pensar. Começou a pensar no menino de cinco anos que era filho de Jonathan e Cristina.

Cristina não estava mais ali. Fora morta brutalmente e isso era dor demais para um garoto de cinco anos suportar. Se Borges matasse Jonathan vingaria a morte de Cristina e ainda realizaria um experiência científica, mas será que isso não traria ainda mais dor para a criança de apenas cinco anos? Como será que era o nome do menino? Do que ele gostava de brincar? Será que gostava tanto do verão quanto as outras crianças que brincavam a tarde inteira? Será que essa criança aguentaria enfrentar a morte dos pais assim? Por outro lado, Borges pensou no maldito filho da puta que esfaqueou a esposa sete vezes! Sete vezes! E não fora condenado a nem mesmo um mísero dia na prisão. Que justiça era essa?
Mas ele não podia se igualar a Jonathan. Não podia matá-lo. Ele se tornaria tão verme e inescrupuloso quanto julgava Jonathan ser. Se sentiu um lixo por ter planejado matá-lo naquela noite. Era claro que não ia fazer… não ia conseguir matar Jonathan por mais que ele julgasse merecer. Não se sentia bem, e decidiu que usaria sua loucura em nome da ciência, sem precisar matar o maldito suspeito.

Saiu do carro. Abriu o porta malas e pegou os cinco litros de gasolina. Derramou tudo dentro e nos arredores do carro. O cheiro forte o embriagou.

Voltou a sentar dentro do carro. O banco estava encharcado de gasolina assim como todo o resto do veículo. Pegou o termômetro e pendurou no vidro de um modo que ele conseguisse verificar a temperatura com facilidade de onde estava sentado. Acendeu o isqueiro uma última vez e verificou quão linda a chama era. Soltou.

Pou!

Deixou que o isqueiro caísse em cima do banco do carro e queimasse tudo, inclusive ele próprio. Sentiu o fogo incendiando em suas entranhas, sentiu os olhos dilatando e o calor derretê-lo como se ele fosse uma vela. Sentiu suas roupas se desmanchando e virando um enorme chumaço preto de cinzas que se misturavam com sua carne em brasas. Começou a gritar de dor. Gritava tão alto que devia ter acordado até o maldito Jonathan. O fogo consumia tudo.

Quando olhou o termômetro, viu que a temperatura passara dos 127°C, mas nunca conseguiu ver qual número exatamente o termômetro estava marcando quando ele deixou a vida.

Naquela linda madrugada de verão, Dr. Borges morreu, partindo dessa vida com duas únicas certezas:

A primeira delas é a de que a temperatura que o corpo humano aguenta antes de padecer é maior que 127°C; e a segunda delas é de que a justiça é falha, e que Jonathan continuaria vivendo sua vida sem nenhum tipo de punição ou remorso por ter assassinado sua esposa.

Ouviu-se um enorme estouro na madrugada. O carro do Dr. Borges havia explodido.


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