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Mar
02
2016

Trágico Amor Boêmio – pt1

por M.M. Trevizan

I-                  Inicio da Trágica Jornada

 

A noite cai novamente, fria e solitária como sempre. Junto com ela, também saio de minha morada, para mais uma vez, sentir beijar-me a face, a brisa mórbida da neblina noturna. Meu destino, como o de costume, a velha taberna no centro baixo da cidade, onde prostitutas, velhos alcoólatras e maltrapilhos, drogados e toda a sorte de boêmios se encontram ao cair do sol. Como companhia, apenas um maço de cigarros, meu chapéu, meu casaco sobretudo, e um canivete inglês sem o qual não saio. Pelo caminho, convites para uma “noite inesquecível” com alguma vadia drogada, para uma viagem alucinógena, ou simplesmente um convite para algum jogo de azar. É claro que meu interesse está longe de qualquer desses convites, meu único intuito é sentar-me à mesa do bar, degustar um bom vinho, e quando já preparado, sorver vagarosamente uma bela e charmosa taça de absinto, ao som dos tocadores, que arpejam madrugada adentro seus instrumentos. A noite vai ficando cada vez mais escura, e a lua mostra toda sua beleza e compaixão para com os que como eu, escolheram sua companhia para viver. Num céu sem muitas estrelas, vossa majestade prateada brilha intensa e solitária, assim como cada um de nós, cá nas ruelas escuras, e nos becos lotados de perdição.

Pois eis que chego ao meu destino. Sento-me à mesma mesa de sempre, aconchego as folhas onde as velas possam iluminá-las, tiro do bolso interno de meu paletó uma caneta e um tinteiro. As pessoas a minha volta, olham-me com interesse, porém, logo dispersam sua atenção ao perceber que tratasse apenas de mais um escritor boêmio. Sim, escritor, foi tudo o que me restou, a vida não é fácil quando se é um lusitano, vivendo em terras francesas, mas escrever, sempre me deu o suficiente para comer e vestir. É comum ver rodas de escritores discutindo suas idéias, enquanto bebem e fumam nas tabernas, pois todos sabemos, que a noite é sem dúvida, quando todos os pensamentos mais escondidos vêm à tona, eu prefiro ficar acompanhado apenas pelo candelabro. Sem me demorar muito, peço um belo vinho tinto, vermelho como o sangue puro de uma virgem intocada, ao fim do primeiro trago, molho minha caneta no tinteiro e dou meus primeiros esboços de uma poesia. Nem bem escrevo uma linha, e paro para acender um cigarro. Agora sim, as idéias vão surgindo, à proporção que o vinho escorrega em minha garganta. Observo a fumaça de meu próprio cigarro a subir, quando pelo vidro a minha frente, vejo cães de rua vadiando pela calçada, enquanto uma prostituta oferece seus “serviços” a qualquer bêbado malcheiroso que passa. Neste momento, devaneios preenchem minha mente, e imagino a vida daquela meretriz cheia de maquiagens esdrúxulas, quando a mesma não esta ali.

A dama da noite em questão, no entanto, não era uma vadia comum. Apesar de sua maquiagem um tanto pesada e vulgar como as outras prostitutas, era dona de uma beleza fulgurante, capaz de provocar sensações excitantes em qualquer homem, apenas em observá-la. Seus cabelos, negros e compridos, que contrastam com sua alva e límpida pele, vão até o meio de suas costas, e pela frente, descem até seus seios fartos e volumosos, a ponto de parecerem querer se libertar das roupas que os vestem. A cintura, fina e delineada pelo vestido apertado, mostra curvas suspirantes. O vestido colado, ainda revela mais de suas curvas. Nádegas rígidas, pernas como as de uma amazona, torneadas e fortes. Mas se seu corpo é algo deslumbrante, é em sua face que moram os anjos. Face delicada, olhos tão azuis quanto pedras preciosas, o nariz mais perfeito e suave que já vi, e uma boca que… Simplesmente dominaria e escravizaria qualquer ser-humano masculino, apenas com uma palavra.

Quando dou por mim, varias taças de vinho já se foram, percebo então que é momento de minha fada-verde. Peço o absinto, e tão logo ele me é servido, volto para o meu posto de observador daquela devassa. Ao primeiro toque do absinto em meu corpo, sinto minha mente ficar mais leve, os olhos pesam um pouco, -mas tudo isso parte de um ritual há muito praticado por mim -ficar embriagado.

Mas é observar aquela mulher que anseio agora. Recolho então o papel, o tinteiro, e a caneta, recosto-me novamente em minha cadeira, e volto a adoração. Ao mesmo tempo em que a bebida vai sumindo da taça, a vontade de ir até a rua trocar algumas palavras com aquela mulher aumenta. Mas continuo sentado, apenas olhando aquela beleza, um Davi de Michelangelo feminino. Percebo que apesar do frio, ela parece não se incomodar, pois sabe ter de mostrar suas qualidades, e como as mostra. A cada vez que alisa seu cabelo, sinto como se passasse suas suaves mãos sobre meu corpo.

 

II-              Atos Insanos

 

O absinto se finda. Meu corpo anestesiado, meus olhos enganando-me. Levanto-me, vou até o balcão, meus cigarros também se foram. Peço mais um maço, pago o que devo, preparo-me para sair, e neste momento, recebo um olhar hipnotizante. Uma coragem brota de não sei onde, meu corpo todo queima em desejo, e decido falar com minha deusa noturna.

Dirijo-me até onde ela está, chego bem perto. Neste momento, já estou mais embriagado por seus lábios, do que pelas bebidas que acabei de consumir. Ela parecia saber que havia me tragado, aproximou-se me olhando nos olhos. Perguntei seu nome, ao que ela respondeu – Monique. Perfeito! O nome cai-lhe perfeito! Seus lábios ficavam ainda mais deliciosos ao pronunciar seu nome. Um impulso então me tomou por inteiro, levado pelo desejo carnal, abracei-a com toda a malícia de um amante, e beijei-a tão profundamente, que ao fim estávamos ofegantes. Mais do que depressa, peguei pelo braço, e ela sem oferecer a mínima resistência, acompanhou-me até uma diligência de aluguel, que nos levou até minha casa. Não, não perguntei o preço de seus serviços, de tão tomado por ela, pagaria até com a vida se preciso, por aqueles instantes de suspiros ofegantes, gemidos de êxtase e prazer insano.

Assim que nós adentramos meu quarto, ela toma a condução da dança.

Atira-me na cama, e sempre com o olhar malicioso, despe peça por peça de meu vestuário, para depois, despir-se lentamente. Ensaiando algo como uma dança, faz mostrar-se ainda mais seus contornos exuberantes. Meu pensamento naquele momento era apenas beijar aquele corpo todo, e sentir cada centímetro daquela pele tocando a minha.

Ao fim de seu espetáculo particular, deita-se ao meu lado, e vai lentamente aproximando-se. Toca-me lenta e levemente, percorre todo meu corpo apenas com as pontas dos dedos. Já não posso mais segurar minha excitação, agarro-a então. Seus seios intumescidos de febre carnal tocam em mim, sinto um arrepio percorrer todo meu ser. Passo-a para baixo, e começo a tocar cada parte de seu corpo com meus lábios. Decoro suas curvas, cheiros e sabores. Ela não contente, faz o mesmo comigo. Não posso mais segurar meus impulsos, encaixo-me entre suas pernas, e começo a dança mais flamejante que ambos com certeza já tivemos. Mas como tudo que é maravilhoso, sempre tem seu fim, chegamos ao delírio final, e nos despedaçamos em êxtase!

Ofegantes, cansados e amplamente realizados, nos deitamos um ao lado do outro, ficamos olhando um nos olhos do outro, uma magia parecia percorrer todo o ambiente. Eu imagino se ela fica assim, como uma amante apaixonada, a olhar todos os seus clientes. Acho que não, tem ser algo especial, jamais caí na tentação de uma vadia, por mais solitário que estivesse.

Apesar de toda a beleza nua a minha frente, não posso mais manter meus olhos abertos. Deixo então a voz de Vishnu penetrar meus ouvidos, e os anjos do sono levarem-me ao seu reino…

 

III-           Fim de uma Insanidade, Começo de uma Loucura

 

Acordo. Típica manha fria da Europa. O velho relógio gótico na parede marca 10:00h. Já perdi o horário de levar meus escritos ao jornal da cidade. Mas também, não produzi uma linha sequer. Tomo um bom banho para curar a noite passada, mas quando percebo estar nu, lembro-me de alguém. Monique -penso alto- onde estas minha deusa noturna?

Nenhuma reposta. Visto uma roupa, preparo-me para o frio, mas quando pego minha carteira, percebo estar sem dinheiro. Monique deve ter levado o pouco que restou da ultima noite. Agora, estou sem Monique, sem dinheiro, e sem cigarros. Passo o dia todo andando pela cidade. Cada rua, ruela, beco, percorro tudo, esmiúço cada paralelepípedo. Mas não a encontro. Decido voltar para casa. Assim que a noite der seus primeiros passos, irei até a taberna, tenho que revê-la.

O sol se põe, a noite da o ar de sua graça, e com ela saio eu novamente, mas hoje, ando a passos largos pela rua. Sem cigarros para me fazer companhia, a ansiedade aumenta. Monique não chega nunca. As horas vão rastejando, morta e lentamente, parecem não querer cooperar comigo. E o pior é que estou sem dinheiro, não posso beber, não posso fumar, posso apenas ter vontade, desejar… Monique, deseja-la é tudo que fiz o dia todo.

Mas lá vem! Quando Monique apontou do outro lado da rua, meu coração se encheu de algo, que jamais experimentara, amor. Isso mesmo, amor, mas logo eu? Eu que jamais caíra de amor por nenhuma mulher, eu que já me deitei com condessas, virgens, ricas madames, estava mesmo apaixonado por uma meretriz? Talvez a facilidade com que as mulheres se entregavam a mim, fez com que eu nunca me prendesse a nenhuma. Também pudera, modéstia à parte, que mulher não se entregaria. Cabelos negros um pouco crescidos, olhos negros de mistérios, pele clareada pela lua, além do charme e romantismo, que poucos trogloditas tem…

A resposta era sim, e fui logo para perto dela. As olheiras tomavam conta de meu rosto cansado, e ela, estava tão linda quanto ontem. Como pode? Eu ainda sentia os efeitos daquela noite surreal, e ela parecia ter descansado durante toda uma semana!

Monique olhou-me, e logo abriu um sorriso esplendoroso. Encolhi-me todo com medo de alguma ofensa, pois ela era prostituta, era apenas uma noite, depois acabou. E contrariando, pega em minha mão, leva até a mesma mesa que eu ocupava no dia anterior, sentou-se dizendo que hoje, a noite era dela. Acertou, pois a mesma havia me tirado os últimos centavos. Pagou a bebida, os cigarros, perguntou meu nome. A noite passada foi tão maravilhosa e cheia de desejos, que sequer lhe disse meu nome. Respondi –Pedro, Pedro Maciel-. Ela sorri, diz ter gostado de meu nome, pergunta o que faço… E assim quando vejo, já degustamos quase uma adega inteira. Ela pede-me, já que sou poeta, para escrever algo, naquele momento. Sem pestanejar, olho fundo em seus olhos, como se quisesse ver sua alma, e componho em questão de minutos, algo apenas para ela, esta poesia jamais ira para as páginas de um livro ou pasquim, mas ficara eternamente com ela.

 

“Beleza Gótica

 

Tua pele branca,

Teus cabelos negros…

Lábios vermelhos como sangue,

Olhos profundos como a morte.

 

Teus contornos,

Suaves e sombrios,

Atraentes como a lua,

E pacíficos como as trevas…

 

Estranho e insano,

É esse amor…

Parece estar só em mim,

Às vezes, parece estar em ti também.

 

O som de tua voz,

Pelos belos contornos de teus lábios,

È mais doce e suave,

Que o toque da brisa matutina.

 

És como minha amada,

A Noite,

Misteriosa e secreta,

Hipnotizante e apaixonante.

 

A mais bela,

Beleza das trevas,

Apocalíptica sensação,

Estar apenas em teu coração…”

 

Percebo seus olhos precipitarem uma lágrima, mas ela por alguma razão esconde o rosto neste momento. Toca minha mão, puxa-me para fora do pub, e convida-me a ir para sua casa. Respondo de pronto, que meu dinheiro se foi todo na ultima noite. Continuou a puxar-me pelas ruas, dizendo que para mim, não haveria mais cobrança.

O céu! No céu me sinto neste momento, perto dos anjos, perto do infinito! Teria ela caído de amores por mim, tanto quanto eu por ela?

 

IV-           Vampírica Boemia

 

Chegamos em sua morada. Muito ao contrário do que eu imaginava, é um lugar muito melhor que minha própria casa. Móveis em cores escuras, cortinas cor-de-sangue, tapetes dos mais finos, belos quadros, mas antes que eu possa terminar de olhar toda casa, ela leva-me direto ao seu quarto, e eu embriagado, deixo-me guiar.

Começamos novamente nossa dança, todo aquele ritual de prazer… Mas hoje, ela está mais carinhosa, olha-me como um companheiro de veras, e não como um cliente. Sinto algo diferente também, como se nada nos pudesse separar mais, como se o mundo todo, não fosse mais nada, se como na noite anterior, ela não estivesse ao meu lado de manhã.

Chegando o fim de nossa fornicação, Monique abraça-me, e pergunta-me se desejo que aquele momento seja eterno. Claro que sim, mas digo saber da vida dela, e que é impossível. Nem bem termino a frase, com a excitação final chegando, ela olha novamente em meus olhos, e seus olhos parecem estar vermelhos, mas não ligo, o prazer é maior, então, num movimento rápido, no exato momento do clímax maior, sinto sua boca em meu pescoço, e logo em seguida, uma queimação penetrando todas minhas veias. O que é isso? Que sensação é essa? Nunca, jamais senti tamanho prazer, mesmo um poeta como eu, não acha palavras para descrever este momento! De súbito, ela corta o próprio pulso, e oferece o elixir de suas veias para mim, e ao contrario do que faria normalmente, algo que jamais havia sentido, me empurra a aceitar. Deleito-me com o sangue de Monique, e vou sentindo meu corpo todo sendo tomado por uma nova vida, meu suor todo, desaparece, sinto-me forte, não sei explicar. Ela afasta minha boca de seu pulso, nossos lábios estão molhados com o sangue um do outro, começamos a nos beijar, e eu até agora, não estou entendendo. Se a noite anterior havia sido surreal, o que seria então esta?

Uma dor terrível na altura do estômago agora me consome. Meus olhos querem se fechar, minha cabeça roda, vejo vultos, pessoas de meu passado em Portugal. Monique apenas me observa, dizendo ser tudo normal. Podia ser tudo, menos normal o que havia acontecido esta noite. Finalmente não consigo mais resistir, a dor, as alucinações são mais fortes, e acabo por desmaiar.

Desperto como que de um pesadelo, e penso comigo mesmo, que o absinto esta afetando meu cérebro. Viro-me para o lado, mas não estou em casa, viro-me para o outro, e vejo Monique. Levanto-me e vou até a janela. Assim que abro as cortinas, o sol bate em minha pele. Uma dor terrível, como se brasas tivessem sido colocadas sobre mim, me faz fecha-las imediatamente. Monique desperta, sorri de leve, e antes que ela possa falar, começo a fazer perguntas, como um garotinho curioso, quero saber tudo. O que foi que fizemos, o que esta acontecendo comigo?

Ela me acalma, e começa a explicar. Senta-se em meu colo, e com a voz suave, diz a mim:

“_Disseste querer que nosso momento fosse eterno, disseste querer-me eternamente. E eu, também te desejei, desde o primeiro sorriso que me deste naquela noite. Agora, teremos a eternidade para nós. Não morreremos, não envelheceremos, somos filhos da noite, bebedores de sangue, somos vampiros”

O que? O que eu acabei de ouvir? Vampiros? Mas como? Isso é só um velho folclore europeu, não há como ser verdade. Mas ela me confirma tudo, me fala da fome, que realmente estou sentindo, do sol, e da eternidade. Então pergunto a ela, se ela é um ser assim, porque ser prostituta. Ela responde que era antes de ser abraçada, e que este era um meio fácil de conseguir comida. Também disse-me que ao cair da noite, sairíamos para caçar juntos.

Sinto-me estranho, quando adormeci, era apenas um poeta boêmio e pobre de 32 anos, vindo Portugal ainda adolescente, órfão desde os 19 anos, e agora, sou um ser capaz de exterminar multidões apenas com as mãos, que bebe sangue, que só pode caminhar a noite, e que tem vida eterna. Sinto-me estranho, mas não triste, terei a mulher que amo para sempre, não precisarei mais mendigar dinheiro para um folhetim idiota, nem me preocupar com doenças! Agora é esperar a noite…

 

  • A Primeira Noite, O Auge…

 

Mais uma noite começa, mas esta é especial, pois será minha primeira “refeição”. Monique passa com cuidado cada detalhe. Não tomar mais o sangue quando o coração parar de bater, nunca dar seu sangue para nenhuma vítima, pois a mesma se torna mais um vampiro. Sinto-me cada vez mais apaixonado por Monique, e ela por mim. Ela escolhe uma vítima. Um vagabundo a ponto do suicídio por causa das dividas de jogo. Perfeito. Avançamos como lobos famintos, arrastamos o homem para um beco, e sugamos todo seu sangue. Monique era uma ótima professora, enquanto sugávamos o sangue, foi me dizendo das diferenças de sabores entre, negro, branco ou asiático. Ela comparou o sangue de um branco, a carne de vaca, o sangue negro, como é forte, comparou a carne de javali ou búfalo, e o sangue asiático a carne de frango, este último mais raro de se encontrar.

Os anos estão passando, a vida com Monique é maravilhosa. Numa conversa com ela decidimos viajar a Europa toda, mesmo porque a velha Paris, já esta desconfiada de nós. Sairemos hoje a noite, destino? O sangue quente e apimentado da Espanha. Monique acha devemos ir para Portugal, mas ainda acho cedo para retornar ao meu berço.

Chegamos, A bela Madrid, mais linda do que nunca, nos recebe, sem saber que nos é que teremos o imenso prazer de ficar por aqui um tempo.

A lua ilumina as ruas madrileñas, e deixa amostra desavisados, que mal sabem estar na cidade, um casal sedento pelo sangue quente. Vemos outros vampiros, mas eles não gostam muito da concorrência de vampiros vindos de fora. Não sei porque, mas não tive um bom pressentimento sobre essa viagem. Monique diz que é besteira.

Madrid é linda, belas construções, é uma pena não podermos acompanhar uma tourada, pois o sol torraria nossa pele. Sentamo-nos num restaurante caro, dinheiro não é mais problema, pois agora além de roubar a vida, levamos também o dinheiro de nossas vítimas.

Aproxima-se de nós um homem, sinto no ar que é um vampiro, ele se apresenta, seu nome é Emilio. Convida-nos para uma festa onde o sangue seria em fartura. Não aceitamos o convite, meus sentidos enxergam perigo.

E assim vamos passando dias, meses. Nossa existência ficou sabida por todos os vampiros da cidade e da região. A raiva deles por nós não sei porque razão, também cresceu.

Emilio constantemente nos convidava para esses encontros, hoje decidimos aceitar. Será bom, pois assim, conhecerão a mim e a Monique, e verão que não há nada diferente conosco.

Nosso guia nos leva até um castelo maravilhoso, lindo, onde estão reunidos vários outros vampiros, como uma assembléia.

Danças, música. Tudo do melhor. A festa está correndo bem, mas vai melhorar, abriram os enormes portões para entrada de humanos. Os pobres estão sendo todos embriagados, não sabem que são o prato principal.

O vinho acabou. Como leões famintos, avançamos em nossas presas, o sangue cobre todo o chão, cada espaço do salão. È lindo! Todo aquele vermelho, toda aquela fartura! Eu e minha amada estávamos absortos em tamanha festa.

Mas algo estranho está acontecendo em nossa volta agora. Todos formaram um círculo, e nos deixaram no meio.

VI-           … e a Queda

 

Algo como um julgamento está acontecendo. E nós somos os réus. Acusam-nos de ter invadido seu território, de ter tomado de um sangue que não era nosso. Lembrei a eles que Emilio nos havia convidado para festa. Ao que eles respondem, não ser esse o problema, mas sim, estarmos em Madrid, e que o convite foi mera fantasia. Numa velocidade incrível, agarraram a mim e minha amada, estamos um cada canto da enorme sala de festas.

A sentença sai finalmente, ao ouvi-la, tento me desvencilhar dos que me prendem para ficar com minha amada Monique. A sentença é a morte.

Prenderam-nos nos terraços do castelo, para queimar ao nascer do sol. Clamei e clamei pela vida de minha amada, lágrimas de sangue cobriram meu rosto.Para maltratar-me ainda mais, disseram que vão me deixar à sombra, para que eu possa ver minha deusa noturna se desfazer.

O que fizemos? Esses avatares do demônio não têm o direito de acabar com nosso amor! Desde que Monique me abraçou, nossa vida tem sido maravilhosa, permeada de bons momentos, e agora, querem que eu veja o amor de minha eternidade morrer! Malditos sejam esses vampiros-demônios, maldito seja o momento em que escolhemos vir aqui!

O sol começa a nascer, – Monique! Não! Seus monstros! Monique, deusa que me deste a felicidade verdadeira, não deves morrer, não! – Grito e imploro, mas os odiosos apenas riem, e um líder ainda brada, que nós somos um exemplo, para que nenhum outro ser da noite, venha de fora, para derramar o sangue espanhol.

Minha bela agora geme, mas não de prazer, como fazíamos todas as noites, mas sim pela dor que a esta consumindo. Lágrimas de sangue escorrem pelo meu rosto, enquanto vejo o belo corpo de Monique ser consumido pelo sol. Aquele corpo, aqueles lábios… Meu coração queima junto com ela, meus gritos ecoam por todo o castelo. Ela está se contorcendo, também chora, enquanto seu corpo queima e despedaçasse.

Ó amada, porque tu? Por que não escolheram a mim ao invés de ti. Que mundo é este? Além de esconder-se dos humanos, terei agora que fugir daqueles que deveria chamar de irmãos?

O corpo todo de minha Vênus já se foi, apenas restos de suas vestes restaram. Emilio e seu líder, que agora sei, chama-se Abelardo, estão vindo até a mim. Suas faces revelam satisfação e sarcasmo. Começam a falar-me – Forasteiro, amanhã será tua vez de sentir a irá do astro maior a lamber tua pele, teus berros para mim, só revelaram o quão fraco és. Tua vadia ensinou-te muitas coisas, mas esqueceu de uma lei deveras importante, vampiros não amam! E por mais que tentem, sempre acabarão como tu, fraco, rastejante e morto! Agora te aquieta verme, amanhã seras tu.

As palavras de Abelardo estão ecoando em minha mente. Vampiros não amam… Mas eu amei, e como amei, alias, ainda amo Monique, vou amá-la pela eternidade que viver, pelo sangue que consumir. E ela também me amou, até seu último suspiro, até seu ultimo pedaço de pele ser consumido, sei que também ela amou-me. Tenho que fugir daqui, essas correntes e estas grades não vão me impedir de conquistar a liberdade.

Arrebento as correntes então, com a força de minhas mãos, forço as grades de modo a passar por elas. Meus passos são leves e cheios de ódio. Um lacaio de Abelardo me viu, esta atrás de mim! Devo ser rápido. Com apenas um movimento, viro-me para trás, corto sua garganta com minhas unhas, e antes que ele caia, penetro seu peito com minha não, e ponho para fora seu coração. Pronto, despertei a besta enfurecida dentro de mim.

O caminho parece vazio, corro pelos corredores do castelo, até que vejo a saída. Ganho as ruas correndo como um louco, pois o sol já esta apontando. Enquanto corro, ouço os gritos de dor de Monique ecoarem dentro de minha cabeça.

Decidi deixar a vingança de lado, quanto mais eu lutar, mais inimigos vão aparecer. Optei voltar para a terra que há muito deixei para trás. Sim, assim que a noite cair novamente, vou para Lisboa, voltarei a minha pátria lusitana…

 

 

VII-       Portugal, Lisboa, um Porto Seguro e o Fim da Jornada

 

Cá estou, minha amada terra. A noite lisboeta oferece muito que fazer para um vampiro, os bares estão sempre lotados de boêmios solitários, apenas esperando por um golpe final, que terei prazer de executar.

Monique estava certa, deveríamos ter vindo para Portugal ao invés da Espanha, a receptividade dos clãs daqui, foi ótima. Todos realmente tratam-me como um irmão, ela iria adorar aqui.

Penso cá com meus botões, que vou passar minha eternidade aqui. É mais seguro, a cidade é linda, sua arquitetura é maravilhosa, e oferece tudo que um poeta da noite precisa. Vou voltar a escrever meus pensamentos, passarei para o papel, a aventura linda e maravilhosa que foi ter Monique, venderei para algum pasquim, tentarei beber o mínimo de sangue possível.

Não irei mais consumir a vida alheia, posto que não tenho mais com que compartilhar as alegrias de uma noite de farra e fartura. Não tenho mais a companhia de minha bela, para juntos fornicarmos e irmos até a morada dos deuses, de tanto prazer. Nos meus devaneios, nunca mais felicidade, nunca mais sorrisos. Olho para o céu estrelado de Lisboa… Onde estará ela, o que estará fazendo? Nem mesmo cães do inferno – como nos chamam os humanos – merecem morrer de forma tão humilhante e dolorosa. Jamais vou esquecer teu sorriso, tuas palavras, jamais… Começarei com este poema que escrevi logo depois de fugir do calabouço na Espanha.

 

 

Lamento

 

O que é que eu vou dizer?

Quando acordar, e ver que o sol não esta mais lá?

Quando as brancas nuvens, não mais formarem sonhos,

Mas sim, tormentas e pesadelos?

 

A crescente melancolia, empalidecida e antiga,

De tempos idos e distantes;

A insônia cruel e combalida,

Fazendo convalescer este pobre diabo moribundo…

 

Pestilentos e miseráveis ratos,

Agora roem o que um dia fui eu.

Eu, que dantes senhor de monarquias,

Agora, apenas farrapos e desarmonia.

 

Minhas torres de marfim foram ao chão,

E despedaçaram-se todas,

Em pedaços tão pequenos como grãos de areia.

Pela eternidade hei de recolhe-los.

 

O abismo sugou-me,

Tal qual um inseto indefeso,

Por seu predador faminto…

 

Nem todas as lágrimas do mundo,

Seriam suficientes o bastante,

Nem mesmo se meus olhos vermelhos e cansados,

Derramassem todos os oceanos…

 

Clamo e clamo aos ventos uivantes,

Sussurro e choro lágrimas de sangue,

E posso ouvi-los pelos cantos,

Mas não me ouvem nem mesmo quando grito.

 

Iníquos afetos e falsos desejos,

Trouxeram-me até estes portais do inferno astral,

Ante-salas do desespero final,

Da tentação do ódio próprio e cabal.

 

Abro os olhos destroçados então,

E as brancas nuvens lá estão.

Porém, alegria não sinto,

E tudo o que quero agora, é não querer mais nada,

E afogar minha’lma numa bela taça de absinto…

 

Ah Monique… Amar-te-ei eternamente minha deusa da noite, minha amada vampira, a mais bela das belas, beleza das trevas…

Dizem que nosso império tem domínio de terras no além-mar, talvez, eu vá para lá, dizem ser um povo ingênuo os nativos. Quem sabe?

 

  

 


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