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conto da noiteO Conto da Noite
Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

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O som da liberdade

Esse conto nasceu de um desafio feito pela Maria Santino no grupo Escritores Desconhecidos, ela desafiou-me a escrever algo com o tema “Pecado”, tentei fugir do comum, me digam o que acharam. 😀

silêncio

Em uma rua silenciosa de uma cidade silente. Em um país mudo de um planeta taciturno; um homem chamava a atenção.

Quando ele passava as pessoas erguiam a cabeça e baixavam novamente. Pode não parecer nada espetacular, mas era; pois existiam pessoas que nasciam e morriam sem sequer olhar nos olhos de alguém.

Ele se destacava na paisagem de prédios cinza e árvores secas, suas vestes brancas com tons azuis eram novidades onde o marrom mórbido dava o tom das roupas. Seus sorrisos e movimentos leves assustavam comparados à marcha mecânica que caracterizava todos. A barba e os cabelos grandes mostravam-se como uma grande novidade diante dos rostos perfeitos e iguais.

— Bom dia. — Parecia não se importar com a falta de resposta. Também não demonstrava espanto com a rua engarrafada sem sequer uma buzina apitar.

— Bom dia — repetiu para o jovem sentando em uma cadeira na calçada de uma lanchonete, segurava um cardápio por costume, pois não importando o estabelecimento os pedidos eram padronizados.

— Bom dia, eu sou o Barbudo. — apresentou-se com ainda mais empolgação. O jovem ergueu os olhos e baixou novamente. Não diferente das pessoas que viravam os pescoços e depois olhavam para frente seguindo com suas passadas meticulosas. De cabeça baixa o rapaz parecia fazer um esforço tremendo e, como uma criança que aprende a falar respondeu:

— Bom dia — em um tom de voz lento e fraco. — Sou Ed3406, completou.

— Sei que você sabe falar, mas não tem costume. Assim como todos sabem viver, mas não conseguem. — Mais uma vez os olhos do garoto se levantaram e arregalaram. Não para o misterioso homem barbudo, mas para a patrulha que parou na calçada. O jovem de prontidão ficou de pé em posição de sentido e emudeceu.

Três soldados desceram em uma marcha portando armas, “Guardiões da Ordem”, eram chamados. Tinham a missão de caçar os pecadores, ou seja, todos que desafiavam a ordem vigente.

— Bom dia senhores. — Eles também não respondiam. Chegaram acertando coronhadas e mesmo com o homem no chão não pararam. O Barbudo levantou-se e jogou-se sobre o rapaz que, permanecia como uma estátua e caiu como uma. Aproveitando a oportunidade, antes de ser arrastado pelos soldados, Barbudo colocou algo dentro do terno cinzento do garoto. “Você tem o dom, use-o”, sussurrou em seu ouvido.

Ed permaneceu parado, ereto, sem expressão e, não elevou o olhar nem quando os soldados fuzilaram o Barbudo com suas armas silenciadas, jogaram-no no porta-malas e saíram, nem de uma cantada de pneus o homem foi merecedor. A viatura não emitiu qualquer som.

Assim o garoto foi caminhando em direção de sua casa, passos firmes, todos dado na mesma distância, vistas presas no solo. O mundo era soturno, entretanto, algo tinha mudado. Um barulho tremendo agora ecoava em sua mente.

Entrou em seu condomínio. Todos os edifícios tinham trinta e um andares, ele apertou o número cinco, andar padrão de todos com  nomes iniciados com a letra “E”. Entrou em seu apartamento. Quando tirou o paletó algo caiu. Ficou paralisado, pois nunca tinha acontecido isso. Só aquele fato abalava toda a ordem da sua vida. O barulho na sua cabeça foi aumentando de tal forma que ele caiu ajoelhado, apertando as têmporas, por fim não aguentou e gritou.

Foi arrebatado por sensações novas, primeiro sentiu um alívio e pegou-se gargalhando. Depois foi tomado pelo pânico, sabia que seu grito chegaria longe naquele mundo melancólico. Logo os Guardiões estariam na sua porta. Correu. E isso também foi estranho, suas pernas jamais realizaram movimentos tão intensos, sentiu-se a pessoa mais rápida do mundo.

Quando passou a toda velocidade as pessoas apenas levantaram as cabeças e baixaram em seus gestos automáticos. Por fim, cansado sentou-se no banco da praça. Só então notou que ainda segurava o misterioso objeto.  Era em formato cilíndrico, fino, tendo buracos em sua extensão. Mexeu por muito tempo naquilo sem encontrar qualquer utilidade até que, sem saber o motivo levou-o à boca e soprou forte. O apito agudo atraiu a atenção da multidão que passava. O som foi tão diferente que pela primeira vez eles olharam e fixaram-se dessa forma.

Ed novamente entrou em desespero e fechou os olhos buscando o silêncio em que tanto tempo vivera. Quando percebeu, soprava o objeto novamente, mas dessa vez de forma serena. Entendeu que o som mudava de acordo com os buracos que tampava com os dedos. Foi nesse momento que o barulho em seu íntimo ganhou forma e organizou-se. Ao finalmente criar coragem para olhar para si mesmo, contemplou que fazia sons ritmados combinantes entre si e muito bonitos. As pessoas aglomeram-se em volta dele e ao ver isso ele pô-se em pé sobre o banco.

Teve mais medo ainda quando que seus pés passaram a acompanhar o som e, ao ver sorrisos espalhando-se pela praça esqueceu-se de tudo deixando-se levar pela sonoridade.

Um silêncio súbito reinou quando gritos partiram do outro lado da rua:

— Pecadores!

Achou aquilo interessante, pois seus acusadores tinham rompido o mutismo de suas vidas para atacá-lo. Atrás delas vinha um batalhão de Guardiões. Vendo isso algumas pessoas assumiram a velha postura de estátuas.

— Vocês sorriram e experimentaram a alegria. Estão prontos para voltar à tristeza? — Ed Gritou.

O espanto não pode ser escondido quando um novo som surgiu. Alguns homens pegaram as latas de lixo e passaram a bater nas tampas de maneira ritmada, dessa forma Ed passou a soprar seu objeto de acordo com o o ritmo.

Os Guardiões tentaram avançar, mas era tarde demais. Uma buzina de carro ecoou. Alguém gritou de cima de um dos prédios. Os pássaros passaram a emitir lindos sons e soldados ficaram sem reação. No entanto, o líder da patrulha engatilhou e avançou sozinho, mirando na cabeça do garoto que pulava sobre o banco; atirou.

Atirou, mas não o acertou. No momento em que seu dedo apertou o gatilho um barulho vindo do céu o assustou. As nuvens emitiram um terrível estrondo. E ao escutar o próprio céu rebelando-se, admitiu que nada mais podia ser feito.

Foi até o garoto, fazendo uma tremenda força disse:

— Pecado.

— O pecado leva à morte, mas veja, essas pessoas encontram a vida. — Ed respondeu.

— Não entendo, o que é isso tudo?

— Música! Não sei sequer o significado da palavra, mas está dentro de mim.

Subindo no teto da viatura bradou:

— Isso é música meus amigos, isso é vida!

Estava feito, o mundo não foi mais o mesmo.

Publicado por J.Nóbrega em: Agenda | Tags: , , ,
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Welcome to the Hotel California

Esse conto faz parte de um desafio que fazemos no grupo “Escritores Desconhecidos” no facebook onde a galera aqui do ONE tem se reunido. Junte-se a nós!

Os trechos da música do Eagles ficarão em itálico.

Hotel-California-19-kevinandamanda

Os faróis de um Mitsubishi conversível romperam a escuridão da estrada, onde antes reinava apenas o neon azul da placa do hotel. Felder estacionou meio relutante, pegou o celular, mas não tinha sinal. Passar a noite ali ou dormir no carro eram as únicas alternativas. Abriu a carteira e não gostou do que viu. “Droga! Esses hotéis que ficam no meio do nada custam o olho da cara”, pensou.

Fechou a capota, abaixou o banco, ligou uma música do Eagles e para relaxar acendeu um baseado. Estava quase dormindo quando sua visão foi preenchida por uma jovem parada na porta do hotel. Era maravilhosa. Seus cabelos loiros iam até a cintura, mesmo a distância os olhos verdes brilhavam, o corpo era esbelto e ficava muito atraente no vestido branco. Ela sorria. Não um sorriso normal, mas algo que preenchia o vazio que existia dentro dele, que o levava a pensar nos momentos mais maravilhosos da vida, ela também segurava uma vela o que lhe dava um ar angelical.

Rapidamente desligou o som pegou a carteira, mas quando abriu a porta ela tinha sumido.

— Seja bem vindo ao Hotel Califórnia, senhor. — Falou o recepcionista quando ele entrou no recinto. Era um homem negro, de terno e um chapéu que tampava os olhos. — Deseja ver nossos preços?

—O senhor viu uma moça loira? — Apenas isso importava naquele momento para Felder.

— Ah, fala de Laura. Sim, ela está no baile. Encantadora não?

— Laura… Baile?

— Todos os anos no “Dia de Todos os Santos” fazemos um baile à fantasia para os hóspedes, se o senhor for ficar encontrará no guarda-roupa algumas fantasias.

Felder subiu as escadas conforme indicara o recepcionista entrando em um longo corredor. A decoração era clássica, papel de parede listrado em cores mornas e com várias fotografias de pessoas em molduras de madeira. Observou um a dessas; mostrava quatro homens que pareciam serem grandes amigos, sorriam abraçados em frente a um dos quartos do hotel. Uma legenda falava: “ Glenn Frey, Don Henley, Bernie Leadon e Randy Meisner.”

Leu uma pequena placa: Quarto 112. Pegou as chaves, notou que ao lado da porta havia o que fora um retrato, estranhamente as pessoas tinham sido recortadas ficando apenas duas silhuetas na moldura.

— Welcome to the Hotel California — sussurram diversas vozes no corredor vazio. O arrepio fez com que abrisse a porta do quarto rapidamente e se trancasse.

Atribuindo as vozes às alucinações e à qualidade do cigarro de maconha que comprou com alguns brasileiros, ele se acalmou, abriu o armário e escolheu a fantasia de Zorro.

Depois de um banho gelado saiu do quarto mais tranquilo, dessa forma observou como o local era belo e preenchido por uma atmosfera de mistério.

Welcome to the Hotel California. — Os sussurros ecoaram novamente.
Such a lovely place. — Felder pegou-se respondendo.
Any time of year you can find it here. — As vozes responderam em um tom de sorriso.

Em prol de sua sanidade ignorou isso. Não se importava; apenas a linda mulher ocupava seus pensamentos e desejos desde que chegara ao local.

Desceu seguindo o som de uma valsa, dobrou um corredor e deparou-se com um grande salão de festas, estava lotado. De início ficou parado na porta impressionado, pois o pequeno prédio visto de fora de forma nenhuma demonstrava ter um ambiente tão enorme. Luminárias douradas pendiam no teto, cortinas brancas estavam nas paredes e por todo lado pessoas fantasiadas dançavam felizes, era como se tivesse sido transportado para outra época.

E lá estava ela. Dançando com vários rapazes em volta. Felder foi ao bar e pediu:

— Por favor, traga-me vinho.

Desculpe, nós não temos essa essência desde mil novecentos e sessenta e nove.

— Hã? — Mil novecentos e sessenta e nove? Vocês precisam rever seus fornecedores. Então me traga um whisky . — Ele sequer olhava para o atendente, estava completamente fixado nos movimentos dela e no olhar retribuído sempre que ela executava um gracioso giro.

— Ela é inebriante, senhor. Rouba completamente o juízo. Aconselharia não se deixar envolver.

Felder bebeu a dose em um gole e foi andando, os dois se olhavam de forma tão intensa que um vácuo de pessoas foi aberto quando se encontraram. Ele tocou a mão dela e ela não resistiu quando foi segurada pela cintura. Felder sentiu o perfume e cada parte do corpo de Laura quando se abraçaram. Ela podia escutar as batidas do coração dele. Trocaram poucas palavras e insignificantes para o momento, os lábios eram imã e metal e assim beijaram-se carinhosamente, apaixonadamente, intensamente e por fim, fogosamente.

Sequer percebam quando saíram do salão, entretanto, agora estavam no quarto dele, despidos em um prazer avassalador que arrancava a noção de vida fora dali. E assim passaram dias, semanas, meses ou talvez apenas horas; não sabiam, sequer lembravam-se do tempo.

Ele tinha acabado de tomar banho e se vestia quando escutou a confusão. Homens arrastavam Laura escada abaixo. Saiu em desespero na captura e encontrou uma confusão generalizada. Pessoas corriam por todos os lados, impressionou-se com a quantidade de gente ali, certamente não tinha espaço suficiente para todos. De onde saíram? Não ia perder-se em indagações quando a mulher da sua vida corria perigo.

— Me soltem! — Escutou Laura gritando enquanto empurrava as pessoas na escada para conseguir espaço para passar.

— É nossa chance de sair, Laura. — Alguém respondeu.

— Matem a besta! — Um homem gritou logo atrás de Felder.

Ele finalmente venceu a multidão e chegou à portaria. Laura correu e o abraçou. Sentiu um alívio inigualável seguido de raiva. Parou para ver o que ocorria. Quatro homens estavam com facas cercando o recepcionista que sorria por baixo do grande chapéu.

— O que está acontecendo? — Perguntou.

— Vamos sair daqui. — Pediu Laura.

— O que está acontecendo?

— Dia de Todos os Santos, é o único dia em que pode haver libertação. Glenn , Don Henley, Bernie e Randyr vão tentar.

— Libertação de quê, Laura?

—Vamos sair daqui.

Felder cessou os questionamentos quando a briga começou. O recepcionista não esboçava reação, pelo contrário, segurava duas facas de braços abertos em uma posição provocadora e ostentosa. Os homens avançaram, começaram a esfaqueá-lo, eram os maiores e os mais fortes da multidão e mesmo com o recepcionista no chão continuaram o massacre. Por fim, se afastaram e a multidão gritou.

Quando o primeiro tentou passar por ele em direção da porta uma faca cortou-lhe a perna e em seguida entrou no coração. O recepcionista levantou. O corpo desfigurado estava se curando. Tirou o chapéu e Felder deu um passo para trás junto com toda a multidão.

Não havia face, onde devia existir os dois olhos, tinha apenas cicatrizes. Rapidamente com as duas facas ele derrubou os outros três. Os corpos deles começaram a desintegrar na frente de todos, virando uma fumaça negra, sendo tragada pelo recepcionista e logo em seguida cuspida em uma moldura vazia.

— Você está certa vamos sair daqui.

Buscou a mão de Laura, porém ela não estava mais ali. Virou-se para procurá-la, mas para sua surpresa o monstro recepcionista estava parado na sua frente com as facas na mão.

— Se você quiser pode ir embora, Felder. Não te impedirei. — Disse sorrindo.

Com medo e os olhos fixos nas facas ele deu um passo em direção da porta. O recepcionista não se moveu, no entanto, falou:

— Você vai deixar ela? — Apontou para Laura.

— Laura, venha!

— Desculpe, não posso.

— Por quê? — Laura se aproximou dele, acariciou seu rosto e falou:

Nós todos somos prisioneiros aqui, por nossa própria conta.

Ele não entendeu, porém não teve tempo de perguntar. Uma faca atravessou-o. Gemeu, sentiu sua vida escorrendo, porém o mais doloroso é que era Laura que  segurava a arma. Ela chorava, observou.

O recepcionista se aproximou:

Você pode registrar a saída quando quiser, mas você nunca vai partir.

Felder viu a luz da vida sumir e rendeu-se.

No outro dia, um carro parou em frente ao hotel. Carla estava registrando-se quando seus olhos encontraram outros azuis. Ficaram um tempo olhando-se e ela deixou escapar um sorriso.

Welcome to the Hotel California. — Teremos um baile à fantasia hoje à noite, no guarda-roupa encontrará algumas. Podemos contar com sua presença? — Meio sem graça ela respondeu:

— Claro que sim, adoro bailes. — Quando ele saiu ela perguntou:

— Ele trabalha aqui?

— Não, é um hóspede fiel. Aqui está moça, quarto 112, boa estadia.

— Obrigada.

Entrou pelo corredor e observou a decoração. Ao abrir a porta parou diante de um quadro. Era ele, o lindo homem que conversara com ela na recepção, na foto ele abraçava uma loira encantadora e a legenda dizia: “Felder e Laura”.

— Aff casado, só podia ser.

Welcome to the Hotel California. — Vozes sussurradas vindas dos quadros causou pânico nela paralisando-a. No entanto, assustou-se ao responder sem saber como:

— Such a lovely place. — As vozes em som de sorrisos disseram:

Any time of year you can find it here.

Ela abriu a porta rapidamente, trancou-se, respirou fundo e para tentar esquecer tal loucura abriu o guarda-roupa e começou a escolher uma fantasia.

 

Publicado por J.Nóbrega em: Agenda | Tags: , , ,
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Linha 66.6 – João, O Motorista

João tinha vinte anos como motorista de ônibus e cinco na linha 66.6, todos os dias às 03:00 da manhã saia da rodoviária do Plano Piloto tendo como destino a Ceilândia, cidade satélite de Brasília. O “corujão” como são chamados os ônibus que trafegam pela madrugada, levava geralmente trabalhadores noturnos e curtidores da noite da capital do país.

João já se acostumara com o horário e até gostava, geralmente tinha uma amizade com os passageiros por serem na maioria das vezes os mesmos.

Suzana, um travesti, era a mais animada e como sempre entrou fazendo barulho:

— Boa noite motora, é hoje que finalmente vou pegar na marcha? — Com bom humor João respondeu:

— Não mesmo Suzi.

Em seguida entraram os garçons Cláudio e Luis, os vigilantes Cabeça, Gordo e ET, um jovem calado que parecia ser estudante, mas que Suzi dissera que era gogo boy, e assim o ônibus ia tendo os lugares preenchidos na rodoviária, com exceção de dois. Toda a noite era assim e isso assustava João. O coletivo tinha cadeiras duplas no lado direito e uma fila de cadeiras únicas no esquerdo e, era nele que sempre dois lugares ficavam desocupados, o terceiro, e o último que era o motivo de seus arrepios.

As pessoas até sentavam no terceiro, mas levantavam rapidamente. “Ele é ruim, é como se você estivesse sentada sobre algo”, dissera dona Rosângela. “É estranho João, mas não é confortável”, explicara Mario, um policial que pegava o ônibus de vez em quando. Só Ricardinho ficava uma viagem inteira lá.

O último João não precisava perguntar o motivo de não ser ocupado logo na rodoviária, pois alguém sentava nele. Diariamente  no ponto em frente à Catedral subia no coletivo um homem de, sobretudo, capuz até os olhos, barba desgrenhada até o peito, não falava, sentava-se no último lugar, puxava um caderno e começava a escrever.

— Ele frequenta os inferninhos do Conic. — Afirmara Suzi em sussurro referindo-se aos bares barra-pesada do Setor de Diversões Sul de Brasília.

“O Mago”, assim João apelidou-o, pois ninguém sabia seu nome e sequer tinham conseguido arrancar uma única palavra dele, exceto quando ficava parado em pé ao terceiro banco murmurando algo, isso definitivamente deixava as pessoas com medo.

Entretanto, o lugar vazio e o Mago não eram os únicos mistérios que João tentava arrancar dos pensamentos e que sempre acabavam assombrando-o antes do sono. “O último ponto da estrutural” era o que mais o intrigava.

Após deixar o Eixo Monumental o ônibus seguia para a via Estrutural e lá havia um Ponto de Descida, ou como dizem os candangos, uma Parada. O local era totalmente deserto, cercado por matos, sem qualquer iluminação e já fora palco de crimes e desova de corpos. Todos os dias alguém apertava o sinal de descida e ele parava no local com temor, pois ali era fácil ser vítima de assalto, abria a porta e uma menina loira descia; isso o intrigava, pois nunca a via entrando e pior, os passageiros reclamavam por ele parar e não descer ninguém.

— Droga João — disse o cobrador — toda vez você para nesse lugar sem ter ninguém pra descer, tá de sacanagem?

— Tá maluco? A menina loira acabou de descer.

— Menina loira? Voltou a tomar rebite?

— Vá se fuder Marcelo! Tem uma menina que sempre desce aqui, ela acabou de descer. — João disse irritado.

— O nome dela é Melissa — Ricardinho gritou do terceiro banco onde estava sentado. João falou para o cobrador:

— Tá vendo idiota! O Ricardinho a viu e até sabe o nome. — Marcelo respondeu:

— João, o Ricardinho não é parâmetro, cara. Acho que você precisa procurar ajudar, garanto para você que sempre que você abre as portas aqui não desce ninguém.

— Isso é verdade. — Alguns passageiros afirmaram.

— Melissa. — O jovem repetiu o nome.

Ricardinho era um garoto portador de necessidades especiais, ele e sua vó moravam em Luziânia, cidade do Goiás no entorno de Brasília, e três vezes por mês faziam essa viagem de madrugada para que fossem os primeiros atendidos no psiquiatra onde fazia o tratamento. “Realmente ele não é parâmetro, será que estou ficando louco?”, pensou distraindo-se e pulando uma lombada para xingamentos geral.

No dia seguinte disposto a resolver o mistério João observou pelo espelho os passageiros, o ônibus estava mais cheio que o normal, Ricardinho estava sentado no terceiro lugar e o Mago no fundo, havia pessoas em pé e ele não conseguiu ver a menina loira. Entretanto, antes da via atingir a BR-070, o sinal de descida foi acionado. “A última parada da Estrutural”. Algumas pessoas protestaram, mas ele ignorou e parou.

— De novo João? — Exclamou o cobrador Marcelo, mas João fixou os olhos no espelho retrovisor. Cabelos loiros desceram. Ele abriu a porta da frente e desceu correndo na escuridão.

— Aonde você vai? — Alguém gritou pela janela.

— Estou apertado, vai ser rápido!

— Volte! — Uma voz grave soou. Era o Mago. Aquilo o fez paralisar, o homem nunca tinha falado.

— Para sua segurança volte. — O estranho reiterou.

João tremeu de medo. Ele andou um pouco até o matagal, mas não avistou ninguém. “O que está acontecendo?”, questionou-se; “Estou ficando louco!”. Tinha certeza que alguém tinha descido. Respirou fundo e começou a voltar. Entretanto, de relance viu um vulto de mulher passando em meio ao mato. Cabelos loiros esvoaçando. Saiu correndo e se embrenhou no cerrado. Precisava provar para todos que não tinha enlouquecido.

— Aqui João. — Uma voz feminina falou.

— Melissa?

— Sim, João. Estou aqui, me ajude.

A voz lembrava a de sua filha e o pedido de socorro ativou seu instinto paternal. Correu ainda mais, mas no meio das árvores retorcidas e do céu sem lua nada via. O vulto cruzou seu caminho novamente. Lá estava ela, correndo. “Uma menina” pensou. E disparou atrás dela.

— Vem João!

Ele acelerou, tropeçando em buracos e raízes, corria cambaleando, chegou bem perto, estendeu a mão, tocou nos cabelos e foi parado. Uma dor súbita atingiu-o. Olhou para baixo e viu um galho pontudo atravessando sua barriga. Um fio loiro estava preso em sua mão. “Não era coisa da minha cabeça”, gemeu. De olhos arregalados viu o Mago parado na escuridão anotando algo em seu caderno. Um trovão ressoou e João rendeu-se às trevas.

Próxima parte: Linha 66.6 – O Mago

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9

X-Bacon – Projeto Conto em Conjunto, Capítulo Vinte e Dois

As dores tinham sumido e, estranhamente ela viu-se parada em uma bifurcação, sua mente dizia para escolher um dos caminhos. Bruna tinha certeza que já tinha visto àquela cena, a confirmação veio quando um gato usando botas surgiu.

— Para onde esse caminho vai? — Bruna perguntou estranhando sua própria naturalidade diante de tal loucura.
— Não sei Alice. Para onde você quer ir? — Ele respondeu com um olhar intrigante.
— Não sei, estou perdida.
— Pra quem não sabe aonde vai qualquer caminho serve. — Concluiu o Gato.

Algo fez o mundo tremer e o País das Maravilhas foi se desfazendo, transformou-se em um galpão e na sua frente Carlos, o torturador, estava de pé, torrado, eletricidade passava pelo seu corpo, como nos cartazes do Tio Sam ele apontava o dedo e falava: “Foi você!”. Bruna gritou.

Acordou desesperada sacudindo as mãos e quando percebeu isso deixou escapar uma respiração aliviada. Não estava mais amarrada. Notou que fora colocada dentro do que parecia ser um vagão de trem, colou o ouvido no metal e confirmou que não estava em movimento.

No lugar tinha uma pia, um espelho e um vaso sanitário, ela se olhou e chorou, seu rosto lindo machucado, os ferimentos da tortura estavam lá, pois ainda não tivera chance de tratá-las. Jogou água no rosto e amarrou os cabelos que estavam duros. Desde que essa loucura começou ela sofrera todo tipo de violência e humilhações, mas o mais doloroso foi ver seu irmão preso com aquele olhar de socorro. Os olhos dele não saiam de sua mente e somavam-se aos rostos de seus pais dos quais não tinha qualquer notícia.

—Pra quem não sabe aonde vai qualquer caminho serve. —Falou para o espelho.
—Pra quem não sabe aonde vai qualquer caminho serve. — Elevou a voz.
—Foda-se! Não tenho mais nada há perder! Pra quem não sabe aonde vai qualquer caminho serve! — E socou o espelho quebrando-o e cortando a mão. Alguém mexeu na tranca do vagão e uma música surgiu em sua mente.

“Nobody knows
The trouble I’ve seen
Nobody knows
My sorrow
It’s a small world after all”

Rei Leão, identificou. Ela deitou-se escondendo um grande pedaço de vidro e fingiu dormir. A porta abriu e Cássia aparentemente ao telefone falava:

“Estejam aqui em dez minutos para buscá-la, façam a entrega ao Muhammed. Como vocês sabem, eu não admito atrasos. Para preservar minha imagem, um dos meus homens a deixará do lado de fora e observará tudo de longe. Vocês só precisam parar colocá-la e sair. Estamos mudando a base de lugar, portanto, não há mais ninguém aqui, o que lhes dará privacidade. Não façam besteiras! ”.

— Senhora, ela continua dormindo.
— Eu jurava que o barulho tinha vindo daqui. De toda forma acorde a Bela Adormecida, pois ela precisa está apresentável para a negociação. Não se esqueça de algemá-la.

A música martelava em uma intensidade quase enlouquecedora dentro de Bruna, quando o capanga se aproximou ela rasgou seu pescoço com o resto de espelho. O homem apertou o ferimento engasgando, ela chutou-lhe no peito empurrando para o lado e lançou-se contra Cássia. A Senhora tinha sacado a arma, mas a jovem alcançou-a antes que pudesse engatilhar e a desarmou fazendo um corte no braço direito.

Cássia sabia que o programa tinha entrado em ação e que naquele momento Bruna era extremamente perigosa, entretanto, de forma nenhuma se sentiu intimidada, afinal ela não era qualquer uma, ela era A Senhora, treinada e experimentada para momentos como esse.

Bruna golpeou, mas ela defendeu-se acertando um golpe frontal e jogando-a sobre a cama. A garota levantou, se esquivou de um soco cruzado e acertou uma canelada na coxa da Senhora fazendo-a abaixar, em seguida o chute pegou na cabeça de Cássia que se não tivesse levantado a guarda teria ido a nocaute, mesmo assim ela desequilibrou-se e caiu sobre os cacos do espelho ganhando cortes. Bruna não esperou ela levantar e foi para cima iniciando uma sessão de socos no rosto. Já banhada em sangue, Cássia conseguiu puxá-la para a guarda prendendo as pernas à cintura de Bruna, logo em seguida dominou um de seus braços, jogou a perna oposta na nuca da garota e fechou o triângulo com a outra perna iniciando um estrangulamento cruel, sem reação e perdendo o ar, a música ficou mais alta na cabeça de Bruna e a fez esquecer-se das regras de esportista, reunindo toda a força que tinha, com o braço livre atacou, usando dois dedos, os olhos de Cássia provocando lágrimas de sangue.

— O que você fez garota maldita? Estou cega!

Ajoelhada Cássia chorava de desespero com as mãos nos olhos. Tossindo por causa do estrangulamento, Bruna pegou a arma e as algemas que o capanga carregava e foi até a porta.

— Adeus Senhora. — Disse de forma irônica.
— O que você vai fazer, para onde vai? Sua vagabunda, eu não vou matá-la, não ainda. Antes vou torturar seus pais, vou fazer você assistir tudo.

Bruna que já estava saindo voltou.

— Você não deveria ter falado isso. — Foi novamente ao corpo do homem e pegou uma faca.
— Também não vou mata-lá Cássia, não; isso seria muita bondade. — Cravou a faca na costela direita da Senhora.
— Vou te deixar aqui para morrer aos poucos. — Deu mais uma facada agora no lado esquerdo. Ignorando o choro e os gritos de Cássia ela falou:
— Faça um favor para si mesmo, se mate. — E jogou a faca no chão.

Bruna trancou o vagão. Achou que tentar sair do complexo empresarial sozinha seria arriscado, pois logo os outros capangas dariam falta de sua patroa, então improvisou. Lembrou-se da ligação que Cássia tinha feito e colocou as algemas nas mãos, cuidando para que não ficassem trancadas e ficou na frente do prédio, uma minavam apareceu, dois homens desceram e puxaram-na para dentro. Mais uma vez estava sendo arrastada para algum lugar, só que dessa vez preparada, tocou na arma por baixo da blusa e sentiu um leve conforto. “Hakuna Matata”, veio em sua mente fazendo a fúria da briga ir embora.

Algum tempo depois na proximidade de uma festa os dois brutamontes abriram a porta e puxaram ela, saíram empurrando-a em direção de um veículo, ela notou que um árabe era o condutor. Outra música começou a preencher sua mente, ela sentiu o gosto da ação, porém quando ia livrar-se das algemas viu algo que a paralisou por completo. Assim os homens a empurraram até o carro e Bruna não esboçou qualquer reação.

— Pelo que parece… você é o pacote? — Ela finalmente recuperou-se.
— Cara, emparelha com o carro azul ali na frente!
— O que foi?
— Aquele dirigindo, é o Bernardo! É o meu irmão!
— Claro que não vou fazer isso garota se… — Um clique paralisou-o. Bruna apontou a arma contra a cabeça dele.
— Mas, como? — Muhammed não entendia.
— Me dê um único motivo para não estourar seus miolos e eu mesma dirigir essa merda?

Sem falar mais nada Muhammed saiu acelerando atrás do carro onde estava Bernardo.

***

Alguns minutos depois Zimmer, Dalton e Mason acompanhados de dois garotos entraram no prédio. Não encontraram a Senhora e estranharam o local está aberto sem ter ninguém. Fizeram uma busca pelo lugar

— Acho que escutei algo. — Dalton falou.

Cássia estava agachada, tateava o chão em busca da arma que derrubara, escutou vozes e gritou. Colou na porta, mas a conversa a fez ficar paralisada.

— Ela não pode conversar com Bernardo. Temos que fazer algo. Já passou da hora de tirar ela da jogada.
— Cala boca Zimmer! — Dalton falou — O som vem daqui, destrua o cadeado.

Mason atirou na tranca e abriu o vagão, riu quando viu a cena e falou:

— Alguém já fez o trabalho por nós. Ótimo. Zangado termine com ela!

Zangado ia avançar quando o outro garoto cruzou sua frente. Mason gostou:

— Parece que o Dunga quer se divertir. Vocês já o viram em ação? — Todos afirmaram que não. — Mason ordenou:

— Vá Dunga, mas não demore e deixa-a viva, afinal o Bernardo precisa de um presente de boas vindas. Vamos pegá-la e ir ao encontro, pois pelo que vejo, ela não vai durar muito.

Cássia apenas chorava escutando tudo, admitia para si mesma que era o fim. Estava sangrando muito e não tinha mais forças. O menino avançou, segurou-a pelo pescoço. Enfiou a mão na boca dela e com uma força tremenda arrancou sua língua. Cássia desmaiou de dor.

— Zangado é mudo, por isso gosta de arrancar línguas. Ele é meu preferido — Explicou Mason enquanto gargalhava. Ordenou aos garotos:

— Vamos peguem-na e joguem no carro, espero que consigamos entrega-la agonizando ao Bernardo. Seja forte Cássia. — Usou sua ironia macabra.

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A Revolta dos Sários – Prólogo [As Letras Históricas das Terras-de-Sempre]

O Castelo de Fogo desdobrava-se sobre a colina como um monstro que envolve sua calda na presa antes de devorá-la, de fato uma gigantesca cabeça de dragão adornava o teto da última e mais alta torre, o centro do poder do Império Iliciano no sul.

O monte sobre qual o castelo fora erguido era circuncidado por gêiseres, uma atração turística na parte leste do lugar onde ficavam os Jardins Nobres e, cruel na entrada norte. Era no segundo portão que a multidão hoje se reunia, no Campo de Execução. Lá as erupções foram alinhadas pela natureza.

Os postes móveis eram plantados todo último dia do mês para que os inimigos do Imperador Farken encontrassem o fim e a plateia se divertisse sombriamente.

Aquele era o único local onde todos ficavam juntos independentes de sua casta social. Era possível avistar nobres ilicianos com suas túnicas coloridas, sacerdotes do Alto Templo e suas longas barbas, soldados da guarda da cidade e seus penachos de crina alaranjados, nobres cavaleiros em suas armaduras carmesins, plebeus e comerciantes, todos juntos diante do cruel espetáculo. A união só não estava perfeita devido o círculo de distância entre o povo e duas figuras execráveis que também marcaram presença. Apoiando-se em uma bengala feita pelas próprias mãos, usando um manto marrom surrado com o capuz cobrindo o rosto onde uma cicatriz engolia todo o lado esquerdo, o mendigo Arlan observava tudo seriamente; ao seu lado com cabelos loiros duros e emaranhados e grossas sobrancelhas que quase escondiam os profundos olhos azuis, o bardo Ander segurava seu alaúde, valioso até demais para a figura que o portava. Ele era um bom cantor, mas suas relações com criminosos do Almo expulsaram-no de todos os círculos nobres e condenou-o a vagar pelos piores estabelecimentos existentes. Eram amigos, uma amizade estranha, mas sincera.

Os postes foram fixados. Carroças arrastando cinco jaulas pararam, dentro de cada uma havia um Smilodon, ou como é mais conhecido: Tigre-dente-de-sabre. Estavam claramente dopados por algum tipo de erva, pois não ofereceram resistência quando os ganchos foram presos em suas patas traseiras. A engrenagem dos postes começou a rodar e os felinos gigantes ficaram pendurados de cabeça para baixo nas correntes. Dezenas de homens giraram uma roldana que moveu os braços dos postes fazendo-os parar exatamente sobre o escape dos gêiseres. O calor fez os smilodons despertarem, mas o equipamento era reforçado para aguentar não apenas o peso deles, mas suas tentativas de escape.

A primeira erupção veio e com ela o clamor do povo. Os tigres fora atingidos pelos jatos de água quente, se contorceram, rugiram, perderam parte do pelo, mas para o azar deles não morreram. Enfraquecidos, começaram a encolher e, diante dos olhos de todos as figuras felinas tornaram-se três homens e uma mulher, que despencaram das correntes e foram rapidamente amarrados mais uma vez.

O silêncio imperava na colina, todos já tinha escutado sobre os lendários Homens-Tigres, mas pela primeira vez as pessoas viam que o mito era realidade.

— O quinto não era um metamorfo. — Disse Arlan.

— Talvez ainda não tenha perdido sua força total, só no final saberemos. — Falou Ander.

Ainda vivos e arrastados novamente pelo poste os quatro corpos nus e o animal restante foram atingidos por mais uma erupção. Na forma de homens eles morreram rapidamente. O felino restante contorceu-se fortemente, rigiu alto até que o som animalesco transformou-se em um grito.

— Era o que eu imaginava, Arlan. Aquele é Kairan o Senhor dos Povos das Montanhas.

— E como você sabe disso?

— Vi quando ele chegou à cidade, pelo que escutei veio com embaixador negociar uma possível paz, os outros devem ser sua guarda.

— Então o imperador Farken matou-os na traição. — Disse uma voz atrás deles fazendo-os se assustarem.

Geralmente ninguém que não fosse mendigo, vagabundo ou bêbado dirigia-lhes a palavra, o espanto foi maior quando viram um jovem em uma pomposa armadura branca, tinha os cabelos negros e olhar forte. Uma mão com três dedos estava adornada quase imperceptível na placa frontal da armadura, só olhos treinados eram capazes de notar o que Arlan viu de imediato. Era um cavaleiro de Freshiah, a província que há tempos lutava para livrar-se das garras do Império Iliciano, mesmo tendo sido assinada uma trégua no conflito, cavaleiros freshianos era algo raro em Magma.

— Com todo respeito, não devia falar isso tão alto, meu Senhor. É perigoso. — Disse Ander, com olhos escrutinadores. Ignorando o aviso o estranho continuou:

— O Imperador é um tolo, Kairan era a voz moderada das montanhas, desde que assumiu a liderança vinha trabalhando por uma solução pacífica, sua morte apenas esquentará o sangue dos Sários e, para piorar, o segundo na linha de comando e provavelmente novo líder é o beligerante Akros.

Os dois amigos se olharam perguntando-se por qual motivo o freshiano resolvera compartilhar suas opiniões com eles, no entanto, antes que tivessem a chance de descobrir o jovem saiu e embrenhou-se na multidão.

Não havia tempo certo entre as erupções e ao que tudo indicava a próxima demoraria um pouco, assim Kairan permanecia agonizando e pendurado de ponta a cabeça.

— Kairan não merece isso. Ninguém merece. — Ander deixou escapar.

Arlan fechou os olhos e começou a murmurar, balançava o corpo como se estivesse em transe e sorriu. Adorava aquela sensação, sentia o vento, como se nada o pudesse parar, como se fosse invencível.

Um barulho veio do chão e os soldados ilicianos começaram a mover o braço do poste para o que seria o jato fervente final para Kairan. O silêncio novamente se apoderou do lugar, olhos arregalados esperavam pelo momento, o próprio réu cessou os gemidos. O chão tremeu. Um grito ecoou no céu. Novamente as pessoas ali presentes assistiram uma cena impressionante. Uma águia desceu em um voo rasante fazendo todos se abaixarem, rasgou a garganta do rebelde metamorfo e alçou voo.

Enquanto o caos tomava conta do lugar, Arlan e Ander sumiram nas vielas da cidade.

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