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conto da noiteO Conto da Noite
Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

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Mosca morta em movimento linear uniforme [conto]

Imagem | Antimidia

Imagem | Antimidia

Droga. Minha vida continua. As marcas na cara dizem que alguém tentou dar cabo dela ontem a noite. As dores no corpo gritam que tento fazer isso faz tempo, e nem isso eu consigo. Mas ao menos cada dia estou mais perto. O sangue no vômito é uma prova incontestável. Não consigo achar motivos para sair da cama. Se eu fosse o Iggy Pop todos os meus problemas estariam resolvidos, mas eu não sou. Então vou ter que continuar enfiando a mão na merda até tirar alguma coisa que salve a minha vida dessa desgraça miserável, ou ela acabe. Será que eu precisaria viver se não tivesse contas para pagar? Vou fazer um café para ver se encontro alguma coragem para encarar o mundo lá fora sem ter um surto de loucura e desespero. Ainda há cigarros, então há esperança. Tem um pedaço de queijo na geladeira, não contava com isso. Sinto a mão de Deus aqui.

Rumo para o bar do Jaime como um rato condicionado num estudo de Skinner. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, mas eu sei quem foi B. F. Skinner e o que ele fazia nos verões passados com as suas cobaias. Não sei onde a filha do Jaime passa as tardes, mas ela nunca está por aqui. Ele não consegue disfarçar todo o desprezo por mim e o resto da humanidade. Coloquei uma nota de dez no balcão e colhi uma garrafa de cerveja e uma dose de pinga. “Eu estive aqui ontem a noite?” O velho carrancudo franziu a sobrancelha e começou a suar. Entendi como um sim. “Preciso de trabalho. Você está sabendo de alguma coisa?” Ele pegou um pedaço de papel e escreveu um endereço.

O lugar era um armazém gigante ali perto. As portas estavam abertas, e um tipo Vic Vega andava de um lado para o outro com um copo de refrigerante numa mão e um cigarro na outra. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, mas eu também assisto aos filmes do Tarantino. “Quem te mandou aqui?” “O Jaime, do bar. Perguntei de trabalho e ele me deu seu endereço.” “E você aguenta o trabalho pesado?” “Se eu não aguentar você não me paga.” “Fechado. São cem mangos. Espera com o resto ali que o trabalho já está chegando.” “Tem um cigarro?” O cara ficou me olhando como seu eu tivesse falado qualquer coisa absurda, tipo, você chupa pinto? “Não.”

Fui me juntar aos outros. Fiz um sinal e o camarada com cara de marinheiro sem navio me deu um pouco de tabaco e um guardanapo de lanchonete. Éramos seis. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, mas eu sei que esse é um livro do Maria José Dupré adaptado para a televisão e o cinema, mas não tem nada a ver com o contexto aqui. Sei o que é contexto também. E estamos falando só de seis pessoas que não falavam nada, e a maioria preferia ficar olhando para baixo a maior parte do tempo.

Três caminhões refrigerados entraram no depósito ao mesmo tempo que o metido a chefe que não era chefe de porra nenhuma gritou: “Vamos cambada de vagabundos. Chegou o trabalho.” Eles abriram as portas e entre as carcaças mortas e penduradas por um gancho havia caixas com sabe-se lá o que. “Vamos seus preguiçosos, todas as caixas para fora. Rápido.” Alguém tirou um par de tábuas de madeira de não sei da onde e fez uma rampa no primeiro caminhão. Cada caixa devia pesar uma duas toneladas. Ok, não eram duas toneladas, foi só uma ironia. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, mas eu sei usar figuras de linguagem.

Tinha um moleque tosco que queria provar alguma coisa para não se sabe quem. Enquanto todos os outros vagabundos fodidos descarregavam uma caixa ele descarregava duas. Quando começamos o segundo caminhão tinha a sensação de que não ia conseguir chegar até o fim daquela empreitada. O Vic Vega apareceu na frente da rampa e gritou para mim: “Ei, estorvo, se não aguentar eu não pago, lembra?” Os tiros começaram enquanto ele ria. Um o acertou em algum lugar e ele caiu. Me escondi no fundo do caminhão e só escutava gritos, tiros e o estalar dos metais. De repente o caminhão começou a se mexer, saiu do galpão e acelerou sem dó pela rua.

Me sentia como o Eddie Murphy nas primeiras cenas de Um tira da pesada I. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, e ter desperdiçado a adolescência assistindo Sessão da Tarde, mas e daí caralho? O caminhão parou me lançando para o chão e o fundo do baú simultaneamente, confirmando violentamente todas as leis de Newton. Foda-se se eu sei ou não as três malditas leis de Newton. Sai correndo e pulei no meio do trânsito. Era um semáforo. Escutei a porta da cabine do caminhão abrir e um grito de “Ei!” e corri como nunca meio abaixado até conseguir virar a esquina. Me certifiquei de que não estava sendo seguido e percebi que estava todo cagado e mijado. As pessoas desviavam de mim e eu tremia como uma máquina de lavar roupas velha. Fui para casa antes que alguém me oferecesse ajuda.

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Se Contar, Ninguém Acredita No Que Aconteceu Nesse Natal – Parte 3: A Festa de Natal dos Viciados em Banana

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Por Talita Vasconcelos

Saí do quarto assim que senti que estava pronta, e coloquei o presente do meu amigo secreto embaixo da árvore de natal, num canto da sala, ao lado dos presentes comprados pela Cristiana, pela Valentina, pelo Pedrão e pelo Ivan. Notei que tinha um presente a mais embaixo da árvore. Deduzi que mais alguém havia chegado enquanto eu me maquiava. Talvez estivesse no banheiro.

Valentina estava desenformando a rosca de nozes quando me voltei para a cozinha.

_Essa ficou perfeita – anunciou ela, tirando as luvas térmicas. Regou a guloseima com uma calda de coco que tinha preparado enquanto a primeira rosca estava assando, e que ficou o dia inteiro esfriando sobre a mesa, terminou de decorar com pedacinhos de morangos frescos, e colocou-a com todo cuidado na bancada, ao lado da sobremesa do Ivan, que agora eu percebia que era uma espécie de bolo ou pavê, provavelmente de chocolate, com glacê escuro e frutas vermelhas.

Enfim, não entendi bem o que era, mas aquilo animou meu estômago. Gosto de falar da draga da Cristiana, mas de vez em quando preciso policiar a minha.

Falando nela, também escolheu esse momento para surgir na sala, e também teve a atenção imediatamente furtada para a nossa bancada de sobremesas. A Cristiana, quero dizer, não a draga. Ou talvez, as duas.

_Hum… Ivan, essa coisa dá água na boca só de olhar – disse Cristiana, hesitando em chegar perto. O dia certamente não precisava de mais acidentes. – Garoto, peça-me quantas xícaras de açúcar quiser, que um dia vou te pedir em casamento.

_Deixa o Pedrão ouvir isso! – comentei, dando uma risadinha.

_Tenho certeza de que ele nunca vai ter ciúme dessas sobremesas – disse Cristiana, ainda concentrada nas delícias sobre a bancada.

_Tem mais alguém aqui? – perguntei, ainda pensando no presente a mais que vira ao pé da árvore de natal, muito mais modesta que a do Seu Nosferatu.

Ouvimos a campainha.

_Agora tem – disse Ivan, enquanto Valentina abria a porta.

_Oi, linda! – disse Leandro, parado na porta, com o presente do amigo secreto escondido atrás do batente da porta. – Você me quer embrulhado ou eu posso começar a me livrar de toda essa produção?

Na verdade, ele não estava tão produzido assim, mas ele sempre se veste como se estivesse indo a um encontro, mesmo que só esteja indo à padaria.

_Você não tem uma cantada pior, não, Casanova? – indagou Valentina, segurando a risada.

Na verdade, ele tinha, mas não ia gastar por aqui.

_Não diga que não teve sua chance – ele disse, dando um passo para dentro do apartamento, e segurando o rosto dela com delicadeza antes de lhe dar um beijo na bochecha.

_Você… – ele disse, apontando para Cristiana. – Está linda! Mas eu não quero apanhar do seu namorado. – Então apontou para mim. – Você, me aguarde à meia-noite!

_Do namorado dela você não tem medo de apanhar? – perguntou Cristiana. Então, a compreensão a atingiu. – Oh…

Ela me deu aquele olhar “te peguei” de novo, enquanto Leandro me envolvia num abraço demasiadamente caloroso. Mas ela estava redondamente enganada.

_A Manu não tem namorado… – ele começou a dizer. Subitamente, porém, se afastou, me lançando um olhar avaliativo. – Você tem?

_Não sei do que vocês estão falando – esquivei-me.

_Até o fim da noite, pode apostar que eu vou descobrir – disse Cristiana. Ou melhor, repetiu Cristiana.

_O único cara que ela vai beijar hoje sou eu – garantiu Leandro, me abraçando de novo, dessa vez mais apertado, estalando um monte de beijos no meu rosto. Na base da minha orelha, para ser mais precisa.

_Ai, tem uma coisa me fazendo cócegas – estrilei, gargalhando e tentando me libertar dele. Uma coisa pequena e meio úmida se projetava sobre mim, quase se enfiando pelo meu decote, e eu o agarrei antes que conseguisse me deixar pelada.

_Oh, seu tarado! – rosnou Leandro – Dá para respeitar a moça!?

_Olha quem fala! – comentei, com sarcasmo, segurando com as duas mãos um cachorro chihuahua minúsculo, que Leandro carregava no bolso da camisa, e que, apesar daquele tamanho mínimo, não era mais um filhote. E que, naquela noite estava particularmente engraçadinho com um gorrinho vermelho de Papai Noel atochado na cabecinha.

_Pega ele, Piripaque! – atiçou Cristiana, de brincadeira.

Eu já estava sentindo as duas patinhas batendo no meu tornozelo, cada vez que Piripaque pulava, tentando alcançar o amiguinho.

Se tivesse a intenção, o Piripaque comeria o Picolé de uma bocada só, de tão pequeno que era.

Ok, o cãozinho do Leandro não era tão, tão, tãããão pequeno assim. Ele só era uns quatro centímetros menorzinho que o Piripaque. Mas quatro centímetros na vida de um chihuahua é mais ou menos a diferença entre Ana Hickmann e a Sandy! Ou entre um jogador de basquete e um piloto de Fórmula 1.

Assim que o coloquei no chão, Piripaque se ocupou em tentar arrancar o gorrinho da cabeça do Picolé.

_Não, não! – repreendeu Cristiana.

Curiosamente, era só ela dizer essas duas palavrinhas para fazer o Piripaque sossegar. E por alguma razão, só funcionava com ela.

Os dois saíram correndo pelo apartamento, e foram brincar debaixo da mesinha de centro.

_Falta um pedaço desse cachorro – zombou Ivan. – Não é possível ser tão pequenininho.

_É um bonsai de chihuahua – disse Leandro. – Só não me pergunte como é que faz.

_Ah, pode ficar sossegado. Se um dia eu tiver essa curiosidade, vou perguntar para eles! – disse Ivan, apontando para os cachorrinhos correndo atrás do rabo um do outro debaixo da mesinha.

A campainha tocou outra vez. Desta vez era o Serginho com sua acompanhante, que, nem de longe era quem esperávamos que viesse com ele. Graças a Deus!

Esperávamos que ele trouxesse a Amanda, sua namorada há três meses, uma fulana com cara e porte de modelo, loura platinada, olhos verdes, magérrima, pernas longas, com o nariz mais empinado do mundo, e esnobe até não poder mais, que é capaz de passar uma semana inteira só com uma folha de alface e uma garrafa de sidra no estômago. Em vez disso, ele trouxe a Vick, nossa amiga do teatro, que é quase tão alta quanto a Amanda, só que bem mais encorpada – para não dizer cheinha –, tem olhos castanhos, o cabelo mais vermelho e berrante que você verá na sua vida, zero juízo na cabeça, e que é especialista em contagiar todo mundo com sua empolgação.

Cristiana, Valentina e eu trocamos um olhar quase telepático: aquele devia ser nosso primeiro presente de natal da noite, e uma evidência de que talvez – e apenas talvez –, o azar que nos atingiu durante a tarde já tivesse tomado outro rumo.

_Vick! – exclamei, animada, abraçando-a.

_Ué… – balbuciou Leandro para Serginho. – Trocou de patroa?

_Mais ou menos – respondeu ele, meio aborrecido.

_Cadê a Amanda, cara? – insistiu Leandro.

_Deve estar me encomendando um par de chifres de presente de natal.

Sim, tem que ser muito autoconfiante para admitir uma coisa dessas. Autoconfiança e capacidade de superação e de nunca se deixar abater são as qualidades que mais admiramos no Serginho. A outra é sua imensa habilidade de arranjar qualquer coisa que a gente necessite por um precinho bem camarada. Quase sempre dentro do próprio apartamento; o que explica seu apelido “ranja tudo”: ele realmente arranja de um tudo!

_Que chato, hein, cara – disse Ivan, solidário.

Serginho deu de ombros.

_Azar o dela – acrescentou. – Se era para vir e ficar fazendo cara feia, também, foi melhor ela não ter vindo. Vamos nos divertir mais sem ela.

Mulheres mordendo a língua para não disparar um “com certeza”.

_E divertir a galera é precisamente a especialidade da Vickzinha aqui – disse Vick, apoiando as mãos nos ombros de Serginho, que deu um sorriso meio de lado.

_Pois é. Aí eu encontrei a Vick, e como a gente planejava encher a cara e fazer arruaça por aí, para dar um pouco de dor de cabeça pra Dona Lourdes, achamos melhor vir fazer a bagunça com vocês e dar um siricutico na síndica mais tarde.

_Fizeram muito bem, aliás! – disse Cristiana.

_Você não ia para Petrópolis com a sua família? – perguntou Valentina, lembrando-se de que fora esse o motivo porque Vick recusou participar do nosso amigo secreto quando a convidamos.

_Pois é… – disse Vick. – Mas, sabe como eles são caretas, né… Com certeza ia ser mais uma daquelas viagens chatas, em que eles iam ficar regulando cada copo que eu bebo, cada palavra que eu falo, cada telefonema que eu recebo… Um saco! E eu não ia poder levar ninguém comigo. E ficar aturando meus primos chatos o fim de semana inteiro é dose! Daí eu decidi dar minha ausência a eles como presente de natal, e passar com os meus amigos. Vou me divertir bem mais sem eles, e eles com certeza também não vão sentir a minha falta.

O discurso até pode parecer meio exagerado, mas eu conheci os pais da Vick recentemente, e a foto deles acompanha a definição de careta no dicionário. O senhor de terno e a senhora de tailleur, sempre impecáveis, com cara de constipação, que não suportam um assobio de qualquer música que não seja clássica, com mania de números – os dois são contadores, e não conseguem servir um cafezinho sem informar à pessoa sobre o valor exato da quantidade de pó, água e açúcar utilizada para prepará-lo. Pensei por um momento que eles tinham dado essa informação para que nós pagássemos, mas Vick explicou que não; que eles faziam isso para memorizar os gastos diários da família e depois anotá-los no livro de contas. Sim, eles tinham um livro de contas familiar. E faziam um balanço mês a mês, e organizavam um grande gráfico anual onde apontavam quais os meses em que mais gastaram e os que mais economizaram, saldos e déficits das contas bancárias e aplicações, a porcentagem que seria destinada para cada gasto adicional como viagem de natal e de férias, e o escambau. Só de lembrar já me dá sono. Ah, é… E também tinha o fato de que eles queriam um relatório completo de cada telefonema que a Vick recebia na frente deles, porque, supostamente, eles precisavam saber exatamente onde e com quem ela andava, para evitar que se tornasse mais uma jovem nas trágicas estatísticas da sociedade. Sério, acho que no lugar da Vick, eu teria fugido de casa há muito tempo. Nunca mais chamei minha mãe de controladora depois disso.

Claro que a Vick não mora mais com os pais – ou já teria enlouquecido há muito tempo –, e talvez por isso mesmo ela tenha preferido ficar para trás com os “rejeitados” do que encarar um fim de semana com sua família agridoce em Petrópolis. A Vick é aquela ovelha negra, que destoa de todo o resto da família. Para a nossa alegria! E azar o deles.

_E já que a Amanda não vem – prosseguiu Vick – eu fico com o amigo secreto dela. Quer dizer, eu dou o presente do amigo secreto dela. E quem tirou a Amanda, agora, vai dar o presente dela para mim. Falando nisso, eu trouxe rabanada e duas garrafas de vinho.

_A gente achando que ia comer a rabanada da Amanda hoje… – brincou Leandro.

_Olha o respeito! – rosnou Serginho. – Enquanto eu não chutar a bunda dela pessoalmente, só eu posso falar da rabanada daquela vaca!

_Tá legal.

Serginho colocou uma caixa de papelão com sua contribuição para a ceia em cima da bancada, e pôs os presentes debaixo da árvore de natal.

_A Amanda te falou quem ela tirou? – perguntei à Vick.

_Não falou nem pro Serginho.

_Na verdade, eu não me liguei de perguntar, antes de mandar ela à merda pelo telefone – admitiu Serginho.

_Então, eu comprei um presente unissex, e vou ficar por último – disse Vick. – Quem sobrar, é quem a Amanda tirou.

_Tranquilo! – disse Ivan.

_O que será um presente unissex? – Leandro parecia estar pensando alto.

_Vocês vão ver – disse Vick. – E provavelmente vão gostar. Trouxe até um champanhe – e exibiu a garrafa. – Do bom! Não aquele vinagre com sal de fruta que certas pessoas… – Indicou Leandro com a cabeça. Ele deu uma risada sarcástica. – Tentam convencer a gente de que é champanhe… Vou colocar na geladeira, para a gente abrir à meia noite, porque, afinal, é natal, mas é meu aniversário, também. E eu quero comemorar!

_Opa! – animou-se Leandro. – Todo mundo puxando a orelha da Vick à meia-noite, hein! Que é para dar sorte.

_Agora, vem cá… – disse Serginho, mudando de assunto. – Que foi que aconteceu com o peru? O Pedrão passou lá em casa, perguntando se eu sabia onde ele podia conseguir um peru, de preferência assado, hoje…

_Ué, gente… – disse Leandro, com o cenho franzido. – O que aconteceu com o peru que eu trouxe?

_Quer a versão completa ou serve o resumo? – indagou Cristiana.

_Serve o resumo. – Porque ele sabe que a versão completa pode demorar dias para ser contada.

_Ele foi dar uma voltinha – disse Cristiana, com um sorriso amarelo.

_O quê?! – surpreendeu-se Ivan. – Foi o peru de vocês que caiu na cabeça da Dona Cida?

_Era a Dona Cida lá embaixo? – indagou Cristiana, afinando a voz ao nível de um desenho animado, tentando segurar a risada.

_Embaixo do peru de natal? Era.

_Alguém vai me contar de que papagaios estão falando? – insistiu Leandro, cruzando os braços, com uma expressão meio divertida, meio preocupada.

_Não é papagaio, é peru – disse Ivan. – Mais especificamente o peru que despencou da janela de um dos apartamentos para servir de capacete à Dona Cida. Isso, ou ela estava fazendo Papa Nicolau no bicho com a cabeça…

_Você foi lá embaixo, ou escutou a gritaria pela janela? – indagou Cristiana.

_Escutei a gritaria, e depois o Severino Mosca-Morta me contou o acontecido, quando foi devolver meu gel de cabelo.

Não falei que as fofocas correm nesse prédio? Mais velozes que o Lewis Hamilton. Mais velozes até que a velocidade cinco do Créu.

_Por que o Severino Mosca-Morta pegou seu gel emprestado? – perguntou Valentina.

_Para fixar um galho da árvore de natal da portaria que insistia em ficar caído.

A propósito, Severino Mosca-Morta é o zelador do prédio. Já deu para perceber que a gente gosta de dar uns apelidinhos para as pessoas, né?

_Com gel de cabelo? – estranhou Cristiana. – O laquê da Dona Lourdes já tinha acabado?

_Sei lá.

_O que o peru estava fazendo na janela? – insistiu Leandro.

_Longa história, querido – desconversou Cristiana.

_A história longa é que alguém olhou pela varanda e disse “vou encaixar esse peru na cabeça duma velha…” – brincou Serginho. – Daí mirou na Dona Cida, e deu no que deu.

_Engraçadinho! – reclamou Cristiana, levando na esportiva. – Mas não esquenta, não, porque o Pedrão foi comprar outro.

_E onde é que ele vai achar um peru assado hoje?

_Tu não conhece meu namorado. Aquilo ali é capaz de dar nó em pingo d’água! Daqui a pouco ele chega com um peru novo em folha.

_Só espero que não seja o mesmo que andou furunfando na peruca da Dona Cida – comentou Serginho, dando uma risadinha debochada.

_Ele é doido, mas nem tanto – garantiu Cristiana. Ouvimos a campainha. – Aí! Deve ser ele.

Mas não era.

Vicente, o último convidado que faltava, surgiu à nossa porta, com seu visual hippie de sempre – uma camiseta vermelha folgada, calça preta de brim, all star também preto, e aquela barba por fazer que, somada ao cabelo comprido, até os ombros, o fazia parecer um ator prestes a interpretar Jesus Cristo no natal. Ou o Ashton Kutcher, em sua primeira temporada em Two And a Half Men.

Ele é um universitário sem-teto que mora no casarão do nosso teatro – mas a diretoria não pode nem desconfiar disso! –, e vive fazendo um verdadeiro malabarismo para  manter sua presença escondida ali dentro. O que inclui fingir ser um fantasma.

Estava carregado de sacolas – duas de supermercado, sem dúvida pesadas, nas mãos, e uma de papel presa entre os dentes, provavelmente com o presente do amigo secreto –, e equilibrava um vasinho de madeira com um belo arranjo de poinsétia vermelha – também conhecida como flor-do-natal – num dos braços meio erguido, apertando o vasinho junto ao peito. Assim que passou pela porta, abandonou as sacolas perto do sofá, segurou o vaso com as duas mãos, se ajoelhou diante de mim, e começou a recitar um trecho de Don Juan Tenório – o mesmo que o Professor Girafales recitou para a Dona Florinda num dos episódios do Chaves:

_ “Oh! Sim, belíssima Inês! Espelho e luz de meus olhos; escutar-me sem zanga, como fazes, amor: olha aqui a teus pés, pois, todo o altivo rigor deste coração traidor que se render não cria, adorando, vida minha, a escravidão de teu amor”.

Tive que rir, principalmente da cara que a Cristiana fez: de novo aquele olhar “te peguei”, anunciando a descoberta do meu suposto namorado misterioso. E, de novo, ela estava enganada. Mas como eu nunca fujo de uma boa polêmica, decidi dar sequência na cena:

_ “Cala-te, por Deus, Don Juan! Que não poderei resistir muito tempo sem morrer, tão nunca sentido afã”.

Aquela era uma boa cena para exercícios de atuação nos ensaios. E Don Juan Tenório era uma peça que encenávamos pelo menos uma vez por ano desde o nascimento do grupo Máscaras. Nosso grupo tinha certo apego sentimental por essa peça, principalmente porque o nosso casarão-teatro é assombrado pelo fantasma do Don Juan Tenório, mas essa é uma outra história.

Vicente se levantou, enquanto trocávamos risadinhas cheias de cumplicidade, e me entregou as flores.

Cristiana pigarreou, ainda com aquele olhar astucioso no rosto.

_As flores são para as duas, na verdade – explicou Vicente –, mas eu não quero apanhar do Falabella. Falando nisso, cadê ele?

Falando assim, parece até que ele é super ciumento, quando, na verdade, ele é bem relax.

_Foi atrás do peru – respondeu Cristiana. E, ao ver o cenho de Vicente franzir, com a boca entortando numa risadinha debochada, acrescentou: – De natal!

Vicente pareceu confuso, por um momento. Em seguida lançou um olhar que claramente dizia “melhor eu nem perguntar”, e se abaixou para retirar os refrigerantes das sacolas.

_Ah, eu também trouxe… – disse ele, retirando parte do conteúdo da sacola de papel. – Brinquedinhos! – E exibiu duas coxinhas de peru de borracha, daquelas que apitam quando a gente aperta, encarando os dois cachorrinhos, que agora corriam e pulavam ao redor dele. – Trouxe uma pro Piripaque e uma pro Picolé, que é para não dar briga.

E desembalou-as, dando uma para cada um. Os dois pequeninos agarraram os brinquedinhos e começaram a mordê-los, animados, fazendo os apitos ecoarem pela sala.

_Mais fáceis de agradar do que crianças – comentou Ivan, observando a alegria dos cãezinhos.

_Não tenha dúvida disso – concordou Cristiana. – Um brinquedo para cachorro: no máximo cinco conto na loja de 1,99. Presente de natal para uma criança parar de fazer birra hoje em dia: 200 reais num Tablet ou quinhentos num PlayStation! É por isso que eu amo o Piripaque.

_Entra aí, gente – convidou Pedrão, entrando subitamente no apartamento, seguido pela Dona Lourdes e pelo Seu Ezequiel, mais ou menos a tempo de ouvir a declaração de amor de sua namorada pelo cachorro. E o mais importante, carregando uma travessa com um belíssimo peru assado, douradinho e suculento.

_Boa noite – cumprimentou Seu Ezequiel, com uma garrafa de vinho na mão.

Havia um ponto de interrogação na cara do Ivan e do Serginho, mas eu compreendi o que estava acontecendo assim que bati os olhos no peru assado: uma vez que tinha sido aberta a temporada de caça ao peru de última hora, e o Serginho não conseguiu arranjar, o Pedrão não achou onde comprar, e, conhecendo-o como eu conheço, deve ter se sentido pessoalmente responsável pela perda do bicho – que descanse em paz, de preferência longe do cabelo ensebado da Dona Cida –, Pedrão deve ter apelado para convidar qualquer pessoa que tivesse um peru assado grande o suficiente para nove pessoas. Bem, onze, agora.

Pedrão lançou a todos um olhar que dizia claramente “não perguntem”.

Nem precisávamos.

_Uau! Já chegou todo mundo… – comentou Pedrão, para quebrar aquele silêncio tenso que se instaurou com a chegada dos dois “adultos” no recinto.

_A gente só estava esperando vocês – respondi.

_Melhor a gente atacar a comida primeiro, e fazer o amigo secreto depois, né, gente? – propôs Cristiana. – Senão o rango vai esfriar.

Todos concordamos, e começamos a distribuir os pratos, que tínhamos deixado empilhados na mesa da cozinha. Ainda bem que tínhamos separado doze pratos, em vez de nove contadinhos, assim ficou parecendo que receber a Dona Lourdes e o Seu Ezequiel já estava nos planos desde o princípio.

_Trégua? – propus à síndica, entregando-lhe um prato.

Ela assentiu, mas parecia em dúvida. Abracei-a pelos ombros para demonstrar que não havia ressentimentos. Tudo bem que tínhamos vinte e cinco discussões mensais – no mínimo! –, e que nós a chamávamos de bruxa ou de velha coroca, ou de coisa ruim quando ela não estava olhando, e que ela também adorava implicar com o pessoal do nosso andar – dos nossos andares, na verdade, já que havia moradores de dois andares na casa –, mas nada disso tem importância de verdade. É natal, e nessa época do ano, temos que deixar essas picuinhas de lado, e conviver como o que praticamente somos: uma família. Meio esquisita e completamente disfuncional, mas uma família mesmo assim.

_Dá alguma coisa aí preu comer – pediu Serginho, pegando um prato da pilha.

_Toma aqui um garfo – disse Pedrão, entregando o utensílio.

_Ra-rá! – debochou Serginho. – Oba! Purê de batata!

_Nunca vi alguém ficar tão animado com purê… – sibilou Valentina, rindo.

_Amor, natal sem peru e purê de batata não é natal – disse Serginho. Pareceu refletir em seguida, mergulhando outra vez a concha na tigela de purê. – Pensando melhor, pode até faltar o peru, mas não o purê.

_Entendi. Você é maluco por purê.

_Isso aí.

_Olha só… – Vick chamou atenção de todos. – Nada de briga pelas coxas do peru, hein, gente! Vamos respeitar.

_Bem, uma delas, por direito, é da Dona Lourdes – avisou Pedrão.

_Ah, não se preocupe, filho, eu só gosto do peito do peru – disse a síndica.

_Uma é minha! – determinou Leandro, lançando um olhar significativo para Pedrão, que já estava com a faca na mão para fatiar o bicho.

Ninguém contestou. Afinal de contas, ele pagou pela ave que caiu pela janela.

_Quem quiser a outra, então, vamos disputar na porrinha – propôs Pedrão.

_Hum… Cristiana, sua sopa está com um cheirinho maravilhoso – comentou Vick servindo-se de algumas conchas.

Ela acabou sendo a única a começar pela sopa. Todo mundo estava preocupado em disputar algum pedaço favorito do peru, antes que outra pessoa o agarrasse. Peguei uma faca e me preparei para enterrar na primeira pessoa que olhasse para a minha asa.

Brincadeirinha! Claro que eu não ia esfaquear ninguém. Mas tirar a asa do prato de quem a agarrasse primeiro passou pela minha cabeça.

_Nunca vi molho de macarrão dessa cor – comentou Ivan, observando a cobertura meio rosada, meio alaranjada do molho. – Quem foi que fez?

_É o meu molho especial supersecreto – disse Pedrão.

Que todo mundo sabe que é feito com tomate, maionese, alho, páprica e salsa. Azeitonas a gosto. Mas vocês não souberam disso por mim!

_Molho especial supersecreto? – disse Serginho, com deboche. – Vai ter coragem de provar essa gororoba, Ivan? Quem fez foi o Falabella…

_Ih… Tá me tirando, rapá?! Pro seu governo, meu macarrão é uma delícia! – declarou Pedrão, cheio de moral. – Sempre que não vira cola…

_A fábrica do Superbonder continua ligando, atrás da receita – acrescentou Cristiana, dando uma risadinha.

_Não é tão grudento assim, vai… – defendeu-se Pedrão.

_Não, imagina… Se jogar o prato pra cima, ele gruda no teto – disse Cristiana. – Nem com picareta você consegue desgrudar de lá. Tem razão, não é Superbonder, é cimento industrial, o negócio!

_Tá, mas quando eu acerto o ponto, como hoje, não tem macarrão melhor.

_Isso é verdade! – concordei, me apropriando da minha asa de peru.

Fiquei até surpresa por descobrir que só o Pedrão e o Seu Ezequiel estavam interessados na outra coxa. Acabou que a disputa foi no par ou ímpar – para poupar tempo –; o Pedrão ganhou, mas com todo espírito natalino, acabou cedendo-a ao porteiro.

_Feliz natal, Seu Ezequiel – disse Pedrão, com um sorriso simpático.

_Obrigado, rapaz! – disse o porteiro, feliz como uma criança por ter ficado com seu pedaço favorito da ave.

Cristiana deu um sorriso bastante impressionado para o namorado. Havia grande orgulho explícito nele, também.

_Hum… – murmurou Valentina, deliciada, dando uma garfada no macarrão. – Seu cimento-cola está uma delícia, Pedrão. Depois vou querer a receita do molho.

Pedrão lançou ao Serginho um olhar que dizia “tome, cego”, e sussurrou os ingredientes ao ouvido de Valentina, enquanto ela anotava no celular.

_Espera aí… – sibilou Valentina, digitando o mais rápido que conseguia. – Azeitona é com “s” ou com “z”?

_É com caroço, amiga – respondeu Cristiana.

_Não é, não – disse Pedrão. – Essa é fatiada.

_Tudo bem eu ter convidado a Dona Lourdes? – sussurrou Pedrão, pertinho do ouvido de Cristiana, quando todos estavam distraídos em alguma conversa, espalhados pela sala do apartamento. Nossa cozinha também era pequena demais para acomodar tanta gente.

_Claro – disse Cristiana.

_Quando eu estava entrando de novo no prédio, ouvi o Seu Ezequiel comentando com o Severino que a Dona Lourdes ia passar o natal sozinha, e o tinha convidado para a ceia, já que a família dele também mora longe. Daí eu resolvi convidar os dois. Sei lá, é horrível ficar sozinho nessa época do ano.

_Pior que é – concordou Cristiana. – A gente até comentou isso hoje à tarde, não foi Manu?

Assenti. Leandro e eu estávamos falando sobre a nova comédia que vamos começar a ensaiar depois do ano novo, mas ouvimos um pedaço da conversa.

_A mim também não incomoda em nada a presença dos dois – acrescentei. – É até provável que a gente se divirta mais. Seu Ezequiel sóbrio já é meio engraçado; imagine depois de algumas taças de vinho.

Não que estivéssemos usando taças; é mais força de expressão.

Sem falar que o peru estava uma delícia. Dona Lourdes podia até ser uma velha cricri, mas a danada sabia cozinhar. Cheguei a dizer isso a ela enquanto comíamos. Não com essas palavras, é claro.

_O segredo está no conhaque e no alho – ela me disse, orgulhosa.

Ela sempre foi meio durona, mas dava para ver que estava feliz por ter tanta gente em volta dela naquela noite. Ficou engajada numa conversa com a Vick e com o Vicente, sobre algo que devia ser muito engraçado, porque a Vick gargalhava a toda hora.

Seu Ezequiel também parecia enturmado, conversando com o Ivan, se eu entendi bem do outro lado da sala, sobre a irmã do Ivan, que costumava vir passar o natal com ele todos os anos, exceto este.

_A minha irmã está no céu – disse Ivan, quando o porteiro perguntou por que ela não veio.

_Ah… – sibilou Seu Ezequiel. – Sinto muito. Não sabia que ela tinha morrido. Ela era tão jovem, e parecia tão cheia de vida.

_Não… – explicou Ivan, dando uma risada meio supersticiosa para espantar o comentário. – Ela está num avião. É aeromoça. Tinha um voo marcado para Natal hoje, curiosamente.

_Ah! – exclamou o porteiro. E também riu, desculpando-se pelo mal-entendido. E virou o copo de vinho na boca, talvez para disfarçar o rubor.

Nesse momento, o interfone tocou.

_Ué…? – Franzi o cenho.

_Estava faltando alguém? – perguntou Valentina, enquanto Pedrão se levantava para atender.

_Não – respondeu ele, caminhando até o interfone. – É o peru.

_O Severino ficou na portaria, para eu poder jantar – explicou Seu Ezequiel. É só pedir para ele liberar a entrada do entregador.

_Outro peru? – indagou Vicente, confuso.

_Sim, sim! Pode mandar subir, Severino – disse Pedrão, ao interfone. – Valeu.

O entregador apareceu na nossa porta um minuto depois, e Pedrão foi abrir a embalagem de plástico na mesa da cozinha.

_Alguém quer uma coxa? – perguntou, já enfiando a faca no bicho.

_Eu quero! – disse Vicente, avançando em direção à cozinha.

_Vai mais uma asa aí, Manu? – ofereceu Pedrão, em seguida.

_Valeu. Estou satisfeita. Com o peru – acrescentei. – Ainda tenho espaço para as outras coisas.

_Nem desconfiava disso – alfinetou Cristiana, com sarcasmo. Ela sabe que eu não resisto a uma boa sobremesa.

_Bem, quem quiser mais algum pedaço, o peru está na mesa – disse Pedrão, retornando à sala com uma coxa bem carnuda na mão.

Devia ter desconfiado que seu desapego em ceder a coxa do peru da Dona Lourdes ao porteiro não era só amor no coração…

_Você comprou outro peru? – indagou Cristiana, surpresa, quando ele se aproximou.

_Estavam terminando de assar quando passei naquela padaria lá perto da caixa d’água – explicou Pedrão, acomodando-se de volta ao lado dela no tapete. – Eu deixei pago e dei o endereço para entregar.

_Achei que… – ela se interrompeu, e deu outro sorriso cheio de orgulho para ele.

Afinal, não foi por causa do peru que ele convidou a Dona Lourdes e o Seu Ezequiel. Sim, ele tem um grande coração. Só não se aplica diretamente às coxas do peru.

_Vou pegar mais sopa – avisou Vick, pouco tempo depois, dirigindo-se à cozinha com o prato dela e o de Valentina na mão.

_Também quero – eu disse, me levantando.

Vicente e eu disputamos o espaço para entrar na cozinha, como costumávamos fazer sempre que passávamos por alguma porta estreita. Não precisava ter olhos na nuca para sentir o olhar desconfiado de Cristiana sobre nós. Ela ainda estava pensando que o Vicente havia me mandado o ursinho e os bombons de manhã. Estava errada. Mas se era para deixá-la pensar que meu suposto namorado misterioso estava na nossa sala, então que fosse alguém parecido com o filho de Deus.

Vick entregou o prato de Valentina na bancada, e voltou para a mesa, para misturar um pedaço de batata assada na sopa em seu prato. Foi só ao chegar à sala que Valentina percebeu que estava comendo sopa com o garfo.

_Cabeça… – murmurou, retornando à bancada, enquanto fazíamos fila para chegar à panela. – Alguém aí me dá um garfo para comer a colher?

Houve silêncio por um segundo dentro do apartamento, e depois algumas risadas tímidas, mal abafadas, misturadas a olhares confusos.

_Ela pediu um garfo para comer a colher? – indagou Ivan, parando com a garrafa de vinho a três centímetros da borda do copo. Parecia estar decidindo se as pessoas naquele apartamento já não tinham consumido álcool o suficiente.

_Jesus, Maria, José! – exclamou Serginho. – Como é que é isso? Comer colher com garfo…? Você é faquir, Valentina?

_É… – balbuciou ela, sem graça. – Sopa. – E também não aguentou, e começou a rir. – Eu quis dizer uma colher para comer sopa.

_Tenso! – disse Leandro, levando o copo de vinho aos lábios, mas esperando um momento para beber. – Vamos retirar as bananas da casa…

_Por que a culpa é sempre da banana, hein? – perguntou Vick, tentando não rir… muito… na frente da Valentina.

_Elementar, minha cara – respondi. – Tá lá no Aurélio: comer banana é o ato ou efeito de alimentar o Tico e sequelar o Teco!

_É como eu sempre digo: não dê bananas aos doidos! – acrescentou Leandro, entornando o copo de vinho em seguida. – Desculpa aí, Valentina.

_Eu mereço… – murmurou ela, com espírito esportivo. Mas deu um tapa um pouco mais forte do que o normal na parte de trás da cabeça dele ao passar.

Leandro riu. Desconfio que ele estava começando a ficar bêbado. E mal estávamos na terceira garrafa ainda. Para onze pessoas, nada de mais…. Deduzi que ele já devia ter bebido alguma coisa antes de vir para cá.

Começamos a atacar as sobremesas quase em seguida: a rosca de nozes da Valentina – que era muito mais leve e fofinha do que parecia –, as rabanadas da Vick, o pavê de pão de mel com cobertura de glacê de nozes e frutas vermelhas do Ivan…

Aliás, nota mental: arrancar o armário da vida desse moleque e casar com ele! Ou ganhar a Mega-Sena da Virada para contratá-lo como meu confeiteiro particular; o que for mais fácil.

E por último, o sorvetone em formato de boneco de neve do Serginho. Que também estava uma delícia, mas sabemos que não era receita dele, nem da mãe dele, nem da avó dele. Era receita da Teodora. Da Padaria Teodora!

Estava tudo muito bom, tudo muito bem, mas exatamente nesse momento, enquanto experimentávamos todas aquelas delícias que certamente nos fariam lutar com a balança e visitar o dentista muito em breve, como se já não tivesse acontecido absurdos demais nesse natal… Acabou a luz.

_Como assim, gente? – estrilou Serginho, depois que todos demos gritinhos e vaias para a escuridão e acendemos as lanternas dos celulares. – Acabar a luz em plena véspera de natal? Que tipo de birosca é essa que a gente tá alugando? E aí, Dona Lourdes? Vamos tomar alguma providência?

_Eu vou lá dar uma olhada na caixa de força – disse Seu Ezequiel, acendendo também a lanterna do celular, e dirigindo-se à porta.

_Bem que agente podia aproveitar esse escurinho para contar umas histórias de terror… – sugeriu Vick, fazendo uma voz sinistra ao final da frase, iluminando o próprio rosto de cima para baixo com a lanterna do celular.

_Era uma vez um Papai Noel sinistro que apagava as luzes dos prédios na véspera de natal, só se for – disse Ivan, aparentemente servindo mais vinho em seu copo. Também podia ser refrigerante, não dava para enxergar direito naquela escuridão.

Um telefone tocou perto de mim. Percebi pela música de boate que era o do Leandro.

_Alô? Oi. Está sim, mas olha só, ele já tá mais ou menos na oitava cerveja, não tá falando lé com cré; você tá falando Jesus, ele tá entendendo Genésio. Tem certeza que você quer falar com ele assim mesmo? Acho que é melhor você ligar depois; tipo amanhã, depois que a ressaca passar. Falou, eu aviso. Abraço… Tchau, tchau.

_Queriam falar com quem? – perguntou Vicky, curiosa. Por incrível que pareça, não tinha ninguém bêbado. Ainda…

_Sei lá… Com um tal de Guto. Conheço não.

_E porque inventou essa história toda? – perguntei.

_Só pro cara não perder a viagem.

_Bom, o cara com certeza não deve estar pensando boa coisa do tal Guto, agora – disse Valentina.

_Bobagem! – bufou Leandro. – Todo mundo bebe um pouquinho a mais na véspera de natal.

A luz voltou logo em seguida e todos aplaudimos a eficiência do Seu Ezequiel quando ele retornou ao apartamento.

_Gostei de ver a agilidade – disse Ivan. – Está merecendo um aumento de salário, não é, não, Dona Lourdes?

_Claro, é só aumentar um pouquinho o valor do condomínio – respondeu a síndica.

_Foi mal, Seu Ezequiel. Tentei. O que aconteceu?

_Foi só um probleminha de gato – respondeu o porteiro.

_Quem foi que puxou gato da caixa de força do condomínio? – perguntou Dona Lourdes, religando o modo carranca, doida para comer o rabo de alguém na vizinhança.

_Não… Foi o gato da Dona Dolores, aí da frente, que se enfiou na caixa de força, provavelmente caçando algum rato ou lagartixa, e saiu pisando nos disjuntores, desligando tudo. Apagou a luz de todos os apartamentos desse andar. Já religuei tudo.

Quando fui apagar a lanterna do celular, percebi que tinha uma mensagem não lida da Malu, avisando que encontraram o rabecão lá para os lados de Vila Nova Cachoeirinha. Felizmente, não mexeram nem no caixão do Seu Aristides, nem na urna com as cinzas do Seu Vigário. Porém, ninguém foi preso: Papai Noel e seus cúmplices continuam foragidos, à procura de um novo trenó menos bizarro para entregar os presentes esta noite.

_Acharam cedo, até – comentou Cristiana, quando contei a ela.

_Também pensei que só fossem encontrar lá para segunda-feira – acrescentei.

_O quê? – perguntou Pedrão, pegando o bonde andando.

_O carro da funerária do meu pai, que tinha disso roubado hoje cedo pelo Papai Noel.

Leandro estalou numa gargalhada.

_É sério! – acrescentei. Embora a história parecesse surreal, mesmo. E como todos os olhares se voltaram para nós, eu os atualizei sobre a vocação criminosa do pessoal do Polo Norte.

_Quê isso, gente? – estrilou Leandro. – Papai Noel virou trombadinha…?

_Se até o Bom Velhinho está chefiando uma quadrilha, é sinal de que o mundo está perdido mesmo… – comentou Ivan. – Daqui a pouco vão ter que instaurar a CPI do trenó…

_Agora você vê… – comentou Pedrão. – Antigamente Papai Noel se contentava com pratos de biscoitos e um copo de leite; hoje em dia, ele quer o pagamento em dólar e uma conta na Suíça!

_Desse jeito, até eu vou querer me candidatar a esse emprego – acrescentou Serginho.

_Mas, convenhamos, foram bandidos muito criativos, hein – riu-se Vick. – Ou com muito espírito natalino.

_Não dá mais pra confiar em ninguém, mesmo… – disse Valentina.

_Tá, gente, mas vamos parar de falar em coisa ruim, porque hoje é natal – atalhou Pedrão.

_Falando em coisa ruim, cadê a Dona Lourdes? – perguntou Cristiana, baixinho. E só então nos demos conta de que ela não estava na sala. E não vimos ninguém passar na direção do banheiro. – A velha virou fumaça?

_Ela disse que ia buscar alguma coisa lá no apartamento dela – informou Vick. – E o Seu Ezequiel foi lá render o Severino na portaria.

_Bem, é melhor a gente começar logo o amigo secreto, né? – sugeriu Leandro.

_Certo – disse Cristiana. – Quem quer começar?

_Vamos em ordem alfabética – sugeriu Serginho.

_Então, é com você Manu! – disse Cristiana.

_Nem vem – rosnei. Ninguém precisava me lembrar do nome que constava nos meus documentos em plena véspera de natal. – É com você, Cristiana!

_Tá, que seja – ela disse, e foi buscar seu presente embaixo da árvore, junto com os outros. – A pessoa que eu tirei…

_É um ser humano! – interrompeu Leandro.

_Sabe que eu estou em dúvida sobre isso – refletiu Cristiana. – Porque, veja bem… Ele é especialista em ficar escondido, não tem endereço fixo… Pelo menos, não um endereço oficial… Às vezes parece uma presença etérea, onipresente nos cantos mais recônditos do nosso teatro… E, reza a lenda que ele é o fantasma do maior libertino de todos os tempos… O que é um contraste e tanto com a aparência do homem mais santo que já pisou nesta Terra…

_Vicente! – gritamos em uníssono.

Ele se levantou para receber seu presente: um par de óculos de visão noturna.

_Agora você não vai mais tropeçar em qualquer bagulho largado pelo contrarregra no meio do caminho quando o Otávio ou a Rita resolverem aparecer no casarão de madrugada, e você tiver que se esconder deles no escuro.

Isso quase o delatou uma vez. Sorte que ele conhece cada passagenzinha do casarão, por menor que seja e por mais improvável que pareça permitir a passagem de um ser humano adulto, ser rápido, flexível e muito escorregadio.

_Opa! Valeu – disse ele, guardando o óculos de volta na sacola, antes de abrir o outro embrulho, o presente de grego: uma tesoura de cabeleireiro.

Um ponto de interrogação surgiu em seu rosto ao erguer a tesoura.

_Passou da hora de cortar esse cabelo, hein, Ashton Kutcher – explicou Cristiana.

_O que vocês acham, meninas? – perguntou ele, jogando a decisão para a galera.

Vick e eu fizemos o coro do não. Valentina não opinou.

_A voz do povo é a voz de meu Pai – decidiu Vicente, com um tom de voz reverente, guardando a tesoura.

Cristiana revirou os olhos, dando uma risadinha e foi se sentar ao lado do namorado.

Vicente também pegou seu presente embaixo da árvore de natal, e começou a nos dar dicas:

_Eu tirei uma pessoa incrível, linda… – Nessa parte, Ivan se levantou envaidecido, só para deixar o Vicente sem graça, e fazê-lo acrescentar depressa: – Mulher! – Ivan se sentou novamente, fingindo desapontamento. – Mas eu não me atrevo a pronunciar o nome dela assim tão perto das facas da cozinha, porque eu temo pela minha integridade física…

_Manu! – gritaram todos em uníssono, de novo.

E eu me levantei. Felizmente não passou pela cabeça de ninguém pronunciar a palavra com “A” (meu nome), senão eu teria mesmo que recorrer ao nosso maravilhoso faqueiro com dez peças super afiadas.

Dona Lourdes retornou ao apartamento bem nesse instante, enquanto eu abraçava o Vicente, trazendo o que parecia ser uma travessa de lindos cupcakes caseiros. E sentou silenciosamente no lugar que Vick tinha guardado para ela ao seu lado, no sofá.

Não consegui conter um gritinho eufórico ao abrir o meu presente: o novo DVD do Enrique Iglesias Belfest Live Concert! Enchi a capa de beijos na mesma hora. Todo mundo sabe que eu sou louca por esse mau caminho espanhol. Melhor do que isso, só se alguém conseguisse trazer o próprio, em carne e osso, para dentro do meu apartamento.

_Eis a pessoa que menos teve que pensar no que compraria para o amigo secreto – comentou Cristiana, apontando para o Vicente. – O nome do Enrique Iglesias praticamente se materializa por cima do nome da Emanuelly no papelzinho. A dúvida só pode ser entre o CD ou o DVD.

Mandei um beijinho no ombro para ela, ainda agarrada no meu novo mimo, e abri o presente grego: uma camiseta amarela. E não qualquer amarelo: gema de ovo! Nem a estampa com um cachorrinho extremamente engraçadinho conseguia tornar aquela cor menos hedionda.

_Jesus! – exclamei, tentando não torcer o nariz para aquela camiseta. Embora todo mundo saiba que eu odeio amarelo, e esse ser precisamente o motivo de ser o meu presente grego.

_Só não vale usar como pano de chão – disse Vicente, rindo da minha expressão.

_Mas fundo de gaveta tá valendo, né? – E ri também, guardando meus presentes de volta na sacola. Nada que um bom spray com tinta para tecido não resolva.

Em seguida apanhei o presente do meu amigo secreto e me recompus das últimas emoções para começar a dar minha dica.

_Vocês não têm ideia de como é difícil comprar presente para uma pessoa que aparentemente tem todas as coisas que já foram inventadas e fabricadas desde o início dos tempos dentro do próprio apartamento…

_Serginho! – Todos gritaram.

Meu presente não era muito criativo, mas algo que eu sabia que ele não tinha e que ele iria gostar: um box com os quatro filmes mais divertidos do Mel Brooks – O Jovem Frankenstein, Banzé No Oeste, S.O.S. Tem Um Louco Solto No Espaço e A Última Loucura de Mel Brooks. Serginho gosta de filmes antigos e cults, e é meio complicado, realmente, encontrar esses filmes em DVD, mesmo para quem está acostumado a desenterrar coisas impossíveis do fundo das galerias de São Paulo. Para conseguir aquele box eu tive que recorrer ao amigo de um amigo de um amigo que conhecia um cara que trabalhava numa loja de discos e filmes antigos, com precinhos até camaradas.

O presente de grego foi mais fácil de escolher: como ele é palmeirense roxo, dei a ele um lindo porquinho de pelúcia vestido com a camisa do Corinthians. Com um pouco de sorte, ainda poderia salvar uma alma do purgatório.

_A pessoa que eu tirei… – disse Serginho, após guardar seus presentes. Estava certa, ele gostou dos DVDs; e torceu o nariz para a camisa do Corinthians no porquinho. Chegou a dizer que ela entupiria sua privada mais tarde. Acho que o olhar zangado da Dona Lourdes quando ele mencionou o provável futuro problema nos encanamentos pode ser capaz de salvar a vida daquela camiseta tão preciosa. Mas é bem possível que ela passe a enfeitar o banheiro dele, de qualquer modo. – É famosa por ter algo em comum com certo escritor italiano do século dezoito…

_Casanova!

O mais interessante nos presentes do Serginho para o Leandro foi o presente de grego, que valia mais pelo recado que transmitia, e que ele fez questão de verbalizar ao entregá-lo:

_Segure o Tchan!

Sim, era um CD do É o Tchan! Antiquíssimo.

_Pirata!? – observou Leandro, erguendo uma sobrancelha acusadora.

_Onde? – indagou Serginho, olhando para os dois lados, fazendo-se de desentendido. –Não, não, não! Mídia digitalmente reproduzida, sem fins lucrativos.

_Sei… Diga isso à polícia e tente convencê-los – replicou Leandro, dando uma risada sarcástica.

_Tirem as bananas da casa quando a minha amiga secreta estiver por perto! – Foi a dica do Leandro.

E antes que pudéssemos abrir a boca, Valentina se levantou:

_Palhaço!

_É meio misturinha, mas é uma gatinha – acrescentou Leandro, abraçando-a, todo galante. Ou quase isso.

E o presente de grego que deu a ela foi precisamente uma banana de borracha que apita – como os brinquedinhos dos cachorros.

_Gente, que cisma vocês têm comigo e a banana… – reclamou Valentina, mas não estava brava de fato.

Isso é só porque ela vive confundindo as coisas que vai dizer, o que faz parecer que ela está constantemente sob a influência de alguma substância perigosa. Tipo a banana.

Sabemos, claro, que a Valentina não é burra – verdade seja dita, a menina sempre foi a melhor aluna da turma dela na escola, e dois anos consecutivos tirou notas acima de noventa no ENEM: 2007 e 2008. Então, claro que ela é uma garota inteligente. Mas vive trocando as bolas sempre que abre a boca; talvez por timidez, talvez por desatenção. Cinco minutos de conversa com a Valentina é sempre garantia de boas risadas.

_Meu amigo secreto… – ela disse, erguendo uma sacola de presentes púrpura cintilante. A própria sacola já parecia uma dica.

_Ivan! – Vick e eu não resistimos em gritar logo.

_Gente, deixa a menina terminar de dar a dica… – reclamou Ivan.

_E precisa?! – indagou Vick, apontando para a sacola com a cor favorita dele.

Ignoremos a camisa rosa e o DVD do Ricky Martin, porque é muito estereotipado. E vamos direto à dica do Ivan a respeito de seu amigo secreto:

_Eu tirei uma pessoa… Ela é magérrima, loira, toda gata… Mas passou por uma metamorfose hoje, apareceu aqui com o cabelo mega vermelho, um pouco mais baixa, um pouco mais cheinha, e infinitamente mais legal…

_E como quem foi namorar perdeu o lugar… – completou Vick. – Com todo o respeito, Serginho… Perdeu também o presente de natal! Então, passa pra cá essa sacola!

Vick abriu o presente, toda saltitante.

_Se for roupa vou ter que mandar alargar no quadril. Ou trocar por um número maior.

_Não é, não – disse Ivan.

Era um livro fotográfico, contando a história da moda desde o início do século XX até os dias atuais: as diferentes tendências, os grandes estilistas, as modelos mais famosas… Um livro muito patricinha, e bem a cara da Amanda. Nada a ver com a Vick.

_Interessante… – ela disse, depois de dar uma folheada no livro e rir da ideia certeira do Ivan de comprar aquilo para a Amanda.

_Se eu soubesse que teríamos essa substituição de última hora, teria comprado algo mais a sua cara – desculpou-se Ivan.

_Esquenta, não, garoto – disse Vick, fazendo um gesto para descartar o comentário. – Eu gostei. Essas fotos são lindas, e, vai ser legal conhecer a história por trás de… – Fez uma pausa. Parecia estar procurando uma palavra simpática. – Olha, não vou mentir, quero saber o que tinham na cabeça as pessoas que desenharam a moda dos anos setenta. E oitenta! Aquilo foi um horror!

Nem preciso dizer que o amigo grego também não funcionou. Ivan tinha comprado uma boneca da Fiona, que fez Vick cair na gargalhada.

_Você estava querendo apanhar da Amanda, né?! – caçoou ela, com a boneca na mão. – Amei! Vai fazer companhia para a minha Pedrita e para a galera do Scooby-Doo.

_Acho até que já dá para saber quem foi que você tirou – comentei. – Por que só está sobrando o Pedrão e a Cristiana, e ele não deve ter tirado ele mesmo…

_Oh, amor, você me tirou?! – disse Cristiana, toda dengosa para o namorado. – E não me falou nada…

_Amigo secreto tem que ser secreto – disse Pedrão, agarrando seu presente debaixo da árvore de natal.

_Não contou nada, e ainda trouxe dois presentes! – observei. – Isso, sim, é amor.

Cristiana abriu o presente dela, enquanto Pedrão abria o presente da Vick. O presente unissex que ela comprou era o DVD We Are The Champions Edição Especial, do Queen.

_Todo mundo gosta do Queen – explicou Vick, com ar de quem sabe das coisas, ao ver a expressão impressionada no rosto de Pedrão.

Também não deve ter sido fácil pensar num presente de grego que funcionasse para qualquer um. Pedrão franziu o cenho ao tirar um retângulo de plástico vermelho de dentro de um envelope de presente prateado com um enfeite de fita roxa.

_Isso é…? – ele começou a perguntar, antes de Vick tomar a coisa de sua mão e erguê-la impetuosamente no ar.

_Cartão vermelho! – bradou ela. – Caia fora daqui! – E deu de ombros ao devolver. – Era isso ou uma foto ampliada da Rita…

Pedrão bateu três vezes na madeira da nossa mesinha de centro.

_Quanta maldade nesse coração, Vick! Amigo grego é para ser engraçado; não é para torturar a pessoa.

Rita Ortega é assessora do Otávio, diretor do nosso grupo de teatro, e não é bem por ser feia que seria uma tortura ter uma foto dela em casa; essa mulher é uma urucubaca que alguém jogou na gente. Não só por ser chata e mal-humorada. A bicha é ruim, mesmo!

Agora, se fosse para escolher o momento mais surreal desse natal – depois de todas as coisas surreais que aconteceram ao longo do dia –, acho que eu escolheria o que aconteceu a seguir, depois que todos já tinham trocado os presentes de amigo secreto. Ainda havia um pacote embaixo da árvore de natal. E não era para ninguém que estivesse nos nossos planos receber em casa naquela noite.

Enquanto iniciávamos uma nova rodada de fofocas, Cristiana apanhou aquele presente e o entregou para a Dona Lourdes.

_Mas… – sibilou a síndica, ao mesmo tempo surpresa e emocionada. – Por que você me comprou um presente?

_Porque – disse Cristiana – eu sei que a senhora ia passar esse natal sozinha, e acho que ninguém deve ficar sem presente de natal. Mesmo a senhora não indo muito com a nossa cara, e nós duas brigando dia sim, outro também… Não queria deixar esse natal passar em branco. Até porque, de certo modo, a senhora faz parte da nossa família, né… Não sai do nosso andar… Tudo bem que a senhora é tipo aquela tia chata que não larga do nosso pé, ou aquela madrinha fofoqueira, mas, faz parte. E pode não acreditar, mas eu gosto da senhora. Aceita, é de coração!

Vi uma lágrima fugir dos olhos da Dona Lourdes. E, confesso que também tive vontade de chorar. A Dona Lourdes, como a Cristiana disse, era como uma tia chata ou uma madrinha fofoqueira, mas a verdade é que nós provavelmente sentiríamos falta se não tivéssemos aquela pessoa difícil para brigar todos os dias naquele prédio. E afinal, o natal é para isso mesmo, não é? É uma época do ano que existe para nos lembrar o que as pessoas têm de melhor, e para deixar todas as encrencas corriqueiras de lado, nos abraçarmos e descobrir o que temos em comum. Lembrar que somos uma família, mesmo se não tivermos o mesmo sangue.

Dona Lourdes ficou tão comovida com o gesto da Cristiana que até prometeu tentar pegar mais leve conosco daqui por diante. Contanto que a gente também colaborasse. Ou seja: vamos continuar recebendo advertências da síndica dia sim, dia não.

_Sempre que fizerem por merecer – confirmou ela, quando Cristiana verbalizou essa conclusão.

_Todo dia, então – disse Cristiana, desanimada. E arrematou com uma risadinha zombeteira.

Depois disso, Dona Lourdes serviu os cupcakes que tinha ido buscar enquanto começávamos o amigo secreto. Ela tinha preparado como sobremesa para a ceia antes ser convidada a se juntar a nós.

_Para começar 2017 alguns quilos mais gordas, meninas – disse Cristiana, nos propondo um brinde com os cupcakes.

_Com isso vocês não vão engordar nada – disse Dona Lourdes. – É light.

Quem diria! Se bem que, depois das toneladas de massas e sobremesas que já tínhamos comido naquela noite, não seria um cupcake que faria diferença nas dietas, realmente.

Daí em diante, a noite foi bem normal. Fizemos a contagem regressiva para a meia-noite espremidos na varanda, estouramos o champanhe da Vick, trocando abraços, e desejando feliz natal uns para os outros – e feliz aniversário para a Vick –, vendo os fogos de artifício explodindo no céu negro.

_Feliz natal! – gritamos de volta para um pessoal que estava no jardim do prédio.

_Feliz aniversário! – gritou Vick, olhando para o céu, iluminado por uma chuva de luzes coloridas. – É nóis, irmão!

_Tá falando com quem? – perguntou Vicente.

_Jesus!

E como já estava nos planos, avançamos todos nas orelhas da Vick, cantando Parabéns Pra Você. O pessoal que estava no jardim do prédio olhou para cima, gritando e acenando, provavelmente imaginando – com toda razão – que somos malucos.

Mas, se alguém perguntar, vamos dizer que a culpa é do champanhe. E das garrafas de vinho.

_Vem cá… – Cristiana sussurrou para mim, quando voltamos para dentro do apartamento, enquanto eu respondia uma mensagem de texto no celular. – Não vai mesmo me contar quem é o bofe misterioso que te mandou aquele ursinho hoje cedo?

_Ah, sim… – respondi. E me aproximei para sussurrar ao ouvido dela. – Depois do ano novo!

_Malvada!

Porque, afinal, estávamos mantendo nosso namoro nas sombras por um motivo. Mas logo, logo tudo viria a público.

Ah, e o meu pai recebeu algumas notificações do departamento de trânsito, alguns dias depois, de infrações cometidas pelo carro da funerária na véspera de natal. Ao que parece, o rabecão atravessou alguns faróis vermelhos, e o DETRAN tinha fotos hilárias registradas pelos semáforos no momento das infrações. Ironicamente, o motorista era uma rena!

Claro que, com o B.O. na mão, meu pai ficou livre das multas e dos pontos na carteira de habilitação. E ele até pode usar as fotos captadas pelas câmeras do DETRAN para uma campanha publicitária socioeducativa no natal do ano que vem, já que essa é uma época do ano em que ele costuma ter bastante serviço na funerária, porque o povo enche a cara, vai dirigir, e enche a loja dele de presunto. Então, fica a dica: se for dirigir, não beba! A menos que você queira dar uma voltinha no rabecão do Papai Noel.

Falando nisso, será que a habilitação do Rudolf estava em dia? Bem, acho que essa é uma outra história…

Publicado por Talita Vasconcelos em: Agenda |
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A Sereia, o Sátiro e Ninguém Capítulo II

Coral acordou na cama ao lado do Sátiro, o Mestre, único nome que ela sabia sobre ele, estava dormindo profundamente, seu peito se movia com a respiração ela observava fascinada, a noite anterior depois do beijo ambos tinham voltado para a casa, quando a chuva começou já tarde, eles já tinham jantado, conversaram, sorriram e acabaram na cama, ele tão selvagem e dominante quanto realmente parece, dormiram após horas…

Ela cansa destes pensamentos e se levanta da cama, sua pele, ardendo de leve, ela sabe muito bem porque, vai até o salão lá em baixo e mergulha em seu aquário, nadando, de olhos fechados, como se fosse uma dança hipnótica, um movimento circular ao redor, curtindo a sensação da água… Abre os olhos e Ninguém está olhando para ela…

Ninguém estava encantado pela jovem sereia, nunca imaginou ver alguém tão bonita por aqui, ele já vivia aqui a séculos, sabia que o Mestre sempre trouxera amantes para cá, mas nunca alguém tão linda… Ele olhava para ela dançando na água, hipnótica, bela, sua pele perfeita, parecendo uma pérola azulada, ele tinha visto os dois se beijarem, ele ouviu os dois se amarem, ele a desejava, pela primeira vez em séculos, ele desejava uma das amantes do mestre.

Quando ela percebe Ninguém os dois se olham nos olhos, ambos sentem a eletricidade, de algo no ar, ambos se acham interessante, ela sorri, ele sorri de volta e continua a varrer o chão, ele escuta o barulho da água, quando ela sai do tanque, escuta seu corpo pingando se aproximar, se vira e olha para cima.

– Posso ajudar Mestra Coral…

– Só Coral está bom… Você sempre já acorda trabalhando? – ela busca um lugar para se sentar e encontra um banquinho próximo, recolhe as pernas sentando sobre elas para não atrapalhar a limpeza do chão.

Ele sorri com a gentileza, ela não é como as outras, diz para si mesmo antes de responder.

– Sim, Ninguém sempre deixa a casa do Mestre em perfeito estado para ele trazer suas noivas…

No mesmo momento que diz isso ele se arrepende, por um momento ele pensa na punição do mestre, caso a sereia resolva ir embora por causa dele, mas depois vem o reconhecimento, de que ele precisava dizer por se importar com essa menina, por se importar com a Coral. Já que ela é tão gentil e parece mais delicada que as outras, talvez seja bom alguém que saiba como cuidar dela, ele diz para si mesmo.

– Noivas… – Ela repete meio que para si mesma, uma suave decepção passa por seus olhos, mas ela já deveria saber que sátiros não são de uma única mulher. Deveria?

Ele percebe sua confusão, ele percebe a decepção e até uma certa genuína tristeza, por um momento ele também se sente triste por ela, impensadamente, acaricia seus cabelos, ambos se olham mais uma vez e sorriem. Ela quem primeiro quebra o silêncio.

– Exceto trabalhar e ficar aqui sendo um enfeite, tem algo que podemos fazer nesta ilha.

A voz que responde não é de nem um dos dois, é a voz grave do mestre, inconfundível e irrepreensível.
– Pode ir na praia, nas pedras, pode caminhar, nadar, ver os pássaros ou o mar, só não acho que possa ir embora da ilha, sem me pedir para… – Ele sorri deixando no ar o que a última parte significa, usando a parte de cima de um sobretudo antigo, acinturado e uma cartola, parecendo uma roupa do século XVII, exceto, que sem calças, já que é um sátiro.
– Terei que sair agora, deixo a casa e MINHAS propriedades em suas mãos Ninguém… – A ênfase no minhas deixa bem claro o que ele pensa do que viu. – Leve a senhorita Coral para passear pela ilha por favor, assim que terminar seus afazeres… Com sua licença…
Dito isso ele se retira pela porta da frente, indo embora.

Os dois se olharam, o frio na barriga, se sentindo transgressores pelo que quase haviam feito, o mestre saiu e eles se sentiram aliviados, ambos os dois, sem motivo algum que não fosse o susto tomado, que não fosse o frio na barriga que se dispersou deram uma gargalhada, que fez ambos se sentirem mais leves, mais felizes, a risada acabou e antes que Ninguém ou Coral pensassem em tudo, ele segurou a mão dela e saíram pela porta.
– Vamos dar uma volta, vou te levar para a conhecer a ilha como o mestre mandou..

– Tah.

Sem nenhum problema ela saiu correndo atrás dele, de mãos dadas, só quando sentiu o sol na pele, lembrou que ainda estava de biquíni…

Os dois correm juntos pela parte aberta da ilha, Ninguém a vê sorrir e rir e lembra de nunca ter visto alguém tão cheia de vida, quase como se lembrasse alguém de uma passado distante, de séculos no passado. Ele a acompanha com os olhos enquanto apresenta a parte mais central da ilha, um grande jardim.

– Você sempre viveu aqui… – Ela mal sabe porque a pergunta, curiosidade talvez… Ou apenas para vencer o banal, ela sente curiosidade, pelos sentimentos que ele desperta, ela sorri.

– Sim, o Mestre me criou para cuidar da mansão, este é meu único propósito…

Ela sorri aceitando a explicação como uma possível verdade, ela olha para ele e sorri, sai andando de leve, se distanciando um pouco do duende, mal reparando o quanto assim como ela pensa sobre ele, ele também pensa nela e a segue com os olhos, olhos atentos a cada movimento, a cada detalhe.

Para ele ela é uma incógnita, diferente de qualquer noiva que o Mestre já teve, ele jamais pensaria em flertar com uma noiva do Mestre, isso seria terrível, mas ele não estava realmente flertando com ela. Ou estava? Olhando para ela agora, vendo ela encantada pelo jardim olhando os pássaros, ele percebe que sorriu, ela também percebe e sorri de volta.

Um sorriso doce um sorriso perfeito, um sorriso inesquecível, ele sente seu coração disparar, ambos se olham por um longo tempo apenas sorrindo, apenas achando impossível. Ele se pergunta se por ela ele teria coragem de enfrentar o mestre, se pergunta se por ela ele deixaria de ter uma casa, mas mais do que isso, ele se pergunta se ela faria o mesmo, quer dizer, poderia uma sereia se apaixonar por um duende? Existem histórias de ninfas e duendes, mas seriam reais?

Como se adivinhasse seu pensamento, Coral se aproximou dele, sorrindo, seu sorriso de pérolas, seu olhar do mar, ela sem perguntar nada, sem dizer nada, lhe deu um beijo no rosto, o qual foi carregado de calor, ela também não pretendia que fosse tanto, ela apenas se encantou pelo modo como ele lhe olhava.

– Vamos para as pedras, – ninguém disse isso baixo, sorrindo, com as bochechas vermelhas, para uma sereia sorridente, que fez que sim com a cabeça e lhe ofereceu a mão.

De mãos dadas eles foram, até as pedras na base da ilha, ele queria levá-la a praia, rever ela nadando maravilhosa, como havia visto no aquário, mas não poderia, isso significaria etrar na água sem permissão, sair da terra firme sem permissão, ambos chegaram nas pedras, conversnado sobre bobagens, pequenas bobagens, ela estava encantada com o tanto de coisas que tinham em comum.

Ao vê-la nas pedras, na luz do sol, Ninguém soube o que estava acontecendo com ele, por um leve momento, ele era “alguém”, alguém que amou, alguém que já havia sido humano, há séculos atrás, alguém que amou e perdeu, que foi burro demais para manter próximo, quem amou, ele começou a chorar.

– Não chora, – sem aviso, Coral disse olhando para ele, segurando seu queixo, com delicadeza os olhos nos olhos e um beijo na boca.

Um calafrio percorre o corpo de Ninguém, o mestre não ficará feliz, de forma alguma, mas Ninguém está feliz, Ninguém agora é alguém, alguém que tem amor.

– Como ousam com todo o abrigo que lhes dei…

O mestre surge, sua ira é como uma tempestade que se forma no mar, Coral tenta explicar, mas uma súbita tontura, a faz desmaiar, ela só consegue perguntar no que acontecerá com Ninguém, ao mesmo tempo que se sente culpada por tê-lo beijado.

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A Sereia, O Sátiro e Ninguém

A sereia o sátiro e ninguém

Ela se via sozinha fazia poucas horas, a briga com o namorado tinha sido um grande estopim, ele jamais a compreendeu totalmente e como poderia, como ele poderia sequer imaginar os seus sacrifícios, ela havia se libertado com ele, brigou com sua família, não tinha mais família, não tinha amigos, tudo para quê, para estar com ele, que agora a jogava fora, na rua, como se não fosse ninguém importante.
Ela chorou por um tempo, mas depois vencida pela fome foi para uma padaria, sorriu, desviando os olhos de quem olhava diretamente para ela, uns curiosos, alguns interessados, mas também haviam aqueles que obviamente não gostavam da presença dela ali.
Era uma jovem mulher de seus 18 anos, seu corpo magrinho enfiado em jeans azuis simples, uma camiseta branca folgada, seus cabelos em cachos escuros compridos e seu rosto delicado, sempre se pareceu com uma menina, talvez por isso tenha sido tão fácil seguir até aqui, se abrir para todos, mas obviamente nem todos viam esta mulher dentro de seu corpo atual.
Foi quando ela o viu, alto de cabelos negros como a noite e olhos negros, como poços sem fundo, onde você poderia se perder, ele tomava um café, usava jeans pretos, coturnos e uma blusa de gola alta… Sua primeira reação era pensar em quem em São Paulo usaria tal vestimenta, por ser uma cidade tão quente, mas tudo bem, ambos sorriram um para o outro e ele se aproximou.
– Você é muito bonitinha… – ela sorriu e corou, mas não conseguia desviar os olhos.- Tem certeza desse desejo intenso, esquecer completamente o passado, só se tornar uma mulher e desaparecer…
Como ele saberia, como ele poderia saber, quer dizer, sim, era eu iria fazer a cirurgia e mudar de nome e ninguém nunca mais me encontraria, por não ser mais a mesma pessoa, mas…
– Como… – calada com um dedo de forma suave, que se apoiou em seus lábios, olhando nos olhos um do outro um calafrio percorre pela sua espinha, subindo até gelar sua nuca.
– Apenas responda se é o que quer.
Ela sabia que era, não sabia o que estava acontecendo, mas sabia muito bem o que era, o que ela queria, o que abriria mão por isso, ela fez que sim com a cabeça, sentiu ficar zonza, vertigem a atingiu de repente, ela se vê caindo em um buraco enquanto ele ri lá em cima na borda.
***
Quando acordou a primeira coisa que percebeu é que estava embaixo d’água, mas o pânico foi momentâneo, porque não foi difícil perceber que realmente estava respirando na água… Ela olhou em volta, mas percebeu que se encontrava em um aquário, mas mais do que isso viu seu reflexo no espelho, mesmo sendo uma imagem difusa, ela parou para olhar, para ter certeza do que via acompanhava com as mãos.
Seu corpo agora era um corpo feminino, belos seios volumosos, um quadril largo, a barriga quase reta, seu rosto, suas bochechas, ela usava um biquíni, vinho como percebeu olhando para baixo, mas também percebeu sua pele suavemente azul, um azul clarinho, se assustou e viu suas mãos e pés, com membranas entre os dedos, ela era uma sereia… Assustada, subiu até o alto do aquário, pulou suas bordas e sentiu o frio do lado de fora sobre sua pele.
Viu um espelho e caminhou até ele… Seus olhos agora olhavam diretamente para o corpo belo, ela se virou para ver cada detalhe, brincos na forma de duas conchinhas estavam pendurados em suas orelhas, doloridas por terem sido furadas recentemente…
Mas seus dentes eram afiados, visivelmente perigosos, assim como suas mãos, com membranas, mas também com garras, seus pés eram pequeninos, mas uma nadadeira crescia ao redor deles, quando juntava os dois pés era uma calda de peixe, se abrindo para o lado de fora só o dedão ainda existia, todos os outros dedos haviam se unido, formando a pequena cauda que se abria como meia lança, formando a volta do pé. Ela estava linda é verdade, mas também assustadora e definitivamente não humana, um medo começou a nascer em seu coração.
– Enfim acordou… – A voz era completamente inesquecível, era ele, da padaria, daquele dia…
– Você… O que fez comigo…- Ela falou alto, quase sem controle se virando para ele, só para ver ele com as pernas de bode, chifres, enrolados ao redor de sua cabeça pelos lados e o torso de uma túnica vinho… Paralisada de boca aberta ficou olhando para ele sem saber o que dizer.
– O que foi nunca viu um sátiro. – ao dizer aquilo ele riu, seus dentes perfeitos, ele parecia alguma espécie de demônio enquanto ria e ria, ela estremeceu inteira, sentiu medo daquela risada, mas por fim, ela cedeu e começou a rir também, possivelmente sua mente cedia a loucura do que estava acontecendo.
Ele estendeu a mão para ela, oferecendo silenciosamente para ela conhecer sua morada, ela sorriu de mãos dadas com ele, ela saiu caminhando, devagar com calma, seus “novos pés” ainda precisavam se acostumar com seu novo formato, ao sair da sala, ele colocou sobre seus ombros uma capa leve, delicada de seda, que escondia seu corpo só de biquíni quase como um poncho mexicano.
Perguntas como porque eu, ou coisas assim eram silenciosamente ignoradas, ele apenas lhe mostrava os cômodos de sua mansão, do lado de fora um mar revolto, era uma ilha rochosa, com pouco espaço, então ele a leva para fora onde um jardineiro fazia seu trabalho ajeitando as roseiras, que formavam um verdadeiro muro ao redor da casa.
O jardineiro era um homem loiro, velho, curvado, um duende de orelhas pontudas, bem longas, magro, de olhos verdes, ele olhou para os dois que se aproximavam e parou por um momento olhando para a sereia, ela sentiu em seus olhos algo gostoso, algo quente, algo que ela não sabia identificar.
– Está pronto Mestre… – se afastando da roseira para mostrar o trabalho.
– Ótimo Ninguém, esta é Coral e ela é uma sereia que viverá conosco agora…
– Claro Mestre, – olhou para ela, causando um certo arrepio.- mestra Coral, vou me retirar agora… – ao chamá-la assim, algo em seu coração palpitou e ele foi embora deixando ela distraída.
– Ninguém é um servo leal… – o Sátiro sorriu vendo seu silêncio.- Algo há incomoda.
– Não, só é muito para entender… – sorri, olhando em seus olhos…
Os dois passam um curto tempo se encarando, o olhar intenso dos dois lados, ele com os olhos negros intensos e sem fundo que ela havia visto na padaria, ela agora com olhos verde-mar, tão intensos quanto, com uma selvageria que faria muitos recuarem ou se apaixonarem, por um curto momento os dois se encararam, suas mãos ainda uma na outra, ela fecha os olhos e ele a beija.
Coral não sabia de mais nada, nem lembrava de qual era seu real nome, agora era Coral, ela era amante do Sátiro na ilha do farol e tinham um servo chamado Ninguém, (isso talvez significasse algo), ela sentia que seja o que for que o futuro guardasse estava só começando, enquanto nuvens se formavam no horizonte.

>> Continua.

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Clichê

Acho muitas coisas clichês: comédias românticas, filmes adolescentes (principalmente os de doença terminal), biografias de músicos, garotas e etc. Mas, acredite, eu amo o clichê.

Amo o clichê e amo me sentir um clichê. Sim, pode me julgar, mas eu me sinto um clichê antigo e adorável, daqueles bem cansativos de se ver.

O meu passatempo favorito é ler, uso óculos, escrever é a única coisa que me acalma (e escrevo muito bem), tenho um histórico depressivo, sou uma garota, sonho com a vida perfeita (o que me lembra do quão sonhadora eu sou), tenho conflitos comigo mesma, sou complicada, a minha letra é “de escritor” (o que também me lembra que eu quero ser escritora)… E tem muito mais.

Agora me diga: eu sou ou não sou um clichê? Claro que sou! Sabe nos filmes quando as garotas (sempre) têm somente duas melhores amigas? É assim comigo também. Ah, e eu sou tímida e vivo no mundo da lua.

Mas não tem problema, como já havia dito eu amo o clichê, por mais enjoado que seja. E, fala sério, quem não gosta de um clichê?

Tudo bem, eu aprecio ser um clichê antigo, e acho isso bem clichê na verdade.

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