Sobreviver
Escritor: Elcio H. Pereira Jr.
Sentado,
À beira do mar,
Olhei a distância
Com uma ponta
De nostalgia
Perfurando meu peito.
Escritor: Elcio H. Pereira Jr.
Sentado,
À beira do mar,
Olhei a distância
Com uma ponta
De nostalgia
Perfurando meu peito.
Writer: Elcio H. Pereira Jr.

- “Joe, please take me for a walk”.
He looked at me with his persuasive eyes and that charming and dazzling smile he used to especially wear when wanted to convince me to follow him. I could not – and would never try to – resist his plea. The invitation was the code especially created between ourselves to say things to each other without being too obvious.
Escritor: Elcio H. Pereira Jr.

Eu dirigia, já há horas, por uma estrada poeirenta, no meio de uma grande plantação. O sol ainda estava alto no céu e me batia no rosto, naquela tarde de Outono. A visão do vento a brincar com as folhas verdes do enorme milharal, que se estendia por quilómetros, me faziam sentir saudade de tempos de outrora, mas eu não sabia exactamente o porquê.
Escritor: Elcio H. Pereira Jr.

- E o que tu pensas que é isso nas tuas mãos?
A pergunta não era somente retórica. Minhas mãos estavam pegajosas, sujas de sangue ainda fresco. Eu me sentia drenado, usado, dolorido. Há dias eu não conseguia me concentrar. Estava sem dormir direito, há algumas noites. A falta de sono já me causava delírios e eu não tinha ideia do que era real e o que era imaginário… ou alucinação.
Escritor: Elcio H. Pereira Jr.

- …E não poderia ter revelado isto antes? Me desculpe a impaciência, mas é-nos absolutamente necessário ter ciência das condições médicas das pessoas que entram por aquela porta e aqui vivem. Como é que isso passou, sem que tomássemos conhecimento? Isto é inadmissível. É muito grave.
A directora se sentia cansada e preocupada ao mesmo tempo.
Escritor: Elcio H. Pereira Jr.

O velho vinha ficando cada vez mais anti-social. De vez em quando se isolava e se trancava no quarto, por períodos cada vez mais longos. Dizia que precisava deste isolamento, para colocar suas ideias em ordem. Ela desconfiava que havia algo além daquela boa intenção.
Escritor: Elcio H. Pereira Jr.

Sempre que ouvia gritaria no corredor, a directora sabia que o velho havia aprontado alguma nova estripulia. Mas ela jamais iria se acostumar a ouvir a gritaria geral das mulheres e a correria pelo corredor afora. A enfermeira-chefe, alheia aos gritinhos nervosos das damas, divertia-se secretamente, pois de outra forma o tédio era mais comum que as aprontadas do velho e do gato. Vez ou outra, porém, a casa de descanso virava um pandemónio.
Escritor: Elcio H. Pereira Jr.

As luzes da sala de espera, próxima ao portão 21, focavam apenas uma única pessoa, ou assim parecia ao homem, que sentado, lia um livro. Aqueles olhos azuis fingiram não ver o seu olhar cruzar a sala momentaneamente, mas tornaram a observar o homem, assim que este voltara a baixar a cabeça.
Escritor: Elcio H. Pereira Jr.

A directora vinha saindo do gabinete, quando viu a enfermeira-chefe passar de braços dados com o velho inquilino. Os outros olhos na sala pousaram sobre os dois, ao passarem tranquilos, com o gato acomodado confortavelmente no colo do velho. As mulheres inspiraram o ar e iam estufando o peito, num sinal de recomeço de falação, quando a directora, sábia e perceptiva, chamou a enfermeira. Esta deu uma batidinha leve no braço do homem e deixou-o ir sozinho para seus aposentos. Virou-se, simulou uma expressão tranquila, mesmo sabendo que iria ter que ouvir outro sermão. Na sua mente, ela pediu, aos Céus, paciência para aguentar as batalhas daquela vida…
Escritor: Elcio H. Pereira Jr.

- A senhora sabe a condição que ele impôs, quando entrou nesta casa a primeira vez. Nós concordamos… – tentou a enfermeira-chefe interpelar.
- Quem ficou responsável por ele, em primeiro lugar? – interrompeu a directora, seca e decididamente.
A enfermeira-chefe suspirou. Ela sabia que a directora não a ouvia, quando estava cega e ensurdecida pela ira. Chegava a ser intransigente, por vezes, e de nada adiantava tentar demovê-la, a não ser pelo bom senso, que nem sempre aparecia.
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