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conto da noiteO Conto da Noite
Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

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Contrato Suicida

 

                                                                                                        Contrato Suicida

“A literatura é sempre uma expedição à verdade.”

                                                                                                                                                                                                                                                        Franz Kafka

 

A primeira providencia que Rose tomou depois que se formou foi voltar à Araguaína – TO. Conseguiu um emprego em uma emissora de rádio da cidade e, após morar um tempo na casa de Maria Clara, mãe de Fernando, foi dividir uma pequena casa de três cômodos próxima ao Mercado Municipal no centro da cidade, com um colega de trabalho. Quando Fernando foi visita-la na casa nova é que conheceu o André. Atravessavam as noites ao som de Janis Joplin, Raul Seixas, Pink Floyd e muito rock nacional, sem deixar de mencionar os medalhões da M.P.B. e muita cerveja. Fernando percebeu que ele era inteligente, mas, por ser muito ansioso em expor suas ideias, acabava meio deprimido, talvez por não se fazer entender.

Rose tinha um namorado que era amigo de Fernando, o que o levou a frequentar mais assiduamente sua casa. A afinidade entre os quatro foi aumentando e Fernando foi percebendo que André era mais complicado do que imaginava.

Quase todo fim de semana estavam lá, ouvindo música, bebendo e filosofando. Mauro, namorado de Rose, era o único fumante. No início dos encontros, entretanto, André acabou aderindo aos prazeres inebriantes da nicotina. Nessas noites animadas, às vezes melancólicas, discutiam sobre quase tudo: perspectivas para o futuro, política, religião, o passado recente, os amigos, relações com os pais, trabalho, estudo, filosofia, literatura, música e de novo o futuro…

Em uma de suas incursões pela cidade conheceram um artesão andarilho, o Pedrinho, que passou a frequentar a casa contando suas idas e vindas pelo Brasil e alguns países da América do Sul. Pedrinho usava maconha e André o acompanhou. Fernando e Rose só cerveja e vinho. Vez por outra Mauro também usava maconha lá pelas tantas da madrugada quando discos voadores, vermes que controlavam mentes e pessoas que pareciam que sabiam o que estavam pensando era o assunto em voga. Eles ficavam inebriados com as aventuras que Pedrinho narrava. Ele era de Santa Helena – PR, e sua família era de boa condição. Era grande, olhos claros, usava barba e bigode, tinha tatuagens e sempre andava sem camisa. Levava todos os seus pertences numa mochila. Bermuda rasgada, chinelão de couro e um sorriso no rosto. Esse era o Pedrinho.

Um conhecido deles começou a frequentar a casa. Um cara com muitos contatos no submundo do crime e com a malandragem da cidade. Vando chegou de mansinho e, como conhecia Fernando e o respeitava, ficou na dele só observando o movimento. Até que percebeu a relação entre Pedrinho e André e achou que poderia levar vantagem naquilo. André estava empregado e sempre tinha algum dinheiro e Pedrinho só alguns trocados. Foi Vando quem apresentou Fábio a André. Vando já havia dito a Fernando que o Fábio era perigoso e que era pra ele tomar cuidado com as palavras por que ele se irritava fácil com qualquer coisa que não entendia. Ele ficou mais ligado do que nunca e alertou Rose. Apesar de ficarem inseguros com sua presença, ele se dava bem com o André, e assim foram levando a situação.

Foi nesse momento que começou a aparecer maconha em quantidade e cocaína também, eles ficavam incomodados por Fernando, Rose e o Mauro, que aparecia com menos frequência ainda, talvez receando algo, não partilharem o uso de drogas com eles, mas não havia atritos. O Fábio era o mais desconfiado, pois ele é quem trazia as drogas. Nesse momento é que surge a Maria Loura, também conhecida como “Alôra”, que fazia serviços de manicure pra Rose. Recomendada para servir Rose no quesito estética feminina, logo percebeu o que rolava e sempre que podia estava viajando com a “esquadrilha da fumaça”. Como não tinha dinheiro para contribuir nos comes e bebes e etc., ela mantinha a casa limpa, fazia comida e lavava as roupas da Rose e do André por um preço módico.

Às vezes iam ao Mercado Municipal comprar comida e bebida. O Fábio era quem sumia por um dia ou dois em busca de drogas nos bairros periféricos da cidade. Vando disse a Fernando que ele sempre andava armado.

A amizade entre André e Fábio se estreitava cada vez mais, sobretudo porque o André havia comentado com a gente que já estava acertada uma demissão amigável na empresa em que trabalhava e iria receber uma boa soma em dinheiro. Fábio viu a oportunidade e se aproximou mais ainda de André, alimentando suas paranoias e mudando a ideia de André em relação a viagem com o Pedrinho pela América do Sul, que, percebendo o clima pesado que surgia, decidiu ir embora e nunca mais foi visto. André não gostou da sensação de ser abandonado pelo amigo sem maiores explicações e, sem mais nem menos, ele e Fábio brigaram feio.

Rose não estava gostando das atitudes de ”Alôra” que, cada vez mais se embrenhava no uso de drogas e deixava os afazeres de casa em segundo plano. Nesse meio tempo Rose recebeu uma boa proposta para trabalhar em outra cidade. Deixou seus pertences aos cuidados de André e “Alôra” que, vez por outra pernoitava na casa, e foi em busca de algo melhor que a realidade.

O tempo passa e os projetos se tornam vagas e tristes lembranças do que um dia foi o motivo da luta pela vida, pela alegria e pelo futuro dos seus. Ao perceber a impossibilidade do intento, André se entrega ao ócio, a apatia e por fim à busca por um alento paliativo da dor física e moral através de algum inebriante refúgio, que certamente tornará seus tristes dias mais longos e seu inexpressivo caminho vazio e breve.

A ausência de Rose fez com que Fábio acelerasse a execução de seu plano de utilizar o dinheiro de André com drogas, roupas, mulheres e, é claro, uma boa parte da quantia para seu próprio bolso. Num acordo com “Alôra”, Fábio e André vendem os objetos que Rose havia deixado: geladeira, fogão, mesa e cadeiras, roupas, livros e etc.

Após esse feito e com a adrenalina a mil, muitos planos e consequências foram levantados. Maria Loura, ficando cada vez mais assustada com as ideias loucas que surgiam, também caiu fora levando alguns objetos da antiga inquilina e, é claro, drogas e algum dinheiro. André, já desfigurado física e mentalmente, resolveu por fim em toda a história e decidiu que o melhor seria dar cabo da própria vida. Como seus fortes conceitos cristãos o impedia de executar tal ato, propôs a ideia a Fábio dizendo que não tinha coragem pra isso. Fábio levou na brincadeira achando-a tão louca que não deu muita importância no momento, mas quando André disse que se ele cumprisse o combinado ficaria com todo o dinheiro, Fabio falou que seria melhor que fossem para uma cidade menor onde não eram conhecidos, e o destino escolhido foi Palmeirante, a pouco mais de cem quilômetros dali. Contudo, pensando que André estava “doidão” por causa das drogas,  Fábio achava que haviam ficado amigos e confessa que foi ele quem ameaçou o Pedrinho e o pois pra correr, e que ele só iria atrapalhar o negócio deles. Alguns dias depois, sem mais nem menos, Fábio o engana e foge levando algumas roupas, dinheiro e drogas.

O descontrole leva à perversão, a perversão leva ao excesso…

…mas somos da mesma matéria da qual são feitos os sonhos, e nossa curta vida está envolta pelo sono.

Triste pela solidão e furioso pela traição, André perambula pelos sujos bares periféricos levantando informações sobre como contatar um pistoleiro, e descobriu que a maioria deles vinha do Pará, e que em região de garimpo era fácil encontrar gente desse tipo.

Seguindo uma dica, partiu para Jacundá onde foi ao conhecido bar e restaurante “Adeus Mamãe”, nome tirado das enormes escadas de Serra Pelada de onde muitos exauridos garimpeiros caiam encontrando morte certa. O local era um barracão de madeira de lei e chão batido onde os “clientes” se sentavam às mesas em bancos, que cabiam umas cinco pessoas, feitos de grossas tábuas de Mogno ou Angelim. Sentou-se em um deles e pediu uma cerveja. Um homem veio em sua direção com um pano encardido no ombro dizendo que primeiro o dinheiro, depois a cerveja. André pagou e o homem veio com uma Cerpa não muito fria e ele perguntou se tinha Brahma. O homem já meio zangado disse que só tinha aquela, e o jeito foi encarar.

Quando terminou já se sentia tonto, pois o teor alcoólico da cerveja era bem maior que o das outras. Já meio que familiarizado com o dono do bar, o chamou e disse a que veio. Adelson o encarou e sorriu meio que com desprezo, sabia que não era das redondezas devido ao jeito de falar e se vestir, e chamou um dos homens que bebiam por ali. Cochichou em seu ouvido e o apresentou como “mineirinho”, porém seu nome era Jeovânio e nunca pôs os pés em Minas Gerais. Após explicar detalhadamente o que queria fazer, o homem com os olhos arregalados, se afastou um pouco e, incrédulo no que acabara de ouvir, o observou cuidadosamente de cima a baixo, se levantou e foi ao balcão. Pediu uma cachaça maranhense, um copo cheio que bebeu aos goles, chamou o dono do bar e conversaram baixo por alguns minutos, estavam desconfiados de que se tratava de alguma armadilha ou golpe. Não acreditavam na “sugesta” absurda do rapaz, nunca ouviram falar daquilo. Adelson foi até André enquanto Jeovânio saía devagar olhando o rapaz de rabo de olho até a porta, depois sumiu. Adelson disse a ele que era melhor ele ir embora, que o assunto que o trouxe ali o faria perder bons fregueses e poria ele e sua família em risco. André saiu de cabeça baixa andando sem direção por alguns minutos quando, levantando os olhos, viu outro bar e se dirigiu com determinação ao mesmo. Chegou a passos largos até o balcão, mas foi como se tivesse alguma doença contagiosa, todos saíram do local, o dono saiu pelos fundos vociferando alguma coisa, ficando apenas um sentado de costas que logo levantou a cabeça e, olhando em volta, encarou zangado o rapaz… Era o “mineirinho”! Levantou-se resmungando alguma coisa, jogou algum dinheiro na mesa e saiu. Na porta do bar ele olhou de lado para André e disse que já estavam calejados com os desmandes dos políticos da região, herdeiros da pior fase do regime militar, e para que o Governo, a Polícia Federal, os grileiros de terras ou seja lá quem for, os deixasse em paz, não queriam problemas.  O jeito foi voltar à Araguaína frustrado e encabulado com tudo aquilo que, devido ao álcool e drogas, ficou sem entender muito bem o que aconteceu.

Alguns dias depois, voltando pra casa em mais uma das noites perdidas, de cabaça baixa, mãos enfiadas nos bolsos, as pernas duras como bambu, ele fica no meio da rua sentindo a saliva grossa e amarga quando percebe uma silhueta no escuro. Será possível que nesse momento, próximo à sua casa, alguém esteja á espreita, observando-o? Do corpo do observador ele não tem certeza. Até mesmo a mancha de sombra mais clara que ele pensa ser o rosto talvez não passe de um reflexo na parede. Mas quanto mais ele olha mais intensamente parece haver um rosto olhando para ele. Sua imaginação está cheia de homens com olhos reluzentes parados ao pé de um sujo balcão, que o observam dos pés a cabeça entes de cuspir no chão. Entretanto, quando ele passa por um trecho da rua sem iluminação, a sensação de outra presença se torna tão forte que um calafrio percorre suas costas. Ele para, prende a respiração, escuta. Então acende um isqueiro. Num canto, há um homem agachado, piscando diante da luz que, embora tenha um cobertor cobrindo até a boca e um boné na cabeça, ele reconhece: Era Fábio. André pergunta com voz tremula o que ele quer, dizendo ainda para deixa-lo em paz. Fábio sacode a cabeça com firmeza. Tira o cobertor e o boné e diz que ele não pode lhe dar ordens. “Há um cheiro de peixe podre no ar.”  Pensou André. O isqueiro se apaga. Ele começa a se dirigir ao portão de casa quando a dúvida retorna. “Que chateação !” Pensa ele. “Sempre espere o inesperado!” Não tenho que tratar bem cada filho da puta que conheço. Devo mesmo abraçar cada um para ter certeza de que será aquele que vai me ajudar? Apostar em todos os números. Será um jogo? Sem os riscos de se submeter a um julgamento, creio eu, porque Deus sabe disso e terá piedade do jogador dedicado. Venha, disse André olhando para a escuridão. Ele acende novamente o isqueiro para que o outro pegue suas coisas e saia da sombra. Cambaleando como ébrios eles entram. André liga a luz e olha em seus olhos procurando a jovialidade de antes, mas não encontra. Há algo de cansado e velho também em sua postura, mas ele disfarça. Fábio pergunta a ele como alguém com seu passado se transforma em algo rastejante a ponto de vir até sua casa lhe pedir desculpas, ou seja lá o que for. Disse que estava com o mau cheiro dos mendigos impregnando suas roupas, pois, era incapaz de se submeter à rotina de um trabalho honesto. Que veio até ele porque não sabia ser outra coisa a não ser o que sempre foi: um criminoso. Enquanto Fábio tagarelava o pensamento de André estava em outro ponto. Não iria repetir a estupidez de confiar nele outra vez apenas pra se livrar da  velha ansiedade por alguns dias. Não tinha vergonha de pensar no inevitável. Lágrimas rolam de seu rosto e ele pensa: Deus me ouviu! Ele interrompe Fábio com firmeza e diz que conversarão mais tarde. Fábio pergunta se ele vai ajuda-lo e André, malicioso, diz a ele que não precisa ter medo de ser o que é. Assim como não precisa se envergonhar de ter feito o que fez. Esses impulsos providenciais parecem nos rebaixar, mas na verdade nos exaltam. Não se preocupe, Ele os vê e registra cada um, Ele enxerga através de nossos corações. Por isso repito, não tenha medo de ser você e me ajude, faça o que sabe fazer sem remorso, sem culpa, sem dor. Liberte esse pobre corpo dessa triste vida. Com grande esforço Fábio levanta a cabeça e encara André com a boca seca e amarga. Se aproxima de André e pensa em abraça-lo. André, frio e impassível, desvia o olhar e vira pro lado. Fábio, numa reviravolta de sentimentos, franze a testa e pensa: então são só negócios. Pega um colchonete atrás da porta e se deita de frente para a parede. Não dorme. Pensa em sua mãe, em sua vida até ali, pensa até em Deus e se realmente ele está lá em cima vendo tudo aquilo. Pensa nos poucos amigos e naquilo que terá que fazer, respira fundo, relaxa e finalmente dorme.

Aos poucos André retoma as amizades, boas e ruins. Nesse meio tempo conhece Márcio, irmão de Fábio, e se tornam amigos. Fábio, talvez com um grande peso na consciência, viaja pra casa da mãe prometendo a André que não demoraria. Márcio tem esposa mas o casamento com Naiane não ia muito bem. Ela estava grávida e Márcio se afundava cada vez mais em noitadas intermináveis na casa do André. Sempre que discutiam ela dizia que ele estava se viciando, e ele ficando cada vez mais descontrolado e zangado com as acusações de falta de atenção a ela e ao compromisso de chefe de família. A gota d’água aconteceu quando cortaram a energia da casa por falta de pagamento numa manhã de quinta-feira. Eles discutiram feio e Naiane disse que se ele não tomasse vergonha e resolvesse a situação ela iria embora no fim da semana. Márcio saiu zangado, ofendido pelas palavras duras da esposa, disse a ela que resolveria o caso de uma maneira ou de outra. Mas em vez buscar uma solução, foi pra casa do André, onde se drogou até a manhã de domingo quando resolveu ir embora. Chegando em casa num estado deplorável, Naiane o recebeu furiosa. Depois de muito bate boca ela disse que iria embora e começou a fazer as malas. Márcio perde o controle e põe fogo no colchão, a tranca no quarto e sai de casa correndo sem rumo. Naiane grita e é socorrida por vizinhos que chamam a polícia. Márcio foi preso e internado em uma clínica para recuperação de viciados em drogas em Goiás, onde descobriu que era soropositivo e morreu depois de pouco mais de um ano. Naiane volta à casa dos pais no Maranhão.

Alguns dias depois Fábio aparece na casa de André querendo conversar sobre o irmão. André o recebe bem e põe as diferenças de lado, talvez por causa do ocorrido com Márcio. Os dias passam e André, cada vez mais nervoso, conversa seriamente com Fábio sobre a proposta de ir à Palmeirante realizar seu plano macabro e, para surpresa de André, Fábio aceita de imediato. Dois dias depois, chegam à cidade e alugam um quarto num hotel distante do centro. O quarto era estreito e comprido, não tinha vizinho em nenhum dos lados, o cômodo beirava a um matagal conhecido como “juquira”.

Após alguns dias de farra, Marcela e Nanda já estão íntimas no que diz respeito às conversas entre André e Fábio. Na verdade elas sabiam de quase toda a história, uma parte mais ou menos contada pelos dois e outra “pescada” nas conversas, e discussões, entre eles. Marcela, que dormia com Fábio, queria é se divertir ao máximo e guardar algum. Nanda era romântica e pensou logo que iria se dar muito bem com o “sentimental” André.

Uma noite André acorda e pensa estar sozinho no quarto quando, na penumbra, vê as duas dormindo no colchão de Fábio, que havia saído. Ele observa que Marcela está no lado oposto da cama, de costas para ele, com os braços lindamente erguidos sobre a cabeça, como uma bailarina. Os cabelos lisos e compridos não cobriam as belas nádegas da morena. Do outro lado, em posição fetal, estava Nanda com um dos braços por cima da amiga, como se a protegesse, sua respiração era profunda e suave. Ele se levanta para ver mais de perto, está bêbado e nu. Acende um baseado com o intuito de turbinar os pensamentos obscenos, mas o corpo pesa, a cabeça cai e tudo o mais. Quando ele torna a acordar é dia. O quarto está vazio, e passa um dia nervoso pensando nas garotas. No fim da tarde Fábio retorna com as garotas e traz comida e bebida. André pergunta onde ele esteve e ele diz que foi dar uma respirada, e veio chamar todos para almoçar, tentou acordá-lo, mas não conseguiu. André ficou zangado e desconfiado de tudo aquilo, contudo resolveu comer e ir falar bobagens com as moças, que ficaram fazendo graça pra ele com a ideia de acalmá-lo. Ele se entristece e diz que desde sempre a vida parece um fardo, e mesmo sua condição humana e formação religiosa não é suficiente para controlar sua condição animal. Elas riem daquilo tudo mesmo sabendo que eles percebem que elas não entendem bem o que André está dizendo. Ele sorri e diz que a situação toda é uma fatalidade e que o poder que rege o universo utiliza os homens para o bem e para o mal, desde que cumpram seus desígnios. Quanto mais ele pensa mais a dúvida aumenta, contudo sabe que não deve aceitar seu destino sem lutar mesmo que já saiba de seu desfecho. Fábio se levanta e pega uma cerveja na caixa de isopor. Nanda entende sua atitude e pega os copos servindo a todos. André bebe o primeiro copo em poucos goles e recomeça a divagar. Diz que seu espírito vacila diante de tantas dúvidas sem chegar a uma decisão diferente daquela que havia sido tomada no início da viajem. Marcela cochicha no ouvido de Fábio, depois diz em voz alta, se dirigindo a Nanda, que acha o André inteligente e o respeita, mas que deveriam conversar sobre outras coisas, como o show de forró que vai acontecer no fim de semana. Se comprarem os ingressos até quinta feira sai pela metade do preço. Fábio cai na rizada dizendo que o André não sabe dançar. Nanda diz que pode ensiná-lo, mas André, irritado, se levanta e abre mais uma garrafa.

Já passava da meia-noite quando André levantou os olhos e, mais uma vez, estava só. Meio sonolento, sua cabeça dói. O pesadelo volta a atormentá-lo. Toda aquela conversa retumbava em seu cérebro. Quanto mais pensava naquilo, mais crescia a certeza de que aquele desejo não pertencia a uma pessoa normal. O ferimento na alma só crescia com o silêncio das trevas que fazia lá fora. Se existia alguma coisa que ele desejasse com maior ardor, mais secretamente, no fundo de si mesmo, era reduzir a ruínas esse mundo cheio de sofrimento e injustiça. Contudo, com o poder que tinha em suas mãos, o único mundo que poderia por fim era o seu.

Por mais que pensasse, examinasse sob todos os ângulos, a decisão que havia tomado iria se concretizar. Nesse momento chega Fábio, sozinho. Senta no colchão e pergunta se está tudo bem. André não diz nada, e ele comenta que pediu a Nanda que comprasse os ingressos e deu mais algum pra ela comprar roupa e calçado. André discute e grita com Fábio, diz que está farto de tudo isso e não aguenta mais ver todo mundo de divertindo as suas custas sem que se esforçassem o mínimo para que o compreendessem. Após jogar na cara de Fábio que estava cansado de bancar todas as despesas com prostitutas e drogas, André resolveu cobrar o combinado, ou seja, no fim da farra, que Fábio desse fim à sua vida ficando com o dinheiro, drogas e armas como pagamento pelo serviço. Fábio tentou argumentar, mas André foi incisivo. Após idas e vindas Fábio o convenceu de que deveriam cavar uma sepultura no matagal próximo ao quarto, talvez para que não houvesse prova do assassínio ou para que Fábio ganhasse tempo usufruindo das benesses do outro.

No dia seguinte foram ao comércio local e adquiriram enxada, picareta, machado, facão, pá, cordas, roupas de cama, comida e bebida.

Após a vala feita, André confirmou o acerto com Fábio, que cumpriria o combinado enterrando-o ali mesmo após mais alguns dias de orgia.

Marcela chegou a comentar, com um policial seu conhecido que fazia ronda na rodoviária da cidade, sobre a arma e as drogas que vira no quarto dos rapazes, mas a informante não inspirava muita confiança e ficou por isso mesmo.

À noite, André resolveu que os dias de farra já haviam passado e decidiu que era hora de cumprir o combinado. Comunicou a Fabio, que fingiu levar na brincadeira, mas André insistiu que ele mantivesse sua palavra. Fabio tentou argumentar para que ele mudasse de ideia, pois eles estavam por cima e que aquilo não era hora de perder a cabeça. Disse ainda que ficasse calmo, pois ainda tinham “muito o que curtir”. André ficou possesso e esbravejou com Fábio, que já não tinha mais como demover André da ideia de morte, disse a ele que aquilo tudo era bobagem, uma fantasia que só existia na cabeça dele e que os dois deveriam ir embora enquanto havia recursos. Ele faz uma pausa nos argumentos. Sua cabeça gira, subitamente está exausto e desmorona no colchão.  Por traz dos olhos fechados ele tem uma visão de André andando em sua direção. André pensa em dizer algo, mas seu raciocínio só tem um objetivo. Finalmente todos esses anos de agonia vão terminar, finalmente ele tem outras mãos que façam o serviço. Está a ponto de sorrir para Fábio, um sorriso de alegria, mas também de alívio. Fábio se liberta da letargia. Sua próxima frase já esta pronta, atormentando seu juízo. “Tenho um dever para com ele e não posso falhar!”

Fábio sacode a cabeça, tenta se concentrar na realidade. As palavras parecem não ter lógica. Fica parado diante de André como alguém que deu “branco”. O silêncio fica mais denso no quarto. Um peso ou uma paz, ele pensa. Sente que alguma coisa vai acontecer naquele momento e ele não pode fazer nada para impedir. André fica irado e começam a discutir sério. Os dois estavam de lados opostos do cômodo, um em cada colchão. O revólver calibre trinta e oito estava no colchão de Fábio que, percebendo que não conseguiria fazer André mudar de ideia disse que ele não faria aquilo, que era loucura e iria embora naquele momento. André não responde. É como se uma neblina se instalasse em seu cérebro. Segundos depois, num momento de lucidez, diz que não sabe como explicar, que se sente triste e ansioso com aquela situação, e que sabia que o que lhe interessava, interessava a ele também. Que o jogo que estão jogando só existe uma forma de terminar. Foi então que André se levantou descontrolado, dizendo a Fábio que se não cumprisse o combinado ele o mataria ali mesmo. André pega um machado e avança em direção a Fábio que, se vendo sem saída, pega o revólver e atira várias vezes em André, que cai a seus pés já sem vida. Passa alguns instantes e a realidade de seu ato explode em sua cabeça. O apavorante silêncio faz seu corpo tremer, e só então consegue ouvir sua respiração. Se levanta e rapidamente guarda numa mochila a arma enrolada na sua toalha de banho. Põe também as droga e todo o dinheiro que André havia retirado do banco. Receoso de que o barulho dos tiros pudesse chamar a atenção de alguém, saiu o mais rápido que pôde. Olhou uma última vez para André caído de bruços numa poça de sangue e balançou a cabeça fechando os olhos às lágrimas, como se não concordasse com o que houve. Após sair em disparada e sem rumo, percebeu que não tinha uma rota de fuga. Pelo mato era impossível, não conhecia a região.

Correu, então, por desespero ou ingenuidade mesmo, para o único lugar onde poderia conseguir uma condução para sair dali: a rodoviária.

Chegando lá, comprou uma passagem de destino ignorado e, fingindo tranquilidade, aguardou o ônibus. Não demorou muito e a mulher de quem ele havia alugado o quarto chegou acompanhada da polícia e foi logo apontando o dedo em sua direção. Fábio foi algemado e levado de volta ao local do crime onde contou toda a história. Os policiais ficaram perplexos com a descrição dos eventos que culminaram na morte de André. Contudo a desinformada imprensa local tratou o caso como mais um crime corriqueiro sem grandes atrativos. Fábio foi julgado e internado numa instituição para recuperação de viciados em drogas. No auge de uma crise de abstinência chegou a injetar na veia água da caixa de gordura (esgoto doméstico). Morreu em uma briga com um dos internos no mesmo ano.

 

Orestes Branquinho Filho

Publicado por Orestes Branquinho Filho em: Agenda | Tags:
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Duplicidade Vital

“Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz.” – Platão.

Vida. É uma palavra muito vaga não? Afinal todos a tem, mas nunca paramos para pensar o que é ela. Parece uma coisa muito obvia, mas se você perguntar a definição desta palavra a maioria das pessoas, não saberá lhe responder. De acordo com a web, vida é: propriedade que caracteriza os organismos cuja existência evolui do nascimento até a morte; tempo desde o nascimento até a morte; grande período de tempo. Tempo, tempo e mais tempo. Temos então por definição que vida é o período de tempo que procede do nascimento à morte.

22 de Abril de 1990

Caro amigo, creio que deve estar se perguntando por que estou aqui escrevendo para você, apesar de saber que não lerá estas cartas. A resposta, é simples. O ser humano precisa inevitavelmente de uma capsula de escape. Somos incapazes de acumular e controlar nossas emoções. Precisamos de algum modo, pô-las para fora. Necessitamos desabafar e descarregar. E meu modo de fazer isto, minha capsula de escape, é a escrita. São estas cartas que escrevo à você, então lhe peço, que apesar de não lê-las, as guarde com confidência.

Ribeirão Preto, Brasil. Foi para lá que eu me mudará após a morte de minha mulher. Havia sido encontrada morta no chão da cozinha, esfaqueada. Foi dado como suicídio. Lastimável, de fato. Consternado e desamparado, um ambiente novo, poderia mudar-me o foco, proporcionar-me novas experiências.

Eu era jornalista e rapidamente conseguira um emprego no jornal local. A cidade era pequena e desabitada. Suas ruas de lajotas hexágonas cobertas de lama, devido as eventuais chuvas noturnas que se misturavam a terra do chão. A cidade possuía um pequeno bar, que pelo jeito era o ponto de encontro da população da cidadezinha, e onde eu havia ido azular-me da vida nas ultimas noites.

Meu trabalho era inteligível, teria de entregar todas as manhas um texto datilografado, para coluna diária. Escreveria em casa, em uma máquina decrépita e obsoleta porém respeitosa. Havia anos que trabalhava com ela, minha falecida esposa havia me dado de presente em nosso segundo ano de casados. Mulher cativante e sedutora. Minhas lembranças de sua personalidade eram tão felizes. Seu suicido era uma incógnita.

Após minhas noites de bebum, eu voltava para casa inconsciente e capotava num sono que me parecia profundo, mas na verdade era muito mais superficial do que se podia imaginar.

Uma batida nada sutil em minha porta me acordou. Quem poderia ser a esta hora da madrugada? Pus um roupão sob meu corpo, e um pouco desconfiado dirigira-me para porta. Girei a maçaneta, um pouco hesitante. Era a polícia federal.

– João Alberto Montenegro?

– Sim? – Respondi com uma ponta de medo.

Quando sentimos medo podemos entrar em três estados como resposta a esta sensação opressora. Alguns de nós tentam fugir, as vezes até antes de experimentar a situação de que tememos, e por que isto? Por causa da nossa imaginação, que cria as mais terríveis historias em nossa mente. Outras pessoas respondem com reações agressivas, tentam incansavelmente lutar contra este medo.  E finalmente, outros apenas entram em choque, ficam paralisados. Por mais que esta reação possa parecer bem estranha na verdade ela não é. Vemos isto quando observamos o comportamento de certos animais que defronte algumas situações de medo, onde prevem sua possível morte, ficam imóveis, se fingem de morto.

– O senhor está preso pelo assassinato de Bruna Montenegro .

Bruna Montenegro, Montenegro, Montenegro…

Era a única coisa que passava pela minha cabeça. Estava correto? Aquele policial acabara de me dar um mandato de prisão pelo assassinato de minha esposa? Não, não! Não podia estar correto.

Fria, suja e temerosa, era a prisão em que me encontrava. Em suas paredes, encontravam-se marcas de unhas de pobres almas que enlouqueceram até chegarem ao seu último suspiro. Enquanto com muito pavor, observava aquelas marcas, comecei a sentir um desconforto nos pés. Que estranho! Pareciam estar molhados e a barra de minha calça, antes tão leve, agora pesava desconfortavelmente.

Em uma reação involuntária, virei a cabeça para baixo. Fiquei horrorizado. Sob meus pés havia uma poça de sangue vermelho escarlate, de origem desconhecida.

Me afastei uns dois passos e perdendo o equilíbrio, cai no chão. Continuei a encarar a poça até um zumbido estremecedor me tirar o foco.

Parecia um besouro, porem sua carapaça ao invés de negra, era de um verde tão atraente e chamativo, que chegavam a encobrir seu enorme ferrão.

Aos poucos foi chegando cada vez mais perto de mim. Estava tão encantado por aquele animalzinho, que nem percebi sua intenção até ele me picar subitamente.

Meu pescoço começou a latejar e eu suava feito um porco antes do abate.

A poça de sangue começou a aumentar e se irradiar pelo local. Subiu as paredes desafiando a gravidade, até encobrir o teto por inteiro. Estava enlouquecendo? Só tive certeza disso quando perante meus olhos, vi minha esposa.

Ela estava pávida, espavorida e aterrorizada. Seus olhos esgazeados e sua pele cadavérica. Andava para trás apreensivamente e entre seu choro e gemidos soltava berros de horror. Eu não estava entendendo aquela situação. Que coisa tão horrenda poderia estar causando aquela reação em minha mulher?

Eu. Era eu mesmo que havia deixado minha mulher daquele jeito. Eu sabia que aquela cadela estava dormindo com outro. Nem pensar que eu ia deixar aquela vagabunda pérfida e seu amante me traírem daquele jeito. Primeiro, trucidei seu querido homem, e extorqui seu coração. Na mesma noite, voltei para casa aguando pelo sangue de meu eterno amor. Quis lhe dar como presente de 20 anos de casamento, 20 segundos da pior agonia.

Ela estava na cozinha quando eu cheguei em casa.

– Boa noite amor. Que cheiro gostoso. Carne assada Bom, eu tenho uma coisinha especial que eu gostaria que você cozinhasse para mim. – Disse retirando o coração do sem-vergonha de meu bolso. Então o arremessei pelo ar em sua direção. Ela o pegou horrorizada. – É de seu amado, prostituta! E agora é seu ensejo, mas… fique tranquila. Lhe garanto que ficaram juntos. Para todo o sempre.

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Incompreendida Monalisa

Faz cerca de uma hora que encaro consecutivamente ora a porta ora o velho cuco da sala. Não me canso, porém. A questão é que a esperança de que ele volte, passe sutilmente pela porta e diga alto com sua voz de veludo ao olhar para o relógio “São três horas, Monalisa” ainda inunda meu coração, que frágil e tenro, continua a alternar os olhares, cá e lá. O cômodo que me cerca faz parte do meu show de solidão: ainda que moldado por uma madeira viçosa, não sobreviveria a um estalo, uma faísca lenta e dolorosa que colocaria tudo a ranger e desabar. A poltrona que me acomoda já conheceu dezenas de juras de amor, todas com o fascínio de amantes recém-nascidos e sentimento antigo. Quanto ao cuco, mais do que um mero comandante do destino, costumava me trazer o rapaz citadino de chapéu e terno engajados, dono da voz de veludo que trespassava os tímpanos e mantinha-se em minha mente, a presença que cortava afagavelmente a alma, abraçando-me, tão logo inerte a mim.
Algo meu do íntimo ou talvez da intuição suspeita da eterna solitude. Veja, um amor solitário, sem cais para aportar e rede para descansar é como uma falta grave: falta-te a ti mesmo. Aqui, falta-me algo; não propriamente o amor, pois este tenho de sobra, mas falta a quem amar. O moço que pela porta entrou e que pela mesma foi embora para a guerra, aos prantos e queixumes, nunca mais retornará fisicamente. A mãe que perdeu o filho, a noiva que ficou por casar. Eu, que fiquei por conjugar toda uma sacra união, não me imagino sendo a mesma com outro homem que não meu finado guerrilheiro, desposando-me aos pesares com um forasteiro qualquer. Desamparada e com a fúnebre notícia, cuido que só me recordo do passado para sofrer menos no futuro, ainda que os grilhões da melancolia cerceiem minhas ideias, bem como para não esquecer da vida que semeava antes da hostilidade que destronou o mundo da concórdia.
“São três horas, Monalisa”. Seria nossa hora da poesia, lida calma e sussurradamente sob a figueira do quintal. Quem dera forças para alcançar tão larga sombra depois de sua partida! Mas qual seria a graça se, olhando para os lados, apesar da presença da frondosa árvore que sempre estivera conosco, eu não me encontrasse? Estaria eu sujeita a desacreditar no fiel amigo se não o visse? Qual poesia fingida essa que trouxe-me o amor e que agora o rebento em lástima. A suspeita se confirma. Meu sentimento passa de lírico para sólido, fechando-me na teia para onde, descaradamente, caminham todos os relacionamentos: a teia dos amores estranhos: antes estranhos, então amantes e aprisionados pela volta da estranheza. Mais bizarro do que um amor neoplatônico entre dois seres viventes é o que transpõe planos, onde diferentemente de “Ghost”, não se sabe se o outro ainda quer seu bem-querer ou se está tão enebriado com o lado de lá que se esquece do lado de cá. Tic tac, cá e lá.
Se me perguntas, não o deixei de amar. Não! Sinto-me apenas incompreendida por algo que desconhecia e que agora pesa tão rudemente. Não perdi familiares nem amigos, assim, não sabia o quão desgostoso um fim pode ser. Mais difícil não é esquecer e sim recomeçar; não quero recomeços, mas a luz do passado. A falta é o canhão que me atinge a alcova. Penso em me levantar, são quase três horas e, no fundo, eu não quero estar ali, mais um dia, para a cruel verdade debater sobre quem ainda vive. Todavia, detenho-me. Ao fundo da sala lenhosa, avisto uma pureza, uma candura que eu bem conhecia. Dou meu sorriso torto, o mais natural, assim como fiz no primeiro dia, no primeiro encontro. “É o sorriso mais bonito e misterioso o seu, Monalisa”. Agora, não encaro mais nada, não há necessidade nem desconforto. Olho para dentro de mim e lá está ele a me esperar, a mesma voz aveludada, sem pressa a me olhar como quem encara o livro favorito ou ouve a música de uma geração. É ele! É ele! Coração estimado não se engana! Em meio ao prelúdio de emoções, agarrei-me ao momento e a meu retrato iluminado. O cuco anunciou três horas.

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Por que eu mereço esse emprego ?

         Existem três tipos de pessoas , as que querem fazer a diferença, as que tentam fazer a diferença e as que realmente a fazem. Se me encaixo em uma dessa?

         Com certeza! Sou das que fazem a diferença.

           Hoje podemos saber estatisticamente como será uma entrevista de emprego . A maioria das pessoas não estão qualificadas para os trabalhos de melhores salários.  Porém, estes mesmos continuam a querer os mesmos direitos, os melhores salários igualando-se aqueles que são mas qualificados.

           Não sou eu, que dirá que devem me escolher, pois provarei minha capacidade. Minha meta é evoluir cada vez mais. Conheço os meus valores, e quando entro em uma competição é para ganhar. Eu tenho um objectivo espero alcança-lo na sua empresa.

           Concluindo, espero que me escolham pois pretendo dar todo meu potencial pela empresa  para que ela cresça cada vez mais.

sem mas, agradeço a oportunidade.

Bom galera foi assim que eu consegui ganhar dos meus concorrentes para uma vaga de emprego, espero que possa ajudar a vocês também.

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A casa dos espellhos – Parte 2

https://www.flickr.com/photos/jasonphotos/4948122243/

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Escritor: Sombra Posthuman

 

Acordei de manhã com a mão de Xaninha no meu peito, ela ainda estava dormindo. Ao tirá-la, percebi que meus pelos haviam sumido, mas minha pele continuava azul. Levantei e fui até a cozinha, onde Helena estava preparando o café. Dei bom dia e ela respondeu, depois perguntou:

– Dormiu bem?

– Sim. Posso ajudar com o café?

– Sim, claro!

– Meu pelo sumiu,

– É, as pessoas mudam.

– Não acha isso estranho?

– Não.

“Este mundo é mesmo uma loucura.” – pensei.

– Está grávida de quantos meses?

– Quatro meses.

– É o seu terceiro, não é?

– Sim, depois vou ligar as trompas, é assim que fazemos aqui no norte, depois do terceiro, ligamos as trompas.

– Isso não seria necessário se não fizessem tanto sexo.

– E o que há de melhor pra fazer do que sexo?

– Há milhares de coisas.

– Como o que?

– Ahm… Cantar.

– Ha… Tá certo, tem muitas coisas boas além de sexo, mas sexo é vida, meu amor, é a mágica da natureza. É a comunhão entre as almas… Bom, a medicina avançou tanto que hoje em dia quase todas as crianças vingam, então temos que encontrar nossa forma de controlar a natalidade, senão a sociedade entraria em colapso. Isso mostra que a ciência não serve só para desequilibrar a balança, também pode equilibrar as coisas.

– Onde está Oneiros?

– Está trabalhando.

– E o que ele faz?

– Ele é programador, mas vive mudando de emprego. Eu sou cirurgiã, mas estou de licença-maternidade.

Na hora do café, chegaram Dália e Xaninha, Xaninha estava nua. Conversei um pouco com Dália para desfazer a impressão ruim que teve de mim, no começo ela não quis responder, mas com a insistência de Helena, ela cedeu. Perguntei de que brinquedo ela mais gostava, ela respondeu que era a bola. Helena complementou:

– Ela adora brincar com a bola.

– Ela não tem bonecas?

– Sim, mas gosta mais da bola, não é, Dália?

Peguei minha bíblia e fui para a praça ensinar o cristianismo. Chegando lá, não sabia como reunir as pessoas, então, resolvi começar a ler a bíblia em voz alta, esperando que alguém se interessasse. Fiz isso a manhã inteira, mas apenas três pessoas ficaram curiosas e pararam um instante para ouvir, depois foram embora. Decidi fazer isso todas as manhãs, para que minha presença ali se tornasse algo comum na vida das pessoas. Voltei para casa e, pouco tempo depois, chegou Oneiros. Ele carregava uma galinha e disse:

– Aqui está o frango. – Empurrando-a na minha direção.

– Tira essa galinha daqui!

Ele a colocou no chão e sacou uma machadinha.

– Alguém vai ter que morrer! Tome, mate-a com um golpe só. – E me deu a arma. Fiquei meia hora olhando a galinha, depois procurei Oneiros e disse:

– Não consigo, mate-a você.

– Bem vinda ao clube.

– Você não conhece ninguém que possa matá-la pra nós?

– Ah, deixa a galinha pra lá, a gente come outra coisa!

E assim a galinha ganhou um lugar na casa, os dias foram passando e a galinha, se tornando parte da família. Dália adorou a idéia, brincava com ela e até lhe deu um nome: Branquinha.

Na quinta-feira já havia quatro pessoas interessadas na minha aula de cristianismo. Eles faziam perguntas bem difíceis…

“Se Deus é tão misericordioso, como ele pode mandar seus próprios filhos pro inferno? ”

“Como pessoas que vivem em circunstâncias tão diferentes podem ser julgadas da mesma forma? ”

“Como Deus pode ser tão vingativo? ”

“Se Deus criou todos nós, por que não somos como ele deseja que fôssemos? ”

“Nenhum de nós foi batizado, vamos todos para o inferno?”

“Não é injusto a mulher ter que servir ao homem? ”

“Se Deus é onipotente, onisciente e infalível, nada vai contra os seus planos, tudo ocorre exatamente como ele planejou desde o início. Então, qual é o propósito da sua existência?”

Não sei se eles conseguiram entender muito bem a minha mensagem, não sei se soube responder bem às perguntas, mas estou feliz por eles estarem interessados. Eles pediram muito, então acabei deixando que tirassem algumas cópias da bíblia.

Quando voltava pra casa, fiz um caminho diferente, visitei o local onde acordei depois do acidente. A cratera não estava mais lá. Como eu vim parar aqui? O que aconteceu com as outras pessoas que estavam no carro? Enquanto olhava ao redor, vi novamente aquele homem-coelho que estava aqui quando eu cheguei, ele me observava como se quisesse me dizer alguma coisa, mas quando o vi, saiu correndo. Eu gritei por ele, mas ele não parou, corri atrás dele por ruas estreitas, até que cheguei a uma casa extremamente familiar. “É muito estranho, tudo aqui é extra-terrestre para mim, mas desde que cheguei aqui, venho tendo esses dèjá-vus inexplicáveis.” Fui até a casa e bati, ninguém atendeu. Resolvi entrar. Examinando o interior da casa, vieram-me algumas lembranças de ter estado ali quando era jovem. Minhas lembranças me levaram até um quarto, onde eu sei que já dormi antes. Na parede havia um desenho de um coração e, dentro dele, estava escrito: Alice e Victor. Alice? Será que sou eu? Encontrei um bilhete em uma cômoda e o li.

“Eu te amo, quero estar sempre com você! Você foi a coisa mais maravilhosa que já me aconteceu.

Ass: Victor Moraes.”

O que isso significa? Nada disso faz sentido para mim! Foi quando vi em uma lixeira o símbolo de reciclagem e o fitei por alguns instantes, até que senti uma sensação terrível! Vi muito sangue, morte, terror… Foi tão horrível, que perdi os sentidos.

Acordei com o rapaz do lago na minha frente, aquele que tinha o rosto do jovem no carro que colidiu com o carro em que eu estava.

– Você está bem?

– Ah, sim, eu… desmaiei, mas… me desculpe ter entrado, a porta estava aberta.

– Está tudo bem, acalme-se. Eu não moro aqui, mas você pode ficar à vontade.

– Você não é o jovem que estava no carro que bateu no meu?

– Não, você está me confundindo, tem certeza de que está bem?

– Eu acho que sim… Já teve a sensação de que é um personagem no sonho de outra pessoa?

Ele permaneceu em silêncio, surpreso com a minha pergunta.

Fui pra casa e Helena precisava ir ao médico saber os resultados da amniocentese. Fui com ela. O médico disse:

– Lamento, mas tenho uma notícia ruim.

– Diga, doutor, eu posso suportar.

– Seu bebê teve problemas de formação, ele desenvolveu uma deficiência mental.

Fiquei muito triste, mas vendo a desolação da mãe, resolvi lhe dar uma palavra de esperança:

– Não tem problema, ele será amado da mesma forma. – Ambos me olharam surpresos e o doutor disse:

– O que quer dizer com isso?

– Que esta criança será criada com todo amor e dedicação que teria uma criança saudável. Ela é uma criança excepcional,

– Excepcional? – ele me interrompeu – Não, não, não, você não entendeu. Nada de excepcional, ela sofre retardo mental. O ser humano é o animal mais extraordinário de todos graças ao seu desenvolvimento cerebral, mas sem um cérebro operando corretamente, ele é o mais inútil de todos, torna-se incapaz de se virar sozinho, um estorvo para a sociedade e para si próprio, carrega o peso da invalidez e da impotência até os últimos dias de sua vida, e até certo ponto, sofre por ter consciência disso.

– Não acredito no que estou ouvindo! Você pretende matar esta criança inocente? – Helena interveio:

– Alice, se interrompermos sua formação agora, pouparemos todo seu sofrimento. – E o doutor acrescentou:

– Esta criatura ainda não pode ser considerada um ser humano, portanto, este é o momento certo para impedirmos todo o seu sofrimento. O nível de sofrimento que um ser vivo pode sentir é proporcional à sua capacidade intelectual, por isso, uma formiga não sente medo, saudades, angústia, por isso, somos capazes de matar insetos e outros animais pequenos. O que nos impede de matar um cão ou um gato é o fato de podermos sentir neles a presença de sentimentos. Esta criança tem um intelecto inferior ao de um cachorro.

– Eu vou criá-la. – Decidi. – Deixe-me criá-la, Helena. – O médico olhou para ela preocupado, esperando uma resposta. Ela pensou e respondeu:

– Não. Essa criança não deve nascer. Mas eu a amarei sim. E sempre me lembrarei dela. Vou construir uma bonita lápide em sua homenagem. – Disse ainda chorando.

– Vai sempre se lembrar dela? Vai construir uma lápide? Pensei que ela não passasse de uma mosca ou uma barata! Você acaba de reconhecê-la como um indivíduo e isso faz de vocês assassinos!

O doutor respondeu:

– Engana-se ao pensar que todas as solenidades e demonstração de respeito pelos mortos são favores que prestamos aos que partiram. Cada lápide, cada cerimônia, é um presente aos vivos, que foram deixados para trás com a dor de ter que seguir em frente. É um consolo, um monumento às memórias dos que ficaram e à angústia da falta de um companheiro. Eu perdi minha esposa, fiz uma bela lápide para me lembrar dela. A ela, isso nada vale, pouco importa se seu corpo foi enterrado, cremado ou comido, ela está livre de toda e qualquer preocupação material. – Afoguei-me em lágrimas de ódio, mas nada pude fazer, saí dali imediatamente sem rumo.

Fui para casa e fiquei observando a Branquinha, aquela criatura que não tem nada na cabeça, no entanto, ninguém tem coragem de matar. Toda a sociedade tem suas contradições! Ninguém tem o direito de decidir se um ser humano deve viver ou morrer, Deus quis que a criança nascesse daquela forma. Ninguém deve ir contra a vontade de Deus. Deu vontade de matar aquela galinha! Mas eu não matei.

Lembrei-me da casa que visitei, do que li, do que senti. Voltei a pensar no que estava fazendo ali. Aquele mendigo drogado,… falava coisas sem sentido, mas sabia que eu viria. Resolvi procurá-lo. No caminho, comecei a pensar: deve ter sido coincidência. O mendigo maluco dizia: um ET está chegando, e então, eu apareci. Talvez eu tenha ficado louca, bati com a cabeça no acidente, estou imaginando isso tudo. Oneiros respondeu:

– É bem provável!

Eu estava pensando alto? E de onde você surgiu?

– Está procurando por Tirésias?

– Sim.

– Ele morreu. Amanhã os alunos farão um banquete em sua homenagem.

– De que ele morreu?

– Cirrose.

– Meus pêsames. Seu filho, quer dizer, o filho de Helena também vai morrer. Ele é deficiente e o médico vai matá-lo por isso. Por favor, faça alguma coisa!

– Eu farei uma bonita lápide para ele. A morte é uma mulher promíscua, se oferece para todos, não importa a idade ou sexo. No final, todos acabam se entregando a ela.

– Todos falam em lápides! Se você realmente se importasse com ele, não o deixaria morrer!

– A natureza nos ensinou uma coisa, Alice, chama-se seleção natural, os fracos morrem para que os fortes continuem vivendo e sustentando a espécie, nós somos parte da natureza. Além disso, com o avanço da ciência e da tecnologia, nós atrapalhamos muito a nossa própria seleção natural. Exterminar os embriões defeituosos é o mínimo que podemos fazer pela nossa espécie.

– Deus nos ensinou que somente ele tem o poder sobre nossas vidas.

– Me dá sua mão.

Eu fiz o que ele pediu e ele colocou algo nela, depois a fechou.

– Ainda pode ter suas respostas com isso.

Abri a mão, era o cigarro que Tirésias me deu.

– Ele se foi, mas deixou este presente pra você.

Quando ele se virou, joguei o cigarro em um bueiro.

Foi um longo dia, depois do jantar, fui rezar para dormir. Agora estou dormindo no chão, não quero dormir com Xaninha. Ela e Dália escutam minha oração sem entender bem. Deito no chão, Xaninha diz:

– Alice, se não quer dormir comigo, durma na cama, eu fico no chão!

– Não se preocupe, eu estou bem no chão.

Fechei os olhos e senti novamente o cheiro de jasmim. “Definitivamente tem alguma jasmim aqui perto.”

Xaninha foi comigo. Falei sobre Jesus e ela perguntou se ele tinha um pinto grande. Contei a história de Adão e Eva. Um homem-macaco disse:

– Isso é mentira, todo mundo sabe que o homem veio do macaco!

– Deixa ela continuar a história!

Foi o que eu fiz, mas as mulheres não gostaram da parte em que Deus fez Eva da costela de Adão para apoiá-lo e servi-lo. Uma delas, sempre falante nas discussões políticas da cidade se levantou e foi embora. Falei do fruto proibido e comecei a pensar que talvez estivesse eu repetindo o erro de Eva e compartilhando com meus semelhantes o fruto do conhecimento e da vergonha, roubando sua inocência. Mas a vergonha é o primeiro passo para a redenção.

Foi particularmente difícil para eles entenderem a vergonha de estar nu, mas eles também não entenderam por que Deus expulsou Adão e Eva do paraíso. Comecei a contar a história de Cain e Abel e eles ficaram com pena de Cain. Um homem perguntou:

– Cain queimou os vegetais, então ele fez um grande incenso. E o Abel matou o cordeiro sem motivo algum! Por que Deus preferiu a oferenda de Abel? – Depois, quando disse que Cain matou o irmão, o homem-macaco falou:

– Claro! Deus prefere a vida de um animal à de um monte de planta, obviamente iria reconhecer o sacrifício de matar o próprio irmão!

Expliquei que ele tinha inveja de Abel.

A maioria das pessoas achava que eu falava um monte de absurdos. Oneiros aparecia alguns dias, mas nada dizia.

– Se todos descendemos de um casal, então viemos através de sucessivos incestos? Tive que explicar a eles que algumas partes da bíblia são simbólicas como parábolas, mas comecei a achar que talvez a Bíblia fosse um símbolo cultural do meu mundo que não poderia ser compreendido ali, que eu na verdade estava, como os portugueses, impondo minha cultura a índios, que por sua vez, possuem uma vasta cultura.

Fomos ao banquete, Helena e Dália também foram. Fazia tempo que eu não comia carne. Depois de um tempo comendo, Oneiros se levantou e, falou um pouco sobre seu amigo, coisas que não convém agora mencionar e, terminou o discurso dizendo:

– … no entanto, tendo Tirésias partido para o outro lado, ainda podemos todos dizer que ele deixou um pedaço de si em cada um de nós. Seu último desejo foi ser servido de banquete em seu próprio funeral, espero que o tenham apreciado em morte tanto quanto o apreciaram em vida.

Náusea… “não,… eu não vou engolir meu orgulho novamente”, levantei-me e gritei:

– Chega! Eu não aguento mais! Odeio este lugar, quero ir embora daqui!

Oneiros me puxou com força e meu terço arrebentou, soltando bolinhas para todos os lados, como que minha fé, desfazendo-se em pedaços no meio de um banquete selvagem com direito a canibalismo. “Sim, sou uma missionária em terra pagã, uma terra esquecida por Deus, mas eu não sei mais quem está convertendo quem aqui.”

– Sabe o que vai acontecer com seu corpo quando você morrer? Vai apodrecer e feder assim como essa sua roupa preta que você usa tanto! E ele será comido pelos vermes assim como os de todos nós seriam. Você será tão inútil morta quanto foi viva! Diferente do nosso amigo Tirésias, que, mesmo na morte, foi capaz de enxergar uma forma de ser útil à comunidade.

Saí sem rumo e passei aquela noite no banco de uma praça. Na manhã seguinte, Helena e Dália me encontraram. Comecei a chorar de novo.

– Eu tenho sido tão egoísta ultimamente! Acho que não é assim que Deus quer que eu aja.

– Acalme-se, Alice, você está sozinha em um mundo estranho, posso compreender como você se sente.

– Todos aqueles anos no convento me deixaram meio fora da realidade, mas agora eu vejo claramente: O cristianismo não é a única forma de agradar a Deus. A sociedade em que vocês vivem tem coisas que considero hediondas, mas também tem coisas admiráveis. Tenho que aceitar que este é um mundo diferente, eu não estou mais em casa.

Mais um dia de catequese e a tal mulher que havia ido embora no dia anterior voltou. Seu nome era Anne. Depois de ouvir tudo o que eu tinha para dizer, ela disse a todos:

– Meus caros colegas, não deixem que as palavras dessa forasteira entorpeça suas mentes pensantes, essa doutrina de martírio tem como objetivo criar cordeiros, não seres humanos. Ela é contra a vida, contra a felicidade, os prazeres, a saúde, vai contra o instinto de preservação da espécie, pregando a compaixão e celebrando a privação e o flagelo. Se deixarmos esses ensinamentos se enraizarem em nossa cultura, seremos escravizados por oportunistas.

Fui embora com a sensação de que não era bem vinda ali. Precisava sair de perto de todos, incluindo de Helena e Oneiros. Comecei a andar sem rumo novamente e cheguei a um cemitério. Como era minha vida antes de me tornar freira? Eu simplesmente não me lembrava. Por que não conseguia me lembrar? Caminhei entre sepulturas tentando desenterrar meu passado. Fiquei até anoitecer. Eis que me deparei com uma mulher pálida de cabelos negros e olhos negros. Ela parecia surpresa em me ver. Não, surpresa não, aterrorizada! Ela se desesperou e tropeçou andando de costas.

– Calma, o que aconteceu? Parece que viu um fantasma! – disse, enquanto me aproximava.

– Exatamente, é isso o que você é.

– Não, eu estou viva.

– Você morreu, Alice! Eu vi o seu corpo!

– Eu… eu… morri? – Sentei-me no chão.

– Vou pedir aos espíritos de luz que guiem a sua alma, Alice. – virou-se e partiu.

Fiquei lá por mais algumas horas, depois fui até o lago. Tirei minhas roupas fedidas e mergulhei nua. Lavei todo o meu corpo, lavei minha alma. Eu estava imunda. Eu morri naquele acidente de carro e acordei neste mundo estranho que não é o céu nem o inferno, será o purgatório? Ou o Hades…?

Saí do lago e caminhei nua pela rua até a casa de Oneiros. No caminho, vi aquela coruja me observando. Sem o calor do hábito, pude sentir o frescor da noite sobre minha pele úmida. Mas era tudo minha imaginação, na verdade não havia pele, não havia brisa, eu estava morta, não havia nada. Chegando lá, fui recebida por Xaninha, que me olhou de cima a baixo com um olhar pecaminoso.

– Pode me emprestar umas roupas suas?

– Claro!

Vesti as roupas de Xaninha e fui para o quarto. Dália saiu do quarto de Helena, Xaninha brigou:

– Dália, o que está fazendo acordada a esta hora?

– Alice sumiu.

– Estou aqui, Dália.

Ela já não chupava chupeta havia muito tempo.

Sentei no chão e uni as mãos em concha. Dália chegou do meu lado e fez o mesmo. Sorri e comecei a adorar a Deus orgulhosa. Xaninha só observava. Agradeci, pedi perdão, Xaninha juntou-se a nós:

– Perdão, Senhor, por ter esquecido de molhar as plantas.

E pedi a Deus que iluminasse o meu caminho. Xaninha pediu:

– Traga a Cizânia pra tocar aqui na cidade!

E Dália também:

-Eu quelu uma bola bem gandi… e um auau… e um carrinho.

Ao que Xaninha respondeu:

– Essa garota só sabe pedir!

– A suja falando da mal lavada. Pelo menos já é um começo. É bom lembrar de Deus mesmo que seja pra pedir alguma coisa.

Fomos dormir.

e ela me apoiou e ajudou a me recuperar. Tenho a sensação de que somos amigas há anos. Brinquei com Dália e a branquinha.

A noite fui rezar com Dália e Oneiros se aproximou.

– O que está fazendo?

– Adorando a Deus.

– O ser perfeito, onisciente, onipotente e onipresente…

– Exatamente.

– E qual é o sentido de fazer isso? Quer dizer, se ele é perfeito e detentor de infinita sabedoria, por que iria querer ser adorado? Por que iria se importar se acredita nele ou não?

– Porque ele é o único caminho para a iluminação.

– Isso não responde à minha pergunta. Eu entendo que você agradeça as bênçãos, que peça perdão pelos seus erros e que peça ajuda a esse ser superior, mas adorar a sua existência, pra mim é completamente sem sentido. Se “Deus” está em todos nós, nós não existimos sem ele e ele não existe sem nós, e nós existimos e sempre existiremos porque a inexistência simplesmente não existe.

– Talvez você tenha razão, Oneiros, mas se Deus ama a todos nós, eu gosto de mostrar um pouco de gratidão por existir.

– Ele ama? O amor é um sentimento humano, ou melhor, uma fraqueza, que nos leva a cometer erros, Deus não é humano, ele não comete erros e deveria desconhecer coisas como amor e compaixão. Se somos todos parte dele, como ele pode nos amar?

– Ele nos ama de forma diferente da forma em que nós nos amamos, porque ele conhece a essência de cada indivíduo…

Pus Dália para dormir e deitei na cama. Esta semana de catequização não foi muito produtiva. Cheguei à conclusão de que aqui neste lugar eu tenho muito mais a aprender do que a ensinar. E assim será a próxima semana, a semana de aprender, deixar todos os meus preconceitos de lado e me guiar pelo meu instinto.

 

 

 

 

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