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conto da noiteO Conto da Noite
Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

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Um anjo em minha vida, por que não o esqueço?

Não é marido, noivo, namorado ou ficante.
Não é mais um amigo.
Sim, amigo.
Sabe quando sentimos que conhecemos aquela pessoa, como se fosse desde pequenos juntos?
Um sentimento diferente, e único.
Que não se tem planos, que é natural em seu jeito de ser, agir e sentir.
Aqui se vai uma história, verdadeira em cada palavra, como se os sentimentos pulassem para fora de mim, e escrevessem por sí só.
Aqui se vai uma história de uma amizade, um sentimento, e uma demostração, para que se queres muito uma pessoa perto de ti, não a faça ir por bobagens que, por mais que para você não pareça um erro, quando perdê-la irá ver o quanto errou achando que a fazia bem, ou achando que você fazia a coisa certa, mesmo se sentindo mal depois de seus atos.
Tudo começou em 2013, com uma novela que eu acompanhava, com um ator que eu acho maravilhoso (usando o termo de hj em dia: um crush), e um garoto, que do nada, sem nenhuma intuição de ser, sem nenhuma esperança que levaria isso adiante, ou que ele iria permanecer em contato comigo, virou alguém tão especial pra mim.
Tinha acabado de ver a novela, e entrei no face, sabe aquele momento em que você não tem nada para fazer e, fica que nem uma idiota (ou um idiota) olhando a página dos outros sem nenhum rumo em sua vida?
Nesse momento, eu estava assim, olhando a página de uma menina de minha turma, sem nenhum rumo sabendo que isso não me levaria a nada, só pra passar o tempo mesmo.
Até que vi um menino, em seus amigos, que era como olhar pro seu crush da novela só que com uma página no face.
Fui ver a página do menino, e só porque ele era parecido com o meu crush, chamei ele pra conversar. Sem esperança que me respondesse, não fazendo planos alguns sobre aquele menino.
Então ele me respondeu.
Era inesperado, para ambos.
Mesmo sendo uma completa estranha, ele foi gentil, divertido. Ele foi alguém único.
Perguntava como eu achei ele, o porque de eu chamar, mas tudo ao natural, sem nenhuma malícia, sem nenhuma estranheza.
Fomos conversando, até a hora de dormir.
Achei que nunca mais falaria com ele, afinal, quem iria confiar em ter uma amizade com uma estranha?
Mas não, os dias se passaram, um foi chamando o outro para conversar, números foram trocados, uma amizade surgiu.
Nos falávamos quando pudéssemos de manhã, afinal ambos estudavam de manhã, mesmo em colégios diferentes, nossos horários de intervalos eram parecidos, então nesse horário nos falávamos.
De tarde, mais ainda e, de noite, também.
As vezes, perguntava se eu estava o atrapalhando em algo, se eu tivesse, eu voltaria depois.
Ele dizia que não, até que suas notas foram caindo.
Ele percebeu que, não estava focando nos estudos como antes, pois ficava conversando comigo.
Então ele se afastou. Sabe aquele momento em que você perde totalmente sua fome, perde totalmente o foco do que tava fazendo e sente um aperto no coração?
Era eu nesse momento.
Tentei entender, então escrevi para ele um texto, um texto que nunca pensei que escreveria para um garoto, um texto com um sentimento forte, como se eu o conhecia desde pequeno e ele já grande, estivesse partindo.
Ele não esperava por aquilo, quando leu, ele decidiu ficar.
Então, com o tempo, eu não valorizei.
Nunca tive uma amizade como aquela, principalmente com um garoto. Não sabia como lidar com o que surgiu dentro de mim, que foi o ciúmes, o egoísmo, o orgulho de admitir que tava errada e a insegurança de perder ele.
Não, eu não gostava dele como se fosse meu namorado, até hoje não sei explicar que sentimento é esse, que eu não consigo largar.
Continuando, a partir daqui, vocês irão ver como eu fiz merda por besteira (desculpe a palavra). O como criei caso por bobagem e, se não fosse por isso, teria grandes possibilidades de que em janeiro do ano que vem completariamos 3 anos de amizade.
(Mas continuando novamente), tudo começou quando ele foi a uma festa de uma amiga, em que eu senti ciúmes, talvez por insegurança de ele encontrar uma amizade melhor, ciumes por ela poder ter ele presente fisicamente, ou egoísmo por querer ele, naquele momento, falando comigo, ou os três juntos mesmo.
Aí briguei com ele, só por causa disso.
Brigava porque ele ia dormir, por tudo.
Cada vez mais ele ia se afastando, mesmo assim, ele me dava chance de mudar, me deu em 2013, 2014 e ate um certo mês em 2015, mas depois, desistiu.
Sei que não fui justa com ele, sei que uma amizade, nem nada que envolva mais de uma pessoa, deveria ser assim, seja amizade, namoro ou noivado, então deixei meu egoísmo de lado, e deixei ele em ir.
Eu pensava só em mim, pensava que eu queria ele por perto, mas não pensava se ele me queria por perto depois de tudo que fiz.
Mesmo depois de ele deixar nítido que não dava mais pra ele, mesmo depois de 3 anos, por que ainda me sinto assim?
Por que só com ele me sinto assim?
Por que sinto que ele é diferente de tudo e todos, msm sabendo que não é paixão.
É um sentimento diferente, que não deram nome ainda.
Não é vício, doença ou nada desse tipo.
Mas sinto como se tivesse crescido com ele, como se o conhecesse faz anos, e é só com ele que me sinto assim.
Sei que errei, mas também não é consciência pesada, é um sentimento, que ainda não se foi dado o nome.
Eu o quero perto de mim, mas se sua felicidade é estar longe de mim, eu aceitarei só para vê-lo sorrir, pois sei que o que fiz não tem perdão.
Me sinto mal por n te-lo por perto, mas sei que ele me deu chances, e muitas, para mudar e fazer diferente. Não fiz o certo, mas sei que to fazendo o certo respeitando o espaço dele.
Ele me fez gostar de uma música em especial, que ficou gravado em nossa amizade.
E eu sei, e dou certeza, que as pessoas que tem amizade com ele, tem um anjo ao seu lado.
E eu me sinto bem, pq quando vejo suas fotos, vejo que o estão fazendo bem, coisa que eu fiz por pouco tempo.
E eu espero, de verdade, que ele sorria sempre, sei que uma vida só com felicidade, sem nenhuma tristeza, é impossível, mas eu espero que a vida dele tenha mais sorrisos do que lágrimas.
Essa é a minha história, não faça dela, a sua.
Recomece, peça desculpas e mude.
Valorize, por que as vezes você tem um anjo contigo e, ainda não percebeu.
Essa é a minha história, e a sua?

Publicado por IRosies em: Agenda | Tags: , , ,
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Carne III – De Carne e Osso – Parte 2

Autor: Sombra Posthuman guar'a

Para ler antes:

Carne I – Esqueletos no Armário

Carne II – Ossos do Ofício – Parte 1

Carne II – Ossos do Ofício – Final

Carne III – De Carne e Osso – Parte 1

 

E foi por isso que ansioso eu esperei

Pelo teu dia de aparecer aqui

E te mostrar o quê é que foi que eu planejei

Nesse tempo todo que eu fiquei aqui

E o diabo prometeu você pra mim

Eu prometi que vou fazer você sofrer

Eu tenho a eternidade toda pra fazer

Isso daqui ficar pior

(Matanza – E Tudo Vai Ficar Pior)

 

Uma semana depois, Cabuçu está só em seu quarto, pensando em sua mãe, o quanto sente sua falta, e o que aquele monstro fizera com ela. Ele se odeia por não poder fazer nada a respeito.

O amigo de Jacaré está deitado na cama que pertencera à velha índia, cheio de curativos. Ele tem alguns espasmos, como quem está tendo um pesadelo.

– Traidor maldito! Eu vou te matar! – Ele fala, delirando – Tu vendeste o bando pro Olek, seu verme sujo!

Jacaré chega ao quarto e vê um grupo de criaturas monstruosas de baixa estatura e pele cinza ao redor da cama. Ao vê-lo, elas atravessam a parede oposta, flutuando, como fantasmas. Ele entra e ergue as mãos sobre o corpo do homem e fecha os olhos. Fica nessa posição por alguns minutos, depois sai.

– Como ele tá?

– Parece estar se recuperando. O que me preocupa é o que motiva essa melhora. Ódio é o que o impede de morrer. Tudo o que importa pra ele agora é ver o sangue do homem que ordenou a sua morte.

– Sei bem o que é isso. O ódio é um remédio poderoso.

– E venenoso, Cabuçu. A alma de vocês está envenenada, livre-se desse ódio que você carrega, ou ele vai te destruir.

Do lado de fora, a casa se encontra rodeada por uma névoa sombria e pesada.

Num lugar muito distante dali, Um homem belo, careca, com roupas brancas e folgadas, e uma coroa de diamantes se ajoelha diante de um altar escuro.

– Majestade, eu dei a ordem a Eligos. Ele vai construir o golem de cinco almas, que vai criar um magnetismo espiritual suficiente para absorver outras almas e provocar um colapso na membrana.

– Ótimo! Tenho mais uma missão para ti, Paimon. – responde uma voz suave de cima do altar.

– Majestade, perdoe-me se pareço insolente, mas essa rachadura na membrana não vai de encontro às leis primordiais?

– Sim, meu caro. Mas minha maior preocupação agora é como construir esse golem sem chamar atenção de Satan ou dos outros anjos. Por isso, quero que captures o portal de Atlântida. Em breve explicar-te-ei a razão de tudo isso.

– Mas, mestre, essa é a joia mais preciosa de Asmodeus. Ele não a entregará por nada.

– Eu fiz um acordo com Asmodeus, Azazel, Leviatã e Mammon. Todos nós temos interesse nesse rompimento da membrana. Falarei com Asmodeus. Tu podes ir até Atlântida. Peça o portal a Balam em meu nome. Entregue a joia a Eligos e diga a ele que a use para transportar coisas livremente entre os mundos. Dessa forma, ele não chamará atenção.

– Sim, majestade!

Em Campo Grande, o policial Márcio conversa com uma mulher em um hotel, que diz:

– Não tem nenhuma mulher assim hospedada aqui.

– Obrigado, senhora.

Ele se lembra do momento em que encontrou o corpo de Luana, gelado, com marcas de presas no pescoço. Ela não tinha nenhuma gota de sangue. Lembra-se da mulher no bar dizendo que Diana estava passando mal e Luana foi ajudar, mas se assustou com a amiga, que saiu correndo. Algum tempo depois, Luana foi atrás dela. Lembra-se também de quando conheceu Diana: “Que mão gelada! Melhor você colocar um casaco.” E de que Luana havia falado que sua amiga nunca comia nada.

– Só pode ser ela! É uma vampira! Eu vou encontra-la, nem que seja a última coisa que eu faça! Luana só tinha dezesseis anos!

Ele procura em outro hotel na cidade e nenhum sinal dela. “Como posso achar um vampiro? Não sei o que ele é capaz de fazer, como pode se esconder. Preciso descobrir tudo o que puder sobre o assunto.”

Um mês depois, é noite e a porta da casa de Cabuçu está aberta, por ela entra uma criatura muito bizarra. Da cintura para baixo, tem quatro patas, sendo as duas da frente de carneiro e as de trás, de touro, e um rabo de escorpião. Da cintura para cima, parece um ser humano, mas o corpo é coberto por escamas, possui asas de corvo, pinças de caranguejo e chifres de bode. Tem dois rostos, um de homem e um de mulher, seus cabelos são como uma juba de leão e ele usa um colar com uma balança de ouro e segura um jarro com água com a pinça esquerda. Ele vai até o quarto onde está o homem que foi espancado.

– Olá, Tomas, vim atender aos teus desejos. Eu sou Baraqel, o anjo da astrologia. Se fizeres um acordo comigo, posso te tirar dessa cama e te dar dons especiais que te ajudarão na sua vingança.

– O que tu quiseres! Eu quero o sangue daquela mosca maldita!

– Quero que tu destruas o golem de carne. Ele ainda não foi criado, mas quando estiver pronto, vai estar na casa do feiticeiro Ashur. É só isso o que te peço. Em troca, darte-ei o poder de ver o futuro em seus sonhos e, é claro, tirar-te-ei dessa cama em que se encontra prostrado.

– Eu aceito.

– Ótimo!

O anjo chega perto da cabeça do homem e despeja a água do vaso sobre seu rosto. A água atravessa sua carne, como se fosse um holograma.

De manhã, Jacaré acorda e se assusta ao ver seu amigo de pé, se apoiando no galho de árvore que era dele.

– Guará! Você acordou! – Levanta e abraça o amigo – Mas você não pode ficar andando por aí! Está muito ferido!

– Não, eu tô bem, tchê! Fiquei muito tempo naquela cama.

Jacaré leva Guará de volta para a cama.

– Fica aí quietinho, ainda é muito cedo pra você levantar.

Nesse momento, Jacaré repara um símbolo estranho na mão direita do amigo.

– O que é isso?

Guará olha para a mão surpreso e responde:

– Não sei.

Jacaré olha dentro de seus olhos com uma expressão séria.

Cabuçu chega ao quarto.

– Ele acordou?

– Sim, parece que está bem melhor! Mas falei pra ele que ainda não deve se levantar.

– Prazer, eu sou Tomas Andrade, mas podes me chamar de Guará.

– Prazer, eu sou Cabuçu e esta é minha casa, fique à vontade.

– Vamos colher as verduras.

Jacaré e Cabuçu vão até o quintal, mas encontram todas as plantas murchas. Estão todas mortas.

No dia seguinte, Paimon anda de camelo sobre um lago de gelo. Várias pessoas abaixo estão congeladas até o pescoço. Algumas choram, outras gritam por socorro, ele ignora. Aproxima-se de Eligos, em seu cavalo negro.

– Eligos, trouxe o Olho de Nyarlathotep. Sabe o que fazer com ele?

– Sim, Lorde Paimon. Atravessá-lo-ei pelo cemitério, onde a membrana é deveras fina, e entregá-lo-ei a Ukobach. Juntos, o selaremos em uma maleta, que será usada para guardar os cadáveres das moças.

– Desnecessário dizer que é uma joia de valor inestimável, certo?

– Fique tranquilo, meu Lord, tomaremos muito cuidado.

Eligos fita a joia em suas mãos. Instantes depois ele a está entregando a Ukobach em um cemitério. Este a guarda em uma maleta.

– Haja com o máximo de discrição desta vez.

– Sim, mestre.

Eligos vai embora e Ukobach começa a cavar uma sepultura. No mesmo cemitério, Márcio está fazendo sua ronda noturna, fumando um cigarro. “Onde você está vampira? Por que não vem morder o meu pescoço?” Quando ouve um barulho e se esconde. Sorrateiramente ele se aproxima do local onde se encontra Ukobach. Ele está agora enterrando a cova. Márcio pega sua pistola e vai em sua direção.

– Parado! Jogue a pá no chão e ponha as mãos na cabeça.

Ukobach obedece e Márcio se aproxima.

– Vire de costas.

Aproxima-se novamente, enquanto o demônio se vira, mas, sentindo a temperatura da arma aumentar absurdamente, Márcio solta a arma no chão, com um grito de dor, e Ukobach o atinge com um cruzado no rosto. Em seguida, pega a arma do chão e a aponta para o policial.

– Vá até a mala e se ajoelhe diante dela.

Ele obedece.

– Já que você vai morrer mesmo, pelo menos vai servir pra alguma coisa.

Ele abre a mala e Márcio vê a joia negra, o olho de Nyarlathotep.

Ukobach abre a boca e as correntes envolvem o corpo de Márcio, o imobilizando e tapando sua boca. Ele corta o pulso do homem e deixa seu sangue escorrer sobre a joia e ir, aos poucos, ensopando a maleta.

– Depois que o ritual estiver completo, vou largar seu corpo aí para levar a culpa pela violação do túmulo.

Márcio vai perdendo a consciência e vê um brilho fantasmagórico saindo da joia se espalhar pelo interior da maleta, antes de desmaiar.

Depois de um longo dia capinando a horta e recomeçando o plantio, Cabuçu e Jacaré voltam para casa. Cabuçu mostra a Guará uma cesta com tomates.

– Só o que sobrou foi esses tomate que crescero no túmulo da minha mãe.

– Você disse que ela foi morta por um demônio, não é?

– Sim, Anamane. Um demônio enviado pelo feiticeiro Ashur, atrás da muié Lilian. Eu vou contar tudo pra ocês:

Aqui perto vive um feiticeiro que sacrifica animais em rituais macabro. Ele costuma fazer alguns feitiço para os aldeão em troca de favores. Um dia, um homem chamado Adriano ficou muito doente, e sua irmã Lilian, que vivia com ele, levou ele ao feiticeiro. Ashur pediu para que os dois ficassem na casa dele por um tempo e, depois de uma semana, pediu que Lilian se tornasse sua companheira. Ela recusou, e Ashur mostrou a ela que seu irmão estava sob efeito de seu vodu. Para que o feiticeiro libertasse Adriano do feitiço, Lilian aceitou se unir a Ashur, que deixou Adriano ir, saudável novamente e sem saber de nada, para casa. Mas Lilian não estava feliz e, em menos de um mês, roubou o boneco do irmão e fugiu da casa do feiticeiro. Ela contou tudo para o irmão e eles vieram pedir ajuda a minha mãe. Por alguns meses eles ficaram aqui protegidos, a magia de minha mãe impedia que Ashur encontrasse eles. Mas um dia, Lilian saiu e foi capturada por Ashur. Ela permaneceu aprisionada em sua casa por alguns meses, mas não aceitava seu destino ao lado do feiticeiro maléfico, continuava como uma prisioneira. Ashur acabou perdendo a paciência e a matou. Foi o que os espíritos ancestrais contaram.

Mas ele acabou se arrependendo, e fez, então, a maior de todas as monstruosidade: Sacrificou Adriano para trazer Lilian de volta à vida. Mas ela não só não queria ficar com o feiticeiro, como também não queria mais viver, ao ver seu querido irmão morto. Tentou se matar, mas não conseguiu, porque Ashur tinha tornado ela imortal. Foi então que eu ajudei ela a fugir para a capital. Mas Ashur enviou um demônio no corpo de Adriano para buscar a irmã. Em sua busca, ele matou minha mãe e queimou meu rosto. O demônio é traiçoeiro, ele se aproveita dos desejo e ambição humana. Mas eu vou esperar o tempo que for preciso, e um dia vou ter minha vingança. Quando a hora certa chegar.

Naquela noite, Guará teve um sonho que lhe pareceu muito real. Ele sonhou que uma cobra mordia um menino enquanto ele brincava na floresta.

No dia seguinte, Guará e Jacaré vão até a aldeia e encontram crianças brincando. Guará ensina algumas brincadeiras a elas e apresenta seu amigo Jacaré. Sob as risadas das crianças, pega sua viola, senta-se em uma pedra e começa a tocar uma música para elas.

“Negrinho do pastoreio acendo essa vela pra ti

E peço que me devolvas a querência que eu perdi

Negrinho do pastoreio traz a mim o meu rincão

Que a velinha está queimando, nela está meu coração

Quero rever o meu pago colorado de pitangas

Quero ver a gauchinha brincando na água da sanga

Quero trotear nas coxilhas respirando a liberdade

Que eu perdi naquele dia que me embretei na cidade

Negrinho do pastoreio traz a mim o meu rincão

A velinha está queimando aquecendo a tradição”

Durante a canção, Guará percebe que uma das crianças é igual àquela que ele viu em seu sonho. Os dois vão até uma venda que existe por ali e bebem cachaça, Jacaré percebe que seu amigo está inquieto, e este lhe revela seu sonho. Jacaré, então, sugere que eles vão atrás do menino, e Guará concorda.

Ao encontrar algumas das crianças, a dupla pergunta sobre o tal menino e ficam sabendo que ele havia ido com um amigo à floresta, o que deixa os dois preocupados. Eles adentram a floresta atrás dos meninos. Alguns minutos depois, eles encontram outro garoto assustado, que lhes informa que o menino havia sido picado por uma cobra. Eles seguem o garoto até o tal menino e o encontram deitado no chão gritando de dor. Os homens levam o menino para a casa de Cabuçu, enquanto Jacaré pede pra que ele descreva a cobra. Chegando lá, eles pedem a ajuda do índio cego, Jacaré diz que a cobra é venenosa e chupa a ferida da criança para retirar o veneno.

Depois da ajuda dos homens, o menino parece estar bem, e os forasteiros levam as duas crianças de volta para suas casas, onde suas mães os esperam preocupadas. No caminho de volta para a casa do índio, eles conversam sobre o acontecido, Guará permanece bastante pensativo e Jacaré está preocupado com o amigo.

Uma semana depois, Guará sonha com uma grande tempestade, e no dia seguinte, a tempestade vem exatamente como no seu sonho. Quatro dias depois, ele sonha com um velho sinistro que usa uma substância desconhecida em um frasco para trazer um rato de volta a vida, diz algumas coisas sobre a poção e depois reforça as armadilhas de sua mansão. Próximo ao velho há um corpo sem vida de uma jovem.

Durante o dia, Cabuçu diz para os amigos que conseguiu pela primeira vez se comunicar com os espíritos dos ancestrais, como fazia sua mãe. Os espíritos lhe disseram que há uma urna sagrada que pertencia a uma tribo que habitava uma região próxima. Essa urna sagrada é capaz de aprisionar espíritos malignos e até demônios. Mas a urna se encontra atualmente na capital. Ele está determinado a ir até lá procurar pela urna. Mas Guará diz que não pode ir com ele, pois precisa resolver um assunto importante ali perto. Jacaré, então, se propõe a ajuda-lo. Eles partem naquele dia para a capital, usando um pouco de dinheiro que Jacaré tinha guardado.

Guará passa os dias planejando sua vingança contra seu rival, mas sabe que qualquer investida contra o grupo seria loucura, eles são muitos e ele se encontra desarmado. Enquanto imagina emboscadas audaciosas, acaba caindo no sono e sonha com o bando de Mosca chegando na noite seguinte ao vilarejo. Mosca manda um dos capangas, o Língua Solta, fazer uma ronda de reconhecimento enquanto o resto do bando aguarda na floresta. Ao acordar, Guará pensa que, se seu sonho se tornar realidade, será o momento certo para surpreender o grupo, mas, ainda assim, acabaria morrendo da mesma forma. Eis que, então, ele percebe uma possível ligação entre seus sonhos recentes e se lembra de ver o velho feiticeiro preparando todas as armadilhas que protegem sua casa. “Se houvesse uma maneira de atrair o bando até a mansão do velho bruxo, seria ótimo!” Ele colocaria seus inimigos contra os inimigos do índio, dois problemas de uma só vez. Mas como?

No mesmo dia, Guará procura os meninos que ajudou e lhes pede um favor. À noite, Guará e os meninos espreitam entre as casas, até que o batedor do bando se aproxima.

– Lá vem ele. Agora vão até lá e façam o que eu disse.

Os meninos passam próximo ao homem conversando alto.

– Claro que não, seu burro! O véio da mansão é o mais rico do mundo! Minha mãe disse que ele tem tanto ouro guardado que pode até comprar um país!

– Aquele véio que mora perto do cemitério?

– Isso memo. Ele mora sozinho naquela mansão, nunca sai. Tem medo que roubem o tesouro dele.

Língua Solta ouve a conversa das crianças interessado e logo retorna ao bando para contar a notícia. Os meninos voltam ao lugar onde Guará espera.

– Muito bem, guris! Isso deve dar um jeito nesses bandidos.

“E, se não der, pelo menos deve facilitar para mim.” – pensa Guará.

De madrugada, o bando chega à casa de Ashur. Mosca dá as ordens:

– Verifiquem todas as portas e janelas do andar de baixo, sem fazer barulho. Ratinho, você vem comigo.

Eles dão a volta na casa e veem gansos nos fundos, cercados por uma cerca.

– Acho que não vai dar pra entrar pelos fundos, chefe. – diz Ratinho.

– Acho melhor a gente voltar quando o velho não estiver, ele pode chamar a polícia.

– Chefe, os moleques disseram que o velho nunca sai de casa. – responde o batedor, Língua Solta.

Mosca fica em silêncio, pensativo, até que os capangas se reúnem e dizem que está tudo bem fechado. Ele termina de dar uma volta completa na casa e decide que irão entrar pela janela da direita, que fica mais pra frente, longe dos gansos. Seguindo as ordens do chefe, dois capangas, Quebra Espinha e Fura Bucho, começam a arrombar a janela e logo ouvem latidos dentro da casa.

– Merda! … Ah, que se dane! Vamos entrar nesta casa!

A janela é arrombada e o capanga chamado de Calango sobe e dá vários tiros para dentro, até que os latidos se calam.

– Virge Maria! Isso era o bicho do capeta!

No andar de cima, Ashur acorda, se levanta e pega uma doze que estava apontada para a porta de seu quarto como armadilha.

O Calango pula para dentro da casa, solta um grito e cai no chão.

– O que houve?

– Fíu duma égua! O véio butô prego no chão.

– Entra todo mundo! Cuidado com os pregos!

Ao entrarem, eles se deparam com um cão de duas cabeças ensanguentado no chão. O Fura Bucho se benze. Depois que todos entram:

– Chumbo Certo, Quebra Espinha e Fura Bucho, vocês sobem comigo. Os outros vasculham tudo aqui embaixo.

No corredor de cima, Ashur percebe que tem muita gente em sua casa e corre para uma porta. Ele a abre devagar e encosta na parede, enquanto um machado despenca do teto em movimento pêndulo. Entra no aposento, que é um escritório, e rearma a armadilha.

Chumbo Certo solta um grito ao pisar em outro prego, na escada.

– Cuidado! Tem prego aqui tombém!

Quebra espinha usa o cabo da espingarda para varrer os pregos para o andar de baixo e segue na frente.

No andar de baixo, o Ratinho grita para os outros:

– Aqui é o banheiro, não tem nada.

E o Calango:

– Na sala de jantar tem uma pranta espinhenta, cuidado!

O Ratinho vai para a cozinha ajudar o capanga chamado de Capiroto.

Ao fim do primeiro lance de escadas, Quebra Espinha tropeça em um barbante e dispara um arpão contra seu próprio peito. Ele cai no chão com um gemido surdo.

– Merda! Merda! Merda! A casa tá cheia de armadilha! – grita o Mosca – Seu velho filho de uma quenga! Eu vou te pegar e cortar todos os seus dedos um por um! Vai na frente, Chumbo Certo! Bem devagar e olhando pro chão.

No escritório, Ashur abre um pouco a porta e solta um rato. Chumbo certo vê algo se mover e atira em direção à porta, que se fecha em seguida.

– Ele tá ali!

– Vai com calma, Chumbo, ele tá encurralado.

No andar de baixo, Ratinho encontra uma armadilha de Urso debaixo da janela da cozinha e Capiroto grita ao cair em outra armadilha. Ratinho olha para trás e vê um buraco no chão. Ele corre para lá e grita:

– Cê tá bem?

– Ai. Tem uma, … não! – E atira.

Capiroto continua gritando e atirando. Ratinho corre para a outra porta e a abre, vendo a escada do porão.

No andar de cima, o rato vai em direção ao Chumbo Certo, que tenta chutá-lo, mas é mordido. Ele joga o rato na parede e o acerta em cheio com seu revólver, mas o rato o ataca de novo.

– Mas que porra de bicho é este!

O rato o morde de novo, mas Fura Bucho o acerta com o cabo da espingarda de Quebra Espinha, e repete o golpe várias vezes, até que o rato para de se mexer. Os três se olham confusos.

Ratinho desce as escadas do porão com muito cuidado, seguido por Língua Solta, quando vê Capiroto saindo de uma das portas gritando e caindo. No chão, ele é enrolado por duas serpentes. Ratinho descarrega sua arma no amigo, matando-o junto com as serpentes. Ao descer mais um degrau, seu pé afunda em um fundo falso e é decepado por uma lâmina escondida. Ele grita e rola escada abaixo.

No corredor de cima, os três avançam com muito cuidado. Fura Bucho saca sua peixeira e abre a porta do escritório devagar. Ao ver o machado despencando na direção de seu rosto, ele se joga para a esquerda, mas é atingido no ombro direito e cai no chão ferido. Ashur aparece e dá um tiro de doze no Chumbo Certo, que cai da escada. Mosca entra no escritório e acerta um tiro no ombro do velho, que deixa cair a doze.

– Agora te peguei, velho duma figa! – diz ele, apontando a arma para Ashur. – Onde está o dinheiro?

Calango desce as escadas para ajudar os amigos no porão e encontra Língua Solta estancando o ferimento do Ratinho. Ele abre outra porta e é atingido por outro arpão, caindo duro no chão.

Enquanto isso, Ashur responde a Mosca:

– Eu não sei do que você está falando.

– Olha aqui, eu não tô de brincadeira. Você já matou dois dos meus homens, no mínimo. Se não disser agora onde está o dinheiro eu vou te matar e vou achar o dinheiro sem você.

– Tudo o que eu tenho está no meu quarto. – diz o velho apavorado. – Vou leva-lo até lá.

– Se tentar alguma coisa eu estouro sua cabeça.

Eles vão até o quarto, Ashur pega um saco de dinheiro debaixo do colchão e entrega a Mosca.

– No chão! Com a testa no chão.

Ele abre o saco em cima da cama e examina o dinheiro.

– Só isso?! Você tá achando que eu sou idiota?

– Não, não! Isso é tudo o que eu tenho! O que mais você quer?

Na escada, Fura Bucho tenta manter Chumbo Certo acordado, ele está com um curativo feito pelo amigo.

– Não morre, cabra! Ocê vai ficar bom. Guenta firme!

Ele ouve Língua Solta pedindo ajuda no andar de baixo e desce para ajuda-lo. Língua Solta está vindo do porão, carregando Ratinho, que ainda está consciente. Ele ajuda a colocar o companheiro no sofá da sala.

No quarto de Ashur:

– Por favor, não me mate! Eu vou leva-lo ao sótão, lá tenho alguns objetos de valor.

– Vai rápido, velho!

Ashur volta para o corredor e abre um alçapão de madeira no teto, com muito cuidado e desarmando uma armadilha. Uma escada desce do alçapão. Ele começa a subir e pede ajuda de Mosca, por estar ferido no ombro. Enquanto Mosca o ajuda a subir, Ashur arranca um fio de cabelo do bandido. Quando ele chega lá em cima, Mosca ouve pessoas subindo as escadas, são Fura Bucho e Língua Solta.

– Língua Solta, Sobe pro sótão! Vai pegar as coisas do velho.

Língua Solta sobe, enquanto Mosca recolhe o dinheiro no quarto. No sótão há uma biblioteca, onde Língua solta segue Ashur até um armário. O velho abre o armário e pega algo em um frasco.

– O que é isso? – pergunta o bandido enquanto aponta a arma para Ashur.

O velho abre a mão e sopra um pó negro sobre Língua Solta, que cai no chão inconsciente.

Mosca chega ao corredor com o saco de dinheiro e Ashur joga uma bola de ferro do sótão, acertando em cheio a cabeça de Fura Bucho, que cai desacordado. Mosca descarrega sua arma em direção ao sótão e resolve fugir com o dinheiro. Ele desce correndo, chega à sala, abre a janela e foge com o saco.

Chegando até o local onde estão os cavalos, sobe em um deles e puxa outro. Em seguida, foge correndo com os dois cavalos, mas de repente fica completamente cego. Ashur está no sótão de sua casa com um boneco de vodu com dois alfinetes espetados no rosto.

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A casa dos espelhos – Parte 3.1

chapeleiro

Autor: Sombra Posthuman

 

– Deus te ama, Alice. – Acordei com Oneiros na minha frente. – Você estava certa, se eu amo cada indivíduo que conheço, o que dirá Deus, que está dentro de todos nós! Impossível seria não nos amar!

– Bom dia pra você também!

– Esse é o segredo de seu poder infinito, a essência de tudo é o amor!

– Deus também te ama, Oneiros!

– Eu sei. A propósito, desculpe por tudo aquilo o que eu disse no funeral.

– Tudo bem, eu entendo que eu tenho sido muito inconveniente para vocês.

– Não, Alice, você não é nenhum inconveniente, e eu fui muito cruel com você, realmente sinto muito.

Sem pensar, me aproximei e beijei seus lábios devagar. Ele não disse nada. Fomos tomar café.

– Oneiros, eu estou morta?

Ele fez uma cara de surpreso.

– Não sei, está?

– Uma mulher no cemitério disse que estou.

– Você devia procurá-la, talvez ela saiba algo sobre o que aconteceu com você.

– Mas eu não sei nem mesmo seu nome!

– Gostei da sua nova cor.

Só então percebi que estava com minha cor normal novamente.

Passei a manhã ajudando Helena nos afazeres de casa. Mesmo achando errado o que ela fez com o bebê, sinto como se tivesse uma grande dívida para com ela. Depois do almoço, Oneiros disse:

– Vamos ao teatro? – Ao que respondi:

– Em plena segunda-feira?

– Por que, é proibido?

E fomos todos. A peça se passava em um mundo onde o aborto era proibido. Havia duas amigas, Jarilene e Jéssica. Jarilene era pobre e Jéssica era rica. A jovem pobre era a sétima de doze irmãos, que a mãe solteira não tinha condições para criar. Dois de seus irmãos mais velhos se tornaram criminosos, e o outro, viciado. Uma de suas irmãs foi morar com um traficante e apanhava frequentemente, outra estava devendo aos traficantes e acabou se prostituindo para sustentar o vício, e a outra havia sido jogada no lixo quando nasceu. Um dos criminosos e o viciado morreram, e a mulher de traficante foi presa. Seus irmãos mais novos faziam as tarefas de casa ou vendiam bala na rua. Nenhum deles estudava. Jarilene tinha uma filha, que abandonou na casa da tia e alguns anos depois acabou sumindo. Jéssica engravidou por acidente e, com medo de que aquilo fosse arruinar sua carreira, resolveu pagar caro a um médico para abortar. Mais tarde, Jarilene engravidou novamente e não queria que seu filho tivesse o mesmo destino de sua outra filha ou de um de seus irmãos. Resolveu, então, seguir o exemplo da amiga. Mas ela não tinha dinheiro para pagar o médico que ajudou Jéssica, e seguiu o método aconselhado pela tia. O aborto não saiu como o planejado e Jarilene acabou morrendo.

Parecia que a peça tinha sido escrita para mim, é claro que ela falava sobre o meu mundo! Perguntei a Oneiros quem era o autor da peça, seja quem fosse, conhecia o meu mundo.

– Gulliver Swift.

– Como eu posso encontrá-lo?

– É só ir ao cemitério da cidade.

– Ele está morto?

– Há muito tempo, ele foi professor do velho Tirésias.

– Tirésias… devia saber que tinha alguma coisa a ver com ele.

À noite fui até o cemitério procurar aquela mulher. Andei, andei e não encontrei, encontrei apenas o túmulo de Gulliver Swift.

Na terça e na quarta eu fui até a praça, mas desta vez, não para ensinar, e sim para aprender. Por que eles adoram símbolos sexuais? Porque sexo é vida, é o poder do ser humano de criar vida. É também a comunhão carnal entre dois seres, na qual um proporciona prazer intenso ao outro. O sexo é, realmente, algo muito bonito! Mais descobertas sobre esta sociedade: crimes aqui não são punidos. Cada um deve ser seu próprio juiz e carrasco. Aqui não existem direitos autorais, toda informação e cultura pertencem a todos, podendo ser acessada e reproduzida livremente. Todas as profissões são igualmente importantes. Perguntei:

– Por que eu iria me tornar uma médica se posso servir cafezinho? – Anne, a mulher politizada, respondeu:

– Um médico sempre poderá servir cafezinhos, mas a pessoa que escolher servir o café pode salvar vidas?

Mas, na verdade, qualquer um pode salvar uma vida, não é? Prostituição aqui não existe, claro! As pessoas só trocam sexo por sexo. Drogas têm, mas ainda não vi nenhum viciado. Comecei a aceitar a ideia de que talvez nunca saísse dali, talvez nunca voltasse pro meu mundo. “Aqui não existem freiras, então o que eu sou? Apenas uma pessoa estranha.”

Cheguei cedo a casa, não havia ninguém, só a Branquinha. Tive uma vontade de comer frango! Olhei praquela galinha, ela olhou pra mim, eu peguei a faca e disse:

– Eu vou matar você!

Ela saiu correndo pelo quintal. Foi difícil, mas eu a peguei, e ela começou a gritar.

– Não, por favor, eu sou inocente!

– Ninguém é inocente!

– Poupe minha vida e eu farei o que quiser!

– O que eu quiser, humm… eu sei o que eu quero. Comer frango assado!

Uma vez eu ouvi dizer que se você tiver pena da galinha, ela não morre, ela não precisa de pena, já tem muitas. “Por pouco tempo…” A lâmina afiada desceu sobre o fino pescoço da ave, separando a carne como se fosse manteiga. Trabalho com convicção, trabalho bem feito, o sangue jorrou, a cabeça escandalosa rolou pelo chão. O corpo da galinha saiu correndo sem rumo, e eu fiquei imaginando a Branquinha saindo do forno.

– Você arrancou minha cabeça, sua assassina!

– Cala a boca, Branquinha! Galinhas mortas não falam!

O almoço foi ótimo! Dália estava brincando com um carrinho e nem deu falta da branquinha.

– A comida tava boa, Dália? – Ela fez que sim com a cabeça.

– O último desejo da Branquinha foi que nós a comêssemos, então eu fiz questão de preparar um ótimo frango assado.

Ela, então se deu conta da falta da galinha:

– Cadê a Branquinha?

E Helena respondeu:

– Você acabou de comer, Dália.

– Eu comi?

– Sim.

– Mas eu quero brincar com ela!

– Não dá, minha filha, ela está dentro da sua barriguinha agora.

Dália ficou olhando e mexendo na barriga, confusa.

Oneiros chegou e falou para ela:

– Meu amor, não fique triste, eu tenho aqui uma nova amiga pra você.

Levantou a camisa e tirou um frango de borracha.

– Mas essa é de mentira!

– Mas ela faz barulho, olha!

Apertou a galinha e ela fez um barulho. Dália ficou olhando meio inconformada e eu lhe disse:

– Dê um nome pra ela.

Ela pensou e respondeu:

– Alice.

Perguntei a Oneiros de onde ele tinha tirado aquela galinha e ele disse:

– É só você desejar muito uma coisa, que ela aparece.

Engraçadinho…

Quinta-feira, de manhã, fomos ao cemitério inaugurar a lápide do filho de Helena que não nasceu, ou melhor, filha, era uma menina. Um homem horrível e deformado havia preparado a lápide. Helena levou flores e Oneiros disse:

– Vamos fazer uma visita ao mundo dos mortos.

– Sim, nós vamos meditar e viajar para o reino dos espíritos. Existe alguém que você gostaria de ver? – perguntou Helena

– Sim, minha mãe. – respondi.

– Então concentre-se na sua mãe. Xaninha, tome conta da Dália.

-Ah! – respondeu aborrecida.

Eles acenderam um incenso e começaram a meditar. Eu me sentei e me juntei a eles. O silêncio e o cheiro do incenso me fizeram viajar… Que tipo de incenso era aquele? Eu entrei em transe… Estava debaixo d’água. Nadei até a superfície, estava num lago. Havia pessoas nas margens. Nadei até elas. Um homem de roupas brancas e asas de penas brancas me recebeu:

– Estávamos esperando por você, Alice.

– Um anjo!

– Precisamos secar você, Alice, você ainda está molhada. Este é o reino dos mortos, você só poderá caminhar livremente por aqui quando estiver totalmente seca. Relaxe…

Ele estendeu as mãos sobre mim, eu fechei os olhos e me lembrei das palavras de Oneiros: “Concentre-se na sua mãe.” Senti um calor emanando das mãos do anjo, ele estava me secando. De repente, uma onda me engoliu e me levou de volta para o lago. E lago tem onda? Bem, esse tinha. A correnteza me levou para longe da margem e continuou me levando para Deus sabe onde. Eis que vi na margem uma cena muito estranha. Uma criatura meio mulher, meio pássaro coloca um bebê dentro do lago. Comecei a me sentir pesada e afundei, Não consegui respirar, então apaguei.

Acordei na minha cama, no convento.

– Eu estou de volta! Meu Deus, que sonho louco eu tive!

Saí do quarto e caminhei pelos corredores do convento em busca de algum rosto familiar, mas não encontrei ninguém. O lugar parecia estranhamente vazio. Ouvi uma voz na cozinha:

– Pobre irmã, tão jovem!

Segui a voz e encontrei a Irmã Clara falando com a Irmã Flávia.

– Olá, irmãs!

Elas não responderam. A Irmã Flávia disse à Lara:

– Mais um acidente de trânsito, devemos orar por essas ruas, esses motoristas…

– Irmã Flávia, eu estou aqui!

Ela me ignorou completamente, como se não pudesse me ver nem me ouvir, e a mesma coisa fez Clara.

Madre Celina chegou à cozinha.

– O que estão fazendo aqui na cozinha? Vamos logo! Chega de fofoca e vamos ao trabalho!

Eu segui as três e encontrei uma freira desconhecida no corredor com um sorriso amarelo. Ela estava parada, como se fosse uma estátua. Ao olhar bem de perto, percebi que estava usando uma máscara. Eu comecei a puxá-la e ela foi descolando do rosto da freira, esticando uma coisa pegajosa. Por trás da máscara não havia nada, não havia rosto, apenas uma superfície lisa de pele.

“Sabe de uma coisa? Eu não sinto a menor falta do convento!”, pensei. Joguei a máscara no chão e saí pela rua sem rumo, até que encontrei novamente aquela casa misteriosa. Entrei e comecei a examinar as coisas, mas ouvi um barulho no quarto. Fui verificar, era a mulher do cemitério. Ela estava sentada na cama, olhando um porta-retrato. Quando me viu, levou um susto e colocou-o sobre a cama, virado para baixo.

– Você de novo!

– Sim, você mora aqui?

– Moro.

– Qual é o seu nome?

– Você não se lembra?

– Não, eu conheço você?

– Meu nome é Vanessa.

– De onde você me conhece, Vanessa?

– O que importa, você está morta agora!

– Eu não estou morta. As pessoas falam comigo, eu como, eu durmo!

– Eu falo com você porque eu vejo pessoas mortas. E qualquer outra pessoa também pode ver, se quiser. O resto, você está imaginando.

– Como eu posso te provar que estou viva?

Ela se aproximou e tentou tocar minha mão, mas sua carne atravessou a minha.

– Está vendo? Não posso te tocar.

– Mas isso é porque eu estou fazendo uma viagem astral, meu corpo está no cemitério.

– Exatamente. Agora você entendeu. Me deixa em paz!

Virou-se e foi embora. “Ah, essa mulher tá doida, eu sei que estou viva” pensei eu. Ela havia deixado o porta-retrato em cima da cama, resolvi olhar a foto que ela estava admirando. Para minha surpresa, vi um rosto conhecido. Oneiros! Era ele que estava no porta-retrato! Qual seria a relação que essa Vanessa tinha com Oneiros?

Ah, estava cansada, hora de voltar, minha viagem acabara. Eu estava deitada, mas não conseguia abrir os olhos! Não conseguia mover um músculo! Gritei desesperada e vi que estava no cemitério, sentada, exatamente onde estava quando tudo começou. Xaninha, Dália e o homem horrível estavam olhando para mim, espantados. Xaninha disse:

– Alguém viajou bem longe!

Oneiros e Helena ainda estavam em transe. Xaninha olhou para uma jovem muito pálida deitada nua sobre uma mesa. Era uma jovem muito bonita e estava morta. Ela me lembrava muito uma prima minha que eu não via há muito tempo, só que com algumas características de lebre, como orelhas e focinho. Não me lembrava bem dela, o meu passado era muito nebuloso na minha mente, há quanto tempo era assim? Eu me questionei se o meu passado já era assim nebuloso antes de eu chegar àquele lugar, ou se aquele mundo estranho estava me fazendo esquecer o meu.

– Se deu bem, hein, Solfieri! – disse Xaninha para o homem e ele sorriu. Ele vestia um paletó velho e uma cartola com um papel onde se lia 10/6. Fitou o cadáver e mostrou novamente seus dentes podres. Acariciou o rosto da jovem, acariciou seus seios.

– O que está fazendo? Não tem respeito pelos mortos? – perguntei.

– Respeito? Sim. Seria falta de respeito enterrar uma coisinha tão linda assim…

– Ora, Alice, no seu mundo, vocês não aproveitam os corpos dos mortos? É como diz o ditado: sempre existe um sapato velho pra um pé descalço.

– Doar órgãos é uma coisa, mas isso é monstruoso! Por que alguém iria ter relações sexuais com um cadáver?

– E quem iria ter relações sexuais com ele? Você? Oh, Alice, todo mundo precisa de sexo! Deixe o homem em paz! Pra que mais iria servir aquele monte de carne morta? Esse é o único prazer que o velho tem na vida!

– Oh, pobre jovem! O que a família faria se soubesse!

Xaninha fez cara de entediada. O homem beijou a boca da jovem e tocou suas partes íntimas. Eu havia prometido que iria observar e aprender sobre esse povo, mas havia coisas com as quais não podia concordar. E eu não seria melhor que ele se permitisse essa monstruosidade! O velho Solfieri deitou sobre a moça e começou a beijar seus seios. Eu precisava fazer algo! Olhei para Oneiros, ele ainda estava meditando e, pensando bem, duvidei de que ele faria alguma coisa para interferir no estupro. O coveiro lambeu a pele da jovem e tocou a sua vulva.

– Pare! Tire as mãos dela! – Ao que o velho riu.

– Hahahaha! Você não é deste mundo, garota?

Aquilo me surpreendeu. Ele saiu de cima da moça e veio em minha direção.

– Eu também não. Mas aqui não há nada que você possa fazer pra me impedir! Ou você estaria disposta a me servir no lugar dela?

– Nem pense em tocar em mim, seu… seu necrófilo!

– Hihihihi. É uma pena! Há muitos anos eu não sei o que é o calor humano. – voltou para a jovem: – Mas não importa! Eu tenho aqui o que eu preciso. – disse, acariciando o rosto da garota.

Subiu novamente sobre seu corpo e colocou a mão dentro da calça. Virei o rosto para o outro lado e pensei em ir embora, mas não podia conviver com aquilo.

– Espere! Eu, no meu dever de cristã, não posso permitir que faça uma coisa dessas!

– Não vai ser a primeira vez, nem a última.

– Não importa, pelo menos eu estarei fazendo a minha parte. Além do mais, ela me lembra alguém importante pra mim… Pode fazer o que quiser comigo.

Solfieri deu um grande sorriso cheio de dentes podres.

– Ótimo! Trato feito! Você vai se acostumar logo com este mundo.

Ele acariciou meu rosto e, em seguida, tocou meu seio.

– Não.

Tirei sua mão de mim e olhei para Xaninha e Dália.

– Não na frente das garotas.

– Como quiser, milady.

Xaninha me olhou com um olhar de nojo. Dália agarrou a galinha com força e observou com os olhos arregalados e uma expressão de curiosidade. O coveiro abriu a porta de um casebre e fez sinal pra que eu entrasse. Minha pureza pela pureza da jovem morta, que provavelmente nem era tão pura, uma troca justa? Eu pensei que aquele rapaz do lago fosse do meu mundo e que, juntos, talvez pudéssemos descobrir um meio de voltar, mas estava enganada. Finalmente eu havia encontrado alguém que não era daqui, mas em que circunstâncias! Enquanto andamos, ele disse:

– Finalmente encontrei alguém do outro mundo além de mim!

– Você está aqui há quanto tempo?

– Eu não sei dizer, há alguns anos.

Chegamos ao seu quarto e ele se sentou na cama e fez sinal para que eu também me sentasse.

Podemos ser amigos, quem sabe, até mais.

– Faça logo o que precisa fazer!

– Sem nem conversar? Sem um chazinho, um vinhozinho? Não, eu esperei muito tempo pra permitir que seja assim, tão rápido! Sabe, eu nem sempre fui assim tão feio.

– Eu não estou interessada em ouvir a sua história! E não importa o que você faça, eu não vou ficar à vontade.

– Ah, mas vai ouvir! Você disse que eu podia fazer o que eu quisesse, então vamos conversar. Você não vai embora assim, tão cedo.

Ele pegou um vinho e duas taças e me deu uma delas.

– Eu não quero beber.

– Se você não cooperar, eu serei forçado a repensar nosso trato.

Peguei a taça e ele encheu as duas de vinho.

– Um brinde ao encontro dos perdidos.

Eu bebi e ele sorriu satisfeito. O vinho até que era bom.

– Antes de vir pra cá, eu era um homem normal. Mas eu sempre fui coveiro. Vou te contar sobre o meu primeiro amor.

Bianca era o seu nome. Ela era jovem, mas tinha pernas grossas e seios fartos. Tinha um rosto redondo, cabelos cacheados e um lindo sorriso. Mil homens caíam aos seus pés, mas ela não dava atenção a ninguém. Bianca só pensava em seu trabalho: lavar roupa para os mais bem afortunados, cuidar da casa e do irmão. Recebia cantadas de homens casados, homens de dinheiro, que prometiam lhe dar uma vida melhor. Mas a moça não tinha olhos para homem nenhum. Seus pais haviam morrido e a deixaram com um irmão pequeno. Ela teve que dar o seu jeito pra sobreviver e sustentar o irmão.

Eu a observava sempre e contava os minutos para vê-la levar as roupas. Tinha raiva de todos aqueles homens, ela ainda seria minha e de mais ninguém. Um dia eu lhe dei uma flor, ela sorriu e disse: “Você é um homem gentil, mas não tem ambição. Eu sonho um dia mudar de vida e você devia fazer o mesmo.” Ela nem sequer sabia meu nome, nem sabia que eu a observava. Mas eu precisava tê-la, estava obcecado.

Um dia eu disse a ela: “Eu vou arranjar dinheiro, muito dinheiro, e você casa comigo e vamos pra um lugar melhor que este.” E ela respondeu: “Dinheiro não é tudo. Vê o Senhor Pereira, ele tem muito dinheiro e vive só, mas eu não me junto com ele. Dinheiro é muito importante sim, mas existe coisa mais importante: dignidade. Foi o que minha mãe me ensinou, que Deus a tenha, e eu um dia vou ter uma máquina de costura e vou ter uma vida digna. Mas vou conquistar tudo com o meu próprio esforço.”

Eu não sabia o que fazer pra ter aquela mulher. Mas ela precisava ser minha, e se dinheiro não a conquistava, o que conquistaria? Numa manhã quente de verão, ela carregava as trouxas debaixo do sol, quando fui falar com ela. Bianca me contou que tinha achado nas coisas da mãe umas fotos com os irmãos do Rio de Janeiro, com os nomes deles anotados. Disse que resolveu que ia procurar por eles, que eles eram sua família e iriam ajudar a cuidar de seu irmão, que andava fraco e doente.

Os dias passaram, veio a chuva e o frio e eu já não tinha mais esperanças de conquistar a minha musa. O tempo passou e eu parei de vê-la. Imaginei que ela tinha ido para o Rio em busca de seus tios. Mas um dia, fui trabalhar e lá estava ela, em cima da mesa, deitada com duas moedas sobre os olhos. O patrão disse que foi pneumonia, que o irmão disse que ela já estava doente havia uma semana. Morreu tão jovem… Ele disse que ia se livrar do corpo no dia seguinte. Não havia quem pagasse seu enterro, ninguém quis se comprometer, e o senhor Pereira já tinha desistido dela e voltado para Portugal.

Anoiteceu e estávamos na sala, ela e eu. Nós iríamos passar a noite juntos, como eu sempre sonhei, mas ela estava morta. Aquele corpo maravilhoso deitado sobre a mesa, frio e pálido. Peguei as moedas dos seus olhos e disse: “Talvez essas moedas possam pagar o barqueiro, mas não dão para pagar um enterro. Mas para o meu espanto, ela abriu os olhos e respondeu: “Não! Por favor, não deixe que sumam com o meu corpo! Se algum dia você sentiu alguma coisa por mim, isto é tudo o que te peço! Me dê um enterro digno!” E eu respondi: “Cale a boca, mulher! Você está morta! E mortos não falam! Será que estou ficando louco?” Mas ela continuou: “Não seja tão cruel! Eu sempre fui honesta e trabalhadora, não estou pedindo demais!” Ao que eu respondi: “Você disse que dinheiro não era tudo, que mais importante era a dignidade, mas onde está a sua dignidade agora? É preciso ter dinheiro para ter dignidade!” Uma lágrima de sangue escorreu de seu olho e ela disse: “Dinheiro eu não tenho, nunca tive, mas posso te oferecer tudo o que tenho, meu corpo frio e pálido.” – E me mostrou seu seio nu, tão lindo e firme. Então eu a despi, como já tinha feito com muitos outros corpos. O que um morto tem para negociar a não ser seu próprio corpo? Que corpo magnífico tinha aquela mulher! Enquanto a admirava e a tocava, notei que tinha morrido virgem.

Na manhã seguinte, antes do sol nascer, eu já a havia enterrado. Enterrado no sentido literal, eu quis dizer. Ela pediu para enterrar e eu enterrei. Hehehehe. Mas só no sentido literal. Eu não fiz sexo com ela. E sobre seu túmulo, coloquei uma lápide, onde se lê: “Aqui jaz Bianca. Viveu e morreu com dignidade.”

– Você é doente! Quer que eu acredite que não tocou nela?!

– Eu não disse que não toquei nela.

A essa altura, Solfieri já havia bebido bastante, eu parei logo no início.

– Agora por que não me conta um pouco de você?

– Eu não tenho nada pra contar, e também não tenho o dia todo! Vamos, termine logo com isso!

– Você não aguenta mais esperar, não é? Se é isso o que você quer, eu vou te dar o que tanto pede!

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As aventuras de Deus na terra

 chcuck

as adnt

A voz de lazaro não ecoou em meio ao nada.

 

– Que horas são? Eu dormi demais? Já é de manhã, ou ainda é de madrugada?

 

Ele começou a pensar em tatear pela parede a procura do acendedor, mas antes que concluísse o pensamento tudo se tornou claro a sua volta.

 

Merda!

 

Foi á única coisa que passou por sua cabeça, quando se viu em uma sala de espera feita somente de luz, sem paredes ou qualquer indicio de que aquilo fosse qualquer coisa além de uma sala de luz sem paredes.

Não havia edições de revista com dois anos de atraso, empilhadas em uma mesa, estrategicamente posicionada além do alcance do braço. Não havia um aparelho de televisão pequeno demais para se enxergar. Provavelmente não havia nada disso porque não existia chão para se posicionar estrategicamente uma mesa, nem paredes para se dependurar um aparelho de televisão platônico.

A única coisa indicando que aquilo não era somente uma sala de luz sem paredes, mas também funcionava como sala de espera, era a sensação inconfundível de hora marcada.

Então é assim que encontramos Lazaro. Completamente perdido, ignorante sobre seu estado, sem esperança de ser encontrado. Sem esperança de que quem o perdeu de por sua falta ou que pelo menos sinta que esta carregando menos peso que o normal nos bolsos ou na pochete. Ele pensou que talvez tenham percebido sim, mas nesse caso a prioridade se tornou atualizar o guarda-roupa. O tipo de coisa que sentia não precisar mais se preocupar. Talvez porque ele já tivesse alcançado um nível em que as pessoas estão “sempre chiques”, ou talvez fosse algo mais complicado.

Sem essas questões de moda para se preocupar, decidiu se preocupar com questões geográficas. Olhou para cima e para baixo mesmo não conseguindo diferenciá-los. Olhou para traz e para frente; pareciam iguais. Andou e pareceu não sair do lugar. Correu e pareceu não sair do lugar. Fez o moonwalker e pareceu não sair do lugar. Então pensou em voar, mas pensou melhor e decidiu que seria uma decepção insuportável voar e parecer não sair do lugar.

Mostrando um ponto de vista diferente, uma figura veio voando em sua direção. Parecia ser um homem normal exceto pelas asas. Era um homem de meia idade, baixinho e forte, com barba e cabelos castanhos, usando um uniforme militar aberto no peito. O rosto parecia familiar de uma forma nada familiar. O homem pousou bem a sua frente, não dando a mínima para a aparente inexistência de chão. Ele ficou lá imóvel, em cima do chão que parecia não existir ou se incomodar com isto.

Neste instante de tensão silenciosa, algumas perguntas cruzaram sua mente.”Eu estou sonhando isso? Será que ele está sonhando isso? Será que eu deveria pedir um autografo?”A figura trajando uniforme militar quebrou o silencio.

 

-E ai meu irmão, o quê que tu manda?- perguntou o soldado alado.

 

– Oi?-Respondeu Lazaro, engolindo seco.

 

– O quê que tu manda?- insistiu o homem, que insistia em falar.

 

– Oi?

 

– Oi, o que meu irmão, Tô te fazendo uma pergunta, tá sabendo?

 

– Sa-be-bendo o que?

 

– É isso que eu tô te perguntando. Se você soubesse, essa conversa não tinha necessidade. Saca?

 

– Acho que não.

 

E como se tivesse dito sim para o noivo, um sorriso surgiu no rosto do Boina verde aerodinâmico (Ele vai dizer seu nome logo para que não seja mais necessário inventar esses apelidos). Não era um sorriso gentil e acolhedor como seria se ele fosse o Rob Williams aerodinâmico, mas foi o melhor possível.

 

– O cara tá por fora ai, Não tá sabendo mesmo!

 

O cara voar era uma coisa, aquela barba era outra. E outra bem mais irritante era ele falar como um marginal de um filme americano feito nos anos oitenta.

 

– Não, eu não estou sabendo de bosta nenhuma, então por que você não me diz. Me diz quem é você e que porra de lugar é esse – ele gritou escondendo o medo embaixo da língua.

 

– Tá me sacaneando? Eu sou o Chuck Norris o cara mais barra pesada da área.

 

– O que?

 

– Chuck Norris, quer que eu soletre? Você quer saber onde você está? Eu te falo. Eu tenho todos os contatos por aqui. Mas a parada não é onde você está é como você está.

 

– Como assim?

 

– Você tá morto. Morreu… tá sabendo?

 

Como se estivesse andando de olhos fechados por uma calçada Lazaro pisou em faço em um buraco que já esperava, mas não tão cedo.

 

– Como assim morto?

 

– Bateu as botas, foi pro saco, já era – completou Chuck, em um tom mais serio que antes.

 

– a bom!

 

Lazaro tentou desviar sua atenção momentaneamente para qualquer coisa que não fosse o rosto cheio de cicatrizes a sua frente. Ele se recusava a pensar naquela aparição como Chuck Norris mesmo que agora tivesse que reconhecer que ele parecia mesmo o Bradock.

-Coloca sua mão em frente à boca e assopra, você vai ver que não tem nenhum oxigênio – Chuck disse impaciente – Você não tá sonhando. Você tá morto. De verdade, meu chapa.

 

– Ok, eu vou me lembrar disso quando eu acordar.

 

– Então acorda logo. Fecha os olhos e acorda.

 

Sonhos esquisitos o perseguiram por toda sua vida. Então quando tinha oito anos, Lazaro criou instintivamente um método para lidar com isso. Ele se tornou capaz de simplesmente fechar os olhos e acordar automaticamente. Sempre funcionava.

 

– Então tenta meu chapa- disse Chuck Norris com ar desafiador como se pudesse ler seus pensamentos.

 

Com ar de quem aceita um desafio respirou fundo, apesar de não sentir a presença de oxigênio ali. Concentrou-se e fechou os olhos.

 

Foi quase sem nenhum choque que ouviu o anjo com voz de marginal, explicar que Lazaro havia morrido dormindo aos vinte e cinco anos. Ouviu com apatia que sua morte havia sido tão apática quanto sua vida. Sem drama aceitou o fato. E quando o anjo lhe perguntou por que estava tão calmo agora, ele respondeu:

 

– A vida é como uma sacolinha de supermercado. Só vale o que você coloca dentro dela. Por si só não vale nada.

 

Chuck Norris levantou voo puxando Lazaro pelos braços. O toque do anjo em seu braço era suave. E apesar de não vento contra seu rosto, ele sabia que estava se movendo rápido. Sabia que estava voando e não era uma decepção, era divertido!

 

Uma sensação de paz futura, próxima e possível. A sensação de ter algo novo e bom para esperar.  Era isso que sentia naquele instante.

Foi enquanto relaxava voando sobre o nada e o nada se distraia mergulhando sob ele sem ser percebido, que uma dúvida banal decidiu num acesso de grandeza ocupar sua mente (elas têm esta mania).

 

– Eu não ouvi falar da sua morte. Quanto tempo faz que você virou um anjo?

 

– Eu sempre fui anjo!- respondeu Chuck, intrigado.

 

– Mas você não era ator?

 

– Ah!  Você acha que eu morri e virei anjo, não é?

 

– É. Não foi não?

 

– Não. Nós que fazemos esse trabalho de buscar vocês na sala de espera, aprendemos com o tempo que os desencarnados reagem melhor a essa parada de morte se a gente usar uma fisionomia e atitudes que vocês estão acostumados. Sacou?

 

– Saquei.

 

– A gente sacou que fica mais fácil pra vocês, se a primeira figura que vocês enxergam é um ídolo ou alguém que vocês admiram.

 

– Ah, tá.

Um sentimento que parecia estar sendo deixado para trás retornou furioso como um ex-marido que não pagou a pensão, recém-liberado da cadeia em uma segunda-feira. Era um sentimento familiar, tinha um quartinho nos fundos reservado para ele e um apelido carinhoso. Pode ir entrando!

Subitamente se tornou menos prazeroso para o nada mergulhar sob Lazaro. O vazio disse precisar de uma mudança de ares, e foi deixar de preencher outros lugares, bem longe dali.

Lazaro agora se via morto e apavorado, sendo guiado por alguém que nem sabe o que é medo. Alguém que está a milhares de anos luz de distância em todos os sentidos possíveis. Um ser que nunca odiou como ele, que nunca riu como ele, e com certeza nunca chorou como ele. Alguém que não conhece o homem. Alguém que pensa que ele  idolatra Chuck Norris!

Com toda essa revolta em seu coração, toda a apatia sentiu que estava sobrando ali. Escorregou rápida e sutilmente por uma artéria, tentando sair de fininho. Mas a artéria estava entupida, então a apatia teve que ficar lá encolhida se fingindo de morta. Enquanto as palavras de ÓDIO, que todo mundo sabe são escritas com a tecla “caps lock” ligada, se multiplicaram até estufa-la através daquela artéria bloqueada (fato esse que se ocorrido antes teria evitado a morte de Lazaro). Morto esse que agora via as coisas sob uma nova perspectiva.

 

“Logo agora que tudo estava indo tão bem!”, alguém pensou, em toda parte no universo.

 

Ele se soltou dos braços de Chuck. Com medo da queda ele fechou os olhos. Alguns segundos depois quando teve coragem para abrir os olhos, percebeu que não tinha caído.

 

– Uai, porque eu não caí?

 

– Caiu de onde? Tá maluco?

 

– Tanto faz. A parada é que eu não vou com você. Não vou pra lugar nenhum e ninguém vai me obrigar. E se você acha que é homem pra isso…

 

– Você tem que segurar sua onda- Chuck o interrompeu, com um sorriso – Livre arbítrio é a parada que rola por aqui. Se você quiser ficar aqui você fica. Vai quando quiser. Tá limpo.

Da última vez que se sentiu tão envergonhado, tinha nove anos e estava chorando dentro da sala de aula por pensar que tinham roubado a caneta de desenho que tinha ganhado do pai. Quando explicou para a professora o motivo do escândalo, ela perguntou se era aquela caneta presa na gola de sua camisa, e ele respondeu que sim. Era vergonhoso ser pego de surpresa e não conseguir inventar uma mentira a tempo.

 

-Então eu não sou obrigado a ir com você?

 

-Claro que não, se você quer ficar aqui, fica.

 

– Ok.

 

-Agente se vê, até mais. Com essa resposta Chuck desapareceu dentro da luz. E mesmo duvidando da existência de sua bunda e do chão, Lazaro se sentou e esperou.

 

Mesmo sem a existência de tempo, as horas pareceram passar. Mesmo sem a existência de tempo os dias pareceram passar. Os meses esperaram na fila pela sua vez de parecer passar. Os anos alegaram que era seu direito legítimo e inalienável parecer passar. E os séculos exigiram seu direito de parecer passar através de greve de fome e protestos de nudez. Já a revolta dos milênios o desgastou muito, e Lazaro prefere que não se comente essa derrota.

Enquanto o tempo não passava, ele teve muito dele para pensar sobre cada coisa que fosse possível pensar a respeito. Acabou percebendo que não tinha muita variedade, e se perguntando se estava variando.

Pensou sobre cada coisa quantas vezes foi possível. Enquanto os pontos de vista se alternavam e zig-zagueavam dentro de um círculo, todas as coisas ganhavam e perdiam importância dentro de sua mente. Vida e morte, tempo e remorso. Uma chance de felicidade que deixou escapar. Traições que sofreu e traições que cometeu. As escolhas que fez. Que escolhas fez?

Procurando uma distração ele enfiou a mão no bolso e achou seu celular. Todas as barras de sinal estavam cheias. Cobertura impressionante no mundo dos mortos. Ele tentou ligar para sua mãe, mas o que ouviu foi o seguinte.

 

-Bem vindo ao “Alô Senhor”, sua linha direta para falar com o criador- Disse a atendente eletrônica.

 

Lazaro se sentiu aliviado que depois de tantos acontecimentos estranhos e incômodos, este era somente incomodo.

 

Para solicitações sobre um futuro melhor aperte um. Para louvar graças concedidas aperte dois. Para reclamações e dúvidas, aperte três. Para verificar possíveis reencarnações em outros planetas; aperte quatro. Falar com o criador; aperte cinco.

 

Ele apertou cinco.

Jeová, neste momento está ocupado tenha fé e ele responderá o seu recado. Jeová, o ultimo a sair e o primeiro a entrar. Há mais de cem mil anos no mercado sempre, com tudo muito bem profetizado. Jeová, nesse a gente pode confi…

Uma voz que agrega todas as qualidades admiráveis do universo, uma sabedoria obviamente inalcançável, serenidade provinda da onisciência e firmeza da onipotência. Isso era tudo que esperava reconhecer naquela voz, do outro lado da linha. Foi tudo que não ouviu. Por que era sua própria voz.

A conversa mono vocálica durou as ultimas horas da existência. Lazaro reclamou e questionou tudo que havia ensaiado. Deus respondeu usando argumentos para os quais ele não tinha contexto, capacidade ou saco para compreender.

Lazaro reagiu com ofensas, chorando, mostrando o dedo e outros gestos e movimentos corporais. Deus respondeu com “Eu te amo, tu és meu filho”. Então Lazaro se acalmou, chorou um pouco mais e por fim agradeceu.

Quando estavam prestes a encerrar a ligação, ele se lembrou da suposição que havia começado tudo. Que Deus ou alguém em algum cargo próximo ao dele, acreditava que todo mundo na terra era fã do Chuck Norris. O que sugeria incapacidade de interpretar humor humano. Diferenciar admiração real de uma piada. Algo que seria difícil para um alienígena nos observando de um disco voador talvez, mas não deveria ser para Deus.

Depois de explicar tudo isso com eloquência, Lazaro fez uma sugestão. Ele sugeriu que Deus descesse a terra para passar uma vida como humano. Não um profeta ou um salvador, só um humano comum, sem nada de importante para fazer em sua vida.

Nenhum proposito, além dos que o homo sapiens regular pode encontrar. Alguém nascido de pais comuns, escolhidos aleatoriamente. Sem nada que pudesse chamar a atenção, seja fisicamente ou por sua personalidade. De preferencia alguém feio ele adicionou depois de pensar um pouco. E dessa vez, ele poderia ser uma mulher.

A vida teria que ser completa, até o fim. Sem crucificação ou subir ao céu. Ou qualquer outro plano de fuga, pra quando as coisas ficarem chatas demais. E por ultimo, quando você estiver lá, tente assistir algum filme do Chuck Norris.

Deus concordou com todos os termos, pediu um momento.  Imediatamente desceu ao corpo de uma criança qualquer em um lugar qualquer.

Toda aquela vida passou e terminou enquanto Lazaro aguardou na linha por dez segundos. Então deus pegou o telefone de novo para dizer uma ultima coisa.

 

-Obrigado por ter aguardado, desculpe pela demora.

 

-Tudo bem.

 

– Eu entendo.

 

E foi o fim da criação.

Publicado por paulo carvalho em: Agenda | Tags: , , , , , ,
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