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conto da noiteO Conto da Noite
Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

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O fim do resto [conto]

Imagem | GörlitzPhotography – Flickr CC

No futebol da educação física do colégio o primeiro a ser escolhido não é só o melhor. Ele é o melhor, o mais legal, o mais bonito, com um futuro brilhante, inteligente e o orgulho do Sr. e da Sra. Oliveira. Daí para baixo vem o resto, encabeçados pelos melhores amigos dos melhores, depois um goleiro, alguém que joga mais ou menos mas é chato, e o ruim. Esse é a escória da sociedade, a maçã podre, o menino sem futuro e peso morto. Esse era eu. Deveria ter me matado quando tinha 17 anos. Naquela noite com a Sara, em que ela estava peladinha deitada na minha cama, pronta para o amor, e eu não consegui fazer nada. Aquela deveria ser a primeira e última vez que isso aconteceu. Mas ela estava bêbada, não lembrou do que tinha acontecido na noite anterior, e eu não me matei. Teria poupado minha alma, e a humanidade, de todos esses anos de merda.

Acabei dormindo no sofá assistindo “só é feliz e saudável quem tem…”. Não sou nem feliz e nem saudável. Nem tenho nada. Quem é feliz e saudável nem sabe que eles ficam vendendo estas porcarias toscas na madrugada. Enquanto eu fervia a água para o café me imaginei numa casa grande, com um par de carrões na garagem, num condomínio, de terno, fazendo café numa daquelas máquinas que eles vendem na madrugada. A Sara descendo as escadas com as crianças, desviando do nosso Dachshund, que ia chamar Cofap. Talvez seja melhor eu voltar a dormir assistindo algum programa de igreja. Esse calor é medonho, comecei a suar antes mesmo de começar a viver. O sofá, minha roupa, meus pensamentos, esta tudo ensopado de suor.

Caguei fumando um cigarro e fui direto para o banho. Não adianta colocar o chuveiro no modo verão, a água é quente porque o sol é quente, o tijolo da parede esta quente, o cano esta quente, o inferno esta quente. Depois fiz um café quente, tomei fumando uma ponta que queimou meu dedo, peguei o táxi, liguei o ar condicionado e saí para trabalhar.

Desci a Radial Leste inteira até o centro sem pegar um passageiro. Subindo a Avenida Ipiranga, ali na altura da Praça da República, três estudantes fizeram sinal. “Quanto fica uma corrida até a Barra Funda?” “Pra vocês três?” “É.” “Faço vinte para cada um.” “Tá muito caro!” “É bandeira dois, tem o trânsito desse horário, no taxímetro vai dar mais.” “Tudo bem.” Como cavalheirismo virou machismo, o cara veio sentado na frente e as duas garotas foram atrás. “Vocês cobram muito caro, por isso que todo mundo só pega Uber.” “Se cobrando caro não sobra dinheiro nem para tomar café com leite, se eu cobrar menos só vai ter água quente.” “Mas também, você quer tomar café com leite todo dia?” “Você não?”

Deixei os três na subida da rampa do terminal e fui rodar. Passando na frente do fórum da Barra Funda um engravatado me parou. Entrou no banco de trás meio atabalhoado e ofegante. “Para um pouco antes da saída daquele estacionamento ali. Pode ficar com o taxímetro ligado.” Porque não ficaria? “Nós vamos ter que seguir um carro. Você é taxista, deve ter experiência dessas coisas. Ela não pode perceber.” “Tudo bem.” Não, não tenho direito a uma vida tranquila. Um carro prata, desses grandes de madame, saiu do estacionamento. “Ali, aquele SUV, fica com ele.” O tom dele era de investigação policial que ia dar bosta.

Fomos para as Perdizes. Subimos a rua Tucuna, desembocamos no Parque Antártica e o SUV parou numa farmácia. Uma loira de uns quarenta anos, dessas de fazer muita garota de vinte parecer uma criança, desceu e entrou na farmácia. “É a minha esposa.” “Parabéns.” Comecei a reparar que ele tremia e tinha uma cara que de idiota se transformava em psicótica com o passar do tempo. “Ela quer o divórcio. Tenho certeza que ela esta me traindo.” Parece que essa corrida é uma ameaça aos meus planos de uma vida pacata e tranquila. Me sentia perdendo a chance de dizer: “Você não quer descer aqui e refletir melhor sobre tudo isso? Procura ajuda. Não precisa pagar a viagem. Boa sorte. Até nunca mais.”

“Olha lá!” A loira de cabelos reluzentes e pernas grossas de um metro e meio saiu da farmácia e entrou no carro. “Você conseguiu ver o que tinha na sacolinha? O que ela comprou? Foi muito rápido. Tenho certeza que não foi remédio.” Já não me preocupava mais em responder com a esperança de que isso fosse entendido como um sinal para ele parar de falar e sair logo do carro. “Continua atrás dela. Vamos, vamos.” Agora meus pensamentos já seguiam mais na direção de “puta merda, não quero ter que ir na polícia. Por favor, desce.”

Nos embrenhamos pelo bairro até sair na Avenida Sumaré. Fomos indo sentido Pinheiros. “Se ela esta pensando que vai me deixar fácil assim ela esta delirando. Não sou otário.” Comecei a sentir pânico cada vez que via a cara dele no retrovisor. “Ela me deve, sabia? Sem mim ela não ia ser nada. Agora ela quer me deixar, e ficar com o dinheiro ainda por cima. Ela esta louca. Quem pagou a faculdade de arquitetura em Barcelona? Quem pagou as roupas, as festas, as joias?  Ela me deve.” Aumentei o rádio. “Baixa isso cara, por favor.”

Chegamos até Pinheiros. Descemos a Cardeal Arco Verde e o SUV entrou num estacionamento depois do cemitério. “Para na esquina de baixo, para na esquina de baixo.” A mulher saiu do estacionamento, andou uns metros na calçada e entrou numa portinha com várias salinhas de profissionais liberais. “Eu sabia que era aquele filho da puta do psicólogo. Aquele papinho de terapia era só fachada. Ele queria mesmo era comer minha mulher. Vou resolver isso agora.” O cara sacou um trinta e oito, desses pequenos, de dentro da pasta. “Fica aqui esperando que quando eu voltar você me leva para casa e te pago o dobro.” Esperei ele entrar na portinha e fui embora para longe dali o mais rápido possível.

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Tiros, carros e explosões [conto]

Imagem | Antimidia

Imagem | Antimidia

Os cornos vinham fugindo dos filhos das putas. Os cornos sobem na calçada da Avenida Paulista, atropelam uns quatro, dezenas de pessoas se esquivam, a lata de lixo voa para a rua e dois carros batem provocando duas mortes. “Ajuda, ajuda, ajuda……..os caras tão atrás da gente pela Paulista……” Os filhos das putas fungando no cangote, tipo corda e caçamba, terminam de matar dois dos atropelados pelos cornos, e jogam um ciclista no chão. “Precisamos de reforços……..estamos na cola deles……..” Os dois voltam abruptamente para a via, os filhos das putas empurram um carro que bate no outro que roda e sai capotando pela saída da Rebouças, levando consigo os que estão atrás. E pelo rádio chegam as novas informações. “Reforços a caminho…….não deixa eles escaparem da vista…….” Mais dois carros se juntam ao bando dos filhos da puta na altura do Hospital das Clínicas, e os cornos respondem com balas, que não respeitam os desejos dos atiradores e acertam paredes, carros e a cabeça de uma mulher que tentava se proteger. “Sai daí, sai daí………..” Então os filhos das putas começam a atirar também, mas usam as mesmas balas mal educadas que atingem vidraças e crianças que faziam aula de inglês. Um rastro de destruição ficava por onde os mestres do desastre passavam.

Dentro do carro dos cornos o clima estava tenso. “Caí para a Marginal……..a Marginal……….vamos sair desse caos do centro, porra…….” “É loucura……..vão pegar a gente na ponte…..” “Então tira eles da nossa cola, porra…….” Do lado dos filhos das putas as coisas não estavam muito diferentes. “Sai da linha de tiro deles, caralho………” “Para de se esconder e atira de volta…….que merda…….” Um contador desavisado que vinha voltando do trabalho para o casa teve o carro arremessado numa banca de jornal na altura da Avenida Brasil. E a devastação vinha avançando junto com o barulho de tiro e batidas. Os filhos da puta já estavam em seis carros quando duas motos saindo de um cruzamento soltaram pregos entrelaçados para rasgar pneus pela Rebouças. Dois filhos das putas ficam para trás causando um engavetamento, outros dois continuam na caçada. Os motoqueiros começaram a atirar com metralhadoras, aquelas pequenas. Um dos filhos da puta derrubou um motoqueiro, o outro continuava bailando entre os carros no trânsito e atirando a esmo. Os cornos do carro conseguiram abrir um semáforo de distância.

Nesse ponto os helicópteros dos jornais já estavam lá em cima e as cenas do caos passavam ao vivo no noticiário. “Vocês estão na televisão……” O rádio anunciou para cornos e filhas das putas. Os caçados desviaram no túnel e cruzaram a Faria Lima a milhão, acertando um carro na traseira, que rodou e ficou parado no meio do cruzamento. O motoqueiro não conseguiu desviar e levantou vôo se estatelando na ciclovia. Mais um carro chegou para reforçar os filhos das putas. “Vamos sair na Marginal sentido terminal João Dias…….vamos para Marginal……” “Já tem dois bondes pra escoltar vocês na Marginal…..” Os cornos entraram pela ponte Eusébio Matoso e caíram na Marginal. Logo a escolta apareceu, vindo da alça de acesso da Avenida Francisco Morato, lançando para o Rio Pinheiros um dos filhos das putas. Eram três cornos com metade do corpo para fora da janela despejando balas em cima dos filhos das putas. Agora eles não tentavam revidar, só desviar dos tiros. De alguma forma todas as balas provocavam estragos. Pelo menos cinco motoristas desesperados jogaram o carro para fora da pista na direção do rio. Ao menos três afundaram. As vítimas de balas perdidas já somavam duas casas decimais. E a loucura continuava sem dar o menor sinal de que algo poderia evitar a carnificina.

A notícia se espalhou rápido, as pessoas estavam paradas em cima da ponte Cidade Jardim para ver o comboio da morte passar. Foi um espetáculo e tanto quando um dos cornos bateu no para-choques e empurrou um dos filhos da putas para baixo de um caminhão, que tombou na pista causando um engavetamento monstro, com explosões de carros e pessoas voando. Passando pelo Parque Burle Marx a artilharia pesada dos cornos teve que recarregar. Agora eles eram em maioria, três para dois, mas os filhos das putas não davam sinal de que iam desistir.  Eram praticamente só os que estavam brincando de bang bang na pista. Os filhos das putas aproveitaram para se aproximar. Começaram a cutucar a bunda de um dos cornos, que rodou e ficou para trás. Então foi a vez deles começarem a atirar freneticamente. “Não traz eles pra cá, não traz eles pra cá………” Alguém começou a gritar desesperadamente no rádio dos cornos. Na ponte do Shopping Morumbi mais cinco filhos das putas se juntaram ao bando. “Apenas siga eles……..eles não tem para onde ir……..” A ordem vinha do rádio dos filhos das putas. Os cornos entraram em desespero um pouco mais a frente. “Vamos emboscar eles……….precisamos de ajuda, porra……” “Despistem eles, despistem eles, porra…….”

Se sentindo abandonados, os cornos começaram a entrar em desespero. O bonde que tinha sobrado voltou a carga total para cima dos filhos das putas, que mantinham uma distância relativamente segura, obedecendo as ordens. Os cornos emparelharam: “Não podemos voltar……..porra…..” “Vamos fuder com essa porra toda……” Os dois deram um cavalinho de pau e foram na direção dos filhos das putas como carros desgovernados que só vão parar quando encontrarem uma parede. Os filhos das putas pararam como se fossem uma parede. Os cretinos pisaram fundo. Não os dois. Um deles segurou um pouco o pé. O primeiro explodiu numa porrada violenta nos filhos das putas. O segundo alinhou atrás do show pirotécnico e passou a barreira. Os filhos das putas não sabiam o que fazer e viram os cretinos sumirem pela marginal. Os helicópteros seguiram eles até a ponte Morumbi e a estação de trem. Os cornos abandonaram o carro, entraram na estação e sumiram no meio da multidão.

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Stairway to heaven [conto]

Imagem | Antimidia

Imagem | Antimidia

Vou para Nova York. É lá que os artistas vivem e o dinheiro jorra das gravadoras. Todos os grandes estão em Nova York. Yoko Ono, Jay Z, Alicia Keys. Quem canta em português e toca cavaquinho nunca vai conseguir ir para Nova York. Mas eu canto em inglês, toco violão e gaita como o Bob Dylan. Vão querer saber da história da minha vida e se comover com meu esforço. Eles vão querer me ajudar, fazer tudo que puderem por mim. Vão me ouvir e ficarão surpresos com o timbre da minha voz e a minha batida no violão. Eles vão vibrar com a minha música e querer fazer musicais na Broadway comigo. Meu nome vai estar em neon no letreiro do Madison Square Garden. Minha foto vai sair nos jornais. Minhas músicas não vão parar de tocar nas rádios. Vou ser entrevistado pela Oprah e dormir na suíte presidencial do Plaza. “I want to wake up in that city that never sleeps……….and find I’m a number one……top of the list……..king of the hill……a number one…..” Preciso estar no lugar certo, tocando para as pessoas certas. E este lugar é Nova York. Onde o tempo é sempre bom e as luzes fazem você se inspirar e ser feliz. Junto com as melhores pessoas do mundo, que estão em Nova York porque são como eu: talentosas. Só os talentosos vão para Nova York, e eu sou muito talentoso. Todo mundo vai me receber como um rei. Eu mereço comer nos restaurantes mais caros, mereço o glamour, mereço o dinheiro. Não sou qualquer um. Sou educado, inteligente e bonito como as pessoas que moram em Nova York. Não cuspo no chão nem jogo papel na rua como as pessoas por aqui. Uso roupas limpas e passadas. Estou sempre cheiroso. Não vou ficar protestando contra tudo ou reclamando das injustiças feitas com os outros. Estou pronto para sucesso. Por isso eu vou para Nova York, onde tudo acontece. Onde estão os escolhidos. E eu sou um escolhido. Vou andar de limousine tomando champagne cercado de mulheres e fotógrafos. Gisele Bundchen, Caroline Trentini, Raquel Zimmermann. Todas. As pessoas vão querer meu autógrafo e fazer selfie comigo. Ninguém nunca mais vai rir de mim. Todos vão querer estar do meu lado. E eu vou estar sempre sorrindo. Porque em Nova York todo mundo está sempre sorrindo. Lá as leis são cumpridas e não existe corrupção. Não tem gente que fica reclamando e não faz nada. Que só critica. Eles respeitam os artistas e pagam bem eles. Quando estiver em Nova York vou passear no Central Park com meu cachorro, usando cachecol e aquecedor de ouvido por cima da toca. Vou para Nova York de avião, com passagem só de ida. Não quero me despedir de ninguém. Não vou levar nem malas. Nunca vou sentir falta daqui. Lá eu vou ter muitos amigos. Nós vamos andar de táxi amarelo na quinta avenida e comprar na Louis Vuitton. Não existem problemas em Nova York, só soluções. O nome das ruas são números e os semáforos ficam pendurados em fios. Tudo em Nova York é bem pensado. Nada é feito de qualquer jeito. Tudo é diferente. Em Nova York eu vou ser alguém.

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Mosca morta em movimento linear uniforme [conto]

Imagem | Antimidia

Imagem | Antimidia

Droga. Minha vida continua. As marcas na cara dizem que alguém tentou dar cabo dela ontem a noite. As dores no corpo gritam que tento fazer isso faz tempo, e nem isso eu consigo. Mas ao menos cada dia estou mais perto. O sangue no vômito é uma prova incontestável. Não consigo achar motivos para sair da cama. Se eu fosse o Iggy Pop todos os meus problemas estariam resolvidos, mas eu não sou. Então vou ter que continuar enfiando a mão na merda até tirar alguma coisa que salve a minha vida dessa desgraça miserável, ou ela acabe. Será que eu precisaria viver se não tivesse contas para pagar? Vou fazer um café para ver se encontro alguma coragem para encarar o mundo lá fora sem ter um surto de loucura e desespero. Ainda há cigarros, então há esperança. Tem um pedaço de queijo na geladeira, não contava com isso. Sinto a mão de Deus aqui.

Rumo para o bar do Jaime como um rato condicionado num estudo de Skinner. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, mas eu sei quem foi B. F. Skinner e o que ele fazia nos verões passados com as suas cobaias. Não sei onde a filha do Jaime passa as tardes, mas ela nunca está por aqui. Ele não consegue disfarçar todo o desprezo por mim e o resto da humanidade. Coloquei uma nota de dez no balcão e colhi uma garrafa de cerveja e uma dose de pinga. “Eu estive aqui ontem a noite?” O velho carrancudo franziu a sobrancelha e começou a suar. Entendi como um sim. “Preciso de trabalho. Você está sabendo de alguma coisa?” Ele pegou um pedaço de papel e escreveu um endereço.

O lugar era um armazém gigante ali perto. As portas estavam abertas, e um tipo Vic Vega andava de um lado para o outro com um copo de refrigerante numa mão e um cigarro na outra. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, mas eu também assisto aos filmes do Tarantino. “Quem te mandou aqui?” “O Jaime, do bar. Perguntei de trabalho e ele me deu seu endereço.” “E você aguenta o trabalho pesado?” “Se eu não aguentar você não me paga.” “Fechado. São cem mangos. Espera com o resto ali que o trabalho já está chegando.” “Tem um cigarro?” O cara ficou me olhando como seu eu tivesse falado qualquer coisa absurda, tipo, você chupa pinto? “Não.”

Fui me juntar aos outros. Fiz um sinal e o camarada com cara de marinheiro sem navio me deu um pouco de tabaco e um guardanapo de lanchonete. Éramos seis. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, mas eu sei que esse é um livro do Maria José Dupré adaptado para a televisão e o cinema, mas não tem nada a ver com o contexto aqui. Sei o que é contexto também. E estamos falando só de seis pessoas que não falavam nada, e a maioria preferia ficar olhando para baixo a maior parte do tempo.

Três caminhões refrigerados entraram no depósito ao mesmo tempo que o metido a chefe que não era chefe de porra nenhuma gritou: “Vamos cambada de vagabundos. Chegou o trabalho.” Eles abriram as portas e entre as carcaças mortas e penduradas por um gancho havia caixas com sabe-se lá o que. “Vamos seus preguiçosos, todas as caixas para fora. Rápido.” Alguém tirou um par de tábuas de madeira de não sei da onde e fez uma rampa no primeiro caminhão. Cada caixa devia pesar uma duas toneladas. Ok, não eram duas toneladas, foi só uma ironia. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, mas eu sei usar figuras de linguagem.

Tinha um moleque tosco que queria provar alguma coisa para não se sabe quem. Enquanto todos os outros vagabundos fodidos descarregavam uma caixa ele descarregava duas. Quando começamos o segundo caminhão tinha a sensação de que não ia conseguir chegar até o fim daquela empreitada. O Vic Vega apareceu na frente da rampa e gritou para mim: “Ei, estorvo, se não aguentar eu não pago, lembra?” Os tiros começaram enquanto ele ria. Um o acertou em algum lugar e ele caiu. Me escondi no fundo do caminhão e só escutava gritos, tiros e o estalar dos metais. De repente o caminhão começou a se mexer, saiu do galpão e acelerou sem dó pela rua.

Me sentia como o Eddie Murphy nas primeiras cenas de Um tira da pesada I. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, e ter desperdiçado a adolescência assistindo Sessão da Tarde, mas e daí caralho? O caminhão parou me lançando para o chão e o fundo do baú simultaneamente, confirmando violentamente todas as leis de Newton. Foda-se se eu sei ou não as três malditas leis de Newton. Sai correndo e pulei no meio do trânsito. Era um semáforo. Escutei a porta da cabine do caminhão abrir e um grito de “Ei!” e corri como nunca meio abaixado até conseguir virar a esquina. Me certifiquei de que não estava sendo seguido e percebi que estava todo cagado e mijado. As pessoas desviavam de mim e eu tremia como uma máquina de lavar roupas velha. Fui para casa antes que alguém me oferecesse ajuda.

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O surto

Imagem | Antimidia

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A cabeça de Aguinaldo estava martelando. Ele precisava ter uma ideia. Uma daquelas que muda o destino da humanidade. Precisava de dinheiro. Precisava de muito dinheiro rápido. O mundo estava ruindo ao seu redor, como o final de Scarface quando o Al Pacino enfia a cara numa montanha de pó. E ele não conseguia pensar em nada. Só sabia que precisava de dinheiro. Muito dinheiro. Para uma casa, para um carro, a escola das crianças, a viagem para a Disney. Tinha que ser em dólar. Aguinaldo andava de lá para cá, com a mão direita apoiando a arma na cabeça, mas a ideia não vinha. Ele precisava de dinheiro grosso, não uns trocados. Tinham que ser maletas transbordando dólares igual nos desenhos animados da televisão. E tinha que ser rápido. A ideia tinha que ser algo monstruoso. Daquelas que resolvem todos os problemas e não dão muito trabalho para colocar em prática. Daquelas que rendem milhões para quem fica sentado no sofá cercado de mulheres, tomando champagne e fumando legítimos charutos cubanos. Daquelas que só precisam de uma vez e depois nunca mais.

Era uma mega-sena. Aguinaldo precisava acertar na mega-sena e ficar com todo o dinheiro. Para comprar roupas, colares e tênis. Tinha que ser muito dinheiro. Quilos e mais quilos de ouro. Em tantas barras que ele ia usar uma como peso de porta e outra como peso de papel. As pessoas iam chegar, e perguntar sobre o dinheiro, sobre a ideia. Ele não tinha nada, só um trinta e oito com cinco balas e as mãos tremendo. Sentava, levantava. Fumava um cigarro depois do outro, e nada. Tudo que ele conseguia pensar era que precisava de dinheiro. Precisava de dinheiro rápido. Em dólar, ouro, latinha, papelão. Em qualquer coisa que valesse muito. Tinha que ser muita coisa de qualquer coisa. Depois ele ia viajar, conhecer o mundo num iate cheio de garotas peladas e sexo e droga e rock’n roll. A ideia tinha que ser tão boa que ia sair no jornal. Todo mundo ia saber e todo mundo ia querer ter tido. Uma ideia simples e perfeita. Que nunca ninguém tinha tido. E ele pensava e pensava e pensava. Tinha que pagar o condomínio, o motorista, o jardineiro, a empregada. Era de muito dinheiro que ele precisava.

Mas ele precisava da ideia. Aguinaldo sabia que ela estava lá, na sua cabeça, mas ela não saia. Tinha alguma coisa prendendo. Estava quente, vermelha, suando. A ideia queria explodir, mas não explodia. E ele batia, batia e batia com a mão e a arma na cabeça. Se agachava e chorava como uma criança perdida no supermercado. Precisava de dinheiro. Precisava de uma fortuna com filhos bonitos e inteligentes. Precisava de um cofre como o do Tio Patinhas para nadar em dinheiro com a sua escolhida. Não podia demorar. Não podia ser pouco. Não podia dar trabalho. E ele deitou, respirou fundo, sentiu o coração disparar. Precisava de dinheiro. Para fazer uma festa como a do Conde de Montecristo e mostrar para o mundo que ele tinha conseguido. Para comprar balões, castelos e pessoas. O prazo já tinha acabado. Ele precisava de muito dinheiro agora. Não dava mais para esperar. A ideia tinha que vir. As pessoas iam querer saber, iam querer ver, iam querer tocar. Ele precisava de caminhões com dinheiro até o talo.

Sem a ideia não ia ter dinheiro, sem o dinheiro não ia ter a festa, a vida fácil, nem helicóptero. Ele precisava de tanto dinheiro quanto o Cidadão Kane, para poder perder um milhão por mês por toda a vida. Ele precisava de mais dinheiro que os mafiosos dos filmes do Scorsese. E tinha que ser rápido, como no cinema. Como no Lobo de Wall Street, de uma cena para outra. Porque ele não tinha tempo. E Aguinaldo chorava e arrancava os cabelos para tentar fazer a ideia sair. Para poder fazer caridade por aqueles que ele achasse que merecessem. Para ser feliz como Jack Nicholson pulando de paraquedas com o Morgan Freeman em Antes de Partir. Ele olhava para os lados, escutava os passarinhos cantando, esperava que a ideia surgisse como música para os seus ouvidos. Que finalmente todas as respostas saíram de sua boca quase como que por encanto. Não ia chegar por telefone, ou pela internet. Ia ser tão natural que ele nem ia perceber. Quando visse já estaria com todo dinheiro. Tomando marguerita numa praia do caribe. Ele precisava sair daquela casa, sentir o vento na cara trazer a ideia a tona como uma semente germina para ser uma grande árvore.

Aguinaldo marchava pela rua perseguindo a ideia. A cabeça continuava martelando sem parar. Vermelha, quente, suando. Precisava de dinheiro. De muito dinheiro. Ele via pessoas com muito dinheiro passando nos seus carros, saindo dos prédios. E ele precisava de mais dinheiro do que elas. E tinha que ser rápido. Como se soubesse exatamente o que fazer ele entrou num banco atirando primeiro nos dois seguranças, e depois no caixa que não entendeu o que ele disse. Ele precisava de muito dinheiro, rápido, dentro de uma sacola. Para comprar um apartamento duplex na beira praia, um sítio para descansar. Ele precisava do dinheiro de todos os caixas, e do cofre, e do bolso das pessoas que estavam lá. Precisava de todo dinheiro do mundo rápido, sem perguntas, sem gaguejar. É só colocar tudo dentro do saco. Rápido. Mais, mais, mais. As moedas também. Tudo. Todo o dinheiro. A polícia chegou. Cercou todo o lugar com carros e sirenes. Começou a falar alto num megafone. Aguinaldo tinha que fugir dali. Com todo o dinheiro num saco. Rápido. Ele abriu a porta e sai correndo. Ele deu seu último tiro na direção do megafone que mandava ele parar, e a polícia fuzilou Aguinaldo antes dele chegar até a esquina.

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