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conto da noiteO Conto da Noite
Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

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O surto

Imagem | Antimidia

Imagem | Antimidia

A cabeça de Aguinaldo estava martelando. Ele precisava ter uma ideia. Uma daquelas que muda o destino da humanidade. Precisava de dinheiro. Precisava de muito dinheiro rápido. O mundo estava ruindo ao seu redor, como o final de Scarface quando o Al Pacino enfia a cara numa montanha de pó. E ele não conseguia pensar em nada. Só sabia que precisava de dinheiro. Muito dinheiro. Para uma casa, para um carro, a escola das crianças, a viagem para a Disney. Tinha que ser em dólar. Aguinaldo andava de lá para cá, com a mão direita apoiando a arma na cabeça, mas a ideia não vinha. Ele precisava de dinheiro grosso, não uns trocados. Tinham que ser maletas transbordando dólares igual nos desenhos animados da televisão. E tinha que ser rápido. A ideia tinha que ser algo monstruoso. Daquelas que resolvem todos os problemas e não dão muito trabalho para colocar em prática. Daquelas que rendem milhões para quem fica sentado no sofá cercado de mulheres, tomando champagne e fumando legítimos charutos cubanos. Daquelas que só precisam de uma vez e depois nunca mais.

Era uma mega-sena. Aguinaldo precisava acertar na mega-sena e ficar com todo o dinheiro. Para comprar roupas, colares e tênis. Tinha que ser muito dinheiro. Quilos e mais quilos de ouro. Em tantas barras que ele ia usar uma como peso de porta e outra como peso de papel. As pessoas iam chegar, e perguntar sobre o dinheiro, sobre a ideia. Ele não tinha nada, só um trinta e oito com cinco balas e as mãos tremendo. Sentava, levantava. Fumava um cigarro depois do outro, e nada. Tudo que ele conseguia pensar era que precisava de dinheiro. Precisava de dinheiro rápido. Em dólar, ouro, latinha, papelão. Em qualquer coisa que valesse muito. Tinha que ser muita coisa de qualquer coisa. Depois ele ia viajar, conhecer o mundo num iate cheio de garotas peladas e sexo e droga e rock’n roll. A ideia tinha que ser tão boa que ia sair no jornal. Todo mundo ia saber e todo mundo ia querer ter tido. Uma ideia simples e perfeita. Que nunca ninguém tinha tido. E ele pensava e pensava e pensava. Tinha que pagar o condomínio, o motorista, o jardineiro, a empregada. Era de muito dinheiro que ele precisava.

Mas ele precisava da ideia. Aguinaldo sabia que ela estava lá, na sua cabeça, mas ela não saia. Tinha alguma coisa prendendo. Estava quente, vermelha, suando. A ideia queria explodir, mas não explodia. E ele batia, batia e batia com a mão e a arma na cabeça. Se agachava e chorava como uma criança perdida no supermercado. Precisava de dinheiro. Precisava de uma fortuna com filhos bonitos e inteligentes. Precisava de um cofre como o do Tio Patinhas para nadar em dinheiro com a sua escolhida. Não podia demorar. Não podia ser pouco. Não podia dar trabalho. E ele deitou, respirou fundo, sentiu o coração disparar. Precisava de dinheiro. Para fazer uma festa como a do Conde de Montecristo e mostrar para o mundo que ele tinha conseguido. Para comprar balões, castelos e pessoas. O prazo já tinha acabado. Ele precisava de muito dinheiro agora. Não dava mais para esperar. A ideia tinha que vir. As pessoas iam querer saber, iam querer ver, iam querer tocar. Ele precisava de caminhões com dinheiro até o talo.

Sem a ideia não ia ter dinheiro, sem o dinheiro não ia ter a festa, a vida fácil, nem helicóptero. Ele precisava de tanto dinheiro quanto o Cidadão Kane, para poder perder um milhão por mês por toda a vida. Ele precisava de mais dinheiro que os mafiosos dos filmes do Scorsese. E tinha que ser rápido, como no cinema. Como no Lobo de Wall Street, de uma cena para outra. Porque ele não tinha tempo. E Aguinaldo chorava e arrancava os cabelos para tentar fazer a ideia sair. Para poder fazer caridade por aqueles que ele achasse que merecessem. Para ser feliz como Jack Nicholson pulando de paraquedas com o Morgan Freeman em Antes de Partir. Ele olhava para os lados, escutava os passarinhos cantando, esperava que a ideia surgisse como música para os seus ouvidos. Que finalmente todas as respostas saíram de sua boca quase como que por encanto. Não ia chegar por telefone, ou pela internet. Ia ser tão natural que ele nem ia perceber. Quando visse já estaria com todo dinheiro. Tomando marguerita numa praia do caribe. Ele precisava sair daquela casa, sentir o vento na cara trazer a ideia a tona como uma semente germina para ser uma grande árvore.

Aguinaldo marchava pela rua perseguindo a ideia. A cabeça continuava martelando sem parar. Vermelha, quente, suando. Precisava de dinheiro. De muito dinheiro. Ele via pessoas com muito dinheiro passando nos seus carros, saindo dos prédios. E ele precisava de mais dinheiro do que elas. E tinha que ser rápido. Como se soubesse exatamente o que fazer ele entrou num banco atirando primeiro nos dois seguranças, e depois no caixa que não entendeu o que ele disse. Ele precisava de muito dinheiro, rápido, dentro de uma sacola. Para comprar um apartamento duplex na beira praia, um sítio para descansar. Ele precisava do dinheiro de todos os caixas, e do cofre, e do bolso das pessoas que estavam lá. Precisava de todo dinheiro do mundo rápido, sem perguntas, sem gaguejar. É só colocar tudo dentro do saco. Rápido. Mais, mais, mais. As moedas também. Tudo. Todo o dinheiro. A polícia chegou. Cercou todo o lugar com carros e sirenes. Começou a falar alto num megafone. Aguinaldo tinha que fugir dali. Com todo o dinheiro num saco. Rápido. Ele abriu a porta e sai correndo. Ele deu seu último tiro na direção do megafone que mandava ele parar, e a polícia fuzilou Aguinaldo antes dele chegar até a esquina.

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A esquina e o fim

Imagem | AntimidiaBlog

Imagem | AntimidiaBlog

[blitz]

– Boa noite. Documentos do Senhor e do veículo, por favor.

– Sim Senhor, aqui estão.

– Da onde o Senhor está vindo e para onde vai?

– Estou voltando do trabalho para casa.

– O Senhor pode descer do veículo, por favor.

– Claro, algum problema policial?

– Estamos verificando. São só procedimentos de rotina. O Senhor está de posse de algo ilegal?

– Não Senhor.

– Então, por favor, retire tudo dos bolso e coloque em cima do capô.

– O que está acontecendo aqui? Sou suspeito do que?

– Não sabemos ainda Senhor, estamos averiguando, são só procedimentos de rotina. Coloque as mãos na cabeça e abra as pernas por favor?

– Porque estou sendo revistado? Eu tenho direito de saber porque estou sendo revistado.

– Atitude suspeita, Senhor.

– E qual foi a minha atitude suspeita? Eu estava no limite da via, usava cinto de segurança, estava com as duas mãos ao volante, o que eu estava fazendo de suspeito?

– Sua atitude era suspeita, Senhor. O que há no porta-malas do veículo?

– Não sei, umas caixas, panos, estepe, coisas assim.

– O Senhor não sabe o que carrega no porta-malas, Senhor? O Senhor pode abrir para mim, por favor?

– Posso, o que o Senhor está procurando?

– Ainda não sei, Senhor. O que há naquela maleta.

– Somente alguns papéis.

– O Senhor pode, por favor, abrir para mim ver?

– Claro. Está vendo, papéis.

– Sobre o que são esses papéis?

– Planilhas, contas. Sou comerciante, são algumas coisas da empresa.

– Examine estes documentos Segundo Sargento. Agora nós podemos ver o interior do veículo?

– Como assim examine estes documentos? O Senhor não pode mexer nas minhas coisas assim.

– Estou analisando os documentos que o Senhor me mostrou e que foram encontrados numa pasta no porta-malas do seu veículo. Aconselho que o Senhor se acalme e me mostre o interior do veículo.

– Como assim se acalmar? O que está acontecendo aqui?

– Se o Senhor tem algo à esconder aconselho que me conte agora, pois nós vamos achar.

– Do que o Senhor está falando? Quer saber, a atitude do Senhor é que é suspeita. Que procedimentos de rotina são esses? Mas eu não tenho nada para esconder. O que o Senhor quer ver?

– Abra o veículo, por favor?

– Estes CDs no porta trecos são do Senhor?

– É isso, sou culpado por comprar produtos piratas? Pode me prender.

– Acalme-se Senhor.

– As MP3 do pen drive também são piratas. Eu me entrego.

– Irei confiscar esses itens. O Senhor pode abrir o porta-luvas, por favor.

(click)

– O que são esses papéis?

– A nota fiscal do carro, umas contas, não sei.

– Posso ver essa nota fiscal?

– Por que? Eu posso perguntar por que?

– A sua atitude suspeita, e irônica, diz, segundo o manual, que o Senhor está tentando ocultar algum crime. Já sabemos que o Senhor não respeita as leis de direitos autorais, agora estamos procurando quais outras lei o Senhor não respeita.

– Eu não tive nenhuma atitude suspeita não. Isso é abuso de autoridade. O Senhor já me revistou, revistou meu carro, e não achou nenhuma evidência de nada suspeito. O Senhor está procurando pelo em ovo, isso que o Senhor está fazendo. Eu tenho meus direitos, e não tenho que te entregar a nota fiscal do meu carro.

– Por favor Senhor, me respeite. Estou fazendo meu trabalho, que é combater o crime. Sua atitude é sim suspeita, e eu posso prendê-lo por desacato.

– Olha, eu sou um cidadão de bem. Eu respeito a polícia, acho que o trabalho da polícia é desvalorizado. Mas eu não sou bandido.

– Então me mostre isso, Senhor. Me entregue esta nota fiscal e me deixe fazer meu trabalho que a verdade aparecerá.

– Tudo bem, desculpe. Estou um pouco nervoso, é a primeira vez que passo por isso.

– A loja do Senhor deve estar indo muito bem, este carro é bem caro. Com o que o Senhor trabalha?

– Acabou, me desculpe. O Senhor é da Receita Federal? Eu não fiz nada de errado, nem tive nenhuma atitude suspeita. Ou o Senhor me leva preso e me deixa chamar meu advogado, ou me deixa ir embora.

[delegacia]

– Eu só falo quando o meu advogado chegar.

– O Senhor que sabe, mas pode estar acabando com as suas chances de um acordo.

– Um acordo sobre o que? Sou acusado do que? O Senhor não tem nada!

– Bom, já sabemos que o Senhor não respeita as leis de direito autoral. Podemos provar isso. Também sabemos pelos papéis da sua pasta, e a nota fiscal do seu veículo, que a sua renda é incompatível com seu estilo de vida.

– Não falo mais nada enquanto o meu advogado não chegar.

– Viu, isso é uma atitude de quem quer esconder alguma coisa. Nós já sabemos que o Senhor comete algum crime. A sua renda é incompatível. Não preciso de uma evidência, isso é uma prova.

– Prova do que?

– De que o Senhor cometeu algum crime para comprar um carro que uma pessoa na sua posição não poderia comprar.

– Isso é uma suposição, até o Senhor provar o contrário eu sou inocente. Eu comprei o carro com um dinheiro que eu tinha guardado há muito tempo. Trabalho desde os 12 anos e agora não posso ter um carro?

– Quanto tempo?

– Desde os 12 anos.

– Não tem nada haver com sonegação de impostos? Venda sem nota fiscal? Compra de produtos sem origem declarada? Essas coisas.

– Eu não sei do que o Senhor está falando. Se o Senhor não sabe do que me acusar, como eu vou me defender?

– O Senhor tem filhos?

– Tenho, três.

– Eles estudam em escolas particulares?

– Eu sei o que o Senhor está querendo dizer. Já disse que não respondo nada até meu advogado chegar.

– O Senhor já disse isso três vezes, eu só estou querendo ajudar o Senhor a dizer a verdade.

[conversa com o advogado]

– Como assim eles podem me manter preso por até três meses?

– Além de você ter violado as leis de direito autoral, existe um indício de que você cometeu algum crime para ter dinheiro e comprar o carro, por enquanto é só isso. Sei que eles solicitaram junto à Receita Federal sua declaração de imposto de renda, da sua empresa e da sua esposa. Se há algo de errado eu preciso saber agora.

– Como assim? Eles não podem fazer isso. Era só uma blitz, o documento está em dia, minha carta também. Eu só quero ir para casa.

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O gordo contra o mundo

Imagem | Antimidia

Imagem | Antimidia

– O Senhor está bem?

– Sim, e o Senhor?

– Também. Pensou em uma resposta para minha pergunta? No porque nós dois estamos aqui?

– Pensei, mas não sei direito por onde começo.

– Pode ser da onde você quiser.

– Pode ser de quando eu queria fazer alguma coisa?

– Que coisa?

– Eu ainda não sabia o que era, mas eu queria fazer alguma coisa que mudasse tudo.

– Como assim mudasse tudo?

– Que as coisas fossem melhor, sabe?

– Queria que você falasse mais dessas coisas.

– Então, eu queria mudar elas, e ia começar pelo preconceito contra os gordos. Você sabia que eles são a maioria da população do Brasil e representam quase um terço da população mundial?

– Sabia, mas porque você pensou nos gordos e não nos negros, por exemplo. O racismo não te incomoda?

– Claro, claro que o racismo me incomoda. Eu pensei sobre isso, em começar a mudar as coisas por aí, mas eu não poderia virar negro depois que eu nasci branco. Enfim, este é um grande problema, mas eu estaria preso a certas limitações. O gordo também tem uma coisa de diferente, eu pensei. Tem gordos de todos os tipo, ricos e pobres, brancos e negros, católicos e ateus, e todos eles sofrem com o mesmo preconceito, ser gordo.

– Sim, entendo, e você sofria esse preconceito?

– Não, eu só escutava falar, lia notícia. Mas era porque eu era magro, e eu precisava ser gordo para saber o que era isso. Por isso comecei a comer tudo que eu podia até ficar assim, gordo.

– Então o Senhor ficou gordo para poder sofrer preconceito?

– Isso. Me sentia muito mais livre para falar sobre todas as injustiças e julgamentos que os gordos sofrem. Os olhares nos ônibus, a discriminação na hora de conseguir um emprego, o bullyng. Para protestar mandei fazer uma camiseta escrito bem grande: “Sou gordo porque eu quero e posso.” Olha o meu tamanho, e olha que eu era maior, era um outdoor ambulante.

– E o que aconteceu?

– O que acontece com todo gordo. As pessoas se afastam, eu virei motivo de piada. Então eu fui procurar apoio naqueles grupos onde os gordos vão para tentar emagrecer.

– Você queria emagrecer?

– Não. Todo o preconceito começa com essas pessoas. Essa conversa de que o gordo é bonito por dentro, que ser gordo é uma doença, que gordo é preguiçoso, eu descobri que tudo isso é a raiz do problema. A cultura, a velha e culpada cultura. Mas voltando. Esses programas nunca funcionam, só servem para as pessoas ficarem deprimidas, se isolarem. Então eu comecei a falar com essas pessoas. Explicar que ser gordo não é feio, nem crime, nem doença, não significa nada.

– E assim você ia mudar as coisas?

– Isso.

– E as coisas mudaram?

– Não muito, mas cheguei a algumas conclusões.

– Porque você acha isso?

– As pessoas me olhavam com cada vez mais desprezo. Mas eu percebi que as pessoas que me olhavam assim eram as magras. Quanto mais eu engordava menos atenção me davam. Preferiam ir de pé no ônibus do que ir sentada do meu lado. Não era assim que eu ia mudar as coisas. As pessoas gordas se aproximavam, vinha conversar, conseguiam enxergar as coisas diferentes. A ideia é que as pessoas sejam iguais, mesmo se parecem diferentes.

– E como você se sentia?

– Eu me sentia bem em ser gordo e poder falar sobre tudo isso. O que eu sentia na pele era o preconceito dos magros. Cheguei até a ser entrevistado por uns jornais. Tenho tudo guardado. Mas aquele sentimento de mudar as coisas continuava martelando a minha cabeça. Sabe, eu nasci para mudar as coisas. Acho que sou meio que predestinado.

– Como assim?

– Por exemplo, a família do meu pai e da minha mãe se odiavam. O meu avô, por parte de pai, era prefeito, e meu avô, por parte de mãe, presidente da câmara de vereadores. Eles viviam brigando. Mas aí eu nasci e mudei as coisas, porque as duas famílias ficaram amigas e a câmara dos vereadores e a prefeitura começaram a trabalhar juntos e tudo melhorou na cidade.

– E o Senhor acha que foi o Senhor o responsável por essa mudança?

– E não?! As famílias se odiavam mesmo. Tem até história de morte. O Senhor pode ter certeza que não estou aqui por acaso. Estou aqui para mudar as coisas. Só contei essa história para o Senhor entender que sempre foi assim, de mudar as coisas.

– Mas o Senhor estava dizendo que não ia muito bem com relação ao preconceito dos gordos, a relação com os magros era difícil.

– Isso, mas era difícil por causa deles. Com o tempo fui percebendo que as pessoas estavam hipnotizadas pelas ideias dos magros, e foi quando desenvolvi minha teoria de que se todos fossem gordos não haveria preconceito. E, convenhamos, é bem mais fácil, e legal, os magros virarem gordos que os gordos virarem magros.

– Mas o Senhor não acha que querer que todos os magros virem gordos é igual querer que todos os gordos virem magros?

– Sim, mas é diferente, porque os gordos não tem preconceito contra os magros, mas os magros tem preconceito contra os gordos. Mas eu entendo as reclamações de que minha teoria foi bastante radical. Eu também entendo que mudar as coisas é difícil, leva tempo, só de estarmos falando sobre isso já foi uma pequena vitória. Falar do preconceito contra os gordos já é um começo. Já dei o primeiro passo. Mas eu nasci para fazer coisas maiores, mudar tudo.

– Como assim?

– Percebi que para mudar as coisas, e muitas coisas tem que ser mudadas, então tenho que dar vários primeiros passos, entende?

– O Senhor quer dizer um passo de cada vez?

– Não, quer dizer que eu tenho que ser tudo que gera algum tipo de preconceito. Assim eu vou poder sentir tudo, e falar sobre tudo, e mudar todas as coisas. Agora eu vou ser pobre.

– Entendo. Falaremos sobre isso na próxima sessão, os enfermeiros irão acompanhar o Senhor até seus aposentos.

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A luta da batalha perdida

Imagem | Antimidia

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Aconteceu mais ou menos como na música In the end of the world as we know it, do REM, mas não sobrou só um garoto de 13 anos, e nem a coisa toda tinha virado uma festa. Ainda tem um bando de seres humanos por aí. Bando mesmo. Eles se escondem em construções abandonadas, esgotos e acampamentos subterrâneos nas florestas. Se movimentam só a noite, quando as luzes das naves não conseguem iluminar toda superfície do que sobrou da Terra. Alguns dizem que os seres de outro planeta não enxergam sem a luz. Sei lá, já escutei histórias de pessoas que se salvaram por causa disso e de outras que viram cenas que comprovariam que isso não faz o menor sentido. Outros dizem que eles usam a luz como fonte de energia vital para suprir a horda, mas que a lua é muito fraca. Tudo deve ser parte de uma estratégia deles mesmos para confundir o inimigo. Eles tem uns 2,5m de altura e andam sempre em pelotões de centenas. Não usam armas, usam a força física para destruir o que for preciso. Animais, homens, mulheres e crianças. Nada que se mexe se salva. São superiores em número e força. Arrancam uma perna de um corpo como quem tira uma coxa de um frango assado. O fato é que, por via das dúvidas, se alguém tivesse que ir para algum lugar, ia quando não houvesse mais luz do sol, e se escondendo por onde as naves não conseguem iluminar.

O melhor mesmo é não precisar ir para lugar nenhum e ficar quietinho no seu canto. Mas a maconha da tribo do sul estava acabando, e se eles quisessem manter o clima de otimismo nas fileiras do bando eles iam precisar de mais. Por isso o Neb estava tentando chegar até alguma tribo na floresta que pudesse fornecer erva. A princípio ele tentou sair da cidade pela rota do oeste, mas alguma coisa havia fechado o caminho pelos esgotos, era o que dizia um batedor da tribo subterrânea que ele encontrou numa das bifurcações do caminho. “O túnel desmoronou há algumas semanas.” Não restou alternativa senão ir pela superfície. “Vou me atrasar um pouco, mas faço uma parada para evitar a luz do sol no ponto da tribo urbana se for preciso.” “Restam cada vez menos bandos nas construções. Procure algum lugar subterrâneo para ficar durante o dia.” “Não vim preparado para isso, talvez precise de alguma munição.” “Tenho algumas balas aqui, e um silenciador. Você vai precisar se encontrar algum ser de outro planeta perdido da horda e não quiser chamar atenção. O que você tem?” “Pilhas AA e algumas frutas.” “Faz tempo que não como alguma coisa que não seja enlatada.” “Que tal um pente de balas por duas mangas e o silenciador por uma pilha?” “O que eu vou fazer com uma pilha?” “Carregar o rádio?” “Não. Estou com fome.” “Ok, um repolho e duas cenouras. Já é uma sopa.” “Isso mesmo, vai ter festa com as crianças hoje.”

Andar pela superfície mais que dobra o risco de encontrar com a morte em pedaços. Os seres de outro planeta poderiam não ver no escuro, ou enxergar mal, mas eles estavam lá e as naves pairavam literalmente sobre a cabeça dele. A ideia de Neb era conseguir chegar até o limite da cidade com a floresta e arrumar um lugar seguro para passar o dia. Ele usou os túneis do metrô para atravessar o centro da cidade e emergiu na saída da avenida perimetral. Andou cerca de trezentos metros se arrastando por entre os carros batidos e as ruínas até perceber que uma nave de luz vinha escoltando uma horda no sentido contrário da avenida. Carros eram arremessados contra os prédios e grunhidos de horror podiam ser ouvidos cada vez mais perto. O chão tremia. Neb virou em uma rua transversal e começou a procurar um lugar escuro para se esconder. Do outro lado da rua veio um assobio de bem-te-vi. Seguindo o som desesperadamente ele percebeu que os escombros eram um cemitério. A face de uma mulher apareceu de uma das criptas e sinalizou para ele. “Aqui, aqui.” “Preciso de um lugar para ficar até a próxima noite.” “Entre aqui e espere até a horda passar.” Neb viu uma escada e desceu para escuridão. Nunca imaginou que se sentiria tão seguro dentro de uma cripta. O chão tremia com a horda passando. Neb e a sentinela urbana se abraçaram unidos pelo medo. Antes que pudessem perceber o que estava acontecendo os dois estavam transando como se aquele fosse o último ato de suas vidas.

Quando Neb acordou ainda era dia e a luz iluminava a escada da cripta. Lá fora os barulhos da destruição não cessavam. Eles estavam no subterrâneo, o que sempre era mais seguro. Ele levantou, descascou duas laranjas, dividiu um pão e acordou a sentinela, com um beijo, para o desjejum. “Estou indo para oeste, na fronteira com a floresta. Ia pelos esgotos, mas os túneis ruíram.” “Você não soube que as tribos do oeste foram dizimadas?” “Como assim?” “Foi há dois dias. O seres de outro planeta fizeram o demônio lá depois que uma horda foi destruída por um ataque surpresa da tribo da floresta com os homens das cavernas. Eles eram mais de mil e tinham granadas. As notícias dizem que não restou mais nada.” “Preciso de maconha para suprir as fileiras do sul.” “Acho que você vai perder o seu tempo e arriscar a sua vida indo até lá.” Como agradecimento pelas informações Neb deixou uma bebida para a sentinela urbana e se negou a abandonar seu ‘plano A para’ se juntar a resistência urbana. As tropas do sul precisavam de maconha para elevar a moral, o único lugar que ainda tinha era nas terras das tribos da floresta, e sua missão era voltar carregado. As tribos da florestas eram muitas, se mantém por lá desde o começo da invasão, sobreviveram a outros ataques, alguém teria sobrado.

Rastejando pelos escombro Neb conseguiu chegar até o limite da floresta. Havia uma cortina de luz suspensa cercando as fronteiras das árvores. Ele nunca tinha visto aquilo. Pensou que poderia ser uma armadilha, então arremessou um pedaço de pau. Nada aconteceu. Então ele correu na direção da floresta. Foi desviando de árvores até perceber que não tinha mais nenhuma delas. A floresta tinha virado um chão de terra batida. De repente um banho de luz cegou seus olhos. Neb olhou para cima e viu uma nave que irradiava mais luz que o sol. O som da horda de seres de outro planeta chegando fez uma poeira subir no horizonte. Ele se virou e começou a correr na direção das árvores. Se escondeu atrás de uma e esperou eles se aproximarem. No fim Neb conseguiu descarregar todo seu pente de balas antes de ser desmembrado.

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A vida no inferno

Imagem | Antimidia

Imagem | Antimidia

O trabalho nunca assustou Natália. Muito ao contrário. Desde os 15 anos ela já acordava antes do sol nascer para poder estudar e ser secretária do seu tio dentista. Podia até ser uma forma de ele ajudar a família do irmão, que não tinha paradeiro conhecido, mas as seguidas investidas com a mão embaixo da saia de Natália, e seu olhar psicótico, diziam outra coisa sobre as intenções do homem por detrás da máscara. Qualquer coisa seria melhor que ter que conviver diariamente com um boçal. Por isso, quando fez 18 anos e acabou a escola, saiu da clínica para trabalhar numa empresa de telemarketing. Sua missão agora era convencer pessoas que não podem pagar um plano de saúde a pagar por um que não funciona. “O Senhor esta ciente de que, segundo a Organização Mundial da Saúde, o Brasil tem um dos piores serviço público de saúde do mundo? Pior que o da Argélia, Senegal e Cabo Verde, por exemplo.” Ao lado do seu teclado havia uma folha sulfite plastificada com algumas frases que ela poderia recorrer. Tudo sempre começava com um “bom dia, meu nome é Natália e estou contactando o Senhor, em nome da ExploraMed, para oferecer uma oferta especial válida só por hoje.”

Assim que ela desligava o telefone vinham as metas absurdas e os prazos corrosivos. “Pessoal, aqui nós trabalhamos com números.” Eram uma ligação a cada três minutos e no mínimo 20 contratos assinados por dia. “Parece muito, mas se vocês seguirem as técnicas que nós ensinamos é possível.” Informações como a superlotação, “segundo o Tribunal de Contas da União 64% dos hospitais estão sempre com lotação superior a sua capacidade”, ou “consultando os dados do Conselho Federal de Medicina o Senhor vai ver que, entre 2005 e 2012, o Sistema Único de Saúde eliminou 41.713 leitos.” Teoricamente, de posse destes dados, qualquer um deveria se desesperar e pagar até o que não podia para dormir com a consciência tranquila de que se acordasse no meio da noite, tendo um ataque cardíaco, não morreria num chão qualquer esperando a boa vontade de um bom samaritano que se importasse. Mas não era o suficiente. As pessoas precisavam de muito mais que um plano de saúde, assim como Natália, que precisava de muito mais que um salário mínimo para ter alguma perspectiva de não chegar aos 40 anos sem ter atravessado as fronteiras do ritmo casa-trabalho / trabalho-casa.

Foi pensando num futuro melhor que ela começou a ver as etiquetas coladas nos orelhões do centro da cidade com outros olhos. “Oi garanhão, procurando prazer e diversão?” A voz meio masculifeminilazida do outro lado da linha fez ela reparar na palavra Travesti depois do nome Sheila no adesivo. Por um momento ela se sentiu envergonhada, mas não foi o suficiente para parar. “Oi, eu queria saber quanto você cobra.” “Ai gatinha, é só você que quer brincar ou seu namorado também quer participar da festa?” “Que?” “Hum, é só você que quer saborear novas aventuras, não é? São R$250 para fazer essa carinha doce suspirar amor por uma hora, e eu atendo no meu apartamento aqui no centro.” Natália respirou fundo com o valor e desligou o telefone. Em uma hora ela podia ganhar mais que em uma semana sentada numa cadeira incomodando alguém pelo sistema de discagem randômico. Olhando por esse ponto de vista parecia até mais decente. Trabalhando umas duas vezes por dia ela podia até pensar em fazer uma faculdade e ajudar a sua mãe, que sofria limpando banheiro de crianças irritantes filhas de adultos imbecis. Quanto mais pensava mais tinha certeza de que valia a pena correr os riscos, que na verdade não eram consideravelmente maiores que ser menina num ônibus lotado, chegar em casa depois de ter escurecido ou trabalhar como secretária do seu tio.

Enquanto tirava fotos dos anúncios colados pelos orelhões e postes da cidade pensava nos detalhes. Primeiro: ia ter que ter um número de celular secreto, só para aquilo. Ninguém poderia ficar sabendo. Atenderia seus clientes em algum dos hotéis que alugam quartos por hora no centro, e como o cliente que ia pagar ele poderia até escolher qual. Depois, cobraria o dobro para dar a bunda e exigiria que o cliente sempre usasse camisinha. Acreditava que assim estaria evitando os maiores problemas que a profissão oferecia. Agora era a hora de elaborar o anúncio. Com um caderno na mão sentou na cama e começou a ver as fotos que tinha tirado no celular. “Paula Ninfeta. Insaciável. Depiladinha. Anal total. 93327-9869.” Parecia muito vulgar. “Brenda Casada. Para fetiches e fantasias. Homens, mulheres e casais. 93267-9765.” Esse não era chamativo. Depois de olhar dezenas de imagens, e escrever outra dezena de rascunhos, Natália chegou ao anúncio perfeito: “Paola (sempre achou esse nome chic) Amor (ora, do que aquilo se tratava?). Carinho e sexo para homens (não saberia o que fazer com mulheres e se sentiria estranha em 3). 24h (era importante estar sempre a disposição). NOVO NÚMERO DE CELULAR.”

Cheia de confiança e expectativa Natália acordou mais cedo que o habitual. Vestiu sua melhor roupa e se maquiou como quem vai para uma festa de gala. Na entrada da estação de trem comprou um chip novo para o celular e começou a olhar para todos os homens como potenciais clientes. Pensou que eles estariam bem vestidos, afinal, quem pode pagar R$250 por hora tem que ganhar muito bem, e quem trabalha bem vestido geralmente ganha muito bem. Passou na Tele CO. e se demitiu resumindo os motivos em “arrumei um emprego melhor”. Eles insistiram em saber aonde a ponto de Natália se sentir acuada, mas ela se manteve firme. Assinou o que tinha que assinar e dali foi para uma lan house. As risadinhas que o moço dava enquanto ela ditava o que queria escrever na etiqueta a deixaram um pouco envergonhada. Com os adesivos em mãos começou a divulgar seu novo emprego. Deu preferência para os orelhões perto de prédios de vidro ou postes perto de lojas caras. Quando acabou com tudo Natália se sentou num banco na praça e, meio nervosa e meio ansiosa, ficou esperando o telefone tocar.

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