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Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

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Explosão de desespero acumulado

Imagem | Antimidia

Imagem | Antimidia

O sentido da vida é para baixo. Cair, cair e cair. Malditos parasitas roedores desgraçados. Nheq nheq nheq fodendo com a minha cabeça. Sistema binário do caralho. Será que o filho da puta que inventou isso sabia a merda que estava fazendo? São só dois números porra! Dois números de bosta que me perseguem em todo lugar. O cretino e o bastardo. Ficam me seguindo por todos os lados, cagando informações como areia no deserto. Agora não dá mais para andar sozinho por aí. Passamos para o nível dois. Quem não tem facebook, whatsapp e twitter é suspeito, chato, ou idiota. Esquecível. Quase descartável. Segurança é desculpa de quem quer futucar a vida dos outros. Bando de vagabundos antiéticos e imorais. “You talkin’ to me? You talkin’ to me? You talkin’ to me? Then who the hell else are you talking… you talking to me? Well I’m the only one here. Who the fuck do you think you’re talking to? Oh yeah? OK!” Agora vamos começar a brincar. Faz tempo que não faço isso.

Quem tem medo de comer não sabe como é o prazer de uma boa cagada. Não estou de volta porque na verdade nunca fui. Só venha a nós, ao vosso reino, nada! Nunca fui nada. Condenado ao fracasso eterno. Nadar, nadar e morrer na praia. Morrer com o zape na mão. Morrer de rir. Me parece a única certeza disso tudo. Vão-se os anéis e não fica nada. De novo. Nada. Repita. Hora de mudar de estação. Renovamos a esperança, agora vamos continuar indo para merda.“Sunny side up…..such a lovely way to start the day…” Vamos deixar o drama para depois e pensar na parte prática: quem esta chorando e quem esta dando risada? Tem dia que a gente ganha, tem dia que a gente perde, o melhor é ter mais dias do tipo 1 do que do tipo 2. Diria até que o melhor mesmo é tomar café como um rei, almoçar como um príncipe e jantar como um mendigo. Depois que entrar no ritmo você nem percebe mais que o verão acabou. Agora todos os dias são meio cinza.

História é aquilo que está nos livros da escola. Se você não está nos livros da escola é porque sua história não é importante. Não muda a cotação do dólar. O que muda a cotação do dólar é importante. Não sou importante. “I want you to notice; when I’m not around; you’re so fucking special; I wish I was special; but I’m a creep; I’m a weirdo…” Fico a maior parte do tempo em casa vendo filmes velhos e escutando música estranha. Não gosto de lugares com pessoas. Durmo com a televisão ligada. Como feijão com macarrão e batata palha. Não tenho o que dizer mas gosto de ficar falando. Nunca fiz nada que nenhum idiota nunca tenha feito. Também não consigo pensar alguma coisa que seja tão difícil que ninguém nunca tenha pensado. Não sei como é lá porque nunca cheguei.

Passei frio e medo dormindo na rua esperando o ônibus começar a rodar. Assisti as Torres Gemias virem abaixo ao vivo. Estava vidrado na telinha quando o Ayrton Senna morreu porque uma peça soltou do carro. Acompanhei a caçada ao Bin Laden. Lembro do plano cruzado e do dinheiro suado sumindo. Comi comida mexicana, num restaurante alemão, com um garçom palestino. Vi um show do Motorhead com o peito colado na grade da primeira a última música. Ganhei moedas num caça níquel. Já atravessei a ponte Rio-Niterói. Li o Apanhador no Campo de Centeio e nunca matei ninguém. Corri da chuva num dia de primavera. Nadei no rio Tietê. Choro sempre que escuto In my life. “There are places I remember all my life; though some have changed; some forever, not for better; some have gone and some remain.” Me arrependi de coisas que fiz e de coisas que não fiz.

We start off with high hopes, then we bottle it. We realise that we’re all going to die, without really finding out the big answers. We develop all those long-winded ideas which just interpret the reality of our lives in different ways, without really extending our body of worthwhile knowledge, about the big things, the real things. Basically, we live a short disappointing life; and then we die. We fill up our lives with shite, things like careers and relationships to delude ourselves that it isn’t all totally pointless.”

Acho que esta droga toda esta regredindo. E agora? Quem poderá me defender? Da vida, de mim mesmo, do futuro cruel. Cruzando a Faria Lima voando, deixando para trás os raios dos luminosos. Estudar, trabalhar, trabalhar, estudar. Sem ninguém saber o quanto é difícil nem quanto dói. Sentir o vazio de não estar lá. Dormindo encolhido num canto esquecido. Com o vento zunindo no ouvido e o medo de não ser o escolhido martelando a consciência a cada segundo. Tenho que expulsar tudo isso para fora de mim, mas não consigo. Então cresce, cresce, cresce. Preciso saber o que isso significa para apreender a lidar com, isso. Se ficar mais cinco minutos sozinho acho que sou capaz de foder com tudo de vez. Melhor eu ir embora.

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Crime em andamento – Jim Knipfel

Imagem | Russell Christian

Imagem | Russell Christian

Tradução | Eder Capobianco Antimidia

Minha cabeça estava em outro lugar. Não deveria estar. Eu deveria ter prestado atenção ao que estava acontecendo ao meu redor, mas em vez disso estava pensando sobre A Genealogia da Moral de Nietzche, por algum motivo esquecido por Deus, bem como o velho Robert Klein¹ e o stand-up que vi na TV em 1976 (“Me dê o frango, porcolino!”). Os dois, até onde eu sabia, não estavam ligados de forma alguma. Em suma, minha mente estava em toda parte, menos onde deveria estar.

Eu não estava usando a bengala também, o que só multiplicou a estupidez. Ainda estava escuro. O sol não tinha nascido totalmente, e estava chovendo. Eu estava indo para oeste na 23rs St., e deveria ter pegado a maldita bengala, mas estava ocupado demais pensando sobre Robert Klein ter se inspirado nos filmes da Disney para me preocupar com isso. Eu só seguia em frente, de cabeça baixa, meu casaco aberto para a garoa, imaginando se meus pés sabiam bem o suficiente para onde tinham que me levar. Minha camisa estava com pizzas de suor.

Escutei algumas pessoas gritando mais a frente. Pensei pouco sobre isso, supondo que eram apenas as vozes dos lixeiros. Havia um caminhão de lixo arrastando a sujeira sentido oeste na calçada paralela a minha, e acabei de ligando as duas coisas. Lixeiros estavam sempre gritando uns com os outros.

Duas silhuetas estavam se movendo em minha direção pela escuridão, vindas do fim de uma longa fila de andaimes. Eu estava concentrando-me nas formas, tentando descobrir a melhor maneira de evitá-los, quando ouvi passos molhados se aproximando por trás de mim. Então do nada havia um homem do meu lado, com um guarda-chuva na mão. Meu passo vacilou por um instante.

“Oh”, ele disse. “Me desculpe”. Então ele se virou e correu de volta para o lugar de onde tinha vindo.

Eu não tinha idéia do porque ele poderia se desculpar. Ele não tinha me empurrado ou trombado em mim ou pego qualquer coisa. Quem sabe? Ele quase não desviou minha atenção do que acontecia. Eu olhava para o par de silhuetas na minha frente, então dei um passo para o lado e deixei eles passarem.

Com certeza tinha muita gente trafegando pela rua para 6:15 da manhã. E em ação, também, para um deprimente dia perdido. As pessoas estavam indo e vindo por todas as direções. Eu continuei fazendo meu caminho, passando pelos ambulantes, a banca de jornal e a estação do metrô, pensando sobre isso e aquilo, ainda muito deprimido comigo mesmo e deixando a mente a deriva.

“Basta dar o dinheiro a ele!”, um homem atrás de mim gritou. “O dinheiro! Apenas dê a porra do dinheiro para ele!” Escutei o som das pessoas correndo.

Olhar para trás para ver o que estava acontecendo a poucos metros de mim teria sido inútil. Rapidamente virei a esquina para a 7th Ave., abaixei a cabeça e continuei andando. Estava tudo certo agora.

Acho que só passei por um crime em andamento, pensei.

Era perfeitamente possível que não fosse um crime também – talvez tivesse sido uma simples transação de negócios, ou algum lixeiro resolvendo uma aposta no jogo dos Mets, mas preferia pensar que era algum tipo de crime, e que tiros irromperam o ar no momento que eu estava fora do alcance da voz.

Então comecei a me perguntar quantas vezes tropecei num crime em progresso sem perceber. Não me surpreenderia se tivesse acontecido várias vezes.

Algumas semanas atrás estava falando para um amigo meu sobre umas coisas que ele tinha escrito. Envolvia uma criança que começava a ficar obsessiva por crimes muito cedo. Não é que ela própria se torna uma criminosa, mas o crime e os criminosos começam a orbitar em torno dela, se aproximando e se tornando mais íntimo a cada ano que passa.

Foi uma idéia, como expliquei para ele, que bateu realmente perto do meu quintal. Eu estava obcecado com o crime como uma criança (ainda sou, eu acho). Mas como cresci, crimes reais e tangíveis começaram a cruzar minha vida de maneira estranha frequentemente.

Cresci a 40 milhas de onde Ed Gein² morou. Ensinava alemão para um nerd quando estava na escola, sem saber que ele só queria aprender alemão para impressionar seus companheiros da Irmandade Ariana. Um amigo que eu tinha desde o jardim de infância explodiu o próprio irmão. Outro amigo começou a conversar com a televisão e antes do que você imagina matou seis pessoas a tiros em um escritório no centro. Descobri que minha mãe cruzou com Charley Starkweather³ pela vida. Um cara chamado Jessie Lee Wise4 queria que eu o ajudasse a fazer sua carreira musical decolar, mas o fato de que ele estava no corredor da morte no Missouri tornou isso um pouco complicado. Conversei com ele 20 minutos antes que a agulha picasse ele. Ele pediu camarão no jantar.

Posso falar disso sem parar. Não era pela minha própria vida cheia de pequenos crimes, e todos os criminosos de uma forma ou de outra, na sua maioria de baixa renda, que eu havia me tornado insensível ao crime.

Eu não digo nada disso com orgulho – mas é assim que as coisas aconteceram. Eu sempre achei que o crime poderia ser interessante. Como se diz mesmo? Uma outra forma de trabalho duro5?

Enfim, bem, é por isso que não fiquei surpreso com tudo que estava acontecendo, de fato, quando passei por um crime em andamento na 23rd St. naquela manhã. Andei em canteiros de obras, desviei de balas – até do fogo – sem estar ciente disso. Afinal de contas, na maioria das vezes, os crimes são muito mais silenciosos do que as pessoas imaginam. Participar de um crime não teria sido nada demais. De menos, até. Apenas algo mais para acrescentar à lista.

1 – Robert Klein: Comediante, cantor e ator estadunidense famoso na televisão durante a década de 1970. (http://en.wikipedia.org/wiki/Robert_Klein). Um homônimo dele se envolveu em um processo contra a Walt Disney Company depois de ser demitido por justa causa por assédio sexual (http://www.hollywoodreporter.com/thr-esq/disneys-archivist-sues-company-firing-424852).

2 – Ed Gein: Ladrão de lápide de Wisconsin condenado pelo homicídio de duas pessoas, e suspeito no desaparecimento de outras cinco (http://pt.wikipedia.org/wiki/Ed_Gein).

3 – Charley Starkweather: Foi um serial killer adolescente estadunidense que matou onze pessoas nos estados de Nebraska e Wyoming num período de dois meses, entre Dezembro de 1957 e Janeiro de 1958 (http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Starkweather).

4 – Jessie Lee Wise: Assassino condenado a pena capital por matar Geraldine Rose McDonald depois de um assalto, em 1988, no Missouri. (http://murderpedia.org/male.W/w1/wise-jessie-lee.htm).

5 – Referência ao filme O Segredo da Jóia (The Asphalt Jungle, 1950). Num determinado momento do filme, durante um dialogo, um ladrão justifica seus atos criminosos como uma forma de trabalho alternativo (http://en.wikiquote.org/wiki/The_Asphalt_Jungle).

Texto Original | http://www.missioncreep.com/slackjaw/2006/crime.htm

Sobre Jim Knipfel | http://en.wikipedia.org/wiki/Jim_Knipfel

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Estômago Retorcido x Cabeça Dilacerada

Imagem | Antimidia

Imagem | Antimidia

Release the dogs! É hora de deixar tudo para trás e sair correndo direto para casa do papai. Tudo é engraçado, até alguém se machucar. Vamos passar pelas cinco fases e os doze passos e depois quem sabe ainda podemos ser amigos. Daquele tipo que não se vê e não se fala. Quando se cruza na rua cumprimenta, sorri, diz que tem saudades dos bons tempos, e espera mais dez anos por um infortúnio do destino. “I sat by the ocean and drank a potion, baby, to erase you.” Chegou a hora de fazer como as pessoas comuns fazem com suas vidas comuns e suas rotinas comuns.

Acordei com a cabeça latejando e o corpo moído. Qualquer movimento provoca uma onda de dor que se espelha na velocidade da luz por todo quarto. A cama é ruim, a parede tem mofo, o armário não tem porta e eu não tenho mais a menor vontade de viver. Se você não tem nada a dizer então cala a boca! “I’m machine, obsolete, the land of the free, lobotomy” Precisamos de novos heróis, e as evidencias dizem que eles não virão das urnas nem das ruas. Voltemos para os gibis, já que Freud e Foucault não dizem absolutamente nada de relevante.

A Copa acabou, agora só falta terminar as obras e ninguém nunca mais vai falar disso. “There’s a time for daring and there’s a time for caution, and a wise man understands which is called for.” Questionar está fora de moda e é anti-democrático. Vamos falar sobre a NASA ter anunciado que a vida extraterrestre é tão certa quanto a morte. Não dá mais tempo de se arrepender, já venderam tudo. “It’s just another love song, another love song.” Vamos nos livrar da culpa e ser mais felizes. Serão lagrimas, suor e sangue de felicidade, pelas próximas gerações. Ninguém liga para os girinos. Em lugares próximos a lagos é comum as crianças assassinarem milhares de girinos dando eles para os gatos brincarem.

Sem dor! Sem dente! Nunca dá para ter tudo. Foram só falsas expectativas com falsas verdades. Sobrou o aluguel e o elefante com a bunda virada para porta. Lembranças e histórias para contar. Daquelas que se tem um pouco de vergonha e uma pontada de orgulho e outra parte de tristeza.“I’m gon’ do the damage ’til the damage is done.” A única coisa que penso quando estou escutando Caetano Veloso é que os bons tempos não foram tão bom quanto dizem. Vamos comprar carros novos, casas grandes e panelas elétricas. Transar uma vez por semana, frequentar reuniões de pais e ir em festas de crianças!

Going to the dentist, podiatrist, oncologist. Cut hair, shave the beard and have good skin. Swimming club and have breakfast at the bakery. Wash the car on Sunday and ice cream. Sleep at night and live day. Pay the rent, pay the taxes, pay the credit card and pay the light, pay the water, pay the garbage, pay the food and pay the life. Watching TV, hear radio, surf the internet, answer the e-mail and look the advertising. Take advice and plant a tree and have a child and write a book. Dream with the impossible and work hard. Have hope, have faith, have a big fat bank account. Take care of health and the puppy. I chose nothing, and I was left with almost all.

Não aguento mais pensar. No que poderia ser, no que é ou foi, no que será. Perdi todas as chances e tudo ainda pode acontecer. Até perder de 7×1. Queria mais uma chance. O mundo dá voltas e as mentiras ficam todas para trás. A longo prazo, a verdade nunca trás felicidade. Que só vem se você ganhar na loteria, se não tem que ir buscar. Longe. No fim do por do sol. Perto de lugar nenhum. Alguns querem morrer por que estão infelizes, por que não tem namorada, por que a namorada é um pé no saco ou por que não tem dinheiro. Outros por nada.“Every passing minute is another chance to turn it all around.”

 

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Expurgo

Expurgo

Edgard era inofensivo. Sofreu Bullying na escola desde o pré-primario. Não tinha nenhum tipo de ambição ou futuro. Sabia pouco ou quase nada sobre qualquer coisa. Um verdadeiro idiota. Teve só duas mulheres na vida. Uma ele pagou e outra estava bêbada o suficiente para não perceber que ele tinha broxado. Nunca começou ou terminou nada. O auge da sua vida foi ser rodie do Dorsal Atlântica no Monster of Rock de 97. Achava que o Roberto Carlos não era o rei do Brasil. Sua rotina variava entre beber em casa, ou beber no bar. Ele era um fardo para si mesmo.

Quando falava ninguém escutava. O voto dele jamais mudaria uma eleição. A última vez que andou de carro foi numa viatura policial. Só não ficou preso porque não tinha lugar para ele nem na cadeia. Sente saudades dos tempos em que não apanhava da polícia só porque estava bêbado e fedendo. Esperou Coelhinho da Páscoa, Papai Noel, políticos. Nenhum deles veio. Se Edgard fosse um animal seria excluído em nome da sobrevivência do bando. Sua casa parecia um chiqueiro. Tinha de tudo no chão e praticamente nada nos armários. Dormia como um nóia, num colchonete jogado num canto. Um dia Edgard matou um cara com uma facada, lá no Viaduto do Chá. Queria ver a morte. Só viu um estranho engasgar sangue por dez minutos antes de apagar.

Na rua o apelido dele era Asqueroso. Não tomava banho. Não tinha muitos dentes para escovar. Não limpava a bunda. Não era nem um pouco limpinho. Edgard tinha birruga e pereba. Era nojento. Era careca. Já tinha dado o rabo. Para ele não fazia diferença, caro ou barato, noite ou dia. Tudo era igual. Meio cinza. Nunca teve carteira assinada. Nunca teve carteira. Trabalhou na estiva. Trabalhou em obra. Trabalhou sempre pensando em não trabalhar nunca mais. Pegou latinha. Pediu na rua. Fez malabarismo. Sobreviveu aos 27.

Em toda sua existência em nenhum momento cogitou a hipótese de fazer diferente. Nem de fazer. Então nada aconteceu. O tempo passou. A tremedeira aumentou. Nem Jesus nem o Diabo ajudaram ele. Edgard apanhava da vida todo dia. Teve que encarar tudo sozinho. Sol e chuva. Com a cara inchada e sem coragem. Não muda nada. Nem fica igual. Também não desaparece. Fica lá. Fedendo. Chafurdando. Gostava de beber. Qualquer coisa. Edgard não era exceção, nem a regra, nem o desvio. Não era feliz, nem triste. Gostava de Bukowski mas não fazia questão de ler.

As vezes ele costumava andar perambulando pelas ruas sem direção. Jamais se teve notícia de que Edgard deu algum problema em algum lugar. Ninguém sabia muito sobre ele. Edgard não acredita quando alguém diz que não sabe de nada. As vezes ele chora sem motivo. As vezes ele ri sem motivo. Lamentava as injustiças do mundo. Não comemorou quando a Seleção Brasileira ganhou o tetra e o penta. Nunca viu a Nadia Comaneci tirando o único 10 da história da ginastica olímpica.

Nem sempre Edgard comia. Tinha o corpo magro, seco, raquítico. Não ficava doente pois não sobreviveria. Era contra a legalização das drogas. Para ele depressão era frescura. Psicologo era só um padre que não acreditava em Deus. A televisão roubava o tempo das pessoas. Não assistia novelas, nem filmes, nem jornal. Confundia Monet e Manet. Edgard não conseguia se lembrar de ter uma família. Estava em casa, bebendo, olhando para a parede. Quando percebeu que estava pensando se levantou e foi dormir.

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O poço não tem fundo, é lenda

Sobe a Brigadeiro Luis Antonio. Passos largos, velocidade total. Sem desviar. Cortando o fluxo das pessoas. Olhos esbugalhados rasgando o horizonte. Andar sem foco, com firmeza. E aqueles filhos da puta vão morrer. Vão morrer na porrada! Todos os filhos da puta! Atravessa a Paulista. Transpirando raiva. Pulsando ódio. Um empurrão daqui, um xingamento de lá, e o mar de gente continua a se abrir. Aqui não tem nenhum otário. Acelera. A camisa xadrez aberta tremula, como se fosse uma bandeira. Porcos desgraçados. Aconteceu de novo. De novo! Desce a Consolação. Quebra vidro. Chuta lixeira.

Todos aquelas diplomas pendurados nas paredes. A prova definitiva que não passam de uns merdas. Com toda aquela pompa de otários. Vão direto para o inferno. Sem escalas. Sem alívio. Sem escrúpulos. O bar inteiro procura e ninguém acha. Quem são? Quem são? Não vão fugir. Os cretinos bastardos não vão fugir. Cadê!? Cadê a corja!? Bicudo na porta do banheiro. Porrada no balcão. O bagulho estalando na mão. Cabelos grudados na testa suada. Ninguém fala nada! Ninguém sabe de porra nenhuma!? Respiração ofegante. Veias esturricadas. Cabeça a milhão. Abram a porra dessa boca! Chegou a hora…

Tiros, tiros, muitos tiros. Ninguém mais pode parar esta porra! O rei do mundo. De todo mundo. Sentido República. A caça continua. Babando. Cambaleante. Puro impulso. Entra no metrô. Sai daqui. Praça da Sé. Barulho. Sobe. Desce. Dentro. Fora. Fora de controle. Ainda procurando. O quê? O quê? Mãos tremulas. Pernas inquietas. Abre, abre, abre. Barulho. Fumaça. Gritos. Aonde? Aonde? Localizar e destruir. Estourar miolos. Quebrar ossos. Visão embaçada. Boca seca. Nariz vazando. Parem de olhar. Parem de olhar!

O andar frenético. Estriguinado. A adrenalina jorrando no peito. Por que? Por que isso aconteceu? Segue em frente. Vai! Malditas sirenes! Maldito lixo! Sai da frente! Volta. Volta tudo. Tudo como era antes. Como? Como foi chegar neste ponto? O universo inteiro conspirando. Todo mundo aqui é culpado. Matar. Matar todos os culpados. Soco na cara. Pontapé no estômago. Quebra para esquerda. Cai na São João. Largo do Arouche. Vamos! Apareçam! Corpo retorcido. Expressão fissurada. A justiça chegou, sem dó nem piedade.

Passa tudo! Agressivo. Violento. Tapa na cara. Passa tudo! Direção Barão de Itapetininga. De volta ao começo. Matar todos aqueles filhos da puta. Moer todos eles de pancada. Todas estas pedras de merda no chão. Cabeça em pé. Costas curvadas. Sem rumo, sem saída. Cada minuto que passa é um chance da virar a mesa. Ardendo com a dor encravada no fundo da alma. Chorando lágrimas secas. Roendo mãos sem unhas. Dentes travados. Punhos serrados. Olhar vidrado. Pés rachados. Tropeçar. Cair. Levantar. Quando? Quando esta porra vai acabar!?

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