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conto da noiteO Conto da Noite
Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

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Ratos e ninhos de amor

Seu AlceuE ele suava como um porco e fedia azedo. Carregava uma pasta e um lenço branco embabado naquele líquido fétido que escorria por todo seu rosto e ensopava aquela barba nojenta. As pessoas fingiam que não notavam. Mas não tinha como. A sala de reuniões ficava empesteada pela sua presença. “Não há muito o que dizer. Ele nos causou um prejuízo de cinco mil. Não temos espaço para incompetentes.” Ninguém contestava o que ele falava para poder estar longe dele o mais rápido possível. Faziam desenhos em folhas em branco para não precisar olhar sua cara. “Comuniquem ele até o fim do dia.” Tudo bem, todos farão o seu melhor para não precisar mais passar por isso. O único ato espontâneo de alguém em sua presença seria sair correndo. Enquanto ele dobra os papéis e coloca na pasta as pessoas já estão se levantando e olhando para a parede. “Eduardo!” Não! Eu não! Hoje não! Nunca não! Seu Alceu sinaliza para o executivo que tentava sair. O resto continua andando focado na parede com um misto de alivio e duvida. Afinal, era o chefe do RH e o ceifador implacável. “Hoje podemos tomar aquele drink que você esta me devendo. Por minha conta.” Não, por favor Deus, não! “Claro. Passo na sua sala no fim do dia.”

A submissão funciona como uma certa auto-censura que transforma o homem num rato condicionado. No resto do dia ele pensou em uma forma de se livrar daquilo. E Eduardo estava dentro do carro dirigindo pela 9 de Julho pensando em ser parado por um blitz e preso por qualquer crime para se livrar daquilo. E ele suava como um porco e fedia azedo. “Um homem merece ter seus prazeres depois de um dia de trabalho.” Você fede seu porco desgraçado! “Com certeza.” Como se fosse um remédio para dor de cabeça, o Seu Alceu tira do bolso uma cápsula com um pó branco e faz duas carreirinhas em cima do manual do carro que ele pegou no porta-luvas. Ele abaixa o nariz para cheirar e a outra carreirinha se dissolve no suor da sua testa. Ele passa a mão na testa, lambe, vira a capa do manual, seca com a manga da camisa em movimento giratórios e estica outra carreirinha. Eduardo cheira. “Vamos naquele hotel novo que abriu perto do aeroporto. O hotel das universitárias.” Puta que pariu! Velho babão de merda!

Os vidros fechados por causa do ar condicionado e o cheiro escatológico girando por todos os centímetros quadrados. O trânsito travado numa terça-feira interminável. O aeroporto parecia estar a anos luz dali. E ele suava como um porco e fedia azedo. “Vamos no velho casarão da Rua Augusta. Vamos demorar horas para chegar até o aeroporto.” “Não, não. Não quero mais ver a Xarlene.” Ela que não quer te ver. Ninguém quer te ver seu fudido de merda! E o impulso de fugir soca a mão na buzina e o pé no acelerador. Por favor! Alguém me mate! “Deixa o rádio na CBN pra eu saber como o mercado esta reagindo a troca de ministros. No fim não vai mudar nada.” Haaaaaaaaa! “Estou achando que o departamento comercial esta acomodado com as metas baixas. Acho que vou pressionar a Dona Marlene por mais contratos.” Foda-se! Foda-se! FO-DA-SE! “Melhor que dinheiro só mais dinheiro.” Chega logo lugar du caralho! “Aquela velha sabe como ganhar dinheiro. Ela até merecia uma boa foda. Quanto tempo será que faz que ela não dá uma trepada animal?” Cala a boca seu cretino bastardo! “Não sei se ela sabe o que é isso. Conheci o marido dela uma vez numa churrascaria. Tem cara de paspalho.” Eu vou te matar! Eu vou te matar! “Chegamos.”

Uma senhora cheia de penduricalhos e com cara colorida de pó de arroz recebe os dois na porta. “Boa noite senhores. Já sabem o que querem?” “Sim. Duas estudantes de engenharia de uma faculdade católica e uma garrafa de whiskey 12 anos.” A senhora faz um gesto e duas garotas, uma loira e outra morena, se aproximam. Seu Alceu junta a morena e senta de um lado da mesa alisando as pernas dela com as duas mãos, tentando agarrar tudo que pode. E ele suava como um porco e fedia azedo. Eduardo senta com a loira do outro lado. O garçom traz a garrafa e entrega uma comanda para cada um dos dois. “É o seguinte. Primeiro você vai comigo, depois com ele. A loira a mesma coisa.” Puta que pariu! Não vou tocar nela depois de você nem a pau! “Pega uma garrafa destas para você porque esta vou levar comigo.” Some da minha frente! Um vai para o quarto da direita e o outro para o quarto da esquerda.

Enquanto Seu Alceu fodia a morena de quatro Eduardo estava se explicando para a loira. “Não dá. Não consigo sabendo que aquele escroto esta fodendo no outro quarto.” Nhéc, nhéc, nhéc. Tum, tum, tum. “Meu Deus! Aquele animal deve estar esfregando aquele suor escroto nela. Como vocês se prestam a isso?” Cinco minutos depois que os barulhos pararam a morena entrou no quarto pelada e acabada carregando as roupas na mão. A loira fez cara de desespero e saiu. A morena entrou no banheiro e ligou o chuveiro. Os barulhos recomeçaram. Nhéc, nhéc, nhéc. Tum, tum, tum. Eduardo virou uma talagada da garrafa, passou sua comanda duas vezes no leitor digital e voltou para o bar. Seu Alceu apareceu carregando o paletó pelo dedo jogado nas costas e com a gravata enrolada no pescoço. E ele suava como um porco e fedia azedo. Os dois entraram no carro e foram embora. “Queria foder assim a Dona Marlene.” Quero muito te dar um soco na cara. Imbecil! Eduardo deixou Seu Alceu no estacionamento do prédio do escritório e foi para casa. Seu Alceu pegou seu carro e foi para a sua.

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Um drink no inferno

We own the night you and I
We’re gonna live forever
It’s in the starts we’ll never die
If we stay together
I feel the blood in my heart start pumping
Two souls in the throws of nothing
We own the night you and I
If we stay to
Stay together now

The 69 Eyes – We Own The Night

 

E aqui estou eu, às 7 h da manhã, cochilando em uma lanchonete da rodoviária, enquanto as duas mulheres que há algumas horas queriam me levar pra casa conversam como se fossem amigas de infância. Logo que descobrirem os problemas comigo que têm em comum, eu me tornarei o assunto preferido delas. Tudo o que eu queria agora era ir pra casa. Mas como foi que a minha noite foi terminar assim?

Deixa eu tentar me lembrar. Estava eu no meu apartamento, onde moro sozinho, quando a Silvana me mandou uma mensagem, perguntando se eu ia para uma festa que ia ter ontem: Um Drink no Inferno. É uma nova e melhorada versão de uma festa alternativa que já existia na cidade. Tem pouco tempo, mas já está ficando famosa na cena, e já tem muitas histórias. Ouvi dizer que a tal Ash, a garota que estava saindo com o Johnny desapareceu durante a segunda edição. Como a festa acontece num local totalmente isolado de tudo, não me admiro que esse tipo de coisa possa mesmo acontecer. Até porque, já ouvi muitos relatos de assaltos naquele morro de Laranjeiras. É preciso tomar muito cuidado e nunca ficar sozinho por ali. Eu disse que iria, e ela disse que queria me dar um presente, certamente com segundas intenções.

A idealizadora dessa nova versão era uma conhecida nossa, Vanessa, que trabalhava na Drink antiga, no Garage. Ela era famosa por ter memória fotográfica, e por usá-la em truques de cartas. Eu aprendi muita coisa com ela, como a mágica de cartas com moedas e o corte com uma mão só. Estranhamente, não a vimos mais desde que a nova festa estreou na Mansão Red Walls. A princípio, achei loucura uma festa realizada em uma mansão, em cima do morro, no meio do mato. Mais louco ainda achei quando vi que uma van iria buscar as pessoas na Rua Ceará e em outros pontos da cidade. Mas acabou dando muito certo.

Enfim, me arrumei com muito cuidado, como em todo sábado à noite, coloquei minhas lentes de contato brancas, fiquei muito tempo diante do espelho me maquiando, vesti minhas roupas trazidas de Londres e peguei o metrô para o Largo do Machado, onde esperaria a van especial. Era uma lua cheia grande e brilhante, e poucas nuvens finas passeavam à sua frente, como o véu de uma dançarina sensual e provocante, e principalmente misteriosa. Lá encontrei algumas pessoas vestidas de preto e, ao conversar com elas, descobri que pretendiam ir para lá também, mas ainda estavam céticas quanto a tal van. Porém, exatamente como eu havia prometido, alguns minutos depois lá estava nossa carona. Mas, para minha surpresa, não era a van que havia me levado outras vezes, era uma carruagem!

Ela chegou ao Largo do Machado puxada por dois cavalos negros e atraiu a atenção de todas as pessoas que lá estavam, sem exceção. Eu já achava impressionante a festa disponibilizar uma van com dois caras todas as vezes para buscar as pessoas em alguns pontos, mas essa foi demais! Seja lá onde conseguiram aquela carruagem, aquilo era um marketing muito mais agressivo. Os dois caras nos chamaram pra entrar, sabiam que íamos para lá só de olhar para nós. Pequenos degraus de metal desceram e nós subimos. Como das outras vezes, eles deram uma volta na praça, chamando quaisquer pessoas que lá estivessem, mas ninguém mais subiu. Muitas ficaram assustadas. Melhor assim, não precisamos nos apertar. Algumas delas até acabei encontrando na festa mais tarde, pois a carruagem faz várias viagens.

A subida sinuosa por ruas estreitas e mal iluminadas, em meio à mata atlântica, foi mais longa que o de costume, e muito mais desconfortável, visto que passamos por ruas de pedra portuguesa, e a carruagem balançava demais. Parecia o início de um filme de terror. Mas tenho que admitir que o transporte era de uma excentricidade extravagante, e que, somado ao meu visual tenebroso, potencializava os olhares de todos por quem passávamos, me enchendo de orgulho. Finalmente chegamos à mansão, no alto do morro. Não é só um nome, é uma mansão de verdade, com um espaço enorme na entrada, onde acontecem os shows, um salão de dois andares e, atrás, um quintal com piscina. Bons DJs, ótimas bandas, muita bebida e a sensação de estar em outra dimensão, isolada do mundo, imune à moral e aos bons costumes, isenta de julgamentos. E lá eu a encontrei novamente: Natasha.

Natasha é o retrato da juventude fatalista, um espírito revolucionário, com forte senso de justiça e uma visão crítica amarga da sociedade corrompida e irremediável. Sem medo, sem esperança, ela se entrega ao vício e à misantropia. E foi nessa ode à decadência que eu me perdi. Depois de tanto tempo entregue à futilidade e à luxúria, de ser chamado de Oceano Pacífico e Príncipe de Gelo, foram esses olhos amarelos e esse cabelo vermelho que derreteram o gelo do meu coração. Há muito tempo eu havia decidido enterrá-lo, mas ela o arrancou para fora, somente para pisar nele.

Agora, tudo o que quero é me livrar dela. Mas todo lugar aonde eu vou, lá está ela! E desta vez não foi diferente. Foi justamente nesta festa que nós nos beijamos pela primeira vez. Eu me senti vivo como nunca. Depois disso, saímos juntos algumas vezes, mas, quanto mais eu me envolvia, mais ela se afastava. Ela disse que não era um bom momento para se envolver com alguém. Logo depois, começou a namorar outro cara.

Ela estava usando um vestido com naipes de baralho. Ao encontra-la na festa, ela me apresentou o novo namorado, meio sem graça. Eu já sabia, já havia visto as fotos no Facebook, já havia me preparado emocionalmente para esse momento. Gostei do cara, ele parecia legal, e parecia não dar a mínima para ela, o que me fez gostar dele ainda mais. Talvez esse seja o segredo, ela tem medo de se sentir amada. Quando ele se afastou, ela me olhou e disse:

– Nunca ia dar certo entre a gente. Nós somos muito parecidos.

Eu apenas concordei. É o mais confortável no momento, acreditar que ela esteja certa. Mas, por incrível que pareça, ela parecia a pessoa mais desconfortável naquela situação.

E então chegou a Silvana. Há alguns dias ela vem me bombardeando com mensagens na internet, está na cara que está muito a fim de mim. Mas não faz meu tipo, definitivamente, e ficar com ela só faria mal para a nossa amizade. Ela é uma mulher muito legal, mas faz parte da minha natureza autodestrutiva gostar apenas das pessoas erradas. É verdade, Natasha tem razão! Somos muito parecidos. Ela estava muito feliz em me dar um presente que sabia que eu ia adorar. Era uma carta do baralho personalizado da Vanessa: o valete de copas. Eu sou fã da Vanessa, adoro truques de bar, conheço dezenas de coisas que se pode fazer para entreter pessoas em um bar, usando copos, palitos, guardanapos, garrafas e latinhas. Sou fanático por boemia e adoro baralho, bilhar e sinuca. Vanessa era a mestre dos truques de cartas e eu gostaria de saber pra onde teria ido, o que teria acontecido com ela.

– Eu a achei aqui na mansão, na última edição. Acho que você é mais digno que eu de guardar isto.

– Nossa, Silvana! Nem sei como agradecer! Vou colocar na parede do meu quarto até a Vanessa aparecer, e se ela permitir, depois disso também. Você tem certeza de que quer me dar isso?

– Claro! Vai ter um destino bem melhor com você! Ela estava guardada na gaveta do meu armário.

Mas quando fui pegar a carta, ela a puxou para si.

– Mas eu quero uma coisa em troca.

– O que?

– Um beijo.

Eu pensei em uma forma bem diplomática de recusar.

– Desculpe, Silvana, mas é que eu estou meio enrolado com alguém…

O que não era inteiramente mentira.

Ela disse que tudo bem e me deu a carta mesmo assim. Acho que ela já esperava por isso, afinal. Então eu a apresentei para a Natasha, e elas se deram muito bem. Tentei curtir um pouco a festa, bebendo e fumando à beira da piscina, dançando The 69 Eyes… Fui ver o show, era uma banda cover de Joy Division excelente. Encontrei alguns amigos, o Fábio, o Puppet, algumas ex-ficantes, e acabei voltando para perto da piscina, onde Natasha estava. Eu não estava conseguindo curtir a festa de verdade.

A essa altura, já havia várias pessoas bêbadas na piscina, e uma amiga da Silvana estava dando em cima de mim. O namorado da Natasha queria ir embora, mas ela queria ficar mais um pouco, ele acabou indo sozinho. Então ela pediu pra que eu não fosse embora sem ela. Sentei-me no canto enquanto observava a euforia da juventude ébria. Natasha se sentou ao meu lado e me ofereceu um cigarro. Eu aceitei, e estava tão bêbado que acabei me queimando nele. Ela me chamou de idiota e nós ficamos ali sentados em silêncio.  Poucos minutos depois, ela disse:

– Vamos embora?

Não fazia nem meia hora desde que o namorado dela tinha ido. Ela só queria se livrar dele! Por quê? Pra me torturar, aposto!

– Eu não quero ir agora. Ainda quero aproveitar mais a festa.

De repente me deu uma vontade de aproveitar a festa. E eu não podia fazer isso ali, perto daquelas três, Natasha, Silvana e sua amiga fura-olho. Subi para o segundo andar e comprei mais cigarros e bebida. Ao passar próximo à segunda escada, encontrei algo que me chamou a atenção. Era o isqueiro Jack Daniel`s do Cássio. Ele nunca se separava daquele isqueiro, e eu não o tinha visto ali naquela noite. O isqueiro estava cheio, resolvi levá-lo comigo para devolver ao Cássio. Fiquei andando pelo mezanino, olhando para a multidão lá embaixo, em busca de alguém interessante com quem eu poderia dançar e curtir. Deu certo da última vez aqui, quando eu saí de perto da Natasha e encontrei a Dani, ex-namorada do Cássio. Eis que percebi que alguém também me observava no mezanino. Virei-me e vi que era uma mulher atraente com um olhar misterioso. Morena, de cabelos negros e compridos, vestido preto e corpete.

– Você não é o Shadow, que está sempre na GB?

– Sim, sou eu. – respondi envaidecido.

Uma coisa que aprendi há anos sobre essas festas é que todos têm um desejo enorme de pertencer à cena, e, para algumas mulheres, a melhor forma de conseguir isso é saindo com alguma figura conhecida. Não era a primeira vez que isso acontecia comigo e eu sabia muito bem como aquela conversa ia terminar. Ela disse que me observava há um tempo e comprovou isso mencionando eventos em que eu estava presente, minha ex-namorada e que eu saí no jornal O Globo. Tantos detalhes, que até fiquei um pouco assustado.

Ela não me disse seu nome, disse que nomes não eram importantes, afinal, a maioria das pessoas ali usava nomes falsos. Pediu que eu a chamasse de Di (“Dái”). Depois disso, ela começou a filosofar, dizer coisas sobre o tipo de gente que frequentava “as festas”, futilidade, luxúria, eu não prestei muita atenção, estava observando seus lábios enquanto se moviam. Então ela me levou para o terceiro andar, o lugar mais isolado da mansão, o que me fez crer que tudo o que ela dizia era papo furado, do tipo “não me julgue, não sou uma vadia”.

Lá em cima havia um pequeno aposento onde um DJ praticamente se escondia, eu nem me lembrava de que existia essa pista. De qualquer forma, o DJ não era grande coisa. Tinha umas duas ou três pessoas lá, completamente bêbadas. Nós paramos no corredor e ela voltou com aquele papo estranho. Eu simplesmente concordei com tudo o que ela disse, cheguei bem perto e falei:

– Você me consideraria fútil se eu te desse um beijo agora?

Ela só fez que não com a cabeça, e eu a beijei. Di retribuiu intensamente, e me agarrou como uma selvagem. Depois disso não dissemos mais nada, apenas nos devoramos, rolando pela parede vermelha de bordel ou motel barato do corredor. Como eu esperava, ela não ofereceu nenhuma resistência, pelo contrário, ela queria um incêndio ainda mais que eu. Sem que eu percebesse, fomos parar em outro cômodo, que eu nem sabia que existia. Era uma suíte, tinha uma cama e uns armários. Como diabos eu nunca tinha visto aquele quarto ali antes? Estava escuro, mas pude ver algumas pessoas ali, que certamente estavam fazendo sexo, usando drogas ou as duas coisas. Num relance reconheci Cássio, sem camisa, como sempre. Ele estava com uma mulher. Lembrei-me de que foi na última edição a última vez que o vi. Ele me reconheceu e acenou para mim. Cássio é um homem muito bonito e sexy, tenho que admitir, há anos ele é o destruidor de corações do submundo, o homem sem coração, um demônio. Era tudo o que uma parte de mim queria ser. Mas foi nesse momento que eu me dei conta: eu estava me transformando nele bem rápido. Na última festa eu tinha ficado com a ex-namorada dele! Eu era exatamente igual a ele, daqui a alguns anos ele estaria velho demais e eu seria o seu sucessor. Mas, por incrível que pudesse parecer, essa revelação não me pareceu confortante. Era aquilo mesmo que eu queria pra mim?

Eu apertava a mulher misteriosa contra o armário, e aquilo já havia se prolongado por tempo demais, eu não sou nenhum adolescente, e não iria me contentar com aquilo. Então, me aproveitando da escuridão, abri um dos armários e a empurrei pra dentro. Lá dentro nós nos livramos de nossas roupas e nos devoramos, saciando nossa feroz libido. E foi incrível, ela tinha um controle fenomenal sobre o próprio corpo e me fez sentir prazer como nunca havia sentido antes.

Quando saímos do armário, exaustos, meus olhos já haviam se acostumado com a escuridão, e pude ver duas mulheres seminuas em cima da cama, se pegando.  Uma delas era a Ash, a ex do Johnny, que havia desaparecido. A mulher que estava com o Cássio agora estava fazendo uma carreira de branquinha em cima da mesa.

– Shadow, deixa eu te apresentar meus amigos. – disse a mulher misteriosa – Este é Cássio.

– Sim, já nos conhecemos.

Eu apertei sua mão, e lhe mostrei o isqueiro, mas ele disse que eu podia ficar com ele. Guardei o isqueiro no bolso, sentindo como se tivesse me passado sua coroa, e tive uma nova revelação. Não era por Natasha que eu estava apaixonado. Era por mim. Eu me amo demais, e uma parte de mim, lá no fundo, temendo meu destino trágico afundando em vício, tentou desesperadamente se prender a algo, alguém que, como eu, também estava se afogando.

Enquanto pensava tudo isso, tive a impressão de que a pele de Cássio estava pálida demais, e seu corpo, esquelético, como o retrato da morte. Di me apresentou às outras mulheres, e todas elas me pareciam agora cadáveres. A que estava dando uns “tiros” me ofereceu um pouco, e eu aceitei. As outras duas me puxaram pra cama, e Di disse:

– Sabe, Shadow, me desculpe por todo aquele papo lá embaixo, mas eu estava testando você. Queria saber se você era digno de fazer parte do nosso seleto grupo.

Nesse momento, a aparência dela mudou e eu a reconheci. Era Vanessa, a idealizadora da festa! A que havia desaparecido. Ela estava recrutando os “caídos” para uma cúpula. Vanessa mostrou um punhal, e, com ele, cortou o próprio pulso. Ela despejou seu sangue em um cálice negro e o ofereceu para mim.

– Agora, Shadow, beba do meu cálice e seja jovem para sempre como nós, no auge da sua beleza.

As duas mulheres que estavam na cama me abraçaram, uma de cada lado, e Ash disse:

– E fique aqui com a gente pra sempre.

Vanessa estava mais sexy do que nunca, com um corpete negro, que faziam seus seios pularem para fora.  Eu peguei o cálice de suas mãos e o ergui.

Um brinde à noite eterna!

E foi nesse instante que eu vi, por um segundo, um par de chifres de bode em sua cabeça, e de asas de morcego em suas costas. Seus olhos ficaram vermelhos como sangue.

– Espere um pouco. Vamos fazer uma aposta. – Eu disse.

– Uuuuhh. Adoro jogos! E o que vai ser?

– Eu aposto que consigo ganhar de você no seu jogo de memória.

Ela soltou uma gargalhada tenebrosa e respondeu:

– Muito bem, e o que vamos apostar?

– Se eu perder, fico aqui com vocês para sempre.

Vanessa mostrou seu sorriso sedutor enquanto agitava o sangue dentro do cálice.

– Mas, se eu ganhar,… Bom, eu vi o que você sabe fazer lá no armário… Você vai ser minha escrava até o dia em que eu morrer.

Ela mordeu o lábio inferior e pegou seu baralho personalizado.

– Então vai ser um jogo por nossas almas, que excitante!

Vanessa embaralhou o baralho.

– Muito bem…

E mostrou todas as cartas, uma a uma.

– Valete de copas. – ela ordenou

Eu olhei para ela com espanto.

– O valete de copas não está no baralho.

Ela soltou uma gargalhada sádica e disse:

– Então parece que você perdeu.

– Mas espera! O que é isso na sua orelha?

Estiquei meu braço em direção à sua orelha e fiz a carta deslizar da manga para minha mão. Então mostrei para ela o valete de copas que Silvana havia me dado.

– Mas o quê? Como fez isso?

– Bom, parece que eu ganhei, não é?

Ela olhou contrariada para Cássio, que parecia tão confuso quanto ela.

– Ainda não. Agora é a minha vez.

Determinada, Vanessa me passou o baralho e eu comecei a embaralhá-lo. Usei todos os truques de manipulação que eu conhecia para distraí-la e, quando cortei o baralho, mostrei minhas habilidades de corte com a mão esquerda, que ela mesma havia me ensinado, distraindo sua atenção da minha mão direita. Uni novamente o baralho e comecei a mostrar as cartas, mas ela me interrompeu.

– Não há necessidade disso. Apenas me dê o baralho e peça a carta que quiser.

Olhei para Cássio confuso e ele tinha um sorriso malicioso nos lábios, o que me deu um calafrio. Ele percebeu o que eu fiz com o baralho e não disse nada.  Aparentemente a habilidade especial de Vanessa ia além de mera memória fotográfica. Ela simplesmente pegou o baralho, sem olhar as cartas, sorriu e perguntou:

– E então, Shadow, qual é a carta?

Não importava qual carta eu dissesse, ela saberia onde estava, eu já havia a visto fazer isso várias vezes.

– Dama de copas.

Ela olhou para o baralho virado para baixo e seus olhos ficaram vermelhos novamente. Mas uma expressão de surpresa tomou conta de sua face.

– A dama de copas não está no baralho. Você a pegou!

Eu sorri vitorioso e respondi como ela:

– Então, parece que você perdeu.

Vanessa ficou furiosa e mostrou sua verdadeira forma, com chifres, asas presas e rabo. Eu levantei assustado da cadeira, e ela agarrou meu pescoço com força e me ergueu do chão. Cássio segurou o braço dela e disse:

– Vandella, não!  A aposta foi justa. E você perdeu. Lembra o que me disse sobre “O Código”?

Ela permaneceu um tempo aproveitando meu sofrimento, e finalmente me soltou. Eu caí no chão sufocado.  Agora podia ver claramente, todos eram cadáveres e estavam amaldiçoados , presos para sempre naquele quarto, que estava em outra dimensão. E percebi o grande erro que havia cometido em pedir que ela fosse minha escrava. Aqueles quatro jovens me rodeavam com seus corpos podres e, desta vez, com expressão de sofrimento e desespero. Eles ainda estavam presos àquela dimensão.

– Vanessa, Vandella, ou seja lá quem for, eu proponho uma troca.

Tirei da manga a dama de copas, enquanto ela observava atentamente.

– Eu liberto você, se você libertar essas almas que mantém neste quarto.

Ela mostrou um sorriso vingativo em seus lábios vermelhos, subiu na mesa e veio engatinhando devagar na minha direção, com aqueles seios enormes, , sem tirar seus olhos dos meus. Quando chegou bem perto, respondeu com uma voz sobrenatural e um hálito de cigarro mentolado:

– Nunca. Eles são meus. E é só questão de tempo até que você também seja.

Ela se transformou em uma luz vermelha e entrou na carta em minha mão. Olhei a dama de copas e vi que o desenho havia mudado, era agora o desenho de Vandella, a succubus, ela era minha agora, como uma carta do meu baralho Magic. Cada um dos outros jovens fez o mesmo, e entrou em uma das cartas do baralho. Eu fiquei sozinho no quarto, que agora parecia mais ameaçador do que nunca, as paredes vermelhas pareciam se mexer, como se eu estivesse dentro de um animal. Peguei o baralho e saí do quarto. Quando cheguei ao corredor, senti aquela sensação horrível me deixar, ouvi a música da pista ao lado, e parecia que eu havia voltado à Red Walls. Olhei para trás e a porta do quarto estava fechada. Desci as escadas enquanto olhava o baralho, que ainda estava em minhas mãos, com os jovens amaldiçoados ocupando quatro das cartas.

Lá fora, chamei Natasha para irmos embora, e Silvana veio junto. Na saída, Fábio brigou comigo indignado porque percebeu que a amiga da Silvana estava dando em cima de mim e eu não dei assunto.  A garota nem era ruim, mas eu não podia ficar com uma amiga da Silvana, não depois do que eu disse pra ela. Natasha e Silvana eram agora grandes amigas. Nós viemos parar na rodoviária, aqui estou eu, morrendo de sono, enquanto elas tomam café da manhã, felizes, inconscientemente tentando chamar minha atenção.

Natasha vai embora para casa e Silvana me leva até meu ponto. Eu entro no ônibus e ela grita meu nome.

– Eu ainda não desisti de você.

Eu sorrio sem graça e aceno enquanto o ônibus parte. Enquanto estou distraído olhando meu novo baralho com os rostos dos jovens amaldiçoados e penso no terrível destino que me aguarda, Silvana abre enormes asas de pássaro e voa em direção ao amanhecer.

Publicado por Sombra Posthuman em: Agenda | Tags: , , , , , , , , , , , ,
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Ovelhas desgarradas andando no trilho do trem

Foto | Antimidia

Foto | Antimidia

Helena invadiu o bar como um tiro. Passou pela porta já fazendo estragos e esbarrando em tudo e todos pelo corredor. O Jaime olhou para ela, depois olhou para mim lançando uma bigorna de responsabilidade no meu peito. Meu desejo de desaparecer não foi realizado e ela veio na minha direção cambaleando e rindo. “Como você ousa me deixar dormindo e vem para o bar?” Quem escutasse isso poderia perfeitamente dizer que a gente era casado, ou tinha um caso, ou outra coisa do tipo. Amigos íntimos no mínimo. Eu só tinha vontade de não ser eu mesmo, ser qualquer outra pessoas em qualquer outro lugar. Ela sentou do meu lado e ninguém mais abriu a boca no balcão. Agora eram duas bigornas de responsabilidade na testa independente do que acontecer daqui para frente. Esperavam de mim uma reação. Como não sou bom em reações e em respostas tentei fazer uma cara de espanto que diria por si só: “Não sei do que você esta falando?” Também não funcionou. Então o silêncio e ela continuaram. “Vem comigo que encontrei uma coisa no caminho que vai te levar para o alto e avante.”

Entrei com ela no banheiro feminino. Ela tirou do bolso duas folhas e colocou uma na palma de cada uma das minhas mãos. Depois jogou a cinza de alguma coisa, que só esperava que não fosse de um ser humano cremado, em cima. “O que é isso?” “Cinza de batata doce com folha de coca.” “Coca cocaína?” “Isso. Tempera a folha com esta cinza e masca como um chiclete.” “E tem o mesmo efeito?” “Não, só vai amortecer sua cara. Você também vai precisar disso.” Ela tirou da bolsa uma cápsula com um pó meio azulado e fez duas carreiras em cima da pia. “Isso é cocaína?!” “Não, é uma mistura de remédios com bicarbonato, para dar um gostinho. Agora masca isso e cheira aquilo que cocaína vai parecer leite com chocolate.” A folha tinha um gosto amargo, e as tais cinzas de batata doce pareciam areia entre meus dentes. O bicarbonato começou a espumar na minha garganta e tinha a impressão que estava babando uma gosma branca. Comecei a me retorcer como um cão sarnento e sentia que qualquer contato com o mundo externo poderia ser um desastre em potencial.

Sai do banheiro no estado que a Helena entrou no bar, e agora eramos sem dúvida um casal. Voltamos para o balcão alegres e felizes como dois gansos com espasmos depois de comer um peixe envenenado. Pedi duas cervejas e o Jaime ficou me olhando com cara de reprovação e raiva. Tirei uma nota de vinte do bolso e duas latas apareceram no balcão. Fiz um ar de durão e olhei nos olhos dele enviando uma mensagem telepática que dizia: “Quero mais!” Ele colocou mais duas dozes de vodca na nossa frente e recebi uma mensagem telepática dele que dizia: “Beba isso e saia do meu bar!” Fingi que não escutei. A Helena me agarrou e me deu um beijo. Nossas línguas se entrelaçavam com uma leveza estranha perto do frenesi de nossos corpos. Tinha pouco ou nenhum controle dos meus movimentos. Minhas mãos se apertavam com tamanha força que pareciam que iam implodir. Acho que perdi completamente o eixo referencial e me sentei no chão porque não conseguia mais me equilibrar na cadeira. Isso cortou meu mundo pela metade e só conseguia enxergar as pessoas da cintura para baixo, cobertas por uma névoa e sem foco.

O Jaime pensou que era uma overdose e começou a me arrastar para fora. “Ninguém vai morrer desta merda dentro do meu bar!” A Helena gritava com ele enquanto me segurava pelo pé. “Larga ele seu velho maldito!” Eu era a corda do cabo de guerra, que foi vencido pelo Jaime. A Helena caiu aos meus pés e pude sentir suas mãos escorregando pela minhas pernas como numa cena de cinema antigo, quando o mocinho esta sendo carregado pelo bandido e a mocinha fica no chão, com as mãos no rosto, chorando copiosamente. “Não, por favor, não leve ele…” Mas isso não era um filme, nem eu um mocinho, nem ela uma mocinha e o Jaime sim era um bandido filho duma puta. O insensível me arrastou até a esquina do bar e me largou meio escorado num poste. A Helena veio em meu socorro e tentou me carregar pelo ombro. Caímos os dois juntos novamente como se aquilo representasse o fracasso total de nossas vidas. E ela chorava enquanto eu me perguntava porque ela ainda estava de pé depois da degustação de cinza com folha e pó, e se meu corpo estava se transformando em água e se esvaindo em suor.

Me senti vivo de novo com os primeiros raios de sol na cara antes que fosse de manhã. Estava todo travado e encolhido na sarjeta, e ela estava caída embaixo do toldo da doceria que funcionava durante o dia do lado do bar. Os senhores e senhoritas que passavam nos olhavam com um espanto que fazia eu me sentir um pouco melhor, mas nem de longe amenizava as dores. O Jaime estava varrendo a calçada da frente como se aquela espelunca fosse um ambiente de família e a cozinha um lugar limpo. Ele me olhava com raiva como se gritasse: “O que você ainda esta fazendo aqui!? Volta para o seu buraco!” Demorei uns dez minutos entre acordar e conseguir me mexer. A comunicação do cérebro com os membros se dava através de pequenos sinais elétricos, como um computador com Windows travando para rodar um vídeo. Cada osso do meu corpo se estralou, e os músculos estavam em frangalhos quando levantei. Agora parecia que tudo ia ficar bem. Acordei a Helena e saímos dali antes que alguém do serviço social pudesse nos fazer algum mau.

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Quem não aposta não ganha

AntimidiaBlog - Quem não joga não ganhaAquele dia tinha tudo para dar errado. Devia ter percebido logo que acordei. Qualquer movimento que fazia provocava uma onda de dor que se espelhava na velocidade da luz e parecia que ia explodir na minha cabeça. O Senhor, com toda sua sabedoria, me fez assim, alcoólatra e viciado em cocaína, o que ele faria comigo se eu o contrariasse? Não sabia onde estava nem quem era a garota do meu lado. Tentei não fazer muito barulho, mas não foi fácil me equilibrar para colocar a calça e acabei caindo em cima do criado mudo. Ela acordou e me ofereceu um café. Respondi que tinha sido uma noite inesquecível e fui embora. Não foi bem assim, mas era tudo que ela queria escutar para me deixar sair sem perguntas. Passei por um brechó, comprei um terno e uma gravata. De lá, já trajado, fui direto para o Bar do Jaime ver se arrumava alguma coisa. Precisava de algum dinheiro para pagar pensão.

Dominó, cacheta, pôquer, bilhar, alguém sempre estava jogando alguma coisa. Dava para perder dinheiro em cavalos, (grandes) lutas de boxe clandestina, queda de braço e qualquer coisa que se quisesse apostar. Peguei bebida, fichas e comecei a transitar. O baralho com certeza era a opção mais lucrativa. Procurei uma mesa com bastante copos. Os bêbados reparam menos nos ladrões e nas cartas. Sentei com o Reco Reco, o Reboco, a Ranca Rabo e não sei quem era o outro velhote. “Estou esperto com você seu larápio de merda.” O velho me conhecia de outros carnavais, que não lembro de ter pulado. Sempre fui honesto com quem merecia. “Nós todos estamos”, completou a senhorita que distribuía as cartas e ficava com 2% do pote. Preciso de um par de ases para ganhar algum dinheiro, para ela basta usar os peitos. “Amigos, tudo que sei aprendi com vocês.” Tinha a meu favor simpatia e confiança.

Mão vem, mão vai, e quando não estava empatando estava perdendo. A coisa não engrenava. Fui recuperar parte das perdas na roleta. Trinta por cento no branco e all in no preto. Vamos lá Wesley Snipes, quebra essa………ganhei! Embarquei num grupo de Black Jack. As cartas giram mais rápido, o jogo é dinâmico. Quando se da por si as fichas que se tem no bolso não pagam as bebidas que estão na cabeça e o pó do nariz. Era hora de colocar os anos de faculdade na mesa. Fui para o bilhar. Ninguém apostaria que um bêbado é capaz de jogar tanto. Foram duas faculdade de humanas, e ainda me diziam que elas não iam valer de nada. Preciso de dinheiro de verdade. Voltei para o pôquer cambaleante e desesperado por um passaporte para o paraíso. Na sinuca eles tomam muita cerveja, a galera do baralho preferia whisky. Eu já estava todo embaralhado. Não sabia mais o que era ouro e o que era copas.

Estava perto de dar a cartada final quando um grito de “ladrão!” cruzou o salão. Todo mundo olhou para o lado. Enfiei a mão nas fichas do Reboco e do velhote e dei um bicudo na mesa. Cai no chão e escutei o barulho de um tiro. Depois veio o corre corre. No meio do tumulto recolhi mais algumas fichas que estavam espalhadas. Olhei para o balcão e vi o Jaime empunhando uma doze punheteira e atirando a esmo. Ia me arrastando na direção da parede quando fui interrompido pela bota de couro de cobra do velho atingindo violentamente meu estômago. “Me devolve meu dinheiro filho da puta!” Uma bala guiada por Deus acertou ele pelas costas.

Consegui chegar até o banheiro, me tranquei numa cabine e fiquei esperando a confusão acabar. No fim era como se um liquidificador gigante tivesse batido todo o bar. O Jaime tinha levado um tiro no braço e não se cansava de amassar a cara do bastardo que disparou a bala. Nem com a polícia lá, recolhendo os corpos, ele parou de bater no infeliz. Procurei o velhote entre os sobreviventes, mas nada dele. Não gostava muito daquele cretino, uma vez ouvi dizer que ele pegou a mulher com seu irmão e matou os dois na porrada. Puxou cana e tudo mais, mas não sei se ele merecia morrer. Sobrou um tiro no peito do Reco Reco, e ele estava estrebuchando a caminho do hospital. Começou o movimento de limpeza do salão e reorganização das mesas. Fui para o caixa, troquei minhas fichas e sai sem ser percebido.

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Barata tonta passeando pelo jardim

Barata tontaEntrei no bar quietinho. Torcendo para não ser visto. Não lembrava muito sobre a noite passada, e não queria ser lembrado. O Jaime estava colaborando comigo. Me viu chegando e parando no canto da parede com o balcão. Sem fazer alarde se aproximou com um copo de água. “Isso é tudo que você vai beber aqui. Se você não quiser voltar por causa disso é um favor que você me faz.” Levantei a cabeça lentamente, com cara de coitado, evocando todos os anos de amizade. “Que amizade?” “Com o mico!” Nunca vi alguém negar nada que estivesse impresso em papel moeda. Ele colocou uma cerveja e um copo na minha frente.

Peguei a parte de esportes do jornal torcendo para desaparecer. Não funcionou. O Jaime parou do meu lado e perguntou: “Quer ganhar cem pratas?” “O mico precisa da banana.” Ele apontou para um coronel que estava sentado do outro lado do bar. O velho me encarava como se estivesse sugando informações de dentro do meu cérebro e já soubesse que eu era um tremendo filho duma puta. Sentei em uma cadeira na mesa dele. “O velho do balcão disse que você tem trabalho para um cara como eu.” “Preferia que fosse um homem, mas acho que você serve.”

Saímos do bar e entrei na carroceria de uma caminhonete. O velho dirigia como um rato drogado sem direção. Ele travou a roda, bati violentamente contra a grade e estávamos parados na frente de uma casa. Saíram mais três caras. Um sentou na cabine e os outros dois vieram comigo. Não teve “oi” ou “tudo bem”. “Você é o substituto do Cabeçudo?”, perguntou o capanga um. “Pode ser que sim.” O velho arrancou loucamente. Se sobrevivêssemos aquilo o serviço ia ser o de menos. A cidade foi ficando longe. Andamos uma meia hora numa rodovia e entramos numa estrada de terra.

Tinha dois caminhões parados. O chefe verificou a carga. Eram centenas e milhares de pacotes de cocaína embalados em grandes fardos. Outros dois caminhões encostaram e agora éramos seis. “Vamos lá seus ordinários. Se eu ver algum saquinho furado voi enfiar o dedo no cu do bastardo. Vocês podem cheirar tudo que estiver no chão do caminhão.” Tinha tanto pó no assoalho que não era nem preciso juntar. Me curvei, mandei para dentro, o começamos o trabalho. Montamos uma linha de produção e começamos a jogar fardos de um lado para o outro.

O bagulho era bom. Foram mais duas cafungadas e não estava sentindo mais minha cara. Todo mundo fritando a luz da lua. Arremessando trinta, cinquenta quilos, como se estivessem jogando pedrinhas num lago. Um dos ordinários não aguentou o tranco. Começou a tremer, suar frio. O velho colocou ele dentro do carro. A última vez que reparei nele não acreditava que ele iria acordar de novo. Não me arriscava a parar com medo de ter o mesmo futuro. Já estava no meio do caminho. Tremia como uma vara verde e suava como um porco.

Acabamos tudo em pouco menos de duas horas. Desta vez fui no caminhão. O motorista me deixou numa praça com meus cem mangos. Parecia que eu ia empacotar a qualquer momento. As vezes parecia que estava frio, as vezes parecia que estava calor. Não resisti a tentação e surrupiei um quilinho. Tirei ele da cueca e mergulhei no chafariz. Tomei um litro daquela água e olhei em volta. Arrebanhei duas garotas que estavam dando sopa no poste, peguei três garrafas de conhaque no bar e fomos curtir o fim da noite na minha casa.

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