O Nerd Escritor
Feed RSS do ONE

Feed RSS do ONE

Assine o feed e acompanhe o ONE.

Nerds Escritores

Nerds Escritores

Confira quem publica no ONE.

Quer publicar?

Quer publicar?

Você escreve e não sabe o que fazer? Publique aqui!

Fale com ONE

Fale com ONE

Quer falar algo? Dar dicas e tirar dúvidas, aqui é o lugar.

To Do - ONE

To Do - ONE

Espaço aberto para sugestão de melhorias no ONE.

Blog do Guns

Blog do Guns

Meus textos não totalmente literários, pra vocês. :)

Prompt de Escritor

Prompt de Escritor

Textos e idéias para sua criatividade.

Críticas e Resenhas

Críticas e Resenhas

Opinião sobre alguns livros.

Sem Assunto

Sem Assunto

Não sabemos muito bem o que fazer com estes artigos.

Fórum

Fórum

Ta bom, isso não é bem um fórum. :P

Projeto Conto em Conjunto

Projeto Conto em Conjunto

Contos em Conjunto em desenvolvimento!

Fan Page - O Nerd Escritor

Página do ONE no Facebook.

Confere e manda um Like!

@onerdescritor

@onerdescritor

Siga o Twitter do ONE!

Agenda

Agenda

Confira os contos e poemas à serem publicados.

Login

Login

Acesse a área de publicação através deste link.

conto da noiteO Conto da Noite
Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

>> Confira outros textos de Evandro Furtado

>> Contate o autor

* Se você é o autor deste texto, mas não é você quem aparece aqui...
>> Fale com ONE <<

0

A esquina e o fim

Imagem | AntimidiaBlog

Imagem | AntimidiaBlog

[blitz]

– Boa noite. Documentos do Senhor e do veículo, por favor.

– Sim Senhor, aqui estão.

– Da onde o Senhor está vindo e para onde vai?

– Estou voltando do trabalho para casa.

– O Senhor pode descer do veículo, por favor.

– Claro, algum problema policial?

– Estamos verificando. São só procedimentos de rotina. O Senhor está de posse de algo ilegal?

– Não Senhor.

– Então, por favor, retire tudo dos bolso e coloque em cima do capô.

– O que está acontecendo aqui? Sou suspeito do que?

– Não sabemos ainda Senhor, estamos averiguando, são só procedimentos de rotina. Coloque as mãos na cabeça e abra as pernas por favor?

– Porque estou sendo revistado? Eu tenho direito de saber porque estou sendo revistado.

– Atitude suspeita, Senhor.

– E qual foi a minha atitude suspeita? Eu estava no limite da via, usava cinto de segurança, estava com as duas mãos ao volante, o que eu estava fazendo de suspeito?

– Sua atitude era suspeita, Senhor. O que há no porta-malas do veículo?

– Não sei, umas caixas, panos, estepe, coisas assim.

– O Senhor não sabe o que carrega no porta-malas, Senhor? O Senhor pode abrir para mim, por favor?

– Posso, o que o Senhor está procurando?

– Ainda não sei, Senhor. O que há naquela maleta.

– Somente alguns papéis.

– O Senhor pode, por favor, abrir para mim ver?

– Claro. Está vendo, papéis.

– Sobre o que são esses papéis?

– Planilhas, contas. Sou comerciante, são algumas coisas da empresa.

– Examine estes documentos Segundo Sargento. Agora nós podemos ver o interior do veículo?

– Como assim examine estes documentos? O Senhor não pode mexer nas minhas coisas assim.

– Estou analisando os documentos que o Senhor me mostrou e que foram encontrados numa pasta no porta-malas do seu veículo. Aconselho que o Senhor se acalme e me mostre o interior do veículo.

– Como assim se acalmar? O que está acontecendo aqui?

– Se o Senhor tem algo à esconder aconselho que me conte agora, pois nós vamos achar.

– Do que o Senhor está falando? Quer saber, a atitude do Senhor é que é suspeita. Que procedimentos de rotina são esses? Mas eu não tenho nada para esconder. O que o Senhor quer ver?

– Abra o veículo, por favor?

– Estes CDs no porta trecos são do Senhor?

– É isso, sou culpado por comprar produtos piratas? Pode me prender.

– Acalme-se Senhor.

– As MP3 do pen drive também são piratas. Eu me entrego.

– Irei confiscar esses itens. O Senhor pode abrir o porta-luvas, por favor.

(click)

– O que são esses papéis?

– A nota fiscal do carro, umas contas, não sei.

– Posso ver essa nota fiscal?

– Por que? Eu posso perguntar por que?

– A sua atitude suspeita, e irônica, diz, segundo o manual, que o Senhor está tentando ocultar algum crime. Já sabemos que o Senhor não respeita as leis de direitos autorais, agora estamos procurando quais outras lei o Senhor não respeita.

– Eu não tive nenhuma atitude suspeita não. Isso é abuso de autoridade. O Senhor já me revistou, revistou meu carro, e não achou nenhuma evidência de nada suspeito. O Senhor está procurando pelo em ovo, isso que o Senhor está fazendo. Eu tenho meus direitos, e não tenho que te entregar a nota fiscal do meu carro.

– Por favor Senhor, me respeite. Estou fazendo meu trabalho, que é combater o crime. Sua atitude é sim suspeita, e eu posso prendê-lo por desacato.

– Olha, eu sou um cidadão de bem. Eu respeito a polícia, acho que o trabalho da polícia é desvalorizado. Mas eu não sou bandido.

– Então me mostre isso, Senhor. Me entregue esta nota fiscal e me deixe fazer meu trabalho que a verdade aparecerá.

– Tudo bem, desculpe. Estou um pouco nervoso, é a primeira vez que passo por isso.

– A loja do Senhor deve estar indo muito bem, este carro é bem caro. Com o que o Senhor trabalha?

– Acabou, me desculpe. O Senhor é da Receita Federal? Eu não fiz nada de errado, nem tive nenhuma atitude suspeita. Ou o Senhor me leva preso e me deixa chamar meu advogado, ou me deixa ir embora.

[delegacia]

– Eu só falo quando o meu advogado chegar.

– O Senhor que sabe, mas pode estar acabando com as suas chances de um acordo.

– Um acordo sobre o que? Sou acusado do que? O Senhor não tem nada!

– Bom, já sabemos que o Senhor não respeita as leis de direito autoral. Podemos provar isso. Também sabemos pelos papéis da sua pasta, e a nota fiscal do seu veículo, que a sua renda é incompatível com seu estilo de vida.

– Não falo mais nada enquanto o meu advogado não chegar.

– Viu, isso é uma atitude de quem quer esconder alguma coisa. Nós já sabemos que o Senhor comete algum crime. A sua renda é incompatível. Não preciso de uma evidência, isso é uma prova.

– Prova do que?

– De que o Senhor cometeu algum crime para comprar um carro que uma pessoa na sua posição não poderia comprar.

– Isso é uma suposição, até o Senhor provar o contrário eu sou inocente. Eu comprei o carro com um dinheiro que eu tinha guardado há muito tempo. Trabalho desde os 12 anos e agora não posso ter um carro?

– Quanto tempo?

– Desde os 12 anos.

– Não tem nada haver com sonegação de impostos? Venda sem nota fiscal? Compra de produtos sem origem declarada? Essas coisas.

– Eu não sei do que o Senhor está falando. Se o Senhor não sabe do que me acusar, como eu vou me defender?

– O Senhor tem filhos?

– Tenho, três.

– Eles estudam em escolas particulares?

– Eu sei o que o Senhor está querendo dizer. Já disse que não respondo nada até meu advogado chegar.

– O Senhor já disse isso três vezes, eu só estou querendo ajudar o Senhor a dizer a verdade.

[conversa com o advogado]

– Como assim eles podem me manter preso por até três meses?

– Além de você ter violado as leis de direito autoral, existe um indício de que você cometeu algum crime para ter dinheiro e comprar o carro, por enquanto é só isso. Sei que eles solicitaram junto à Receita Federal sua declaração de imposto de renda, da sua empresa e da sua esposa. Se há algo de errado eu preciso saber agora.

– Como assim? Eles não podem fazer isso. Era só uma blitz, o documento está em dia, minha carta também. Eu só quero ir para casa.

0

E eles foram felizes para sempre…..

Imagem | Antimidia

Imagem | Antimidia

Quando Dona Maria levantou para começar a preparar o café-da-manhã Seu Eduardo nem se mexeu na cama. Nos quartos de Alex e Cristiane também não havia o menor sinal de movimento. Primeiro ela limpou a pia dos assaltos noturnos à cozinha. Deixou a água do café e o leite para fervendo e foi regar as flores da entrada. Por fim colocou comida e trocou a água do Rex. Tempos depois do cuco anunciar que já eram seis horas ela foi acordar as crianças. O marido já estava no banho, o Alex fingiu que estava dormindo e a Cristiane reclamou de cólicas. Ela voltou para cozinha e cortou maçã, mamão e melão e preparou dois queijos-quentes na tostequeira elétrica. “Hoje tem reunião da equipe no escritório depois do expediente, então não me espere acordada.” Seu Eduardo pegou uma banana na fruteira e saiu apressado sem um beijo de tchau. Três minutos antes da perua da escola chegar os dois estudantes sentaram na mesa. “Mãe, preciso do dinheiro para pagar o acampamento na escola.” “Depois da aula vou na casa da Natália fazer trabalho.” A buzina tocou e os dois saíram comendo queijo quente.

As frutas intocadas Dona Maria colocou num pote e guardou na geladeira. Assim como o leite, mas como ela não tomava café preto esvaziou a garrafa térmica na pia. Tirou a mesa e lavou a sujeira antes de subir para os quartos. Abriu as janelas, arrumou as três camas, tirou o lixo dos banheiros e recolheu as roupas sujas no chão. Desceu até a lavanderia e pôs a máquina de lavar para funcionar. Então começou a limpar a sala. Tirou o pó de todos os bibelôs espalhados pelo ambiente e passou lustra-móveis nas madeiras. Arrastou os sofás, cadeiras e a mesinha para varrer o chão. Depois passou aspirador nos tapetes. Antes de estender as roupas passou pela cozinha. Picou uma cebola e dois dentes de alho e começou a preparar arroz. Tirou o feijão congelado do freezer e colocou no microondas. Enquanto o cheiro de fome se espalhava pela casa ela estendeu as roupas. Não eram nem dez da manhã quando ela começou a temperar e cortar os bifes e a salada do almoço. Deixou tudo pré-pronto e foi tomar um banho.

Dona Maria se preparou com sua melhor lingerie e passou óleo de amêndoas pelo corpo. Quando estava pronta sentou na escada, usando um roupão de hotel, olhando para porta da frente. Exatamente as 10:03 A.M. a campainha tocou. Paulo era jardineiro do condomínio, e gostava de usar tênis Nike e Iphone de última geração. Ela levantou com aquela sensação de aventura no estômago e abriu a porta com aquele sorrizinho sacana de quem sabe o que quer. Dona Maria se virou e saiu desfilando pela sala. Deixou o roupão cair pelas suas costas no caminho e deitou de lado na escada. Ele fechou a porta com cuidado e foi atrás dela já tirando a roupa. Sem nenhuma proteção nem camisinha eles foderam ali mesmo. Até o relógio soar décima primeira badalada. Ele se levantou, colocou o macacão, pegou o envelope que estava na mesinha do lado da porta e saiu prometendo voltar na outra semana. Ela ficou caída curtindo aquela porra gosmenta escorrendo pela sua coxa por um momento. Aí se levantou e foi se lavar.

Alex abriu a porta da frente e gritou: “Cheguei!” Dona Maria já estava na cozinha fritando os bifes e requentando o arroz com feijão. O garoto deixou a mochila no sofá, sentou na mesa da cozinha, comeu assistindo Chaves e se trancou no quarto. A mãe almoçou assistindo Jornal Hoje e depois limpou toda cozinha. Ainda eram duas da tarde, então se sentou na varanda para ler um pouco e passar o tempo. Como se casar com um marquês, Julia Quinn. Cinco páginas depois estava na lavanderia engomando camisas, passando blusas encardidas e dobrando meias e cuecas. Percebeu que Cristiane chegou quando escutou a porta da frente abrir, fechar, passos na escada, porta do quarto abrir, fechar. Alex acordou do cochilo da tarde e fez uma imundice na cozinha montando um lanche para comer enquanto jogava vídeo game. Cristiane estava escutando música num volume ensurdecedor. Dona Maria se fechou no seu quarto e ligou para sua irmã. Cheia de entusiasmo ficou uma hora e meia no telefone falando sobre a visita de Paulo.

Saiu do quarto chamando as crianças para a janta. Pegou umas salsichas, batata palha, pão de hot-dog, ketchup, mostarda e maionese e preparou um lanche. Colocou uma Coca-Cola gigante na mesa e ficou observando os filhos comerem enquanto petiscava as frutas do café-da-manhã. “Come devagar Alex!” “Melhorou a cólica filha?” Os dois voltaram para os quartos ainda mastigando. Ela arrumou a cozinha de novo e sentou na sala para ver novela. Na hora do Jornal Nacional ligou para sua mãe para falar sobre o tempo. Assistiu a novela das nove, checou se estava tudo bem e deu boa noite para o Alex e a Cristiane antes de ir dormir. Seu Eduardo chegou pouco lá pra uma da manhã. Entrou no quarto sem fazer muita questão de ser silencioso. Se trocou no banheiro e deitou ao lado de Dona Maria, que tinha acordado na hora que o carro chegou na garagem. Estava agitado e não conseguia pegar no sono, e ficava se virando de uma lado para o outro. E ele fedia azedo e suava como um porco.

0

O Susto

Não tive a menor intenção de lhe causar mal. Não imaginava que aquilo pudesse acontecer. Eu, que nem tinha coragem de pisar numa barata sem fechar os olhos e tapar o ouvido, não pretendia assustar tanto a pobre criatura. Pelo menos não ao ponto de matá-la. Essa parte foi totalmente sem querer. O susto, aceito, foi intencional, mas como poderia saber que ela sofria do coração? Eu nem tinha gritado tão alto assim. Com certeza seu coração já devia está pedindo arrego. Morrer de susto era só força de expressão, não era para acontecer literalmente. E no mais, eu sei que não tinha gritado tão alto porque não queria acordar o bebê.  Ele continuava a dormir no carrinho, ainda bem, não tinha nem pulado quando eu dei o berro. Pra você ver que o grito não tinha sido dos maiores. Respirei fundo. Tinha que me controlar.

Deixe eu me explicar, contar desde o início. Eu havia saído de casa naquela manhã como faço todos os dias, às sete horas, para passear com o bebê. Meu primeiro filho. O primeiro de sete. E sete era o meu número da sorte. Havia nascido no dia sete do sete. Tinha namorado sete anos antes de casar. Casei em 77 aos 27 anos…

Bem, mas isso não vem ao assunto em questão, era só para vocês perceberem que era um dia como outro qualquer e que eu sou uma pessoa normal como outra qualquer.

Brasília não é exatamente um lugar onde se encontra muitas pessoas pela rua para conversar, especialmente àquela hora da manhã. Então, sempre que encontrava alguém, gostava de parar para bater um papo. Meu marido trabalhava o dia todo e a faxineira, quando aparecia, entrava muda e saía calada. Um verdadeiro tédio…

Minhas únicas opções eram ter longos monólogos com o bebê, que sempre me olhava como se não estivesse entendendo. Então, como sempre achava que tinha que explicar melhor, não saíamos do mesmo assunto. A outra opção era simplesmente procurar alguém na rua para não enlouquecer.

Bem, era um dia como outro qualquer. A única diferença era que naquela manhã em especial, decidira que ia fazer algo diferente. Na noite anterior, enquanto colocava o neném para dormir, tinha visto parte de um programa. Nunca conseguia ver nada por inteiro. Para mim, sete minutos de qualquer coisa já bastava.

Bem, o programa dizia que tínhamos de experimentar fazer algo diferente todos os dias para aproveitarmos melhor a vida. Achei uma ótima idéia. Então decidi que, no dia seguinte – o sétimo dia do mês – seria o dia ideal para se começar qualquer coisa e faria algo que nunca fizera antes.

Talvez não tivesse escolhido a melhor coisa para fazer. Bem, com certeza escolhi a pessoa errada. Era para ser só uma brincadeira, uma pegadinha, dessas que a gente vê na televisão. Deixe-me explicar melhor. É que desde pequena eu tinha vontade de dar um susto em um desconhecido na rua. Sabe desses sustos que a pessoa vem por trás e dá um grito e o outro se treme todo de pavor. Depois, é para os dois se olharem e caírem na gargalhada e começarem a conversar, podendo até se tornarem amigos.

Foi o que eu fiz. Só que eu não havia percebido que ela era tão velhinha. Hoje em dia a gente olha as pessoas por trás e acha que tem no máximo uns trinta anos. Depois quando vai olhar a cara, percebe que já passou dos setenta.

Como ia saber? Era culpa dessas modas que todas as mulheres, não importando a idade, usam. Pelas costas não tem como saber a idade de uma pessoa. Às vezes, nem mesmo pela frente. Com tanta plástica diferente que existe por aí. Tem que olhar bem de perto, observar a pele do pescoço.

Se bem que o fato dela estar usando uma bengala deveria ter me alertado. Mas eu não tinha parado para pensar. Tinha ficado tão contente em encontrar outra pessoa acordada e caminhando àquela hora e com a possibilidade de poder começar logo cedo a colocar meu plano em ação que não tinha dado tempo de parar para pensar nas consequências.

Fui devagarzinho por trás dela e assim que dei o berro ela foi se desmilinguindo e caiu no chão. Os olhos abertos. Bem, melhor dizendo, esbugalhados de susto. E eu fiquei ali paralisada por um minuto, também tinha levado um susto. Aquilo não era exatamente o resultado que eu esperava.

Então, abaixei para tocar seu pescoço como já havia visto inúmeras vezes em filmes. Mas nada pulsava e seus olhos me fitavam acusadoramente. Olhos azuis, que lindos! Desculpa, disse baixinho. Levantei rapidamente e olhei em volta, não havia nenhum outro ser vivo por perto. Alguém deu uma gargalhada! Pulei e olhei ao meu redor só para descobrir que tinha sido eu mesma. Tapei a boca com força. Precisava sair logo dali. Olhei para o carrinho. O neném dormia feito anjinho.

Peguei o carrinho e sai apressadamente. Sentia que olhos me seguiam enquanto me afastava. Que bobeira, só tinha eu aqui!? Coitada, pensei, era sua hora. Não foi minha culpa com certeza. Suspirei aliviada. Olhei para o relógio. Eram sete e treze. Acho que a velhinha tinha morrido às sete e sete. Que sorte, hein?

Acelerei o passo, pois precisava passar no mercado para comprar feijão para o almoço.

Publicado por Elide Pinheiro em: Agenda | Tags:
0

Ratos e ninhos de amor

Seu AlceuE ele suava como um porco e fedia azedo. Carregava uma pasta e um lenço branco embabado naquele líquido fétido que escorria por todo seu rosto e ensopava aquela barba nojenta. As pessoas fingiam que não notavam. Mas não tinha como. A sala de reuniões ficava empesteada pela sua presença. “Não há muito o que dizer. Ele nos causou um prejuízo de cinco mil. Não temos espaço para incompetentes.” Ninguém contestava o que ele falava para poder estar longe dele o mais rápido possível. Faziam desenhos em folhas em branco para não precisar olhar sua cara. “Comuniquem ele até o fim do dia.” Tudo bem, todos farão o seu melhor para não precisar mais passar por isso. O único ato espontâneo de alguém em sua presença seria sair correndo. Enquanto ele dobra os papéis e coloca na pasta as pessoas já estão se levantando e olhando para a parede. “Eduardo!” Não! Eu não! Hoje não! Nunca não! Seu Alceu sinaliza para o executivo que tentava sair. O resto continua andando focado na parede com um misto de alivio e duvida. Afinal, era o chefe do RH e o ceifador implacável. “Hoje podemos tomar aquele drink que você esta me devendo. Por minha conta.” Não, por favor Deus, não! “Claro. Passo na sua sala no fim do dia.”

A submissão funciona como uma certa auto-censura que transforma o homem num rato condicionado. No resto do dia ele pensou em uma forma de se livrar daquilo. E Eduardo estava dentro do carro dirigindo pela 9 de Julho pensando em ser parado por um blitz e preso por qualquer crime para se livrar daquilo. E ele suava como um porco e fedia azedo. “Um homem merece ter seus prazeres depois de um dia de trabalho.” Você fede seu porco desgraçado! “Com certeza.” Como se fosse um remédio para dor de cabeça, o Seu Alceu tira do bolso uma cápsula com um pó branco e faz duas carreirinhas em cima do manual do carro que ele pegou no porta-luvas. Ele abaixa o nariz para cheirar e a outra carreirinha se dissolve no suor da sua testa. Ele passa a mão na testa, lambe, vira a capa do manual, seca com a manga da camisa em movimento giratórios e estica outra carreirinha. Eduardo cheira. “Vamos naquele hotel novo que abriu perto do aeroporto. O hotel das universitárias.” Puta que pariu! Velho babão de merda!

Os vidros fechados por causa do ar condicionado e o cheiro escatológico girando por todos os centímetros quadrados. O trânsito travado numa terça-feira interminável. O aeroporto parecia estar a anos luz dali. E ele suava como um porco e fedia azedo. “Vamos no velho casarão da Rua Augusta. Vamos demorar horas para chegar até o aeroporto.” “Não, não. Não quero mais ver a Xarlene.” Ela que não quer te ver. Ninguém quer te ver seu fudido de merda! E o impulso de fugir soca a mão na buzina e o pé no acelerador. Por favor! Alguém me mate! “Deixa o rádio na CBN pra eu saber como o mercado esta reagindo a troca de ministros. No fim não vai mudar nada.” Haaaaaaaaa! “Estou achando que o departamento comercial esta acomodado com as metas baixas. Acho que vou pressionar a Dona Marlene por mais contratos.” Foda-se! Foda-se! FO-DA-SE! “Melhor que dinheiro só mais dinheiro.” Chega logo lugar du caralho! “Aquela velha sabe como ganhar dinheiro. Ela até merecia uma boa foda. Quanto tempo será que faz que ela não dá uma trepada animal?” Cala a boca seu cretino bastardo! “Não sei se ela sabe o que é isso. Conheci o marido dela uma vez numa churrascaria. Tem cara de paspalho.” Eu vou te matar! Eu vou te matar! “Chegamos.”

Uma senhora cheia de penduricalhos e com cara colorida de pó de arroz recebe os dois na porta. “Boa noite senhores. Já sabem o que querem?” “Sim. Duas estudantes de engenharia de uma faculdade católica e uma garrafa de whiskey 12 anos.” A senhora faz um gesto e duas garotas, uma loira e outra morena, se aproximam. Seu Alceu junta a morena e senta de um lado da mesa alisando as pernas dela com as duas mãos, tentando agarrar tudo que pode. E ele suava como um porco e fedia azedo. Eduardo senta com a loira do outro lado. O garçom traz a garrafa e entrega uma comanda para cada um dos dois. “É o seguinte. Primeiro você vai comigo, depois com ele. A loira a mesma coisa.” Puta que pariu! Não vou tocar nela depois de você nem a pau! “Pega uma garrafa destas para você porque esta vou levar comigo.” Some da minha frente! Um vai para o quarto da direita e o outro para o quarto da esquerda.

Enquanto Seu Alceu fodia a morena de quatro Eduardo estava se explicando para a loira. “Não dá. Não consigo sabendo que aquele escroto esta fodendo no outro quarto.” Nhéc, nhéc, nhéc. Tum, tum, tum. “Meu Deus! Aquele animal deve estar esfregando aquele suor escroto nela. Como vocês se prestam a isso?” Cinco minutos depois que os barulhos pararam a morena entrou no quarto pelada e acabada carregando as roupas na mão. A loira fez cara de desespero e saiu. A morena entrou no banheiro e ligou o chuveiro. Os barulhos recomeçaram. Nhéc, nhéc, nhéc. Tum, tum, tum. Eduardo virou uma talagada da garrafa, passou sua comanda duas vezes no leitor digital e voltou para o bar. Seu Alceu apareceu carregando o paletó pelo dedo jogado nas costas e com a gravata enrolada no pescoço. E ele suava como um porco e fedia azedo. Os dois entraram no carro e foram embora. “Queria foder assim a Dona Marlene.” Quero muito te dar um soco na cara. Imbecil! Eduardo deixou Seu Alceu no estacionamento do prédio do escritório e foi para casa. Seu Alceu pegou seu carro e foi para a sua.

Powered by WordPress. © 2009-2014 J. G. Valério