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conto da noiteO Conto da Noite
Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

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Aquela escada Cinzenta

2016

Ah, vida cheia de altos e baixos.

Há quem diga que não existem apenas coisas estranhas, mas sim que existem coisas mais estranhas do que possamos imaginar.

Toda pessoa, um dia recebe o que merece.

É aquela coisa que esteve a vida toda perseguindo-o incessantemente, noite após noite, amanhecer após amanhecer.

Um dia, inesperadamente isto te encontra.

E está acabado.

Irremediável.

Quem nasceu na riqueza, pode não suportar viver na pobreza.

Quem nasceu na pobreza e ficou rico, talvez não tema retornar a ela.

Talvez seja melhor ser odiado pelo que é, do que ser amado pelo que não é.

Estava ali, nos degraus daquela cinzenta escada do prédio de apartamentos a fumar; olhando sombras, paredes sujas, descascadas, pichadas.

Não havia vestígio de sujeira no chão.

Quase todos dias, em horário especial quando os maluco estavam chapados a dormir e as formigas haviam ido trabalhar, ela varria.

Das oito e meia, até nove e meia da manhã.

Para poder absorver aquele curto instante de silêncio.

Aquele instante.

Ficar.

Ficar lá.

Às vezes ela pensava e alguma coisa, em outras não pensava nada.

O que ela pensava ou meditava, qualquer um que vivesse por perto poderia imaginar.

Se alguém desse a mínima.

O negócio é que, não dão.

Ninguém quer saber seu nome, ou importa-se com a palidez de seu corpo magrinho.

Ela vive um andar abaixo.

Ela mora com os pais e irmãos embora, se fosse questionada a respeito disto, diria que era órfã e não tinha ninguém.

Mas ninguém iria perguntar.

Às vezes no andar de baixo, há gritos, barulho, briga, conflito, berros, discussões enquanto o imenso prédio inteiro viaja alucinado para outras dimensões e geme repetindo a mesma nota em cada apartamento, junto com músicas, gargalhadas, cerveja, cachaça, drogas, facas, navalhas, armas de fogo, feijão, frituras, insanidade, luz e lágrimas.

Mas não tem ninguém que se importe.

Não há ninguém que perca tempo escutando.

Ela sabe o que os outros sofrem.

Ela conhece os poucos fortes que conseguem ser felizes.

Em contrapartida, ninguém sabe a responsabilidade que ela carrega.

Cuida de três irmãos menores.

Limpa, lava, cozinha, enquanto seus pais acabam-se de trabalhar no mundo lá fora, ganhando o que conseguem a custa de sacrifício, suor e sofrimento.

Muitas vezes, não voltam para casa, porque a cidade não os deixam voltar.

Outras vezes…

Outras vezes somem uns dias.

Nunca juntos.

Um para cada lado.

Ela consegue imaginar muito bem o que acontece e o que eles fazem.

É fácil.

Para pessoas como eles, parece existir poucas possibilidades.

Enquanto ela permanece firme e limpa, fumando nos degraus da escada limpa e cinzenta.

Guardiã de seus pequenos irmãos.

Seus pais somem por não suportar a realidade miserável que os aguarda, enquanto os anos passam, os sonhos caem mortos pelo chão e a coisa vem chegando para ferrar com eles.

Ela é diferente, ela e todos como ela são diferentes de seus pais.

Eles nasceram ali, se criaram ali, sabem que existem outros mundos e conseguem enxergar caminhos que talvez possam levá-los para outros lugares, enfim, talvez um mundo melhor.

Uma nova história.

Algo que ainda não foi contado, cantado ou escrito.

fim.

gu1le

Publicado por semanickzaine em: Agenda | Tags: , ,
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Beautiful girl

É incrível o poder que a música tem de transformar situações banais do dia a dia em memórias inesquecíveis. Anteontem, fui fisgado por esta maravilhosa experiência mais uma vez. Estava no quarto, deitado na cama, ao lado da minha mulher. Ela de pijama e eu com peças velhas de roupa, que, acredito, sejam o melhor tecido para cair no sono. Quanto mais esgarçadas melhor. Lado a lado, conversando, fuçando o celular, esperando a tristeza dos finais de domingo finalmente chegar ao fim.

Não lembro exatamente o porquê, mas resolvi dar uma segunda chance ao INXS e ouvir suas principais canções novamente. Havia feito isso com Alanis Morissette e foi esplendoroso saber que às vezes existe um pouco de brilhantismo no pop das massas. Afinal, ninguém vende milhões de discos por acaso.

Image by https://smilelikedrake.org/wp-content/uploads/2013/10/INXS-logo.jpg

Busquei os principais clássicos e toquei um a um durante o cair da noite. New SensationSuicide BlondeNever Tear Us Apart, até que finalmente a explosão mental aconteceu. O prazer indescritível que somente a música é capaz de alcançar. De alma pra alma. De coração pra coração.

As primeiras notas de Beautiful Girl soaram e me lembrei que conhecia a melodia. Mais uma daquelas canções que já ouvimos diversas vezes, mas não sabemos de quem são. Prestei atenção. Entretive-me. Percebi a simplicidade que a fazia incrível. Perguntei-me como pude ignorá-los por tanto tempo.

Image by Global Panorama
Por alguma razão inexplicável, aqueles poucos minutos levaram-me a uma viagem emocional sem precedentes e recordaram-me como os dias passados ao lado da mulher que amo eram especiais. Como os pequenos detalhes da vida a dois eram perfeitos para entender os motivos de minha paixão. Os abraços calorosos quando vestia um moletom macio. A forma como dançava despreocupada enquanto escolhia a roupa para sair. Cada lágrima que molhava o rosto quando assistíamos a um filme triste.  Os jantares comuns em frente à TV. Sua companhia nas idas à feira nas frias manhãs de sábado. O modo frágil como segurava o meu braço nos passeios pela rua. O sono inocente no banco do passageiro durante as viagens casuais. O jeito delicado que se maquiava antes de sairmos para jantar. A silhueta de seu corpo envolto na toalha quando deixava o banho. O andar delicado e a preguiça aparente após o sono tranquilo das tardes livres aos finais de semana.

Recordaram-me também suas qualidades e o quanto ela era especial. Humilde e batalhadora. Forte. Delicada. Independente. Com personalidade própria, ideais justos e opiniões sinceras, que me orgulhavam, faziam-me refletir e me tornavam aos poucos uma pessoa melhor. Minha companheira, amiga e amante. Sensível. Linda. Única.

Image by ardithelionheart@ymail.com

Ao ouvirmos juntos aquelas notas, dei-me conta que criávamos ali um vínculo insubstituível. Que somente eu e ela teríamos em todo o universo. Fiquei completamente emocionado. Tive vontade de chorar, porém, segurei as lágrimas. Gostaria de dizer o quanto a amava, mas se tentasse fazê-lo cairia em prantos.

Assim que o últimos acordes foram tocados, soube que nunca mais a esqueceria. Seria a música que me lembraria dela pelo resto de minha vida. Que faria eu me recordar com carinho daquela noite para sempre. Que faria eu me dar conta da sorte que tinha por tê-la ao meu lado.

Havia marcado o meu coração. E nada nem ninguém poderia mudar isso.

Publicado por thiagogacciona em: Agenda | Tags: , , , , ,
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Expectativa

Passamos a infância inteira pensando no quão bom seria quando nos tornarmos adolescentes, e em seguida pensando no quão bom será quando nos tornamos adultos. Criamos diversas expectativas que raramente são cumpridas, mas aquele desejo de que isso se torne realidade não nos faz desistir de criar expectativas.

Mas a questão é que aquilo que acontece nunca é o que planejamos, ou desejamos. Mas essa é a graça da vida, ela dá alguns (vários) socos na sua cara, mas no final acontecerá algo que valerá a pena, e fará com que você veja que aquilo que você planejou/desejou e não aconteceu valeu ainda mais do que se tivesse se tornado verdade.

No começo dói, dói muito saber que o que te deixava feliz não trazia mais aquela felicidade. Mas com o tempo você percebe que aquilo era algo que aparentemente te deixava feliz. Atualmente vive-se muito de aparências, mas a questão é como não viver de aparências. Às vezes você se convence que aquilo que aparentemente te deixa feliz seja realmente verdade, mesmo que no fundo você saiba que isso não é pra você. Mas aquela sensação de ser feliz por algum tempo faz com que você se prenda a isso e esqueça-se de ir à procura daquilo que te fará feliz por muitos anos, ou para sempre.

Contudo, é nesse momento que se surge a duvida, a incerteza. Será que eu acredito que isso seja algo que aparentemente me deixa feliz, ou isso realmente me traz felicidade. E se eu desistir de tudo por acreditar que não valha a pena, e se eu perder a melhor oportunidade da minha vida, e se…

Se você perder a oportunidade da sua vida, e acreditar que algo que valia a pena não vale, bola pra frente. Se você não tivesse se arriscado iria conviver com aquela duvida para sempre, não iria ter a oportunidade de experimentar e conhecer coisas novas, mesmo que não seja aquilo que você sempre sonhou. Mas o importante é você arriscar, se descobrir e assim ser feliz.

Corra atrás daquilo que você acredita que te deixa feliz, daquilo que faz com que você se sinta mais leve, mesmo depois de um dia cheio de atividades. Não crie expectativas, crie sonhos, crie coragem de se descobrir, crie esperança, crie vontade de se tornar uma pessoa melhor e mais feliz.

Publicado por someplace em: Agenda | Tags: , , ,
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Os abutres e a carne fresca

Imagem | Antimidia

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Porque ele não tinha a menor idéia do que fazia em mais da metade do tempo, e achava que não tinha nada à perder, ele só foi lá e fez, mas a Márcia, o Renato e a Paula não guardaram segredo, e agora o Cenora tinha muito a perder. Porque na educação física ninguém nunca queria ele no time. Porque quando te escolhem primeiro significa que você é o vencedor, e o último é o último, e ninguém escolheu ele, e a diretora queria falar com ele depois da aula, e a professora estava tratando ele diferente, disse que ele não precisava jogar e podia ficar olhando do banco. Como se ele fosse o próprio Renton, destinado a um fim triste e esquecido. Como em Kids, quando os esqueitistas ficam com as garotas bonitas e felizes. Quando ele falou para a Márcia, o Renato e a Paula que tinha conseguido a maconha todos acharam legal, mas ninguém sabia o que fazer com aquele montinho de mato prensado. Porque tudo que eles sabiam sobre maconha tinham visto nos programas da History e da Discovery. Porque era só enrolar, fumar, esperar o mundo começar a mudar de cor e a polícia chegar, atrás da quadra, na hora da saída, enquanto tiver todo mundo lá no portão. Como a Márcia tinha asma e o Renato e a Paula estavam com medo, só o Cenora fumou. E agora ele era o garoto estranho drogado da oitava série, pronto para pegar uma arma e sair atirando para todos os lados porque ninguém gostava dele e um monte de gente chamava ele de lorpa. E a velocidade da informação + o facebook + a falta do que fazer de quem não faz nada tinham colocado ele no topo do trending topics da escola. Porque para ele tinha sido legal, e ele era o maior de todos, e não falava nem que sim nem que não, só dava uma risadinha enigmática. Porque o Cenora não tinha a menor idéia do que tudo aquilo significava ele se sentia um astro. Como em Hollywood quando os artistas entram no tapete vermelho e todo mundo quer tirar fotos e fazer perguntas e estar ali com eles. Mas agora ninguém queria saber como tinha sido, nem se ele tinha mais, nem se ele ia atrás da quadra todo dia. Por causa do que a Márcia, o Renato e a Paula disseram, que ele tinha dado um trago e tossido tanto que caiu rindo, e os três foram embora assustados e não fumaram. E o Cenora jogou o que sobrou fora porque pensou que já estava muito louco, e o jardineiro achou aquela coisa e levou para a conselheira que descobriu tudo. E agora ele não jogava bola, ficava sentando num canto esperando alguém dizer qual era o próximo passo. Porque ele não tinha a menor idéia do que estava acontecendo, e estava gostando de ver todo mundo cochichando e olhando para ele, ele não dizia nada, apenas sorria. Quando ele entrou na sala da diretora a professora também estava lá, e a conselheira, e o seu pai e a sua mãe, sentados com cara de que o fim do mundo era só questão de mais uns tragos, e o Cenora pensava em como foi difícil quebrar aquele mato, e que a folha de caderno não queria grudar uma na outra, e que a folha começou a pegar fogo, e ele sentiu a mão queimando, e engoliu aquela fumaça, e tossiu tanto que perdeu o ar e ficou tonto e caiu. Porque tudo era uma questão de ver o mundo com a mente aberta. Como o Russell Hammond em Quase Famosos ou as músicas do Planet Hemp. Porque a diretora disse que a maconha é só o começo, e que se eles perdessem o controle agora perderiam para sempre, e a mãe dele começou a chorar, e o pai balançava a cabeça, e a conselheira queria saber se ele tinha conseguido aquilo dentro da escola. E o Cenora não estava mais no tapete vermelho, e ele não sabia o que dizer e começou a chorar e correu para abraçar a mãe dele, que chorava também, e agora o pai dele chorava, e a conselheira e a diretora colocavam a mão no rosto e olhavam com compreensão. Porque Cristiane F. não é só um filme barato de trinta anos atrás, é a verdade, é o que acontece, e a mãe dele via acontecer todo dia no programa da Márcia Goldsmith, e o pai dele tinha um primo que estava preso que tinha começado igualzinho. Como todos aqueles rockeiros drogados que morreram com 27 anos porque fumaram um baseado na escola. E tudo porque ninguém fez nada no começo, e eles iam fazer. Porque o Cenora precisava entender o quanto aquilo era horrível e o quão perto ele estava do abismo. Porque a Márcia, o Renato e a Paula tinham sido amigos dele contando tudo para a diretora. Porque todo mundo só queria o bem dele. Porque ele tinha uma vida inteira pela frente. Porque ele era inteligente, legal e bonito. E por causa disso ele ia só tomar uma suspensão, e tinha que ir na psicóloga, e não ia poder mais jogar video-game, nem sair do eixo escola-casa / casa-escola, nem ia para a Disney nas férias, nem ir no clube no final de semana, e ia ter que dar a senha do facebook para o seu pai, dormir cedo, levar o cachorro para passear e limpar o quarto o resto do ano.

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Fatos Cotidianos 6 – Perdendo as estribeiras

Imagem | Antimidia

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Hernani era um cara comum de classe média. Um dia sua família teve algum dinheiro, mas hoje só restaram dívidas. Razoavelmente grandes. Na verdade impagáveis. O sistema tributário não ajuda. A mesma história de muito de seus amigos. Os planos econômicos das duas últimas décadas do Século XX transformaram o sinal de mais para o de menos nos extratos bancários dos Brito Cavalcanti.

Isso o transformou em uma pessoa revoltada e descrente da vida. Revoltado porque via os políticos punirem sua família com dívidas. Porque ele tinha a dívida como sua também. Porque imaginava que nunca conseguiria pagá-la. Seu maior espelho era seu pai. Ele o via sair e trabalhar duro, e depois voltar estafado e mal humorado. Todos os dias. Sem resultado nenhum. Os bons tempos, com sorrisos e viagens, não aparecia no fim do túnel. Juros era a palavra que ele mais odiava. Uma vez ouviu o pai dizer que só em juros já tinha pagado duas vezes a dívida inicial da família.

Com 23 anos Hernani começou a sentir de perto a agonia do velho pai. Trabalhava feito um louco. Treze, quinze, dezesseis horas por dia! Com dedicação e vontade. Domingo e feriado. Escutava desaforos de chefes frustrados. Algumas vezes em uma situação que ele já conhecia de longa data. Mas o dinheiro nunca era o suficiente. Suas contas estavam sempre atrasadas. Queria ajudar a família, mas não tinha com o que.

Conforme os dias passavam o descrédito de Hernani na política, na sociedade, na instituição familiar, e na vida em geral, se transformava em raiva. E a velocidade que isso acontecia era assustadora. Não demorou muito para ele culpar a tudo e a todos pelos males pelo qual via sua família passar. Ele realmente queria dar o troco de uma forma em que todos sentissem o peso de sua vingança, em alguns momentos. Em outros instantes poupava os mais próximos.

Aos poucos foi se transformando num psicopata. As coisas aconteceram rápido. O ódio evoluiu com tal voracidade que nem ele mesmo percebeu que tinha perdido o controle. Um lapso aqui, uma agressão gratuita a um cara que pisou no seu pé no ônibus lotado. Outro lá. Quebrou um orelhão por que ninguém tinha dinheiro para pagar a conta de telefone de sua casa e ele foi cortado.

Um dia, depois de trabalhar dezesseis horas e receber um salário miserável, Hernani decidiu passar no supermercado para comprar algumas coisas, para que a geladeira ficasse ligada por algum motivo. Andou toda a loja, e tudo que seu dinheiro podia pagar ele podia carregar com duas mãos. Mais do que pão, margarina e leite e as contas atrasariam, e os oficiais de justiça voltariam para sua porta.

Colocou a cestinha de lado para andar com as mãos livres e não ficar lembrando o quanto à vida era injusta o tempo todo. Passou pela seção de flores e jardinagem e resolveu cheirar algumas rosas, na esperança de melhorar o ânimo. No que ele se abaixou uma senhora trombou com seu carrinho nele. Ele olhou para a mulher, que com uma expressão rude disse: “Você precisa ocupar o corredor inteiro para cheirar uma rosa?”

Como que por reflexo ele pegou um vaso e quebrou na orelha direita da velha. Ela caiu. O sangue se espalhou por entre as prateleiras. Ele não tinha o menor pingo de remorso, e não fazia questão de esconder. Tentou sair andando numa boa, como se não tivesse acontecido nada. Afinal, a velha tinha caído, e ele tinha dado a resposta que achava justa a pergunta dela. Para Hernani não havia acontecido nada demais. Agora a velha era problema dos médicos e dos netos.

Sua linha de raciocínio o levava a crer que tinha tomado a atitude certa, e não seria justo ser punido. Afinal a velha foi rude. E ele só queria cheirar uma flor. Ela mereceu. Se tivesse sido mais educada tinha evitado tudo. Ela tinha que ser punida, e ele a puniu.

Mas um cara não concordou com Hernani, e partiu para cima dele. Veio correndo e o empurrou contra uma prateleira. Sua mão se encontrou com uma um tesoura de jardineiro. Pior para o cara. Ele a enfiou no estomago dele.

Então ele sabia que tinha ido longe de mais, agora tinha sido uma reação desproporcional. Viu os seguranças já se aproximando e agarrou um facão, destes de cortar cana. Sentia-se um guerreiro estilhaçando braços, cabeças e barrigas. Fazia movimentos que imitavam um espadachim. Atingiu um de cima para baixo, outro de baixo para cima. Depois lateralmente. Ia abrindo caminho entre os que se aproximavam. Urrava como um guerreiro medieval em batalha. Era um guerreiro medieval em batalha!

Matou mais três pessoas. Não viu da onde veio o primeiro tiro, mas sentiu uma bala entrar perto de seu umbigo. Várias outras o acertaram. Hernani morreu como um marginal. Um louco.

A mídia rapidamente sentenciou e rotulou. “Maníaco do supermercado”. “Psicopata enrustido”. As manchetes eram escrachadas. “Psicopata ‘explode’ em supermercado”. “Sociedade estarrecida”. As mídias internacionais também fizeram sua festa. “Brasil vive problemas de primeiro mundo” (sic). “Columbine chega a América do Sul”.

Os programas vespertinos entrevistavam amigos e pessoas que estavam pelo supermercado. Uma mulher disse que ele a seguiu por meia hora. Ela não avisou a segurança por que ele a olhava como um louco. Então ela ficou com medo de que ele pudesse atacar.

Um cara que disse ter estudado com ele seis meses falou a uma apresentadora de televisão tosca que Hernani já havia tentado matar a professora com uma caneta. Matar a professora com uma caneta! Imaginem o escarcéu que a tal apresentadora fez. Nenhum outro estudante foi entrevistado. E este imbecil alegou que eles tinham 9 anos (9 anos!), por isso não lembrava o nome da professora.

As revistas semanais diziam. “Passo a passo: o massacre no supermercado”. “Entenda por que alguém pode surtar”. Especialistas (?) iam a programas com mais credibilidade dizer que qualquer um esta sujeito a isso. “A pressão de um mundo excessivamente competitivo pode causar transtornos irreversíveis”. “Na cabeça dele poderia estar passando que esta seria a única solução para seus problemas”.

Os pais e irmãos de Hernani foram seguidos por jornalistas sanguessugas durante várias semanas. Tiveram que se mudar para um endereço desconhecido. Eles não puderam enterrar Hernani. Ficaram com medo. Ele foi sepultado a três da manhã como indigente. A funerária pública teve a decência de informar a família o jazigo onde ele estava. Mas os impediram de por uma lápide.

Estranhamente várias comunidades virtuais admiravam Hernani. “A coragem que eu não tenho”. “Hernani queria um mundo melhor”. Os maridos passaram a acompanhar suas senhoras no supermercado. Afinal, no resto do mundo elas estavam seguras.

Em dez dias ninguém mais falava sobre o assunto. Começava a preparação da seleção brasileira para Copa América.

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