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conto da noiteO Conto da Noite
Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

>> Confira outros textos de Evandro Furtado

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* Se você é o autor deste texto, mas não é você quem aparece aqui...
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Inverno Amarelo

2016

Inverno Amarelo

Não.

Não!

Não fala.

Divide a luz da escuridão.

Divide a vida da morte.

Se não escolheres…

Escolherão para ti.

Saibas que nunca mais poderás ultrapassar para outro lado algum.

Caso queira reze pelos mortos.

Reze por mim e por todos nós.

Homens matam homens, tudo que rasteja, anda, nada ou voa neste mundo.

Porém, os homens são fracos.

Os homens são frágeis.

Os homens tem vidas curtas.

Qualquer espinho, pedra, vírus, verme, micróbio, bactéria pode matar o homem.

Dizem que, certa vez um surto de gripe, matou 3% da humanidade.

Imagina as pragas nunca registradas.

Aquelas que existem não identificadas.

Nas que transformam-se em horas de inócuas a perigo biológico mortal e vice-versa.

Entenda.

O ecossistema deste mundo é fraco.

Há quem diga que é lento.

Há quem diga, que a natureza deseja apenas, brincar de matar.

O ecossistema não consegue suprir adequadamente as próprias formas de vida que existem nele, ou talvez, por ele foram criadas.

A atmosfera do mundo é fraca, nunca conseguiu proteger bem o planeta.

Nunca conseguiu proteger o planeta contra radiação, talvez isto seja apropriado.

Nunca conseguiu proteger o planeta contra asteroides, talvez isto seja construtivo.

O homem fraco, feito para morrer, sofrer multiplicou-se absurdamente.

Isto, numa pedra que nunca foi capaz de fornecer alimento grátis, talvez, nem para um bilhão.

Que opção o homem tem senão inventar um mundo dentro do mundo onde ele pode sonhar ser forte.

Onde ele pode obrigar o mundo que o criou lhe dar sustento.

Talvez, isto seja positivo.

O homem deve destruir 90% de toda sua raça para que tudo fique em harmonia.

Talvez, isto seja loucura.

Nós somos culpados pelas coisas serem como são.

Talvez, não seja bem assim.

O homem deve vender a carne de outros homens enlatada em mercados pelo mundo, mesmo sabendo que existe a possibilidade de ficarmos doentes ao cometermos autofagia.

Talvez, isto esteja acontecendo agora.

Os homens devem comer o mundo.

Homem e Natureza adoram matar.

O mundo de pedra não fala coisas compreensíveis a nós.

O céu indiferente, talvez nos observe.

Muitos agradecem o mundo.

Muitos agradecem o sol.

Muitos louvam a lua.

Muitos idolatram os oceanos.

Para estes, cada um é uma coisa, mas talvez façam parte de uma única sopa.

Talvez, isto seja extrema arrogância, pretensão e ignorância.

Em filmes futuristas, a terra vira um lixão por ser um lugar terrível e cruel que desperta o pior que há em nós.

O planeta desenvolveu a raça humana com todos os seus defeitos e não é capaz de sustentá-la pelo tempo que ela existir.

No fim das contas, talvez seja isto que os ecologistas não revelam.

Talvez.

Se a natureza, o mundo e a vida não cometem erros; não temos culpa por existir, por sermos como somos em um mundo fraco, com sistemas frágeis, criaturas efêmeras que ouvem mal, enxergam mal, pensam pouco, não sabem falar, não sabem de onde vem as palavras.

Tolo demais para ter medo de tudo que não consegue captar nem alcançar.

Sorria, amanhã será o mesmo dia.

Publicado por semanickzaine em: Agenda | Tags: , , , ,
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Os abutres e a carne fresca

Imagem | Antimidia

Imagem | Antimidia

Porque ele não tinha a menor idéia do que fazia em mais da metade do tempo, e achava que não tinha nada à perder, ele só foi lá e fez, mas a Márcia, o Renato e a Paula não guardaram segredo, e agora o Cenora tinha muito a perder. Porque na educação física ninguém nunca queria ele no time. Porque quando te escolhem primeiro significa que você é o vencedor, e o último é o último, e ninguém escolheu ele, e a diretora queria falar com ele depois da aula, e a professora estava tratando ele diferente, disse que ele não precisava jogar e podia ficar olhando do banco. Como se ele fosse o próprio Renton, destinado a um fim triste e esquecido. Como em Kids, quando os esqueitistas ficam com as garotas bonitas e felizes. Quando ele falou para a Márcia, o Renato e a Paula que tinha conseguido a maconha todos acharam legal, mas ninguém sabia o que fazer com aquele montinho de mato prensado. Porque tudo que eles sabiam sobre maconha tinham visto nos programas da History e da Discovery. Porque era só enrolar, fumar, esperar o mundo começar a mudar de cor e a polícia chegar, atrás da quadra, na hora da saída, enquanto tiver todo mundo lá no portão. Como a Márcia tinha asma e o Renato e a Paula estavam com medo, só o Cenora fumou. E agora ele era o garoto estranho drogado da oitava série, pronto para pegar uma arma e sair atirando para todos os lados porque ninguém gostava dele e um monte de gente chamava ele de lorpa. E a velocidade da informação + o facebook + a falta do que fazer de quem não faz nada tinham colocado ele no topo do trending topics da escola. Porque para ele tinha sido legal, e ele era o maior de todos, e não falava nem que sim nem que não, só dava uma risadinha enigmática. Porque o Cenora não tinha a menor idéia do que tudo aquilo significava ele se sentia um astro. Como em Hollywood quando os artistas entram no tapete vermelho e todo mundo quer tirar fotos e fazer perguntas e estar ali com eles. Mas agora ninguém queria saber como tinha sido, nem se ele tinha mais, nem se ele ia atrás da quadra todo dia. Por causa do que a Márcia, o Renato e a Paula disseram, que ele tinha dado um trago e tossido tanto que caiu rindo, e os três foram embora assustados e não fumaram. E o Cenora jogou o que sobrou fora porque pensou que já estava muito louco, e o jardineiro achou aquela coisa e levou para a conselheira que descobriu tudo. E agora ele não jogava bola, ficava sentando num canto esperando alguém dizer qual era o próximo passo. Porque ele não tinha a menor idéia do que estava acontecendo, e estava gostando de ver todo mundo cochichando e olhando para ele, ele não dizia nada, apenas sorria. Quando ele entrou na sala da diretora a professora também estava lá, e a conselheira, e o seu pai e a sua mãe, sentados com cara de que o fim do mundo era só questão de mais uns tragos, e o Cenora pensava em como foi difícil quebrar aquele mato, e que a folha de caderno não queria grudar uma na outra, e que a folha começou a pegar fogo, e ele sentiu a mão queimando, e engoliu aquela fumaça, e tossiu tanto que perdeu o ar e ficou tonto e caiu. Porque tudo era uma questão de ver o mundo com a mente aberta. Como o Russell Hammond em Quase Famosos ou as músicas do Planet Hemp. Porque a diretora disse que a maconha é só o começo, e que se eles perdessem o controle agora perderiam para sempre, e a mãe dele começou a chorar, e o pai balançava a cabeça, e a conselheira queria saber se ele tinha conseguido aquilo dentro da escola. E o Cenora não estava mais no tapete vermelho, e ele não sabia o que dizer e começou a chorar e correu para abraçar a mãe dele, que chorava também, e agora o pai dele chorava, e a conselheira e a diretora colocavam a mão no rosto e olhavam com compreensão. Porque Cristiane F. não é só um filme barato de trinta anos atrás, é a verdade, é o que acontece, e a mãe dele via acontecer todo dia no programa da Márcia Goldsmith, e o pai dele tinha um primo que estava preso que tinha começado igualzinho. Como todos aqueles rockeiros drogados que morreram com 27 anos porque fumaram um baseado na escola. E tudo porque ninguém fez nada no começo, e eles iam fazer. Porque o Cenora precisava entender o quanto aquilo era horrível e o quão perto ele estava do abismo. Porque a Márcia, o Renato e a Paula tinham sido amigos dele contando tudo para a diretora. Porque todo mundo só queria o bem dele. Porque ele tinha uma vida inteira pela frente. Porque ele era inteligente, legal e bonito. E por causa disso ele ia só tomar uma suspensão, e tinha que ir na psicóloga, e não ia poder mais jogar video-game, nem sair do eixo escola-casa / casa-escola, nem ia para a Disney nas férias, nem ir no clube no final de semana, e ia ter que dar a senha do facebook para o seu pai, dormir cedo, levar o cachorro para passear e limpar o quarto o resto do ano.

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A Fabula da Morte à Espreita

Manteve a sua cabeça baixa e escondida por um capuz negro. Logo avistou a luz dos faróis de um Ford Focus no meio da noite, mas isso não é um sonho, ele escuta as vozes calmas percebe que as presas estão distraídas a arma pesa em sua calça a vontade da droga pesa em sua lógica e ele se coloca na frente das moças ambas primas mas ele não sabe também não sabe que são mulheres para ele são disformes coloca a arma em direção a cabeça daquela que estava parada diante da porta aberta do carro ela teve uma única reação de susto pedindo – calma! – que foi negada com uma sentença imediata, a arma disparada lançou uma bala que furou a sua têmpora a prima em estado de choque não teve nenhuma reação apenas observou aquele jovem correr enquanto seus olhos se enchiam de lagrimas.
A saudade do filho ainda criança daquela mãe sempre orgulhosa e preocupada que lhe entregava carinho a cada abraço e gesto mínimo servindo uma comida bem preparada que agora ele nunca mais iria provar e cujos conselhos ele nunca iria receber quando se transformasse em adolescente e começasse a tentar compreender por que ela fora “roubada”. E o pai de luto dormindo numa cama larga lembrando da boa sensação que tinha ao abraça-la e beija-la logo pela manhã refletindo a respeito de cada dia que perderam numa rotina sempre prometendo a si mesmos uma viajem uma nova lua de mel e cada briga por motivos egoístas de ambos. Tudo isso enquanto se esforçava para criar o filho sozinho.
A prima que após o choque inicial ficou abraçada ao corpo gritando por socorro, tal um cachorro que uiva para a lua, chamou a atenção dos vizinhos que foram despertos pelo tiro e vieram ajudar. Chamaram a polícia mas o bandido foi impune por algumas semanas o tempo que levou até a investigação começar efetivamente. Bastou analisarem o conteúdo das câmeras de vigilância que filmaram as andanças daquele jovem que só foi identificado por ter tirado o capuz na fuga revelando aquela fuça magra de nariz curvo que contrastavam com a fala vulgar e as gírias que eram difíceis para o repórter que o questionou interpretar, depois de preso não teve nenhum arrependimento.
Então o que aquele pai vai dizer ao filho quando aquele jovem assassino de sua mãe cumprir sua privação de liberdade, completando os dezoito anos sem registro de ficha criminal ou qualquer arrependimento – Essa é a justiça filho! – provavelmente concluirá enquanto derrama pela sua garganta uma cerveja amarga lembrando da mulher amada ao contrário da detenção do jovem o luto da família pela morte repentina daquela que sabia cumprir tão bem seu papel de filha, prima, cônjuge e mãe é perpetuo.
______________________
*Baseado em observações de uma reportagem que eu bem queria que não fosse verdade.

Publicado por Alberto Neto em: Agenda | Tags:
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Crime em andamento – Jim Knipfel

Imagem | Russell Christian

Imagem | Russell Christian

Tradução | Eder Capobianco Antimidia

Minha cabeça estava em outro lugar. Não deveria estar. Eu deveria ter prestado atenção ao que estava acontecendo ao meu redor, mas em vez disso estava pensando sobre A Genealogia da Moral de Nietzche, por algum motivo esquecido por Deus, bem como o velho Robert Klein¹ e o stand-up que vi na TV em 1976 (“Me dê o frango, porcolino!”). Os dois, até onde eu sabia, não estavam ligados de forma alguma. Em suma, minha mente estava em toda parte, menos onde deveria estar.

Eu não estava usando a bengala também, o que só multiplicou a estupidez. Ainda estava escuro. O sol não tinha nascido totalmente, e estava chovendo. Eu estava indo para oeste na 23rs St., e deveria ter pegado a maldita bengala, mas estava ocupado demais pensando sobre Robert Klein ter se inspirado nos filmes da Disney para me preocupar com isso. Eu só seguia em frente, de cabeça baixa, meu casaco aberto para a garoa, imaginando se meus pés sabiam bem o suficiente para onde tinham que me levar. Minha camisa estava com pizzas de suor.

Escutei algumas pessoas gritando mais a frente. Pensei pouco sobre isso, supondo que eram apenas as vozes dos lixeiros. Havia um caminhão de lixo arrastando a sujeira sentido oeste na calçada paralela a minha, e acabei de ligando as duas coisas. Lixeiros estavam sempre gritando uns com os outros.

Duas silhuetas estavam se movendo em minha direção pela escuridão, vindas do fim de uma longa fila de andaimes. Eu estava concentrando-me nas formas, tentando descobrir a melhor maneira de evitá-los, quando ouvi passos molhados se aproximando por trás de mim. Então do nada havia um homem do meu lado, com um guarda-chuva na mão. Meu passo vacilou por um instante.

“Oh”, ele disse. “Me desculpe”. Então ele se virou e correu de volta para o lugar de onde tinha vindo.

Eu não tinha idéia do porque ele poderia se desculpar. Ele não tinha me empurrado ou trombado em mim ou pego qualquer coisa. Quem sabe? Ele quase não desviou minha atenção do que acontecia. Eu olhava para o par de silhuetas na minha frente, então dei um passo para o lado e deixei eles passarem.

Com certeza tinha muita gente trafegando pela rua para 6:15 da manhã. E em ação, também, para um deprimente dia perdido. As pessoas estavam indo e vindo por todas as direções. Eu continuei fazendo meu caminho, passando pelos ambulantes, a banca de jornal e a estação do metrô, pensando sobre isso e aquilo, ainda muito deprimido comigo mesmo e deixando a mente a deriva.

“Basta dar o dinheiro a ele!”, um homem atrás de mim gritou. “O dinheiro! Apenas dê a porra do dinheiro para ele!” Escutei o som das pessoas correndo.

Olhar para trás para ver o que estava acontecendo a poucos metros de mim teria sido inútil. Rapidamente virei a esquina para a 7th Ave., abaixei a cabeça e continuei andando. Estava tudo certo agora.

Acho que só passei por um crime em andamento, pensei.

Era perfeitamente possível que não fosse um crime também – talvez tivesse sido uma simples transação de negócios, ou algum lixeiro resolvendo uma aposta no jogo dos Mets, mas preferia pensar que era algum tipo de crime, e que tiros irromperam o ar no momento que eu estava fora do alcance da voz.

Então comecei a me perguntar quantas vezes tropecei num crime em progresso sem perceber. Não me surpreenderia se tivesse acontecido várias vezes.

Algumas semanas atrás estava falando para um amigo meu sobre umas coisas que ele tinha escrito. Envolvia uma criança que começava a ficar obsessiva por crimes muito cedo. Não é que ela própria se torna uma criminosa, mas o crime e os criminosos começam a orbitar em torno dela, se aproximando e se tornando mais íntimo a cada ano que passa.

Foi uma idéia, como expliquei para ele, que bateu realmente perto do meu quintal. Eu estava obcecado com o crime como uma criança (ainda sou, eu acho). Mas como cresci, crimes reais e tangíveis começaram a cruzar minha vida de maneira estranha frequentemente.

Cresci a 40 milhas de onde Ed Gein² morou. Ensinava alemão para um nerd quando estava na escola, sem saber que ele só queria aprender alemão para impressionar seus companheiros da Irmandade Ariana. Um amigo que eu tinha desde o jardim de infância explodiu o próprio irmão. Outro amigo começou a conversar com a televisão e antes do que você imagina matou seis pessoas a tiros em um escritório no centro. Descobri que minha mãe cruzou com Charley Starkweather³ pela vida. Um cara chamado Jessie Lee Wise4 queria que eu o ajudasse a fazer sua carreira musical decolar, mas o fato de que ele estava no corredor da morte no Missouri tornou isso um pouco complicado. Conversei com ele 20 minutos antes que a agulha picasse ele. Ele pediu camarão no jantar.

Posso falar disso sem parar. Não era pela minha própria vida cheia de pequenos crimes, e todos os criminosos de uma forma ou de outra, na sua maioria de baixa renda, que eu havia me tornado insensível ao crime.

Eu não digo nada disso com orgulho – mas é assim que as coisas aconteceram. Eu sempre achei que o crime poderia ser interessante. Como se diz mesmo? Uma outra forma de trabalho duro5?

Enfim, bem, é por isso que não fiquei surpreso com tudo que estava acontecendo, de fato, quando passei por um crime em andamento na 23rd St. naquela manhã. Andei em canteiros de obras, desviei de balas – até do fogo – sem estar ciente disso. Afinal de contas, na maioria das vezes, os crimes são muito mais silenciosos do que as pessoas imaginam. Participar de um crime não teria sido nada demais. De menos, até. Apenas algo mais para acrescentar à lista.

1 – Robert Klein: Comediante, cantor e ator estadunidense famoso na televisão durante a década de 1970. (http://en.wikipedia.org/wiki/Robert_Klein). Um homônimo dele se envolveu em um processo contra a Walt Disney Company depois de ser demitido por justa causa por assédio sexual (http://www.hollywoodreporter.com/thr-esq/disneys-archivist-sues-company-firing-424852).

2 – Ed Gein: Ladrão de lápide de Wisconsin condenado pelo homicídio de duas pessoas, e suspeito no desaparecimento de outras cinco (http://pt.wikipedia.org/wiki/Ed_Gein).

3 – Charley Starkweather: Foi um serial killer adolescente estadunidense que matou onze pessoas nos estados de Nebraska e Wyoming num período de dois meses, entre Dezembro de 1957 e Janeiro de 1958 (http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Starkweather).

4 – Jessie Lee Wise: Assassino condenado a pena capital por matar Geraldine Rose McDonald depois de um assalto, em 1988, no Missouri. (http://murderpedia.org/male.W/w1/wise-jessie-lee.htm).

5 – Referência ao filme O Segredo da Jóia (The Asphalt Jungle, 1950). Num determinado momento do filme, durante um dialogo, um ladrão justifica seus atos criminosos como uma forma de trabalho alternativo (http://en.wikiquote.org/wiki/The_Asphalt_Jungle).

Texto Original | http://www.missioncreep.com/slackjaw/2006/crime.htm

Sobre Jim Knipfel | http://en.wikipedia.org/wiki/Jim_Knipfel

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José – O pastor profeta do cerrado

— Você vai gravar um CD e venderá milhares de cópias! — Apontou para o menor — Você tocará guitarra e será um dos melhores! E essa linda menina, sua filha? Será uma maravilhosa cantora e fará um imenso sucesso louvando ao Senhor!

Foi assim que enquanto eu balançava na rede com minha filha nos braços, profetizou o burlesco profeta candango, frente à garagem de minha casa.

O personagem já é conhecido na cidade, anda para cima e para baixo com seu terno alinhado e sua cômica gravata com a bandeira da Inglaterra, sempre fazendo profecias musicais; na última vez que esteve aqui na rua provocou a ira de alguns vizinhos. Ao passar pela casa ao lado disse a um garoto que ele seria um consagrado baterista, resultado: a criança contou aos seus pais, também evangélicos, que disseram que eram palavras de Deus na boca de um profeta. Compraram uma bateria para o menino acabando com a paz da vizinhança, o pobre garoto que não tinha coordenação motora suficiente para andar de escada rolante e mastigar chiclete ao mesmo tempo, batia nos pratos como quem estivesse com ódio do instrumento. Após meses de dores de cabeça na família e da sentença de seu professor, perceberam que realmente aquela não era a vocação dele. Talvez Deus tenha errado de endereço na hora da profecia.

Quem hoje observa o Pastor José passeando, sempre arrumado e conversador, não consegue imaginá-lo meses atrás sem nenhum tostão no bolso furado e com as roupas sujas de tinta. Era o verdadeiro Forrest Gump da cidade, sempre com uma história miraculosa e de difícil crença, eu mesmo já escutei diversas e, confesso que bem contadas e interpretadas de maneiras magníficas, realmente ele sempre teve o dom da oratória, porém para que eu acreditasse dependia unicamente se ele pagaria a conta ou não.

Sonhava em enriquecer, já tinha tentado todas as formas, esgotou seus cálculos para ganhar na Mega-sena, Quina, Lotomania, Loto fácil, Jogo do bicho, baralho, bingo, briga de galo, corrida de jegue e todo tipo de jogos de azar que vocês imaginarem. Revoltava-se quando sua mulher dizia que apostas era coisa do demônio. Ficava ainda mais enraivado quando convidava-o à Igreja.

Entretanto, um dia algo mudou.

Todos estranharam José arrumado indo com a mulher para o culto. Não demorou muito e ele estava convertido e convencido. Contava a todos que agora tudo mudaria, pois Deus não queria seus filhos na miséria.

Depois de alguns meses, enlouqueceu ao fazer o balanço da sua vida nesse período. Percebeu que havia dado mais do que recebido. Já não tinha quase nada e o pouco que possuía foi levado pela fé. Discutiu com o pastor, brigou com a mulher e não deu outra, saiu para fundar sua própria Igreja. E dessa forma nascia o novo homem, o Pastor José.

E não é que o homem prosperou?

Mudou de vida completamente. É um homem de Deus. Usa sua eloqüência para pregar, tem casa, carro e paletó “top de linha” e tudo ganhado a muito suor. Sim ele suou bastante! Não, ele não encheu laje, não empurrou carro-de-mão ao sol escaldante, nem varreu as ruas, mas suou e suou abundantemente. Tanto que sua face caricata estava inchada, fruto dos gritos ensurdecedores que dava ao pregar e ao incentivar a “devolução” do que Deus havia concedido aos fiéis. E dessa forma “graças a Deus” ele deixava a lama.

O homem ainda ganhou poder! O mesmo que sofria para expulsar os gatos que vagavam pela cidade e insistiam em se acasalarem no telhado de sua casa, agora expulsava até o demônio. Oh, homem poderoso meu Deus! Até a pouco tempo atrás se borrava de medo de ficar bêbado e dormir nos super perigosos pontos de ônibus de Brasília — os índios e mendigos que o digam — agora encarava até o “coisa ruim” de frente. E enfrentava mesmo, gritava insanamente, ficava vermelho e de papo inchado e fazia assustadoras caretas. E não é que o “tinhoso” ia embora? Acho que ele na verdade fugia das caretas. No fundo eles devem ser até velhos conhecidos já que toda noite Guaixará¹ volta para atentar novamente.

E lá vem subindo a rua o Pastor José, de terno alinhado e sua gravata estampada com a bandeira da Inglaterra (não sei por que ele ainda insiste nessa coisa ridícula?), com sua bíblia desodorante, sorrindo e acenando, pregando e cobrando, realizado; pastor com rebanho.

1 – Guaixará é o nome dado ao Rei dos diabos na obra “Auto representado na Festa de São Lourenço”, do Pe José de Anchieta.

Publicado por J.Nóbrega em: Agenda | Tags: , , ,

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