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conto da noiteO Conto da Noite
Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

>> Confira outros textos de Evandro Furtado

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Carne III – De Carne e Osso – Parte 3

Autor: Sombra Posthuman

Jamie_Foxx3_page-bg_19405Márcio Souza (Jamie Foxx)

Para ler antes:

Carne I – Esqueletos no Armário

Carne II – Ossos do Ofício – Parte 1

Carne II – Ossos do Ofício – Final

Carne III – De Carne e Osso – Parte 1

Carne III – De Carne e Osso – Parte 2

 

 

The Gates of Hell lie waiting as you see

There’s no price to pay just follow me

I can take your lost soul from the grave

Jesus knows your soul can not be saved

Crucify the so called Lord

He soon shall fall to me

Your souls are damned your God has fell

To slave for me eternally

Hell awaits…

(Slayer – Hell Awaits)

 

Na manhã seguinte, Guará acorda cedo. Ele se lembra do sonho que teve, com Mosca sozinho na floresta, completamente cego. Ele sabe que pode encontra-lo neste momento, pois seus sonhos sempre lhe revelam o momento em que a previsão se realizará. Guará veste suas roupas e vai ao encontro de Mosca, para finalmente acertar suas contas. No caminho ele se lembra de quando começou sua vida de jagunço, era ele e Mosca, como irmãos. Ele se lembra de tudo o que fizeram juntos, as batalhas, as vitórias, os sofrimentos, tudo. Parceiros até o fim, era como ele achava que seria. Mas a ganância e o desejo pelo poder foram tomando conta do amigo, e revelaram seu verdadeiro caráter. Guará sente novamente cada ferimento que sofreu por conta da traição, cada minuto que desejou o sangue daquele que fora seu melhor amigo. Só há um jeito de acabar com isso: um deles tem que morrer.

Na mata, Mosca está sentado, encostado em uma árvore, cochilando. Ele acorda com o barulho das folhas pisadas por Guará.

– Quem tá aí?

Ninguém responde, Guará caminha ao redor de Mosca. Mosca se levanta e saca sua arma.

– Eu perguntei quem tá aí! É melhor responder ou eu vou atirar.

Guará corre e se protege atrás de uma árvore. Mosca dispara três tiros na direção do barulho.

– Eu vou te matar, desgraçado! O que que você quer?

Guará corre para outra árvore e Mosca dispara mais três tiros. Ele guarda a arma e pega outra. Neste momento, Guará pula sobre ele e ele atira.

– Eu conheço esta arma. – diz Guará, enquanto toma o revólver de Mosca. – É a Diaba.

– Guará? Você tá vivo? Como?

– Eu fiquei muito tempo de cama me recuperando dos meus ferimentos. Mas tu tiveste o que mereceste. O velho é bem mais perigoso do que eu pensava.

Guará observa triunfante seu rival, que não pode vê-lo.

– Ele é o Demônio, Guará! Ele acabou com todos! Você precisa me ajudar! Nós podemos pegar esse velho!

– Eu? Ajudar você? Tu viraste meus homens contra mim, tentaste me matar, acabaste com a minha vida.

– Era trabalho, meu amigo! Nós recebemos ordens do coronel, você foi burro de contrariar o cara. Todos os homens ficaram contra você.

– Eu já fiz muita coisa ruim na vida, Mosca, mas matar sem-terra não é coisa de ser humano. É coisa de inseto, como você.

– Então tá certo. Puxa o gatilho, eu te espero no inferno.

– Não, Mosca, tu vais viver. Eu vou levar o dinheiro e vou deixar só uma bala contigo. É melhor usar com sabedoria.

Gurará pega o dinheiro e toda a munição que estava com Mosca, depois joga pra ele uma bala. Quando Guará dá as costas e sai andando, Mosca coloca rapidamente a bala no revólver e a aponta exatamente para ele. Mosca hesita, ele ainda está cego, tem poucas chances de acertar. Quase atira mais duas vezes enquanto Guará vai embora sob a mira de seu revólver, mas no final, acaba desistindo e guarda a arma.

À noite, Mosca está dormindo, quando, de repente, seu corpo se levanta involuntariamente e suas mãos vão para trás. Ele luta, mas não consegue se mexer.

– Onde está o dinheiro? – diz Ashur.

– O Guará levou. Eu não pude fazer nada! Se me devolver a visão, eu juro que recupero o dinheiro!

– Feito. Não se esqueça de que eu ainda tenho o seu boneco de vodu. Você vai deixar todo o dinheiro, centavo por centavo, na porta da minha casa daqui a dois dias, ou vai se arrepender de ter entrado naquela casa.

– Sim, sim. Muito obrigado, senhor! Eu sou seu serviçal.

O velho vai caminhando, e Mosca grita:

– Espera! E a minha visão?

Num instante, Mosca volta a enxergar, mas ainda está imóvel. Só quando o velho já está longe é que recupera totalmente os movimentos.

Naquela mesma noite, Mosca saqueia o vilarejo, leva dinheiro e comida, e vai se esconder na mata. Enquanto isso, Guará pensa que não é boa ideia ficar com o dinheiro do feiticeiro. Ele certamente irá atrás de Mosca, e Mosca dará seu nome. Por outro lado, conquistar a simpatia do velho pode ser útil, afinal, o dinheiro não é importante. Pensando dessa forma, Guará vai até a casa de Ashur e bate em sua porta. O feiticeiro atende e ele lhe devolve o dinheiro.

– Acredito que este dinheiro pertença ao senhor.

– Você é Guará?

– Isso mesmo. Eu estava perseguindo aquele bando de ladrões há semanas.

O velho não diz nada por alguns instantes, apenas olha profundamente em seus olhos.

– Sábia decisão a sua. – diz ele, finalmente, e fecha a porta.

Quando Guará caminha pela vila, ouve a voz de Mosca atrás dele.

– Ora, ora, como a vida dá voltas, não é? Uma bala apenas, é tudo do que preciso pra estourar de uma vez esta sua cabeça oca.

Guará para de andar e até de respirar. Uma gota de suor frio desce pela sua face.

– Então é assim que vai ser? … A última traição, uma bala pelas costas. Covarde até o fim!

– Onde está o dinheiro?

– Eu devolvi para o dono.

– Você o quê? Mas como pode ser tão idiota? Esta vai ser a bala mais bem gasta de toda a minha vida.

Mosca engatilha a arma e Guará apenas espera a morte chegar. Mas só o que ouve é um som repentino de chamas acompanhado dos gritos de seu rival. Ao se virar de frente para ele, Guará vê que Mosca entrou em combustão espontânea. As pessoas se aglomeram no local para ver Mosca correndo e gritando, até que finalmente cai. Guará se aproxima e olha para seu ex-companheiro, aterrorizado. Ele não está feliz, não sente satisfação em ver sua carne sendo consumida pelo fogo. Ele sente pena.

– Vejo você no inferno. – São as últimas palavras de Mosca.

Guará observa a marca em sua mão e sente por um instante, o fogo queimando sua alma. Enquanto todos observavam sem entender nada, ele vai embora para a pequena casa do índio.

No dia seguinte, Cabuçu e Jacaré retornam a casa. Eles trazem com eles a urna para aprisionar o demônio.

– O demônio ainda não voltou. – diz Guará, sentado em uma cadeira na varanda.

– Como ocê sabe? – pergunta o índio.

– Isso eu não posso dizer. Mas confiem em mim, ele está viajando e eu saberei quando ele estive prestes a voltar.

Jacaré tira o chapéu do companheiro e aponta o dedo para ele, furioso.

– Olha aqui, meu chapa, não acha que tá na hora de abrir o jogo com a gente?

Guará olha nos olhos de seu amigo e depois para Cabuçu. Jacaré continua:

– Você anda muito estranho. E aquele sonho maluco? O que que tá havendo?

– Eu estou tendo premunições. Toda noite enquanto durmo vejo algo de importante que vai acontecer em breve e sei exatamente quando isso vai acontecer.

– São os espírito! – responde Cabuçu entusiasmado – Eles tão se comunicando com ocê! Querem nos ajudar contra o feiticeiro e o demônio!

Mas Jacaré não parece muito convencido disso.

Longe dali:

– O tronco e a boca da moça foram levados. O resto ficou. – diz um policial a um homem sentado.

– Deus! Que tipo de ritual demoníaco será que aquela criatura pretendia realizar?

O homem sentado é Márcio. Ele observa as cicatrizes em seus pulsos deixadas por Ukobach.

– O detetive achou que tinha sido você, teriam te prendido, se você não estivesse em coma. Mas a perícia mostrou que você esteve envolvido em uma briga e que alguém cortou os seus pulsos, depois colocou um par de luvas nas suas mãos e largou a adaga, arma do crime, próxima a você, na tentativa de te incriminar. Você tem muita sorte de estar vivo! Acharam você à beira da morte. Acha que pode fazer o retrato falado do criminoso?

– Com certeza! Não vou esquecer nunca aquele rosto!

Dois dias depois, o mesmo policial procura Márcio.

– Márcio, sente-se, por favor.

Ele se senta.

– Eu me lembrei de um caso recente de um homem que matou uma mulher em Florianópolis e levou seus braços e fui me informar sobre o caso. O nosso retrato falado bate com o deles. Acreditam também que ele seja responsável por matar e roubar as pernas de uma moça em Aracaju.

– Ele está criando um monstro com partes do corpo de mulheres do país todo!

– É um psicopata depravado. Mas vamos pegá-lo. Ele está sendo procurado no país todo, não tem pra onde fugir.

Em Turmalina, a mulher negra cuja filha foi morta por Ukobach vai até a casa do índio a procura de Guará.

– Eu sei que ocê salvou o menino da picada da cobra! Também vi o que ocê fez com o bandido perto da casa do velho!

– Mas não fui eu que matei o homem queimado.

– Por favor, moço, eu imploro! O bruxo matou a minha fia! E nem quis devolver o corpo!

– Minha senhora, eu prometo que vou fazer alguma coisa. Mas tenha paciência, tudo será resolvido na hora certa.

– Muito obrigado, moço! – diz a mulher beijando a mão de Guará – Eu faço tudo o que o sinhô quiser!

– Só me chames de Guará.

A mulher vai embora e Cabuçu vai até Guará.

– Vamo aproveitar que o demônio não tá aqui e vamo atacar a casa do velho!

– A casa do velho é muito bem guardada. É cheia de armadilhas.

– Mas nós temos ocê! Ocê pode ver o que o velho vai fazer! E eu posso consultar os espírito dos ancestral, eles vão ajudar nós.

– O que achas, Jacaré?

– Eu pensei que nosso alvo fosse o demônio.

– Mas foi o feiticeiro que invocou o demônio! Ele é o culpado por tudo! – respondeu Cabuçu.

– Nesse caso, eu acho que pode ser melhor enfrentar os dois em ocasiões diferentes.

– Meus amigos, eu vi um grupo de oito homens morrer ao entrar naquela casa. Vamos ter que pensar muito em um plano.

De volta a Campo Grande, Márcio recolhe todas as suas coisas apressado.

– O que está fazendo? Vai viajar? – pergunta seu amigo.

– Eu vou para o Rio de Janeiro. Prenderam o cara lá.

– Mas, espera! Você vai agora?

– Sim, imediatamente!

– Ficou maluco? Você não pode fazer isso! Você vai ser demitido!

– Não me importa! Tudo o que eu quero é encontrar aquele maldito!

O policial segura o braço de Márcio.

– Márcio, você está jogando sua vida fora! Acalme-se, pense um pouco. O cara foi preso. Você pode entrar em contato por telefone.

– Azafi, eu aprecio sua preocupação. Mas você não sabe o que aconteceu naquela noite. E não acreditaria se eu lhe contasse. Eu preciso encontrar esse homem.

– Está bem, eu vou tentar segurar as pontas por aqui.

Márcio sorri agradecido e vai embora correndo. Logo em seguida, Azafi se lembra do bilhete que se esqueceu de entregar a ele, era sobre uma visita que teve enquanto estava em coma.

No Rio de Janeiro, Ukobach está em uma sala de interrogatório.

– Você não vai falar nada?

Ele não responde.

– Vai ser melhor pra você se abrir a boca.

Neste instante, a porta se abre e outro policial entra.

– Kléber, vem dar uma olhada numa coisa.

Kléber hesita por um instante, mas vai com o companheiro. Eles chegam a outra sala e o homem abre a maleta de Ukobach. Kléber observa confuso o interior da maleta coberto por uma escuridão impenetrável.

– O que é isso?

– Olha só: – o policial pega um caderno e introduz verticalmente na maleta até o fim, como em um passe de mágica, e depois o puxa de volta.

Kléber olha para o companheiro com a boca aberta e olhar totalmente perdido. Em seguida, os dois observam a maleta sem saber o que fazer. Uma mosca observa os dois de cima do armário.

No dia seguinte, Márcio chega à delegacia no Rio de Janeiro. Ela está completamente queimada e com um cordão de isolamento. Vários policiais transitam pelo local.

– O que aconteceu aqui?

– Afaste-se, isso é assunto de polícia.

– Eu sou policial. – diz mostrando o distintivo. – Eu conheço um preso que estava aqui.

– Houve um grande incêndio criminoso, nenhum sobrevivente.

– Como sabem que foi criminoso?

– Alguns instantes antes recebemos uma ligação lá de dentro, um dos policiais disse que estavam sendo atacados.

Márcio fica em um hotel e acredita que a criatura deve ter causado o incêndio e, obviamente sobreviveu a ele. “Ele ainda deve estar por aqui. É um vampiro, então está dormindo durante o dia. Se houver uma forma de encontra-lo.” Ele se informa com a polícia local e fica sabendo que o homem foi preso em Jardim Sulacap. Márcio resolve, então rondar o bairro em busca de algum possível esconderijo para o assassino. Depois de passar o dia todo procurando, anoitece e ele não encontra nada, mas resolve virar a noite em ronda, pois é quando, segundo ele, o vampiro irá atacar.

Às 2 da madrugada, está caindo uma chuva fina e gelada. Márcio ouve a sirene da polícia e corre atrás do som. Ele chega até a beirada de um morro, onde se encontra o carro da polícia e um aglomerado de pessoas. Ele vê uma mulher muito bonita, com traços que lhe parecem russos, que chama sua atenção. Ela está chorando, e olha para ele com um olhar desesperado. Ele ignora os outros e vai diretamente até ela.

– Com licença, senhorita. – diz, oferecendo-lhe um lenço, que ela aceita e usa imediatamente. – Por favor me diga o que aconteceu. Vou fazer tudo o que puder para ajudar.

– Minha irmã, ela tinha ido até o quiosque comprar um lanche. De repente a ouvi gritando, corri até aqui e a vi sendo arrastada para dentro do mato. Tentei ir atrás dela, mas não a encontrei mais!

Ela desaba em lágrimas. Márcio segura firme seu ombro e olha em seus olhos, solidário.

– Qual é o seu nome?

– Meu nome é Natasha.

– E o nome da sua irmã?

– Iara.

– Natasha, meu nome é Márcio Souza, sou policial, e prometo que vou fazer de tudo pra encontrar a sua irmã. Você mora por aqui?

– Sim, naquela casa vermelha antes do quebra-molas.

– Eu volto logo, Natasha.

Márcio sobe o morro e, alguns minutos depois, encontra dois policiais e se junta a eles na busca, até que os dois desistem e resolvem voltar para a rua. Márcio, no entanto, mesmo cansado, decide que vai continuar procurando. Duas horas depois, ele encontra uma maleta preta e a reconhece: é a maleta onde o vampiro despejou grande parte do seu sangue. Ele tira fotos da maleta e a abre. Lá dentro, só aquela escuridão densa.

Quando desce o morro, todo sujo de lama, Márcio encontra Natasha e um casal mais velho, que parecem ser seus pais ainda esperando. Ao vê-lo, Natasha começa a chorar.

– Eu sinto muito. – diz Márcio decepcionado consigo mesmo. – Mas eu encontrei uma pista. Eu sei a quem pertence esta mala.

Os três olham para ele surpresos.

– Ela pertence a um homem que fugiu de uma delegacia aqui perto ontem. Eu estava por aqui procurando por ele.

– O que esse homem queria com a nossa filha? – perguntou a mulher mais velha.

– Minha senhora,… – diz Márcio inseguro, tentando encontrar as palavras. – vocês precisam ser fortes.

Natasha começa a chorar descontroladamente. Márcio continua:

– Conhecendo o criminoso como eu conheço, há poucas chances de Iara ainda estar viva.

– Ai, minha filhinha! Por que, meu Deus? Mas que mundo horrível!

– Eu juro pra vocês que vou encontra-la, custe o que custar.

Márcio leva a maleta para um hotel, onde se hospeda. Ele mantém a janela e a cortina abertas, para que a luz do sol inunde o quarto. Antes de dormir, Márcio coloca a maleta debaixo do armário, com todo o peso sobre ela, para que nada saia de dentro da escuridão.

Durante a manhã, correntes saem por baixo do armário enquanto Márcio dorme. Lentamente elas o envolvem junto com a cama. Ele acorda e se vê completamente preso. Grita desesperado enquanto as correntes o apertam cada vez mais. De repente, ele para de se debater, quando uma lança atravessa seu corpo por baixo da cama, saindo pela frente. A cama fica ensanguentada, enquanto ele geme, perdendo as forças.

Márcio se levanta, assustado. Tudo fora só um sonho. Ele olha para a maleta, enquanto um frio percorre sua espinha. Seu corpo está ensopado de suor. Ainda são 8 da manhã. Ele pega a maleta, compra uma corda grossa e vai até Sulacap. Passa mais três horas procurando pelo morro, mas não encontra nada.

Ao descer, encontra o pai de Iara.

– Qual o seu nome, rapaz?

– Márcio, e o seu?

– Vladmir. – responde apertando sua mão. – Minha filha só tem dezenove anos. Ela ainda vai ser uma grande modelo, pode ter certeza! Você já viu ela?

Márcio faz que não com a cabeça e Vladmir pega uma foto na carteira.

– Se esse monstro fez alguma coisa com ela,… eu vou matar o desgraçado, nem que eu tenha que ir até o inferno atrás dele.

Márcio fita o chão por alguns segundos, como se estivesse refletindo sobre o que Vladmir disse.

– O senhor tem álcool e fósforo?

– Tenho.

– Traga pra mim, por favor.

Alguns minutos depois, os dois estão em uma área do morro coberta por algumas árvores. Márcio enche a maleta de álcool.

– Essa coisa, Sr. Vladmir, não pertence a este mundo, assim como o homem que sequestrou a sua filha.

Ele abre a maleta e pega a garrafa de álcool. Em seguida, atravessa a garrafa quase que totalmente pela escuridão de dentro, enquanto observa a reação de Vladmir.

– O monstro pode ter se escondido aqui dentro ou escondido a sua filha.

Ele pega um galho de uma árvore e o solta dentro da maleta, espera um pouco e não ouve nenhum barulho.

– Eu vou entrar. – diz Marcio, decidido, enquanto pega a corda.

– Você é louco! Vai entrar nessa coisa? Se minha filha está aí, então deixe que eu mesmo entro.

– Não, Senhor. Esse demônio também matou alguém importante pra mim. Eu já o encontrei antes e não sei se dessa vez vou sobreviver pra contar a história. Também não sei se posso voltar daí de dentro. Então, se alguma coisa que não for eu sair da maleta, por favor, taque fogo nela imediatamente.

Vladmir concorda com a cabeça. Márcio amarra uma das extremidades da corda em sua cintura e a outra a uma árvore. Cuidadosamente, coloca seus pés para dentro e vai entrando na pequena mala, como se esta fosse uma escotilha.

Márcio faz uma longa viagem em poucos instantes, e se sente tonto e desorientado. Quando se recupera, sente frio e se vê sobre um enorme lago de gelo muito escuro. Ao redor não é possível ver nada, e sobre o lago, há uma névoa espessa, que não lhe permite saber onde o lago acaba. De repente, ele é atingido por um vento gelado, treme e se encolhe. Névoa escapa de seu nariz, enquanto ele respira. Um uivo sinistro chega aos seus ouvidos e parece vir de perto. Márcio vê um portal negro atrás dele, foi de onde ele veio e para onde poderá voltar. A corda não parece ter sofrido nenhum dano. Ele começa a andar cuidadosamente sobre o lago e ouve um gemido, ao tropeçar em alguma coisa.

– Não tá me vendo aqui, seu idiota?!

Ele olha para baixo, através da neblina, e vê um homem preso no gelo, apenas com a cabeça para fora. Então, percebe que aquelas coisas que imaginava serem pedras, na verdade são todas cabeças de pessoas congeladas.

– Oi, meu nome é Márcio, onde eu estou?

– Você não sabe? – responde o homem, com muita dor em sua expressão e voz. – Isto aqui é o Inferno.

– Você viu um homem forte, de óculos escuros e cabelos negros penteados pra trás?

O homem faz que sim com a cabeça.

– E para onde ele foi?

O homem solta um gemido de dor e inclina a cabeça para o lado.

– Por favor, me diga, aonde ele foi?

O homem fita o gelo, com olhar de sofrimento e nada diz. Márcio decide continuar andando, com cuidado para não pisar as cabeças. Está muito frio e ele começa a sentir dor nas extremidades, logo a corda chega ao fim. De repente, ouve o som de um rosnado e vê surgir na neblina, um lobo branco monstruoso, com o dobro do tamanho de um lobo normal e com uma aparência muito mais ameaçadora. O lobo o olha fixamente com seus olhos vermelhos, enquanto sua baba cai no lago e congela imediatamente. Márcio saca sua pistola e a aponta para o lobo, esperando seu ataque mas este continua olhando dentro de seus olhos e rosnando, e Márcio sente uma sensação horrível, como se aqueles olhos estivessem penetrando sua alma.

Um som fantasmagórico de cavalo se aproxima e, aos poucos, Márcio pode ver um cavaleiro negro vindo lentamente. O cavaleiro usa uma armadura completa e uma capa vermelha, e monta um cavalo cadavérico. Ele está arrastando pelo braço o corpo de uma mulher nua, sem cabeça.

– Ele está com fome. – diz o cavaleiro, com um sussurro arrepiante. – Acho que vocês dois querem isto aqui.

Eligos lança a mulher para o lobo, que começa a devorar sua carne.

– Esta é…?

– Sim. A moça que você veio buscar. Ela é toda sua, nós já temos o que precisamos. Se conseguir leva-la, é claro.

Márcio atira na cabeça do lobo, que solta um ganido, mas permanece de pé. Ele olha furioso para Márcio, que atira novamente, mas, mesmo recebendo o tiro, avança para cima do policial, derrubando-o. Desarmado, Márcio empurra a garganta do monstro, impedindo que ele abocanhe sua cabeça. A baba escorre sobre seu rosto, que sente o bafo quente e o cheiro de carne crua. O lobo pisa sua garganta e morde seu braço esquerdo. Márcio solta um grito de dor e saca seu facão, cravando-o no olho esquerdo do lobo, que recua, gritando. Desesperado, ele se levanta e corre em direção à pistola, mas a fera salta sobre ele novamente, derrubando-o próximo ao corpo. Ele se protege com o braço ferido e o monstro crava nele seus dentes enormes. Ele puxa o braço com força, girando a cabeça de um lado para o outro, até arrancá-lo. Mesmo sentindo uma dor terrível, Márcio é movido pela adrenalina e golpeia o pescoço da besta várias vezes com a faca. A fera cai no chão e Márcio pula sobre ela, esfaqueando-a sem parar e espalhando todo o seu sangue pela superfície do lago congelado. O olho direito da besta continua encarando fixamente o seu, mesmo depois que ela para de se mexer completamente. Márcio larga o facão, pega o cadáver da moça novamente e vai arrastando-o pelo braço de volta para o portal. Nem sinal do cavaleiro negro. Mas quando se aproxima do portal, Márcio ouve aquela voz tenebrosa mais uma vez:

– Meus parabéns, Márcio, você mostrou quem é a maior besta do Cocito. Mas não se engane, caçador, tudo o que sai do Inferno é maldito, e não é bem vindo lá em cima.

Ao lado de Eligos está Ukobach, com aparência um pouco alterada, as orelhas e o nariz maiores, e o corpo curvado.

– Duque Eligos, não seria imprudente deixa-lo escapar? Ele destruirá a maleta e me prenderá aqui.

– Não se preocupe, Ukobach. Perderemos você por um tempo, mas ganharemos dois aliados por isso. É sempre mais fácil seduzir a alma de um vencedor.

Vladmir chora copiosamente ao ver o corpo degolado de sua filha sair de dentro da mala. Ele o abraça, enquanto Márcio sai da mala com muita dificuldade. Vladmir vai rapidamente em direção a ele ao perceber que ele perdera um braço. Márcio está pálido e muito fraco, sangrando muito. Nos braços de Vladmir ele fala com dificuldade suas últimas palavras antes de perder a consciência:

– Por favor, você precisa estancar o ferimento…

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O Demônio

demonio

Ele corria como não houvesse outra coisa no mundo, apenas corria, corria para se salvar.

Olhou para trás e viu o vulto, a criatura ainda o perseguia. Desceu umas escadas de ferro pulando alguns degraus, quase caiu, mas se equilibrou segurando nas barras de apoio e conseguiu se manter de pé.

Era jovem, não mais que vinte e cinco anos, praticava exercícios e tinha boa saúde, mas seu coração disparava como se fosse explodir, seu peito doía, os pulmões estavam exaustos, não aguentava mais correr. Suava bicas, ofegava e ofegava, mas não poderia parar, não com aquilo atrás dele. Não sabia o que era aquilo, um homem? Talvez. Quando foi abordado por esse ser, podemos dizer assim, na saída da boate, conseguiu ver de relance seus olhos que brilhavam um vermelho amarelado intenso como brasa acesa.

(more…)

13

Carne II – Ossos do Ofício – Final

Escritor: Sombra Posthuman

Ukobach

Ukobach

 

Esta publicação é continuação de Carne I – Esqueletos no Armário e Carne II – Ossos do Ofício – Parte 1 e é recomendada para maiores de 18 anos.

Blood on her skin
Dripping with sin
Do it again
Living Dead Girl
Blood on her skin
Dripping with sin
Do it again
Living Dead Girl

Bem longe dali, Elisa algema os pulsos de Leandro à cabeceira e os pés aos pés da cama.

(more…)

Publicado por Sombra Posthuman em: Agenda | Tags: , , , , , , , , , , , , , , ,
6

Carne II – Ossos do Ofício – Parte 1

Imagem de Albert Wesker retirada da página http://www.gaiaonline.com/profiles/chairman-a-wesker/31614599/

Imagem de Albert Wesker retirada da página http://www.gaiaonline.com/profiles/chairman-a-wesker/31614599/

 

Escritor: Sombra Posthuman

Recomendado para maiores de 18 anos.

 

Para ler antes, ou não:

Carne I – Esqueletos no Armário

 

I… I have this need

I need to see you bleed

I need to taste your brain

Oh God, it drives me insane

Come… come over here, my dear

There’s nothing for you to fear

I need a little piece of your head

So you too can be among the living dead…

 

O ritmo da música eletrônica enche o quarto, dividindo o pouco espaço do aposento com sangue e membros decepados. Elisa move seu corpo seguindo o ritmo, enquanto devora um braço que já pertenceu a um homem. O sangue respinga em sua lingerie branca, já cheia de manchas rubras. Ela se delicia com o momento, como se estivesse fazendo sexo. É uma sena grotesca, mas lambuzada de luxúria, porque para Elisa, isso é um orgasmo.

É o quarto de Mauro, que se transformou em uma câmara de horrores.

– Eu tô gostano desta cidade. – Ela diz com o sorriso de uma criança.

O telefone toca, Elisa larga o membro masculino que lhe dá tanto prazer, chupa os dedos e corre para a sala de calcinha e sutiã e suja como uma criança levada. Ela atende o telefone.

– Alou?…

– Olá, meu anjo, vai fazer alguma coisa hoje?

– Nadinha…

– Então eu vou passar pra te pegar mais tarde.

– Tá bom, vou ficar esperano.

– Vou te levar pra um lugar bem legal!

– Ah, é? Estou curiosa…

– É surpresa. Então até mais, gata.

– Até mais…

É noite,… um homem de batina, coturno e um chapéu preto anda pela cidade com ar de quem não sabe bem para onde está indo. Ele usa um grande crucifixo de prata e óculos escuros, e carrega uma maleta preta. Através dos óculos, olha para a TV em uma vitrine, onde está passando “O Corvo”.

– Victms… aren’t we all? – diz Brandon Lee.

– Cidade grande,…vai ser difícil te achar de novo, Lilith.

Ele continua andando, mas um cego, de rosto deformado, bloqueia sua passagem. Ele o empurra sem hesitar na direção da rua.

– Sai da frente, cego inútil!

O homem cai na rua, enquanto um carro vem rápido em sua direção, buzinando desesperadamente. O cego não tem tempo de reagir e permanece caído na escuridão, apenas ouvindo o som da morte se aproximando. Felizmente, o motorista consegue desviar. O homem da batina, no entanto, continua em seu caminho, sem nem mesmo olhar para trás. Ele se aproxima de uma igreja evangélica e ouve muita gritaria lá dentro.

– O fim está chegando, irmãos! Os sinais estão todos aí! É o fim dos tempos!

– Por mil diabos, assim nem consigo ouvir meus pensamentos!

Para diante da igreja e abaixa os óculos. Sua íris é vermelha como fogo e sua pupila é uma fenda vertical, como de gato. Ele olha para dentro da igreja e, sem razão aparente, o altar é coberto de chamas, juntamente com as roupas do pastor.

– Esses crentes são tão irritantes…

Um carro passa pela rua e as pessoas dentro dele nem se dão conta do que está acontecendo. É Leandro quem está dirigindo o carro, e Elisa está na carona.

– Que lugar é esse pra onde ocê vai me levar?

– Calma, meu anjo, isso é só mais tarde. Agora nós vamos beber e dançar um pouco.

Ele para o carro em frente a um lugar sujo e com pouca iluminação, que parece um galpão, com homens mal encarados fumando na frente. Eles entram e são recebidos por uma garota loira que aparenta ter uns 14 anos, com um short minúsculo e um decote bem ousado.

– Oi, Painho! Vai me pagar um drink?

– Não, hoje não, Gabi. Eu tenho companhia.

– Ok. – E sai sem dar a mínima.

– Painho? – repete Elisa com tom de deboche.

Eles se sentam a uma mesa no canto, e logo um homem barbudo com mais ou menos quarenta anos e cheio de ouro chega para cumprimentar Leandro. Neste momento, passa pela mesa uma mulher linda, usando um chapéu de caubói. Um pouco parecida com Elisa. Algo naquela mulher chama a atenção de Elisa de tal modo, que ela não consegue desgrudar o olhar da misteriosa mulher. A morena de chapéu deixa o estabelecimento e, enfim, Elisa sai do transe.

– Elisa, falei com você, meu anjo.

– Ah, sim, descurpe.

– Este aqui é o Pirata, meu parceiro de negócios.

– Muito prazer.

– O prazer é meu. É uma moça muito bonita!

– Muito agradecida.

– Tem notícias do Mauro? – Pergunta para Leandro.

– Não, desapareceu sem deixar rastro. Só deixou isso aqui pra mim. – Olha para Elisa sorrindo e ela sorri de volta sem prestar muita atenção no que ele está dizendo.

– E você acha pouco? Hehehehe

Uma garçonete traz algo para beber e Elisa bebe enquanto pensa na mulher que viu há pouco. Os homens estão conversando, mas ela permanece distante.

Alguns instantes depois, Leandro chama Elisa para dançar. Eles se levantam e começam a dançar ao som de The 69 Eyes – Dead Girls Are Easy.

Enquanto isso, em outra parte da cidade, o homem de batina toca a campainha em uma casa. O cachorro do vizinho não para de latir, o homem o encara por cima dos óculos escuros e o cachorro foge amedrontado. Um cabeludo tatuado abre a porta.

– Um padre? O que você quer aqui?

– Diego Silveira?

– Sou eu, e você quem é?

– Meu nome é Ukobach.

– Eu não acredito em Deus, tá legal?! – e começa a fechar a porta, mas Ukobach a segura.

– Eu quero saber onde está a mulher do baixo.

– Mulher do baixo, não sei do que cê ta falando, véi. Agora dá licença, que eu tô com o fogo ligado. – E força a porta para fechá-la, mas Ukobach chuta a porta com seu pesado coturno, abrindo-a mais e empurrando o homem para trás.

– Tá maluco?

Ukobach pega o homem pelos cabelos e o arrasta até a cozinha.

– Por que não disse logo? Não queremos desperdiçar gás! Eu sou um ótimo cozinheiro, sabia?

Diego grita e se debate, alcançando uma panela e bate na perna de Ukobach, que parece não sentir nada. Há uma chapa de metal fritando lingüiças e cebola em cima do fogão.

– O jantar está servido! – Ukobach empurra o rosto de Diego contra a chapa e ele solta um grito horrível de dor.

– Vou perguntar de novo, onde está a garota?

– Ah, eu não sei, véi, eu juro!

– Resposta errada. – E empurra novamente seu rosto contra a chapa. Depois o joga no chão. – A gente pode ficar aqui a noite toda! Vai ser muito divertido.

– Duas ruas pra trás, prédio verde, primeiro andar. Procura pela Dália, ela sabe da garota.

– Mas que covarde,… entregando uma mulher tão cedo! Eu disse que isso poderia durar a noite toda. Sabe, o padre dono desta batina resistiu mais.

Ele pega uma faca de cortar carne e corta o indicador da mão direita de Diego, que grita novamente.

– Ninguém gosta de dedo-duro!

Ukobach pega o dedo decepado do chão e guarda em sua maleta. Enquanto isso, Diego pega a faca e crava na perna do homem de batina, gritando “Desgraçado!”. Ukobach se vira e quebra o braço de Diego, fratura exposta. Volta à maleta, pega um gancho e vira novamente para Diego:

– Espero que não esteja mentindo.

– Aaaaaah, meu braço!

– Você não faria isso, faria? – Abaixa os óculos, fitando-o de perto com seus olhos demoníacos.

– Ah, meu deus!

– É, acho que não… Então me diga, já que você gosta de falar, qual é o nome da mulher do baixo?

– Eu te digo, mas, pelo amor de deus, me deixa em paz!

– Feito.

– O nome dela é Luana.

– Luana,… então esse é o nome que você está usando… Agora vamos brincar de açougueiro.

– Não! Você disse que ia me deixar em paz!

– Pelo amor de deus eu menti. – e crava o gancho no ventre de Diego.

De volta à boate, Elisa diz para Leandro que quer ir embora.

– Eu quero ver a surpresa que ocê tem pra mim.

– Está bem, então vamos.

Eles voltam para a mesa e Gabi está sentada no colo do Pirata com o seio esquerdo para fora da blusa em sua mão.

– Até mais, gente, a gente já tá indo. – diz Leandro.

– Mas já, tão cedo? Toma mais uma bebida! – responde o Pirata.

– Não, a gente vai continuar a festa em outro lugar. Nos vemos semana que vem.

Eles pegam o carro e Leandro pergunta:

– Quer parar em algum lugar pra comer alguma coisa?

-Não, eu quero ver logo esse lugar que ocê falou.

– Tem certeza? Não está com fome?

– Dá pra aguentar até mais tarde.

– Tá legal.

Eles se afastam da cidade e vão pro meio do nada. Mas, no meio do nada, se encontra uma luxuosa mansão.

– E aí, o que achou?

– Nossa! O que é isso?

– É o esconderijo que o Pirata me arranjou. Os negócios vão indo muito bem.

– Que legal, é demais de grande! Eu quero ver a casa por dentro!

Eles entram e Elisa corre a casa toda. Para de frente para a lareira e diz:

– Aqui é pra jogar os osso das pessoa, né?

– Elisa, você anda vendo filmes de terror demais!

Ela sai correndo, pois outra coisa chamou-lhe a atenção, enquanto Leandro observa a lareira, pensando seriamente numa nova possibilidade. Ouve um som metálico, se vira e vê Elisa segurando uma katana desembainhada, apontada para ele.

– Olha só o que eu achei!

– Muito cuidado com isso, está afiadíssima. E você não vai querer machucar este lindo corpinho, vai? – Coloca a espada de lado e acaricia seu rosto. – Vou te mostrar o nosso quarto.

Um homem de pseudo-moicano anda pela calçada de uma rua deserta com uma camisa camuflada, onde está escrito: “EXÉRCITO DE CRISTO”. Ele caminha, cantando um funk, quando vê folhas de jornal no chão e se inclina para olhar. É uma reportagem sobre o incêndio na igreja.

– Cacete!

Enquanto ele observa, inclinado, um morcego que estava pendurado em uma marquise atrás dele toma forma humana e o agarra por trás. Ele tenta reagir, mas relaxa quando recebe uma mordida no pescoço. O predador é a mulher de chapéu que Elisa viu na boate, mas ela está nua. A presa entra em um estado de êxtase e fica completamente mole, indefesa, enquanto a vampira o puxa para a sombra e suga todo o seu sangue pela jugular. Quando ela parece finalmente saciada, solta o corpo do homem, mas se surpreende ao ouvir uma voz.

– Olá, Lilith. – Um homem, aparentando uns trinta anos, cabelos negros em asa delta, roupas pretas e um crucifixo de madeira pendurado no pescoço, sai de trás de uma banca de jornal. – Venho observando você há um tempo. – Ela fica alerta como um animal ameaçado. – Vampiros realmente existem! – Ela começa a andar em sua direção, olhando em seus olhos. O homem saca uma pistola: – Não se aproxime. – Ela sorri. – Eu vim buscar você, Cabuçu deseja vê-la.

– Cabuçu? Ele está aqui?

– Chegou ontem e quer falar com você, por favor, venha comigo.

Luana se move como um raio e tira a arma da mão do homem, mas ao tentar estrangulá-lo, tem sua mão queimada misteriosamente. Ela geme de dor e salta para trás, segurando a mão, suas presas aparecem e seus olhos ficam vermelhos. Ela fita o homem, com raiva, mas ele não parece amedrontado.

– Eu não quis te ferir. Nem sei o que aconteceu. Tome, vista meu casaco. – Ele joga o casaco para ela.

– Você vai na frente, eu te sigo à distância.

Eles caminham por algum tempo, até que chegam a uma casa humilde. Ele entra e deixa a porta aberta, Luana entra em seguida. Sentado diante de uma mesa com vários livros está o velho deformado que foi empurrado por Ukobach. É um velho índio que usa óculos escuros.

– Senhor Cabuçu, trouxe a vampira, como me pediu.

– Lilian, ocê tá aí?

– O que houve com os seu rosto, Cabuçu?

– Ashur mandou um demônio atrás de mim, ele se chama Anamane. Mas não era meu destino morrer naquele dia. Perdi minha mãe e a visão, e fiquei com o rosto deformado.

– Eu sinto muito. O demônio também veio atrás de mim e eu também perdi uma pessoa querida.

– Você deve ter sofrido muito… Ashur deixou este mundo, e eu me preparei por todos esses anos para me vingar do demônio que levouseu irmão e a minha mãe.

– Você devia fazer como eu, Cabuçu, esquecer de tudo, deixar o passado para trás.

– Às vezes o passado te apunhala pelas costas, Lilian. O demônio está aqui em BH, veio atrás d’ocê novamente. Os espíritos ancestrais me disseram que vários destinos vão se reencontrar nesta cidade e que vida e morte estão nessa encruzilhada.

– Se ele veio me destruir, deixe que venha. Minha existência não possui nenhum propósito. Só o que faço é matar pessoas inocentes quando a fome se torna insuportável.

– O demônio não deve alcançar seu objetivo! Seja ele qual for!

– Eu lamento, Cabuçu, sou grata por você ter me ajudado a fugir de Turmalina, mas não vou ajudar na sua vingança. – Ela se vira e sai.

– Espera! Ele está indo atrás de você! É um demônio!

– Deixe, Ângelo! Ela não vai ajudar. Pelo menos não agora, os espíritos disseram que a mulher de Turmalina iria se unir a nós contra o demônio.

– Talvez ela mude de idéia.

Ukobach está diante de um prédio pequeno e simples, sem porteiro, quatro andares. Enquanto anda em direção à porta do prédio, as plantas do jardim murcham com a sua presença. Ele abre sua maleta e de dentro dela sai uma corrente enferrujada com elos de ganchos, como um enforcador de cachorros. A corrente se ergue no ar como uma serpente e tem várias agulhas na ponta. Essas agulhas entram na fechadura da porta e a abrem. Ele segue pelo corredor e faz o mesmo na porta do apartamento. Anda silenciosamente pela sala escura e é violentamente atingido na cabeça, caindo no chão imediatamente. Ele olha para os óculos quebrados no canto da sala e tenta se levantar, mas é atingido novamente pelo pedaço de madeira segurado por Dalila, uma jovem de moicano, cheia de tatuagens e piercings, usando um baby doll.

De repente, a madeira em sua mão começa a pegar fogo espontaneamente. Ela joga a madeira no chão, assustada. Ukobach se levanta.

– Você é Dalila?

– E você é o Demônio?

– Um deles. Mas não é você que eu quero. Vim lhe perguntar: onde está Luana? – Pega a maleta do chão calmamente.

– Que tipo de demônio é você, que não consegue achar uma garota?

Ele abre a maleta e dela saem quatro correntes, que seguram seus membros e a erguem no ar.

– Eu faço as perguntas aqui.

– Você tá perdendo seu tempo, cara!

– Eu tenho todo o tempo do mundo.

As correntes começam a se enroscar por suas pernas, até suas virilhas e a apertar. Dalila começa a gemer de dor.

– É bem mais divertido quando vocês não cooperam.

Correntes finas com pequenos ganchos se enroscam pelo seu tronco, rasgando sua blusa e sua pele.

– Dá pra perceber que você gosta de furar a própria pele. Acho que você vai adorar a nossa brincadeira!

– O prazer é todo seu!

As correntes finas envolvem e apertam seus seios e novas correntes prendem ganchos em todos os seus piercings: no nariz, nas orelhas, na boca, na língua, nas sobrancelhas, nas bochechas, nos mamilos, no umbigo e na vagina. E começam a puxar bem devagar. Ela geme novamente.

– Vou perguntar novamente: Onde está Luana?

Ela tenta dizer algo, mas as correntes na boca não permitem. Ukobach tira as correntes do lábio inferior e da língua.

– No seu rabo, filho da puta!

As correntes voltam, mas Dalila fecha a boca, impedindo que uma delas pegue o piercing da língua. Elas começam a esticar a pele da garota nos locais dos piercings e ela grita mais alto. Aos poucos, os piercings vão sendo arrancados um a um e Dalila grita de dor. Ukobach observa as gotas de sangue que pingam no chão até que todos os piercings são arrancados. Uma corrente se enrosca na boca de Dalila, impedindo que continue gritando.

– Parece que você perdeu todos os seus piercings. Vamos providenciar novos.

Várias correntes finas com pequenos ganchos na ponta saem de dentro da maleta e cravam em várias partes do corpo de Dalila. As correntes começam a puxar.

– É surpreendente a elasticidade da pele humana, não é?

As correntes vão esticando a pele aos poucos e a tortura continua por um bom tempo, até que a pele começa a arrebentar. E as correntes vão caindo uma a uma. Dalila geme de dor, não pode mais gritar.

– Eu poderia ficar a noite toda nisso, mas tenho outras coisas pra fazer, então vou te dar logo o que você tanto quer!

Ukobach sorri, enquanto uma corrente grossa sai de dentro da maleta. Sua ponta é formada por vários discos empilhados, como uma broca, com pequenos pregos apontados para fora, como uma clava. Cada disco gira em um movimento de rotação oposto ao anterior. A ferramenta faz um barulho infernal. Dalila arregala os olhos.

– Não seja tímida! Eu sei que você está ansiosa pra ter este instrumento dentro de si!

A broca se aproxima de Dalila e ela começa a se debater. Ela entra em seu short pela virilha e penetra entre suas pernas. Continua subindo até o útero, derramando uma grande quantidade de sangue no chão. Depois de algum tempo, a broca sai.

– Dalila, foi um grande prazer brincar com você. Eu me diverti tanto, que resolvi fazer um trato. Pare de resistir e junte-se a mim, eu pouparei sua vida e lhe concederei poderes incríveis. Nada poderá se colocar em nosso caminho. O que me diz?

A corrente que tapava a boca de Dalila é retirada. Seu rosto está machucado por causa dos ganchos de enforcador. Ela cospe sangue e fala com muita dificuldade:

– Vai pro inferno, seu corno! – Ukobach fica desapontado.

– Você primeiro.

A corrente volta para seu lugar e as pequenas poças de sangue do chão começam a se transformar em formigas africanas.

– Essas formigas entrarão pelos seus orifícios e lhe comerão lentamente por dentro. Aproveite cada segundo! Nada pessoal, são ossos do ofício.

As formigas sobem pelas correntes e pelas pernas de Dalila, até entrarem no seu short. Ela geme e se debate desesperada.

– Espero que não se importe se eu me ausentar, já vi esse espetáculo milhares de vezes.

Ele passa pelo corredor do apartamento e vai até o quarto de Dalila. Lá, ele encontra um flyer do show do dia seguinte.

– Já este espetáculo, eu não vou querer perder!

Publicado por Sombra Posthuman em: Agenda | Tags: , , , , , , , , , , , ,
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A princesa demônio – Capítulo 1

a-princesa-demonio-1

Existe um prólogo dessa história,leiam antes deste capítulo.

http://www.onerdescritor.com.br/2012/09/a-princesa-demonio/

Alguns erros foram encontrados e corrigidos e pode ser que ainda existam mais.Se encontrar pode me comunicar.Estou começando ainda e aceito ajuda para poder melhorar cada vez mais.Obrigado.

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Alexia acordou,pode perceber que estava sendo carregada no colo por alguém mas não conseguia distinguir a feição de quem a carregava.Sua visão estava embaçada e demorou um pouco até que ela conseguisse distinguir o rosto do homem que a carregava.

(more…)

Publicado por Jenny Snow em: A princesa demônio,Contos | Tags: , , , ,

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