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conto da noiteO Conto da Noite
Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

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Elucidações elucidativas sobre os elucidados [conto]

Imagem | Antimidia

A menor possibilidade das coisas darem certo ainda não é o suficiente para deslindar a necessidade de as coisas darem certo. Se as coisas não derem certo para Renata isso poderia significar que não vão dar certo para ninguém. Não porque as coisas dela sintetizam todo os sentimento do universo ou sua solução culminaria na confirmação ou negação da hipótese de Riemann. Ninguém nunca conseguiu solucionar esta fabulosa combinação de números e letras romanas e gregas, cheio de linhas e sinais gráficos, muito bem matutada por Bernhard Riemann, um alemão que morreu na Itália e viveu no período da nababesca era Vitoriana. Renata certamente não seria quem desvendaria este pomposo enigma, visto que ela era uma notória lunática, e não dominava as artes numeroletradas. Ela nunca poupou nenhum tipo de tempo, passado, presente ou futuro, para fazer as coisas darem certo, mas isso não garante nada, se é que alguma coisa pode ser garantida nesta época de carros que não voam e exceções generalizadas. Falo isso por causa das coisas que Renata falava para a lua antes de dormir. Não que ela falava com a lua como um galo que fala para o mundo que o sol chegou ao mesmo tempo que avisa as estrelas para se esconderem, era mais parecido com um canário que canta todo dia de manhã na esperança de encontrar outros canários que também queiram cantar.

Para as coisas darem certo para Renata ela precisava que uma série de acontecimentos aleatórios se alinhassem numa sequência imponderável. É uma coisa parecida com o efeito borboleta, mas sem tantas cores e com um degradê mais opaco. É esta variação de cor limitada pelo espectro retro dimensional que determinará a completa ocasionalidade dos eventos. Sendo assim, o fundamentalismo paraláxico da situação determina que as coisas darem certo para Renata é elemento decretório para que as coisas também deem certo para todos os seres vivos, pensantes e não pensantes, ou mortos (aí tanto faz como e porque). Se Deus existe, só ele sabe se as coisas vão dar certo para Renata, mas se ele não existir, aí ninguém sabe. Neste caso, de ninguém saber, quem descobrir pode estar em grande risco de ser considerado sabedor demais. Assim como Galileu ou Tesla. Para eles as coisas não deram certo, o que impactou o mundo inteiro, que teve que viver mais tempo que o necessário achando que a terra era quadrada e sem iluminação para cidadãos noctâmbulos. Não se pode dizer aqui que Renata não era cumpridora de seus deveres e merecedora de todas as graças de Nossa Senhora da Bicicletinha (o que não significa que eram de graça, Renata deprecava fervorosamente na igreja ou fora dela, além de sempre contribuir na cestinha), porque ela era.

Traçando um paralelo entre a curva ascendente da transversalidade do cosmo, e os instintos reprimidos de um boi que pasta durante semanas antes de virar hambúrguer, um alucinado poderia concluir que os coisas dariam certo para Renata se ela fosse para a Conchinchina. Supondo, para todos os efeitos laterais e colaterais, que a Conchinchina fizesse fronteira com o Amapá, e alguns metros separassem a prosperidade da completa precariedade do ser (alguma coisa, humano ou animal), e que as coisas dessem certo com Renata lá, o sistema de irrigação dos circuitos que ligam os fatos entrariam em processo de estiagem aqui. Em todo caso, parece lógico afirmar que as inexoráveis relações de espaço-tempo seriam afetadas de formas reparáveis somente com a invenção de novas máquinas ou uso de tecnologia cinematográfica. Ambas as soluções estão além dos pressupostos básicos democráticos estabelecidos pelo senso comum.

É de suma importância lembrar dos estudos conduzidos pela própria Renata sobre a influência da lua nos sorteios dos números do bingo na igreja. Como lunática formada e diplomada numa das grandes universidades da vida, Renata tem todos as credenciais necessárias para dizer o que quiser ou entrar em qualquer lugar, desde que a vontade e os lugares existam. Dito isso, suas pesquisas provam categoricamente que pedras lunares que cantam aqui não cantam lá, e vice-versa. Então não adianta teimar que água mole não fura pedra dura. No sapato ou no caminho, no bingo ou na lua, a pedra é sempre algo que vai bater. Que seja pós-verdade, pós-mentira ou pós-feijoada, as coisas tem que dar certo para Renata nem que seja por sorteio, fórmula mais conhecida por selecionar a meritocracia.

No fim os macacos nunca morderam o Robin, e o Batman jamais conseguiria morder uma bala como John Wayne. Quando uma borboleta bate as asas ela espalha por toda atmosfera uma grande quantidade de pó de pirlimpimpim, e este pode ser o segredo do milagre. Tudo corrobora para que não acontecimentos continuem a não acontecer. Existem mais de 80 grupos étnicos no Sudão do Sul, e todas essas formidáveis culturas fazem um esforço descomunal, há séculos, para se manterem culturando, independente da vontade do sapo de se alimentar unicamente de mosquitos. O que se pode dizer, ainda que se incorra no terrível erro de se estar errado, considerando aqui que a dicotomia certo e errado corresponde às duas únicas possibilidades irracionalmente viáveis de definição a cerca da moral, é que não se pode fazer uma omelete sem se quebrar os ovos. Não sendo a omelete uma substância essencial para a preservação da espécie, fauna e flora, ao contrário do ovo, ao qual a vida está uniformemente envolta, se conclui que para as coisas darem certo para Renata basta não fazer omelete.

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O fim do resto [conto]

Imagem | GörlitzPhotography – Flickr CC

No futebol da educação física do colégio o primeiro a ser escolhido não é só o melhor. Ele é o melhor, o mais legal, o mais bonito, com um futuro brilhante, inteligente e o orgulho do Sr. e da Sra. Oliveira. Daí para baixo vem o resto, encabeçados pelos melhores amigos dos melhores, depois um goleiro, alguém que joga mais ou menos mas é chato, e o ruim. Esse é a escória da sociedade, a maçã podre, o menino sem futuro e peso morto. Esse era eu. Deveria ter me matado quando tinha 17 anos. Naquela noite com a Sara, em que ela estava peladinha deitada na minha cama, pronta para o amor, e eu não consegui fazer nada. Aquela deveria ser a primeira e última vez que isso aconteceu. Mas ela estava bêbada, não lembrou do que tinha acontecido na noite anterior, e eu não me matei. Teria poupado minha alma, e a humanidade, de todos esses anos de merda.

Acabei dormindo no sofá assistindo “só é feliz e saudável quem tem…”. Não sou nem feliz e nem saudável. Nem tenho nada. Quem é feliz e saudável nem sabe que eles ficam vendendo estas porcarias toscas na madrugada. Enquanto eu fervia a água para o café me imaginei numa casa grande, com um par de carrões na garagem, num condomínio, de terno, fazendo café numa daquelas máquinas que eles vendem na madrugada. A Sara descendo as escadas com as crianças, desviando do nosso Dachshund, que ia chamar Cofap. Talvez seja melhor eu voltar a dormir assistindo algum programa de igreja. Esse calor é medonho, comecei a suar antes mesmo de começar a viver. O sofá, minha roupa, meus pensamentos, esta tudo ensopado de suor.

Caguei fumando um cigarro e fui direto para o banho. Não adianta colocar o chuveiro no modo verão, a água é quente porque o sol é quente, o tijolo da parede esta quente, o cano esta quente, o inferno esta quente. Depois fiz um café quente, tomei fumando uma ponta que queimou meu dedo, peguei o táxi, liguei o ar condicionado e saí para trabalhar.

Desci a Radial Leste inteira até o centro sem pegar um passageiro. Subindo a Avenida Ipiranga, ali na altura da Praça da República, três estudantes fizeram sinal. “Quanto fica uma corrida até a Barra Funda?” “Pra vocês três?” “É.” “Faço vinte para cada um.” “Tá muito caro!” “É bandeira dois, tem o trânsito desse horário, no taxímetro vai dar mais.” “Tudo bem.” Como cavalheirismo virou machismo, o cara veio sentado na frente e as duas garotas foram atrás. “Vocês cobram muito caro, por isso que todo mundo só pega Uber.” “Se cobrando caro não sobra dinheiro nem para tomar café com leite, se eu cobrar menos só vai ter água quente.” “Mas também, você quer tomar café com leite todo dia?” “Você não?”

Deixei os três na subida da rampa do terminal e fui rodar. Passando na frente do fórum da Barra Funda um engravatado me parou. Entrou no banco de trás meio atabalhoado e ofegante. “Para um pouco antes da saída daquele estacionamento ali. Pode ficar com o taxímetro ligado.” Porque não ficaria? “Nós vamos ter que seguir um carro. Você é taxista, deve ter experiência dessas coisas. Ela não pode perceber.” “Tudo bem.” Não, não tenho direito a uma vida tranquila. Um carro prata, desses grandes de madame, saiu do estacionamento. “Ali, aquele SUV, fica com ele.” O tom dele era de investigação policial que ia dar bosta.

Fomos para as Perdizes. Subimos a rua Tucuna, desembocamos no Parque Antártica e o SUV parou numa farmácia. Uma loira de uns quarenta anos, dessas de fazer muita garota de vinte parecer uma criança, desceu e entrou na farmácia. “É a minha esposa.” “Parabéns.” Comecei a reparar que ele tremia e tinha uma cara que de idiota se transformava em psicótica com o passar do tempo. “Ela quer o divórcio. Tenho certeza que ela esta me traindo.” Parece que essa corrida é uma ameaça aos meus planos de uma vida pacata e tranquila. Me sentia perdendo a chance de dizer: “Você não quer descer aqui e refletir melhor sobre tudo isso? Procura ajuda. Não precisa pagar a viagem. Boa sorte. Até nunca mais.”

“Olha lá!” A loira de cabelos reluzentes e pernas grossas de um metro e meio saiu da farmácia e entrou no carro. “Você conseguiu ver o que tinha na sacolinha? O que ela comprou? Foi muito rápido. Tenho certeza que não foi remédio.” Já não me preocupava mais em responder com a esperança de que isso fosse entendido como um sinal para ele parar de falar e sair logo do carro. “Continua atrás dela. Vamos, vamos.” Agora meus pensamentos já seguiam mais na direção de “puta merda, não quero ter que ir na polícia. Por favor, desce.”

Nos embrenhamos pelo bairro até sair na Avenida Sumaré. Fomos indo sentido Pinheiros. “Se ela esta pensando que vai me deixar fácil assim ela esta delirando. Não sou otário.” Comecei a sentir pânico cada vez que via a cara dele no retrovisor. “Ela me deve, sabia? Sem mim ela não ia ser nada. Agora ela quer me deixar, e ficar com o dinheiro ainda por cima. Ela esta louca. Quem pagou a faculdade de arquitetura em Barcelona? Quem pagou as roupas, as festas, as joias?  Ela me deve.” Aumentei o rádio. “Baixa isso cara, por favor.”

Chegamos até Pinheiros. Descemos a Cardeal Arco Verde e o SUV entrou num estacionamento depois do cemitério. “Para na esquina de baixo, para na esquina de baixo.” A mulher saiu do estacionamento, andou uns metros na calçada e entrou numa portinha com várias salinhas de profissionais liberais. “Eu sabia que era aquele filho da puta do psicólogo. Aquele papinho de terapia era só fachada. Ele queria mesmo era comer minha mulher. Vou resolver isso agora.” O cara sacou um trinta e oito, desses pequenos, de dentro da pasta. “Fica aqui esperando que quando eu voltar você me leva para casa e te pago o dobro.” Esperei ele entrar na portinha e fui embora para longe dali o mais rápido possível.

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Tiros, carros e explosões [conto]

Imagem | Antimidia

Imagem | Antimidia

Os cornos vinham fugindo dos filhos das putas. Os cornos sobem na calçada da Avenida Paulista, atropelam uns quatro, dezenas de pessoas se esquivam, a lata de lixo voa para a rua e dois carros batem provocando duas mortes. “Ajuda, ajuda, ajuda……..os caras tão atrás da gente pela Paulista……” Os filhos das putas fungando no cangote, tipo corda e caçamba, terminam de matar dois dos atropelados pelos cornos, e jogam um ciclista no chão. “Precisamos de reforços……..estamos na cola deles……..” Os dois voltam abruptamente para a via, os filhos das putas empurram um carro que bate no outro que roda e sai capotando pela saída da Rebouças, levando consigo os que estão atrás. E pelo rádio chegam as novas informações. “Reforços a caminho…….não deixa eles escaparem da vista…….” Mais dois carros se juntam ao bando dos filhos da puta na altura do Hospital das Clínicas, e os cornos respondem com balas, que não respeitam os desejos dos atiradores e acertam paredes, carros e a cabeça de uma mulher que tentava se proteger. “Sai daí, sai daí………..” Então os filhos das putas começam a atirar também, mas usam as mesmas balas mal educadas que atingem vidraças e crianças que faziam aula de inglês. Um rastro de destruição ficava por onde os mestres do desastre passavam.

Dentro do carro dos cornos o clima estava tenso. “Caí para a Marginal……..a Marginal……….vamos sair desse caos do centro, porra…….” “É loucura……..vão pegar a gente na ponte…..” “Então tira eles da nossa cola, porra…….” Do lado dos filhos das putas as coisas não estavam muito diferentes. “Sai da linha de tiro deles, caralho………” “Para de se esconder e atira de volta…….que merda…….” Um contador desavisado que vinha voltando do trabalho para o casa teve o carro arremessado numa banca de jornal na altura da Avenida Brasil. E a devastação vinha avançando junto com o barulho de tiro e batidas. Os filhos da puta já estavam em seis carros quando duas motos saindo de um cruzamento soltaram pregos entrelaçados para rasgar pneus pela Rebouças. Dois filhos das putas ficam para trás causando um engavetamento, outros dois continuam na caçada. Os motoqueiros começaram a atirar com metralhadoras, aquelas pequenas. Um dos filhos da puta derrubou um motoqueiro, o outro continuava bailando entre os carros no trânsito e atirando a esmo. Os cornos do carro conseguiram abrir um semáforo de distância.

Nesse ponto os helicópteros dos jornais já estavam lá em cima e as cenas do caos passavam ao vivo no noticiário. “Vocês estão na televisão……” O rádio anunciou para cornos e filhas das putas. Os caçados desviaram no túnel e cruzaram a Faria Lima a milhão, acertando um carro na traseira, que rodou e ficou parado no meio do cruzamento. O motoqueiro não conseguiu desviar e levantou vôo se estatelando na ciclovia. Mais um carro chegou para reforçar os filhos das putas. “Vamos sair na Marginal sentido terminal João Dias…….vamos para Marginal……” “Já tem dois bondes pra escoltar vocês na Marginal…..” Os cornos entraram pela ponte Eusébio Matoso e caíram na Marginal. Logo a escolta apareceu, vindo da alça de acesso da Avenida Francisco Morato, lançando para o Rio Pinheiros um dos filhos das putas. Eram três cornos com metade do corpo para fora da janela despejando balas em cima dos filhos das putas. Agora eles não tentavam revidar, só desviar dos tiros. De alguma forma todas as balas provocavam estragos. Pelo menos cinco motoristas desesperados jogaram o carro para fora da pista na direção do rio. Ao menos três afundaram. As vítimas de balas perdidas já somavam duas casas decimais. E a loucura continuava sem dar o menor sinal de que algo poderia evitar a carnificina.

A notícia se espalhou rápido, as pessoas estavam paradas em cima da ponte Cidade Jardim para ver o comboio da morte passar. Foi um espetáculo e tanto quando um dos cornos bateu no para-choques e empurrou um dos filhos da putas para baixo de um caminhão, que tombou na pista causando um engavetamento monstro, com explosões de carros e pessoas voando. Passando pelo Parque Burle Marx a artilharia pesada dos cornos teve que recarregar. Agora eles eram em maioria, três para dois, mas os filhos das putas não davam sinal de que iam desistir.  Eram praticamente só os que estavam brincando de bang bang na pista. Os filhos das putas aproveitaram para se aproximar. Começaram a cutucar a bunda de um dos cornos, que rodou e ficou para trás. Então foi a vez deles começarem a atirar freneticamente. “Não traz eles pra cá, não traz eles pra cá………” Alguém começou a gritar desesperadamente no rádio dos cornos. Na ponte do Shopping Morumbi mais cinco filhos das putas se juntaram ao bando. “Apenas siga eles……..eles não tem para onde ir……..” A ordem vinha do rádio dos filhos das putas. Os cornos entraram em desespero um pouco mais a frente. “Vamos emboscar eles……….precisamos de ajuda, porra……” “Despistem eles, despistem eles, porra…….”

Se sentindo abandonados, os cornos começaram a entrar em desespero. O bonde que tinha sobrado voltou a carga total para cima dos filhos das putas, que mantinham uma distância relativamente segura, obedecendo as ordens. Os cornos emparelharam: “Não podemos voltar……..porra…..” “Vamos fuder com essa porra toda……” Os dois deram um cavalinho de pau e foram na direção dos filhos das putas como carros desgovernados que só vão parar quando encontrarem uma parede. Os filhos das putas pararam como se fossem uma parede. Os cretinos pisaram fundo. Não os dois. Um deles segurou um pouco o pé. O primeiro explodiu numa porrada violenta nos filhos das putas. O segundo alinhou atrás do show pirotécnico e passou a barreira. Os filhos das putas não sabiam o que fazer e viram os cretinos sumirem pela marginal. Os helicópteros seguiram eles até a ponte Morumbi e a estação de trem. Os cornos abandonaram o carro, entraram na estação e sumiram no meio da multidão.

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Stairway to heaven [conto]

Imagem | Antimidia

Imagem | Antimidia

Vou para Nova York. É lá que os artistas vivem e o dinheiro jorra das gravadoras. Todos os grandes estão em Nova York. Yoko Ono, Jay Z, Alicia Keys. Quem canta em português e toca cavaquinho nunca vai conseguir ir para Nova York. Mas eu canto em inglês, toco violão e gaita como o Bob Dylan. Vão querer saber da história da minha vida e se comover com meu esforço. Eles vão querer me ajudar, fazer tudo que puderem por mim. Vão me ouvir e ficarão surpresos com o timbre da minha voz e a minha batida no violão. Eles vão vibrar com a minha música e querer fazer musicais na Broadway comigo. Meu nome vai estar em neon no letreiro do Madison Square Garden. Minha foto vai sair nos jornais. Minhas músicas não vão parar de tocar nas rádios. Vou ser entrevistado pela Oprah e dormir na suíte presidencial do Plaza. “I want to wake up in that city that never sleeps……….and find I’m a number one……top of the list……..king of the hill……a number one…..” Preciso estar no lugar certo, tocando para as pessoas certas. E este lugar é Nova York. Onde o tempo é sempre bom e as luzes fazem você se inspirar e ser feliz. Junto com as melhores pessoas do mundo, que estão em Nova York porque são como eu: talentosas. Só os talentosos vão para Nova York, e eu sou muito talentoso. Todo mundo vai me receber como um rei. Eu mereço comer nos restaurantes mais caros, mereço o glamour, mereço o dinheiro. Não sou qualquer um. Sou educado, inteligente e bonito como as pessoas que moram em Nova York. Não cuspo no chão nem jogo papel na rua como as pessoas por aqui. Uso roupas limpas e passadas. Estou sempre cheiroso. Não vou ficar protestando contra tudo ou reclamando das injustiças feitas com os outros. Estou pronto para sucesso. Por isso eu vou para Nova York, onde tudo acontece. Onde estão os escolhidos. E eu sou um escolhido. Vou andar de limousine tomando champagne cercado de mulheres e fotógrafos. Gisele Bundchen, Caroline Trentini, Raquel Zimmermann. Todas. As pessoas vão querer meu autógrafo e fazer selfie comigo. Ninguém nunca mais vai rir de mim. Todos vão querer estar do meu lado. E eu vou estar sempre sorrindo. Porque em Nova York todo mundo está sempre sorrindo. Lá as leis são cumpridas e não existe corrupção. Não tem gente que fica reclamando e não faz nada. Que só critica. Eles respeitam os artistas e pagam bem eles. Quando estiver em Nova York vou passear no Central Park com meu cachorro, usando cachecol e aquecedor de ouvido por cima da toca. Vou para Nova York de avião, com passagem só de ida. Não quero me despedir de ninguém. Não vou levar nem malas. Nunca vou sentir falta daqui. Lá eu vou ter muitos amigos. Nós vamos andar de táxi amarelo na quinta avenida e comprar na Louis Vuitton. Não existem problemas em Nova York, só soluções. O nome das ruas são números e os semáforos ficam pendurados em fios. Tudo em Nova York é bem pensado. Nada é feito de qualquer jeito. Tudo é diferente. Em Nova York eu vou ser alguém.

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Mosca morta em movimento linear uniforme [conto]

Imagem | Antimidia

Imagem | Antimidia

Droga. Minha vida continua. As marcas na cara dizem que alguém tentou dar cabo dela ontem a noite. As dores no corpo gritam que tento fazer isso faz tempo, e nem isso eu consigo. Mas ao menos cada dia estou mais perto. O sangue no vômito é uma prova incontestável. Não consigo achar motivos para sair da cama. Se eu fosse o Iggy Pop todos os meus problemas estariam resolvidos, mas eu não sou. Então vou ter que continuar enfiando a mão na merda até tirar alguma coisa que salve a minha vida dessa desgraça miserável, ou ela acabe. Será que eu precisaria viver se não tivesse contas para pagar? Vou fazer um café para ver se encontro alguma coragem para encarar o mundo lá fora sem ter um surto de loucura e desespero. Ainda há cigarros, então há esperança. Tem um pedaço de queijo na geladeira, não contava com isso. Sinto a mão de Deus aqui.

Rumo para o bar do Jaime como um rato condicionado num estudo de Skinner. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, mas eu sei quem foi B. F. Skinner e o que ele fazia nos verões passados com as suas cobaias. Não sei onde a filha do Jaime passa as tardes, mas ela nunca está por aqui. Ele não consegue disfarçar todo o desprezo por mim e o resto da humanidade. Coloquei uma nota de dez no balcão e colhi uma garrafa de cerveja e uma dose de pinga. “Eu estive aqui ontem a noite?” O velho carrancudo franziu a sobrancelha e começou a suar. Entendi como um sim. “Preciso de trabalho. Você está sabendo de alguma coisa?” Ele pegou um pedaço de papel e escreveu um endereço.

O lugar era um armazém gigante ali perto. As portas estavam abertas, e um tipo Vic Vega andava de um lado para o outro com um copo de refrigerante numa mão e um cigarro na outra. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, mas eu também assisto aos filmes do Tarantino. “Quem te mandou aqui?” “O Jaime, do bar. Perguntei de trabalho e ele me deu seu endereço.” “E você aguenta o trabalho pesado?” “Se eu não aguentar você não me paga.” “Fechado. São cem mangos. Espera com o resto ali que o trabalho já está chegando.” “Tem um cigarro?” O cara ficou me olhando como seu eu tivesse falado qualquer coisa absurda, tipo, você chupa pinto? “Não.”

Fui me juntar aos outros. Fiz um sinal e o camarada com cara de marinheiro sem navio me deu um pouco de tabaco e um guardanapo de lanchonete. Éramos seis. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, mas eu sei que esse é um livro do Maria José Dupré adaptado para a televisão e o cinema, mas não tem nada a ver com o contexto aqui. Sei o que é contexto também. E estamos falando só de seis pessoas que não falavam nada, e a maioria preferia ficar olhando para baixo a maior parte do tempo.

Três caminhões refrigerados entraram no depósito ao mesmo tempo que o metido a chefe que não era chefe de porra nenhuma gritou: “Vamos cambada de vagabundos. Chegou o trabalho.” Eles abriram as portas e entre as carcaças mortas e penduradas por um gancho havia caixas com sabe-se lá o que. “Vamos seus preguiçosos, todas as caixas para fora. Rápido.” Alguém tirou um par de tábuas de madeira de não sei da onde e fez uma rampa no primeiro caminhão. Cada caixa devia pesar uma duas toneladas. Ok, não eram duas toneladas, foi só uma ironia. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, mas eu sei usar figuras de linguagem.

Tinha um moleque tosco que queria provar alguma coisa para não se sabe quem. Enquanto todos os outros vagabundos fodidos descarregavam uma caixa ele descarregava duas. Quando começamos o segundo caminhão tinha a sensação de que não ia conseguir chegar até o fim daquela empreitada. O Vic Vega apareceu na frente da rampa e gritou para mim: “Ei, estorvo, se não aguentar eu não pago, lembra?” Os tiros começaram enquanto ele ria. Um o acertou em algum lugar e ele caiu. Me escondi no fundo do caminhão e só escutava gritos, tiros e o estalar dos metais. De repente o caminhão começou a se mexer, saiu do galpão e acelerou sem dó pela rua.

Me sentia como o Eddie Murphy nas primeiras cenas de Um tira da pesada I. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, e ter desperdiçado a adolescência assistindo Sessão da Tarde, mas e daí caralho? O caminhão parou me lançando para o chão e o fundo do baú simultaneamente, confirmando violentamente todas as leis de Newton. Foda-se se eu sei ou não as três malditas leis de Newton. Sai correndo e pulei no meio do trânsito. Era um semáforo. Escutei a porta da cabine do caminhão abrir e um grito de “Ei!” e corri como nunca meio abaixado até conseguir virar a esquina. Me certifiquei de que não estava sendo seguido e percebi que estava todo cagado e mijado. As pessoas desviavam de mim e eu tremia como uma máquina de lavar roupas velha. Fui para casa antes que alguém me oferecesse ajuda.

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