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conto da noiteO Conto da Noite
Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

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ele

 

Ah ele é incrível, ele é tipo o aquele ventinho no final da tarde, de primavera, aquela sensação de bom com ruim, sabe? aquele que te da uma infinidade de motivos para não desistir dele, ele, é tudo aquilo que eu desejo no finalzinho do dia, aqueles segundos antes de dormi, sabe? ele me fez querer, conhecer cada curva daquele corpo, todo sem jeito, ele me fez querer conhecer a vida toda dele, só com um sorriso, ele tem um dom de me fazer lembrar dele sem parar, e aquela desculpa boba que o dia tem 24 horas, pois eu desconheço, passo 24 horas seguidas pensando nele, e quando estou dormindo, estou com ele no meu sonho, ele é uma perdição em forma de gente, ele, me deixou louco em menos de um ano, obrigado ele, ah com eu te agradeço, pelas musicas que eu conheci, em forma de compartilhamento de musica na tua rede social, e ele nem sabe disso, criei uma vida, pra viver contigo feliz, pois nosso mundo não nos permite isso, hoje eu não te vejo mais, hoje eu te sinto, hoje eu te vejo, como o meu “ele”.

Publicado por fred em: Agenda | Tags: , ,
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A Princesa do Castelo…

Era uma vez num castelo encantado, uma princesa. Uma princesa suja, maltrapilha e descuidada. Ah, e ela era preguiçosa, vale dizer. A danada da princesa era d´uma preguiça espantosa, preguiça essa que impressionava até os criados de seu pai, minúsculos duendes verdes que dia sim, dia não, fingiam fazer qualquer coisa – como trabalhar – para não serem despedidos. Afinal, eles gostavam de viver no castelo encantado.

A princesa era de tamanha preguiça que nem de seu quarto saía. Nunca era vista pelos corredores do castelo, zanzando e cantando com um vestido turquesa longo a flutuar no ar, como todas as princesas deveriam se portar. Nunca era vista fora de seus aposentos por ninguém.

Seu pai – o rei – fora um homem justo e honrado e nunca exigiu demais dos seus súditos. Exigia sim, aquilo que lhe era dado por direito. E ela devia isso a ele. Aprendera com ele, sabia o quanto lhe era permitido aceitar. Ou tomar, em tempos de guerra. Afora isso, era um rei calmo e cordial. Ela era uma princesa calma e cordial. A família toda era. Bem relaxados, sem essas crises que acometem os monarcas. Como limpeza, por exemplo.

O castelo era uma zona. Em todo canto viam-se sujeiras. Migalhas e farelos, restos deflagrados de comida eram fáceis de achar no chão da cozinha, no chão do refeitório e inclusive nos chãos dos quartos. Insetos disputavam os restos com pequenos roedores. Nunca se entendiam. A umidade impregnava tudo. A poeira que se juntava sobre os objetos acabava por se transformar numa pasta marrom de péssimo cheiro chamada lama. E essa lama tomava conta de absolutamente tudo no castelo. O que não era possuído por essa lama, era inexplicavelmente negro. Como se uma grossa camada de fuligem houvesse coberto tudo. Como se nunca tivessem tido outra cor. Não importava se era uma cama de feno de algum dos duendes ou se a mobília em mogno branco que a rainha usava para pentear os cabelos perante um espelho. Um espelho que já nem refletia mais, tamanha sujeira e gordura tinham se acumulado em seus longos anos de existência. Ocasionais tecidos rasgados eram vistos tremeluzindo no jardim. Sempre os mesmos, a mesmíssima bandeira. Sempre da mesma cor, sempre o mesmo estandarte, no mesmo lugar: A morsa azul, com suas presas pontiagudas e suas nadadeiras batendo no carvalho alto onde estava pendurada.

Certo dia, os moradores de um vilarejo nas proximidades resolveram fazer uma rebelião. Não agüentavam mais ter um rei. Não precisavam de um. O que um rei fazia por eles, exceto roubar-lhes a comida, a lã e o dinheiro pelo qual trabalhavam árduamente todo dia? Pelo qual plantavam e colhiam, não importando a estação. Pelo qual morriam e matavam, não importando a ameaça. Essas coisas lhes eram mais importantes. Um rei não precisava delas. Essas pessoas precisavam mais. Eram detentoras do direito de tê-las, elas a haviam criado e cultivado. A fabricado. Por quê continuariam depositando seus bens mais preciosos toda a volta da lua em frente a porta do castelo? A monarquia era coisa do passado. Ouviram boatos de que haviam lugares onde ela já fora aniquilada. Lugares onde não existiam mais reis, rainhas, princesas. Imaginem só, um lugar livre. Um lugar sem essa gama de prepotentes se apoiando docilmente em cima de nomes e berços. Cavaleiro disso, arcebispo daquilo, essas baboseiras de nomes infantis para ilustrar um lugar de prestígio na corte.

Iriam tomar o castelo e espetar a cabeça do rei numa vara, como um aviso, isso só para começar. Iriam pendurar bem na entrada, para que rei algum pensasse em chegar perto deles e daquele castelo novamente. Iriam arrancar os cabelos da princesa, cada fio, um a um. Depois a estuprariam, antes de enforcá-la. Iriam atear fogo na rainha, colada no trono. Que cada pedaço de metal inútil se unisse a essa porca gorda, queimando a pele e adentrando-lhe os poros, fundindo-lhe os ossos ao metal, um por um, um de cada vez. E qualquer outro morador do castelo iria morrer, não importava se era plebeu ou da corte. Quem é conivente com o pecado, é pecador. Quem trabalha para rei, será tratado como um.

Invadiram o castelo naquela mesma noite, sorrateiramente, sem fazer barulho. Aproveitaram a penumbra e avançaram por uma escada de madeira que haviam construído para esse fim. Eram em doze, sem contar as crianças que carregavam as adagas, espadas e tridentes. Subiram até uma janela do quinto andar da torre média, entraram e derrubaram a escada. Não queriam que algum guarda visse a escada alí e alertasse os outros. Chegaram a uma sala, atentos e com as armas em mãos, todos tentando prender a respiração, tentando escutar alguma coisa. Ocasionalmente um “xiu” era emitido por algum deles, tentando calar o mais próximo.

– Ouve alguma coisa?
– Porra nenhuma. E tu?
– Nada. Devem estar todos dormindo, já é tarde.
– Que fazemos? Matamos todos na cama?
– Não é covardia da nossa parte assim?
– É sim. Mas eu não me importo. E você?
– Eu não.
– Pensando bem, eu me importo sim. Vamos ficar aqui e esperar algum barulho, alguma coisa que indique que alguém acordou. Aí a gente ataca. Todo mundo de acordo?
– Sim!
– Sim!
– Sim!
– Xiu!
– Xiu nada! Acho que ouvi alguma coisa.
– O quê? Eu não ouvi nada.
– Nem eu.
– Eu também não.
– Tá, sinceramente nem eu. Comi um risoto de cogumelo no jantar, devo estar tendo alguma alucinação auditiva. Ou foi o vento, deixa pra lá.
– Certo. Mas fiquem em alerta, primeiro barulho e nós atacamos.

E assim ficaram até o amanhecer, esperando. Esperaram até a hora do almoço, e nada. Chegou o entardecer, trazendo seu sol alaranjado e sombras esmaecidas. Nada. Nenhum barulho foi ouvido.

Alguns se impacientaram. Caminharam os dez metros que os separavam da única porta do recinto e, fazendo o mínimo barulho possível tentaram abri-la. Era uma porta pesada de aço, com diversos trincos e entalhes adornando a superfície lisa. Os outros prenderam a respiração, a ansiedade apitando a cada passo, a cada guincho, a cada poeira levantada pelo movimento dos homens na porta. Mas a porta não se abriu com facilidade. Sequer se mexeu.

Para encurtar a história, nunca se abriu. Estava bem trancada e era muito resistente. Os aldeões todos faleceram alí mesmo, vítimas da própria burrada. Derrubar a escada, o único meio de sair dalí com os ossos intactos, quem foi o gênio que pensou nisso? Descobriram logo quem foi o idealizador dessa idéia e espancaram-no com socos e pontapés, tentando aplacar a própria fúria. Foi o primeiro a morrer. As crianças faleceram algumas horas depois, vitimas de desidratação e tédio. O frio, a umidade, a ausência de comida tomou conta do resto. O último sobrevivente, já meio fora de si por conta daquele cheiro nauseabundo e acre e dominado pela loucura, defenestrou-se pela janela gritando “gerônimo!”, acabando espetado numa muda de pinheiro em crescimento a um metro e meio do chão, sem conseguir se mover, pingando sangue na terra dura, gota a gota. Sofreu um choque hipovolêmico e faleceu poucas horas antes de ser encontrado por Bob, um camponês do outro vilarejo que vinha verificar se os aldeões do vilarejo vizinho haviam por acaso deixado as oferendas na porta do castelo, caso já fosse época da troca da lua. Como eram estúpidos, aqueles aldeões, pensava Bob. Acreditavam que ainda existia um rei para se pagar, um rei a quem responder. Que duendes trabalhavam alí. Os mesmos duendes que já haviam sido extintos há milênios de anos, por gente como eles. Que o castelo era encantado. Encantado pelo quê? Encantado para quê? Que havia alguém naquele castelo, exceto insetos. Todos alí já haviam morrido a centenas de anos no mínimo, inclusive a princesa, caso um dia houvesse existido uma. Era só ver a sujeira e o musgo se depositando nas pedras para verificar que ninguém nem ia alí, nem chegava perto. Ninguém vivia em castelos há anos, ninguém dava a mínima para eles. Eram grandes demais, davam muito trabalho limpar. Pois bem, aldeões burros. Se queriam desperdiçar comida, lã e dinheiro era problema deles. Mas que não ficassem chateados se outra pessoa que não o rei em pessoa viesse buscar os agradinhos. Sua vila ficava feliz com os presentes. Sempre ficava.

Moral da história: Planejamento e verificação. Planeje qualquer ato, qualquer situação e verifique qualquer possibilidade. Não é lá uma moral muito cívica e digna, mas tampouco a história acima o é. Mas é a única que eu posso oferecer esta noite…

Publicado por jozsadavid em: Agenda | Tags: , , , , , , , , , ,
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Um dia para cair no esquecimento

Acordei com dores de todas as formas físicas e psicológicas conhecidas. Ninguém me ama, nem eu. Estou pronto para morrer. Estou pronto há décadas. Por favor Senhor, perdoe minha covardia e acabe com isso. Se as dores no peito não são um sinal claro do fim, o que vai ser? Não sei porque corpo e mente insistem nessa tortura. Parece que centenas de micro aranhas estão arranhando minha garganta e um bando de duendes do inferno estão martelando a minha cabeça. O que mais eu botei para dentro além de bebida? A culpa é dassa porra!

Liguei o rádio e um cronista tosco estava falando alguma coisa sobre viciados em drogas. “Estas pessoas precisam entender que elas não estão aptas a viver em sociedade porque elas não produzem…”. Sempre que escuto coisas assim culpo a comunicação pelos caos social. É muita voz para pouca ideia. Coloquei um K7 velho do Led Zeppelin para tocar e fui para cozinha empurrado pela queimação no estômago.

?“In my time of dying, want nobody to mourn;

All I want for you to do is take my body home;

Well, well, well, so I can die easy;

Well, well, well, so I can die easy….”?

Era disso que eu precisava!

Abri a geladeira e me deparei com um queijo velho, leite e um pouco de margarina. Pus o leite no fogo junto com a margarina. O queijo ganhou mais um tempo para juntar mofo. Acendi um baseado e fiquei olhando a margarina derreter e se espalhar pelo leite, depois formar uma deliciosa espuma de gordura com a nata pronta para transbordar felicidade para Gregors por todo fogão. Quando começou a subir na panela desliguei e coloquei numa xícara que tava meio limpa em cima da pia. Me sentia como um americano sentado na cozinha tomando leite com margarina, fumando um cigarro e lendo o jornal.

Trim, trim, trim…..parei de ler e fiquei esperando a secretária eletrônica atender. Sempre me assusto quando o telefone toca. Ninguém nunca me ligou para conversar ou dar boas notícias. “Piiiii………Oi…bom dia…..nós não nos conhecemos……meu nome é Miguel…….sou coordenador do curso de letras na faculdade………….queríamos te convidar para recitar seus poemas……..no nosso próximo Congresso……..meu número é 2 4 5 3 0 4 2……..bem……obrigado.”

É sempre bom saber que se tem para onde correr, mas estou querendo ficar parado no momento. Não lendo o jornal. Passando o olho numa notícia sobre os caminhos para se acabar com a pobreza ficou claro que eu e o resto da humanidade não estávamos vivendo no mesmo planeta.

Virei o K7 e sentei na companhia de um livro de contos do Bukowski. Nós sim estávamos vivendo no mesmo planeta. Entre “Atirei num cara lá em Reno” e “Kid foguete no matadouro” cai no sono dos campeões.

Foram pouco mais de uma hora sem sentir nenhuma das dores da vida. Levantei pensando que precisava de alguma coisa para acompanhar o queijo que tinha sobrado na geladeira, além de cigarro e bebida. Não ia ter como fugir de pisar na rua.

Tomei um banho e fiz tudo que podia para não se parecer com o que eu era. Ser eu sempre torna tudo mais difícil. Ninguém gosta de pessoas como eu. Não consigo disfarçar muito bem que acho que tudo é ruim, que os outros são chatos e os lugares que não são minha casa também não são legais.

Bolei mais um baseado para conseguir suportar a pressão dos olhares na rua e sai rumo ao mercado. As vezes é estranho ver as um exército de carne humana fazendo coisas cotidianas como robôs pré-programados. Levantar cedo, ir na escola/trabalho, almoçar assistindo TV, jantar assistindo TV, dormir assistindo TV. Na maioria do tempo isso não faz o menor sentido. A ideia de viver num mundo onde isso não é o padrão me agrada mais que o atual cenário. Tenho visões em que me vejo tendo impulsos repentinos de gritando desesperadamente que todos parem tudo. Depois caio no chão me retorcendo como plástico pegando fogo. Nem sempre é fácil manter o controle. Não é que não gosto das pessoas, mas prefiro elas longe de mim.

No caminho ainda tive a oportunidade de testemunhar um acidente de trânsito. O carro do direita parou para o que vinha no sentido oposto, na esquerda, atravessar a pista e entrar na rua transversal. O carro que vinha atrás não quis ser tão gentil, e na tentativa de desviar do outro que parou encheu a lateral do que vinha da esquerda. Pensei que a brutalidade do outro transformou a gentileza do um em estupidez, e ainda bem que eu não estava em nenhum carro.

Cheguei no mercado preparado para ser direto e letal. Entrar, comprar o que tinha que ser comprado e sair em cinco minutos, sem precisar falar com ninguém de preferência. Peguei leite, margarina, banana, mais queijo, pão e umas garrafinhas de suco de cevada. Respondi cinco “nãos” para a mocinha do caixa e pedi dois maços de cigarro. Voltei para casa sem precisar usar muito mais que monossílabos para me comunicar. Considerei uma saída de grande sucesso. Me sentia tão feliz e pronto para encarar a vida que o fardo de estar vivo parecia quase como um presente divino.

Ajeitei tudo na cozinha e fui me preparar. Era terça-feira, um bom dia para ir ao bar. Vazio e silencioso. Sem jogo de futebol, sem hormônios desesperados por uma metida, sem papo, sem calor humano. O verdadeiro paraíso. Não há dor que o álcool não possa curar nem tempo que ela não possa preencher. Só precisava de mais um baseado e de escutar o outro lado do K7 do Led que dormi no meio. Não se tinha alguma coisa haver com o alinhamento de Plutão com a Lua, mas o dia estava favorável e nada seria capaz de me deter, mas a campainha tocou seguida do gruindo: carteeeeeeeeiro”. Olhei e vi um envelope sendo arremessado por debaixo da porta. Era o Ministério da Guerra que estava cobrando minhas contribuições atrasadas, e elas não querem receber em poemas contemporâneos realistas marginais, tem que ser em dinheiro. Isso ou uma bala no peito atirada por um extremista qualquer num ponto remoto do mapa. Que merda! Peguei o telefone e liguei para o cretino do recital.

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Reunião Amarela

Ipê amarelo

Gabriele checou as horas pela terceira vez em seu relógio de ouro – comprado por ela em seu último aniversário. A cada minuto se lembrava de que não podia perder a próxima reunião, na qual havia trabalhado dia e noite, sem parar, pelas últimas três semanas. Ao perceber que a apresentação em curso chegara ao último slide ela se levanta, agradece ao gerente que terminara de falar, pede desculpas e avisa que já está atrasada para outro compromisso. Ainda de pé, pega a bolsa que estava depositada na poltrona ao lado, a coloca em seu ombro e sai em direção ao elevador. Mal chega à frente do elevador e já é surpreendida pelo celular vibrando. Ao olhar no visor percebe que a ligação é de Júlio, diretor-presidente da subsidiária da empresa em Brasília, poucos segundos após atender confirma que tudo está preparado e que já está a caminho do restaurante combinado.

Tão logo ela pressiona o botão do elevador, indicando que vai descer, a porta se abre relevando um compartimento completamente espelhado, com piso em mármore Travertino Perlato na cor bege claro, preenchido com formas irregulares que dão vida a peça. Entrando no elevador sinaliza que irá até o 1º subsolo, reservado a diretores, vice-presidentes e o presidente da empresa. Ainda com o celular em mãos, continua respondendo as inúmeras mensagens que recebe dos gerentes da empresa.

O elevador chega até o andar desejado. Ela sai, descendo pelos quatro degraus na escada a sua frente, vira à direita e já consegue vislumbrar seu carro. Pressionando o controle para destravar o veículo ouve o bit, indicando que seu importado está aberto. Logo que se acomoda nos bancos escuros de couro, fecha a porta, dando a partida no carro. Em poucos segundos deixa a garagem subterrânea, seguindo pela avenida tomada por carros, em mais um dia ensolarado da primavera.

Agora é ela quem pega o celular e liga para Paulo, seu gerente de confiança, confirmando se tudo está perfeito para a reunião de logo mais: questiona se a reserva está confirmada, se o maitre foi avisado sobre a preferência dos vinhos e queijos de seus convidados e se a apresentação foi encaminhada ao restaurante. Tomando o cuidado de nada passar despercebido. Negócios como aquele eram difíceis de serem arranjados e nada poderia dar errado.
Ao virar a esquerda na rua principal ela se depara com o semáforo mudando do verde para o amarelo, indicando que fechará em pouco tempo. Ao visualizar a hora no relógio do painel do carro percebe que o horário marcado já está se aproximando. Reclama pelo tempo perdido no sinal, questionando qual a serventia daquilo, além de atrasar reuniões e causar um acúmulo maior de carros numa das pistas mais movimentadas da cidade.

Agora parada no sinal, sente-se como se o tempo voasse, fazendo-a se atrasar cada vez mais a cada longo segundo marcado pelo relógio.

Ao olhar para sua esquerda, Gabriele nota uma árvore. Hipnotizante sem nenhum motivo em especial, além da mais pura forma de beleza que a natureza tem a oferecer.

O amarelo vivo da árvore fazia com que o olhar de Gabriele não se desviasse do Ipê amarelo por nenhuma fração de segundo. Os vários galhos retorcidos eram revestidos por flores, tão belas quanto o mais espontâneo sorriso de um recém-nascido. Sem perceber, ela mergulha em lembranças, há muito não vividas de sua infância com a família. Recordando das tardes de piquenique que sua mãe fazia questão de organizar para ela e os irmãos. Os três se fartavam com os bolos, tortas e biscoitos cuidadosamente preparados à mão. O suco feito pela mãe, o preferido do irmão mais novo, vinha da laranjeira plantada no quintal, que servia, ainda, de sustentação para um velho balanço. Os três brincavam diariamente de esconde-esconde, utilizando a árvore como esconderijo predileto.

Gabriele, imersa em meio a lembranças do passado, não percebe as inúmeras mensagens recebidas, nem mesmo as duas ligações perdidas.
Com um olhar distante, recorda, com uma leve pontada em seu peito, que várias eram as oportunidades em que sua mãe se juntava a eles em meio as brincadeiras. Uma das preferidas era quando, deitados na grama, ficavam contemplando as nuvens, imaginando toda sorte de figuras. De gatos, elefantes e pássaros a anjos e carros. Aquele momento se seguia por horas. O primeiro que reconhecesse uma figura, em meio ao mar de nuvens em movimento no céu, a mostrava para os outros. Ao final, quem tivesse visto o maior número de figuras vencia. Curiosamente não conseguia se recordar de sua mãe vencendo nenhuma das vezes. Se perguntando se ela não os deixava ganhar.

Gabriele tem sua atenção tomada pelas flores tremeluzentes, que se moviam em direções imprevisíveis, onde cada uma delas era a dançarina principal do seu próprio ballet. Uma das flores é levada pelo vento, deslizando lentamente pelo ar até se juntar ao tapete completamente amarelo, que rodeava a base da árvore, como o véu de uma noiva ajoelhada ao altar.

Despertando do transe ao som estridente da buzina que vinha do carro atrás dela, percebe que seus olhos estão inundados por lágrimas de saudade, desejo e inocência. Resultado de suas mais belas memórias, que, por conta da rotina frenética de sua vida profissional, não eram visitadas. Novamente o som nervoso da buzina chama sua atenção. Ao fitar o motorista, visivelmente irritado, o vê gesticulando com a mão para fora do veículo e proferindo palavras que não devem ser mencionadas. Há dois segundos, o sinal havia mudado para a cor verde, sinalizando que os carros estavam livres para continuar seguindo seus trajetos. Gabriele seca, com a ponta do dedo, uma lágrima solitária que desce lentamente pelo canto do olho direito. Soltando o ar numa lenta e profunda expiração, ela acelera o carro e segue seu caminho rumo ao compromisso completamente esquecido pelos últimos segundos…

Publicado por BrunoBonfim em: Agenda | Tags: , , , ,
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Leilão – Parte 1

…dou-lhe duas, dou-lhe três, veeendido!!

Lívia fica eufórica por ter vencido a disputa daquele item repentinamente tão desejado. No fim, teria que desistir se sua concorrente desse apenas mais um lance.

Ao som da terceira batida, indicando a venda da última peça, ela se dirige à área administrativa. Passando por obras dos mais variados tipos, épocas, tamanhos e cores. Algumas reconhecidas pela crítica; de valor artístico inestimável. Nenhuma delas lhe roubava a atenção. Pensando unicamente no objeto adquirido há pouco.

Ao saber que a entrega seria realizada somente no próximo sábado sentiu uma mistura de entusiasmo e decepção. Teria que esperar 3 longos dias para tê-lo em suas mãos.

Saindo dali, dirigiu-se à faculdade, onde cursava o 6º semestre de História. Naquela noite, a descontraída aula de História Medieval parecia completamente sem sentido, cansativa e maçante. Tendo sempre um comentário sobre qualquer que fosse o assunto tratado. Naquela noite, porém, privou a turma de seus mais interessantes pontos de vista sobre o tema da noite – As monarquias medievais: França e Inglaterra.

A imagem da mais nova aquisição visitava sua mente, roubando sua atenção a todo instante.

Ângela, sua amiga e vizinha, percebe que ela não se dá conta de que o professor havia feito uma pergunta sobre o que era debatido. Tentando alertá-la, tece rapidamente comentários em voz alta, dando a deixa para que Lívia completasse a resposta.

No carro, a caminho de casa, agradeceu a amiga dizendo que não conseguiu prestar atenção a nenhuma das aulas daquela noite.

Parada, poucos passos após ter-se despedido da amiga, ela ouve a porta sendo arranhada. Ao abri-la dá de cara com bonaparte, abanando o rabo num ritmo alucinante. Ao adentrar, é imediatamente recepcionada com latidos, pulos e lambidas de seu mais antigo companheiro.

Passando pela sala – decorada com um sofá de dois lugares, um rack de metal que sustentava uma velha TV e uma poltrona -, cruza o estreito corredor que de um lado dava acesso à cozinha e do outro ao banheiro social, ela chega a sua suíte. O quarto contava com alguns livros, espalhados sobre uma pequena mesa de estudos ao lado da entrada. Posicionado ao lado da cama de casal, o criado mudo amarelo era decorado pelo pequeno abajur. As leves camadas da cortina branca dançavam, seguindo o ritmo da corrente de ar que adentrava pela janela entreaberta.

Bonaparte estava deitado, admirando sua dona, enquanto ela se preparava para tomar banho. Automaticamente ela se despe, jogando as roupas no cesto abaixo da bancada. A fumaça produzida pela ducha inundava todo o ambiente, embaçando teto, paredes e espelho com uma fina camada de vapor.

Saindo do box, enrola uma toalha de rosto nos cabelos, vestindo seu roupão aveludado. Diante da bancada decorada por todo tipo de batons, sombras, pincéis e escovas Lívia contemplava seu semblante após um longo e cansativo dia. Seu olhar fatigado mirou o moderno secador de cabelos, que ocupava um dos cantos da superfície. Balançando negativamente a cabeça desiste de secar os cabelos dirigindo-se à cama para um merecido descanso.

A luz acesa do abajur revelava a intenção de ler mais algumas páginas do livro indicado por um de seus professores. Depois de 5 páginas perde a concentração. A mão que acariciava seu cão fica imóvel. Seus olhos vão ficando mais e mais pesados, até que cada pálpebra pese tanto quanto seu exemplar de Os Pilares da Terra. Sem avisar cai no sono, sendo vigiada pelo fiel amigo.

Os próximos dias seguiram normalmente: de casa para o trabalho, de lá para a faculdade e depois para casa novamente para um pouco de leitura, televisão e brincadeiras com bonaparte. A rotina só foi quebrada na sexta-feira: noite de explorar novos pubs na companhia da amiga, bater papo com outras pessoas e quem sabe conhecer algum cara mais interessante.

Sábado, o dia mais esperado da semana havia chegado. No início da tarde o interfone rompe o silêncio do ambiente, indicando a chegada dos entregadores.

Eufórica Lívia autoriza a subida dos homens; aguardando, ansiosamente, ao lado de fora da porta, até que o sinal do elevador avise que enfim chegaram ao destino correto. Rapidamente ela abre espaço indicando onde o objeto deve ser colocado.

Acompanhando de perto toda a movimentação dos funcionários da casa de leilões. 30 minutos mais tarde, o trabalho estava concluído.

Despedindo-se deles, fecha a porta – esquecendo-se até mesmo de trancá-la – e se dirige para contemplar os detalhes daquele item.

Publicado por BrunoBonfim em: Agenda | Tags: , , , ,

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