Parte 1 / Parte 2
02 de abril de 2011, Khost, leste do Afeganistão
Os helicópteros pousaram na base militar. Nós descemos e tiramos os equipamentos. Era noite e nos dirigimos aos refeitórios. O que meu pai pensaria se me visse ali? Deserdou-me quando entrei para a marinha, qual seria sua reação se soubesse que não me contentei apenas com isso e tornei-me membro da tropa de elite do exército americano? E, não qualquer pelotão de elite, mas parte de uma das forças mais mortíferas do mundo! Um soldado dos SEALs. Agindo em solo muçulmano. Acho que o velho teria um infarto, ou ele mesmo me mataria.
Sentei ao redor de uma mesa com Smith, Jhonson e Fred. Meus únicos amigos. Nos conhecemos no Hell Week, a Semana Infernal, o terrível treinamento que passa todo aspirante a SEAL, e desde então, sempre estivemos juntos. Por sorte ficamos na mesma divisão participando juntos de várias missões. Fred era meu parceiro de ação durante as ações, nós dois tínhamos o sobrenome Walker e costumávamos falar para todos que éramos irmãos. Smith foi o primeiro a quebrar o silêncio enquanto mordia um Big Mac, falou com a boca cheia:
— O que será que eles têm para nós dessa vez?
— Deve ser alguém importante — respondeu Jhon.
— Sempre é alguém importante, somos SEALs! — Exclamou Fred com o orgulho que nunca escondia de ninguém.
— Não sei se repararam, mas há agentes da CIA por todos os lados. Acredito que acharam um peixe grande e vão nos mandar para pescar.
— Então nós somos a vara? — Smith, como sempre fez mais uma pergunta idiota e nós disparamos a rir. Ele continuou olhando sem entender o motivo da graça. Jhon deu um tapa em sua nunca e falou:
— Somo os pescadores, seu otário!
— Eu nunca pesquei! — Smith gargalhou de uma piada que só ele percebera. Nem ligamos, já estávamos acostumados. Retomei o assunto:
— Só na entrada tinha cinco agentes reunidos. Quem será que vamos buscar?
— Que tal uma aposta? — Smith adorava apostar. Inclusive devia mais do que recebia.
— Eu topo — aceitando, Jhon já apresentou seu palpite: — Nós vamos pegar, Abu Ahmed, porta-voz do Bin Laden. — Refleti um momento, era um bom nome, pois diante da ineficácia das tentativas de encontrar Osama Bin Laden, ao que parece, a inteligência concentrava-se nas pessoas próximas ao líder máximo da Al-Qaeda para assim rastreá-lo. Smith cortou meu raciocínio:
— Pera aí, qual o valor de sua aposta? Não me venha com vinte dólares!
— Cinquenta dólares. — Respondeu Jhon. Smith também tirou uma nota e botou na mesa:
— Minhas fichas são em Mohammed! — O grandalhão sorriu.
— Vai se foder! — Bradou Jhon.
— O que foi? — Smith fingiu não entender, ou realmente não entendia.
— Quantas pessoas nesse fim de mundo se chamam Mohammed? Aposta direito seu merda ou então sai fora com suas trapaças! — Disse Fred.
— Então tá! Vou apostar em qualquer um desses filhos da puta. Afinal vou matar qualquer um independente de quem seja! — Ele ficou pensando por alguns segundos e finalmente escolheu: — Meus cinquenta conto vai no tal de Hassan Nasrallah!
Dessa vez foi eu que gargalhei e os outros me acompanharam. Smith não gostou nada, então falei.
— Idiota! Hassan Nasrallah é líder do Hezbollah.
— E o que é que tem?
— Estamos no Afeganistão! Acha que partiremos daqui direto para o Líbano? — Ele fez uma expressão de ódio e perguntou:
— Então qual sua aposta? Intelectual do inferno!
— Acho que vocês estão esquecendo que não somos qualquer tropa. Somos os SEAL’s 6! Somos fantasmas! Portanto, eu aposto que dessa vez pegaremos Ayman al-Zawahiri, o número dois. — Todos confirmaram com a cabeça e Jhon comentou:
— É uma boa aposta!
Realmente era. A unidade SEALs 6 é a principal e mais mortífera força dos EUA. Nem sequer existe oficialmente. Quando a marinha americana precisa de seus melhores homens, envia os SEALs. Quando os SEALs precisam de seus melhores homens, enviam o SEAL Team 6. Não temos passaportes, registros no seguro social, acho que nem a própria marinha tem nossos dados. Talvez meu nome nem seja Peter Walker… Somos soldados invisíveis e letais. E se fomos convocados, não enfrentaremos inimigos comuns. Por isso foi um ótimo palpite.
Depois de um tempo de reflexão, foi a vez de Fred falar:
— Eu aposto esses cinquenta dólares com a certeza de que dessa vez pegaremos Osama Bin Laden!
Todas as vezes antes das operações fazíamos esse tipo de aposta. E sempre Fred apostou em Osama Bin Laden. A história dele é trágica. Sua noiva era agente do Departamento de Defesa, e um mês antes do casamento morreu quando um avião guiado por terroristas chocou-se contra o Pentágono. Seu pai, um respeitado advogado, trabalhava em um escritório no WorldTrade Center e também morreu nos atentados de 11 de setembro de 2001. Foi o desejo de vingança que levou Fred aos Marines, que o fez se destacar e chegar aos SEALs. Mas, também que fez dele um dos agentes mais violentos que já passaram por essas fileiras. Seu sonho era matar Osama com as próprias mãos, claro que depois de uma longa sessão de tortura.
Ficamos conversando por algumas horas e depois fomos para o alojamento, pois pressentíamos que o próximo dia seria bastante puxado.
03 de abril de 2011, Khost, leste do Afeganistão
A rotina de uma base militar em um país inimigo não é algo animador, apesar de estarmos isolados do restante dos soldados que atuam na guerra, o clima ainda sim é pesado. Homens partem, homens não voltam. E quando isso tornar-se algo diário, o lugar fica sombrio.
Mesmo sendo cedo o sol já era forte e corríamos com o peso do equipamento nas costas e sob os gritos do comandante.
— Corram mais rápido são merdas, ou vou enfiar uma baioneta nos seus traseiros! — Gritou o Capitão. Eu puxava a dianteira e era um ótimo corredor, portanto, forcei ainda mais e todos tiveram que acompanhar. Passamos toda a manhã correndo, fazendo flexões e praticando tiro. No período da tarde fizemos simulações de combate, paraquedismo e descida de rapel dos helicópteros. A noite estávamos completamente esgotados, mas nada que já não estivéssemos acostumados.
— Puta que pariu! Os caras botaram pra fuder hoje! Não preciso disso, dei-me uma arma e esses desgraçados podem correr tanto quanto o Peter que estraçalho suas nucas! — Smith era o maior de nós e o mais preguiçoso e sendo um atirador de elite, sempre falava que não precisava passar por aquilo.
— Quando você vai deixar de ser uma puta chorona? — Ele já comia uma coxa de frango e nem ligou para o insulto de Jhon.
— Pelo treinamento de hoje acho que temos uma barra pesada pela frente. — falei e Fred concordou. Olhou para uma agente da CIA que passou por nós e sorriu:
— Não gosto desses desgraçados da CIA, mas abria uma exceção para essa aí. — e sorriu. Ficamos um tempo olhando para o rebolado da agente que percebeu nossos olhos e requebrou ainda mais. Smith que já tinha terminado de comer levantou-se:
— Cara eu não sei vocês, mas estou tão cansado quanto um recruta. Vou nessa! — Fred também levantou:
— Já que temos uma operação perigosa nos próximos dias essa pode ser a última chance de transar, portanto, vou ver se encontro aquela gracinha da CIA.
— Cuidado para não arrumar confusão, hein. — Alertei. Ele rui e saiu. Fred sempre arrumava confusão. Jhon levantou perguntando:
— Vai uma cerveja, Peter?
— Só se for agora.
Permanecemos mais uma hora no local e depois partimos. E confesso que já estava começando a ficar ansioso.