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conto da noiteO Conto da Noite
Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

>> Confira outros textos de Evandro Furtado

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* Se você é o autor deste texto, mas não é você quem aparece aqui...
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A Sereia, o Sátiro e Ninguém Capítulo II

Coral acordou na cama ao lado do Sátiro, o Mestre, único nome que ela sabia sobre ele, estava dormindo profundamente, seu peito se movia com a respiração ela observava fascinada, a noite anterior depois do beijo ambos tinham voltado para a casa, quando a chuva começou já tarde, eles já tinham jantado, conversaram, sorriram e acabaram na cama, ele tão selvagem e dominante quanto realmente parece, dormiram após horas…

Ela cansa destes pensamentos e se levanta da cama, sua pele, ardendo de leve, ela sabe muito bem porque, vai até o salão lá em baixo e mergulha em seu aquário, nadando, de olhos fechados, como se fosse uma dança hipnótica, um movimento circular ao redor, curtindo a sensação da água… Abre os olhos e Ninguém está olhando para ela…

Ninguém estava encantado pela jovem sereia, nunca imaginou ver alguém tão bonita por aqui, ele já vivia aqui a séculos, sabia que o Mestre sempre trouxera amantes para cá, mas nunca alguém tão linda… Ele olhava para ela dançando na água, hipnótica, bela, sua pele perfeita, parecendo uma pérola azulada, ele tinha visto os dois se beijarem, ele ouviu os dois se amarem, ele a desejava, pela primeira vez em séculos, ele desejava uma das amantes do mestre.

Quando ela percebe Ninguém os dois se olham nos olhos, ambos sentem a eletricidade, de algo no ar, ambos se acham interessante, ela sorri, ele sorri de volta e continua a varrer o chão, ele escuta o barulho da água, quando ela sai do tanque, escuta seu corpo pingando se aproximar, se vira e olha para cima.

– Posso ajudar Mestra Coral…

– Só Coral está bom… Você sempre já acorda trabalhando? – ela busca um lugar para se sentar e encontra um banquinho próximo, recolhe as pernas sentando sobre elas para não atrapalhar a limpeza do chão.

Ele sorri com a gentileza, ela não é como as outras, diz para si mesmo antes de responder.

– Sim, Ninguém sempre deixa a casa do Mestre em perfeito estado para ele trazer suas noivas…

No mesmo momento que diz isso ele se arrepende, por um momento ele pensa na punição do mestre, caso a sereia resolva ir embora por causa dele, mas depois vem o reconhecimento, de que ele precisava dizer por se importar com essa menina, por se importar com a Coral. Já que ela é tão gentil e parece mais delicada que as outras, talvez seja bom alguém que saiba como cuidar dela, ele diz para si mesmo.

– Noivas… – Ela repete meio que para si mesma, uma suave decepção passa por seus olhos, mas ela já deveria saber que sátiros não são de uma única mulher. Deveria?

Ele percebe sua confusão, ele percebe a decepção e até uma certa genuína tristeza, por um momento ele também se sente triste por ela, impensadamente, acaricia seus cabelos, ambos se olham mais uma vez e sorriem. Ela quem primeiro quebra o silêncio.

– Exceto trabalhar e ficar aqui sendo um enfeite, tem algo que podemos fazer nesta ilha.

A voz que responde não é de nem um dos dois, é a voz grave do mestre, inconfundível e irrepreensível.
– Pode ir na praia, nas pedras, pode caminhar, nadar, ver os pássaros ou o mar, só não acho que possa ir embora da ilha, sem me pedir para… – Ele sorri deixando no ar o que a última parte significa, usando a parte de cima de um sobretudo antigo, acinturado e uma cartola, parecendo uma roupa do século XVII, exceto, que sem calças, já que é um sátiro.
– Terei que sair agora, deixo a casa e MINHAS propriedades em suas mãos Ninguém… – A ênfase no minhas deixa bem claro o que ele pensa do que viu. – Leve a senhorita Coral para passear pela ilha por favor, assim que terminar seus afazeres… Com sua licença…
Dito isso ele se retira pela porta da frente, indo embora.

Os dois se olharam, o frio na barriga, se sentindo transgressores pelo que quase haviam feito, o mestre saiu e eles se sentiram aliviados, ambos os dois, sem motivo algum que não fosse o susto tomado, que não fosse o frio na barriga que se dispersou deram uma gargalhada, que fez ambos se sentirem mais leves, mais felizes, a risada acabou e antes que Ninguém ou Coral pensassem em tudo, ele segurou a mão dela e saíram pela porta.
– Vamos dar uma volta, vou te levar para a conhecer a ilha como o mestre mandou..

– Tah.

Sem nenhum problema ela saiu correndo atrás dele, de mãos dadas, só quando sentiu o sol na pele, lembrou que ainda estava de biquíni…

Os dois correm juntos pela parte aberta da ilha, Ninguém a vê sorrir e rir e lembra de nunca ter visto alguém tão cheia de vida, quase como se lembrasse alguém de uma passado distante, de séculos no passado. Ele a acompanha com os olhos enquanto apresenta a parte mais central da ilha, um grande jardim.

– Você sempre viveu aqui… – Ela mal sabe porque a pergunta, curiosidade talvez… Ou apenas para vencer o banal, ela sente curiosidade, pelos sentimentos que ele desperta, ela sorri.

– Sim, o Mestre me criou para cuidar da mansão, este é meu único propósito…

Ela sorri aceitando a explicação como uma possível verdade, ela olha para ele e sorri, sai andando de leve, se distanciando um pouco do duende, mal reparando o quanto assim como ela pensa sobre ele, ele também pensa nela e a segue com os olhos, olhos atentos a cada movimento, a cada detalhe.

Para ele ela é uma incógnita, diferente de qualquer noiva que o Mestre já teve, ele jamais pensaria em flertar com uma noiva do Mestre, isso seria terrível, mas ele não estava realmente flertando com ela. Ou estava? Olhando para ela agora, vendo ela encantada pelo jardim olhando os pássaros, ele percebe que sorriu, ela também percebe e sorri de volta.

Um sorriso doce um sorriso perfeito, um sorriso inesquecível, ele sente seu coração disparar, ambos se olham por um longo tempo apenas sorrindo, apenas achando impossível. Ele se pergunta se por ela ele teria coragem de enfrentar o mestre, se pergunta se por ela ele deixaria de ter uma casa, mas mais do que isso, ele se pergunta se ela faria o mesmo, quer dizer, poderia uma sereia se apaixonar por um duende? Existem histórias de ninfas e duendes, mas seriam reais?

Como se adivinhasse seu pensamento, Coral se aproximou dele, sorrindo, seu sorriso de pérolas, seu olhar do mar, ela sem perguntar nada, sem dizer nada, lhe deu um beijo no rosto, o qual foi carregado de calor, ela também não pretendia que fosse tanto, ela apenas se encantou pelo modo como ele lhe olhava.

– Vamos para as pedras, – ninguém disse isso baixo, sorrindo, com as bochechas vermelhas, para uma sereia sorridente, que fez que sim com a cabeça e lhe ofereceu a mão.

De mãos dadas eles foram, até as pedras na base da ilha, ele queria levá-la a praia, rever ela nadando maravilhosa, como havia visto no aquário, mas não poderia, isso significaria etrar na água sem permissão, sair da terra firme sem permissão, ambos chegaram nas pedras, conversnado sobre bobagens, pequenas bobagens, ela estava encantada com o tanto de coisas que tinham em comum.

Ao vê-la nas pedras, na luz do sol, Ninguém soube o que estava acontecendo com ele, por um leve momento, ele era “alguém”, alguém que amou, alguém que já havia sido humano, há séculos atrás, alguém que amou e perdeu, que foi burro demais para manter próximo, quem amou, ele começou a chorar.

– Não chora, – sem aviso, Coral disse olhando para ele, segurando seu queixo, com delicadeza os olhos nos olhos e um beijo na boca.

Um calafrio percorre o corpo de Ninguém, o mestre não ficará feliz, de forma alguma, mas Ninguém está feliz, Ninguém agora é alguém, alguém que tem amor.

– Como ousam com todo o abrigo que lhes dei…

O mestre surge, sua ira é como uma tempestade que se forma no mar, Coral tenta explicar, mas uma súbita tontura, a faz desmaiar, ela só consegue perguntar no que acontecerá com Ninguém, ao mesmo tempo que se sente culpada por tê-lo beijado.

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A Sereia, O Sátiro e Ninguém

A sereia o sátiro e ninguém

Ela se via sozinha fazia poucas horas, a briga com o namorado tinha sido um grande estopim, ele jamais a compreendeu totalmente e como poderia, como ele poderia sequer imaginar os seus sacrifícios, ela havia se libertado com ele, brigou com sua família, não tinha mais família, não tinha amigos, tudo para quê, para estar com ele, que agora a jogava fora, na rua, como se não fosse ninguém importante.
Ela chorou por um tempo, mas depois vencida pela fome foi para uma padaria, sorriu, desviando os olhos de quem olhava diretamente para ela, uns curiosos, alguns interessados, mas também haviam aqueles que obviamente não gostavam da presença dela ali.
Era uma jovem mulher de seus 18 anos, seu corpo magrinho enfiado em jeans azuis simples, uma camiseta branca folgada, seus cabelos em cachos escuros compridos e seu rosto delicado, sempre se pareceu com uma menina, talvez por isso tenha sido tão fácil seguir até aqui, se abrir para todos, mas obviamente nem todos viam esta mulher dentro de seu corpo atual.
Foi quando ela o viu, alto de cabelos negros como a noite e olhos negros, como poços sem fundo, onde você poderia se perder, ele tomava um café, usava jeans pretos, coturnos e uma blusa de gola alta… Sua primeira reação era pensar em quem em São Paulo usaria tal vestimenta, por ser uma cidade tão quente, mas tudo bem, ambos sorriram um para o outro e ele se aproximou.
– Você é muito bonitinha… – ela sorriu e corou, mas não conseguia desviar os olhos.- Tem certeza desse desejo intenso, esquecer completamente o passado, só se tornar uma mulher e desaparecer…
Como ele saberia, como ele poderia saber, quer dizer, sim, era eu iria fazer a cirurgia e mudar de nome e ninguém nunca mais me encontraria, por não ser mais a mesma pessoa, mas…
– Como… – calada com um dedo de forma suave, que se apoiou em seus lábios, olhando nos olhos um do outro um calafrio percorre pela sua espinha, subindo até gelar sua nuca.
– Apenas responda se é o que quer.
Ela sabia que era, não sabia o que estava acontecendo, mas sabia muito bem o que era, o que ela queria, o que abriria mão por isso, ela fez que sim com a cabeça, sentiu ficar zonza, vertigem a atingiu de repente, ela se vê caindo em um buraco enquanto ele ri lá em cima na borda.
***
Quando acordou a primeira coisa que percebeu é que estava embaixo d’água, mas o pânico foi momentâneo, porque não foi difícil perceber que realmente estava respirando na água… Ela olhou em volta, mas percebeu que se encontrava em um aquário, mas mais do que isso viu seu reflexo no espelho, mesmo sendo uma imagem difusa, ela parou para olhar, para ter certeza do que via acompanhava com as mãos.
Seu corpo agora era um corpo feminino, belos seios volumosos, um quadril largo, a barriga quase reta, seu rosto, suas bochechas, ela usava um biquíni, vinho como percebeu olhando para baixo, mas também percebeu sua pele suavemente azul, um azul clarinho, se assustou e viu suas mãos e pés, com membranas entre os dedos, ela era uma sereia… Assustada, subiu até o alto do aquário, pulou suas bordas e sentiu o frio do lado de fora sobre sua pele.
Viu um espelho e caminhou até ele… Seus olhos agora olhavam diretamente para o corpo belo, ela se virou para ver cada detalhe, brincos na forma de duas conchinhas estavam pendurados em suas orelhas, doloridas por terem sido furadas recentemente…
Mas seus dentes eram afiados, visivelmente perigosos, assim como suas mãos, com membranas, mas também com garras, seus pés eram pequeninos, mas uma nadadeira crescia ao redor deles, quando juntava os dois pés era uma calda de peixe, se abrindo para o lado de fora só o dedão ainda existia, todos os outros dedos haviam se unido, formando a pequena cauda que se abria como meia lança, formando a volta do pé. Ela estava linda é verdade, mas também assustadora e definitivamente não humana, um medo começou a nascer em seu coração.
– Enfim acordou… – A voz era completamente inesquecível, era ele, da padaria, daquele dia…
– Você… O que fez comigo…- Ela falou alto, quase sem controle se virando para ele, só para ver ele com as pernas de bode, chifres, enrolados ao redor de sua cabeça pelos lados e o torso de uma túnica vinho… Paralisada de boca aberta ficou olhando para ele sem saber o que dizer.
– O que foi nunca viu um sátiro. – ao dizer aquilo ele riu, seus dentes perfeitos, ele parecia alguma espécie de demônio enquanto ria e ria, ela estremeceu inteira, sentiu medo daquela risada, mas por fim, ela cedeu e começou a rir também, possivelmente sua mente cedia a loucura do que estava acontecendo.
Ele estendeu a mão para ela, oferecendo silenciosamente para ela conhecer sua morada, ela sorriu de mãos dadas com ele, ela saiu caminhando, devagar com calma, seus “novos pés” ainda precisavam se acostumar com seu novo formato, ao sair da sala, ele colocou sobre seus ombros uma capa leve, delicada de seda, que escondia seu corpo só de biquíni quase como um poncho mexicano.
Perguntas como porque eu, ou coisas assim eram silenciosamente ignoradas, ele apenas lhe mostrava os cômodos de sua mansão, do lado de fora um mar revolto, era uma ilha rochosa, com pouco espaço, então ele a leva para fora onde um jardineiro fazia seu trabalho ajeitando as roseiras, que formavam um verdadeiro muro ao redor da casa.
O jardineiro era um homem loiro, velho, curvado, um duende de orelhas pontudas, bem longas, magro, de olhos verdes, ele olhou para os dois que se aproximavam e parou por um momento olhando para a sereia, ela sentiu em seus olhos algo gostoso, algo quente, algo que ela não sabia identificar.
– Está pronto Mestre… – se afastando da roseira para mostrar o trabalho.
– Ótimo Ninguém, esta é Coral e ela é uma sereia que viverá conosco agora…
– Claro Mestre, – olhou para ela, causando um certo arrepio.- mestra Coral, vou me retirar agora… – ao chamá-la assim, algo em seu coração palpitou e ele foi embora deixando ela distraída.
– Ninguém é um servo leal… – o Sátiro sorriu vendo seu silêncio.- Algo há incomoda.
– Não, só é muito para entender… – sorri, olhando em seus olhos…
Os dois passam um curto tempo se encarando, o olhar intenso dos dois lados, ele com os olhos negros intensos e sem fundo que ela havia visto na padaria, ela agora com olhos verde-mar, tão intensos quanto, com uma selvageria que faria muitos recuarem ou se apaixonarem, por um curto momento os dois se encararam, suas mãos ainda uma na outra, ela fecha os olhos e ele a beija.
Coral não sabia de mais nada, nem lembrava de qual era seu real nome, agora era Coral, ela era amante do Sátiro na ilha do farol e tinham um servo chamado Ninguém, (isso talvez significasse algo), ela sentia que seja o que for que o futuro guardasse estava só começando, enquanto nuvens se formavam no horizonte.

>> Continua.

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Chumbo e Bala


Por: gu1le

Olá para todos! Boa tarde, boa noite, bom dia! O tempo tá bom, os ventos macios, o céu tá varrido, eu tô quentinha e, o rio ainda corre para o mar. Então, olá! Tudo de bom para os senhores e para as senhoras. Meu alô mando também, pros menino e pras menina menor. Enfim, pra todos que estão lendo minha história. Agora permitam-me apresentar-me.

Eu sou a bala na cabeça de Burt. É isto mesmo, eu sou a bala na cabeça de Burt. Imagino que você deve estar decepcionado pois, se eu sou a bala na cabeça de Burt; então Burt deve estar morto certo? É, pois é aí que você se engana! Pensa de novo.

Hellouuu? Eu disse que era a bala que atravessou a cabeça dele?
Não.

Eu disse que era a bala que explodiu a cabeça dele?
Também não.

E eu disse, que era a bala que ao atravessar a cabeça dele a explodiu em pedaços como uma abóbora podre e, foi cravar-se num muro rajado de sangue?
Na-nani-na-não. Também não, também não.

Eu lhe disse que tipo de bala era? Ene-á-ó-til, não.

E se eu fosse uma bala de Extasy? O que claro, não é o caso pois, eu sou uma legítima bala de chumbo. Estou te explicando estas coisas, para que você abra a mente para esta história, a minha história de como fui parar na cabeça de Burt.

Ele modificou minha trajectória neste mundo. Me deu um lugar pra morar. Ele é importante pra mim, sabe? E eu? Eu mudei a vida dele. Mudei a forma dele ver o mundo. Mudei o mundo pra ele. De dentro para fora, do jeito certo que tem que ser feito.

Eu e meu mano, estamos correndo juntos já faz um tempinho uns anos, quatro ou cinco anos. Eu me hospedo numa parte do cérebro que, para minha sorte é muito pouco usada por Burt, por isto, aqui tenho bastante espaço. Estou bem não se preocupe comigo que, estou bem. Até agora. Preciso apenas redecorar o ambiente aí estarei em casa. Qualquer coisa eu te mando um SMS e e-mail com as fotos em jpg do meu cafofo. Burt é alto, moreno claro, não tem barriga, é um feixe de músculos careca. Tem pouco cabelo, então raspa a cabeça. Um bom lugar pra se morar.

Mas voltando a vaca fria, tem umas paradas me incomodando mas, num é béeem comigo.

Veja:

Quem tem problemas grandes mesmo é Burt. E estou sabendo, que tem uma porrada de outras balas querendo entrar na cabeça de Burt. Não só na cabeça. Nas perna, nos pulmões, no estômago, coração, nos intestinos deste meu mano que, me deu um lugar tão aconchegante pra ficar. Eu tenho muitos amigos aquí. Não vou sair. Não pago aluguel, por que eu invadí, mas protegerei ele até o fim e, se algum dia alguém tiver de mata-lo; este alguém será eu.

Existem recordações que não se apagam. A gente revive ela, várias e várias vezes como agora. Enquanto eu conto para vocês, eu estou lá. Entende?

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Estamos, fugindo em desabalada carreira. Tá escuro. Aqui é um vasto matagal que rodeia um lixão que nunca viu dias melhores. Estou dando uma dor de cabeça média que mantém meu amigão ligado. Estou também pressionando de tabela, uma parte do cérebro de Burt que o enche de endorfinas e, o alucina ligeiramente dilatando suas pupilas, coisa fundamental neste momento pois, a escuridão é grande ao nosso redor mas, ele graças a minha pressão enxerga como se fosse dia. Estamos deixando nossos perseguidores a pé comendo poeira, mas não estamos rendendo muito em relação a caminhonete e os cachorros Pit-Bull.

Sebo nas canelas cara! Corre, corre, corre mais mano! Mais! Corre mais porrta! Vai seu porrta! Miserável! Corre se não eu mesmo te mato seu fila da pula! Vái morfético infiliz!

Encho ele de adrenalina movendo-me um décimo de milímetro.

Há uma erosão bem á frente uns duzentos metros. Eu sei que você pode ver. Tá escuro, mas você pode ver. Seis metros de largura mais ou menos. Você vai saltar sobre ela Burt. Ora, cale esta boca Burt! Você vai saltar sobre ela sim! Não me diga que não consegue se não, eu paraliso seu lado direito agora junto com o fígado. É Burt seus olhos vão saltar pra fora. É cara, será pior do que a morte. Pior do que aqueles caras vão fazer com a gente. Não me venha com esta conversa de medinho de fresco não. Mais uma vez tâmo quase fud graças à suas bestagens. Vai Burt! Não cara! Não é pra parar na beira do abismo e aí saltar. Olha, vai correndo, isto corre mais, salta com uma perna só no ultimo momento para cima, isto. Pra cima, não para frente, isto. Agora continua correndo que nem um retardado, enquanto estamos no ar. Isto mesmo, por que também caminhamos pelo ar (resistência mínima) e aí, quando você tocar solo, ou você perde o equilíbrio e cai rolando de lado ou, continuamos correndo.

O macio pasto barba-de-bode do outro lado, recebe os pés da gente. E conseguimos. Sartamo fora. Saímo di banda. Iúrrrú! By-by otários. Vemos as luzes de uma auto-estrada. Não devemos nos expor. Vamos à ela. Vamos caminhando ao lado dela, abaixo dela de preferência. Vamos pela vegetação que esconde os campos dos motoristas. Acharemos muitas coisas por lá eu sei.

Apesar de eu estar vestida de Burt, sinto-me miserável ao ver ele em farrapos. Vamos Burt, procure. A estrada sempre deixa presentes para os andarilhos que sabem enxergar. Uma mala com roupas ou, um tênis semi-novo…

Um único pé de salto alto agulha metálico, nos coloca novamente em confusão. Foi momento meu de distração e, meu brow depois de catar o salto, ver que não cabia no pé dele atira-o sobre os ombros. O salto, cai na auto-estrada acima da gente uns dois metros. Caminhamos uns cinco metros, aí ouvimos o som de pneu explodindo, freiada, colisão, metal rompendo-se. Ô manoooooo? Poooooo**a Burt?!

What a Fuck?

Seu desmiolado!

De novo?

Já tava difícil. Agora, lascou de vez.

Ouvimos o ronco alucinado de um motor em giro total sem atrito e, primeiro um carro esportivo preto passa voando sobre nossas cabeças. Na seqüência uma caminhonete amarela cruza o ar, meio de lado. Ouvimos gritos. O carro bate de bico no chão espirrando grandes torrões de terra, grama e um passageiro. Ainda capota duas vezes e depois, fica com as rodas pra cima girando. Os faróis, iluminando a madrugada fria. A caminhonete. se choca lateralmente em gabiões, Brang! Prang! Scrrraaaatch! E fica parecendo uma panqueca, ou um omelete o que preferir, seus faróis também iluminando o sereno gelado da madrugada. O esportivo preto, ilumina a auto-estrada e parte da caminhonete. Já a amarelinha, ilumina um rio que passava ao fundo de uma ravina rasa de granito.

Fumaça de gasolina, cheiro de relva molhada e sereno da madrugada. Existe algo melhor que um aroma destes? E fumaça de gasolina, sereno da madrugada, mato molhado, piriguetes perfumadas em roupinhas apertadas, som auto-motivo, droga e escocês black label? Pois é meu amigo. Eu e burt temos agora tudo isto bem na nossa frente. Esmagado, partido, rachado e acho que vai explodir mas, por enquanto bem na nossa frente. Vamos a coleta. Não tem jeito a gente tem que viver né?

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Olá para todos! Sem mais delongas vou também apresentar-me. Eu sou, o Chumbo da bala da cabeça de Burt. Sou por assim dizer, a alma da bala que está na cabeça de Burt. E lhes garanto uma coisa; não acreditem neles. Estes dois, são uns imprestáveis. Só vivem criando confusão e nos colocando a todos em encrencas. Um dia destes vocês vão saber a minha versão da história e, saberão a verdade. Agora eu tenho que ir, vou lavar uns pratos na cozinha que está uma bagunça. Não esqueçam-se de mim amigos. Eu sou o Chumbo da bala na cabeça de Burt.

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Ah… percebo! Vocês conheceram o Chumbo não é? Enquanto eu fui ali no banheiro, ele veio aqui tomou conta do corpo de Burt e meteu o pau na gente né? Pois bem. Eu não vou nem apagar. Nem apagar. Pois, o chumbo é um mentiroso de primeira. Só porque eu sou a forma, e ele é o conteúdo; não tem que ficar se achando melhor que ninguém não. Nós somos todos iguais e tâmo tudo na mesma médra. O que mata Burt eu acho, é o Chumbo. Pronto falei. O Chumbo é parte de mim, mas eu tinha que falar. E pior, o Chumbo ama Burt mais que eu. Ô vida complicada né?

Mudando de pau pra cacete, voltemos a vaca fria.

Grande foi nossa surpresa, ao percebermos que a caminhonete arrebentada era a mesma que nos perseguia pelo lixão. Imensa foi nossa alegria, por constatarmos que dois dos nossos perseguidores estavam vivos. Não por muito tempo. Eu e Burt iremos à forra!

Antes de irmos à forra primeiro, sexo, drogas e forró universitário. Vejamos este esportivo preto.

Nos agachamos e observamos o motorista era um jovem bombado. Já de cara, notamos que o sofisticado esportivo não tinha air-bags. O volante estava afundado na cara dele e, todo o painel sofisticadíssimo do carro, estava coberto de carne e sangue assim como o teto do carro. A passageira do banco da frente, que não usava cinto de segurança foi cuspida-ejetada no primeiro baque, e de onde estávamos, dava pra ver que agora namorava uma árvore cascuda ou então; estava tentando entrar dentro dela na marra. O carinha no banco de trás no lado do motorista, foi empalado no abdômen pela barra de direção, junto com o motorista morto; gemia baixinho sangrando pela boca. No teto, grandes bolas de sangue e vísceras estavam a ser formar. A garota ao lado dele chorava, mas não parecia ter sofrido nada de grave; apenas cortes superficiais. É, ela estava de cinto de segurança. Quando ela moveu uma perna debaixo do banco, apareceu uma garrafa de escocês lacrada junto com um saco branco e copos plásticos. O saco a gente jogou fora. O escocês, a gente derramou em um dos copos e bebeu umas belas goladas apenas para espantar o frio. Retiramos a menina pelo outro lado do carro, e a estendemos no chão de barriga para cima, só isto. Fomos para a traseira do carro e demos um chutão no porta-malas que se abriu derramando barraca de camping, mala com roupas masculinas, femininas, comida e garrafa d’água. Tiramos a sorte grande (temporariamente), graças ao azar de Burt. Aposto que tudo isto será péssimo para o Karma dele mas, temos que seguir em frente.

Agora Burt, arranca a roupa. É agora. É bicho, agora tipo neste momento. Ah, esquece o frio. Não! Não Burt, não pode mexer na mala de roupa agora véi! Vai na comida. Come pelado. Depois lava as mão. Aí então, é que você vai na mala de roupa e procura roupas e as veste. Temos que vazar logo daqui, mas vamos sair daqui limpinhos. Comer o quê Burt? Ah, coma o que quiser desde que não tenha uma caveira com dois ossos cruzados. O quê? Ah tá, bacon cru pode. Ovo cru quebrado? Pode. Queijo e presunto, claro que pode. Pão pode. Olha, você está me irritano carinha… Carne crua? Crua mesmo? Você gosta desta merdra assim? Hmmm… então pode. Acabou? Ok! Bebe água. Bochecha. Lava as mão. Ah esqueci, volta no carro e procura todo dinheiro que puder encontrar. Encontrou? Põe uma pedra em cima e vai caçar o que vestir mano. O quê? O bombado era policial? Melhor ainda. Pega os documentos dele também.

As roupas encontradas na mala do bombado, serviram bem em Burt apesar de, um pouquinho curtas. Mas é assim que eu gosto de ver meu brow. Casaco de couro, camisa pólo, calça jeans rústica e tênis importado. Adeus frio da madrugada. Mais golinho de escocês e, vamos ver a tal caminhonete amarela.

Nas proximidades da caminhonete amarela, encontramos um Taurus carregado e pegamos ele. Perto do riacho, vimos dois homens fortes meio grogues a se levantar. Deviam estar na carroceria, então caindo em campo aberto livre de obstáculos não feriram-se muito.
Burt ergueu a arma e apontou para o que estava mais longe, soltou a respiração bem devagar a seguir efetuou um disparo, atingindo o homem nos peito lançando-o aos berros dentro do rio que espero que o leve para o rio que desemboca no inferno. Fiquei feliz por um instante. Mais uma bala achou um lar. O outro, tentou correr em linha diagonal na direção a auto-estrada. Burt correu atrás, ligeiro como um lobo negro. Disparou um tiro e o homem caiu de joelhos. Disparou mais um e o homem arqueou as costas. Disparou o terceiro tiro e, a cabeça do homem explodiu. Tomamos mais um golinho de escocês por que estava muito frio demais, sabe como é né?

Dentro da caminhonete esmagada tudo era paz e quietude. Coletamos munição e algum dinheiro. Estes capangas aí, não irão escravizar despossuídos naquele lixão. É pagarem que a gente volta. Querendo, cinco famílias pobres podem juntar cinco mil reais em vinte dias. É só pagar que a gente volta.

Quando chegamos na auto-estrada vemos um caminhão atravessado na pista ligeiramente avariado. Está começando a congestionar a estrada. Burt dirige-se a ele e conversa com o motorista. Mostra a arma e lhe dá uma nota de 100. O faz beber o resto do escocês (quase cheia) depois mete um murro na têmpora dele. Arrasta discretamente o motorista desmaiado pro meio acostamento, rola ele suavemente dois metros lá pra baixo, melhor assim, vai ficar bem, vai ficar limpo. Remove o caminhão. Retira a carteira do bombado do bolso, dá uma carteirada de primeira; apresentando-a aos motoristas enquanto escolhe um carro para nossa fuga. Iremos de carona buscar reforços. Kkkkkkk. Foi tudo muito ligeiro. Polícia e bombeiros ainda demorarão uns vinte minutos. Até lá, eu e ele estaremos longe.

E é por causa deste tipo de vida que nós levamos, que eu sou a bala na cabeça de Burt.

Fim

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Ps1
Oi, eu sou Burt. Coitado do Chumbo, não sabe que é fruto da minha imaginação.
Ps2
Oi, eu sou Chumbo. Coitada da bala; ela não sabe que é fruto da minha imaginação.
Ps3
Oi, eu sou gu1le. Coitado do Burt, ele não sabe que é fruto da minha imaginação.
Ps4
Oi, eu sou a Mente. Coitado do gu1le, ele não sabe que é fruto da minha imaginação
Ps4
Oi, é a bala novamente. Estes todos acima estão delirando.
Todo mundo sabe que, quem manda nesta bagaça é a bala! Vai encarar?

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A Princesa do Castelo…

Era uma vez num castelo encantado, uma princesa. Uma princesa suja, maltrapilha e descuidada. Ah, e ela era preguiçosa, vale dizer. A danada da princesa era d´uma preguiça espantosa, preguiça essa que impressionava até os criados de seu pai, minúsculos duendes verdes que dia sim, dia não, fingiam fazer qualquer coisa – como trabalhar – para não serem despedidos. Afinal, eles gostavam de viver no castelo encantado.

A princesa era de tamanha preguiça que nem de seu quarto saía. Nunca era vista pelos corredores do castelo, zanzando e cantando com um vestido turquesa longo a flutuar no ar, como todas as princesas deveriam se portar. Nunca era vista fora de seus aposentos por ninguém.

Seu pai – o rei – fora um homem justo e honrado e nunca exigiu demais dos seus súditos. Exigia sim, aquilo que lhe era dado por direito. E ela devia isso a ele. Aprendera com ele, sabia o quanto lhe era permitido aceitar. Ou tomar, em tempos de guerra. Afora isso, era um rei calmo e cordial. Ela era uma princesa calma e cordial. A família toda era. Bem relaxados, sem essas crises que acometem os monarcas. Como limpeza, por exemplo.

O castelo era uma zona. Em todo canto viam-se sujeiras. Migalhas e farelos, restos deflagrados de comida eram fáceis de achar no chão da cozinha, no chão do refeitório e inclusive nos chãos dos quartos. Insetos disputavam os restos com pequenos roedores. Nunca se entendiam. A umidade impregnava tudo. A poeira que se juntava sobre os objetos acabava por se transformar numa pasta marrom de péssimo cheiro chamada lama. E essa lama tomava conta de absolutamente tudo no castelo. O que não era possuído por essa lama, era inexplicavelmente negro. Como se uma grossa camada de fuligem houvesse coberto tudo. Como se nunca tivessem tido outra cor. Não importava se era uma cama de feno de algum dos duendes ou se a mobília em mogno branco que a rainha usava para pentear os cabelos perante um espelho. Um espelho que já nem refletia mais, tamanha sujeira e gordura tinham se acumulado em seus longos anos de existência. Ocasionais tecidos rasgados eram vistos tremeluzindo no jardim. Sempre os mesmos, a mesmíssima bandeira. Sempre da mesma cor, sempre o mesmo estandarte, no mesmo lugar: A morsa azul, com suas presas pontiagudas e suas nadadeiras batendo no carvalho alto onde estava pendurada.

Certo dia, os moradores de um vilarejo nas proximidades resolveram fazer uma rebelião. Não agüentavam mais ter um rei. Não precisavam de um. O que um rei fazia por eles, exceto roubar-lhes a comida, a lã e o dinheiro pelo qual trabalhavam árduamente todo dia? Pelo qual plantavam e colhiam, não importando a estação. Pelo qual morriam e matavam, não importando a ameaça. Essas coisas lhes eram mais importantes. Um rei não precisava delas. Essas pessoas precisavam mais. Eram detentoras do direito de tê-las, elas a haviam criado e cultivado. A fabricado. Por quê continuariam depositando seus bens mais preciosos toda a volta da lua em frente a porta do castelo? A monarquia era coisa do passado. Ouviram boatos de que haviam lugares onde ela já fora aniquilada. Lugares onde não existiam mais reis, rainhas, princesas. Imaginem só, um lugar livre. Um lugar sem essa gama de prepotentes se apoiando docilmente em cima de nomes e berços. Cavaleiro disso, arcebispo daquilo, essas baboseiras de nomes infantis para ilustrar um lugar de prestígio na corte.

Iriam tomar o castelo e espetar a cabeça do rei numa vara, como um aviso, isso só para começar. Iriam pendurar bem na entrada, para que rei algum pensasse em chegar perto deles e daquele castelo novamente. Iriam arrancar os cabelos da princesa, cada fio, um a um. Depois a estuprariam, antes de enforcá-la. Iriam atear fogo na rainha, colada no trono. Que cada pedaço de metal inútil se unisse a essa porca gorda, queimando a pele e adentrando-lhe os poros, fundindo-lhe os ossos ao metal, um por um, um de cada vez. E qualquer outro morador do castelo iria morrer, não importava se era plebeu ou da corte. Quem é conivente com o pecado, é pecador. Quem trabalha para rei, será tratado como um.

Invadiram o castelo naquela mesma noite, sorrateiramente, sem fazer barulho. Aproveitaram a penumbra e avançaram por uma escada de madeira que haviam construído para esse fim. Eram em doze, sem contar as crianças que carregavam as adagas, espadas e tridentes. Subiram até uma janela do quinto andar da torre média, entraram e derrubaram a escada. Não queriam que algum guarda visse a escada alí e alertasse os outros. Chegaram a uma sala, atentos e com as armas em mãos, todos tentando prender a respiração, tentando escutar alguma coisa. Ocasionalmente um “xiu” era emitido por algum deles, tentando calar o mais próximo.

– Ouve alguma coisa?
– Porra nenhuma. E tu?
– Nada. Devem estar todos dormindo, já é tarde.
– Que fazemos? Matamos todos na cama?
– Não é covardia da nossa parte assim?
– É sim. Mas eu não me importo. E você?
– Eu não.
– Pensando bem, eu me importo sim. Vamos ficar aqui e esperar algum barulho, alguma coisa que indique que alguém acordou. Aí a gente ataca. Todo mundo de acordo?
– Sim!
– Sim!
– Sim!
– Xiu!
– Xiu nada! Acho que ouvi alguma coisa.
– O quê? Eu não ouvi nada.
– Nem eu.
– Eu também não.
– Tá, sinceramente nem eu. Comi um risoto de cogumelo no jantar, devo estar tendo alguma alucinação auditiva. Ou foi o vento, deixa pra lá.
– Certo. Mas fiquem em alerta, primeiro barulho e nós atacamos.

E assim ficaram até o amanhecer, esperando. Esperaram até a hora do almoço, e nada. Chegou o entardecer, trazendo seu sol alaranjado e sombras esmaecidas. Nada. Nenhum barulho foi ouvido.

Alguns se impacientaram. Caminharam os dez metros que os separavam da única porta do recinto e, fazendo o mínimo barulho possível tentaram abri-la. Era uma porta pesada de aço, com diversos trincos e entalhes adornando a superfície lisa. Os outros prenderam a respiração, a ansiedade apitando a cada passo, a cada guincho, a cada poeira levantada pelo movimento dos homens na porta. Mas a porta não se abriu com facilidade. Sequer se mexeu.

Para encurtar a história, nunca se abriu. Estava bem trancada e era muito resistente. Os aldeões todos faleceram alí mesmo, vítimas da própria burrada. Derrubar a escada, o único meio de sair dalí com os ossos intactos, quem foi o gênio que pensou nisso? Descobriram logo quem foi o idealizador dessa idéia e espancaram-no com socos e pontapés, tentando aplacar a própria fúria. Foi o primeiro a morrer. As crianças faleceram algumas horas depois, vitimas de desidratação e tédio. O frio, a umidade, a ausência de comida tomou conta do resto. O último sobrevivente, já meio fora de si por conta daquele cheiro nauseabundo e acre e dominado pela loucura, defenestrou-se pela janela gritando “gerônimo!”, acabando espetado numa muda de pinheiro em crescimento a um metro e meio do chão, sem conseguir se mover, pingando sangue na terra dura, gota a gota. Sofreu um choque hipovolêmico e faleceu poucas horas antes de ser encontrado por Bob, um camponês do outro vilarejo que vinha verificar se os aldeões do vilarejo vizinho haviam por acaso deixado as oferendas na porta do castelo, caso já fosse época da troca da lua. Como eram estúpidos, aqueles aldeões, pensava Bob. Acreditavam que ainda existia um rei para se pagar, um rei a quem responder. Que duendes trabalhavam alí. Os mesmos duendes que já haviam sido extintos há milênios de anos, por gente como eles. Que o castelo era encantado. Encantado pelo quê? Encantado para quê? Que havia alguém naquele castelo, exceto insetos. Todos alí já haviam morrido a centenas de anos no mínimo, inclusive a princesa, caso um dia houvesse existido uma. Era só ver a sujeira e o musgo se depositando nas pedras para verificar que ninguém nem ia alí, nem chegava perto. Ninguém vivia em castelos há anos, ninguém dava a mínima para eles. Eram grandes demais, davam muito trabalho limpar. Pois bem, aldeões burros. Se queriam desperdiçar comida, lã e dinheiro era problema deles. Mas que não ficassem chateados se outra pessoa que não o rei em pessoa viesse buscar os agradinhos. Sua vila ficava feliz com os presentes. Sempre ficava.

Moral da história: Planejamento e verificação. Planeje qualquer ato, qualquer situação e verifique qualquer possibilidade. Não é lá uma moral muito cívica e digna, mas tampouco a história acima o é. Mas é a única que eu posso oferecer esta noite…

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A EXPEDIÇÃO

…A EXPEDIÇÃO

 

Bem vindo, viajante! Meu nome é Ullie, e eu sou um velho bardo contador de histórias.

Vejo que algumas moedas desejam escorregar de seus dedos cansados; podemos facilitar as coisas para que isso se concretize. Posso lhe contar a respeito de um tempo muito muito antigo, no qual os deuses ainda eram respeitados, e os homens vestiam grandes e exuberantes capas bordadas com brasões de reinos distantes.

A escolha é sua…

Basta deixar um pouco de prata sobre a mesa, sentar-se, e aproveitar seu hidromel.

 

Agora que colocaste as moedas sobre a mesa…, terei de cumprir com a minha promessa…

As brasas da fogueira ainda ardiam quando o alvorecer chegou em meio as montanhas à leste. O aroma intocável da relva molhada era revigorante; a brisa restante da noite fria que passara, fugia lentamente por sob as folhas dos pinheiros que erguiam-se estrondosos e exuberantes ao olhar de quem os pudesse contemplar.

No instante em que no horizonte nasceu ofuscada a silhueta de uma águia, a tropa de batedores arrumou-se para a caminhada matinal.
A primeira manhã sobre as terras do arquipélago, tinha de ser proveitosa em seu todo. O quão antes fosse iniciada a exploração, mais rapidamente os expedicionários teriam em mãos as informações necessárias para dar continuidade a sua jornada.
Conhecer as possíveis ameaças, ou até, os benefícios em potencial a serem adquiridos, era primordial para a durabilidade da expedição e a vitalidade de seus integrantes. Assim, os expedicionários estariam sempre um passo a frente, podendo prever melhor os perigos futuros e resguardando-se deles adequadamente.

A tarefa árdua de levantar-se logo cedo pela manhã, ficava sob a responsabilidade dos batedores. O grupo composto por homens e mulheres afortunados na arte da espionagem, exercia a função da exploração inicial, a qual consistia em distanciar-se do grupo e explorar o trajeto futuramente percorrido. Os gatunos mais hábeis compunham os exploradores, quase sempre em trios ou quartetos; em pequeno número, visando a organização e a eficiência.
O líder dos batedores era Bahamud, um jovem rapaz de corpo franzino, astuto e misterioso. “Gatuno Mestre” era como lhe chamavam (nome de batismo dado aquele que por ventura viesse a se tornar o líder dos batedores). E, apesar de sua idade fugir a regra de que todo o líder deve mostrar a experiência e competência através de uma feição desgastada e pouco agradável, não haveria naquele acampamento e, nem mesmo, em qualquer outra localidade, alguém que ousasse questionar “Bahamud, O Invisível”, espião mais famoso do reino. – Quem sabe um ou outro o questionaria. Porém, acredite viajante, pelo menos não naquele acampamento.

Bahamud estava sentado no alto de uma campina, atrás de um tronco morto e coberto por fungos. O cotovelo apoiado ao joelho, dava a firmeza necessária aos movimentos repetitivos que o Gatuno Mestre produzia, amolando pacientemente sua adaga. A lâmina delgada e brilhosa, carregava um fio delicado propício para movimentos rápidos e eficazes, efetuados de forma silenciosa. – Punhais como este, constituíam uma parte vital da vida de um batedor.

Sob a sombra de um rochedo caminhavam cautelosamente três figuras diferentes. À frente do pequeno grupo, vinha um soldado de estatura baixa e de curvas femininas; seu rosto estava parcialmente coberto por uma mascara negra feita de pano, no entanto, era possível ver os fios ruivos de seus cabelos escorrerem levemente sobre o sobretudo de couro que descia até os calcanhares. Logo atrás, escondido sob uma túnica de cor preta, um homem de corpo delgado e expressão fechada seguia os passos da mulher. Por fim, na retaguarda, um soldado parrudo e pouco amigável encerrava o trio, respirando rigidamente o ar sereno que esvoaçava as gramíneas calmamente.

Bahamud permanecia vidrado diante da lâmina, que agora, já mostrava-se afiada por completo, ainda que o Gatuno Mestre continuasse insistindo no mesmo movimento. Passos eram captados por seus ouvidos conforme sua mão repetia o deslize suave sobre o punhal; a aproximação sorrateira, como a de um pedrador que esgueira-se próximo a sua presa, de nada funcionava contra do Invisível. – Um mágico não pode ser surpreendido por seus truques.
Um suspiro se fez no momento em que uma mulher de cabelos alaranjados surgiu. Em seguida, dois homens igualmente trajados ganharam cor.

– O alvorecer foi há muito, vocês estão atrasados. – O silêncio foi quebrado por Bahamud. As palavras foram proferidas calmamente, em um tom único, que só alguém como O Invisível teria a capacidade de fazer.

– Uma falha característica de uma trupi de novatos, temos noção disso. – Quem se deu ao trabalho de responder foi Lara, a ruiva, reconhecendo a falha cometida pelo trio. – Peço o seu consentimento. – Seus lábios finos se fecharam após o pedido, delineando a volta de um rosto livre de qualquer traço de alegria.

– O clima da ilha é o culpado pela nossa demora. Nossos corpos não se adaptaram a tempo. – Dessa vez, quem tomou a palavra foi Ozak, o mais alto entre os três. Seu dizer era minucioso em cada letra que usava, sempre buscando uma resposta concreta para os acontecimentos. Inclusive, ser coerente naquilo que expressava era uma de suas virtudes.

Bahamud fez um movimento rápido, deslizando a mão sobre o cabo do punhal e acabando por guarda-lo na manga esquerda de sua cota de couro negro. Seus olhos passaram sobre o tronco e, em seguida, analisaram a figura dos três que ali estavam. O quarteto ficou em silêncio, até outra vez alguém tomar a fala:

– Devíamos partir, já perdemos tempo o suficiente. – Induziu Hian, um homem forte e pouco amigável. – É bom alcançarmos um ponto longínquo ainda cedo. Ou, pelo menos, no curto período que nos restou. – Ele falava com a firmeza de um rei. – Todos sabemos que logo mais o capitão estará no aguardo… – O brutamontes arrumou os braços do sobretudo, deixando à mostra por um momento a lâmina que ocultava. – Temos que estar preparados, essa paz toda que vivenciamos desde nossa chegada… não me cheira bem.

O Gatuno Meste escutou seriamente, ainda que nada tivesse ouvido.

Hian está correto – suspirou a mulher -, a experiência está sussurrando, isso não condiz com a realidade de uma missão como esta.
Um interminável minuto de quietude se sucedeu, sendo apaziguado somente, diante de um sorriso.
Bahamud mostrou os dentes expressando uma alegria sarcástica. Como se saísse de um transe, O Invisível levantou e ajeitou a pequena balestra que envolvia seu outro pulso; dirigiu a ruiva um olhar de canto em seguida, envolvendo todo seu mistério sobre a face da mulher.
Lara ensaiou um rizo discreto ao passo que o Gatuno Mestre aproximou-se. Bahamud calmamente deslizou sua mão sobre o seu rosto, fitando os olhos azuis que davam cor a sua pele pálida. Quando o afago encerrou-se, o horizonte ganhou a atenção daquele que ninguém ousava desrespeitar; e Lara, voltou a ficar séria.

– Que manhã bonita… – Disse o Invisível, conforme descia a campina calmamente.

Os três se entre-olharam. E nada disseram. – Na verdade, todos eles já sabiam o que tinha de ser feito…

O calor tornava-se cada vez mais incômodo conforme a manhã avançava. O pequeno bosque que abrigara o acampamento dos expedicionários na noite anterior, guardava agora, os últimos resquícios da passagem humana por sob sua proteção. As cinzas da fogueira já apagada, liberavam o ultimo sopro de fuligem aos ventos conforme no horizonte a luz do Sol era refletida de forma ordenada em superfícies metálicas.
Caminhando em uma marcha discreta, os soldados seguiam os passos do comandante que liderava imponente a vanguarda. As armaduras pesadas dos subalternos, arquitetavam um brilho de beleza exuberante e atípica, provenientes dos ornamentos de ouro e prata que se entrelaçavam artisticamente, realçando o brasão que estampava o peitoral direito das cotas. Formado por um escudo e uma cabeça de leão, marcas de um reino poderoso e distante, o símbolo talhado mostrava-se mais belo sobre o torso do capitão, que levava em sua pose uma malha simples e extremamente leve.
Não se ouvia murmúrios e nem som de passos, somente o cantar ansioso do silêncio. A técnica da marcha fantasma era um dos principais trunfos dos expedicionários. – Usada em ocasiões de exploração e guerra, tinha a função de manter a tropa sempre em posse do elemento surpresa, buscando antecipar um possível perigo futuro. – Como a ilha permanecera inexplorada até sua chegada, os expedicionários sabiam da importância de usufruir dessa técnica.
A frente dos soldados, e guiando-os através do cânion, caminhava solitário o comandante. Solon, espadachin renomado e guarda real, tinha em mãos a liderança da expedição. Era um guerreiro conhecido por seus feitos e igualmente respeitado. – Naquela manhã, na ocasião em que se encontrava, nada além de um posição séria e um rosto impiedoso lhe faziam presentes.

A apreensão corria fria pela pele dos expedicionários. A imprevisibilidade daquela terra tão distante inquietava os sentidos e atiçava a atenção de todos. – Tensão, a palavra que resume o estado de espírito carregado por aqueles homens na ocasião em questão. Ali não existiam heróis e recrutas, nomes renomados e desconhecidos, haviam homens, iguais e detentores de um mesmo sentimento; ali, todos eram apenas homens.

Sólon inalou o ar de peito cheio, de forma que algum receio pudesse ser contido; ao mesmo tempo, em meio ao mar de nuvens brancas, uma águia soltou seu grito gracioso.

O verde morria a cada passo dado no pequeno vale. Muito já havia sido andado no momento em que a sensação térmica começou a subir consideravelmente. O calor desgastante castigava os soldados, fazendo-os quase fritar dentro do metal prateado de suas armaduras. O sinal de que tinham alcançado uma região árida se concretizou logo na sequência, ao fim do canion, quando a água que corria por um pequeno córrego próximo aos expedicionários, e as poucas gramíneas que permaneciam vivas, foram engolidas por um mar de areia.

Solon parou próximo a um morro de terra vermelha que delimitava o começo do deserto. Sem demora, seus subalternos seguiram o exemplo, parando a poucos metros, colocando fim a marcha fantasma.

– Bahamud já deveria ter retornado.- Falou o capitão, com o braço protegendo-lhe os olhos dos raios solares. Ele fitava o horizonte, preocupado.

Após ouvir o murmurio do capitão, Joha, um antigo membro da guarda real, aproximou-se . O subordinado, marcado pela idade avançada para um cavaleiro, era o conselheiro de Solon, ajudando-o em todas as decisões através de seu conhecimento e sabedoria adquiridos em todos os seus anos vividos em meio as batalhas.

– Talvez essa mudança repentina que presenciamos nesse momento, surtiu algum efeito negativo na missão dos batedores, atrasando-os. Sabe-se lá o que podemos encontrar alguns passos além. – Falou, repetindo o gesto de seu superior.

– Você tem razão… – respirou fundo -, é a primeira vez que vejo essa situação, e creio que você também… – disse, olhando para o conselheiro, o qual concordou com a cabeça. – Essa alternância climática sem explicação lógica me deixa intrigado, o atraso do Gatuno e a sua trupi pode ser um reflexo disso, mesmo assim, ele deveria ter achado um meio de chegar a tempo. – Mostrou-se impaciente.

A partir do momento em que um reino instaurava a ideia de uma expedição para terras distantes, normalmente um congresso acabava por ser criado no ato, e esse tinha a função de organizar de forma infalível as peças de um grande quebra-cabeças. Em outras palavras, os líderes daquele povo exerciam a função crucial de discutir a melhor maneira de preparar a missão expedicionária para o sucesso, visando o recrutamento daqueles mais capacitados para ocupar as posições dentro do grupo. Bahamud, O invísivel, incontestavelmente era um desses. – Digo mais, ele teria lugar em qualquer grupo expedicionário que fosse criado, não importando o reino. – No entanto, sua falha em atrasar o retorno até Sólon, trazendo as informações e o mapeamento da região, poderia colocar fim ao sucesso almejado por todos.

– Sabe-se lá o que ocorreu – ajeitou a bainha -, existem coisas que homem nenhum gostaria de descobrir. Espero que o Invisível não tenha tamanha falta de sorte… – O conselheiro prendeu a atenção no capitão, aguardando um comando.

– Não é com o bem-estar de Bahamud que estou preocupado – pegou um punhado de areia com uma das mãos -, nem se a sorte é sua amiga ou não. A responsabilidade de tornar essa missão um sucesso foi delegada à mim, e é com isso que me importo. – Levantou-se calmamente. – “Ele é uma parte fundamental da ponte que nos levará ao triunfo.” – Sussurrou para si. – Sabe de uma coisa? – Indagou retoricamente. – Há quem diga que toda a peça de um quebra-cabeças é essencial e não pode ser substituída . – Sólon abria o punho devagar, deixando o pó amarelado escorrer. – Já eu, afirmo que algumas delas podem ser descartadas.

– O invisível sempre fora vital em nossas expedições até aqui. – Joha observava os ultimo grãos de areia caírem. – Como você mesmo falou, esse clima não é compatível com o que conhecemos, e creio eu que de alguma forma ele tenha atrapalhado os batedores. Talvez essa não seja a manhã de sorte deles, e nem a nossa. – O cavaleiro ancião tentava apaziguar Sólon, buscando uma explicação cabível para o incidente.

– Atrasos são consequências da falta de competência, não de sorte. – A voz saiu impaciente o bastante para Joha entender o recado. – Tomei minha decisão.

– Ainda assim, não seria melhor considerar alguns minutos de espera? – Falou em uma última tentativa.

– Iremos continuar, com ou sem Bahamud. – O capitão foi claro em seu dizer. – Esta é a missão mais importante de toda a história de nosso reino – bateu as palmas das mãos, limpando-as – e esse ladrão incompetente já fez o suficiente para embrulhar-me o estômago.

O cavaleiro de cabelos e barbas brancas inclinou a cabeça levemente em uma reverência, em seguida, voltou-se aos soldados.

– Dê o comando para a formação. – Ordenou Sólon, convicto da decisão.

O conselheiro ficou reto, com as pernas juntas e os braços alinhados a cintura; a tropa repetiu o comando, fazendo a mesma postura. Bastou Joha dar dois toques com a manopla da mão direita sobre o peito, para que aqueles poucos, mais renomados que os demais, formassem a linha de frente outra vez.

Sólon sabia o quão ariscado seria a jornada a partir daquele ponto. Naquela situação, deixar a importância de Bahamud e seus batedores de lado, acabaria por dar a jornada um divisor de águas. Mas, perspicaz ou não, até o mais novato entre os soldados tinha noção de que quando algo assim acontecia, na maior parte das vezes, o futuro não sorria para os homens. Entretanto, o capitão deveria ter o pulso firme e tomar as decisões.

  Sólon não precisava de um sorriso, e sim, do triunfo. E ele iria alcança-lo, com ou sem a ajuda de quem quer que fosse.

– Deveríamos ter retornado há muito… – Salientou Ozak, em um cochicho. – Ele sabe disso, e isso me deixa furioso. – A língua afiada do gatuno fazia jus a seu corpo esguio. Às vezes sua feição equiparava-se a de uma serpente.

  (Suspiro ameno, como o de uma moça)

  – Você quer que eu o chame para ele ouvir sua observação? – Perguntou Lara, sarcástica. Os dois caminhavam juntos, separados de Bahamud e Hian, o brutamontes, os quais constituíam a linha de frente. – Todos nós sabemos que a essa hora tínhamos de encontrar Sólon… O Invisível quem o diga… Aposto que isso não lhe saí da mente. – Bebeu um pouco de água do cantil. – Ganhaste a alcunha de inteligente, e eu o admiro por isso, mas existem momentos em que tenho minhas dúvidas a respeito. – Olhou para Ozak. O batedor mostrava uma leve irritação. – Nem o mais tolo ousaria desafiar o Gatuno Mestre. – A ruiva piscou, soltando um sorriso. – Fica a dica.

Não era raro ver alguém invejar Bahamud, tanto por seu talento, quanto por sua posição de líder. Entretanto, apesar de Ozak mostrar-se incomodado com seu superior, isso não relacionava-se a inveja. Era na verdade um reflexo, uma consequência por saber que tais atitudes eram errôneas e que poderiam prejudica-los.

Ambos ficaram em silêncio, apertando o passo após se depararem com o que lhes aguardava.

– Lindo, não é? – Questionou Bahamud, abrindo os braços em frente a um lago formado por uma cascata. O invisível armou um sorriso um tanto esquisito, diante do grupo que vinha logo atrás. – Eu mereço um banho nessas águas, não acham? – A pergunta não era para ser respondida, e foi por isso que Hian, Lara e Ozak, nada disseram.

Fazia pouco tempo desde que os batedores atravessaram um deserto, e agora, encontravam-se em uma outra região, com clima e vegetação opostas a aridez e a pacacidade do mar de areia. Existia uma pequena floresta na região – se assim pode ser classificada -, composta por arbustos e pequenas arvores frutíferas, cercada por um vasto espaço de terra plana coberta por gramíneas. Delimitando o fim do mar de grama, erguia-se um imenso paredão de pedras, o qual se estendia além do horizonte em ambas as direções, tendo em torno de trinta metros de altura. Do colosso de rochas corria uma grande cachoeira de águas cristalinas, dando vida a um belíssimo lago.

– É…, acho que Solon ficará furioso. – Cochichou a ruiva para si, tirando de suas vestes algumas lâminas e artefatos propícios para o trabalho de um batedor.

Bahamud estava despido, usando apenas um pano que cobria-lhe as partes intimas. O Gatuno Mestre boiava sobre as águas cristalinas, com os olhos fechados e o corpo esticado, livre de qualquer preocupação. As margens do lago, Ozak descansava entediado, tendo em mente de que o tempo perdido ali, era uma afronta as ordens do capitão.

– Ei, Lara… Até você? – Questionou o homem esguio, levemente surpreso. A voz dava a entender de que a surpresa não era nada se comparada a indignação.

– O que você acha? – Perguntou a mulher, fazendo cara de deboche.

– Compreendi, Lara. Não basta aceitar tudo quieta, você ainda colabora com a insanidade dele… – A ruiva abriu os braços, olhando-o com uma expressão engraçada, adentrando o lago sem pressa.

Ao fundo, longe de todos, a figura de um brutamontes vagava cautelosa próxima a cascata imensa. Hian não costumava falar muito e, por este motivo, consequentemente também não ficava muito tempo perto das pessoas. – Só estava próximo de alguém quando obrigado. – A caminhada que fazia, ou melhor, a inspeção, constituía uma parte de seu espírito de gatuno, sempre à procura de qualquer informação relevante. Apesar do local ocupado pelo quarteto não apresentar riscos, qualquer um que se disponibilizasse a conduzir uma análise mais à fundo, provavelmente diria que esse pensamento estava errado. – Lugares onde a água e o alimento são abundantes, sempre atraem a presença de diferentes seres. E, caso naquela terra distante houvesse algum ser desconhecido pelo homem, era quase certo de que ali seria um lugar em potencial para encontra-lo. Hian apoiou a mão sobre uma rocha e armou-se em um pulo, adentrando uma pequena área antes inacessível. Seus passos tornavam-se mais cuidadosos conforme se aproximava da encosta. As pedras ali, mais escorregadias que as demais, eram banhadas constantemente pelo vapor da cascata, ocasionando a formação de um limo escorregadiço que apresentava riscos aqueles que fossem descuidados.

Ozak, distraído demais em sua reflexão a respeito das consequências que teriam de ser suportadas pelo grupo quando a hora chegasse, e indiganado o suficiente para não se refrescar nas águas cristalinas, apertou o olhar, intrigado, ao perceber o sumiço do companheiro de missão, que naquele instante já atuava encoberto pelas rochas da cachoeira. – O ponto aqui, é que Ozak não tinha preocupação pelo bem-estar de Hian. – O homem alto e de feição pálida, parou a atividade de jogar pedras na água momentaneamente, procurando alguma silhueta que não fosse a de Lara e Bahamud. Entretanto, encontrou somente duas figuras boiando desfalecidas.

O som era ensurdecedor nas proximidades da queda d’água. O gatuno brigava para prender a atenção em seus movimentos, seus sentidos confundiam-se diante do barulho incessante da cascata, dificultando a continuidade da exploração. Ao passar dos minutos – Alguns poucos -, conforme o paredão de rochas ficava ainda mais assustador, Hian vislumbrou uma imagem que deixou-lhe perplexo, fazendo-o ficar estático por um período breve. Após tomar folego novamente, analisou cauteloso o que se construía diante de seus olhos, podendo mensurar o tamanho da beleza que envolvia aquele local. Sem dar oportunidade para uma outra surpresa, desceu por entre as últimas pedras que constituíam o mar de rocha e parou em frente a entrada de uma caverna gigantesca, encoberta pela água que jorrava. – Hian sabia o risco que corria caso adentrasse a gruta, ninguém o ouviria dali, mesmo se gritasse por socorro. O barulho era ainda mais ensurdecedor do que antes. – Seu corpo robusto parou de receber o toque da água gelada quando seus pés seguiram em direção ao breu.

Guerreiro ou não, ninguém que se preze gostaria de caminhar por um deserto trajado com armadura pesada. O calor, a aridez e a pouca água restante, faziam na cabeça daqueles pobres soldados uma dança da morte. A areia parecia não ter fim, nem sequer haviam boas expectativas na cabeça daqueles que carregavam no peito um brasão imponente.
Entretanto, há os sabichões, que dizem qualquer coisa para mostrar aos outros que possuem conhecimento. E são esses também, os quais pregam a ideia da reviravolta inesperada, afirmando que a vida nos surpreende quando menos esperamos. E eu e você podemos ignora-los quase sempre, sem remorso disso. Mas, afirmo, as vezes a razão os abraça, dando-lhes mérito ao menos por um momento.

Sólon marchava condizente com sua postura de capitão forte e inabalável. Sua armadura refletia a luz graciosa do astro de fogo, dando aos que o seguiam, a visão de que um ser dourado e ardente os conduzia.
A vanguarda alinhava-se sob o comando de Joha. O conselheiro mostrava-se cansado, cobrado pela idade por tanto esforço exercido naquela caminhada infindável. Sua face ressecada, marcada pelos traços da velhice e as feridas ganhas na mocidade, escondiam bem, ainda que de forma custosa, as dores e a fadiga de seus músculos e ossos.
Após passar a viagem inteira sem dirigir-se a Sólon, o veterano aproximou-se.
– Falta pouco. Sinto o cheiro. – Quem falou foi o capitão, escutando a aproximação do conselheiro.
– Sim, e foi por este motivo que me submeti a estar ao seu lado novamente. – A voz firme fraquejava. -Espero que encontremos um local oportuno, os soldados se arrastam a cada passada. – Respirou, ofegante. – Eles estão a ponto de derreter dentro desses trajes.
– Nunca antes tivemos de passar por situação semelhante. – Virou-se para a tropa, e Joha parou. – Por bem ou por mal, eles tem de resistir… – Enxugou o suor das vistas – A culpa não é da armadura que vestem, ela é minha. – A vanguarda parou, restando ao longe duas fileiras de guerreiros, os quais marchavam lentamente na direção de Sólon.   – Sou eu o responsável pelo sofrimento de todos. – Cerrou os punhos. – Não nos restam mais opções a não ser continuar.
– A culpa não é sua, capitão. – tentou explicar. – Um soldado sabe que tem de obedecer ordens, mas ninguém o obriga a empunhar uma espada. É ele que escolhe a vida de soldado. – O líder escutou, soltando um deboche em seguida.
– A culpa é minha. Fui eu que depositei a missão nas costas de uma trupe de incompetentes. – Esbravejou. – Se tivéssemos o mapeamento da região em mãos, eu teria tomado uma decisão mais oportuna do que esta. Em todo caso, fiz minha escolha, e não me arrependo de tê-la feito. – Em um giro, Sólon tornou a olhar para o mar de areia a sua frente, fazendo com que a capa que guardava suas costas esvoaçasse com a força do movimento.

Antes que a tropa que vinha ao longe pudesse se aproximar, ou o conselheiro tivesse tempo para reagir perante o ato do capitão, algo silenciou a todos.
– O que foi isso? – bradou Joha, assustado.
Um som estrondoso ecoou, levando o medo a face de todos. O barulho amedrontador vinha de longe, trazido pelos ventos secos do deserto até ali. E, quando o ruído continuou a ressoar, aqueles guerreiros trajados com armaduras de metal agradeceram por estarem num deserto.
– Seja lá o que for isto, ou o que o fez, só sei que vem da mesma direção do odor que senti a pouco. – Disse Sólon, mas receoso do que bravo.

Os minutos correram rapidamente sob a apreensão dos expedicionários, que assustados, ignoravam o calor incessante. A cada novo estrondo um sentimento distinto surgia nas mentes e nos corações daqueles soldados.
– E então? – Questionou o veterano, perplexo, ao passo que a última linha de soldados expedicionários parava sua marcha. –
– E então… E então que isso significa duas coisas… Primeiro: falta pouco para chegarmos a outra ponta deste inferno. Segundo: Agora estamos cientes de que o deserto não é a pior coisa que essas terras tem a nos oferecer. – Suspirou – Mas desejo que não tenhamos de enfrentar nada pior do que o calor.
– Dê-me o comando e eu acatarei! – Afirmou com convicção, engolindo o medo junto à saliva.
O capitão encarou seu exército, pondo a mão direita sobre o brasão que descansava junto ao peito.
– Soldados, escutem à mim! Fomos fortes até aqui, e não será agora que iremos fraquejar! Se estão comigo…         Marchem! – A tropa de forasteiros ouviu seu líder. E todos eles, sem pensarem em outro meio, puseram a mão sobre o brasão que tanto respeitavam. – Talvez por coragem, ou quem sabe, por apenas desejarem fugir daquele lugar infernal.

  E o barulho tenebroso virou canto de guerra aos seus ouvidos…

Houve crepúsculo. Surgiu o desespero como resposta.
Lara assustou-se, afundando nas águas cristalinas do lago. O medo a consumiu a ponto de fazê-la perder a capacidade de nadar por um período breve. O som era ensurdecedor mesmo debaixo da água, e isso aumentava seu pânico, pois sabia que algo estava errado; e não demorou a querer estar errada a respeito de sua conclusão.
A ruiva ascendeu a superfície a tempo de assistir algo que fugia-lhe a compreensão. – Pensou estar enclausurada em um daqueles sonhos que assemelham-se ao real. Lamentou estar errada porém. – Um rocha enorme, tão grande quanto um exército de mil homens, atravessou o céu azul daquele paraíso perdido, ofuscando o brilho do Sol e fazendo-o invisível. – Aderiu a idéia de estar delirando; mas viu que sua sanidade poderia ser sugada por completo. Não era loucura. Era real.

Gatunos ou batedores – ou como queira chama-los – são especialistas na arte da espionagem, treinados para missões que exijam o máximo da capacidade humana. É costumeiro um reino possuir escolas de batedores e espiões, visto que essas figuras são importantíssimas em diversas questões que envolvem sua longevidade. Quando um rei quer informações sobre a vida política de um reino vizinho, por exemplo, é delegado ao gatuno o dever se obtê-las.
Como bardo contador de histórias, caro viajante, digo-lhe: Um gatuno é impecável naquilo que faz. No entanto, quando está defronte com o perigo, onde não há sombras nas quais possa se ocultar, um gatuno torna-se inútil, pois é apenas um assassino observador e sorrateiro, não um guerreiro trajado e preparado para o campo de batalha.

– Bahamud! – Gritou, tendo o seu berro abafado por um urro, tão forte e amedrontador quanto o ódio de um trovão. Sem que pudesse ter a dádiva de conciliar o que lhe fizera tremer o copo inteiro, ficou sob a escuridão novamente.
Uma nova rocha cortou as nuvens, passando as águas e caindo sobre a borda do lago. Lara a observou, paralisada pelo pânico; forçou os olhos involuntariamente e seu coração quis escapar pela boca. Horrorizada e incapaz de qualquer ato, a gatuna clamou pelo socorro em sua alma. Não viu a esperança porém. Apenas uma visão lhe foi concebida… A da morte de Ozak. – Esmagado pela pedra gigante enquanto tentava uma corrida por misericórdia.
Sentiu-se pequena. Temeu perder a vida e toda a reputação que ganhara, perecendo miseravelmente em uma ilha desconhecida. Relembrou as palavras do falecido, e se tivesse uma única chance, voltaria no passado e nunca entraria naquele lago, nem zombaria daquele que levava a alcunha de inteligente. O sarcasmo de suas palavras para com aquele lhe alertara, voltava a sua garganta em uma dança repugnante e impiedosa.
Por paixão, ou por medo, não relutou em nenhum momento diante das decisões daquele que era o maior dos gatunos. E arrependia-se amargamente, pois preferia enfrentar cem vezes a fúria de um homem, a ver-se como um grão inútil de areia diante de uma situação como aquela.
O desespero mais puro a dominava. A paz do canto sublime que ecoava pela cascata esvaiu-se como o vôo de uma flecha. A ruiva, experiente e reconhecida, peça importante do grupo de batedores mais famoso do reino, cometeu por sua incompetência o erro que lhe custaria tudo. Permitiu, seguindo a alguém ao invés de si mesma, que o destino que espreita o ignorantes a emboscasse. Achou-se no direito, mesmo que em uma terra distante, de baixar a guarda e desobedecer ordens. Creu naquele que admirava, achando-o intangível, cega o bastante para depositar seu destino em suas mãos. Nas mãos de um homem qualquer.
Uma falha
A falha de um novato

Lara voltou a si, revivida por um suspiro ofegante de sua sanidade, que segurava-se oprimida em sua mente decrépita. E outro urro a fez tremer. Virou-se então, para ver o que o acaso lhe reservava.

A cascata, antes serena, derramava suas águas como os tambores de guerra que ressoam a marcha para a morte. Nada mais trazia paz. O céu azul ficara cinza; as nuvens negras lamentavam em um choro conjunto.
A ruiva sentiu a água subir a sua volta. O temor a deixara imóvel, e nenhum sinal de mudança surgia. Lara prendeu a atenção na queda-d’água, donde o terceiro urro ganhou os ares como um tufão; e junto a berro também um objeto ascedeu aos céus, cortando as águas da cascata em um velocidade surpreendente. A garota vislumbrou o objeto sumir, perdendo-se na mesma direção do pedregulho que matara Ozak. Mexendo o pescoço bruscamente, fitou o rochedo outra vez, mais aterrorizada que outrora.

  Hian estava morto.

Uma sombra começou a crescer na proteção da cascata; Uma silhueta negra de forma estranha, com seus traços deformados pela ação da água. O tamanho porém, era em seu todo compreensível. – Não por expressar algo significativo, mas por ser grande o bastante para sugerir muito.

  Lara afundou.
  Ozak estava certo.

Aturdido, engoliu seco. Suas mãos quiseram ceder ao nervosismo palpitante que envolvia seu peito; a espada e o escudo pareciam pesar toneladas, escorregando involuntariamente pelos dedos suados e imóveis.
– O que diabos é isso? – Balbuciou o velho conselheiro, tremendo os lábios em um sussurro profundo. Seu corpo decrépito e castigado fraquejava sem esperanças, como sinal ao esforço exercido no deserto.
– Que eu esteja tendo alucinações. – Rogou o capitão à sua própria compreensão, espantado e sem fôlego. – Como eu queria estar errado. – Falou, vislumbrando a escuridão que se formava entre as tantas nuvens acinzentadas.
Uma gota de chuva caiu solitária sobre a face de Sólon, fria como a lâmina de um punhal; escorreu por uma das bochechas do guerreiro, formando um rastro como o de uma lágrima perdida. O céu chorava, ardiloso, como um pai que vê a angústia de um filho e lamenta junto a ele o seu sofrimento. E cada vez mais choroso ele ficava.     Desesperadas, as nuvens esgueiravam-se umas nas outras, lutando em prantos que refletiam o terror ofegante daqueles homens.

Sólon segurou firme ambas as espadas, seus pés cambaleavam sobre a grama verde. A vanguarda e o restante dos soldados tremiam horrorizados, vislumbrando atônitos a cena fantástica e aterrorizante.

Um urro estremeceu o chão. O berro grave e rouco rompeu o vapor branco da cascata, viajando entre a brisa fria da chuva que caía em meio a escuridão do céu. O medo então virou pânico. Nem Sólon, ou Joha, ou qualquer um daqueles, nenhum deles tivera a chance no passado de presenciar algo como aquilo. Seus corpos e mentes lutavam pela sanidade que escapava lentamente junto as gotas geladas; estavam diante de algo assustador, ao qual nunca se prepararam, nunca sequer imaginaram que poderia ser real. Temiam que a missão à ilha guardasse perigos que nem o maior grupo de expedicionários pudesse enfrentar. Só não imaginavam que estariam vivos para presenciar a irrealidade ganhar forma sob os seus olhares. Todos partilhavam de um pensamento mútuo: O deserto não era um mal lugar para se estar.

Sólon não podia fraquejar. Sabia que não fora treinado para tal situação e, possivelmente, nunca estaria preparado, nem se cem vidas lhe fossem concedidas. No entanto, mesmo o medo roendo-lhe a alma, o corpo e o orgulho não o deixariam desistir. Era o capitão; o espelho para os seus guerreiros; a encarnação da bravura. Se seus pés cambaleassem uma vez mais, e um mínimo sinal de fraquejo fosse exposto, tudo estaria acabado. O choro faria couro junto aos trovões, e o terror completo faria os expedicionários correram em soluços ofegantes clamando por suas vidas.
Um passo a frente. Um estalo estranho e um novo amargor no coração. Sólon fitou o pé direito. -Pisara em um braço recém amputado. – O capitão forçou os dentes, observou em volta e não tardou a ver à frente um pedregulho enorme. Perplexo, compreendeu o fato. E ainda que não o tivesse compreendido, próximo a rocha jazia um corpo em pedaços, com o torso coberto por um resquício do que um dia fora uma túnica, a vestimenta típica de um gatuno vindo de um reino distante.

O chão estremeceu. Um sopro quente emanou pulsante da cascata que formava-se ao longe e correu, beijando a pele daquela centena armada com espadas e escudos, como se o próprio vapor da queda-d’água fugisse em desespero. Um estalo estridente foi ouvido na sequência, perdendo-se confuso em meio a barulho imponente de um raio.
– Pelo amor do criador, o que diabos é isso? – gaguejou o conselheiro para Sólon.
O capitão o fitou com espanto, com a face pálida coberta por olheiras negras e profundas. Não queria demonstrar medo algum, mas nem sequer possuía o poder de comandar a si mesmo.
Não houve tempo de uma resposta. E mesmo que o tempo necessário fosse concedido, era certo de que nada seria dito.
Por um instante a respiração de Sólon cessou. Quando inspirou novamente, um pedregulho enorme caía impiedoso sobre seus subordinados. A relva verde pintou-se em tons vermelhos, e os ouvidos do capitão ensurdeceram com os gritos tenebrosos dos vitimados. Seu exército estava morto. Restara alguns apenas, os quais acovardados, fugiram em direção ao deserto.

Sólon sempre fora hábil para lidar com situações de morte e perigo. Contudo, era a primeira vez que isso vinha a seu encontro de forma imensurável e, até então, irreal. Aquilo fugia-lhe a compreensão, sentia-se impotente e minúsculo.

Como alguém que reage ao desespero involuntariamente, Sólon correu num impulso, largando a sanidade. Logo atrás observava Joha, atônito e imóvel. O capitão largou o escudo e segurou firme a espada, alcançado a margem do lago e partindo em direção ao mar de pedra. Um novo berro o fez estremecer, ainda assim, louco e tomado pela raiva, continuou.

No céu, a chuva caía cada vez mais forte. O conselheiro permanecia sem reação, fitando a desgraça de seus soldados e a loucura de seu capitão. Amedrontado, pensou em tudo o que vivera e como somente aquela situação o acovardava. Enfrentara mil homens, mas nunca imaginou que estaria frente a frente com aquilo. A última missão de sua vida estava acabada. Sua mente gritava dentro de seu crânio.
Um trovão rugiu. Joha correu, fugindo da morte iminente.

No enorme paredão de rochas negras uma silhueta quase imperceptível espreitava. Observando astutamente a cena horrenda e surreal, a forma enegrecida permanecia imóvel – Talvez pela surpresa de presenciar um ser como aquele proporcionar um espetáculo sangrento, ou quem sabe, por não se permitir perder um minuto sequer do show de horrores.
Viu então, o último guerreiro sucumbir, esmagado em uma tentativa inútil de revidar o ataque do assassino que matara seus semelhantes.

Por um momento mais vislumbrou…, e aguardou o suficiente para que seus olhos fossem saciados perante a visão recompensadora da criatura fantástica. Logo depois…, desapareceu.

Como se fosse invisível…

  A expedição…

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Publicado por Filipe de Campos em: Agenda | Tags: , , , , , , ,

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