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conto da noiteO Conto da Noite
Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

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1

Os Desafiantes – 1

Inicio

Uma vida simples, não muito empolgante e nada extraordinário, essa era a vida de Dillian, um jovem prestes a sair da puberdade, jogador de games online na internet, mau sabia ele que iria fazer algo interessante naquele dia…

1 Desafio

Dillian estava de ferias, jogando seu game online em sua casa, de repente chega uma mensagem privada em seu celular com a seguinte mensagem: “Você foi Desafiado”.

Pessoas comuns achariam que isso seria apenas um trote, mas, para alguem curioso como nosso garoto, é uma forma de conseguir algo diferente da sua rotina.

A partir dessa mensagem, Dillian procura o dia inteiro sobre quem mandou ou quem foi o autor do texto. Quando ele encontra uma certa pessoa:

– Ei você, lembra de mim? – Diz o estranho

Surpreso Dillian o cumprimenta:

– Você é irmão do meu amigo.

-Sim, me chame de New, então estava observando, está procurando algo?

– Estou procurando a pessoa que me enviou essa mensagem.

Dillian mostra a mensagem de texto para New:

– Eu sei do que se trata, venha comigo – diz New decidido

Os dois seguem para a casa de New e la começam a conversar

– Todo ano ele reuni um seleto grupo de pessoas para que elas cumprem certos tipos de desafios, ainda não sei os requisitos que ele usa para escolher essas pessoas, mas normalmente são adolescentes.

– Não sei o motivo de ter sido escolhido, não tenho nada de especial, mas afinal quem esse cara que você falou? – Diz Dillian curioso

– Ninguém sabe, na verdade, são poucas pessoas que sabem, pois sempre que são escolhidas, no final de tudo elas mudam de cidade ou desaparecem – diz New apreensivo.

Nesse momento abre-se um buraco no teto de New e cai uma caixa lacrada nos pés de Dillian, então ele abre e dentro contém um objeto, uma espécie de clips.

– O que é isso?, um clips? – diz Dillian confuso

– Vai começar em breve, você não deve perder isso de jeito nenhum – diz New com certeza

Nesse momento está perto de anoitecer e New manda Dillian para sua casa, mas antes ele pergunta

– Você ja foi escolhido? – Diz Dillian

– Percebeu isso agora? – diz New surpreso

Chegando em casa, é noite e Dillian resolve ligar o computador novamente, mas escuta um barulho na frente de sua casa, é um grupo de adolescentes:

– O que fazem aqui? – Diz Dillian assustado

– Calma, a mensagem do cara dizia que o endereço do evento do tal de desafio seria aqui – Diz rudemente uma garota do grupo

– Ai meu deus, não passaram na mente de vocês que poderia ser um maníaco? – Diz Dillian

– Ah qual é, até parece que um maníaco ia pensar em “desafios” – diz um garoto do grupo

Em meio a discussão aparece uma luz e uma voz é ouvida:

“Todos aqui presentes, só poderam participar quem estiver com o dispositivo, coloque-o em algum lugar de sua roupa e ele se prendera a você e em alguns segundos serão transportados, mas somente quem estiver com o dispositivo em seu corpo.” E a luz some e começa uma contagem de exatos 10 segundos.

– Deve ser esse clips – diz a menina rude colocando na manga de sua camisa comprida

Enquanto todos colocavam em algum lugar Dillian derruba o clips:

– Ai caramba, eu nem estou preparado – diz Dillian tentando rapidamente pegar o seu clips do chão

Enquanto isso a contagem vai diminuindo faltando cinco segundos

– Cara você vai ficar ai – diz a garota rindo

Quando a contagem acaba Dillian coloca o seu clips totalmente “alargado” em seu dedo, assim que a contagem foi terminada, o cenário muda e parece exatamente a mesma rua e casa de Dillian:

– Nossa, não acredito que zuaram a gente e foi apenas um truque de luzes – Diz um rapaz do grupo furioso

Enquanto isso, eles percebem que o clips foi transformado, e se tornou uma espécie de chave e que se adaptou a cada um no seu corpo como por exemplo no Dillian que virou um anel, e cada tipo de chave havia uma cor diferente.

– Cara, o meu virou uma pulseira, que droga – Diz a menina rude

A frente deles estava um tipo de superfície que havia varias fendas e estava sobre uma forma de uma bola, enquanto se deparam com aquilo ouvi-se uma voz

“Aqui está o primeiro desafio, não desçam de cima da superfície, se caírem ou saírem de cima, serão desqualificados e perderam a chance de passarem para o próximo passo.”

Após a mensagem, todos eles sobem em cima daquela superfície e la permanecem, nisso, Dillian encontra um amigo seu de escola sentado com uma garota:

– Você aqui também John – diz Dillian feliz

– Pois é cara, parece que não sou o único louco – Diz John meio sem vontade de conversar

Os desafiantes tem uma certa dificuldade para ficar em cima da superfície, porém alguns como John estavam sentados sem problema algum e então Dillian pergunta:

– John como você está conseguindo?

– Cara sinto muito, mas se eu disser, outros podem fazer o mesmo e ai teremos mais concorrência não acha?

Dillian não ligando muito para o que John disse, sai a procura do “truque” de John e os outros, mas com muito cuidado para não cair, no momento, ele para e raciocina, olha para as fendas na superfície e em seu anel:

– Pera, eu acho que sei – Diz Dillian para si mesmo sussurrando

Dillian coloca seu anel entre uma das fendas com o formato correto do anel e se prende la, John o olha e faz um sinal de jóia, nesse momento a superfície começa ficar mais agitada e alguns caem, nisso Dillian fica quase pendurado por noventa graus e aparece um garoto:

– Ei você, me diga como fez para ficar ai sem cair, me mande o macete – Diz o garoto com assustado

Dillian lembra do que seu amigo John falou:

– Cara, eu não posso dizer, desculpa

Depois disso a superfície volta ao normal, se agitando um pouco, no mesmo momento o garoto pula por vontade própria da superfície, Dillian se acalma pois sabe que ele ja foi desqualificado, mas o garoto entra na casa de um dos vizinhos de Dillian e os rende:

– Tudo bem cara, se você não me dizer agora qual o truque, vou matar eles agora!

Todos ficam assustados e surpresos, no momento Dillian tenta pedir ajuda, mas percebe que não tem ninguém na rua, apenas nessa casa havia pessoas:

-CARA TA LOCO? PARA COM ISSO VOCÊ JÁ FOI DESQUALIFICADO – Diz Dillian gritando assustado

– Socorro Di – diz a garotinha filha dos moradores

Alguns dos desafiantes descem da superfície para tentar parar o cara, outros só para observar, mas não sabendo o que fazer, Dillian fica confuso, porém ele quer descobrir o final de todo esse negócio de desafios e não quer descer. Ele lembra de New ter dito de desafios inimagináveis e como Dillian é muito lógico, ele pensa que isso é só parte do desafio e nada é real:

-Cara escuta, não adianta eu dizer o que você quer, você está fora do evento e não vai ganhar nada fazendo isso, algo que não sabe o que é direito – diz Dillian calmamente e firme

John tenta descer mas Dillian o impede:

-NÃO VÁ, ISSO É O QUE ELE QUER, CONFIA EM MIM

– DILLIAN, ELE VAI MATAR AQUELA GAROTINHA CARA, VOCÊ SEMPRE FOI FRIO ASSIM, EU VOU LA – diz John furioso

-JOHN, NÃO VAI É SERIO, FICA AGORA, VOCÊ VAI SER DESQUALIFICADO!! – insiste Dillian

Enquanto isso o garoto mira na cabeça da garotinha, e ela está chorando

-Ninguem vai fazer nada? ela vai morrer em – diz a garota rude

– NÃO SE MECHA JOHN – diz Dillian firme

Todos olhando aquela cena, todos focados e ninguem se meche ouvindo o que Dillian disse, e quando estava prestes a atirar, os moradores, a criança e o garoto somem, e a superficie some e os que estavam em cima caem no chão:

– o que aconteceu? – diz John surpreso

– parece que eu estava certo – diz Dillian

Enquanto isso aparece uma luz e a voz pode ser ouvida novamente:

“Parabéns a todos que continuaram na superfície e confiaram em seu colega, esse foi o desafio da confiança, e aos que não obedeceram e ficaram fora da superfície por favor coloque seus dispositivos na bolsa e adeus”. E a voz some novamente, os dispositivos que são grudados e não podem ser retirados foram pulados para fora de seus donos desqualificados, e um gato aparece com uma bolsa e os dispositivos são colocados lá e o gato desaparece voando:

– Cara isso é completamente sobrenatural – diz um dos desqualificados

– Que droga, foi tão sem graça mesmo – diz outra desqualificada

Agora os que sobraram estão a espera do segundo desafio que está por vir.

 

 

FIM DO PRIMEIRO CAPITULO. O que acharam? é minha primeira historia, quem quiser ajudar só falar, não sou muito bom em escrever corretamente kk

 

 

 

Publicado por joaocastree em: Agenda | Tags: , , , , , , , , ,
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Persona | Capitulo 1 e 2

Persona, é uma história real, que começou há pouco mais de três anos e não acabou bem. Apercebi-me que escrever sobre tudo o que se passou ajuda e, no final da história (ainda estou a escrever), gostava de saber a opinião sincera de quem ler (se lerem) porque não é propriamente uma história “bonita” e, em relação ao futuro, eu ainda não sei o que fazer e que rumo lhe dar. Não sei se hei-de desistir dela, ou lutar por ela. De qualquer maneira, escrever ajuda e espero que alguém tenha o tempo (e a paciência pois vai ser longa) de a seguir e ler.

Prólogo

“Love takes off the masks that we fear we cannot live without and know we cannot live within. I use the word “love” here not merely in the personal sense but as a state of being, or a state of grace – not in the infantile American sense of being made happy but in the tough and universal sense of quest and daring and growth.”
? James Baldwin, The Fire Next Time
Talvez o importante não seja o final feliz. Às vezes, o importante é a história.
Capitulo 1

Abri a persiana da janela no meu quarto para ver como estava o dia. Ia ser um dia bastante importante: o primeiro dia do resto da minha vida. O que quer isto dizer? Mais tarde irão perceber.

Fechei os olhos automaticamente quando um raio de sol me “cegou”. Resmunguei com os meus botões – sim, tenho um bocadinho de mau humor matinal – e esfreguei a minha cara com as mãos, parando com os punhos nos olhos que me ardiam. Quando a minha vista já estava a funcionar decentemente, a primeira coisa que visualizei foram os gatos da vizinha a brincar no pátio do meu prédio. Sorri. Pelo menos aqui tinha gatos… Eram o meu animal favorito. “Aqui” porque esta era a minha nova casa desde há dois dias para cá. Mudei-me de uma pequena cidade do interior para a o Porto, a segunda capital do meu país (Portugal) e agora dividia a casa com mais duas raparigas e o meu quarto ficava na cave. Se estão a pensar que me mudei para estudar, estão certos. Ia começar a faculdade hoje, daí o dia de hoje ser importante.

Devo dizer que foi a melhor coisa que me aconteceu na vida: sair de casa, mudar de ares e ter a minha independência. Já não aguentava mais a rotina e as pessoas que me rodeavam. Então, para minha felicidade, a partir de hoje, a minha vida ia mudar… Pelo menos era o que eu esperava.

Peguei na minha toalha e nos meus produtos de higiene, dirigindo-me à casa de banho para tomar um banho rápido antes que as minhas colegas acordassem. Liguei a água e despi-me, parando antes de entrar para a banheira ao deparar-me com o meu reflexo no espelho. Nem parecia eu. Apesar de estar com umas olheiras que me chegavam até à ponta do nariz, de estar branca como a neve e de o meu cabelo parecer um ninho de cegonhas… o meu aspecto parecia muito mais saudável. Apesar da palidez, as minhas bochechas estavam ligeiramente rosadas e os meus olhos brilhavam levemente. Apercebi-me então que estava genuinamente excitada e esperançosa em relação a esta nova vida. Não que a outra tenha sido má mas simplesmente não a estava a viver decentemente. Até aos meus dezasseis anos vivi como a típica adolescente: era popular, conhecia toda a gente, tinha os meus amigos e era bastante feliz. Foi então que, há dois anos atrás, a minha vida mudou. Não interessa como, nem porquê mas mudou. O que interessa saber neste momento é que, com os acontecimentos desencadeados nesse dia, encontrei no teatro um escape à realidade, decidindo que era o que eu queria fazer para o resto da minha vida e hoje aqui estou: prestes a começar o meu primeiro dia na faculdade.

Com um suspiro, saltei rapidamente para a banheira para me despachar o mais rapidamente possível. Depois de um banho rápido, penteei o meu longo cabelo castanho encaracolado e fui vestir-me para o quarto. Peguei na minha saia roxa favorita, no meu top branco e no casaquinho também roxo. Vesti-me o mais depressa que consegui, calcei as minhas sabrinas pretas e depois de quase me entalar com o leite e os cereais, saí de casa com a minha mala castanha a tiracolo.

Depois de andar cerca de vinte minutos a pé, cheguei ao campus e dirigi-me com uma das minhas colegas de casa (que também entrou na minha faculdade) ao edifício onde os caloiros se tinham de reunir. Como chegamos antes das nove da manhã ainda não tinha chegado muita gente.

– Clara! – ouvi alguém gritar a minha alcunha e virei-me na direcção da voz, sabendo que era a minha melhor amiga, Cris.

Conhecemo-nos só há dois anos mas mal nos conhecemos, criámos logo uma ligação quase de outro mundo. Tanto que nunca mais nos largamos e viemos as duas para a mesma faculdade, embora ela fosse estudar cinema. Ela tinha a minha idade e era baixinha, media um metro e meio, que diferia bastante do meu metro e setenta;  tinha o cabelo ruivo e conseguia ser mais pálida do que eu. Quando me alcançou, abraçou-me toda contente.

– Estou tão ansiosa! – verbalizou, afastando-se – E contente!

Ri-me:

– Eu também.

Ia apresenta-la à minha colega de casa mas essa já tinha desaparecido. Sem dar qualquer atenção a isso, desatei a tagarelar com a minha melhor amiga.

– Sabes o que vai acontecer hoje? – perguntou-me baixinho.

Dei-lhe uma cotovelada, revirando os olhos.

– Como é que poderia saber?

– Sei lá… Podias ter ouvido rumores…

Por acaso até podia, pois a minha colega de casa conhecia alguns dos alunos mas como eu gosto de ser surpreendida, decidi não fazer perguntas.

Segundos depois, o funcionário da escola mandou-nos entrar no edifício e encaminhou-nos até ao auditório, onde três professores com cara de poucos amigos nos esperavam.

– Rapazes para um lado, raparigas para o outro – ordenou uma das professoras.

Ergui um sobrolho. Isto era o quê? Um colégio de freiras?

Olhei para a Cris e esta olhava-me tão chocada como eu. Agarrei-a pela mão e, encolhendo os ombros, arrastei-a até ao lado das raparigas.

– É preciso tanto tempo para se organizarem? Já não estão no secundário – reclamava a outra.

Cinco minutos depois a confusão acalmou e o auditório ficou em silêncio. Toda a gente parecia “assustada”.  Os professores começaram por se apresentar. Não liguei aos nomes mas a mais velha era directora do curso de Design, a outra – e a mais assustadora – de Teatro (o meu curso!) e o rapaz mais novo de Arquitectura.

– Se vocês pensam que estão aqui para se divertir… esqueçam – disse o rapaz, mortalmente sério – A boa vida ficou no secundário.

– Aqui há regras – acrescentou a mais velha.

– Não se fuma no recinto público, apenas a dez metros da entrada; o mesmo para as demonstrações de afecto. – enumerou a de Teatro – Isto é uma escola, não uma fraternidade. Estão aqui para aprender.

O meu sobrolho franzia-se cada vez mais, a cada minuto que passava. Mas era tudo maluco? Parecia pior que uma academia militar e eu só conseguia pensar “onde é que eu me vim meter?”.  

– Ai, onde nos viemos meter, C.? – verbalizou a Cris. Na maior parte das vezes era mais fácil chamar-me “C” em vez de Clara. E, honestamente, eu até gostava.

O professor de Arquitectura lançou-nos um olhar hostil.

– Durante as aulas, não queremos cochichos – frisou, olhando directamente para nós.

Lancei-lhe um olhar zangado perante a sua agressividade.

– Não podem beber água, ter o telemóvel ligado ou tossir – continuou, desviando o olhar.

Não se podia tossir? Abafei uma gargalhada. Ok, isto não podia mesmo ser verdade.

A minha melhor amiga olhou-me assustada.

– É praxe – sussurrei-lhe subitamente iluminada.

Só podia ser praxe, não havia outra lógica possível.

Desviei o olhar dela quando a voz do professor de Arquitectura se elevou ainda mais. Parecia zangado:

– E eu gostava de saber porque é que temos um caloiro dentro da sala, numa aula, com óculos de sol! Estamos a brincar a quê?

Toda a gente olhou para o fundo da sala, para onde o homem estava a olhar. Eu não senti essa necessidade e suspirei irritada.

O auditório ficou uns segundos em silêncio e depois só se ouviu uma voz fria e grossa a falar:

– Há alguma lei que o proíba?

Senti-me tentada a olhar na direcção da voz e assim o fiz. O tal caloiro dos óculos levantou-se e deu um passo em frente depois de falar. Torci o nariz. Algo me dizia que isto ia dar barraco.

– Quero saber, qual é a lógica de estar dentro de uma sala, com óculos de sol – insistiu o professor.

Credo, que sujeito irritante.

Olhei o caloiro – que não tinha nada ar de caloiro – curiosa com a sua reacção.

– Há alguma lei que o proíba? – voltou a perguntar, calmamente mas num tom de voz que até metia medo. 

Parecia super seguro de si mesmo. Todo vestido em tons escuros: preto e cinzento. Parecia bem mais velho que nós. A barba preta e os óculos não me deixavam analisar o seu rosto.

– Quem é? – questionei baixinho à Cris, sem saber bem porque.

Foi outra rapariga que estava sentada atrás de mim que respondeu.

– Não sei bem… Sabe-se que tem vinte e três anos e entrou em Teatro.

Sorri-lhe agradecida. Teatro? Bem, ia ser divertido.

Os professores começaram a disparatar com ele. Era tudo louco nesta escola, acreditem no que vos digo.

– Mostrem-me um papel que o proíba e eu tiro os óculos – desafiou o rapaz – Até lá estou no meu direito.

Numa maneira muito sombria, ele tinha razão. Não tinha de tirar os óculos se não quisesse, embora fosse contra as regras de etiqueta.

– Retire-se – ordenou a professora de Teatro, começando a escrever num papel – E vai ter uma queixa à direcção.

O rapaz encolheu os ombros, pegou no seu casco cinzento e retirou-se como se não fosse nada.

– Parece um mafioso – comentou a Cris ao meu ouvido.

Ignorei-a, concentrando-me na reacção dos professores.

– Alguém quer seguir o exemplo deste aluno? – interrogou o professor ameaçadoramente – É bom que não.

Isto estava mesmo a exceder os limites do razoável. A minha suspeita só aumentou quando disseram que íamos ter que escrever e ler textos em francês nas aulas porque era a segunda língua oficial e queriam incentivar à aprendizagem da mesma. Por favor! A língua francesa não estava no requerimento para a inscrição. Seguramente, só podia ser praxe.

Como para responder afirmativamente ao meu pensamento, um bando de alunos trajados entrou pelo auditório a dentro. Uma rapariga loira e baixinha, que trazia uma colher de pau gigante começou a falar:

– Olá, caloiros. Podem respirar de alívio, isto foi praxe. Foi a chamada “aula fantasma”.

Lancei um olhar de “eu bem te disse” à Cris e ela olhou-me acusadoramente:

– Só sabias porque arranjaste maneira de saber, correcto?

Revirei-lhe os olhos.

Afinal, a professora “assustadora” de Teatro era, na realidade, a funcionária da Biblioteca; a outra senhora era mãe de um ex-aluno e o mais novo ainda era aluno e veterano da faculdade.

– Só queremos avisar que o incidente com o caloiro dos óculos não foi brincadeira e que a direcção da escola vai ser informada – disse ele, com a mesma postura de mau da fita.

– Agora, ordenadamente, quem quiser, pode seguir-nos para continuar a nossa praxe. – informou-nos a rapariga loira da colher de pau.

Eu e a minha amiga, seguimo-los para ver no que isto ia dar. Os Doutores levaram-nos para uma praça lá perto onde nos puseram em filas e alinhados e cada vez que gritassem o nosso nome, tínhamos de nos ir apresentar a altos berros. Enquanto não chegava a nossa vez tínhamos de ficar quietos e calados, a olhar para o chão pois não se podia olhar directamente para estes seres superiores a nós. Estava um calor insuportável e eu já estava a ficar chateada com isto. Pensava que a praxe era uma coisa mais divertida. Para aí uma hora depois, chamaram o meu nome e lá fui eu para o meio dos Doutores e Veteranos. Como estava ansiosa por despachar aquilo gritei com todos os meus pulmões as informações que pediram: nome, idade, curso e de onde vinha. Fiquei com a ideia de que não foram muito com a minha cara pois alguns torceram o nariz e reclamaram com a minha agressividade. Opa, estava chateada e agora ia ficar com fama de mal encarada logo no primeiro dia. Ah, fantástico!

Depois de nos apresentarmos todos, deram-nos um kit de caloiro com uma t-shirt branca com o nome da faculdade e o ano de caloiro a laranja, nas costas; trazia também um apito, um BI cuja impressão digital era um casco de um burro e a foto era do Homer Simpson e um passaporte com todas as informações e músicas de praxe. De seguida, levaram-nos a almoçar – e tivemos de comer massa à bolonhesa só com uma colher. Para além de ser impossível, devo admitir que foi bastante divertido. Por aquela altura já tinha perdido a Cris, que estava por aí com outro grupo.

Quando acabamos de comer, conduziram-nos até ao largo em frente à faculdade onde iríamos iniciar um peddy-paper pela cidade e foi aí que o vi pela primeira vez. Era um dos rapazes mais bonitos que eu alguma vez vira – se não o mais bonito. Era Doutor e secretamente desejei que ele fosse o monitor do nosso grupo. Tal não se sucedeu e só o voltei a ver ao fim do dia, quando voltei da aventura pela cidade. Ele estava na faculdade, na última paragem do nosso peddy-paper. Fiquei completamente fascinada quando ele olhou para mim. Ele tinha o sorriso mais doce e o olhar mais meigo que eu alguma vez vira. Fazia lembrar-me muito o meu ex-namorado e deve ter sido por isso que o meu coração acelerou. Lembro-me de ter dito alguma coisa que o fez rir… e que sorriso. Era perfeito, garanto! Uns minutos depois, fomos novamente encaminhados para o auditório onde íamos assistir à actuação da TUNA da faculdade. Desci, contrariada, sem querer tirar os olhos dele. Já na sala, procurei-o com o olhar e lá acabei por o encontrar. Estava umas filas sentado atrás de mim. Céus, era possível haver alguém tão bonito?

Sobressaltei-me quando alguém se sentou ao meu lado.

– Estás a olhar para quem? – perguntou a voz da Cris.

Olhei-a com desagrado.

– Não me enganas, Clara! Estas meia corada e estavas toda concentrada em alguém.

– Não sejas chata – refilei.

Para minha sorte – outra vez – a TUNA começou a sua apresentação e depois a actuação. Tenho a dizer que amei o espectáculo. Eles eram super divertidos e, apesar de o talento não ser enorme, aquilo estava fantástico! Dei por mim a rir como não me ria há muito tempo. Senti que as coisas podiam ser bem diferentes agora. Estava a adorar o dia e estava mesmo contente. Adorei as pessoas, o ambiente e estava com a minha melhor amiga.

“E encontraste um rapazinho jeitoso” – acrescentou uma vozinha intrometida.

Ignorei-a. Estava mesmo com as minhas energias positivas a fluir e tinha mesmo esperança que tudo corresse pelo melhor a partir de agora.

Nessa noite, os caloiros foram convidados para se juntarem aos Doutores num bar no centro da cidade, não muito longe da faculdade. O bar chamava-se Labirinto e ficava a poucos minutos da minha casa.

Vesti o meu vestido preto com as minhas meias cinzentas até aos joelhos e, com um casaco e umas sabrinas também pretas, por volta das dez da noite, eu e a Ana – a minha colega de casa da faculdade – fomos a pé até ao local, o que nos levou uns bons vinte minutos.

Quando lá chegamos, estavam alguns Doutores presentes que nos convidaram a sentar com eles. Ainda não tinha chegado nenhum caloiro à excepção de nós, obviamente, e do caloiro que foi expulso da “aula fantasma”. Supostamente, a expulsão do rapaz não tinha sido encenada e o Veterano que fazia de professor de arquitectura tinha-se mesmo passado com o desrespeito dele. Tanto que até fomos alertados para ter cuidado com ele. Honestamente, eu não tinha engolido nada aquela história mas tudo bem. Ele estava, num canto do bar, a fumar com os óculos de sol postos. Enfim, cada um sabe de cada qual.

Uns minutos depois começaram a chegar mais caloiros que se juntaram a nós. Às tantas já éramos um grupo jeitoso e conversávamos alegremente uns com os outros mas o outro teimava em continuar sozinho com o seu cigarro e óculos de sol.

– Clara? – chamou-me uma das caloiras, com uma cotovelada – Estás a ouvir-me?

– Não acham que o devíamos chamar para aqui? – perguntei, ignorando-a e mantendo o meu olhar fixo nele.

Todas as cabeças à minha volta viraram-se na direcção para onde eu estava a olhar. De seguida, cada uma delas apresentava uma expressão de reprovação.

A rapariga que me deu a cotovelada – nem me lembrava do nome dela mas sabia que estava no curso de cinema – foi a primeira a falar.

– Ai, não! Ele assusta-me.

Fiquei ligeiramente chocada:

– Porquê?

– Acho que assusta toda a gente – comentou a minha colega de casa.

– Porquê? – repeti. Não entendia mesmo.

– É super… estranho e obscuro. – disse ela.

– Parece um mafioso – acrescentou outra que também não me recordava o nome.

Senti-me ainda mais estupefacta. Agora julgavam as pessoas pela maneira como elas aparentavam ser? Ok, que tinha uma maneira de vestir um bocado… adulta e clássica, que juntamente com a sua barba negra e aqueles óculos lhe davam um aspecto misterioso mas isso não queria dizer que fosse um tipo perigoso ou assim – apesar da descrição de “mafioso” lhe assentar que nem uma luva. Ninguém devia ser julgado pela sua aparência, não era justo.

-Sim, porque aqueles óculos não têm jeito nenhum. – prosseguiu a da cotovelada – É uma falta de respeito numa aula e aqui, num bar, à noite é simplesmente ridículo.

Abri a boca para protestar mas ela não se calava:

– Deve querer meter medo às pessoas com a mania que é o maior… Não queria nada ter de levar com gente assim aqui.

Senti-me zangada. Isto era tão injusto.

– Carmo, muito menos, ok? – subitamente ocorreu-me o nome dela – Não sejam parvos, está bem? O rapaz é livre de andar como quiser, de se vestir como quiser e de usar óculos quando bem lhe apetecer.

A mesa inteira parou e ficou a olhar para mim. Apesar de me ter sentido intimidada, continuava chateada.

– Além disso, pode ter um problema qualquer na visão que não queira admitir assim sem mais nem menos – acrescentei, pensando sobre o assunto – Por isso, não sejam injustos e não se ponham a julgar.

Detestava ter este tipo de papel mas simplesmente não suportava injustiças.

– Eu concordo – verbalizou o Doutor que estava mais perto de nós – Não julguem os outros sem os conhecerem.

Anui com a cabeça e sorri-lhe agradecida. Pelo menos não estava sozinha nesta luta.

Os restantes pareceram ofendidos mas rapidamente mudaram de assunto e desataram a tagarelar. 

Comecei a brincar com os meus anéis aborrecida. A Cris não conseguiu ir e, honestamente, não me apetecia socializar com ninguém que ali estava. Observei o Doutor que me ajudou a defender o caloiro. Chamava-se Pedro e, pelo menos tinha sido justo, fazendo com que eu até o gostasse de conhecer melhor. Como se me lesse a mente, dirigiu-me a palavra e estivemos à conversa sobre coisas super banais durante um bom bocado. Depois, à medida que ia chegando mais gente, tornou-se difícil a comunicação e eu fiquei novamente aborrecida. Confesso que estava esperançosa de ver o Doutor de hoje… o lindo, mas não havia qualquer sinal dele.

Com um suspiro, encostei-me na cadeira e comecei a brincar com uma caneta que estava em cima da mesa. O meu corpo estava ligeiramente ressentido e eu sentia-me cansada. Olhei para o relógio. Passava pouco da uma da manhã. Fiz uma careta. Queria ir dormir!

Como para me despertar do sono, a minha colega de casa agarrou-me por trás e, completamente histérica, levantou-me e arrastou-me até à casa de banho.

– Credo, Ana! O que foi?!

Agora estava a ficar mal-humorada.

Ela desatou a falar super rápido, com as lágrimas nos olhos e eu não estava a perceber nada. Ai, que a minha paciência estava a chegar ao limite.

– MAIS DEVAGAR, ANA – gritei. – Respira fundo.

Obedientemente, ela respirou fundo três vezes. Fiz-lhe sinal para esperar uns segundos até que se acalmasse. Quando o fez, recomeçou já mais devagar:

– Estás a ver o caloiro que foi expulso da aula?

– Sim…

– E estás a ver o caloiro que estava sentado a falar comigo? O de cabelo comprido?

Pensei no assunto e tentei visualiza-lo na minha mente. Fui sucedida.

– Sim…

– Ele viu-o a passar um envelope com alguém de mau aspecto e a receber dinheiro – contou quase em pânico – Ele reparou que ele viu, arrastou-o até à casa de banho e ameaçou-o! Com uma faca!!!

Pisquei os olhos confusa.

– Quem é que viu quem e quem é que ameaçou quem?

– O que estava a falar comigo, o , viu o que foi expulso a passar um envelope e a receber dinheiro. – explicou – Provavelmente droga! Tanto que depois, como viu o Zé a espreitar, agarrou nele e ameaçou-o com uma faca na casa de banho. Disse que se contasse a alguém o que viu estava lixado. O Zé entrou em pânico e voltou assustadíssimo para a mesa, eu percebi e arranquei-lhe a verdade.

Demorei uns segundos a recolher e a organizar toda a informação na minha cabeça. Quando o fiz, senti a minha sobrancelha a erguer-se lentamente. Ok, a minha teoria fazia cada vez mais sentido.

A Adriana olhava-me suplicante para que dissesse ou fizesse alguma coisa. Dei-lhe uma palmadinha nas costas para a acalmar e depois falei.

– Foi uma encenação. Aposto que estão a gozar connosco.

As minhas palavras foram tão firmes e seguras que era como se eu tivesse a certeza do que estava a dizer. Certeza absoluta não tinha mas estava convencida de que era verdade.

– Mas o Zé estava assustadíssimo! – insistiu ela – Devias ter visto.

– Chama-se representar, Ana. Acredita, eu sei.

Ela não parecia convencida.

– Relaxa e não stresses. Confia em mim… Vais ver que estou certa.

Soava certa e confiante aos meus próprios ouvidos.

– Tu não viste, Clara!

“Nem tu”, pensei comigo mesma.

Encolhi os ombros e dirigi-me à porta da casa-de-banho.

– Como queiras… Acredita no que quiseres. Só te dei a minha opinião.

Sem dizer absolutamente mais nada, saí, voltando até à minha mesa. Já não havia qualquer sinal do “mafioso” e o tal de Zé falava alegremente com os outros. Era cá uma personagem também. Tinha quase a certeza de que eles estavam feitos um com o outro e que isto não passava de uma grande partida. No entanto, não podia provar nada. Era apenas o meu sexto sentido – que é apuradíssimo – a falar. Bem, de uma coisa eu tinha a certeza: raramente me enganava.

Capitulo 2

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Às nove da manhã do dia seguinte, já estávamos todos na faculdade. Na parte da manhã iam-nos levar a conhecer a cidade – dado que alguns alunos, como eu, vinham de fora – e da parte da tarde íamos até ao maior parque da cidade, onde íamos ser praxados.

Já nos conhecíamos melhor uns aos outros e eu e Chris estávamos com mais dois colegas a conversar alegremente quando nos chamaram para que nos juntássemos a um grupo maior para podermos começar o nosso passeio. Assim o fizemos e, durante toda a manhã, deambulamos com os nossos chapéus laranjas e camisolas azuis, liderados por meia dúzia de gatos pingados trajados, pelo centro da cidade a visitar os lugares mais importantes. A meio da manhã, deu-se um momento engraçado quando um grupo de cerca de vinte turistas chineses nos pediram para tirarmos uma foto. Nos cedemos de bom grado e, no fim, eles ainda deram uma nota de dez euros aos doutores. Claro que nós, “reles caloiros”, não tínhamos direito a nada.

À hora de almoço, indicaram-nos um supermercado para irmos comprar o nosso almoço para podermos levar para o parque. Assim sendo, um dos Doutores que eu achava mais simpáticos, guiou-nos a mim, à Cris e a mais alguns caloiros até ao mesmo. Depois de comprarmos qualquer coisa para comer, voltamos a reunir todas as pessoas à porta da faculdade e, novamente em grupos, fomos levados até à paragem de autocarro mais próxima. Meia hora depois – e depois de eu quase morrer dentro do autocarro, já que sofro de claustrofobia -, chegamos ao nosso destino e lá estava ele: o rapaz mais bonito que eu alguma vês vira. Eu tentei, juro que tentei mas não conseguia tirar os olhos dele. Sempre que podia, o meu olhar ficava preso na sua figura e se calhar eu já o estava a começar a assustar, dado que ele também me fitava.

Almoçamos todos sentadinhos no chão, em filinha, e o que se seguiu foi o pior dia de praxe daquela semana. Senti-me ridícula quando uma Doutora me mandou levantar e cantar e dançar a música mais parola da história. Meia contrariada e sem paciência, lá o fiz. De seguida, agruparam-nos em grupos de cinco e tínhamos de fazer alguns jogos, num dos quais acabei encharcada e outro em que tivemos de inventar e coreografar uma música para os nossos “excelentíssimos” Doutores. Com isso pude eu bem, o que se seguiu é que me deixou extremamente irritada. Estar mais de meia hora de quatro é tudo menos saudável para o meu joelho lesionado e, como eu não sou de me queixar, lá me deixei estar até ao fim. No entanto, quando me levantei, parecia que os meus ossos tinham sido esmagados por um ferro ou qualquer coisa assim e, quando foi para começar a dançar e a cantar as músicas de praxe, não consegui evitar mancar. Apercebendo-se que eu não estava bem, um Doutor veio ter comigo e, depois de eu lhe explicar o meu problema, mandou-me sentar e estar quietinha. Obedientemente, sentei-me no muro mais próximo, ligeiramente amuada. Detestava sentir-me diferente dos outros e queria estar ali a pular como uma pipoca e a cantar feita doida com os meus colegas caloiros.

No fim da tarde, deram-nos ordem para ir embora e para estarmos às oito da noite na escola, pois ia haver um churrasco para todos. Eu, desesperada por um banho, agarrei a Cris e quase a arrastei dali para fora. Fiquei a meio do caminho pois fui interrompida por um Doutor que se cruzou comigo.

– Olha a caloira dos olhos bonitos! – disse com um sorriso.

Ergui um sobrolho, meia chateada.

– Bonitos? – ecoei – São castanhos…

– Mas têm expressão – justificou, piscando-me o olho e seguindo o seu caminho.

Ao meu lado, a minha melhor amiga ria-se.

– Subtil – comentou, gozando com a minha cara.

Dei-lhe uma cotovelada e ia dizer-lhe que se calasse e para se despachar mas algo me deteu.

– O que foi? – perguntou ela.

– Nada – respondi, desviando os olhos do meu alvo – Vai andando que eu já vou ter contigo.

Ela olhou-me desconfiada.

– Uma Doutora ficou com o meu telemóvel e tenho de o ir buscar – menti – Já te apanho na paragem do autocarro.

Ela murmurou um “está bem” nada convencida mas fez o que eu queria e foi andando. Quando ela e os outros caloiros já iam longe, olhei para o grupo de Doutores que ficou para trás na conversa e o pensamento “eu sabia!” surgiu na minha mente. Escondi-me atrás da árvore mais próxima para deles não me verem e comecei a espia-los feita anormal. O “caloiro” mauzão, o que tinha sido expulso da aula, estava sentado a conversar com os Doutores. Semicerrei os olhos, cada vez mais convencida de que se tratava de um caloiro infiltrado. Abanei negativamente a cabeça e virei as costas para ir ter com os meus colegas.

Uns minutos depois encontrei-os na paragem de autocarro e, quase uma hora depois, consegui chegar a casa. Depois de tomar um banho super rápido e de vestir a minha saia castanha, com o meu tope preto e as minhas botas castanhas, saí de casa com a Adriana em direcção à faculdade. Quando lá cheguei, deixei a minha colega de casa e fui ver quem andava por ali. A Cris estava atrasada e, assim sendo, basicamente não conhecia ninguém e não me ia estar a colar aos outros. Foi então que o voltei a ver e, como de costume, foi como se o mundo à volta deixasse de existir. Mas o que é que se passava comigo? Eu nem sequer o conhecia, nunca tinha falado com ele, nem sabia o nome dele… Só sabia o que lia nos seus olhos e no seu sorriso… eram os mais belos, doces e meigos que eu alguma vez vira. Abanei negativamente a cabeça, tentando por a cabeça no sítio. Com os olhos postos no chão, dirigi-me à banca das bebidas e pedi uma cerveja. Uns minutos depois outra e depois outra. Felizmente, a Cris acabou por chegar e eu quase corri na sua direcção.

– Tenho de saber o nome dele! – sussurrei meia histérica ao seu ouvido.

Ela afastou-me e ergueu um sobrolho:

– De quem?!

Discretamente, apontei-lhe a pessoa em questão e, depois de o olhar de alto a cima, ela exibiu um sorriso perverso.

– Ele é mesmo… lindo – descreveu. Realmente, não havia outro adjectivo que o descrevesse tão bem.

– Eu sei! Não consigo deixar de olhar para ele e assim… Até me sinto mal. Como se fosse uma perseguidora ou assim.

– Eu não tenho qualquer problema com esse título – murmurou com um sorriso maldoso.

Como as melhores amigas decidem ser “loucas” umas pelas outras, a Cris desapareceu e, nem cinto minutos depois, apareceu novamente ao pé de mim e deu-me uma cerveja.

– Chama-se Filipe, está no segundo ano de Design, é Capricórnio e a sua cor favorita é verde – contou-me rapidamente, fazendo-me piscar os olhos umas tantas vezes.

Agarrando a cerveja, soltei uma gargalhada.

– Wow, tu és boa. Assustadora… Mas boa. – brinquei, apesar de ser verdade.

Ela encolheu os ombros, com um sorriso convencido nos lábios.

– Tenho os meus talentos.

Ri-me e, antes de poder sequer fazer mais perguntas, fomos informadas que agora devíamos ir para um bar na baixa. Acabei a minha cerveja rapidamente e seguimos a multidão.

Era um bar engraçado e acolhedor na cave de um edifício antigo. Quando lá chegamos e depois de despirmos os casacos, eu pedi outra cerveja enquanto que a Cris foi directamente para o absinto.

– Não abuses se não vou ter de te levar a casa e vou ser eu que vou ter de ouvir da tua tia – alertei. Ela vivia com a tia – daí não viver comigo – e a senhora não era das mais agradáveis.

– Hey, não te preocupes… Sou pequena mas sou forte! – exclamou, cheia de confiança em si mesma.

– Como queiras – suspirei e dirigi-me com a minha cerveja para o sofá mais próximo enquanto que a minha melhor amiga foi para a pista de dança.

Pois, dançar não era nada comigo e, quando dançava, não era bonito de se ver. Apenas fiquei ali, a observar a minha amiga e os meus potenciais amigos. Estava também um pouco amuada pois não havia sinal do Filipe. Foi então que reparei na Ana a falar com o rapaz misterioso e supostamente “assustador”. Claro que ele estava com os óculos de sol. Não pude deixar de revirar os olhos aquela cena pois há vinte e quarto horas atrás, a Ana estava cheia de medo dele como se ele fosse um demónio e agora ali estava ela: toda amigável e sorridente. A hipocrisia das pessoas era algo que eu não conseguia suportar.

Sobressaltei-me quando a Cris apareceu subitamente ao meu lado, implorando-me para ir dançar com ela.

– Já sabes que odeio dançar – relembrei, desviando o olhar dos outros dois.

– Na outra vida! Não és tu que estás a dizer que esta vida é uma vida nova? Talvez nesta gostes de dançar!

Ergui as duas sobrancelhas e fitei-a imbecilmente.

– Boa tentativa.

– Pelo menos podes experimentar! – insistiu – Por favor! Por mim?

Ela olhava-me como se fosse um cãozinho abandonado e isso fez-me rir.

– Está bem – cedi – Uma música!

– Ou duas – cantarolou, arrastando-me para a pista de dança.

Claro que nem uma nem duas foram. Cada vez que eu me tentava i embora, ela agarrava-me e suplicava mais um bocado. E, obviamente, que eu não lhe conseguia dizer que não. Após pelo menos cinco músicas, consegui fugir-lhe com a desculpa que tinha de ir à casa de banho. Depois de esperar uns minutos na fila, entrei no cubículo das mulheres e simplesmente me encostei contra a porta pensando numa maneira de escapar aquela forma de tortura que era a dança. É que nem o tipo de música ajudava. Talvez um rock me ajudasse pois, pelo menos, eu gostava da música. Saí da casa de banho decidida a ir para casa pois na manhã seguinte tínhamos de estar às 10 na escola para mais um dia divertido de praxe. Assustei-me quando fui contra alguém e, olhando para cima, deparei-me com o rapaz dos óculos de sol.

-Desculpa – murmurei com um pequeno sorriso.

Ele limitou-se a acenar com a cabeça e seguiu o seu caminho.

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O dia seguinte foi bastante divertido. Andamos de barco pelo rio, fizemos mais umas palhaçadas e comemos gelado. Correu tudo muito bem até o “caloiro dos óculos” – como eu lhe chamava – ter armado confusão com um dos Doutores e ter sido expulso de praxe. Pelo que nos chegou aos ouvidos, até socos foram trocados e os Doutores iam chamar a policia pois tinham-no no visto com drogas. Também nos alertaram para não nos aproximarmos dele. Para mim, aquilo tudo ainda me soava a uma grande fantochada mas o resto dos alunos parecia assustadíssimo. Até a Cris. Decidi não me debater muito no assunto e comecei a acreditar que, desta vez, podia estar errada.

Não se falava noutra coisa enquanto nos dirigíamos para o sítio onde ia ser o nosso jantar de praxe. Era um pequeno restaurante/bar num barco  e, supostamente, ia ser o evento mais importante da semana.

Depois de entrarmos todos e de nos sentarmos quietos, mandaram-nos encostar a cabeça no prato durante não sei quanto tempo – que me pareceu uma eternidade. Quando a minha testa já doía, ordenaram-nos que levantássemos as cabeças e olhássemos para o nosso lado direito. Quando o fizemos vimos meia dúzia de caras familiares trajadas. Estupidamente, cresceu-me um sorriso no rosto.

– Caloirada, apresento-vos os caloiros infiltrados deste ano – informou um dos veteranos, fazendo-me sentir realizada.

Entre eles estavam os dois rapazes que eu sabia que eram caloiros infiltrados: o “caloiro dos óculos” e o cabeludo, o Zé.

Lancei um olhar de “eu bem disse” à Ana e à Cristina, enquanto que o veterano os apresentava um por um. Quando chegou ao “mafioso” resolvi prestar atenção: chamava-se João, era o seu terceiro ano na faculdade e estudava, realmente, teatro. Bem, jeito tinha ele. Observei-o por um instante pois era-me super estranho vê-lo sem os óculos escuros. Ele mantinha um ar de durão mas o seu sorriso – um pouco vaidoso – estava nos seus lábios e quase que parecia outra pessoa.

Apresentações feitas, eles foram-se sentar e começamos todos a jantar. Como ainda era praxe, demoramos mais tempo a comer do que o normal e, uma hora e meia depois, saímos para finalizar a praxe ao ar livre. Foi na fila para a saída que me apercebi que a Ana estava com cara de quem esteve a chorar. Preocupada, aproximei-me dela:

– Ana, estás bem?

Algum Doutor gritou “calou” e, obedientemente, fiquei caladinha, mantendo-me sempre ao lado dela. Lá fora, quando estávamos todos quietos a olhar para o chão, alguém se aproximou da Ana– que estava ao meu lado.

– Estás bem? – perguntou uma voz que não me era estranha.

O meu lado curioso fez com que eu ergue-se ligeiramente a cabeça para ver de quem se tratava e era o tal – agora – “Doutor dos óculos”, o João. Baixei rapidamente o olhar e, mesmo para eu não poder ouvir nada do que eles diziam, começou tudo a cantar. Consegui apanhar coisas como “eu entendo a tua posição” mas acabei por desistir e juntar-me aos cantos e às danças.       

Uns minutos depois, deram a praxe por encerrada e a noite ia continuar lá dentro, no mesmo restaurante – que também era um bar. Assim sendo, agarrei a Ana por um braço e arrastei-a até à casa de banho.

– O que se passa? – perguntei enquanto despia o meu kit de caloira.

Pelos vistos ela estava assim por o João e o outro serem caloiros infiltrados. Ela tinha gostado muito do outro, o Zé, e acreditou mesmo neles e no episódio da droga, o que fez com que se sentisse ligeiramente traída. Eu fazia um esforço para manter o meu sobrolho no sítio porque, sinceramente, para mim a sua reacção não fazia sentido nenhum. Depois dela sossegar, voltei para o meio da multidão para procurar a Cris, o meu príncipe encantado, para beber e me divertir. Foram ambas fáceis: eu e a Cris atacamos as bebidas, eu continuava de olhos postos nele – que estava na outra ponta do bar – e estava-me a divertir. 

Acabei por escolher o meu padrinho: era um fofo e também era do meu curso, vegetariano como eu, logo era perfeito.

Assustei-me quando senti uma mão no meu braço, o que fez com que eu me virasse rapidamente para quem quer que tenha sido a pessoa que me tocou. Deparei-me com o caloiro infiltrado/Doutor dos óculos/João, que me sorria como quem pede desculpa. Sorri-lhe também em resposta, quase sem me aperceber.

– Olá – cumprimentou, aproximando-se de mim que o pudesse ouvir – És tu a Clara?

O meu sorriso cessou um bocadinho.

O que é que eu fiz?”

– Sim… – respondi meio a medo.

Ele exibiu um largo sorriso:

– Já soube que foste a única caloira que me defendeu.

Fiquei surpresa com a sua afirmação, sentindo-me corar um bocadinho e a minha boca ficou aberta por uns segundos, enquanto que eu procurava uma resposta.

– Não foste? – insistiu ele.

– Como sabes disso? – perguntei por fim.

Calculei que tivesse sido o Doutor presente nessa noite a dizer-lho e tenho que admitir que nunca me tinha passado pela cabeça que tinha sido a Ana, como ele me veio a dizer.

– Eu agradeço. – acrescentou simpático – Apesar de aquele não ser mesmo eu, é bom saber que ainda existem pessoas que não julgam pelas aparências ou sem as conhecerem.

Sorri meia encavacada, sem saber o que dizer.

– Vais estudar o quê? – questionou. Pelo menos ele facilitava a conversa.

– Teatro.

Os seus olhos iluminaram-se de compreensão.

– Tinha de ser: para não teres preconceitos. – observou satisfeito.

Tal afirmação fez-me sorrir genuinamente. Gostei dele de imediato.

Ficamos ali durante uns minutos a falar sobre teatro e como nós amávamos o que fazíamos. Era fácil conversar com ele, saía tudo naturalmente – até o meu sorriso.

– Já tens padrinho? – inquiriu de repente, parecendo-me mais uma oferta que uma pergunta.

Ia responder que sim mas o meu padrinho de praxe, como se nos ouvisse, apareceu e abarcou-nos aos dois.

– Padrinho! Afilhadinha! – cumprimentou-nos, abraçando-nos aos dois.

Olhei para o João surpresa e ele retribuiu-me o mesmo olhar. Ele era padrinho do meu padrinho? Isso fazia com que me fosse o quê?

– Ia-te apresentar a minha primeira afilhada mas já vi que já se conheceram – tagarelou o meu padrinho – É linda, não é?

Pronto, devo ter corado outra vez e ainda mais quando o João anuiu. Não sou, por norma, uma pessoa tímida, excepto quando me elogiam.

– Sendo assim, ele é teu avô – informou o meu padrinho.

Avô, hã? Era engraçado.

Sorri-lhes satisfeita. Pareciam ambos pessoas excelentes e eu gostava do que via. Entretanto, quando o meu padrinho desapareceu, o João agarrou-me pela mão – o que me deixou ligeiramente desconfortável – e levou-me até ao balcão para me pagar qualquer coisa. Acabamos por beber dois ou três shots com o Dux (o “chefe” da praxe) e, depois disso, fui procurar a Cris e limitamo-nos a dançar. Não valia a pena dizer-lhe que não.

Estávamos nós a dançar super divertidas, quando um Doutor que parecia podre de bêbado, veio na nossa direcção.

– Olá – cumprimentou aproximando-se demasiado de mim – Como te chamas?

O cheiro a álcool era inegável.

– Clara – respondi simplesmente, decidida a não lhe dar conversa.

Ela também disse o seu nome – que não me ficou na cabeça – e, infelizmente, não parecia com vontade de ir embora, dado que ficou ali horas a tagarelar e a dizer a toda a gente que passava que eu era a Clara. Honestamente, já me estava a irritar. As coisas melhoraram quando vi o meu “príncipe encantado” a aproximar-se de nós e o meu pensamento foi “já que está a dizer a meio mundo que eu sou a Clara, que lhe diga a ele”. Felizmente, as minhas preces foram ouvidas e foi assim que aconteceu:

– Esta é a Clara – gritou-lhe, quando ele se aproximou dele pois pelos vistos eram conhecidos.

Ele riu-se – e que riso… – e virou-se para mim com um largo sorriso:

– Olá, Clara. Sou o Filipe.

A sua voz a pronunciar o seu nome parecia mel aos meus ouvidos.

Trocamos uns dedinhos de conversa e, o que meu mais queria, aconteceu: ele convidou-me para dançar. Claro que, estupidamente, recusei dando a desculpa do meu joelho lesionado pois ver-me a dançar não era algo bonito.

– Oh, nem um bocadinho? – insistiu.

– Não posso – lamentei-me, sentindo-me miserável e idiota.

Ele afagou-me o braço:

– Fica para a próxima.

Com isto, virou costas e foi para a pista de dança. Podia jurar que fiz beicinho.

Pelo menos não fiquei ali especada por muito tempo pois a Cris arranjou-nos boleia num carro de alguém mais velho para o centro da cidade. Ela entrou para o lugar de pendura e quando eu abri a porta traseira, sorri automaticamente quando vi o meu avô de praxe, o João, dentro do carro.

– Olá outra vez – cumprimentei, sentando-me e estava prestes a fechar a porta quando o meu padrinho entra também dentro do carro.

– Aww, a minha família quase toda reunida – murmurou meio emocionado. O álcool tinha esses efeitos.

A viagem de dez minutos que se seguiu foi bastante divertida pois o meu padrinho de praxe – cujo nome era Emanuel – era hilariante. Confesso que também foi um bocado esquisita pois eu tinha a sensação que o João estava demasiado interessado em mim quando falava comigo. Há coisas que se sentem. Senti-me ainda mais desconfiada quando, após eles pararem o carro em frente à minha casa, ele fez questão de sair e me levar à porta. Quando nos despedimos entrei em casa, pensando que talvez estivesse enganada e ele fosse apenas uma pessoa amigável. Não só para mim mas para toda a gente. Afinal, porque haveria de ser algo mais? Eu era apenas… Eu. eu.

No dia seguinte – o ultimo dia da semana –, já não havia mais praxes ou brincadeiras. Ao meio dia tínhamos uma apresentação ao curso com o nosso coordenador e eu estava entusiasmada pois era suposto ele ser um mestre do Teatro. Eu e a Ana acordamos por volta das onze – pois ela também tinha a apresentação do seu curso – e decidimos tomar o pequeno-almoço no café em frente à escola. A Cris estava lá à nossa espera juntamente com o João, o meu avô de praxe, e outro Doutor com o qual não tinha falado. Estranhamente, não me senti embaraçada quando o cumprimentei pois estranhamente sentia-me tão bem ao pé dele, como se já o conhecesse desde sempre e claro que as minhas suspeitas desapareceram durante a noite. Ele apresentou-nos ao seu amigo, o Marco, que estudava cinema. Ficamos ali à conversa durante meia hora até nos dirigirmos, finalmente, para as nossas apresentações. Como não estava muita gente na sala – éramos cerca de dez – não durou mais que outra meia hora. Limitámo-nos a apresentar-nos e o nosso professor, e coordenador de curso, explicou-nos muito vagamente em que ia consistir a nossa avaliação durante o semestre. Após sair da sala com a minha melhor amiga, cada uma se dirigiu para sua casa pois era fim-de-semana e tempo de voltarmos para a nossa verdadeira casa e passar tempo com a nossa família. A minha mãe esperava-me na estação dos comboios com um sorriso de orelha a orelha e a querer saber tudo o que me aconteceu nesta primeira semana. Apesar de estar feliz de a ver e de dormir na minha própria cama, era estranho estar em casa. Sentia-me vazia, como se me faltasse algo. Só não conseguia perceber o quê.

 

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Memórias de um Guerreiro Orgulhoso

Nosso povo pode ser dividido em três categorias: Guerreiros, escravos e bárbaros (alguns os chamam de selvagens). Não cabe a nós a escolha, nascemos e somos o que somos. Poucos conseguiram mudar isso e não fui um desses. Pelo contrário, nasci guerreiro e sempre tive orgulho disso.

A linhagem de minha família pode ser traçada até os maiores soldados que nosso povo viu. Nós estávamos lá com os Templários atacando os mouros em Jerusalém, vencemos desertos com os Teutônicos, libertamos reinos, fundamos impérios, foi graças a nossa força que o mundo tornou-se o que é. Infelizmente poucos reconhecem isso.

Minha família ajudou na libertação do reino de Portugal e com um tempo desembarcou nas Terras de Santa Cruz, hoje chamadas de Império do Brasil.

Quantos eu empurrei para morte? Não sei. Sobre quantos cadáveres andei? Impossível contá-los. O sangue nunca me assustou, a morte nunca foi problema e isso me transformou em um guerreiro inabalável.

Nesse momento estou ao lado de milhares e acompanhando meu general na província de Cisplatina, se morrerei não me importo, se esse é meu destino partirei orgulhoso ciente das glórias que vivi.

Que venha a guerra, pois para isso nasci e fui forjado!

Tiraram-me de meu imperador exclusivamente para essa missão e, se depender de minha vontade não haverá retirada, avançarei no território inimigo até que todos caiam ou que eu mesmo encontre o chão ensopado de sangue. Sangue do meu povo, sangue dos brasileiros e sangue dos inimigos.

E caso eu morra, partirei com a memória daquele dia na cabeça. O mais glorioso de minha vida! Ah, jamais esquecerei. O dia era lindo, mas ninguém imaginava que seria histórico. Uma brisa afagava, as águas do riacho corriam plácidas e às margens nós marchávamos, estava ótimo para estufar o peito e mostrar para todos importância e imponência. Foi quando um primo chegou em disparada acompanhado de seu senhor. Estava ofegante, paramos para saber o que causava tanto desespero. Como superior exigi:

— Diga-me que notícia o fez correr de tal forma? — Ele ignorou-me. — Ousa desdenhar de meu questionamento? — Exigi resposta.

— Desculpe senhor, mas é melhor ver por si só. — Respondeu.

 Só então notei a agitação, meu Imperador lia a carta seriamente, suspirou, conversou em voz baixa com seus companheiros durante um bom tempo, sussurros eram ouvidos de toda parte. Porém, de repente senti a tensão aumentar. Ele desembainhou sua espada, mesmo não identificando ameaça preparei-me. Um silêncio repentino baixou sobre o local e sua voz soou em um brado de arrepiar:

— Independência ou Morte!

 Puxou minhas rédeas e imediatamente empinei transformando aquele sete de setembro em algo inesquecível. Nunca vou esquecer os gritos. O júbilo nos rostos de todos e, principalmente a sensação de que assim como meus antepassados, deixei minha marca na história.

Hoje já não sou mais montado pelo Imperador, porém tal fato não me afeta. Existo para servi e servi com honra. É isso que somos! Não sei como meus primos livres vivem, mas acho que tive uma vida boa.

— Vamos, garoto, corra! Vamos massacrar esses tolos!

 A ordem foi dada e agora corro para o campo de batalha. Talvez por isso tanta reflexão. É bom sentir o vento contra minha crina, o gosto da batalha, a terra pulando com minhas pisadas e a morte aproximando-se. Fico pensando: se não fosse minha linhagem talvez eu morresse de exaustão puxando carga. Não, é melhor afastar esse pensamento.

 — Venham inimigos! Venham patriotas orientais, mostrarei que a Província de Cisplatina é nossa! Eis a melhor forma de morrer, mas antes disso irei pisoteá-los até que seus crânios afundem na terra!

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Aqueles dias se foram

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Toda noite Falcon se ajeitava ao lado da cama de sua filha, desligava os projetores holográficos e descia as lentes anti-Sol.

Os postos avançados mantinham a escala de vinte e quatro horas diárias, apesar de a luz solar atingi-los diretamente por mais de vinte horas. Uma troca brusca em seus relógios biológicos poderia afetá-los mentalmente, ocasionando ansiedade excessiva, paranoia e até esquizofrenia, segundo os psicólogos.

Sua filha aguardava pacientemente aquela pergunta. Falcon, cujo nome verdadeiro era Falken, passou a mão sobre seus cabelos e ajeitou seu travesseiro. Seu apelido correspondia às suas habilidades de pilotagem.

– Que história minha garotinha quer ouvir hoje?

Seus olhos brilharam.

– Como você se aposentou papai?
– Ah… Essa é uma pergunta muito boa. E a resposta; especial. Naquela época eu já conhecia sua mãe…

… E a busca pelos minérios raros no cinturão de asteroides permanecia acirrada. Apesar de trabalharmos para a mesma empresa, existia certa competição interna. Ao contrário do que você possa pensar, Lara, sua mãe, era melhor piloto do que eu. As naves coletoras, como já lhe contei algumas vezes, possuíam a inteligência artificial em forma de um robô. Devido a isso, somente um piloto cabia em cada veículo. Quanto menos peso, maior a velocidade.

Certo dia os sensores do posto avançado enlouqueceram. Todos os setores do complexo em forma de anel, construído sobre um imenso asteroide, foram alertados. Os coletores foram convocados à ponte, local onde repassavam dados atualizados e permitiam acesso aos hangares de voo.

O diretor informou que havia um objeto de tamanho considerável entrando na órbita padrão. Mas os computadores não conseguiam distinguir suas características. Podia ser uma imensa rocha cristalina recheada de minérios, um pedaço de um cometa ou até uma barra de ouro gigante. Todos riram.

Devido ao seu tamanho era perigoso abordá-lo sozinho. O diretor formou várias equipes, dentre elas, eu e Tális, Lara e Anthony. Você tinha que ver a cara de ciúmes de sua mãe. Naquela época éramos apenas bons amigos…

(Neste ponto ela começava a sentir sono, mas a história estava tão interessante que fez um esforço para manter-se acordada. Perdeu apenas a parte da “corrida pelo ouro”. Notou que seu pai estava muito mais entretido do que ela).

… Então sobraram apenas duas naves. A minha e a de Lara. Os outros tiveram de voltar devido aos fragmentos maiores terem atingido as antenas laterais. Suas asas gravitacionais estavam perdendo o contato.

O objeto estava logo à nossa frente. Lara ainda exibia um olhar competitivo. Aceitei o desafio. Aceleramos e efetuamos manobras impossíveis auxiliados pelos robôs até que, em um espaço vazio criado pela inércia, presenciamos o brilho daquele artefato. As comunicações foram cortadas instantaneamente.

Não havia um movimento sequer. Sua mãe e eu nos comunicamos através de sinais e realizamos o procedimento para deixar as naves. Quanto mais nos aproximávamos, mais ofuscante tornava-se o reflexo daquela superfície. Tocamos em sua estrutura. Aquilo não era um pedaço de gelo, meteoro ou ouro.

A cápsula se abriu. Entreolhamos-nos. Perplexidade era uma das muitas palavras que percorria nossa mente naquele momento. Jamais havíamos visto algo assim. Ficamos um tempo conversando sobre o que fazer.

As normas da empresa diziam que se alguém encontrasse um grande tesouro primeiro, poderia ser seu, contanto que se aposentasse logo em seguida. Era um método simples de dar chance a outros. Obviamente todos esperavam encontrar algo de grande magnitude, que valesse a aposentadoria, e permaneciam trabalhando durante décadas.

Não tivemos dúvida. Uma joia rara daquelas nunca havia aparecido em nosso quadrante. Deixamos as diferenças de lado e dividimos sua guarda. Isso nos aproximou de tal forma que nos casamos no mês seguinte.

E agora moramos aqui. Confortavelmente nesta cúpula luxuosa, anexa ao posto avançado.

(A pergunta que veio a seguir o pegou de surpresa, assim como a mãe que ouvia escondida atrás do vão da porta).

– Papai… Você se arrepende de ter se aposentado?

Olhou para a esposa que já estava no meio do quarto. Esperou ela chegar, abraçou-a e disse:

– Não. Nem um pouco.
– A joia rara ainda está com vocês?
– Está. E esta joia já devia estar dormindo a um tempão, espertinha. – encerrou, enquanto a cobria e dava um beijo em sua testa.

Os dois a deixaram e saíram do quarto. Deram um longo abraço carinhoso, até que Lara o afastou um pouco.

– Ela está crescendo Falken.
– O que você quer dizer?
– Daqui a pouco ela vai perguntar por que ela tem uma pele azul semitransparente e nós não. A nossa menininha já não é mais aquela criança que você brincava de cavalinho e a fazia desenhar suas peripécias no espaço.
– Eu sei.

Suspirou.

– Aqueles dias se foram…

E se abraçaram mais uma vez. Lá fora, três naves militares inspecionavam o quadrante, enquanto outra mantinha a cúpula sob sua mira. Não poderiam mais sair dali, para sua própria segurança.

Falken ouviu um zunido e se aproximou da janela. A nave coletora ajustou as antenas e fez um sinal. Instintivamente acenou em resposta. O Sol brilhava sobre seu casco enquanto ligava os motores auxiliares. Uma explosão de azul e amarelo inundou o quarto. Voltou para dentro.

Publicado por Brian Oliveira Lancaster em: Agenda | Tags: , , , , , ,
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Porque não conseguimos contato com ETs

ETs: Alô?

Humanos: Alô?

ETs: Alô Terra! Que bom que vocês entraram em contato. Estamos muito felizes que vocês acharam o Transcomunicador Interestelar 8.5 (com Autotranslator ®) que mandamos para vocês. Demorou, mas finalmente chegou. Bem vindos à nossa rede galáctica de comunicação. Estamos ansiosos por trocar experiências e aprender sobre a sua história e cultura. Conte-nos sobre vocês.

Humanos: Alá?

ETs: Lá onde? Ah… o Autotranslator deve estar se configurando ainda, leva um tempinho para ele funcionar direito. Vocês não receberam nossa última mensagem? Bom, não tem problema, às vezes a comunicação morre, mas logo volta. Deem uma olhada se a antena (uma peça um pouco grande em forma de pirâmide que veio junto com o Transcomunicador) está em um local aberto e de preferência apontando para Orion, isso ajuda bastante. Estávamos dizendo que estamos muito felizes por estarmos falando com vocês. Como é a Terra? Estamos ansiosos por saber. Queremos muito trocar experiências então, por favor, nos conte sobre vocês, seu planeta e seu sol.

Humanos: Rá Deus Sol, todo poderoso. Já construímos as pirâmides gigantes, mas as pessoas continuam morrendo e não voltam. Continuamos esperando pela bênção da vida eterna.

ETs: Bom, a gente não sabe o que ou quem é esse tal Rá. Vai ver o Autotranslator está com algum problema. Parece que tem uma versão nova que vai ser lançada logo. Espera ai? Vocês estão falando sobre a gente? Não, não, vocês não entenderam. Não somos Deuses nem temos poderes, é tudo baseado em matemática, geometria, trigonometria, engenharia, essas coisas, sabe? Alias, somos bem fraquinhos perto das outras espécies, não conseguimos pular muito, não jogamos coisas longe e mal conseguimos correr. O Record do nosso melhor campeão foi de só 42 km, quase nada. Quando puderem mandem uma foto das pirâmides para a gente ver como ficou e nos mantenha informado sobre esse lance de ressurreição e vida eterna. Temos interesse nisso também.

Humanos: Zeus reis dos imortais, em sua honra e homenagem, estamos correndo os 42 km ao redor de formas geometricamente perfeitas. Por favor, nos ajude a destruir os Troianos.

ETs: Não, não. Já falamos que não somos Deus. E Deus é um “D” e não com “Z”. Deve ser essa porcaria do Autotranslator de novo, tomara que eles construam essa atualização a tempo. Nós somos seres mortais como vocês, pelo jeito até mais fracos. Moramos na quarta luas do terceiro planeta do sistema de Mu Arae que fica ao sul do Escorpião e a oeste de Virgem. É um planeta bem grande, parecido com o seu Júpiter.

Humanos: Grande Júpiter! Já construímos templo e estamos sacrificando periodicamente as virgens com picadas de escorpiões como você nos ordenou. Por favor, nos ajude a dominar o mundo.

ETs: Gente, o que é isso? De onde vocês tiraram essa ideia de que tem que sacrificar virgens? Não é nada disso! Foi essa porcaria de Autotranslator de novo! E essa versão 8.6 que não sai nunca. Verifiquem se o colisor de partículas de gálio está soldado direitinho, deve ter algum mau contato lá. De qualquer forma, estamos impressionados que ainda existam virgens ai, não vão sair matando todas porque elas estão quase extintas na galáxia. Lutamos muito para preserva-las, mas parece que as poucas que sobraram estão em um sistema estrelar na constelação Leão.

Humanos: Grande Júpiter. Já construímos o Coliseu, colocamos os gladiadores e soldados para lutarem até a extinção e damos as sobras para os leões como você nos comandou. Também paramos de matar as virgens, mas elas não são mais virgens.

ETs: Esse bendito Autotranslator de novo. Já abrimos um chamado no site do fabricante, mas eles ficam em um planeta no sistema tríplice de Acrux na constelação do Cruzeiro e a resposta vai demorar. Mas acreditamos que a salvação vai ser mesmo o upgrade. Enquanto isso experimentem fixar o comunicador em algum lugar para ver se melhora um pouco. E mais uma coisa: não matem mais ninguém.

Humanos: Certo. Pregamos o que comunicava a salvação na cruz, mas a situação se agravou. Ele ressuscitou e disse que era o filho de Deus e que se a gente não se arrepender vamos todos para o inferno. O que fazemos agora?

ETs: Barbaridade! Pregaram o cara na cruz! Chega a ser difícil de crer. Bom, pelo menos ele ressuscitou e está prometendo uma viajem para vocês. Nos não sabemos onde esse tal de inferno fica, mas se vocês descobrirem nos mandem as coordenadas. Temos diversos cruzadores interestelar no lado oeste da galáxia e podemos mandar um lá para ver como é. Obs: Aqui não deu certo esse lance de ressuscitar, nem mesmo depois de construirmos as pirâmides gigantes. Como é que vocês fizeram?

Humanos: Mandamos o pessoal das cruzadas barbarizar no meio oeste. Não vai sobrar pedra sobre pedra para os infiéis incrédulos na palavra do filho de Deus.

ETs: Olha, não é por nada não, mas está complicado falar com vocês. Vocês devem ter uma língua muito avançada porque o maldito Autotranslator não está conseguindo traduzir quase nada direito. Agora sério, o cara que vocês pregaram na cruz não era o filho de Deus. A gente já provou matematicamente que Deus não existe. O lance de onipotência, onipresença e onisciência quebram todas as regras de todos os livros de ciência. Não tem como.

Humanos: Blasfêmia, infiéis malditos! A santa trindade prevalece sobre as vozes das bruxas que saem desta caixa do demônio. Queimem todos os livros de ciência! Queimem as bruxas e suas caixas mágicas na fogueira!

ETs: Bom, tá complicado conversar assim, Mas a boa notícia é que a versão 8.6 saiu (finalmente!) e para fazer o upgrade basta elevar a temperatura do Transcomunicador até uns 150C e o resto deve ser automático. Depois disso a gente conversa mais.

Humanos: e!(H)[email protected] ) H!h90 -)!H308h4 *!h97b971 )*!h(!979!(e!*&9re )*H! h18 184h10

ETs: Quê?

Humanos: !@)H12rh!( 12h 0!*H 8 12h)*H) 108 h10 11028g 028g 08018. *(!018hr018h2 208!)U02 h2mhg09 (*HR(*RR 180rh8rhr88888! 01her.

ETs: Porcaria de Autotranslator…

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