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conto da noiteO Conto da Noite
Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

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Carne III – De Carne e Osso – Parte 1

Escritor: Sombra Posthuman

Lilith (Milla Jovovich)Lilith (Milla Jovovich)

 Para ler antes:

Carne I -Esqueletos no Armário

Carne II – Ossos do Ofício – Parte 1

Carne II – Ossos do Ofício – Final

 True hearts
True pain
True lies to keep it away

Hold on to careful deceit
Fake your way out, you defeat every emotion with lucid words

Fair minds
Fair thoughts
Fair doubts we thoroughly hide

Hold on to words we can’t say
Spineless we keep them away
Don’t dare to show the pain they bear

(Revamp – Distorted Lullabies)

Um homem negro de aparentes 50 anos e com pintura corporal de caveira adentra um aposento cheio de crânios humanos e objetos feitos de ossos, vários símbolos profanos pendem das paredes e estátuas grotescas enfeitam um altar. Com muita raiva ele começa a acender velas negras e vermelhas após encaixá-las nas pontas de um pentagrama em baixo relevo no chão de cimento. Ele pega uma galinha de dentro de uma jaula que faz parte de uma pilha de várias outras com outros animais. Os animais se agitam. Ele vai até o centro do pentagrama e enfia um punhal na ave. Enquanto rasga a carcaça do animal, o sangue escorre para o chão e preenche as valas do pentagrama. O homem pronuncia algumas palavras em um idioma desconhecido até que surge diante dele um rosto demoníaco de chamas verdes.

– Ashur, já estás com saudades? – diz o demônio com um sussurro diabólico.

– Eu sabia que não podia confiar em você! Ela fugiu! Lilith fugiu! Eu a quero de volta!

– Nós demônios sempre somos os vilões no final, não é? Mas só o que fazemos é satisfazer os seus desejos. Humanos idiotas sempre pedem as coisas erradas! Ora, meu caro, tu querias trazê-la de volta, eu a trouxe. Se ela fugiu, é problema teu!

– Traga o irmão dela de volta!

– Tu já viste que isso é impossível! O coração dele é puro demais. Sua alma já está em um lugar inalcançável para nós… Mas nós podemos reanimar o seu corpo.

– Como, sem uma alma?

– Sim. – O demônio abriu um sorriso de satisfação. – Remova o seu coração puro e guarde-o em um vaso canopo. Então faça exatamente o mesmo ritual que fez para criar Lilith, deixe o resto comigo.

Lilith desce de um ônibus em uma cidade. As luzes da rodoviária a incomodam bastante, ela havia ficado por muito tempo nas trevas. Todos pegando suas malas e encontrando seus parentes, mas ela não tem nada nem ninguém. Ela caminha pela cidade, sem rumo, sem saber o que fazer. Vê um mendigo com frio na calçada e imagina quantas pessoas como ela não têm nada nem ninguém, são completamente sós. Lilith vê uma torre com um grande relógio e percebe que falta pouco para amanhecer. “Agora você é um monstro como eu! Não há mais lugar pra você lá fora! Você virará pó se o sol tocar a sua pele ou se o fogo queimar a sua carne. Seu único alimento é o sangue e, para os humanos, você é apenas uma predadora.” Ela se lembra das palavras de Ashur, mas não sabe pra onde ir. Onde poderia se abrigar do sol durante o dia sem correr o risco de ser incomodada? “Cemitério São Sebastião”, indica uma placa convidativa. E Lilith segue o caminho até o cemitério.

No dia seguinte, alguém bate na porta e o bruxo vai atender, sem a pintura, com roupas africanas.

– Sr. Ashur, minha fia anda se sentindo muito mal, ela tá com falta de ar.

É uma mulher negra de aproximadamente 45 anos com uma garota de aparentes 16. Ashur a examina e diz:

– Sua filha está com encosto forte. Não sei se vou poder curá-la. Vou fazer tudo o que puder. Volte daqui a três dias.

– Por favor, senhor! Cura a minha menina! Eu posso ficar tamém? Eu ajudo o senhor!

– Não!  Pra tirar esse encosto dela, ela vai ter que ficar sozinha.

– Muito obrigado, senhor! Minha fia, faça tudo o que o Sr. Ashur mandar! Eu venho te buscar em três dias.

A mulher beija a testa da filha, que não está nada contente com as condições de tratamento, e vai embora.

– Sente-se aí, minha filha.

Ashur retira de uma gaveta uma boneca com um pano amarrado na cabeça e, em seguida, retira o pano. Imediatamente a menina começa a respirar normalmente.

– Senhor Ashur! Já estou me sentindo melhor!

– Sim, eu sei, mas fique quieta, ainda vai demorar três dias até que você fique completamente curada.

Ele pega uma linha e amarra os braços e as pernas da boneca.

– Senhor, eu não consigo mexer o meu corpo!

– Preciso que você pare de falar, faça silêncio total, tudo bem? – Ela afirma com a cabeça e o bruxo começa a costurar a boca da boneca.

Algumas horas mais tarde, a garota está deitada amarrada ao lado de um cadáver de um homem com o peito costurado, horrorizada, mas imóvel e em silêncio. O bruxo, afora em seus trajes ritualísticos, caminha ao redor dos dois enquanto canta uma música sinistra naquela língua estranha. Ao final do ritual, ele crava um punhal negro de lâmina sinuosa no peito da garota, cujos olhos se arregalam em desespero e, em seguida, fitam o nada, sem vida. O homem abre os olhos, suas íris estão vermelhas, e se levanta. O bruxo sorri.

– Seja bem vindo, meu filho. Você se chamará Adão, seja lá quem estiver aí dentro. Eu gosto de zombar das crenças dos brancos. Quero que encontre sua irmã Lilith e a traga de volta, para que possamos ser uma família unida.

– Sim, mestre.

– Alguém deve tê-la ajudado. Descubra quem foi.

Quando Adão sobe as escadas, Ashur aperta uma foto de Lilian enquanto a fita com um olhar amargo.

Na noite do dia seguinte, Lilith entra em um bar. “Este é o último que eu tento, se não conseguir, vou ter que achar um outro jeito.” – Ela pensa, já sem esperanças.

– Boa noite, o que deseja? – pergunta uma moça de cabelos loiros e cacheados, aparentando uns dezoito anos.

– Eu quero um emprego.

– Aguarda um pouquinho, o Seu Bernardo deve passar aqui daqui a pouco. Aí ele fala com você.

Ela se senta a uma mesa e observa a lua cheia. Meia hora depois, um policial se senta à mesma mesa.

– Tá esperando alguém?

– Eu to esperano o Seu Bernardo. – Ela responde tímida.

– A, sim, você é parente dele?

– Não, eu vim pedir um emprego.

– Ah, isso é muito bom! A Luana tá mesmo precisando de uma ajudante! Qual é o seu nome?

Ela olha novamente para a lua, e pensa em um nome.

– Diana.

– O meu é Márcio, muito prazer. – Ele aperta sua mão. – Que mão gelada! Melhor você colocar um casaco.

– Não, eu tô bem, eu já tô acostumada.

– Você é de onde?

– Eu não sou daqui. Cheguei há pouco tempo.

– Aqui faz frio. Bom, se precisar de alguma coisa, estou às ordens.

O relógio da torre marca dez e meia quando chega um senhor barrigudo de bigode, que foi avisado pela bartender que alguém esperava por ele.

– Então você quer trabalhar no bar?

– Sim, eu preciso muito.

Você tem experiência?

– Não senhor, mas eu sei cozinhar, limpar, fazer tarefas domésticas.

– Está bom, você pode servir as mesas. O trabalho é bem simples e eu estava mesmo procurando alguém. – Ao que ela sorri aliviada. – Você é de onde?

– Eu sou do interior, da cidade de Turmalina, cheguei aqui ontem.

– Vem comigo, que eu vou te mostrar o serviço.

– E então é isso. Qualquer dúvida você pode perguntar pra Luana, ela já sabe como funcionam as coisas aqui. Agora eu tenho que ir, vou resolver umas coisas do leilão do burro. Só mais uma coisa, você tá morando onde?

Ela para pra pensar…

– Ah, eu esqueci o nome do hotel.

– Ha, não tem problema, mas é perto daqui?

– É sim, pertinho.

– Ótimo, a gente se fala mais tarde!

No dia seguinte, Adão, vestindo um sobretudo e um chapéu, arromba uma casa onde encontra uma senhora índia.

– Ah! O que ocê quer aqui? Não temo dinheiro!

– Onde está o jovem? Cabuçu.

– Ele não tá, não sei aonde foi.

Mas o jovem chega à sala neste momento.

– Mamãe! – e vê o homem mal encarado – Quem é você?

– É Anamane! O demônio que rouba as alma das pessoa! – grita a velha.

– Onde está a garota?

– Não sei de nenhuma garota!

Adão sorri.

– Eu estava torcendo pra que dissesse isso.

O sorriso se desfaz e ele fica sério. Abre a boca, e de dentro surge uma corrente enferrujada, que se enrosca nas pernas do jovem. Ele se aproxima, quando a velha o segura.

– Solta ele!

Mas Adão a golpeia com força e ela cai no chão.

– Mamãe!

A mão direita de Adão pega fogo espontaneamente e ele a coloca no rosto de Cabuçu, que grita de dor. A velha se levanta e tenta separá-lo do filho em vão. Alguns instantes depois, Adão recolhe a mão e a corrente. Cabuçu está se contorcendo de dor no chão com o rosto deformado e cego. Sua mãe o abraça chorando.

Meu filho!

– Vou perguntar de novo. Onde está Lilith?

– Ocê pode fazer o que quiser, mas eu não vou dizer pra onde ela foi!

– Que lindo! Se apaixonou por ela também? É uma pena que a sua mãe tenha que sofrer por sua causa.

– Não, por favor! Ela não tem nada a ver com isso! Deixa ela em paz!

Adão pega a velha pelo pescoço e puxa seus cabelos com a outra mão. A velha se debate e grita, enquanto Adão faz um corte na sua testa com uma faca e o tampão de sua cabeça é arrancado  aos poucos.

– Dizem que os índios do norte gostavam de escalpelar os europeus.

– Mãe! Não! Para com isso! Deixa ela em paz! – Ele levanta e agarra Adão, mas não consegue afastá-lo de sua mãe.

– Lamento muito que você não possa ver isto!

Cabuçu acerta um soco no rosto de Adão. Ele larga a velha e limpa o sangue negro de seu nariz. O índio abraça a mãe e grita por socorro. Adão sussurra em seu ouvido: “Ninguém virá salvar vocês.” Cabuçu tenta golpeá-lo, mas ele se esquiva e vai para o outro lado. “Índios curandeiros que moram no meio do mato.” Abre a boca novamente e prende o índio com a corrente.

– Agora deixe-me terminar com a sua mãe. – Ele fala sem mexer a boca, com uma voz assustadoramente grave.

– Para! Por favor, deixa ela em paz! Eu digo o que ocê quiser!

– Onde está?

– Eu levei ela até a rodoviária! Ela pegou um ônibus para Campo Grande.

– Bom garoto!

Ele pega a faca e rasga a garganta da velha.

– Pode ficar com a sua mãe!

– Não! Maldito! Demônio!

– Adeus, garoto! Nos vemos no inferno!

O demônio vai embora e deixa o índio desesperado com a mãe nos braços.

De madrugada, em Campo Grande, Lilith e Luana estão arrumando o bar.

– Hoje o bar tava bem cheio.

– Claro, sexta-feira sempre enche! O pessoal sai do trabalho e vem direto pra cá. Amanhã também vai encher, mas o Seu Bernardo fica aqui com a gente.

Lilith limpa as mesas, com o pensamento distante.

– Você veio fazer o que aqui em Campo Grande?

– Eu fugi. Eu prefiro não falar sobre isso.

– Tá legal… Então você tá sozinha? Não conhece ninguém?

– É.

Luana olha solidária para Lilith, que parece alguém fora do seu lugar, sem saber bem o que está fazendo.

– Quer uma cerveja?

– Não, obrigada, eu não bebo.

– Você trabalha num bar e não bebe?! Como assim!

– Não gosto de beber.

– Você já bebeu tequila?

– Não.

– Eu vou pegar pra você experimentar! – Ela sai correndo para dentro do bar.

– Não, eu não bebo essas coisas!

– Mas você nunca experimentou! Você vai gostar. – Luana volta em instantes com a garrafa, um copo, um pedaço de limão e um saleiro.

– Luana, a gente não devia ficar bebeno dessas garrafas do bar.

– Não tem problema, é só uma dose! O Bernardo não vai ligar. – E despeja um pouco no copo.

– Ai, não sei, essa coisa tem um cheiro forte.

– Não seja medrosa, mulher! Isto é bom! Me dá sua mão.

Luana coloca um pouco de sal na mão de Lilith.

– Olha, você vai colocar o sal na boca, vai beber de uma vez e, depois, chupar o limão, entendeu?

– Pra que isso tudo?

– Ah, sei lá, mas se você não fizer isso, vai dar um revertério no seu estômago.

– Tá bom. – Ela faz o que Luana disse.

– E aí?

– Argh! Gosto horrível!

– Ah, não gostou! É que você não ta acostumada com bebida! Acho que devia ter começado com uma caipirinha ou martini.

Lilith se apóia em uma mesa e fica de cabeça baixa em silêncio. Luana guarda as coisas e, ao voltar, percebe que Lilith não parece bem.

Você tá se sentindo bem?

Lilith começa a vomitar. Vomita a tequila, mas continua tentando vomitar, sem que saia nada.

– Cara, você comeu alguma coisa? Tava de barriga vazia, né?

– É, eu não tinha comido nada. – diz Lilith ainda de cabeça baixa, e continua tentando vomitar.

– Você precisa se alimentar direito, ta tão magrinha, e tão pálida! Você não pega muito sol, né? Vou pegar um copo d’água pra você. – E vai pra dentro do bar novamente. Então, Lilith vomita sangue e fica assustada. Ela se senta e parece se sentir melhor. Luana volta com a água e um pano de chão.

– Ah, meu deus, o que é isso? Isso é… isso é sangue?

– Eu não sei.

– É sim! Você não tá bem! Você precisa ir ao médico! Caraca! – E esfrega o chão. – Deixa só eu terminar de limpar isso aqui e levo você ao pronto-socorro.

– Não, eu tô bem. Eu vou ficar bem.

– Não, você vai ao médico! Você não ta bem!

– Eu prometo que vou ao médico amanhã. Agora eu só preciso descansar.

Luana se levanta.

– Tem certeza?

– Tenho, não vai adiantar eu ir ao médico agora. Confia em mim, eu já tive isso antes.

– Tá legal, vê se te cuida! Pode ir, que eu termino de arrumar aqui. Olha, me desculpa, tá. Eu não devia ter forçado.

– Não, não se preocupa, tá tudo bem. – Ela olha nos olhos de Luana com um sorriso meio sem graça. – Obrigada, Luana, eu vou indo, então.

Seis dias depois, Luana e Lilith no bar:

– Uau! Roupa nova! Comprou com as gorjetas?

– É, foi sim.

Luana se aproxima de Lilith compadecida.

– Você veio pra cá sem nada, né?

– Eu, é… – Ela tenta disfarçar, mas percebe que é inútil. – Isso mesmo. Não trouxe nada comigo. Por isso juntei o dinheiro das gorjetas pra comprar essa blusinha, é melhor que nada.

– Diana, se precisar de alguma coisa, é só pedir. Agora você tem uma amiga.

Lilith encara Luana e mostra seu sorriso sincero. Luana arrisca:

– Você vai fazer alguma coisa segunda-feira?

– Não, não tenho nada em mente.

– Tá afim de ir comigo e uma amiga ver o show do Bando do Velho Jack?

– Ta, pode ser.

– Não é grande coisa, mas é o que temos. Um dia eu vou ter uma banda famosa no Brasil todo, talvez até lá fora!

– Você toca?

– Eu toco baixo, eu costumo compor músicas com uma amiga de Belo Horizonte chamada Dalila, que conheci em um fórum na internet. A gente manda coisas uma pra outra e vai fazendo as músicas.

– Que legal! E eu posso ouvir alguma?

– Eu posso tocar no violão pra você.

Lilith e Luana se tornam amigas. Luana conta a Lilith tudo sobre seus contatos com Dalila e seus sonhos de ser uma rock star, e que está juntando dinheiro pra ir a Belo Horizonte para tocar com a amiga. Cada vez mais elas passam tempo juntas e Lilith vai aprendendo a tocar baixo.

Três meses se passam e Adão ainda não retornou. Ashur resolve evocar o demônio novamente.

– Eligos, por que Adão ainda não retornou?

– Ele não a encontrou ainda.

– E por que você não diz a ele onde ela está? Pensa que sou idiota?

– Porque, por alguma razão, não consigo vê-la. Algum feitiço obscurece minha visão. Além disso, não tenho nenhum interesse nisso.

– Eu devia saber que não podia confiar em você!

– Não se preocupe, velho! Ele vai encontrá-la pra você! E a trará, nem que seja em um cinzeiro. Só então você verá que isso não serviu para nada. Humanos e seus desejos inúteis!

Em algum lugar perto dali, um grupo de peões armados espanca um homem, ele já está inconsciente. Um deles, de cabeça chata e pele morena, pega um revolver e aponta para ele.

– Agora vou garantir o serviço completo.

Mas um capanga forte, de rosto largo, barba serrada e uma cicatriz no olho esquerdo entra na frente:

– Poupe suas balas, Mosca. O serviço já tá completo. – E chuta o corpo do homem para a ribanceira. O corpo rola pelo mato até sumir de sua vista.

– Quem manda aqui sou eu, Jacaré! – E aponta a arma para ele. Um outro interrompe:

– Mosca, ele não vai sobreviver, deixa pra lá.

– Este aqui era chegado dele! Vou mandar pra vala também, por precaução. – E engatilha a arma, mas o homem sob a mira se joga na ribanceira. Os outros correm para ver até que ele também some no mato.

– Se ele sobreviver, é porque mereceu. – Mosca guarda a arma e o bando vai embora.

A noite cai e, no fundo da ribanceira, acorda o Jacaré. Ele tenta se levantar e percebe que quebrou alguns ossos. Ele rasteja por alguns minutos, até que vê uma casa e grita. Depois de alguns gritos, surge de dentro da casa um índio deformado usando um pau como bengala. É Cabuçu.

– Por favor, me ajude!

Cabuçu se detém, apreensivo, enquanto ouve o pedido de ajuda.

– Eu estou aqui, por favor!

– Eu sinto muito, mas sou cego, não sei como posso te ajudar.

– Tem mais alguém na casa com você?

– Não, eu moro sozinho.

– Senhor, meu nome é Diogo Oliveira, mas me chamam de Jacaré. Se puder ser minhas pernas, posso ser os seus olhos.

O índio ajuda o homem a se levantar e este faz uma muleta com um galho.

– Amigo, preciso de mais um favor seu. Meu amigo caiu da ribanceira antes de mim. Ele está muito mais ferido que eu, temo que já esteja morto. Precisamos encontrá-lo.

Cabuçu ajuda Jacaré a andar, enquanto este lhe empresta os olhos. Eles procuram por alguns minutos, sem sinal do corpo, até que Jacaré avista um braço emergindo das folhas e vai até ele o mais rápido que pode. O homem ainda está vivo e eles conseguem carregá-lo com muita dificuldade. É um homem magro, de quase trinta anos, com roupas de pião, bigode, e cabelos na altura dos ombros. O índio coloca os dois deitados um em cada cama e lhes traz algumas ervas.

– Há alguns meses atrás eu diria que você deu muita sorte de vir parar aqui, eu era um excelente curandeiro. Mas como você pode ver, eu perdi a visão e agora não passo de um cego inútil esperando pela morte.

– Pois eu ainda acho que foi muita sorte! Nós podemos ajudar muito um ao outro.

Juntos eles tratam dos ferimentos e fazem talas para as fraturas.

De volta a Goiânia,

– Diana, tenho uma novidade. Sabe o Márcio, o policial? Ele me chamou pra sair na sexta.

– Hmm, legal, e você?

– Ah, eu aceitei. A gente vai num outro bar aqui perto.

Nesse momento, Lilith perde o equilíbrio e cai no chão com os copos.

– Diana! Você tá bem? – Luana se abaixa e levanta sua cabeça – Nossa! Você tá gelada! Vou te levar pro médico agora!

– Não! Eu tô bem, foi só uma tontura.

– Eu já te falei que você não pode ficar tanto tempo sem comer nada! Você deve tá com a pressão baixa!

Ao ajudar Diana a levantar, Luana vê sangue no chão, junto com os cacos de vidro.

– Você se cortou.

Luana olha para o sangue e seus globos oculares vão tomando uma cor avermelhada, que vai ficando cada vez mais escura. Suas presas crescem.

– Diana?

Lilith olha para Luana e mostra suas presas, enfurecida. Luana grita e dá um salto para trás. Lilith corre para longe do bar. Luana fica apavorada, mas alguns instantes depois, decide ir atrás da amiga.

Lilith corre sem rumo pelas ruas próximas, até que encontra um vira-lata e o ataca. Bebe todo o seu sangue e se acalma um pouco, seus olhos voltam ao normal, mas suas presas continuam à mostra.

– Lilian.

Lilith se assusta ao ouvir seu antigo nome e vira para ver quem é. É seu irmão Adriano.

– Minha irmã!

– Adriano! Mas ocê morreu!

– Ashur me trouxe de volta. E eu vim buscar ocê, pra gente vortar pra casa.

Ela abraça Adriano com força.

– Eu não quero vortar pra casa. Por que não fica aqui comigo?

– Não, Lilian, nosso lugar é em Turmalina.

Ela solta Adriano e tira seus óculos escuros, expondo seus olhos flamejantes.

– Adriano, ocê tá diferente.

-Ocê também, Lilian. Nunca quis sair de Turmalina, agora não quer voltar.

– Eu morri, Adriano, e ocê tamém. Nossa vida em Turmalina ficou para trás, não tem mais nada para nós lá, só sofrimento.

– Eu demorei muito pra te encontrar, não vou embora sem você.

– Sinto muito, Adriano, mas ocê vai sim.

– Não sente, não. Mas vai sentir.

Ele a ataca com um soco, mas ela esquiva. Ele continua atacando, mas ela consegue evitar seus ataques.

– O que cê tá fazeno! Ocê não é meu irmão!

– Prazer, meu nome é Adão, mas pode me chamar de Ukobach.

Ele tenta atingi-la novamente e destrói um pedaço da parede de uma casa. Ela o arranha no rosto. Ukobach arranca uma placa do chão e a atinge na cabeça, ela cai. Seu rosto já está totalmente regenerado do arranhão. Ele a surra no chão e ela também se regenera, mas perde muito sangue.

– Eu achei que fosse dar mais trabalho.

Lilith abre os olhos e eles estão vermelhos de novo. Ela levanta, chuta o joelho e soca o rosto do demônio. Ele cai e ela corre pra longe. Ukobach abre a boca e lança sua corrente atrás de Lilith. A corrente a agarra pela perna e a traz de volta, gritando e se debatendo. Quando chega bem perto de Ukobach, a corrente se enrosca no corpo de Lilith.

– É inútil resistir. Por que não se entrega de uma vez?

Mas o corpo dela começa a mudar e ela se transforma em um morcego e voa para o alto. Suas roupas caem junto com a corrente.

– Garota esperta. Só tem um jeito de levá-la inteira até Turmalina: estaca de madeira.

As nuvens começam a ficar estranhamente mais densas e cobrem a lua, tudo fica muito mais escuro. Um vento sinistro sopra pela rua e ouve-se um relinchar fantasmagórico.

O morcego aterrissa desastrosamente em forma humana em uma rua próxima dali. Lilith está com os olhos vermelhos, presas à mostra e completamente fora de si. Ela percebe alguém se aproximando e ataca instintivamente, como um animal faminto.

Um cavaleiro negro se aproxima de Ukobach, montado em um cavalo zumbi. O cavalo deixa pegadas em baixo relevo nas pedras portuguesas da rua.

– Duque Eligos. – diz Ukobach, enquanto se ajoelha em reverência.

O cavaleiro fala com um sussurro onipresente, é a mesma voz que instruíra Ashur a criar Adão:

– Ukobach. Mudança de planos. Recebi ordens diretas de Lorde Paimon para deixar a moça em paz. O Lorde tem outros planos para ela. Tenho uma nova missão para você. Os Príncipes querem um golem de cinco almas.

Lilith bebe todo o sangue de sua vítima e finalmente se encontra saciada. Quando o corpo sem vida tomba no chão, ela percebe, para seu desespero, que acabara de matar sua única amiga, Luana, que havia ido atrás dela.

Publicado por Sombra Posthuman em: Agenda | Tags: , , , , , , , , , , ,
13

Carne II – Ossos do Ofício – Final

Escritor: Sombra Posthuman

Ukobach

Ukobach

 

Esta publicação é continuação de Carne I – Esqueletos no Armário e Carne II – Ossos do Ofício – Parte 1 e é recomendada para maiores de 18 anos.

Blood on her skin
Dripping with sin
Do it again
Living Dead Girl
Blood on her skin
Dripping with sin
Do it again
Living Dead Girl

Bem longe dali, Elisa algema os pulsos de Leandro à cabeceira e os pés aos pés da cama.

(more…)

Publicado por Sombra Posthuman em: Agenda | Tags: , , , , , , , , , , , , , , ,
6

Carne II – Ossos do Ofício – Parte 1

Imagem de Albert Wesker retirada da página http://www.gaiaonline.com/profiles/chairman-a-wesker/31614599/

Imagem de Albert Wesker retirada da página http://www.gaiaonline.com/profiles/chairman-a-wesker/31614599/

 

Escritor: Sombra Posthuman

Recomendado para maiores de 18 anos.

 

Para ler antes, ou não:

Carne I – Esqueletos no Armário

 

I… I have this need

I need to see you bleed

I need to taste your brain

Oh God, it drives me insane

Come… come over here, my dear

There’s nothing for you to fear

I need a little piece of your head

So you too can be among the living dead…

 

O ritmo da música eletrônica enche o quarto, dividindo o pouco espaço do aposento com sangue e membros decepados. Elisa move seu corpo seguindo o ritmo, enquanto devora um braço que já pertenceu a um homem. O sangue respinga em sua lingerie branca, já cheia de manchas rubras. Ela se delicia com o momento, como se estivesse fazendo sexo. É uma sena grotesca, mas lambuzada de luxúria, porque para Elisa, isso é um orgasmo.

É o quarto de Mauro, que se transformou em uma câmara de horrores.

– Eu tô gostano desta cidade. – Ela diz com o sorriso de uma criança.

O telefone toca, Elisa larga o membro masculino que lhe dá tanto prazer, chupa os dedos e corre para a sala de calcinha e sutiã e suja como uma criança levada. Ela atende o telefone.

– Alou?…

– Olá, meu anjo, vai fazer alguma coisa hoje?

– Nadinha…

– Então eu vou passar pra te pegar mais tarde.

– Tá bom, vou ficar esperano.

– Vou te levar pra um lugar bem legal!

– Ah, é? Estou curiosa…

– É surpresa. Então até mais, gata.

– Até mais…

É noite,… um homem de batina, coturno e um chapéu preto anda pela cidade com ar de quem não sabe bem para onde está indo. Ele usa um grande crucifixo de prata e óculos escuros, e carrega uma maleta preta. Através dos óculos, olha para a TV em uma vitrine, onde está passando “O Corvo”.

– Victms… aren’t we all? – diz Brandon Lee.

– Cidade grande,…vai ser difícil te achar de novo, Lilith.

Ele continua andando, mas um cego, de rosto deformado, bloqueia sua passagem. Ele o empurra sem hesitar na direção da rua.

– Sai da frente, cego inútil!

O homem cai na rua, enquanto um carro vem rápido em sua direção, buzinando desesperadamente. O cego não tem tempo de reagir e permanece caído na escuridão, apenas ouvindo o som da morte se aproximando. Felizmente, o motorista consegue desviar. O homem da batina, no entanto, continua em seu caminho, sem nem mesmo olhar para trás. Ele se aproxima de uma igreja evangélica e ouve muita gritaria lá dentro.

– O fim está chegando, irmãos! Os sinais estão todos aí! É o fim dos tempos!

– Por mil diabos, assim nem consigo ouvir meus pensamentos!

Para diante da igreja e abaixa os óculos. Sua íris é vermelha como fogo e sua pupila é uma fenda vertical, como de gato. Ele olha para dentro da igreja e, sem razão aparente, o altar é coberto de chamas, juntamente com as roupas do pastor.

– Esses crentes são tão irritantes…

Um carro passa pela rua e as pessoas dentro dele nem se dão conta do que está acontecendo. É Leandro quem está dirigindo o carro, e Elisa está na carona.

– Que lugar é esse pra onde ocê vai me levar?

– Calma, meu anjo, isso é só mais tarde. Agora nós vamos beber e dançar um pouco.

Ele para o carro em frente a um lugar sujo e com pouca iluminação, que parece um galpão, com homens mal encarados fumando na frente. Eles entram e são recebidos por uma garota loira que aparenta ter uns 14 anos, com um short minúsculo e um decote bem ousado.

– Oi, Painho! Vai me pagar um drink?

– Não, hoje não, Gabi. Eu tenho companhia.

– Ok. – E sai sem dar a mínima.

– Painho? – repete Elisa com tom de deboche.

Eles se sentam a uma mesa no canto, e logo um homem barbudo com mais ou menos quarenta anos e cheio de ouro chega para cumprimentar Leandro. Neste momento, passa pela mesa uma mulher linda, usando um chapéu de caubói. Um pouco parecida com Elisa. Algo naquela mulher chama a atenção de Elisa de tal modo, que ela não consegue desgrudar o olhar da misteriosa mulher. A morena de chapéu deixa o estabelecimento e, enfim, Elisa sai do transe.

– Elisa, falei com você, meu anjo.

– Ah, sim, descurpe.

– Este aqui é o Pirata, meu parceiro de negócios.

– Muito prazer.

– O prazer é meu. É uma moça muito bonita!

– Muito agradecida.

– Tem notícias do Mauro? – Pergunta para Leandro.

– Não, desapareceu sem deixar rastro. Só deixou isso aqui pra mim. – Olha para Elisa sorrindo e ela sorri de volta sem prestar muita atenção no que ele está dizendo.

– E você acha pouco? Hehehehe

Uma garçonete traz algo para beber e Elisa bebe enquanto pensa na mulher que viu há pouco. Os homens estão conversando, mas ela permanece distante.

Alguns instantes depois, Leandro chama Elisa para dançar. Eles se levantam e começam a dançar ao som de The 69 Eyes – Dead Girls Are Easy.

Enquanto isso, em outra parte da cidade, o homem de batina toca a campainha em uma casa. O cachorro do vizinho não para de latir, o homem o encara por cima dos óculos escuros e o cachorro foge amedrontado. Um cabeludo tatuado abre a porta.

– Um padre? O que você quer aqui?

– Diego Silveira?

– Sou eu, e você quem é?

– Meu nome é Ukobach.

– Eu não acredito em Deus, tá legal?! – e começa a fechar a porta, mas Ukobach a segura.

– Eu quero saber onde está a mulher do baixo.

– Mulher do baixo, não sei do que cê ta falando, véi. Agora dá licença, que eu tô com o fogo ligado. – E força a porta para fechá-la, mas Ukobach chuta a porta com seu pesado coturno, abrindo-a mais e empurrando o homem para trás.

– Tá maluco?

Ukobach pega o homem pelos cabelos e o arrasta até a cozinha.

– Por que não disse logo? Não queremos desperdiçar gás! Eu sou um ótimo cozinheiro, sabia?

Diego grita e se debate, alcançando uma panela e bate na perna de Ukobach, que parece não sentir nada. Há uma chapa de metal fritando lingüiças e cebola em cima do fogão.

– O jantar está servido! – Ukobach empurra o rosto de Diego contra a chapa e ele solta um grito horrível de dor.

– Vou perguntar de novo, onde está a garota?

– Ah, eu não sei, véi, eu juro!

– Resposta errada. – E empurra novamente seu rosto contra a chapa. Depois o joga no chão. – A gente pode ficar aqui a noite toda! Vai ser muito divertido.

– Duas ruas pra trás, prédio verde, primeiro andar. Procura pela Dália, ela sabe da garota.

– Mas que covarde,… entregando uma mulher tão cedo! Eu disse que isso poderia durar a noite toda. Sabe, o padre dono desta batina resistiu mais.

Ele pega uma faca de cortar carne e corta o indicador da mão direita de Diego, que grita novamente.

– Ninguém gosta de dedo-duro!

Ukobach pega o dedo decepado do chão e guarda em sua maleta. Enquanto isso, Diego pega a faca e crava na perna do homem de batina, gritando “Desgraçado!”. Ukobach se vira e quebra o braço de Diego, fratura exposta. Volta à maleta, pega um gancho e vira novamente para Diego:

– Espero que não esteja mentindo.

– Aaaaaah, meu braço!

– Você não faria isso, faria? – Abaixa os óculos, fitando-o de perto com seus olhos demoníacos.

– Ah, meu deus!

– É, acho que não… Então me diga, já que você gosta de falar, qual é o nome da mulher do baixo?

– Eu te digo, mas, pelo amor de deus, me deixa em paz!

– Feito.

– O nome dela é Luana.

– Luana,… então esse é o nome que você está usando… Agora vamos brincar de açougueiro.

– Não! Você disse que ia me deixar em paz!

– Pelo amor de deus eu menti. – e crava o gancho no ventre de Diego.

De volta à boate, Elisa diz para Leandro que quer ir embora.

– Eu quero ver a surpresa que ocê tem pra mim.

– Está bem, então vamos.

Eles voltam para a mesa e Gabi está sentada no colo do Pirata com o seio esquerdo para fora da blusa em sua mão.

– Até mais, gente, a gente já tá indo. – diz Leandro.

– Mas já, tão cedo? Toma mais uma bebida! – responde o Pirata.

– Não, a gente vai continuar a festa em outro lugar. Nos vemos semana que vem.

Eles pegam o carro e Leandro pergunta:

– Quer parar em algum lugar pra comer alguma coisa?

-Não, eu quero ver logo esse lugar que ocê falou.

– Tem certeza? Não está com fome?

– Dá pra aguentar até mais tarde.

– Tá legal.

Eles se afastam da cidade e vão pro meio do nada. Mas, no meio do nada, se encontra uma luxuosa mansão.

– E aí, o que achou?

– Nossa! O que é isso?

– É o esconderijo que o Pirata me arranjou. Os negócios vão indo muito bem.

– Que legal, é demais de grande! Eu quero ver a casa por dentro!

Eles entram e Elisa corre a casa toda. Para de frente para a lareira e diz:

– Aqui é pra jogar os osso das pessoa, né?

– Elisa, você anda vendo filmes de terror demais!

Ela sai correndo, pois outra coisa chamou-lhe a atenção, enquanto Leandro observa a lareira, pensando seriamente numa nova possibilidade. Ouve um som metálico, se vira e vê Elisa segurando uma katana desembainhada, apontada para ele.

– Olha só o que eu achei!

– Muito cuidado com isso, está afiadíssima. E você não vai querer machucar este lindo corpinho, vai? – Coloca a espada de lado e acaricia seu rosto. – Vou te mostrar o nosso quarto.

Um homem de pseudo-moicano anda pela calçada de uma rua deserta com uma camisa camuflada, onde está escrito: “EXÉRCITO DE CRISTO”. Ele caminha, cantando um funk, quando vê folhas de jornal no chão e se inclina para olhar. É uma reportagem sobre o incêndio na igreja.

– Cacete!

Enquanto ele observa, inclinado, um morcego que estava pendurado em uma marquise atrás dele toma forma humana e o agarra por trás. Ele tenta reagir, mas relaxa quando recebe uma mordida no pescoço. O predador é a mulher de chapéu que Elisa viu na boate, mas ela está nua. A presa entra em um estado de êxtase e fica completamente mole, indefesa, enquanto a vampira o puxa para a sombra e suga todo o seu sangue pela jugular. Quando ela parece finalmente saciada, solta o corpo do homem, mas se surpreende ao ouvir uma voz.

– Olá, Lilith. – Um homem, aparentando uns trinta anos, cabelos negros em asa delta, roupas pretas e um crucifixo de madeira pendurado no pescoço, sai de trás de uma banca de jornal. – Venho observando você há um tempo. – Ela fica alerta como um animal ameaçado. – Vampiros realmente existem! – Ela começa a andar em sua direção, olhando em seus olhos. O homem saca uma pistola: – Não se aproxime. – Ela sorri. – Eu vim buscar você, Cabuçu deseja vê-la.

– Cabuçu? Ele está aqui?

– Chegou ontem e quer falar com você, por favor, venha comigo.

Luana se move como um raio e tira a arma da mão do homem, mas ao tentar estrangulá-lo, tem sua mão queimada misteriosamente. Ela geme de dor e salta para trás, segurando a mão, suas presas aparecem e seus olhos ficam vermelhos. Ela fita o homem, com raiva, mas ele não parece amedrontado.

– Eu não quis te ferir. Nem sei o que aconteceu. Tome, vista meu casaco. – Ele joga o casaco para ela.

– Você vai na frente, eu te sigo à distância.

Eles caminham por algum tempo, até que chegam a uma casa humilde. Ele entra e deixa a porta aberta, Luana entra em seguida. Sentado diante de uma mesa com vários livros está o velho deformado que foi empurrado por Ukobach. É um velho índio que usa óculos escuros.

– Senhor Cabuçu, trouxe a vampira, como me pediu.

– Lilian, ocê tá aí?

– O que houve com os seu rosto, Cabuçu?

– Ashur mandou um demônio atrás de mim, ele se chama Anamane. Mas não era meu destino morrer naquele dia. Perdi minha mãe e a visão, e fiquei com o rosto deformado.

– Eu sinto muito. O demônio também veio atrás de mim e eu também perdi uma pessoa querida.

– Você deve ter sofrido muito… Ashur deixou este mundo, e eu me preparei por todos esses anos para me vingar do demônio que levouseu irmão e a minha mãe.

– Você devia fazer como eu, Cabuçu, esquecer de tudo, deixar o passado para trás.

– Às vezes o passado te apunhala pelas costas, Lilian. O demônio está aqui em BH, veio atrás d’ocê novamente. Os espíritos ancestrais me disseram que vários destinos vão se reencontrar nesta cidade e que vida e morte estão nessa encruzilhada.

– Se ele veio me destruir, deixe que venha. Minha existência não possui nenhum propósito. Só o que faço é matar pessoas inocentes quando a fome se torna insuportável.

– O demônio não deve alcançar seu objetivo! Seja ele qual for!

– Eu lamento, Cabuçu, sou grata por você ter me ajudado a fugir de Turmalina, mas não vou ajudar na sua vingança. – Ela se vira e sai.

– Espera! Ele está indo atrás de você! É um demônio!

– Deixe, Ângelo! Ela não vai ajudar. Pelo menos não agora, os espíritos disseram que a mulher de Turmalina iria se unir a nós contra o demônio.

– Talvez ela mude de idéia.

Ukobach está diante de um prédio pequeno e simples, sem porteiro, quatro andares. Enquanto anda em direção à porta do prédio, as plantas do jardim murcham com a sua presença. Ele abre sua maleta e de dentro dela sai uma corrente enferrujada com elos de ganchos, como um enforcador de cachorros. A corrente se ergue no ar como uma serpente e tem várias agulhas na ponta. Essas agulhas entram na fechadura da porta e a abrem. Ele segue pelo corredor e faz o mesmo na porta do apartamento. Anda silenciosamente pela sala escura e é violentamente atingido na cabeça, caindo no chão imediatamente. Ele olha para os óculos quebrados no canto da sala e tenta se levantar, mas é atingido novamente pelo pedaço de madeira segurado por Dalila, uma jovem de moicano, cheia de tatuagens e piercings, usando um baby doll.

De repente, a madeira em sua mão começa a pegar fogo espontaneamente. Ela joga a madeira no chão, assustada. Ukobach se levanta.

– Você é Dalila?

– E você é o Demônio?

– Um deles. Mas não é você que eu quero. Vim lhe perguntar: onde está Luana? – Pega a maleta do chão calmamente.

– Que tipo de demônio é você, que não consegue achar uma garota?

Ele abre a maleta e dela saem quatro correntes, que seguram seus membros e a erguem no ar.

– Eu faço as perguntas aqui.

– Você tá perdendo seu tempo, cara!

– Eu tenho todo o tempo do mundo.

As correntes começam a se enroscar por suas pernas, até suas virilhas e a apertar. Dalila começa a gemer de dor.

– É bem mais divertido quando vocês não cooperam.

Correntes finas com pequenos ganchos se enroscam pelo seu tronco, rasgando sua blusa e sua pele.

– Dá pra perceber que você gosta de furar a própria pele. Acho que você vai adorar a nossa brincadeira!

– O prazer é todo seu!

As correntes finas envolvem e apertam seus seios e novas correntes prendem ganchos em todos os seus piercings: no nariz, nas orelhas, na boca, na língua, nas sobrancelhas, nas bochechas, nos mamilos, no umbigo e na vagina. E começam a puxar bem devagar. Ela geme novamente.

– Vou perguntar novamente: Onde está Luana?

Ela tenta dizer algo, mas as correntes na boca não permitem. Ukobach tira as correntes do lábio inferior e da língua.

– No seu rabo, filho da puta!

As correntes voltam, mas Dalila fecha a boca, impedindo que uma delas pegue o piercing da língua. Elas começam a esticar a pele da garota nos locais dos piercings e ela grita mais alto. Aos poucos, os piercings vão sendo arrancados um a um e Dalila grita de dor. Ukobach observa as gotas de sangue que pingam no chão até que todos os piercings são arrancados. Uma corrente se enrosca na boca de Dalila, impedindo que continue gritando.

– Parece que você perdeu todos os seus piercings. Vamos providenciar novos.

Várias correntes finas com pequenos ganchos na ponta saem de dentro da maleta e cravam em várias partes do corpo de Dalila. As correntes começam a puxar.

– É surpreendente a elasticidade da pele humana, não é?

As correntes vão esticando a pele aos poucos e a tortura continua por um bom tempo, até que a pele começa a arrebentar. E as correntes vão caindo uma a uma. Dalila geme de dor, não pode mais gritar.

– Eu poderia ficar a noite toda nisso, mas tenho outras coisas pra fazer, então vou te dar logo o que você tanto quer!

Ukobach sorri, enquanto uma corrente grossa sai de dentro da maleta. Sua ponta é formada por vários discos empilhados, como uma broca, com pequenos pregos apontados para fora, como uma clava. Cada disco gira em um movimento de rotação oposto ao anterior. A ferramenta faz um barulho infernal. Dalila arregala os olhos.

– Não seja tímida! Eu sei que você está ansiosa pra ter este instrumento dentro de si!

A broca se aproxima de Dalila e ela começa a se debater. Ela entra em seu short pela virilha e penetra entre suas pernas. Continua subindo até o útero, derramando uma grande quantidade de sangue no chão. Depois de algum tempo, a broca sai.

– Dalila, foi um grande prazer brincar com você. Eu me diverti tanto, que resolvi fazer um trato. Pare de resistir e junte-se a mim, eu pouparei sua vida e lhe concederei poderes incríveis. Nada poderá se colocar em nosso caminho. O que me diz?

A corrente que tapava a boca de Dalila é retirada. Seu rosto está machucado por causa dos ganchos de enforcador. Ela cospe sangue e fala com muita dificuldade:

– Vai pro inferno, seu corno! – Ukobach fica desapontado.

– Você primeiro.

A corrente volta para seu lugar e as pequenas poças de sangue do chão começam a se transformar em formigas africanas.

– Essas formigas entrarão pelos seus orifícios e lhe comerão lentamente por dentro. Aproveite cada segundo! Nada pessoal, são ossos do ofício.

As formigas sobem pelas correntes e pelas pernas de Dalila, até entrarem no seu short. Ela geme e se debate desesperada.

– Espero que não se importe se eu me ausentar, já vi esse espetáculo milhares de vezes.

Ele passa pelo corredor do apartamento e vai até o quarto de Dalila. Lá, ele encontra um flyer do show do dia seguinte.

– Já este espetáculo, eu não vou querer perder!

Publicado por Sombra Posthuman em: Agenda | Tags: , , , , , , , , , , , ,

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