O Nerd Escritor
Feed RSS do ONE

Feed RSS do ONE

Assine o feed e acompanhe o ONE.

Nerds Escritores

Nerds Escritores

Confira quem publica no ONE.

Quer publicar?

Quer publicar?

Você escreve e não sabe o que fazer? Publique aqui!

Fale com ONE

Fale com ONE

Quer falar algo? Dar dicas e tirar dúvidas, aqui é o lugar.

To Do - ONE

To Do - ONE

Espaço aberto para sugestão de melhorias no ONE.

Blog do Guns

Blog do Guns

Meus textos não totalmente literários, pra vocês. :)

Prompt de Escritor

Prompt de Escritor

Textos e idéias para sua criatividade.

Críticas e Resenhas

Críticas e Resenhas

Opinião sobre alguns livros.

Sem Assunto

Sem Assunto

Não sabemos muito bem o que fazer com estes artigos.

Fórum

Fórum

Ta bom, isso não é bem um fórum. :P

Projeto Conto em Conjunto

Projeto Conto em Conjunto

Contos em Conjunto em desenvolvimento!

Fan Page - O Nerd Escritor

Página do ONE no Facebook.

Confere e manda um Like!

@onerdescritor

@onerdescritor

Siga o Twitter do ONE!

Agenda

Agenda

Confira os contos e poemas à serem publicados.

Login

Login

Acesse a área de publicação através deste link.

conto da noiteO Conto da Noite
Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

>> Confira outros textos de Evandro Furtado

>> Contate o autor

* Se você é o autor deste texto, mas não é você quem aparece aqui...
>> Fale com ONE <<

0

All Star #35

As vezes acho que acredito que todo mundo nasce com um destino traçado. Tipo, independente do que você faça as coisas vão acontecer, de um jeito ou de outro. Aposto minha vida com a Júlia nisso, mas esta começando a ficar difícil de acreditar. Fiquei sabendo que ela esta ficando com um cara que já esta na faculdade. Não conheço o bastardo, e nem estou afim de conhecer. Agora todas as garotas que eu vejo tenho vontade de beijar, só para ela saber como eu me sinto vendo ela com outro cara. Mas acho que ela não vai sentir a mesma coisa. Queria que ela soubesse de tudo isso. Também queria que esta porra de aula de física nunca tivesse começado. A Paula fez um bilhetinho passar de mão em mão da primeira a última carteira até chegar em mim. “Eu e as meninas queríamos ir na sua casa mafu nhacoma hoje a tarde.” “Nem tudo acontece do jeito que a gente quer”; era o que eu devia ter respondido. Mas como um ser humano pacífico e otário confirmei o rolê. Tinha comprado o CD novo do Eagles of Death Metal e queria cantar Now I’m a Fool para a Júlia, mesmo que ela não entendesse nem o porque nem a letra.

Aleguei uma dor de cabeça indecente e fui para casa antes de ter que encarar a aula de biologia. Passei as aulas quase que dormindo, meio longe, sair mais cedo adicionava algum mistério sobre a vida para as meninas. No caminho parei na Curva de Rio Discos para comentar com o Dé sobre o livro do Mutarelli que tinha acabado de pegar. “Será que o cara não tem medo de escrever uma história como essa?” “Medo do que?” “Sei lá. Um policial assassino apaixonado por uma travesti. Eu pensaria que todos os policias do mundo estariam querendo me matar por causa disso.” “Tem muito mais que isso no livro. Esse é só o enredo.” As vezes acho que acredito que todo mundo tem um plano de vingança secreto contra alguma coisa que odeia. Se eu fosse um policial talvez eu odiasse o Mutarelli por ter escreto Miguel e os Demônios. Tenho medo de estar andando com ele na rua e um policial me parar, pegar o livro e dizer: “Porque você esta lendo esta porcaria? Você acha que policial é viado? É isso?” Enfim, como diz o meu avô “até provar que focinho de porco não é tomada o coitado morreu com o choque”.

Quando sai da Curva de Rio vi a Júlia subindo a pé sozinha. Ela também devia ter dado o migué na aula de biologia. Fiquei com cara de expectativa zero esperando ela chegar até mim. Ela também não parecia a garota mais feliz de todos os tempos. “Acho que não vou a tarde na sua casa com as meninas hoje?” Queria ter dito: “Se eu soubesse que você não ia não tinha topado.” Mas saiu só um “Por quê?” murcho. “Não sei, não estou me sentindo bem.” “Fumar um pode te ajudar.” “Não sei. Talvez o problema seja esse. Estou fumando demais.” “Duvido que o problema seja esse.” Falei dando uma risadinha de leve, que ela retribui. As vezes acho que acredito que a vida da uns sinais sobre o destino. Aquilo era um sinal. “Também não ando muito bem, mas acho que não é por estar fumando muita maconha.” “Porque então?” “Sei lá, tudo que eu faço dá errado, não vou passar no vestibular nem para ser lixeiro. Não estou feliz.” “Porque não? Tudo que você faz é legal, todo mundo queria ter uma vida como a sua.” “A grama do vizinho é sempre mais verde, até você perceber que é artificial.” “É. Vou virar aqui. Até mais.” “Beijos! Aparece lá mais tarde….não me abandone.” Falei colocando a mão no peito e fazendo uma cara de cão sem dono. Ela rio e se foi me deixando cheio de esperança.

Cheguei em casa e tirei uma soneca depois do almoço para ver se recuperava o ânimo. Quando voltei a vida pensei que a única coisa que poderia salvar o dia seria a Júlia aparecer com as meninas. Sem ela preferia passar a tarde sozinho escutando um som e viajando na maionese. Coloquei uns clips do Aerosmith na televisão e comecei a bolar baseados em linha de produção. No terceiro a Alina chegou com a Paula. “Meus Deus. Essas meninas dos clips do Aerosmith são demais. Nunca vou ter um corpo assim.” As vezes acho que acredito que todo mundo só pensa em sexo. Tem gente que parece que vai na padaria não para tomar café, mas para ver se acha alguém para transar. Queria perguntar se elas sabiam se a Júlia vinha, mas não queria que elas percebessem que meu único interesse na tarde era esse. “Estamos esperando mais alguém ou podemos acender esse baseado?” “Se mais alguém chegar a gente não pode acender outro?” Não era exatamente a resposta que eu esperava, mas fazia bastante sentido.

Quanto mais o tempo passava mais eu tinha certeza que a Júlia não ia vir. No fim a gente queria a mesma coisa, passar a tarde sozinhos. Ela deve ter conseguido, ou não, o cretino que ela esta ficando poderia estar lá com ela tentando fazer ela melhorar. As vezes acho que acredito que nós dois ficarmos juntos é inevitável, só preciso ter um pouco de paciência. Estava todo mundo em transe com o clip de Crazy. “Como pode a Liv Tyler ser filha desse monstrinho?” “Ele não é tão monstrinho.” Não era a filha dele que a Paula queria ser. “Acho que ela é um tesão.” A Alina não segurou seu lado lésbica e deu uma risada sexy quase interminável. Será que a Liv Tyler tinha uma turma como a nossa? Que passava a tarde fumando maconha e falando de Rock’n Roll? Será que a Júlia esta sozinha? Acendi mais um baseado e me ajeitei na cama como quem vai dormir. As duas entenderam a mensagem e foram embora depois do cigarro pós-baseado.

0

O amor eterno

Foto | Antimidia

Foto | Antimidia

Três anos depois de entrar para faculdade de arquitetura Camila já sabia que poderia ser muitas coisas na vida, mas não arquiteta. Sentada em cima da mesa do Dr. Fernandes, com uma taça de vinho e a perna aberta, ela nem queria. Ele dispensou o copo de wiskey e posicionou sua cadeira de modo a não precisar abaixar muito para se enfiar em baixo do vestido de colegial dela. Em uns doze minutos ela tinha acabado com o serviço e em mais dez estava descendo o elevador do Business Money Tower. Passando pelo lobby perguntou para o Seu Antenor, só para ter assunto, “alguém mais me procurou?” Apenas o fato de ele responder mais que uma palavra já a preocupou. “Doutor? Não, mas hoje mais cedo veio um cara dizendo que era policial perguntando de alguém com o seu nome e muito parecida com a Senhorita.” “E o que você respondeu?” “Que não, mas ele disse que voltava.” “Obrigado querido, você é um amor. Se ele voltar de novo você me avisa, tá?” Ela pediu dando um beijo no rosto dele e comprimindo seus peitos na cara dele.

Sempre que estava com o pé rua ela olhava para todos os lados para tentar se certificar que ele não estava atrás dela. Paulo estava esperando na entrada do flat, sob o olhar atento e preocupado do porteiro. “Vamos conversar?” “Nós já falamos tudo que tínhamos para falar. Por favor Paulo, vá viver a sua vida.” “Minha vida é com você. Isso não esta certo!” Com a ordem de segurança nas mãos, que dizia que ele não podia se aproximar mais que 50m dela, Camila advertiu em tom sério: “Se você não sair da frente do prédio eu vou chamar a polícia.” “Não adianta Dona Camila. Ele fica sentado ali na curva olhando.” Interveio Manuel do alto falante ao lado do portão. “Vai cuidar da sua vida porteiro de bosta!” “SOME DA MINHA VIDA!” Ela parou na portaria nervosa e falou para o porteiro: “Se ele estiver a menos de 50m da entrada do prédio chama e polícia e mostra isso para eles.” Ele pegou o papel e foi até o portão. “Ei, camarada, acho que você não vai conseguir mais nada aqui. Procura um bar longe daqui e enche a cara. Amanhã quando você acordar só segue em frente.” Ele saiu agitando o papel. Paulo andou uns metros na calçada, subiu numa árvore e começou a rezar. Ficava observando todos que entravam no prédio. Na sua cabeça os homens eram todos clientes de Camila, menos os gays, e as mulheres eram todas garotas de programa.

Sem ter tempo a perder ela arrumou o apartamento e acendeu uns incensos. Construiu um ninho de amor na banheira com espuma, umas toalhas dobradas e pétalas de rosa. Colocou pilha no vibrador e deixou ele a mão junto com outros brinquedinhos. Pouco depois de terminar de se maquiar o interfone tocou. “Dona Camila? Posso deixar o Senhor Marcos subir?” “Sim Manu, obrigada.” “Olha, aquele outro esta em cima de uma árvore aqui do lado do portão dos carros. Já chamei a polícia mas eles não vieram. A Senhora quer que eu te ajude a resolver isso? Ele não vai mais querer chegar perto da Senhora.” Ela negou a oferta da surra e esperou a campainha tocar na frente da porta. Quando Marcos entrou ela já estava de cinta-liga e pronta para atacar. Ele tirou a roupa e foi para cima dela com tamanho apetite que não conseguiu chegar até o ninho de amor do banheiro. Só precisou do vibrador que Camila foi buscar com entusiasmo quando solicitado por ele. Ela prendeu uma cinta na cintura, encaixou o troço e fodeu ele com força. Ele se divertiu tanto que até se ofereceu para pagar uma pizza e bater o papo por metade do preço da hora. Ela topou e os dois só não dormiram porque Marcos tinha que ir buscar o filho na escola de inglês. Depois de dois clientes e um barraco Camila dormiu assistindo o jornal.

Quando acordou de manhã estava preocupada com Paulo. Interfonou para portaria e perguntou para o Jonas, porteiro do diurno, se ele ainda estava na árvore. “Acho que não Dona Camila.” Ela tentou falar com a irmã dele para ajudar ele a seguir com a vida, mas ela não atendia mais as ligações desde que Camila pediu a ordem de segurança. Um tanto quanto insegura ela continuava tentando ajeitar a vida. A jornada ia ser tripla, sendo que só o último cliente ela atenderia em sua casa. O primeiro era um político do sul que gosta de transar minutos antes de reuniões importantes. Como ele tinha uma destas ela ia encontrar ele num hotel perto do centro de convenções. Depois almoçaria com uma amiga no shopping e iria para o consultório de um dentista na zona sul, para no fim da tarde encontrar o Marcos no flat. Não dava um passo sem tentar olhar para todas as direções em busca de Paulo. Era difícil se convencer de que ele não a estava seguindo.

No caminho para o centro de convenções recebeu uma mensagem adiando o encontro. O prefeito tinha solicitado uma reunião e a diversão ia ter que ficar para outro dia, por que no fim da tarde a agenda de Camila já estava cheia. Com tudo, o almoço com Karen ganhou um pouco mais de tempo e as duas ficaram batendo perna no shopping. “Estou pensando em sair do flat e comprar um apartamento na zona sul. Quero independência do Marcos.” “Cuidado amiga, você já tem um ex louco atrás de você. Te disse para não aceitar dinheiro do Marcos sem sexo. Ele esta apaixonado por você.” “É diferente. O Paulo foi meu primeiro namorado, e eu a primeira namorada dele. Perdemos a virgindade juntos, ficamos dez anos juntos. O Marcos é casado, tem filhos, família. O que ele gosta em mim é outra coisa, e vou continuar dando, ou ele vai continuar.” As duas riram alto e todo mundo olhou. Vendo toda aquela felicidade Paulo não se controlou. Apareceu repentinamente detrás de uma pilastra e acertou dois tiros em Camila. Depois caiu ao seu lado e pediu desculpas antes de atirar contra a própria cabeça.

0

Bebida, diversão e balé

Imagem | Antimidia

Imagem | Antimidia

A pressão baixa + o calor + o álcool me fizeram desidratar na cama. Deve ser por esse tipo de coisa que estou fadado a acordar o resto da vida sozinho. Ainda assim me parece mais negócio continuar nadando no meu próprio suor à levantar e encarar a vida com tudo que ela tem para me dar. Não tenho certeza se sou gente de verdade. Me falta vontade. Sobra fobia. Talvez eu seja uma mistura de filho da puta com escroto. O telefone começa a tocar e espero a secretária eletrônica atender. Poderia ter uma versão eletrônica de mim para sair por aí fazendo tudo que eu tinha que fazer. “Você me ligou para encher o saco, não espere que eu retorne….piiiiii……” “Ei! Neb! É o Tony. Me liga quando puder…..precisamos falar sobre o recital na escola das freiras, já é depois de amanhã. Abraços!” Precisamos nascer de novo. Desta vez como o Tom Cruise ou o Brad Pitt. É disso que precisamos. Acabei de decidir que hoje é feriado.

Meu cheiro berrava que eu devia tomar banho, meu corpo pedia um banho, mas eu preferia um café com cigarro e um pouco de rádio. Não tinha uma penela limpa, então esquentei a água numa caneca de alumínio. “(Narrador 1) Em São Paulo a Câmera dos Vereadores vota hoje o projeto que pretende criar um pedágio para pedestres no Viaduto do Chá. (Narrador 2) Além de aumentar a arrecadação da cidade, a polícia acredita que o pedágio pode diminuir a violência na região.” Claro que vai! Quem vai querer andar por lá pagando pedágio? Queimei a mão na hora de pegar a caneca e derrubei água no fogão para terminar de foder com tudo. Salvei o suficiente para uma xícara. “(Narrador 1) Voltou a chover dinheiro no Vietnã. (Narrador 2) Um empresário de Saigon, revoltado, preferiu jogar sua fortuna pela janela à pagar os impostos e tachas bancárias.” No único dia da história que valia a pena estar no antigo campo de guerra americano/soviético, eu não estava lá. Mas é bom fazer umas caminhadas pela Berrini, só para correr o risco. As notícias não estão ajudando. Shhiii…..Shoennn…..innn….“? go straight to hell boys; go straight to hell boys….?” O velho Clash era tudo que queria para embalar minha sesta pós cigarro com café.

Quando pensei que ninguém nunca mais ia lembrar da minha pesarosa existência, a campainha tocou. Fiquei sem me mexer no sofá uns segundos na expectativa de que fosse só um vendedor de bíblia sem persistência. Mas não. A campainha continuou. Depois da terceira vez comecei a acreditar que a alma penada não ia desistir. “E ai? Você é o Neb escritor?” Eram dois estudantes. Ao menos era o que pareciam. “A gente lê seus poemas desde sempre, você é foda!” Estavam carregando um fardinho de cerveja cada um, mereciam alguma consideração. “A gente também escreve, e trouxe algumas coisas para você ver.” “Estão ruim.” “Mas você ainda nem viu.” “Se estiver ruim sou sincero o suficiente para dizer que esta ruim, se estiver bom vou ficar puto porque não fui eu que escrevi e vou dizer que esta ruim. Ainda querem entrar ou só vieram entregar a cerveja?” Os dois passaram pela porta procurando qualquer coisa que pudesse ser descrita como “oh, que legal isso!”, mas eu não tinha nada. Mesmo assim eles pareciam estar descobrindo um mundo novo. “Tem coisa escrita por toda a parede!” “Também escuto esta rádio!”

Peguei três latas e coloquei o resto no congelador. Voltei para sala e um deles tinha acendido um baseado. “Você mora aqui sozinho?” “Tenho alguns Aliens na cozinha, mas é como se eu estivesse sozinho.” “Sua casa é muito louca, dá para ver todos os seus poemas aqui.” Não me senti elogiado, e a linha bate papo fã/ídolo não estava fazendo a cerveja valer a pena. “Não me enche o saco. Se você der sorte daqui a pouco vai estar lendo Kits e Baudelaire, e achando que eu sou só um idiota. Ou você pode começar a ler Augusto dos Anjos e ser um próprio idiota.” Um olhou para o outro sem saber o que fazer. Demoraram uns três segundos para esboçar uma risada. “Você não gosta de nada que é brasileiro, né?!” “Vocês ainda aprendem que o start da literatura brasileira foi a carta de Pero Vaz de Caminha? Por isso que a faculdade de Letras está abandonada.” “Do que você gosta?” “Isso de novo? De nada!”

Depois de me escutarem dizer que a Tropicália foi um movimento de burgueses hipócritas, e rock’n roll é uma atitude que o Elton John nunca teve, os moleques foram embora meio bêbados e achando que eu era quase um herói escondido na jungle. Até queria me sentir bem como tudo aquilo, mas para onde olhava a minha volta havia um sinal claro da minha imbecilidade. Poucos segundos depois que eles saíram a campainha tocou de novo. Pensei que meus fãs iam querer as latinhas que sobraram. Decidi que não abriria a porta. Já tinha pagado o preço do sucesso por hoje. Então escutei uma voz que parecia da Mary me chamando. “Neeeeeb!” Uma boa trepada era algo que não esperava neste dia cheio de indas e vindas, mas……let’s go! Por um segundo acreditei que Deus estava olhando por mim. Abri a porta e me deparei com uma mulher grávida. “Oi Neb.” Ela parecia feliz. Virei as costas, peguei o telefone, e liguei para o Tony.

0

Como mandar dois quarteirões para o espaço

Imagem | Antimidia

Imagem | Antimidia

O cara achava que era o Rambo, com faixinha na cabeça, uma metralhadora e um monte de músculos. Ele parecia não entender que o Rambo era o Stallone interpretando um soldado revoltado, e ele era só um traficante cretino, cercado por nóias imbecis, e tudo que ele sabia sobre coragem era apertar o gatilho. Depois de um tempo comecei a acreditar que estes caras imitam os filmes, que criam esteriótipos que facilitam o trabalho da polícia. E no clima de uma cena de Snatch, o pinto murcho e as bolas furadas saíram de um carro pequeno e batido sem ter a menor ideia do que estava acontecendo. Três velhos gordos, com ternos coloridos, saídos dos fundos da casa do Scorsese, saíram de um sedã que estava alguns metros a frente. Outros dois estavam numa mini van branca parada numa viela um pouco atrás do Cadillac FIAT. Ninguém ali parecia entender muito de negociações escusas em becos esquecidos a meia luz. “Quem é o motorista?” Perguntou um dos italianos, com uma mão penteando o bigode e um trinta e oito tipo Charles Bronson esmagado entre sua barriga e a calça sem botão. O Rambo levantou a mão como um aluno de sétima série respondendo a chamada. “O freio não esta muito bom, precisa de umas duas bombadas antes da Van começar a parar.” O furgãozinho fodido se aproximou e parou do lado deles. “O que vocês tem que fazer é entregar a Van, pega as maletas, e volta, certo?” Todo mundo balançou a cabeça para frente e para trás.

Uma bola furada e o pinto murcho subiram na Van, enquanto o outro voltou para a lata velha e foi seguindo eles. Nossos super-heróis do crime organizado andaram alguns quarteirões no sentido do ponto de encontro dois quando o líder da companhia presepada parou. A bola furada do banco do passageiro desceu e veio na direção da outra, que não entendia nada do que estava acontecendo e não tirava a mão de sua arma. “A gente estava pensando, e é melhor você ir na Van. Eu dirijo melhor que você para a fuga.” “Que? Você esta com medo e quer ficar no carro…..já esta tudo acertado, eu venci o par ou ímpar.” “Você também já atirou. A gente precisa de alguém experiente na linha de frente.” “Atirei porra nenhuma. Já disse que não fui em que acertou aquele policial no assalto do motel. Eu sai correndo pelo mato.” Os dois ficaram ali debatendo enquanto o mundo girava, e uma moto virou a esquina a toda velocidade. Os atiradores frustrados apertam suas armas entre os dedos enquanto o motoqueiro passou sem ter ideia do quão esteve tão próximo de duas amebas. “Puta que parei! Isso não vai ficar assim! Vou querer um pouco da sua parte!” O motorista sai esbravejando para virar passageiro.

Ainda assim os três patetas tinham algum tempo, e antes de chegar ao destino da mercadoria houve uma parada para ir ao banheiro num posto de gasolina. “Ei, é droga mesmo que a gente esta carregando? As caixas são grandes, e não parecem pesadas.” “Eles falaram que era. Agora que você quer conferir?” “Não vou mexer em nada, não. Vamos acabar logo com isso. Quero a grana.” O carro parou na esquina da entrada do beco, enquanto a Van entrou, e precisou de doze manobras para conseguir fazer a volta e estacionar de frente para saída. “Vai ficar mais fácil para eles saírem depois.” Alegou o pinto murcho, enquanto a bola furada reclamava do barulho que o motor daquela joça fazia. Enquanto o pinto murcho apertava sua faixinha na cabeça, e incorporava toda a inteligência de castor do Rambo, um carro preto brilhando entrou no beco. As mulas olharam uma para a outra e desceram da Van. Quatro engravatados vestidos como o Will Smith em MIB saíram das quatro portas que se abriram sincronizadamente. Os dois do banco detrás carregavam as maletas. Os outros dois começaram a avançar na direção dos dois ladrões de motéis. “Calma aí parceiro. Quero falar com os dois das maletas, fica paradinho aí.” “Precisamos conferir a mercadoria.” “Tudo bem. Um de vocês dois vai lá com meu amigo ver. O outro continua longe.” Um dos MIB começou a andar na direção do pinto murcho, que olhou para o Rambo como quem berrava: “não quero abrir aquelas caixas!” O Rambo fez cara de bom senso, e um sinal com a arma, para que ele fosse.

Quando a porta do forgão se abriu o pinto murcho liberou a passagem para o MIB entrar como se dissesse: “não quero saber o que tem aí.” O MIB entrou, abriu a tampa das caixas sem nenhum esforço, checou tudo, e saiu. Depois indicou com a cabeça para os outros que estava tudo como o planejado. Os MIBs das maletas se adiantaram e as entregaram para a dupla dinâmica, e elas sim estavam pesadas. A bola furada não estava preparado para aquilo e deixou a sua cair no chão. O barulho seco e duro chamou a atenção de todos, que prontamente mostraram suas caras de “meu Deus fodeu!”. Com as duas mãos para cima, e se preparando para ser fuzilado, ele se desculpou e com as mesmas duas mãos, e muito esforço, pegou a maleta. “Cuidado com o freio desta Van, precisa dar umas bombadas antes de parar”, ele ainda falou. Van e carrão preto saíram como se não tivesse trânsito. Rambo e o fracote entraram na lata velha desconfiados do peso da maletas. “Devíamos ter conferido o que tinha dentro delas como os caras. Você é muito burro! Não é dinheiro que tem aqui!” “Porque você não falou isso na hora, gênio?” “Porque não era você que estava no comando, chefe?” “Ei! Vocês dois! Vejam o que tem nas maletas.” A bola furada que tinha ficado no carro resolveu que queria provar o seu valor. O trinco era simples, e eles deitaram as duas maletas no banco de trás e abriram elas simultaneamente. Tinha alguns fios, ligados a outros fios e uns blocos que pareciam massinha. Os três se olharam e o pinto murcho sentenciou. “Vamos nos livrar disso e pegar nosso dinheiro.”

No ponto de encontro um, os carcamanos do Scorsese já estavam esperando eles quando a lata velha apontou na viela. Os quatro rechonchudos italianos, e seus trinta e oitos de Charles Bronson, desceram do Cadillac FIAT rindo. “Ma que….não falei que eles eram bons. Dá o dinheiro deles que eles merecem Vini”. Do outro lado o pinto murcho, inflamado pela faixinha do Rambo, se postou a frente das bolas furadas, que seguravam cada uma uma mala. “Eu achei que estávamos aqui tratando de negócios, drogas, e não bombas. Para carregar bombas eu cobro mais.” Os bigodudos italianos não estavam mais rindo. “Te contratei para entregar uma Van e me trazer duas maletas. O resto não é problema seu. Vamos acabar com isso e comemorar o sucesso do nosso negócio com fettuccine e vinho.” Então o Rambo soltou um peido que inchou sua calça de couro. Os carcamanos dos Scorsese se assustaram e começaram a atirar a esmo. O Rambo foi o primeiro a cair cagado e cheio de bala. Se o Stallone visse teria vergonha de si mesmo. O pinto murcho que, supostamente, sabia atirar, se jogou no chão e começou a chorar. Algum dos carcamanos gritou “cessar fogo, porra!” Mas ninguém escutou. O pinto murcho cagão ergueu a maleta na altura do peito para se proteger. Uma bala perdida acertou a maleta e dois quarteirões inteiros foram varridos do mapa.

0

Exprovado

Imagem | Antimidia

Imagem | Antimidia

Seu Augusto era professor, e achava que a meritocracia era a democracia aplicada a nível de individuo. Para ele, se alguém não tinha alguma coisa era porque não merecia, não tinha batalhado ou estudado o suficiente, não era digno, logo era um vagabundo. Quem escutava Bob Marley era maconheiro, rave era para jovens drogados e quem falava sobre Marx não merecia respeito. Gostava de ir à missa nos domingos de manhã, para que todos vissem que ele jamais acordava depois das sete. Morava numa casa grande, num condomínio, e dirigia um sedã, sempre, notavelmente, enceirado a mão. Também tinha uma casa na montanha, outra na praia e um sítio. Era o exemplo claro do que seu pai o fez crer que era o sucesso. Do ponto de vista de Seu Augusto qualidade de vida era um conceito vago que servia para justificar o fracasso.

Não usava roupa amassada ou tênis sujo. Estava sempre com um relógio de pulso. Aparava o cabelo, e a barba, semanalmente. Só tomava cerveja artesanal e fumava charuto dominicano, porque não queria colaborar com o regime cubano. Não via com bons olhos aglomerações ou festas populares. Não tolerava excessos. Acreditava, que, demonstrar felicidade em público era, quase, uma fraqueza. Era adepto das novas tecnologias de comunicação e as usava para sempre estar por perto da sua família. Seu Augusto cobrava de seus filhos que eles fossem perfeitos. Exigia que sua esposa fosse discreta, e que sua faxineira usasse o uniforme sempre impecável. Seus pais o chamavam de Augustinho, forma que ele não permitia que mais ninguém se referisse a ele.

Para os vizinhos, Seu Augusto era só um acadêmico, do tipo caxias metódico estudioso. Alguém que durante a faculdade não foi fundo na vida. Quando era garoto nunca roubou um salgado da padaria. Na escola deve ter sido daquela tribo dos inteligentes que passam desapercebidos. Se mantinha longe de confusões e não se intrometia numa injustiça que não tinha sido cometida contra ele. Tinha crescido sem privações ou felicidade. Nunca era visto do lado de fora da casa ou do carro. Era a favor do impeachment, desde que isso fosse para mudar alguma coisa. Jogava xadrez, mas não considerava isso exatamente um esporte. Achava que Darcy Ribeiro e Paulo Freire eram agitadores. Seu Augusto não morreria por nenhuma causa nem ninguém.

Aprovava o casamento homossexual, desde que não fossem seus filhos. Era contra o aborto e a legalização da maconha, mesmo sem saber bem o porque. Via a publicidade como algo perverso, mas gostava de assistir o jornal. Costumava resmungar baboseiras enquanto via televisão. Pagava seus impostos em dia e dizia que sonegadores tinham que queimar no inferno. Pedia CPF na nota fiscal toda vez que comprava alguma coisa. Gostava de O Processo e não entendia A Metamorfose. Respeitava hierarquias, e não fazia qualquer coisa que pudesse ser considerado errado perante a lei. Pensava que segurança era sinônimo de polícia na rua e bandido na cadeia.

O léxico de Seu Augusto era quase completo, e seu português perfeito. Não era obsessivo com limpeza nem organização, apesar de suas coisas estarem sempre limpas e no lugar. Fazia trabalho voluntario num asilo com receio de estar lá um dia. Gostava de cuidar de seu jardim e reciclava o lixo. Achava que diversão era acordar cedo e tomar café da manhã ao ar livre, ante de ler um bom livro. Não gostava de encontrar amigos antigos, nem de fazer novos. No trabalho os alunos zombavam dele por suas costas, os colegas preferiam não chegar muito perto. Tinha uma cordialidade formal que não deixava nem ele a vontade. Um dia Seu Augusto estava voltando para casa, depois do trabalho, e passou por cima de uma mendigo que pedia no semáforo. Estava chovendo, mas ele viu, e não parou. Só acelerou e seguiu em frente.

Powered by WordPress. © 2009-2014 J. G. Valério