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conto da noiteO Conto da Noite
Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

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Mosca morta em movimento linear uniforme [conto]

Imagem | Antimidia

Imagem | Antimidia

Droga. Minha vida continua. As marcas na cara dizem que alguém tentou dar cabo dela ontem a noite. As dores no corpo gritam que tento fazer isso faz tempo, e nem isso eu consigo. Mas ao menos cada dia estou mais perto. O sangue no vômito é uma prova incontestável. Não consigo achar motivos para sair da cama. Se eu fosse o Iggy Pop todos os meus problemas estariam resolvidos, mas eu não sou. Então vou ter que continuar enfiando a mão na merda até tirar alguma coisa que salve a minha vida dessa desgraça miserável, ou ela acabe. Será que eu precisaria viver se não tivesse contas para pagar? Vou fazer um café para ver se encontro alguma coragem para encarar o mundo lá fora sem ter um surto de loucura e desespero. Ainda há cigarros, então há esperança. Tem um pedaço de queijo na geladeira, não contava com isso. Sinto a mão de Deus aqui.

Rumo para o bar do Jaime como um rato condicionado num estudo de Skinner. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, mas eu sei quem foi B. F. Skinner e o que ele fazia nos verões passados com as suas cobaias. Não sei onde a filha do Jaime passa as tardes, mas ela nunca está por aqui. Ele não consegue disfarçar todo o desprezo por mim e o resto da humanidade. Coloquei uma nota de dez no balcão e colhi uma garrafa de cerveja e uma dose de pinga. “Eu estive aqui ontem a noite?” O velho carrancudo franziu a sobrancelha e começou a suar. Entendi como um sim. “Preciso de trabalho. Você está sabendo de alguma coisa?” Ele pegou um pedaço de papel e escreveu um endereço.

O lugar era um armazém gigante ali perto. As portas estavam abertas, e um tipo Vic Vega andava de um lado para o outro com um copo de refrigerante numa mão e um cigarro na outra. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, mas eu também assisto aos filmes do Tarantino. “Quem te mandou aqui?” “O Jaime, do bar. Perguntei de trabalho e ele me deu seu endereço.” “E você aguenta o trabalho pesado?” “Se eu não aguentar você não me paga.” “Fechado. São cem mangos. Espera com o resto ali que o trabalho já está chegando.” “Tem um cigarro?” O cara ficou me olhando como seu eu tivesse falado qualquer coisa absurda, tipo, você chupa pinto? “Não.”

Fui me juntar aos outros. Fiz um sinal e o camarada com cara de marinheiro sem navio me deu um pouco de tabaco e um guardanapo de lanchonete. Éramos seis. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, mas eu sei que esse é um livro do Maria José Dupré adaptado para a televisão e o cinema, mas não tem nada a ver com o contexto aqui. Sei o que é contexto também. E estamos falando só de seis pessoas que não falavam nada, e a maioria preferia ficar olhando para baixo a maior parte do tempo.

Três caminhões refrigerados entraram no depósito ao mesmo tempo que o metido a chefe que não era chefe de porra nenhuma gritou: “Vamos cambada de vagabundos. Chegou o trabalho.” Eles abriram as portas e entre as carcaças mortas e penduradas por um gancho havia caixas com sabe-se lá o que. “Vamos seus preguiçosos, todas as caixas para fora. Rápido.” Alguém tirou um par de tábuas de madeira de não sei da onde e fez uma rampa no primeiro caminhão. Cada caixa devia pesar uma duas toneladas. Ok, não eram duas toneladas, foi só uma ironia. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, mas eu sei usar figuras de linguagem.

Tinha um moleque tosco que queria provar alguma coisa para não se sabe quem. Enquanto todos os outros vagabundos fodidos descarregavam uma caixa ele descarregava duas. Quando começamos o segundo caminhão tinha a sensação de que não ia conseguir chegar até o fim daquela empreitada. O Vic Vega apareceu na frente da rampa e gritou para mim: “Ei, estorvo, se não aguentar eu não pago, lembra?” Os tiros começaram enquanto ele ria. Um o acertou em algum lugar e ele caiu. Me escondi no fundo do caminhão e só escutava gritos, tiros e o estalar dos metais. De repente o caminhão começou a se mexer, saiu do galpão e acelerou sem dó pela rua.

Me sentia como o Eddie Murphy nas primeiras cenas de Um tira da pesada I. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, e ter desperdiçado a adolescência assistindo Sessão da Tarde, mas e daí caralho? O caminhão parou me lançando para o chão e o fundo do baú simultaneamente, confirmando violentamente todas as leis de Newton. Foda-se se eu sei ou não as três malditas leis de Newton. Sai correndo e pulei no meio do trânsito. Era um semáforo. Escutei a porta da cabine do caminhão abrir e um grito de “Ei!” e corri como nunca meio abaixado até conseguir virar a esquina. Me certifiquei de que não estava sendo seguido e percebi que estava todo cagado e mijado. As pessoas desviavam de mim e eu tremia como uma máquina de lavar roupas velha. Fui para casa antes que alguém me oferecesse ajuda.

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A esquina e o fim

Imagem | AntimidiaBlog

Imagem | AntimidiaBlog

[blitz]

– Boa noite. Documentos do Senhor e do veículo, por favor.

– Sim Senhor, aqui estão.

– Da onde o Senhor está vindo e para onde vai?

– Estou voltando do trabalho para casa.

– O Senhor pode descer do veículo, por favor.

– Claro, algum problema policial?

– Estamos verificando. São só procedimentos de rotina. O Senhor está de posse de algo ilegal?

– Não Senhor.

– Então, por favor, retire tudo dos bolso e coloque em cima do capô.

– O que está acontecendo aqui? Sou suspeito do que?

– Não sabemos ainda Senhor, estamos averiguando, são só procedimentos de rotina. Coloque as mãos na cabeça e abra as pernas por favor?

– Porque estou sendo revistado? Eu tenho direito de saber porque estou sendo revistado.

– Atitude suspeita, Senhor.

– E qual foi a minha atitude suspeita? Eu estava no limite da via, usava cinto de segurança, estava com as duas mãos ao volante, o que eu estava fazendo de suspeito?

– Sua atitude era suspeita, Senhor. O que há no porta-malas do veículo?

– Não sei, umas caixas, panos, estepe, coisas assim.

– O Senhor não sabe o que carrega no porta-malas, Senhor? O Senhor pode abrir para mim, por favor?

– Posso, o que o Senhor está procurando?

– Ainda não sei, Senhor. O que há naquela maleta.

– Somente alguns papéis.

– O Senhor pode, por favor, abrir para mim ver?

– Claro. Está vendo, papéis.

– Sobre o que são esses papéis?

– Planilhas, contas. Sou comerciante, são algumas coisas da empresa.

– Examine estes documentos Segundo Sargento. Agora nós podemos ver o interior do veículo?

– Como assim examine estes documentos? O Senhor não pode mexer nas minhas coisas assim.

– Estou analisando os documentos que o Senhor me mostrou e que foram encontrados numa pasta no porta-malas do seu veículo. Aconselho que o Senhor se acalme e me mostre o interior do veículo.

– Como assim se acalmar? O que está acontecendo aqui?

– Se o Senhor tem algo à esconder aconselho que me conte agora, pois nós vamos achar.

– Do que o Senhor está falando? Quer saber, a atitude do Senhor é que é suspeita. Que procedimentos de rotina são esses? Mas eu não tenho nada para esconder. O que o Senhor quer ver?

– Abra o veículo, por favor?

– Estes CDs no porta trecos são do Senhor?

– É isso, sou culpado por comprar produtos piratas? Pode me prender.

– Acalme-se Senhor.

– As MP3 do pen drive também são piratas. Eu me entrego.

– Irei confiscar esses itens. O Senhor pode abrir o porta-luvas, por favor.

(click)

– O que são esses papéis?

– A nota fiscal do carro, umas contas, não sei.

– Posso ver essa nota fiscal?

– Por que? Eu posso perguntar por que?

– A sua atitude suspeita, e irônica, diz, segundo o manual, que o Senhor está tentando ocultar algum crime. Já sabemos que o Senhor não respeita as leis de direitos autorais, agora estamos procurando quais outras lei o Senhor não respeita.

– Eu não tive nenhuma atitude suspeita não. Isso é abuso de autoridade. O Senhor já me revistou, revistou meu carro, e não achou nenhuma evidência de nada suspeito. O Senhor está procurando pelo em ovo, isso que o Senhor está fazendo. Eu tenho meus direitos, e não tenho que te entregar a nota fiscal do meu carro.

– Por favor Senhor, me respeite. Estou fazendo meu trabalho, que é combater o crime. Sua atitude é sim suspeita, e eu posso prendê-lo por desacato.

– Olha, eu sou um cidadão de bem. Eu respeito a polícia, acho que o trabalho da polícia é desvalorizado. Mas eu não sou bandido.

– Então me mostre isso, Senhor. Me entregue esta nota fiscal e me deixe fazer meu trabalho que a verdade aparecerá.

– Tudo bem, desculpe. Estou um pouco nervoso, é a primeira vez que passo por isso.

– A loja do Senhor deve estar indo muito bem, este carro é bem caro. Com o que o Senhor trabalha?

– Acabou, me desculpe. O Senhor é da Receita Federal? Eu não fiz nada de errado, nem tive nenhuma atitude suspeita. Ou o Senhor me leva preso e me deixa chamar meu advogado, ou me deixa ir embora.

[delegacia]

– Eu só falo quando o meu advogado chegar.

– O Senhor que sabe, mas pode estar acabando com as suas chances de um acordo.

– Um acordo sobre o que? Sou acusado do que? O Senhor não tem nada!

– Bom, já sabemos que o Senhor não respeita as leis de direito autoral. Podemos provar isso. Também sabemos pelos papéis da sua pasta, e a nota fiscal do seu veículo, que a sua renda é incompatível com seu estilo de vida.

– Não falo mais nada enquanto o meu advogado não chegar.

– Viu, isso é uma atitude de quem quer esconder alguma coisa. Nós já sabemos que o Senhor comete algum crime. A sua renda é incompatível. Não preciso de uma evidência, isso é uma prova.

– Prova do que?

– De que o Senhor cometeu algum crime para comprar um carro que uma pessoa na sua posição não poderia comprar.

– Isso é uma suposição, até o Senhor provar o contrário eu sou inocente. Eu comprei o carro com um dinheiro que eu tinha guardado há muito tempo. Trabalho desde os 12 anos e agora não posso ter um carro?

– Quanto tempo?

– Desde os 12 anos.

– Não tem nada haver com sonegação de impostos? Venda sem nota fiscal? Compra de produtos sem origem declarada? Essas coisas.

– Eu não sei do que o Senhor está falando. Se o Senhor não sabe do que me acusar, como eu vou me defender?

– O Senhor tem filhos?

– Tenho, três.

– Eles estudam em escolas particulares?

– Eu sei o que o Senhor está querendo dizer. Já disse que não respondo nada até meu advogado chegar.

– O Senhor já disse isso três vezes, eu só estou querendo ajudar o Senhor a dizer a verdade.

[conversa com o advogado]

– Como assim eles podem me manter preso por até três meses?

– Além de você ter violado as leis de direito autoral, existe um indício de que você cometeu algum crime para ter dinheiro e comprar o carro, por enquanto é só isso. Sei que eles solicitaram junto à Receita Federal sua declaração de imposto de renda, da sua empresa e da sua esposa. Se há algo de errado eu preciso saber agora.

– Como assim? Eles não podem fazer isso. Era só uma blitz, o documento está em dia, minha carta também. Eu só quero ir para casa.

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O gordo contra o mundo

Imagem | Antimidia

Imagem | Antimidia

– O Senhor está bem?

– Sim, e o Senhor?

– Também. Pensou em uma resposta para minha pergunta? No porque nós dois estamos aqui?

– Pensei, mas não sei direito por onde começo.

– Pode ser da onde você quiser.

– Pode ser de quando eu queria fazer alguma coisa?

– Que coisa?

– Eu ainda não sabia o que era, mas eu queria fazer alguma coisa que mudasse tudo.

– Como assim mudasse tudo?

– Que as coisas fossem melhor, sabe?

– Queria que você falasse mais dessas coisas.

– Então, eu queria mudar elas, e ia começar pelo preconceito contra os gordos. Você sabia que eles são a maioria da população do Brasil e representam quase um terço da população mundial?

– Sabia, mas porque você pensou nos gordos e não nos negros, por exemplo. O racismo não te incomoda?

– Claro, claro que o racismo me incomoda. Eu pensei sobre isso, em começar a mudar as coisas por aí, mas eu não poderia virar negro depois que eu nasci branco. Enfim, este é um grande problema, mas eu estaria preso a certas limitações. O gordo também tem uma coisa de diferente, eu pensei. Tem gordos de todos os tipo, ricos e pobres, brancos e negros, católicos e ateus, e todos eles sofrem com o mesmo preconceito, ser gordo.

– Sim, entendo, e você sofria esse preconceito?

– Não, eu só escutava falar, lia notícia. Mas era porque eu era magro, e eu precisava ser gordo para saber o que era isso. Por isso comecei a comer tudo que eu podia até ficar assim, gordo.

– Então o Senhor ficou gordo para poder sofrer preconceito?

– Isso. Me sentia muito mais livre para falar sobre todas as injustiças e julgamentos que os gordos sofrem. Os olhares nos ônibus, a discriminação na hora de conseguir um emprego, o bullyng. Para protestar mandei fazer uma camiseta escrito bem grande: “Sou gordo porque eu quero e posso.” Olha o meu tamanho, e olha que eu era maior, era um outdoor ambulante.

– E o que aconteceu?

– O que acontece com todo gordo. As pessoas se afastam, eu virei motivo de piada. Então eu fui procurar apoio naqueles grupos onde os gordos vão para tentar emagrecer.

– Você queria emagrecer?

– Não. Todo o preconceito começa com essas pessoas. Essa conversa de que o gordo é bonito por dentro, que ser gordo é uma doença, que gordo é preguiçoso, eu descobri que tudo isso é a raiz do problema. A cultura, a velha e culpada cultura. Mas voltando. Esses programas nunca funcionam, só servem para as pessoas ficarem deprimidas, se isolarem. Então eu comecei a falar com essas pessoas. Explicar que ser gordo não é feio, nem crime, nem doença, não significa nada.

– E assim você ia mudar as coisas?

– Isso.

– E as coisas mudaram?

– Não muito, mas cheguei a algumas conclusões.

– Porque você acha isso?

– As pessoas me olhavam com cada vez mais desprezo. Mas eu percebi que as pessoas que me olhavam assim eram as magras. Quanto mais eu engordava menos atenção me davam. Preferiam ir de pé no ônibus do que ir sentada do meu lado. Não era assim que eu ia mudar as coisas. As pessoas gordas se aproximavam, vinha conversar, conseguiam enxergar as coisas diferentes. A ideia é que as pessoas sejam iguais, mesmo se parecem diferentes.

– E como você se sentia?

– Eu me sentia bem em ser gordo e poder falar sobre tudo isso. O que eu sentia na pele era o preconceito dos magros. Cheguei até a ser entrevistado por uns jornais. Tenho tudo guardado. Mas aquele sentimento de mudar as coisas continuava martelando a minha cabeça. Sabe, eu nasci para mudar as coisas. Acho que sou meio que predestinado.

– Como assim?

– Por exemplo, a família do meu pai e da minha mãe se odiavam. O meu avô, por parte de pai, era prefeito, e meu avô, por parte de mãe, presidente da câmara de vereadores. Eles viviam brigando. Mas aí eu nasci e mudei as coisas, porque as duas famílias ficaram amigas e a câmara dos vereadores e a prefeitura começaram a trabalhar juntos e tudo melhorou na cidade.

– E o Senhor acha que foi o Senhor o responsável por essa mudança?

– E não?! As famílias se odiavam mesmo. Tem até história de morte. O Senhor pode ter certeza que não estou aqui por acaso. Estou aqui para mudar as coisas. Só contei essa história para o Senhor entender que sempre foi assim, de mudar as coisas.

– Mas o Senhor estava dizendo que não ia muito bem com relação ao preconceito dos gordos, a relação com os magros era difícil.

– Isso, mas era difícil por causa deles. Com o tempo fui percebendo que as pessoas estavam hipnotizadas pelas ideias dos magros, e foi quando desenvolvi minha teoria de que se todos fossem gordos não haveria preconceito. E, convenhamos, é bem mais fácil, e legal, os magros virarem gordos que os gordos virarem magros.

– Mas o Senhor não acha que querer que todos os magros virem gordos é igual querer que todos os gordos virem magros?

– Sim, mas é diferente, porque os gordos não tem preconceito contra os magros, mas os magros tem preconceito contra os gordos. Mas eu entendo as reclamações de que minha teoria foi bastante radical. Eu também entendo que mudar as coisas é difícil, leva tempo, só de estarmos falando sobre isso já foi uma pequena vitória. Falar do preconceito contra os gordos já é um começo. Já dei o primeiro passo. Mas eu nasci para fazer coisas maiores, mudar tudo.

– Como assim?

– Percebi que para mudar as coisas, e muitas coisas tem que ser mudadas, então tenho que dar vários primeiros passos, entende?

– O Senhor quer dizer um passo de cada vez?

– Não, quer dizer que eu tenho que ser tudo que gera algum tipo de preconceito. Assim eu vou poder sentir tudo, e falar sobre tudo, e mudar todas as coisas. Agora eu vou ser pobre.

– Entendo. Falaremos sobre isso na próxima sessão, os enfermeiros irão acompanhar o Senhor até seus aposentos.

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A luta da batalha perdida

Imagem | Antimidia

Imagem | Antimidia

Aconteceu mais ou menos como na música In the end of the world as we know it, do REM, mas não sobrou só um garoto de 13 anos, e nem a coisa toda tinha virado uma festa. Ainda tem um bando de seres humanos por aí. Bando mesmo. Eles se escondem em construções abandonadas, esgotos e acampamentos subterrâneos nas florestas. Se movimentam só a noite, quando as luzes das naves não conseguem iluminar toda superfície do que sobrou da Terra. Alguns dizem que os seres de outro planeta não enxergam sem a luz. Sei lá, já escutei histórias de pessoas que se salvaram por causa disso e de outras que viram cenas que comprovariam que isso não faz o menor sentido. Outros dizem que eles usam a luz como fonte de energia vital para suprir a horda, mas que a lua é muito fraca. Tudo deve ser parte de uma estratégia deles mesmos para confundir o inimigo. Eles tem uns 2,5m de altura e andam sempre em pelotões de centenas. Não usam armas, usam a força física para destruir o que for preciso. Animais, homens, mulheres e crianças. Nada que se mexe se salva. São superiores em número e força. Arrancam uma perna de um corpo como quem tira uma coxa de um frango assado. O fato é que, por via das dúvidas, se alguém tivesse que ir para algum lugar, ia quando não houvesse mais luz do sol, e se escondendo por onde as naves não conseguem iluminar.

O melhor mesmo é não precisar ir para lugar nenhum e ficar quietinho no seu canto. Mas a maconha da tribo do sul estava acabando, e se eles quisessem manter o clima de otimismo nas fileiras do bando eles iam precisar de mais. Por isso o Neb estava tentando chegar até alguma tribo na floresta que pudesse fornecer erva. A princípio ele tentou sair da cidade pela rota do oeste, mas alguma coisa havia fechado o caminho pelos esgotos, era o que dizia um batedor da tribo subterrânea que ele encontrou numa das bifurcações do caminho. “O túnel desmoronou há algumas semanas.” Não restou alternativa senão ir pela superfície. “Vou me atrasar um pouco, mas faço uma parada para evitar a luz do sol no ponto da tribo urbana se for preciso.” “Restam cada vez menos bandos nas construções. Procure algum lugar subterrâneo para ficar durante o dia.” “Não vim preparado para isso, talvez precise de alguma munição.” “Tenho algumas balas aqui, e um silenciador. Você vai precisar se encontrar algum ser de outro planeta perdido da horda e não quiser chamar atenção. O que você tem?” “Pilhas AA e algumas frutas.” “Faz tempo que não como alguma coisa que não seja enlatada.” “Que tal um pente de balas por duas mangas e o silenciador por uma pilha?” “O que eu vou fazer com uma pilha?” “Carregar o rádio?” “Não. Estou com fome.” “Ok, um repolho e duas cenouras. Já é uma sopa.” “Isso mesmo, vai ter festa com as crianças hoje.”

Andar pela superfície mais que dobra o risco de encontrar com a morte em pedaços. Os seres de outro planeta poderiam não ver no escuro, ou enxergar mal, mas eles estavam lá e as naves pairavam literalmente sobre a cabeça dele. A ideia de Neb era conseguir chegar até o limite da cidade com a floresta e arrumar um lugar seguro para passar o dia. Ele usou os túneis do metrô para atravessar o centro da cidade e emergiu na saída da avenida perimetral. Andou cerca de trezentos metros se arrastando por entre os carros batidos e as ruínas até perceber que uma nave de luz vinha escoltando uma horda no sentido contrário da avenida. Carros eram arremessados contra os prédios e grunhidos de horror podiam ser ouvidos cada vez mais perto. O chão tremia. Neb virou em uma rua transversal e começou a procurar um lugar escuro para se esconder. Do outro lado da rua veio um assobio de bem-te-vi. Seguindo o som desesperadamente ele percebeu que os escombros eram um cemitério. A face de uma mulher apareceu de uma das criptas e sinalizou para ele. “Aqui, aqui.” “Preciso de um lugar para ficar até a próxima noite.” “Entre aqui e espere até a horda passar.” Neb viu uma escada e desceu para escuridão. Nunca imaginou que se sentiria tão seguro dentro de uma cripta. O chão tremia com a horda passando. Neb e a sentinela urbana se abraçaram unidos pelo medo. Antes que pudessem perceber o que estava acontecendo os dois estavam transando como se aquele fosse o último ato de suas vidas.

Quando Neb acordou ainda era dia e a luz iluminava a escada da cripta. Lá fora os barulhos da destruição não cessavam. Eles estavam no subterrâneo, o que sempre era mais seguro. Ele levantou, descascou duas laranjas, dividiu um pão e acordou a sentinela, com um beijo, para o desjejum. “Estou indo para oeste, na fronteira com a floresta. Ia pelos esgotos, mas os túneis ruíram.” “Você não soube que as tribos do oeste foram dizimadas?” “Como assim?” “Foi há dois dias. O seres de outro planeta fizeram o demônio lá depois que uma horda foi destruída por um ataque surpresa da tribo da floresta com os homens das cavernas. Eles eram mais de mil e tinham granadas. As notícias dizem que não restou mais nada.” “Preciso de maconha para suprir as fileiras do sul.” “Acho que você vai perder o seu tempo e arriscar a sua vida indo até lá.” Como agradecimento pelas informações Neb deixou uma bebida para a sentinela urbana e se negou a abandonar seu ‘plano A para’ se juntar a resistência urbana. As tropas do sul precisavam de maconha para elevar a moral, o único lugar que ainda tinha era nas terras das tribos da floresta, e sua missão era voltar carregado. As tribos da florestas eram muitas, se mantém por lá desde o começo da invasão, sobreviveram a outros ataques, alguém teria sobrado.

Rastejando pelos escombro Neb conseguiu chegar até o limite da floresta. Havia uma cortina de luz suspensa cercando as fronteiras das árvores. Ele nunca tinha visto aquilo. Pensou que poderia ser uma armadilha, então arremessou um pedaço de pau. Nada aconteceu. Então ele correu na direção da floresta. Foi desviando de árvores até perceber que não tinha mais nenhuma delas. A floresta tinha virado um chão de terra batida. De repente um banho de luz cegou seus olhos. Neb olhou para cima e viu uma nave que irradiava mais luz que o sol. O som da horda de seres de outro planeta chegando fez uma poeira subir no horizonte. Ele se virou e começou a correr na direção das árvores. Se escondeu atrás de uma e esperou eles se aproximarem. No fim Neb conseguiu descarregar todo seu pente de balas antes de ser desmembrado.

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Almoço fast-food

5973294420_088df0b9a2_zSeu Alcides entrou no flat desviando o olhar, um tanto quando encabulado, e carregando uma maletinha dessas de executivo. Tirou um envelope do bolso e agitou com a mão. “Olá baby…pode deixar isso aí em cima da mesinha.” “Oi….boa tarde…..posso ir no banheiro?” “Claro, fica ali.” Ele abriu a maletinha e tirou dois saquinhos zip locks. “Você pode vestir isso?” “Adoro fantasias amor. Tenho vários brinquedinhos aqui também.” Seu Alcides entrou no banheiro e abriu sua maletinha como um estojo de figurino. Antes de qualquer coisa tirou a aliança, colocou num saquinho zip lock desses pequenos e guardou a jóia no bolso de dentro do paletó. Pegou dois cabides, um para pendurar o terno e a calça e outro para a camisa e a gravata. Se despiu com cuidado para não amassar a roupa, removeu as toalhas de dois suportes que estavam atrás da porta, entulhou-as no terceiro e pendurou seus cabides com cuidado. Olhou no espelho, ergueu as mão para o céu e fez uma oração. Então começou a se preparar. Primeiro se maquiou espalhafatosamente. Batom, lápis no olho e pó de arroz. Em seguida colocou uma calcinha com cinta liga, meia três quartos e uma saia. Vestiu uma camisetinha branca apertada, um lenço no pescoço e saiu do banheiro carregando um consolo numa mão e um tubo de ky na outra. Sheilla já estava preparada deitada na cama. Usava um vestido preto, de mangas compridas, um pouco acima do joelho e uma meia calça. No peito um pequeno crucifixo de metal, um véu preto com elástico branco na cabeça e um chicotinho de couro na mão.

Aquela putaria toda na hora do almoço fazia Seu Alcides se sentir o Deus do mundo. Sem nenhum minuto de atraso, e sem nenhuma suspeita, às 13:30 em ponto ele estava sentado em sua sala no escritório contábil Estoril. Eram uma dúzia de mesas alinhadas no terceiro andar do edifício Mega Rich Tower. Cada uma com um computador, um telefone e quilos de papéis espalhados. De acordo com o senso comum estabelecido por ele quem não está focado no um, e/ou falando com alguém no dois, está enrolando. Depois de duas dezenas de anos dedicados à causa Seu Alcides era o dono da razão e da empresa. Sua conduta de legalista e implacável faziam dele o monstro mais temível de todo universo para quem dependia de sua benção para continuar pagando as contas no fim do mês. Sempre chegava meia hora antes que os funcionários de manhã e achava que quem cobrava o pagamento de hora extra não dava o devido valor ao emprego. Era sempre o último a sair. “Dona Suzana, com o rendimento que o seu departamento teve nos últimos dias o que a Senhora vai falar na reunião sobre produtividade?” Tudo que Suzana entendia era que estava no bico do corvo. “Esse mês está difícil, muitas empresas estão fechando Seu Alcides. Quase ninguém alcançou as metas.” Nos ouvidos de Seu Alcides isso soava como desculpa de aleijado é muleta.  “E se dependermos de pessoas com o pensamento da Senhora nós seremos os próximos. A Senhora já perdeu sete clientes este mês e repôs apenas um. Preciso de mais trabalho e menos desculpas. Cobre mais de sua equipe e se esforce mais também.” Na sua cartilha isso significava faça mais do que deve e se sinta feliz por isso. “Sim, senhor.” Suzana saiu com a certeza de que em breve seria uma desempregada.

Enquanto revisava alguns relatórios Seu Alcides relembrava das cenas do encontro com a madre superiora. Calculando quanto da piroca de Sheilla que ele conseguiu enfiar na boca concluiu que ela devia ter pelo menos 20cm. Era a maior piroca que ele já tinha visto. Os peitões dela eram uma delícia e não tinham gosto de plástico como os da Lana, nem eram caídos e moles como os da Gabrielle. Se sair com o mesmo travesti duas vezes não fosse tão arriscado para sua reputação Seu Alcides com certeza voltaria no flat da Sheilla de novo no fim da tarde. Seus pensamentos foram interrompidos pelo telefone. “Sim, Dona Luiza.” “O Dr. Ricardo está na linha dois.” “Pode passar.” “Seu Alcides?” “Boa tarde, Dr. Ricardo.” “Boa tarde, como está o Senhor?” “Estou bem, e o Senhor?” “Também, obrigado. Seu Alcides, eu não recebi as guias de recolhimento de impostos desse mês. O Senhor sabe como gosto de manter tudo organizado por aqui, e já é dia 12. Transferi o dinheiro no dia 5 como todo mês mas as guias não chegaram. O Senhor pode ver isso para mim?” “Claro que sim. Desculpe-nos, isso não pode acontecer.” Cinco minutos depois Paulo estava tremendo como vara verde na frente do chefe. “Mas Seu Paulo, como assim essas guias se perderam? Isso não existe.” “Desculpe Seu Alcides, talvez o office boy tenha esquecido elas no caixa do banco ou o caixa esqueceu de entregar para ele. Já solicitamos as segundas vias e até amanhã deve estar tudo com o Dr. Ricardo. Eu também já conversei com ele.” “Conversou o que, Senhor Paulo? Então porque ele me ligou?” “……..” “De qual você está falando? Daquele novo que vem trabalhar de boné e bermuda?” “Sim, senhor.” “Diga para esse moleque que qualquer hora dessas eu vou fazer ele ter que esquecer de vir trabalhar.”

Toda vez que ele se mexia na cadeira, e uma dorzinha na bunda lembrava Seu Alcides daquela pirocar enorme entrando e saindo freneticamente, seu pau ficava duro como uma pedra. Com medo de dar algum sinal de prazer, ele encarava Dona Luiza com um desprezo que beirava o insulto enquanto ela falava. “Aqui estão os relatórios de produtividade que o Senhor pediu da Suzana e do Paulo. A Dona Ana já está sob aviso no RH também e pediu para avisar que é melhor esperar o período de experiência do office boy acabar para mandar ele embora.” “Só isso, Dona Luiza?” “A Dona Kátia mandou pedir para Senhor passar na padaria e pegar umas coisas pro lanche antes de ir para casa, e de pegar pão integral para o Jorginho. Ela também mandou avisar que chamou o sogro e a sogra do Senhor para o lanche, para o Senhor não chegar tarde.” “Pelo amor de Deus Dona Luiza, é só isso?” “Sim, Senhor.” “Então pode ir. Até amanhã.” Já passava das 20h quando Suzana passou na sala dele e avisou que era a última a sair.

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