O Nerd Escritor
Feed RSS do ONE

Feed RSS do ONE

Assine o feed e acompanhe o ONE.

Nerds Escritores

Nerds Escritores

Confira quem publica no ONE.

Quer publicar?

Quer publicar?

Você escreve e não sabe o que fazer? Publique aqui!

Fale com ONE

Fale com ONE

Quer falar algo? Dar dicas e tirar dúvidas, aqui é o lugar.

To Do - ONE

To Do - ONE

Espaço aberto para sugestão de melhorias no ONE.

Blog do Guns

Blog do Guns

Meus textos não totalmente literários, pra vocês. :)

Prompt de Escritor

Prompt de Escritor

Textos e idéias para sua criatividade.

Críticas e Resenhas

Críticas e Resenhas

Opinião sobre alguns livros.

Sem Assunto

Sem Assunto

Não sabemos muito bem o que fazer com estes artigos.

Fórum

Fórum

Ta bom, isso não é bem um fórum. :P

Projeto Conto em Conjunto

Projeto Conto em Conjunto

Contos em Conjunto em desenvolvimento!

Fan Page - O Nerd Escritor

Página do ONE no Facebook.

Confere e manda um Like!

@onerdescritor

@onerdescritor

Siga o Twitter do ONE!

Agenda

Agenda

Confira os contos e poemas à serem publicados.

Login

Login

Acesse a área de publicação através deste link.

conto da noiteO Conto da Noite
Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

>> Confira outros textos de Evandro Furtado

>> Contate o autor

* Se você é o autor deste texto, mas não é você quem aparece aqui...
>> Fale com ONE <<

0

Ciúme

É dor que corrói

Insegurança que mata

É medo que dói

Em noites ingratas

Nasce no amor

É fruto da ausência

Acaba-se em dor

Em minha consciência

Publicado por Martinsvitor em: Agenda | Tags: , , ,
0

Tiros, carros e explosões [conto]

Imagem | Antimidia

Imagem | Antimidia

Os cornos vinham fugindo dos filhos das putas. Os cornos sobem na calçada da Avenida Paulista, atropelam uns quatro, dezenas de pessoas se esquivam, a lata de lixo voa para a rua e dois carros batem provocando duas mortes. “Ajuda, ajuda, ajuda……..os caras tão atrás da gente pela Paulista……” Os filhos das putas fungando no cangote, tipo corda e caçamba, terminam de matar dois dos atropelados pelos cornos, e jogam um ciclista no chão. “Precisamos de reforços……..estamos na cola deles……..” Os dois voltam abruptamente para a via, os filhos das putas empurram um carro que bate no outro que roda e sai capotando pela saída da Rebouças, levando consigo os que estão atrás. E pelo rádio chegam as novas informações. “Reforços a caminho…….não deixa eles escaparem da vista…….” Mais dois carros se juntam ao bando dos filhos da puta na altura do Hospital das Clínicas, e os cornos respondem com balas, que não respeitam os desejos dos atiradores e acertam paredes, carros e a cabeça de uma mulher que tentava se proteger. “Sai daí, sai daí………..” Então os filhos das putas começam a atirar também, mas usam as mesmas balas mal educadas que atingem vidraças e crianças que faziam aula de inglês. Um rastro de destruição ficava por onde os mestres do desastre passavam.

Dentro do carro dos cornos o clima estava tenso. “Caí para a Marginal……..a Marginal……….vamos sair desse caos do centro, porra…….” “É loucura……..vão pegar a gente na ponte…..” “Então tira eles da nossa cola, porra…….” Do lado dos filhos das putas as coisas não estavam muito diferentes. “Sai da linha de tiro deles, caralho………” “Para de se esconder e atira de volta…….que merda…….” Um contador desavisado que vinha voltando do trabalho para o casa teve o carro arremessado numa banca de jornal na altura da Avenida Brasil. E a devastação vinha avançando junto com o barulho de tiro e batidas. Os filhos da puta já estavam em seis carros quando duas motos saindo de um cruzamento soltaram pregos entrelaçados para rasgar pneus pela Rebouças. Dois filhos das putas ficam para trás causando um engavetamento, outros dois continuam na caçada. Os motoqueiros começaram a atirar com metralhadoras, aquelas pequenas. Um dos filhos da puta derrubou um motoqueiro, o outro continuava bailando entre os carros no trânsito e atirando a esmo. Os cornos do carro conseguiram abrir um semáforo de distância.

Nesse ponto os helicópteros dos jornais já estavam lá em cima e as cenas do caos passavam ao vivo no noticiário. “Vocês estão na televisão……” O rádio anunciou para cornos e filhas das putas. Os caçados desviaram no túnel e cruzaram a Faria Lima a milhão, acertando um carro na traseira, que rodou e ficou parado no meio do cruzamento. O motoqueiro não conseguiu desviar e levantou vôo se estatelando na ciclovia. Mais um carro chegou para reforçar os filhos das putas. “Vamos sair na Marginal sentido terminal João Dias…….vamos para Marginal……” “Já tem dois bondes pra escoltar vocês na Marginal…..” Os cornos entraram pela ponte Eusébio Matoso e caíram na Marginal. Logo a escolta apareceu, vindo da alça de acesso da Avenida Francisco Morato, lançando para o Rio Pinheiros um dos filhos das putas. Eram três cornos com metade do corpo para fora da janela despejando balas em cima dos filhos das putas. Agora eles não tentavam revidar, só desviar dos tiros. De alguma forma todas as balas provocavam estragos. Pelo menos cinco motoristas desesperados jogaram o carro para fora da pista na direção do rio. Ao menos três afundaram. As vítimas de balas perdidas já somavam duas casas decimais. E a loucura continuava sem dar o menor sinal de que algo poderia evitar a carnificina.

A notícia se espalhou rápido, as pessoas estavam paradas em cima da ponte Cidade Jardim para ver o comboio da morte passar. Foi um espetáculo e tanto quando um dos cornos bateu no para-choques e empurrou um dos filhos da putas para baixo de um caminhão, que tombou na pista causando um engavetamento monstro, com explosões de carros e pessoas voando. Passando pelo Parque Burle Marx a artilharia pesada dos cornos teve que recarregar. Agora eles eram em maioria, três para dois, mas os filhos das putas não davam sinal de que iam desistir.  Eram praticamente só os que estavam brincando de bang bang na pista. Os filhos das putas aproveitaram para se aproximar. Começaram a cutucar a bunda de um dos cornos, que rodou e ficou para trás. Então foi a vez deles começarem a atirar freneticamente. “Não traz eles pra cá, não traz eles pra cá………” Alguém começou a gritar desesperadamente no rádio dos cornos. Na ponte do Shopping Morumbi mais cinco filhos das putas se juntaram ao bando. “Apenas siga eles……..eles não tem para onde ir……..” A ordem vinha do rádio dos filhos das putas. Os cornos entraram em desespero um pouco mais a frente. “Vamos emboscar eles……….precisamos de ajuda, porra……” “Despistem eles, despistem eles, porra…….”

Se sentindo abandonados, os cornos começaram a entrar em desespero. O bonde que tinha sobrado voltou a carga total para cima dos filhos das putas, que mantinham uma distância relativamente segura, obedecendo as ordens. Os cornos emparelharam: “Não podemos voltar……..porra…..” “Vamos fuder com essa porra toda……” Os dois deram um cavalinho de pau e foram na direção dos filhos das putas como carros desgovernados que só vão parar quando encontrarem uma parede. Os filhos das putas pararam como se fossem uma parede. Os cretinos pisaram fundo. Não os dois. Um deles segurou um pouco o pé. O primeiro explodiu numa porrada violenta nos filhos das putas. O segundo alinhou atrás do show pirotécnico e passou a barreira. Os filhos das putas não sabiam o que fazer e viram os cretinos sumirem pela marginal. Os helicópteros seguiram eles até a ponte Morumbi e a estação de trem. Os cornos abandonaram o carro, entraram na estação e sumiram no meio da multidão.

0

Mosca morta em movimento linear uniforme [conto]

Imagem | Antimidia

Imagem | Antimidia

Droga. Minha vida continua. As marcas na cara dizem que alguém tentou dar cabo dela ontem a noite. As dores no corpo gritam que tento fazer isso faz tempo, e nem isso eu consigo. Mas ao menos cada dia estou mais perto. O sangue no vômito é uma prova incontestável. Não consigo achar motivos para sair da cama. Se eu fosse o Iggy Pop todos os meus problemas estariam resolvidos, mas eu não sou. Então vou ter que continuar enfiando a mão na merda até tirar alguma coisa que salve a minha vida dessa desgraça miserável, ou ela acabe. Será que eu precisaria viver se não tivesse contas para pagar? Vou fazer um café para ver se encontro alguma coragem para encarar o mundo lá fora sem ter um surto de loucura e desespero. Ainda há cigarros, então há esperança. Tem um pedaço de queijo na geladeira, não contava com isso. Sinto a mão de Deus aqui.

Rumo para o bar do Jaime como um rato condicionado num estudo de Skinner. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, mas eu sei quem foi B. F. Skinner e o que ele fazia nos verões passados com as suas cobaias. Não sei onde a filha do Jaime passa as tardes, mas ela nunca está por aqui. Ele não consegue disfarçar todo o desprezo por mim e o resto da humanidade. Coloquei uma nota de dez no balcão e colhi uma garrafa de cerveja e uma dose de pinga. “Eu estive aqui ontem a noite?” O velho carrancudo franziu a sobrancelha e começou a suar. Entendi como um sim. “Preciso de trabalho. Você está sabendo de alguma coisa?” Ele pegou um pedaço de papel e escreveu um endereço.

O lugar era um armazém gigante ali perto. As portas estavam abertas, e um tipo Vic Vega andava de um lado para o outro com um copo de refrigerante numa mão e um cigarro na outra. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, mas eu também assisto aos filmes do Tarantino. “Quem te mandou aqui?” “O Jaime, do bar. Perguntei de trabalho e ele me deu seu endereço.” “E você aguenta o trabalho pesado?” “Se eu não aguentar você não me paga.” “Fechado. São cem mangos. Espera com o resto ali que o trabalho já está chegando.” “Tem um cigarro?” O cara ficou me olhando como seu eu tivesse falado qualquer coisa absurda, tipo, você chupa pinto? “Não.”

Fui me juntar aos outros. Fiz um sinal e o camarada com cara de marinheiro sem navio me deu um pouco de tabaco e um guardanapo de lanchonete. Éramos seis. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, mas eu sei que esse é um livro do Maria José Dupré adaptado para a televisão e o cinema, mas não tem nada a ver com o contexto aqui. Sei o que é contexto também. E estamos falando só de seis pessoas que não falavam nada, e a maioria preferia ficar olhando para baixo a maior parte do tempo.

Três caminhões refrigerados entraram no depósito ao mesmo tempo que o metido a chefe que não era chefe de porra nenhuma gritou: “Vamos cambada de vagabundos. Chegou o trabalho.” Eles abriram as portas e entre as carcaças mortas e penduradas por um gancho havia caixas com sabe-se lá o que. “Vamos seus preguiçosos, todas as caixas para fora. Rápido.” Alguém tirou um par de tábuas de madeira de não sei da onde e fez uma rampa no primeiro caminhão. Cada caixa devia pesar uma duas toneladas. Ok, não eram duas toneladas, foi só uma ironia. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, mas eu sei usar figuras de linguagem.

Tinha um moleque tosco que queria provar alguma coisa para não se sabe quem. Enquanto todos os outros vagabundos fodidos descarregavam uma caixa ele descarregava duas. Quando começamos o segundo caminhão tinha a sensação de que não ia conseguir chegar até o fim daquela empreitada. O Vic Vega apareceu na frente da rampa e gritou para mim: “Ei, estorvo, se não aguentar eu não pago, lembra?” Os tiros começaram enquanto ele ria. Um o acertou em algum lugar e ele caiu. Me escondi no fundo do caminhão e só escutava gritos, tiros e o estalar dos metais. De repente o caminhão começou a se mexer, saiu do galpão e acelerou sem dó pela rua.

Me sentia como o Eddie Murphy nas primeiras cenas de Um tira da pesada I. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, e ter desperdiçado a adolescência assistindo Sessão da Tarde, mas e daí caralho? O caminhão parou me lançando para o chão e o fundo do baú simultaneamente, confirmando violentamente todas as leis de Newton. Foda-se se eu sei ou não as três malditas leis de Newton. Sai correndo e pulei no meio do trânsito. Era um semáforo. Escutei a porta da cabine do caminhão abrir e um grito de “Ei!” e corri como nunca meio abaixado até conseguir virar a esquina. Me certifiquei de que não estava sendo seguido e percebi que estava todo cagado e mijado. As pessoas desviavam de mim e eu tremia como uma máquina de lavar roupas velha. Fui para casa antes que alguém me oferecesse ajuda.

0

O surto

Imagem | Antimidia

Imagem | Antimidia

A cabeça de Aguinaldo estava martelando. Ele precisava ter uma ideia. Uma daquelas que muda o destino da humanidade. Precisava de dinheiro. Precisava de muito dinheiro rápido. O mundo estava ruindo ao seu redor, como o final de Scarface quando o Al Pacino enfia a cara numa montanha de pó. E ele não conseguia pensar em nada. Só sabia que precisava de dinheiro. Muito dinheiro. Para uma casa, para um carro, a escola das crianças, a viagem para a Disney. Tinha que ser em dólar. Aguinaldo andava de lá para cá, com a mão direita apoiando a arma na cabeça, mas a ideia não vinha. Ele precisava de dinheiro grosso, não uns trocados. Tinham que ser maletas transbordando dólares igual nos desenhos animados da televisão. E tinha que ser rápido. A ideia tinha que ser algo monstruoso. Daquelas que resolvem todos os problemas e não dão muito trabalho para colocar em prática. Daquelas que rendem milhões para quem fica sentado no sofá cercado de mulheres, tomando champagne e fumando legítimos charutos cubanos. Daquelas que só precisam de uma vez e depois nunca mais.

Era uma mega-sena. Aguinaldo precisava acertar na mega-sena e ficar com todo o dinheiro. Para comprar roupas, colares e tênis. Tinha que ser muito dinheiro. Quilos e mais quilos de ouro. Em tantas barras que ele ia usar uma como peso de porta e outra como peso de papel. As pessoas iam chegar, e perguntar sobre o dinheiro, sobre a ideia. Ele não tinha nada, só um trinta e oito com cinco balas e as mãos tremendo. Sentava, levantava. Fumava um cigarro depois do outro, e nada. Tudo que ele conseguia pensar era que precisava de dinheiro. Precisava de dinheiro rápido. Em dólar, ouro, latinha, papelão. Em qualquer coisa que valesse muito. Tinha que ser muita coisa de qualquer coisa. Depois ele ia viajar, conhecer o mundo num iate cheio de garotas peladas e sexo e droga e rock’n roll. A ideia tinha que ser tão boa que ia sair no jornal. Todo mundo ia saber e todo mundo ia querer ter tido. Uma ideia simples e perfeita. Que nunca ninguém tinha tido. E ele pensava e pensava e pensava. Tinha que pagar o condomínio, o motorista, o jardineiro, a empregada. Era de muito dinheiro que ele precisava.

Mas ele precisava da ideia. Aguinaldo sabia que ela estava lá, na sua cabeça, mas ela não saia. Tinha alguma coisa prendendo. Estava quente, vermelha, suando. A ideia queria explodir, mas não explodia. E ele batia, batia e batia com a mão e a arma na cabeça. Se agachava e chorava como uma criança perdida no supermercado. Precisava de dinheiro. Precisava de uma fortuna com filhos bonitos e inteligentes. Precisava de um cofre como o do Tio Patinhas para nadar em dinheiro com a sua escolhida. Não podia demorar. Não podia ser pouco. Não podia dar trabalho. E ele deitou, respirou fundo, sentiu o coração disparar. Precisava de dinheiro. Para fazer uma festa como a do Conde de Montecristo e mostrar para o mundo que ele tinha conseguido. Para comprar balões, castelos e pessoas. O prazo já tinha acabado. Ele precisava de muito dinheiro agora. Não dava mais para esperar. A ideia tinha que vir. As pessoas iam querer saber, iam querer ver, iam querer tocar. Ele precisava de caminhões com dinheiro até o talo.

Sem a ideia não ia ter dinheiro, sem o dinheiro não ia ter a festa, a vida fácil, nem helicóptero. Ele precisava de tanto dinheiro quanto o Cidadão Kane, para poder perder um milhão por mês por toda a vida. Ele precisava de mais dinheiro que os mafiosos dos filmes do Scorsese. E tinha que ser rápido, como no cinema. Como no Lobo de Wall Street, de uma cena para outra. Porque ele não tinha tempo. E Aguinaldo chorava e arrancava os cabelos para tentar fazer a ideia sair. Para poder fazer caridade por aqueles que ele achasse que merecessem. Para ser feliz como Jack Nicholson pulando de paraquedas com o Morgan Freeman em Antes de Partir. Ele olhava para os lados, escutava os passarinhos cantando, esperava que a ideia surgisse como música para os seus ouvidos. Que finalmente todas as respostas saíram de sua boca quase como que por encanto. Não ia chegar por telefone, ou pela internet. Ia ser tão natural que ele nem ia perceber. Quando visse já estaria com todo dinheiro. Tomando marguerita numa praia do caribe. Ele precisava sair daquela casa, sentir o vento na cara trazer a ideia a tona como uma semente germina para ser uma grande árvore.

Aguinaldo marchava pela rua perseguindo a ideia. A cabeça continuava martelando sem parar. Vermelha, quente, suando. Precisava de dinheiro. De muito dinheiro. Ele via pessoas com muito dinheiro passando nos seus carros, saindo dos prédios. E ele precisava de mais dinheiro do que elas. E tinha que ser rápido. Como se soubesse exatamente o que fazer ele entrou num banco atirando primeiro nos dois seguranças, e depois no caixa que não entendeu o que ele disse. Ele precisava de muito dinheiro, rápido, dentro de uma sacola. Para comprar um apartamento duplex na beira praia, um sítio para descansar. Ele precisava do dinheiro de todos os caixas, e do cofre, e do bolso das pessoas que estavam lá. Precisava de todo dinheiro do mundo rápido, sem perguntas, sem gaguejar. É só colocar tudo dentro do saco. Rápido. Mais, mais, mais. As moedas também. Tudo. Todo o dinheiro. A polícia chegou. Cercou todo o lugar com carros e sirenes. Começou a falar alto num megafone. Aguinaldo tinha que fugir dali. Com todo o dinheiro num saco. Rápido. Ele abriu a porta e sai correndo. Ele deu seu último tiro na direção do megafone que mandava ele parar, e a polícia fuzilou Aguinaldo antes dele chegar até a esquina.

0

Novela mexicana

Camila não queria ir há sua festa de quinze anos. Para os pais que tinham investido em buffet, convite escrito a mão, colunas sociais e pingentes de ouro de lembrancinha era um verdadeiro desastre. “Como assim ela não quer ir?”, questionava a vó. “Não sei. Ela simplesmente disse que não quer ir. Esta com uma cara horrível. Nem quer se vestir. Já falei da banda que ela gosta que vai tocar, dos presentes que ela vai ganhar, que o filho dos Quinilhas vai estar lá. Ela só diz que não vai. Não sei mais o que fazer.”, respondeu a mãe aflita. “Isso é sua culpa. Ela faz tudo que quer, fala tudo que quer, vê tudo que quer, a vida não é assim. Ela tem que entender que ela não tem que querer nada, tem que fazer o que você falar e pronto.” Foi assim que a vó criou três filhas que casaram com três milionários. Se isso não era uma criação certa de família, o que era? “Tá bom, mas o que eu vou fazer?” A mãe, acostumada a obedecer, precisava de uma ordem. “Cadê o pai dela?” “Vai chegar da Coréia direto para festa. Esta no avião, não consigo falar com ele.” “É outro molenga.”

No quarto Camila espalhava a notícia. Contava para as amigas no Facebook e WhatsAPP que não ia para a própria festa porque não estava com vontade. Todas se mostravam chocadas e incrédulas. Qualquer uma delas ia ficar em êxtase com uma festa no salão nobre do Clube A++. Algumas amigas ainda queriam ir do mesmo jeito, afinal, era uma mega festa, o filho dos Quinilhas ia com certeza, a super banda ia tocar e a lembrancinhas iam ser pingentes de ouro! Camila não queria saber se o evento ia ser cancelado ou não, se não, que fosse quem quisesse. Ela não ia. “Como você é boba. Queria eu ter uma festa dessas. Meus pais são naturebas. Não tenho nem coragem de falar sobre isso com eles.” Reclamava uma. “Quando você ver as fotos na Internet vai se arrepender.” Advertia a outra. Em uma conversa mais privada ela tentava convencer Pedro, um amigo da escola que não sabia que era seu aniversário, a matar um dia de aula e ir no cinema do shopping. “O filme é muito engraçado. Tem um cachorro que fala de verdade.”

Com o tempo passando e a hora da festa se aproximando vó e mãe começaram a se desesperar. Aquela hora já não daria mais tempo de ela se aprontar como deveria. A manicure, inclusive, tinha outro compromisso e queria ir embora. Impulsionadas por essa grande pressão que o motorista da família arrombasse a porta do quarto. Camila tomou um susto e gritou quando escutou o estrondo e viu um machado atravessar a madeira. Sua mãe não estava preparada para o barulho e também gritou ordenando que o arrombador parasse com aquilo. Então Camila abriu a porta. Sua vó fuzilava ela com os olhos, os empregados se mostravam chocados com a situação, sua mãe estava com o rosto vermelho e os olhos lacrimejando. “O que esta acontecendo minha filha? Por quê você esta fazendo isso comigo?” “Eu não estou fazendo nada. Só não estou bem. Não quero ir.” “Você não tem que querer menina insolente. Comece a se arrumar agora que você já esta atrasada.” Para a vó o importante era demonstrar comando a qualquer custo. Camila só fez cara de pouco caso e olhou para faxineira, que fingiu que não era com ela com medo da culpa e do desemprego. Sua mãe não segurou mais o choro. “Olha só tudo que você tem. Olha o que sua mãe faz por você. É assim que você retribui? Por quê você não quer ir nessa festa? É a festa dos sonhos de todas a meninas da sua idade. Por quê você não quer ir?” Camila olhava para cima como quem contempla a aurora boreal. “Fala?!”

A cena não se desmontava, mas ia se acalmando. Camila continuava parada com desdém encostada na porta, a mão tinha sentado numa cadeira no corredor e chorava de soluçar e a vó andava de uma lado para o outro culpando a internet pela forma como os jovens se comportam hoje em dia. “Eu acho que eu sei o que esta acontecendo aqui…”, começou a mãe, “…ela não quer ir porque eu disse que ela não ia pendurar na parede um poster horrível que ela queria na parede, não é Camila?” Ela deu de ombros com um sorriso de ‘que absurdo’. A vó parou e olhou com desconfiança. “Pode colar o poster. O que mais você quer? Dinheiro para comprar uma mochila nova? Amanhã nós vamos comprar um mochila nova do jeito que você quiser.” Camila só balançava a cabeça e ria. “Não é isso não…”, a vô dava o tom de quem estava desvendado a charada, “tem alguém fazendo a cabeça dela com essa ideia. É má influência. É um menino, não é?” Camila fechou a cara, o que sobrou da porta do quarto e se jogou na cama. A mãe entrou no quarto se descabelando e gritando: “Quem é ele? Quem é ele?” Camila correu e se trancou no banheiro, que ainda tinha uma fechadura que funcionava. Depois de um tempo de silêncio sua mãe falou: “Tudo bem. Vou falar para todos que você esta doente e não vai poder ir. Quando seu pai chegar conversaremos sobre isso.”

Já perto da hora da festa duas batidas na porta anunciavam a chegada do pagador das contas. “Abra a porta Camila, por favor, sou eu.” O pai tinha um tom calmo e sereno. “Sua mãe disse que você não vai há festa porque um menino esta te influenciando. É verdade?” Ela não respondeu e olhou para o lado. “Essa festa não é importante só para você, é para gente também. Um amigo meu esta vindo do Japão só para ir. A televisão, os jornalistas, as amigas da sua mãe, até suas amigas, todo mundo vai estar lá. O que a gente vai falar? Que tem um menino influenciando você a ficar contra a gente?” Camila mexia a cabeça olhando para o lado, para cima, para baixo, mas não abria a boca. “Você não esta me deixando outra opção além de uma atitude drástica.” Camila parou de mexer a cabeça e olhou fixo nos olhos do pai. “Tudo bem, nós vamos dizer que você esta doente e não pode sair de casa, mas arrume suas coisas que na próxima semana você vai estudar num colégio interno para meninas na Suíça.” Camila começou a chorar, o pai levantou e saiu para a festa.

Powered by WordPress. © 2009-2014 J. G. Valério