O Nerd Escritor
Feed RSS do ONE

Feed RSS do ONE

Assine o feed e acompanhe o ONE.

Nerds Escritores

Nerds Escritores

Confira quem publica no ONE.

Quer publicar?

Quer publicar?

Você escreve e não sabe o que fazer? Publique aqui!

Fale com ONE

Fale com ONE

Quer falar algo? Dar dicas e tirar dúvidas, aqui é o lugar.

To Do - ONE

To Do - ONE

Espaço aberto para sugestão de melhorias no ONE.

Blog do Guns

Blog do Guns

Meus textos não totalmente literários, pra vocês. :)

Prompt de Escritor

Prompt de Escritor

Textos e idéias para sua criatividade.

Críticas e Resenhas

Críticas e Resenhas

Opinião sobre alguns livros.

Sem Assunto

Sem Assunto

Não sabemos muito bem o que fazer com estes artigos.

Fórum

Fórum

Ta bom, isso não é bem um fórum. :P

Projeto Conto em Conjunto

Projeto Conto em Conjunto

Contos em Conjunto em desenvolvimento!

Fan Page - O Nerd Escritor

Página do ONE no Facebook.

Confere e manda um Like!

@onerdescritor

@onerdescritor

Siga o Twitter do ONE!

Agenda

Agenda

Confira os contos e poemas à serem publicados.

Login

Login

Acesse a área de publicação através deste link.

conto da noiteO Conto da Noite
Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

>> Confira outros textos de Evandro Furtado

>> Contate o autor

* Se você é o autor deste texto, mas não é você quem aparece aqui...
>> Fale com ONE <<

0

O surto

Imagem | Antimidia

Imagem | Antimidia

A cabeça de Aguinaldo estava martelando. Ele precisava ter uma ideia. Uma daquelas que muda o destino da humanidade. Precisava de dinheiro. Precisava de muito dinheiro rápido. O mundo estava ruindo ao seu redor, como o final de Scarface quando o Al Pacino enfia a cara numa montanha de pó. E ele não conseguia pensar em nada. Só sabia que precisava de dinheiro. Muito dinheiro. Para uma casa, para um carro, a escola das crianças, a viagem para a Disney. Tinha que ser em dólar. Aguinaldo andava de lá para cá, com a mão direita apoiando a arma na cabeça, mas a ideia não vinha. Ele precisava de dinheiro grosso, não uns trocados. Tinham que ser maletas transbordando dólares igual nos desenhos animados da televisão. E tinha que ser rápido. A ideia tinha que ser algo monstruoso. Daquelas que resolvem todos os problemas e não dão muito trabalho para colocar em prática. Daquelas que rendem milhões para quem fica sentado no sofá cercado de mulheres, tomando champagne e fumando legítimos charutos cubanos. Daquelas que só precisam de uma vez e depois nunca mais.

Era uma mega-sena. Aguinaldo precisava acertar na mega-sena e ficar com todo o dinheiro. Para comprar roupas, colares e tênis. Tinha que ser muito dinheiro. Quilos e mais quilos de ouro. Em tantas barras que ele ia usar uma como peso de porta e outra como peso de papel. As pessoas iam chegar, e perguntar sobre o dinheiro, sobre a ideia. Ele não tinha nada, só um trinta e oito com cinco balas e as mãos tremendo. Sentava, levantava. Fumava um cigarro depois do outro, e nada. Tudo que ele conseguia pensar era que precisava de dinheiro. Precisava de dinheiro rápido. Em dólar, ouro, latinha, papelão. Em qualquer coisa que valesse muito. Tinha que ser muita coisa de qualquer coisa. Depois ele ia viajar, conhecer o mundo num iate cheio de garotas peladas e sexo e droga e rock’n roll. A ideia tinha que ser tão boa que ia sair no jornal. Todo mundo ia saber e todo mundo ia querer ter tido. Uma ideia simples e perfeita. Que nunca ninguém tinha tido. E ele pensava e pensava e pensava. Tinha que pagar o condomínio, o motorista, o jardineiro, a empregada. Era de muito dinheiro que ele precisava.

Mas ele precisava da ideia. Aguinaldo sabia que ela estava lá, na sua cabeça, mas ela não saia. Tinha alguma coisa prendendo. Estava quente, vermelha, suando. A ideia queria explodir, mas não explodia. E ele batia, batia e batia com a mão e a arma na cabeça. Se agachava e chorava como uma criança perdida no supermercado. Precisava de dinheiro. Precisava de uma fortuna com filhos bonitos e inteligentes. Precisava de um cofre como o do Tio Patinhas para nadar em dinheiro com a sua escolhida. Não podia demorar. Não podia ser pouco. Não podia dar trabalho. E ele deitou, respirou fundo, sentiu o coração disparar. Precisava de dinheiro. Para fazer uma festa como a do Conde de Montecristo e mostrar para o mundo que ele tinha conseguido. Para comprar balões, castelos e pessoas. O prazo já tinha acabado. Ele precisava de muito dinheiro agora. Não dava mais para esperar. A ideia tinha que vir. As pessoas iam querer saber, iam querer ver, iam querer tocar. Ele precisava de caminhões com dinheiro até o talo.

Sem a ideia não ia ter dinheiro, sem o dinheiro não ia ter a festa, a vida fácil, nem helicóptero. Ele precisava de tanto dinheiro quanto o Cidadão Kane, para poder perder um milhão por mês por toda a vida. Ele precisava de mais dinheiro que os mafiosos dos filmes do Scorsese. E tinha que ser rápido, como no cinema. Como no Lobo de Wall Street, de uma cena para outra. Porque ele não tinha tempo. E Aguinaldo chorava e arrancava os cabelos para tentar fazer a ideia sair. Para poder fazer caridade por aqueles que ele achasse que merecessem. Para ser feliz como Jack Nicholson pulando de paraquedas com o Morgan Freeman em Antes de Partir. Ele olhava para os lados, escutava os passarinhos cantando, esperava que a ideia surgisse como música para os seus ouvidos. Que finalmente todas as respostas saíram de sua boca quase como que por encanto. Não ia chegar por telefone, ou pela internet. Ia ser tão natural que ele nem ia perceber. Quando visse já estaria com todo dinheiro. Tomando marguerita numa praia do caribe. Ele precisava sair daquela casa, sentir o vento na cara trazer a ideia a tona como uma semente germina para ser uma grande árvore.

Aguinaldo marchava pela rua perseguindo a ideia. A cabeça continuava martelando sem parar. Vermelha, quente, suando. Precisava de dinheiro. De muito dinheiro. Ele via pessoas com muito dinheiro passando nos seus carros, saindo dos prédios. E ele precisava de mais dinheiro do que elas. E tinha que ser rápido. Como se soubesse exatamente o que fazer ele entrou num banco atirando primeiro nos dois seguranças, e depois no caixa que não entendeu o que ele disse. Ele precisava de muito dinheiro, rápido, dentro de uma sacola. Para comprar um apartamento duplex na beira praia, um sítio para descansar. Ele precisava do dinheiro de todos os caixas, e do cofre, e do bolso das pessoas que estavam lá. Precisava de todo dinheiro do mundo rápido, sem perguntas, sem gaguejar. É só colocar tudo dentro do saco. Rápido. Mais, mais, mais. As moedas também. Tudo. Todo o dinheiro. A polícia chegou. Cercou todo o lugar com carros e sirenes. Começou a falar alto num megafone. Aguinaldo tinha que fugir dali. Com todo o dinheiro num saco. Rápido. Ele abriu a porta e sai correndo. Ele deu seu último tiro na direção do megafone que mandava ele parar, e a polícia fuzilou Aguinaldo antes dele chegar até a esquina.

0

Novela mexicana

Camila não queria ir há sua festa de quinze anos. Para os pais que tinham investido em buffet, convite escrito a mão, colunas sociais e pingentes de ouro de lembrancinha era um verdadeiro desastre. “Como assim ela não quer ir?”, questionava a vó. “Não sei. Ela simplesmente disse que não quer ir. Esta com uma cara horrível. Nem quer se vestir. Já falei da banda que ela gosta que vai tocar, dos presentes que ela vai ganhar, que o filho dos Quinilhas vai estar lá. Ela só diz que não vai. Não sei mais o que fazer.”, respondeu a mãe aflita. “Isso é sua culpa. Ela faz tudo que quer, fala tudo que quer, vê tudo que quer, a vida não é assim. Ela tem que entender que ela não tem que querer nada, tem que fazer o que você falar e pronto.” Foi assim que a vó criou três filhas que casaram com três milionários. Se isso não era uma criação certa de família, o que era? “Tá bom, mas o que eu vou fazer?” A mãe, acostumada a obedecer, precisava de uma ordem. “Cadê o pai dela?” “Vai chegar da Coréia direto para festa. Esta no avião, não consigo falar com ele.” “É outro molenga.”

No quarto Camila espalhava a notícia. Contava para as amigas no Facebook e WhatsAPP que não ia para a própria festa porque não estava com vontade. Todas se mostravam chocadas e incrédulas. Qualquer uma delas ia ficar em êxtase com uma festa no salão nobre do Clube A++. Algumas amigas ainda queriam ir do mesmo jeito, afinal, era uma mega festa, o filho dos Quinilhas ia com certeza, a super banda ia tocar e a lembrancinhas iam ser pingentes de ouro! Camila não queria saber se o evento ia ser cancelado ou não, se não, que fosse quem quisesse. Ela não ia. “Como você é boba. Queria eu ter uma festa dessas. Meus pais são naturebas. Não tenho nem coragem de falar sobre isso com eles.” Reclamava uma. “Quando você ver as fotos na Internet vai se arrepender.” Advertia a outra. Em uma conversa mais privada ela tentava convencer Pedro, um amigo da escola que não sabia que era seu aniversário, a matar um dia de aula e ir no cinema do shopping. “O filme é muito engraçado. Tem um cachorro que fala de verdade.”

Com o tempo passando e a hora da festa se aproximando vó e mãe começaram a se desesperar. Aquela hora já não daria mais tempo de ela se aprontar como deveria. A manicure, inclusive, tinha outro compromisso e queria ir embora. Impulsionadas por essa grande pressão que o motorista da família arrombasse a porta do quarto. Camila tomou um susto e gritou quando escutou o estrondo e viu um machado atravessar a madeira. Sua mãe não estava preparada para o barulho e também gritou ordenando que o arrombador parasse com aquilo. Então Camila abriu a porta. Sua vó fuzilava ela com os olhos, os empregados se mostravam chocados com a situação, sua mãe estava com o rosto vermelho e os olhos lacrimejando. “O que esta acontecendo minha filha? Por quê você esta fazendo isso comigo?” “Eu não estou fazendo nada. Só não estou bem. Não quero ir.” “Você não tem que querer menina insolente. Comece a se arrumar agora que você já esta atrasada.” Para a vó o importante era demonstrar comando a qualquer custo. Camila só fez cara de pouco caso e olhou para faxineira, que fingiu que não era com ela com medo da culpa e do desemprego. Sua mãe não segurou mais o choro. “Olha só tudo que você tem. Olha o que sua mãe faz por você. É assim que você retribui? Por quê você não quer ir nessa festa? É a festa dos sonhos de todas a meninas da sua idade. Por quê você não quer ir?” Camila olhava para cima como quem contempla a aurora boreal. “Fala?!”

A cena não se desmontava, mas ia se acalmando. Camila continuava parada com desdém encostada na porta, a mão tinha sentado numa cadeira no corredor e chorava de soluçar e a vó andava de uma lado para o outro culpando a internet pela forma como os jovens se comportam hoje em dia. “Eu acho que eu sei o que esta acontecendo aqui…”, começou a mãe, “…ela não quer ir porque eu disse que ela não ia pendurar na parede um poster horrível que ela queria na parede, não é Camila?” Ela deu de ombros com um sorriso de ‘que absurdo’. A vó parou e olhou com desconfiança. “Pode colar o poster. O que mais você quer? Dinheiro para comprar uma mochila nova? Amanhã nós vamos comprar um mochila nova do jeito que você quiser.” Camila só balançava a cabeça e ria. “Não é isso não…”, a vô dava o tom de quem estava desvendado a charada, “tem alguém fazendo a cabeça dela com essa ideia. É má influência. É um menino, não é?” Camila fechou a cara, o que sobrou da porta do quarto e se jogou na cama. A mãe entrou no quarto se descabelando e gritando: “Quem é ele? Quem é ele?” Camila correu e se trancou no banheiro, que ainda tinha uma fechadura que funcionava. Depois de um tempo de silêncio sua mãe falou: “Tudo bem. Vou falar para todos que você esta doente e não vai poder ir. Quando seu pai chegar conversaremos sobre isso.”

Já perto da hora da festa duas batidas na porta anunciavam a chegada do pagador das contas. “Abra a porta Camila, por favor, sou eu.” O pai tinha um tom calmo e sereno. “Sua mãe disse que você não vai há festa porque um menino esta te influenciando. É verdade?” Ela não respondeu e olhou para o lado. “Essa festa não é importante só para você, é para gente também. Um amigo meu esta vindo do Japão só para ir. A televisão, os jornalistas, as amigas da sua mãe, até suas amigas, todo mundo vai estar lá. O que a gente vai falar? Que tem um menino influenciando você a ficar contra a gente?” Camila mexia a cabeça olhando para o lado, para cima, para baixo, mas não abria a boca. “Você não esta me deixando outra opção além de uma atitude drástica.” Camila parou de mexer a cabeça e olhou fixo nos olhos do pai. “Tudo bem, nós vamos dizer que você esta doente e não pode sair de casa, mas arrume suas coisas que na próxima semana você vai estudar num colégio interno para meninas na Suíça.” Camila começou a chorar, o pai levantou e saiu para a festa.

0

Reunião Amarela

Ipê amarelo

Gabriele checou as horas pela terceira vez em seu relógio de ouro – comprado por ela em seu último aniversário. A cada minuto se lembrava de que não podia perder a próxima reunião, na qual havia trabalhado dia e noite, sem parar, pelas últimas três semanas. Ao perceber que a apresentação em curso chegara ao último slide ela se levanta, agradece ao gerente que terminara de falar, pede desculpas e avisa que já está atrasada para outro compromisso. Ainda de pé, pega a bolsa que estava depositada na poltrona ao lado, a coloca em seu ombro e sai em direção ao elevador. Mal chega à frente do elevador e já é surpreendida pelo celular vibrando. Ao olhar no visor percebe que a ligação é de Júlio, diretor-presidente da subsidiária da empresa em Brasília, poucos segundos após atender confirma que tudo está preparado e que já está a caminho do restaurante combinado.

Tão logo ela pressiona o botão do elevador, indicando que vai descer, a porta se abre relevando um compartimento completamente espelhado, com piso em mármore Travertino Perlato na cor bege claro, preenchido com formas irregulares que dão vida a peça. Entrando no elevador sinaliza que irá até o 1º subsolo, reservado a diretores, vice-presidentes e o presidente da empresa. Ainda com o celular em mãos, continua respondendo as inúmeras mensagens que recebe dos gerentes da empresa.

O elevador chega até o andar desejado. Ela sai, descendo pelos quatro degraus na escada a sua frente, vira à direita e já consegue vislumbrar seu carro. Pressionando o controle para destravar o veículo ouve o bit, indicando que seu importado está aberto. Logo que se acomoda nos bancos escuros de couro, fecha a porta, dando a partida no carro. Em poucos segundos deixa a garagem subterrânea, seguindo pela avenida tomada por carros, em mais um dia ensolarado da primavera.

Agora é ela quem pega o celular e liga para Paulo, seu gerente de confiança, confirmando se tudo está perfeito para a reunião de logo mais: questiona se a reserva está confirmada, se o maitre foi avisado sobre a preferência dos vinhos e queijos de seus convidados e se a apresentação foi encaminhada ao restaurante. Tomando o cuidado de nada passar despercebido. Negócios como aquele eram difíceis de serem arranjados e nada poderia dar errado.
Ao virar a esquerda na rua principal ela se depara com o semáforo mudando do verde para o amarelo, indicando que fechará em pouco tempo. Ao visualizar a hora no relógio do painel do carro percebe que o horário marcado já está se aproximando. Reclama pelo tempo perdido no sinal, questionando qual a serventia daquilo, além de atrasar reuniões e causar um acúmulo maior de carros numa das pistas mais movimentadas da cidade.

Agora parada no sinal, sente-se como se o tempo voasse, fazendo-a se atrasar cada vez mais a cada longo segundo marcado pelo relógio.

Ao olhar para sua esquerda, Gabriele nota uma árvore. Hipnotizante sem nenhum motivo em especial, além da mais pura forma de beleza que a natureza tem a oferecer.

O amarelo vivo da árvore fazia com que o olhar de Gabriele não se desviasse do Ipê amarelo por nenhuma fração de segundo. Os vários galhos retorcidos eram revestidos por flores, tão belas quanto o mais espontâneo sorriso de um recém-nascido. Sem perceber, ela mergulha em lembranças, há muito não vividas de sua infância com a família. Recordando das tardes de piquenique que sua mãe fazia questão de organizar para ela e os irmãos. Os três se fartavam com os bolos, tortas e biscoitos cuidadosamente preparados à mão. O suco feito pela mãe, o preferido do irmão mais novo, vinha da laranjeira plantada no quintal, que servia, ainda, de sustentação para um velho balanço. Os três brincavam diariamente de esconde-esconde, utilizando a árvore como esconderijo predileto.

Gabriele, imersa em meio a lembranças do passado, não percebe as inúmeras mensagens recebidas, nem mesmo as duas ligações perdidas.
Com um olhar distante, recorda, com uma leve pontada em seu peito, que várias eram as oportunidades em que sua mãe se juntava a eles em meio as brincadeiras. Uma das preferidas era quando, deitados na grama, ficavam contemplando as nuvens, imaginando toda sorte de figuras. De gatos, elefantes e pássaros a anjos e carros. Aquele momento se seguia por horas. O primeiro que reconhecesse uma figura, em meio ao mar de nuvens em movimento no céu, a mostrava para os outros. Ao final, quem tivesse visto o maior número de figuras vencia. Curiosamente não conseguia se recordar de sua mãe vencendo nenhuma das vezes. Se perguntando se ela não os deixava ganhar.

Gabriele tem sua atenção tomada pelas flores tremeluzentes, que se moviam em direções imprevisíveis, onde cada uma delas era a dançarina principal do seu próprio ballet. Uma das flores é levada pelo vento, deslizando lentamente pelo ar até se juntar ao tapete completamente amarelo, que rodeava a base da árvore, como o véu de uma noiva ajoelhada ao altar.

Despertando do transe ao som estridente da buzina que vinha do carro atrás dela, percebe que seus olhos estão inundados por lágrimas de saudade, desejo e inocência. Resultado de suas mais belas memórias, que, por conta da rotina frenética de sua vida profissional, não eram visitadas. Novamente o som nervoso da buzina chama sua atenção. Ao fitar o motorista, visivelmente irritado, o vê gesticulando com a mão para fora do veículo e proferindo palavras que não devem ser mencionadas. Há dois segundos, o sinal havia mudado para a cor verde, sinalizando que os carros estavam livres para continuar seguindo seus trajetos. Gabriele seca, com a ponta do dedo, uma lágrima solitária que desce lentamente pelo canto do olho direito. Soltando o ar numa lenta e profunda expiração, ela acelera o carro e segue seu caminho rumo ao compromisso completamente esquecido pelos últimos segundos…

Publicado por BrunoBonfim em: Agenda | Tags: , , , ,
0

Leilão – Parte 1

…dou-lhe duas, dou-lhe três, veeendido!!

Lívia fica eufórica por ter vencido a disputa daquele item repentinamente tão desejado. No fim, teria que desistir se sua concorrente desse apenas mais um lance.

Ao som da terceira batida, indicando a venda da última peça, ela se dirige à área administrativa. Passando por obras dos mais variados tipos, épocas, tamanhos e cores. Algumas reconhecidas pela crítica; de valor artístico inestimável. Nenhuma delas lhe roubava a atenção. Pensando unicamente no objeto adquirido há pouco.

Ao saber que a entrega seria realizada somente no próximo sábado sentiu uma mistura de entusiasmo e decepção. Teria que esperar 3 longos dias para tê-lo em suas mãos.

Saindo dali, dirigiu-se à faculdade, onde cursava o 6º semestre de História. Naquela noite, a descontraída aula de História Medieval parecia completamente sem sentido, cansativa e maçante. Tendo sempre um comentário sobre qualquer que fosse o assunto tratado. Naquela noite, porém, privou a turma de seus mais interessantes pontos de vista sobre o tema da noite – As monarquias medievais: França e Inglaterra.

A imagem da mais nova aquisição visitava sua mente, roubando sua atenção a todo instante.

Ângela, sua amiga e vizinha, percebe que ela não se dá conta de que o professor havia feito uma pergunta sobre o que era debatido. Tentando alertá-la, tece rapidamente comentários em voz alta, dando a deixa para que Lívia completasse a resposta.

No carro, a caminho de casa, agradeceu a amiga dizendo que não conseguiu prestar atenção a nenhuma das aulas daquela noite.

Parada, poucos passos após ter-se despedido da amiga, ela ouve a porta sendo arranhada. Ao abri-la dá de cara com bonaparte, abanando o rabo num ritmo alucinante. Ao adentrar, é imediatamente recepcionada com latidos, pulos e lambidas de seu mais antigo companheiro.

Passando pela sala – decorada com um sofá de dois lugares, um rack de metal que sustentava uma velha TV e uma poltrona -, cruza o estreito corredor que de um lado dava acesso à cozinha e do outro ao banheiro social, ela chega a sua suíte. O quarto contava com alguns livros, espalhados sobre uma pequena mesa de estudos ao lado da entrada. Posicionado ao lado da cama de casal, o criado mudo amarelo era decorado pelo pequeno abajur. As leves camadas da cortina branca dançavam, seguindo o ritmo da corrente de ar que adentrava pela janela entreaberta.

Bonaparte estava deitado, admirando sua dona, enquanto ela se preparava para tomar banho. Automaticamente ela se despe, jogando as roupas no cesto abaixo da bancada. A fumaça produzida pela ducha inundava todo o ambiente, embaçando teto, paredes e espelho com uma fina camada de vapor.

Saindo do box, enrola uma toalha de rosto nos cabelos, vestindo seu roupão aveludado. Diante da bancada decorada por todo tipo de batons, sombras, pincéis e escovas Lívia contemplava seu semblante após um longo e cansativo dia. Seu olhar fatigado mirou o moderno secador de cabelos, que ocupava um dos cantos da superfície. Balançando negativamente a cabeça desiste de secar os cabelos dirigindo-se à cama para um merecido descanso.

A luz acesa do abajur revelava a intenção de ler mais algumas páginas do livro indicado por um de seus professores. Depois de 5 páginas perde a concentração. A mão que acariciava seu cão fica imóvel. Seus olhos vão ficando mais e mais pesados, até que cada pálpebra pese tanto quanto seu exemplar de Os Pilares da Terra. Sem avisar cai no sono, sendo vigiada pelo fiel amigo.

Os próximos dias seguiram normalmente: de casa para o trabalho, de lá para a faculdade e depois para casa novamente para um pouco de leitura, televisão e brincadeiras com bonaparte. A rotina só foi quebrada na sexta-feira: noite de explorar novos pubs na companhia da amiga, bater papo com outras pessoas e quem sabe conhecer algum cara mais interessante.

Sábado, o dia mais esperado da semana havia chegado. No início da tarde o interfone rompe o silêncio do ambiente, indicando a chegada dos entregadores.

Eufórica Lívia autoriza a subida dos homens; aguardando, ansiosamente, ao lado de fora da porta, até que o sinal do elevador avise que enfim chegaram ao destino correto. Rapidamente ela abre espaço indicando onde o objeto deve ser colocado.

Acompanhando de perto toda a movimentação dos funcionários da casa de leilões. 30 minutos mais tarde, o trabalho estava concluído.

Despedindo-se deles, fecha a porta – esquecendo-se até mesmo de trancá-la – e se dirige para contemplar os detalhes daquele item.

Publicado por BrunoBonfim em: Agenda | Tags: , , , ,
0

A leitura dos clássicos da literatura.

Os clássicos são a base de tudo. A leitura de livros essenciais para a formação da mocidade passa pelos clássicos. Infelizmente a maioria das pessoas se esquece que um livro chamado “clássico” um dia foi popular, assim como a música, até o século 19 e o princípio do século 20.

Entendemos por clássicos não apenas os padrões da literatura, artes e cultura da antiguidade greco-latina, tudo que é fiel a essa tradição, mas também o que serve de modelo, que é exemplar, cujo valor foi posto à prova do tempo e continua atual, vigoroso. Devemos sempre ler os clássicos da literatura e estimular os jovens a lê-los, pois ali está a base de tudo.

Poder-se-ia dizer que a ficção é mais forte que a própria realidade, porque a ficção está na cabeça, e é o homem que faz essa realidade. Toda realidade espelha o fluxo do caminho que o ser humano escolheu para seguir. A vida é feita de escolhas, e a ficção tenta explanar um pouco dessa fina realidade através de lentes sensíveis à luz dos fatos, o que nos torna mais aptos a compreendê-la. É essa grandeza da ficção, dos clássicos, da literatura.

Ao invés de solicitar a leitura e determinado livro, conto, crônica, que certamente os jovens não gostariam, o (a) professor (a) poderia trabalhar a narrativa para prepará-los ao ato receptor: contar, no meio da aula, a história de uma agulha que discute com um novelo de linha (conto “Um apólogo”, de Machado de Assis). Talvez isso aguce a curiosidade de alguns. Citamos Machado por ser o maior clássico brasileiro, de todos os tempos. E os clássicos modernos? Mesmo que não seja uma leitura prevista no programa, seria uma nova experiência a leitura de um trecho de Clarice Lispector, quebrando as frases, como se sua prosa fosse um poema> Ou Guimarães Rosa. Ou um conto fantástico do esquecido Murilo Rubião. Um poema de Carlos Drummond de Andrade, ou Mário Quintana, este último que possui uma doce e belíssima produção para essa mocidade sedenta de “velhas novidades”, como o amor, como já disse o próprio poeta.

A leitura de clássicos modernos é mais agradável ao jovem, pois está mais próxima de seu tempo. Os autores de língua estrangeira também devem ser lembrados, plantando-se uma semente em alguns ouvintes.

A leitura de Lusíadas ou Dom Quixote seria pesada demais; entretanto um conto de Pirandello, Maupassant, Borges, Poe, Mansfield, Joyce, ou um belo poema de Rilke, Pessoa, San Juan de La Cruz, Shakespeare, pode fazer a diferença, pois irá soar estranho para eles. O ideal seria fazer um paralelo entre os clássicos estrangeiros e a nossa literatura, dentro da realidade dos jovens.

Em um questionário de início de ano, pode-se perguntar qual é a maior preocupação deles, colocando-se algumas opções (insegurança, raiva, tristeza, relacionamentos, amor etc.) E deixando espaço para a opção deles. Dessa primeira amostra, selecionarmos alguns contos e/ou poemas que tratem dos temas abordados. Isso já é uma forma de prender a atenção dos alunos. Após a leitura, as tradicionais perguntas – poucas, a princípio – para se aferir a reação deles. O nível das respostas irá ditar como trabalhar os textos cujos temas eles mesmos escolheram.

A partir dos temas eleitos pelos alunos, pode-se solicitar, nos exercícios, para destacarem uma parte do texto em que o tema surge. Debater, se houver clima para tal, em sala de aula. Enfim, fazer tudo para evidenciar o texto analisado. E, após, lembrá-los de que aquele mesmo texto foi escrito anos atrás, mas que ainda fomenta esse produtivo debate. Sinal que ele ainda não se esgotou – nem se esgotará. É um clássico.

Se um texto mantiver a sua força por mais de 50 anos, é um clássico. A partir desse conceito, os alunos podem eleger o seu clássico. Ao ler as primeiras linhas, eles serão os maiores críticos: estão envoltos do atual, eles são a vanguarda, o novo, analisando o que agrada a eles, em seu entender. Em uma classe de muitos alunos, deve-se votar no máximo uns três livros, dentre os escolhidos. Desse modo, o estímulo, mesmo que pequeno, para a leitura de textos essenciais para a formação de uma vida, estará sendo despertado. E, uma vez desperto, esperemos que acorde outros mais. Mesmo num país em que a especialização tornou-se obrigatória, em que títulos falam alto, há espaço para um médico que lê poesia, um advogado que lê contos. Cabe a nós esse começo.

Publicado por ricardo santos david em: Agenda | Tags:

Powered by WordPress. © 2009-2014 J. G. Valério