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Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

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Eternidade

jardim_suspenso_one

I – Cerimônia

Ainda não sei como vim parar aqui. Me encontro andando em uma fila desconhecida, no interior de um anfiteatro, cheio de cristais, vidro e mármore branco por todo o chão. A abóbada, desenhada criteriosamente na porta à qual me dirijo, remete às cerimônias de iniciação. Com coragem e um pouco de receio, resolvo perguntar ao homem que se encontra em minha frente.

– Estamos indo aonde?
– Está de brincadeira, né?

Permaneço calado. Minha consciência é minha única aliada neste instante. Ouvir minha própria voz me conforta enquanto saímos para o pátio externo.

Um dos voluntários pega uma arma transparente e imediatamente coloca em minhas mãos. Por que motivo? Quando começa a correr abaixado, resolvo segui-lo. O silêncio permanece, não quero interferir. Faz-me um sinal e percorro a ponte, abaixado, até o outro posto igualmente de vidro e mármore branco. Então, ouço um tiro. Uma sombra desaba lá embaixo. Não consigo me conter. Pergunto; incrédulo.

– Você… Atirou… Em seu próprio companheiro?
– É claro. Ele foi purificado. O que houve com você?

Percorremos mais alguns metros. Um projétil ricocheteia nas barras da ponte. Estamos claramente em vantagem, apesar de não saber quem é o inimigo. Ele atirara no próprio colega!

Quando quase sou acertado, começo a levar a sério aquela “brincadeira”. Procuro entender como funciona aquele mecanismo, incrivelmente semelhante a uma arma comum dos tempos antigos. Mas não posso fazer isso. Nem sei o que está acontecendo. Observo mais alguns companheiros da fila fazendo o mesmo.

Uma sirene toca. Está na hora de voltar. Aqueles quinze minutos duraram uma eternidade. Que cerimônia de purificação era aquela, onde os companheiros, colegas e até amigos ficavam felizes em retirar a vida uns dos outros? Devia estar sonhando. E aquele era um pesadelo dos bons.

– Vamos! Está na hora do Engenheiro palestrar.

Evito as perguntas e me controlo, até entender o que está acontecendo. O título “Engenheiro”, da forma pronunciada, denota uma carga de grande responsabilidade. Pode ser que ele traga algumas respostas. Tento iniciar um diálogo, de forma tímida.

– Palestra sobre o que?
– Ah, o de sempre. E alguns novos projetos.

Esclarecedor. Voltamos pela mesma sala, só que desta vez saímos dentro do salão principal, imponente com sua curvatura além do limite da percepção humana, onde uma suntuosa tribuna o aguarda. Ele sobe. Antes que pudesse me sentar naquelas cadeiras macias, noto seu interesse por mim. Seu olhar denota curiosidade e não desconfiança. Após deslizar a mão direita sobre algumas telas, introduz o assunto.

– Como todos sabem, desde que o homem deixou para trás sua terra natal, temos procurado evoluir nossa sociedade como um todo.

Terra natal? Para trás? Ouço o restante.

– E conseguimos. Apesar disso, a cultura avançada trouxe, como consequência, a estagnação. Continuamos a nascer com desejos incontroláveis, o que levou os Engenheiros a projetarem a Cerimônia de Purificação. Muitos de vocês ouvem essas palavras pela primeira vez, enquanto seus colegas, não purificados, as ouvem há muito tempo. O que presenciaram foi apenas uma amostra do que está por vir.

A humanidade nasce com necessidade de guerra… Era isso mesmo que estava ouvindo? Deixo de ouvir algumas partes enquanto raciocino.

-… Agora vão! Vivam suas vidas! E ao final do mês estejam preparados para a Cerimônia!

Ignoro o restante do discurso. Junto as peças. Consigo entender tudo, rapidamente – um mistério. Uma sociedade altamente avançada que, cansada da iluminação contemplativa, exploração e avanço tecnológico, resolve criar um esporte mortal que faz o homem sentir-se vivo e o purifica, entregando-o de volta ao solo. Irônico. Insano.

Vejo-o cochichar com um ajudante. Volto para meu dormitório. As instalações são praticamente perfeitas. Toco nos controles flutuantes e procuro testar algumas opções. Literatura é o que não falta. No entanto, parece existir um buraco de tempo entre cada classificação. Busco pelo livro mais antigo do mundo – a real necessidade inerente ao ser humano. Pelo menos em minha concepção.

Não encontro. Em seu lugar, apenas uma mensagem nada amigável: “A sociedade antiga quase nos levou à extinção. Devido a um incontável número de fatores, foram constituídos novos pilares. O conhecimento antigo foi transformado. Deseja realizar nova busca?”.

Quem era eu para julgar um conceito desconhecido? Mas aquele livro sempre sobrevivera a tudo, de uma forma ou de outra. Como o haviam exterminado? A menos que ele estivesse fora dos registros conhecidos, e as cópias físicas escondidas em algum lugar. A porta emitiu um som. Pelas suas roupas e manto, era um dos Engenheiros.

– Algum problema, candidato?
– Sim. Não encontro literatura antiga.
– De que época?

Acho perturbador não lembrar-me de onde vim.

– Antiga.
– Muitas informações se perderam com o tempo e outras foram transformadas – como o surgimento da Estrela Lilás, que nos fornece energia em abundância.

Poderia ser um buraco negro? Improvável. A menos que realmente possuíssem a tecnologia para extrair energia de tamanho fenômeno cósmico. Resolvo arriscar.

– Quero pesquisar artes e literatura dos anos recentes.
– Ah, de 999 a 990 AM.
– É… Isso…

AM? Pelo visto, AC e DC já deixaram de ser usados há muito tempo. Poderia estar além disso? M não me dizia nada. Mil, milhões, miríade, milenar… O que realmente importava era que, de alguma forma, estava no “lugar” errado.

O Engenheiro digitou rapidamente seu código nas telas quase invisíveis e, alguns segundos depois, a parede cuspiu um pequeno rolo do tamanho de minha mão.

– Aqui está. Esperamos que aprecie e compreenda melhor o que estamos fazendo.

Saiu. Passei a noite lendo e relendo aquelas informações. Quase não dormi.

De manhã resolvi dar uma volta por aquela cidade desconhecida. Enormes estátuas nas laterais das ruas homenageavam os fundadores e a própria criação. As fontes jorravam água em intervalos regulares, criando uma estranha sinfonia ao circundarem o palácio externo. Os jardins suspensos completavam o cenário de Éden recuperado. Sem dúvida, uma sociedade que priorizava as artes e outras formas intelectuais de expressá-la. Um anacronismo incomum, se comparado ao seu esporte.

Foi então que avistei, após encerrar minhas divagações, um pequeno prédio afastado, isento de ornamentação helenística. Bem comum, apesar de o material lembrar ouro bruto, quase cinza.

Andei tranquilamente até lá. Percebi que todos utilizavam as mesmas roupas brancas. Havia algumas variações aqui e ali, mas em suma, todos vestiam a mesma coisa. Inclusive eu. Distraído, dei de cara com o campo de força que envolvia aquela estrutura. Indagando um dos transeuntes, recebi apenas a resposta “há lugares que não podemos ir”. Simples assim.

Um dos excêntricos dirigíveis de telas anunciou o horário de almoço. Não pareciam dar atenção ao tempo e realmente não tinha avistado nenhum relógio.

Entrei em um dos prédios de alimentação. Para minha surpresa, as mesas estavam fartas. Podia aproveitar o que quisesse, sem pagar nada por isso. As frutas e cereais eram incrivelmente saborosos.

Um ótimo lugar para se viver, não fosse aquele fato. Aproveitei o restante do dia para apreciar mais algumas esculturas e aprender um pouco mais daquela cultura insólita.

A noite chegou rapidamente. A Estrela Lilás emitia uma luz sombria sobre todo aquele jardim.

Estudando os manuscritos holográficos, descubro que estou em 1000 AM (Ano Milenar) e que aquela é uma cultura composta por várias ordens distintas, tais como Arquitetos, Engenheiros, Artistas e Geneticistas. Novamente, não encontro nenhum registro relacionado ao livro que procuro, tampouco aos prédios isolados.

Não tenho outro objetivo em mente, a não ser descobrir como vim parar aqui e por que fui enviado. Tinha um longo mês pela frente.

II – Livro

O dia da cerimônia finalmente havia chegado, e com ele, uma sensação ruim – matar ou ser morto. No mês que se passou, consegui me acostumar ao ritmo daquela vida pacata, de criação e contemplação. Estava começando a gostar. Isso era ruim. Ou talvez não.

Os Engenheiros fizeram um breve anúncio e liberaram as arenas, distribuídas por quase toda a cidadela. Naquele dia, o ser humano deixava sua natureza selvagem aflorar, como uma válvula de escape, sem limites morais, mas com consequências desastrosas. No entanto, se quisesse pôr meu plano em prática, tinha de assumir alguns riscos.

Atravessei o corredor, peguei um dos instrumentos da Morte e corri. Atravessei a primeira ponte sob fogo amigo. Um deles pegou de raspão em meu ombro. O uniforme deu conta de curar o ferimento. Aquilo era novidade. A ideia geral daquela cerimônia não era simplesmente machucar e sim, tirar o fôlego da vida.

Mais duas pontes e chegaria ao meu objetivo. Mirei no meu colega de aposento. Minhas mãos tremiam. O pequeno radar automático fez seu trabalho. Bastava apenas apertar o gatilho. Tudo cuidadosamente planejado. As pessoas se preocupavam mais em manter seu estilo de vida do que preservar a espécie. Aquele jogo cheirava a controle populacional, disfarçado de culto.

Lembrei-me de meu uniforme e foi o que fiz dali em diante. Não acertei nenhuma parte vital de meus oponentes, para que pudessem se recuperar assim que os deixasse para trás. Seus movimentos eram quase pré-determinados. Esquivei-me de várias emissões de plasma, mas a essa altura, meu corpo estava cheio de cicatrizes. Tive muita sorte, ou então alguém estava me ajudando…

A última ponte encontrava-se a vários metros do solo e passava por cima dos prédios protegidos. Estava prestes a cometer uma loucura – algo que nenhuma daquelas pessoas condicionadas sequer cogitaria.

Pulei.

Felizmente meus instintos estavam corretos. O traje realmente conteve a queda, mas ao escorregar por aquela estrutura cravejada de micrometeoritos, saí com vários arranhões (mais alguns não fariam diferença).

A porta, fraca pela ação do tempo, abriu com apenas um chute. Lá em cima, ignoraram completamente minha ausência, afinal, para eles, já devia estar morto. Para minha surpresa o prédio estava completamente vazio. Somente uma poltrona corroída destoava do ambiente.

Aproximei-me e a virei. Um esqueleto humano abraçava um livro, como se o último desejo fosse morrer protegendo aquela relíquia; com fé em alguma promessa futura. Isso me fez ser mais cuidadoso ao retirar os manuscritos de suas mãos. Poderia ser o que estava procurando?

Consegui o proteger de tal forma que, mesmo tocando-o, não se desfez levado pelas areias do tempo. Foi nesse instante que ouvi o som de utensílios sendo derrubados no outro cômodo. Engatilhei a arma. Misteriosamente o radar não funcionou.

Um senhor de idade, vestido com mantos pobres, quase sem cores, exclamou.

– Eu sabia que um dia alguém viria aqui!

Permaneci sem dizer uma palavra.

– Não precisa ter receio. Se você está aqui, é porque não é tão cego ou desmiolado como nossos irmãos. Além disso, você é prova de que nosso plano deu certo.

Desliguei o aparelho.

– Quem é você?
– Um dos Arquitetos.
– Que plano?
– Vou direto ao ponto, pois tenho pouco tempo. Lembra-se de como chegou até aqui?

Pela minha expressão, não esperou a resposta.

– Você parece ser mais esperto que os outros.
– Outros?
– Você é um clone.
– Como?
– A grande maioria é. No entanto, alguns foram programados com memórias mais antigas, talvez por descuido ou por obra dos primeiros Arquitetos.

Algo me dizia que toda insanidade possuía traços de verdade.

– Por que meu interesse por esse livro?
– Fomos designados a protegê-lo, até o fim dos tempos. Se você já se questionou o que ocorre ao nosso redor, sabe que nos falta um guia.
– Mas sua sociedade não é perfeita?

Insisti no pronome, apesar de fazer parte dela.

– Sociedades perfeitas têm problemas perfeitos. E nosso principal problema está lá.

Apontou para a Estrela Lilás. Continuou.

– Ela nos influencia. De alguma forma. A sociedade mudou, e, apesar de estarmos no estágio final, a imperfeição ainda nos rodeia. E nos caça, como um leão que ruge. No início, de forma sutil. Agora, com cerimônias como essa.

Não pude evitar a próxima pergunta.

– E… A humanidade original?
– Ainda está lá em cima, diminuindo a cada cerimônia. Somos mais ágeis, apesar de possuirmos pouco tempo de vida.

Entendi o motivo que me fazia desviar facilmente dos projéteis, em meio ao tiroteio. Resolvi entrar no mesmo espírito de seus devaneios, sem digerir por completo a história de clones.

– Esse livro pode realmente mudar a sociedade?
– Sim. Já o fez. Várias vezes.
– Para o bem ou para o mal?
– Depende de quem o empunha. Sua mensagem é pura e verdadeira. Mas o ser humano costuma distorcer suas leis e princípios e adaptá-los ao seu gosto.
– Não foi por isso que o eliminaram dos registros?
– Reconheço que suas informações poderosas já alteraram a história várias vezes. Mas creio, com todo o sopro de vida que me resta, que já estamos nas últimas páginas.

Não parecia restar muito tempo mesmo. Ainda cético, indaguei.

– Há provas?
– A “Estrela”, solta por mil anos… Nossa estrela. Leia você mesmo se não acredita. O que vem depois… Bem, parte disso já vivenciamos. No entanto, nunca estaremos preparados enquanto dermos vazão aos nossos instintos mais selvagens, sob más influências.

Um disparo ricocheteou no campo de força. Quase havia esquecido que lá em cima estava acontecendo uma guerra disfarçada.

– O que eu devo fazer, então?
– Substituir o guardião da relíquia. Minha hora está chegando.
– Como farei isso?
– Desde o instante em que você entrou aqui, seu destino estava selado. Ninguém pode entrar (pelo menos, nenhum dos “normais”). Mas também ninguém pode sair.
– O que?
– É exatamente isto o que você ouviu. Estou outorgando-lhe meus poderes de Arquiteto. Jamais saia de perto desse livro!
– Então… Minha vida se resume a isso?
– Você não ouviu o que eu disse antes? Vai acontecer algo, neste período, nesta época. Esteja atento e saberá como agir! Agora, me deixe descansar, por favor.

Sumiu assim como havia surgido. E lá estava eu, um clone de vida curta, segurando o livro que poderia mudar o curso da sociedade, sem saber o que fazer a seguir. Os dias que se seguiram foram intensos, cheios de expectativa e emoções desconhecidas aflorando. Por quê? Ora, uma estrela dourada surgiu nos céus, eclipsando nossa maior fonte de energia.

III – Eternidade

A cerimônia de purificação terminara com sonoras melodias de harpas. A população diminuiu em mil pessoas e o mais surpreendente é que estavam felizes com isso. Uns mais que outros, agora que entendia plenamente o que estava envolvido.

Irônico. Nós éramos a maior conquista da humanidade, no entanto, segregados inconscientemente. E eu ainda devia proteger seu bem mais precioso – ignorado, rotulado como informação destruída ou transformada.

No mês que se seguiu, enquanto nossa fonte de energia desvanecia, sem saber ao certo como os cidadãos estavam reagindo a isso, resolvi ler aquelas informações repudiadas pela última geração.

Descobri, dolorosamente, que não existia um futuro para nós. Assim, compreendi o motivo da revolução disfarçada e o destino ao qual submeteram aqueles escritos.

No entanto, não restava muito que fazer. A estrela dourada já assumia órbita e estava prestes a engolir nosso mundo. Eu poderia destruir ali mesmo aquela última peça da cultura humana. Mas não o fiz. Apenas aguardei, com certo descaso, o fim que se aproximava.

A estranha luz da nova estrela, composta de energia cósmica, desceu. Atingiu a superfície como uma lente de aumento, ocupando todos os prédios, palácios, casas suntuosas e esculturas. Seguiu-se um incomparável silêncio, reconfortante. Os campos de força caíram. O armamento foi dissolvido, quase sendo moldados em instrumentos agrícolas. Algo além da compreensão.

Fechei os olhos. Desisti. E me entreguei.

Banhei-me em seu prisma. Pensei que seria desintegrado, mas não ocorreu nada além do restabelecimento de meu organismo. Sentia-me bem, saudável, sem sequelas, sem cicatrizes.

O livro caiu. Aberto nas últimas páginas vi, com meus próprios olhos, que o Arquiteto tinha razão. E tive o privilégio de existir na época certa, no período designado. Aquele foi o primeiro sorriso natural que exibi, desde minha criação, ao visualizar a verdade plena sem a influência externa da outra “estrela”.

Páginas em branco.

Publicado por Brian Oliveira Lancaster em: Agenda | Tags: , , , , ,
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Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? | Conheça o livro que deu origem a Blade Runner

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Meses antes da sua morte, Philip K. Dick aguardava ansiosamente a chegada de Blade Runner – O Caçador de Androides aos cinemas. “Ouvi dizer que o filme terá uma estreia de gala como antigamente. Isso quer dizer que vou precisar comprar – ou alugar – um smoking, não é algo que eu queira fazer. Não é meu estilo. Fico mais feliz de camiseta”, declarou o escritor à The Twilight Zone Magazine ao final da sua última entrevista.

A relação de K. Dick com a adaptação de Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, porém, nem sempre fora tão otimista. Em 1970, passados dois anos da publicação do livro, o produtor Herb Jaffe comprou os direitos para o cinema e foi ameaçado pelo escritor ao mostrar o roteiro criado por seu filho Robert: “Devo bater em você aqui no aeroporto ou no meu apartamento?”. Anos depois, em 1977, o produtor Michael Deeley se interessou pela versão de Hampton Fancher para o livro, dando início a odisseia que resultou no filme lançado por Ridley Scott em 25 de junho de 1982.

… continue lendo no Omelete! 🙂

Publicado por The Gunslinger em: Notícias | Tags: , ,
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Paulo Coelho: “Não dou autógrafo”

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Aos 66 anos, o escritor Paulo Coelho se prepara para lançar seu 28º livro. “Adultério” será publicado inicialmente no Brasil, com uma tiragem de 100 mil exemplares. Até o final do ano, será lançado em mais de 34 países.

A história é um triângulo amoroso formado por Linda, uma jornalista que vive aparentemente um conto de fadas, seu marido rico e um antigo namorado dos tempos de escola, político em ascensão, também casado.

Coelho conta que a ideia de escrever sobre adultério surgiu após consultar seus seguidores na internet. São 19 milhões no Facebook e 9 milhões no Twitter.

“Oitenta por cento das pessoas consultadas falavam em depressão induzida por uma infidelidade conjugal. Comecei a entrar em fóruns de maneira anônima para entender por que reagiam dessa maneira”, diz. “Terminei em duas ou três pessoas que me serviram de base para a composição dos personagens.”

Ocupante da cadeira de número 21 da Academia Brasileira de Letras, Paulo Coelho tem 165 milhões de livros vendidos no mundo, traduzidos em 80 idiomas.

Para esta entrevista, o escritor recebeu 22 perguntas por e-mail. Decidiu selecioná-las e gravou as respostas em um podcast. Leia os principais trechos.

… confiram a entrevista no Livros só mudam Pessoas! 🙂

Publicado por The Gunslinger em: Notícias | Tags: , , ,
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Novo romance de Patrick Rothfuss em novembro de 2014 no exterior

Patrick Rothfuss

É isso mesmo leitores, depois de várias especulações em torno do lançamento do terceiro volume da série A Crônica do Matador do Rei de Patrick Rothfuss, dessa vez tem algo realmente concreto sobre um novo livro ambientado no mundo dos Quadro Cantos…

Ok, vamos abaixar um pouco essa empolgação, ainda não se trata de The Doors of Stone, o terceiro dia narrado pelo nosso querido personagem Kvothe, e sim um livro centrada na misteriosa personagem Auri.

… continue lendo no Sobre Livros.

Publicado por The Gunslinger em: Notícias | Tags: , ,
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O CLUBE – Capítulo 1

 

 

 

 

 

 

 

Cap   01                                           O CONVITE

 

 

 

 

 

Posso?

– Como? – surpreendeu-se Enzo; absorto que estava na leitura do livro de sua autoria. A chegada de surpresa daquele estranho, ali, em pé à sua frente foi como um tapa na cara. Tudo que não queria era intrusos neste momento. Tirar os olhos abruptamente de suas letras soou como uma invasão a domicilio, algo inimaginável, violento. Por isso mesmo resolvera tomar seu café tão longe de casa, em um bar distante. Socara-se no fundo do pequeno recinto, certificando-se assim de que não teria chance alguma de ser perturbado. Era sua primeira leitura, seu primeiro livro, era um momento sagrado, envolto em magia, tinha de estar só… e agora aquele homem… que impertinente! Olhou nos olhos do recém-chegado de um jeito tal que ficasse claro sua indignação; afinal quem era esse homem? O que queria? – Posso? – pergunta ele, sim, quer sentar, quer conversar, quer encher! – Não, não pode! – pensou em responder de pronto, mas vencido pela curiosidade, baixou calmamente o livro e colocou-o sobre a mesa. O homem vestia uma grossa gabardine caqui e agora retirava seu chapéu cinza estilo fedora, deixando um semblante amistoso, porém enigmático ficar mais às claras.

– Permita que me apresente, meu nome é Rodolfo Zattan. Talvez já tenha ouvido falar no meu nome, isto é… se você realmente gosta do que faz.

Enzo arregalou os olhos, Rodolfo Zattan! Sim, sim, o escritor! Ora essa! Lera algo sobre seus livros, embora não os tivesse propriamente lido, mas realmente era alguém de nome. Lera uma resenha de Assassinato nas Sombras e havia ficado inclinado a adquirir o livro… tinha uma violência crua, brutal e realista, de uma natureza espantosamente instintiva…bem, sim, Zattan… ora porque não? Levantou-se para saudar o autor, sem jeito, meio incrédulo ainda.

– Claro, me perdoe, é que não o conhecia pessoalmente, me desculpe a grosseria.

– Normal – disse Rodolfo, através da bonomia de um sorriso, um sorriso que deixou Enzo bem mais à vontade. Ambos sentaram. O homem botou seu chapéu sobre a mesa.

– Primeiro livro, hein? Ah, me lembro bem – disse Rodolfo – o cheiro, sim, não esqueço do cheiro, não é exagero dizer que li meu primeiro livro com o nariz! Hehe…

– Bem… Senhor Rodolfo, como sabe que é meu primeiro livro? Acaso já estarei ficando famoso? – brincou o autor novato, meio sem jeito.

– Hahahaha – a gargalhada fria de Zattan, irritou um pouco Enzo – calma meu jovem, calma. Você chega lá… ou não. Aliás, por isso estou aqui – quando o garçom chegou à mesa, Rodolfo pediu uísque sem gelo, uma dose – sim, li o seu livro, faço isso sempre com novos autores. È um vício. Saudável, diga-se de passagem, pois posso abordá-los no nascedouro e trocar algumas idéias, por isso estou aqui. Sei também que você editou por uma pequena editora, de um amigo, tiragem pequena, tudo bem, isso é o de menos. – a xeretice de Zattan, começou a incomodar o autor novato, como sabia destas coisas? Afinal, que espécie de escritor era esse? Não haveria de ter nada melhor para se preocupar do que enfiar seu nariz na obra dos autores incipientes? Começou a se sentir desconfortável – Na Boca do Lobo, boa garoto, gostei; sabe… existem hoje poucos autores que se aventuram na área do terror, nem que seja terror psicológico, que, pensei, haveria de virar moda. Enganei-me, isso é algo que se toca com muito cuidado, tenho que lhe dar parabéns pela valentia. Espero realmente que prossiga o que começou. Tem potencial, fosse outro eu não estaria aqui. Por isso, espero não estar perdendo meu tempo.

– Bem, senhor Zattan, quanto a perder o seu tempo, só poderei saber se me disser a que veio, realmente até agora não entendi.

– Me chame só de Zattan, meu filho, somos colegas, não? Hehe… Escrevo livros de terror, suspense, como você sabe; é natural que eu me interesse por outros autores…

– Ah… agora já entendi, – cortou Enzo –  você veio conferir a concorrência, interessante tática, devo admitir… e o que faz com gente talentosa Zattan… – Enzo aproximou seu rosto do rosto de Rodolfo e olhou para os lados como se fosse confidenciar algo, tinha um ar de deboche – …as elimina?

Rodolfo sorriu, sem tirar os olhos dos de Enzo, com tanta frieza, que este sentiu correr um frio pela espinha – Ao contrário, meu jovem, embora tenha de reconhecer que em alguns casos dá vontade. Não no seu, seu texto é insinuante, parece que vai germinar a qualquer momento, mas, infelizmente morre na semente, se me permite dizer.

– Ah é? – disse Enzo, tirando seus óculos de armação fina, e olhando dentro dos olhos do impertinente; mantinha o ar de deboche – então, você veio me ajudar; um mecenas, hein? Sua sabedoria será a estufa que fará germinar minhas débeis sementes literárias. Por favor, continue…

– Seu sarcasmo é bom. Cinismo nunca será demais num escritor, pena que não saiba transpor para seus textos. Você escreve como um intelectual. Deveria dissertar sobre outros assuntos, porém, entrou numa seara que não conhece; resultado? Seu livro soa totalmente falso. Esta é a verdade. Você escreve com o intelecto assuntos que deveriam ser escritos com as próprias entranhas! Você não sabe sangrar, e isso é péssimo para um autor que se propõe a abordar temas tão complexos. Quem não entende de sangue deveria se dedicar às ‘coisas elevadas’ ou a qualquer assunto que não envolvesse facas afiadas e cortes profundos. Você conhece acaso a fúria que acomete um psicopata assassino antes do ato fatal para arriscar descrevê-la a partir da mente do praticante do crime? Como você pode ousar tal coisa? Soa falso. Um bom menino como você deveria se preocupar com outras coisas.

– Quanta generosidade a sua, se deslocar do inferno ou sei lá de onde para me desestimular a prosseguir em minha carreira. Diga-me, será mesmo que deveremos praticar os crimes que descrevemos nos livros para conseguir a tal ‘verdade’ do texto? Então todos os escritores de livros de terror seriam… – Enzo reparou no sorriso estático de Zattan, algo enigmático, quase intransponível, amedrontador até – …isso é loucura! – o rapaz tirou os olhos de seu misterioso interlocutor e não sabia onde enfiá-los, estava perturbado. – Afinal, o quer você?

– Acordá-lo. Faça outra coisa, escreva sobre romances juvenis, contos sobre as pequenas mazelas do dia a dia, qualquer coisa, mas afaste-se do gênero a que se propõe. É para seu próprio bem que digo isso… – Rodolfo parou de falar enquanto o garçom colocava o copo com seu uísque na mesa, tão logo este se afastou ele prosseguiu – você não obterá sucesso com isso, lhe garanto, só vai fazer desacreditar mais nossa profissão de escritores das sombras. Para escrever sobre isso é preciso que mergulhe em abismos muito negros e profundos, e você me parece alguém que apenas gosta de andar com a água pelos joelhos, sim, molha as pernas, mas jamais conhecerá os segredos desse mar. Isto não é para qualquer um. É preciso ter muita coragem para prosseguir; bem, estou aqui para saber se realmente você tem essa coragem. Se tiver poderei ajudá-lo, do contrário, faça outra coisa, será melhor para você. – Enzo leu aí as entrelinhas de uma ameaça. Encarou Zattan com força, mas sentiu no semblante agora duro do interlocutor, que realmente este não brincava. Tinha o rosto comprido e cabelos ainda negros embora estivesse quase careca; o olhar era penetrante e incômodo. Era um homem talvez perto dos sessenta anos, mas era difícil de saber, Zattan era daquelas pessoas que não se consegue adivinhar a idade. A voz era calma e forte. Tudo isto incomodava Enzo.

– Me diga, Zattan, e se eu continuar escrevendo sobre o que gosto, o que você vai fazer? – o veterano escritor explodiu em uma gargalhada, e ao retornar ao seu semblante misterioso disse ao jovem: – Não vou fazer nada, querido, o eu faria? Sabe, meu filho, este é um mercado muito específico, o dos livros negros, você ficará no limbo. Morrerá sozinho, de inanição. É um mercado fantástico este nosso, são milhões de pessoas que querem ser surpreendidas, assustadas, aterrorizadas, escandalizadas. Sua obra não tem força para isso; é preciso conduzi-las a um mundo sombrio através de umbrais os quais quem lê sabe que a partir dali não terá mais volta. É uma viagem sem retorno, coisas ficarão para sempre gravadas no inconsciente, cenas entrarão em suas cabeças para aninharem-se na escuridão da mente, é isto que elas procuram. Nossos demônios sombrios e silenciosos invadem, serenos, através da leitura, os confins dos inconscientes de nossos leitores, logo serão sombras vagando errantes pelos porões alheios.  São essas sombras que nosso público quer, você entende? Ao lerem seu livro, me permita que o diga, apenas constatarão tratar-se de uma comédia ingênua em que fantasmas inócuos transitam, débeis, por um palco de fantasias duvidosas. O ‘negro’ não é para qualquer um. Faça outra coisa, insisto, mas não se meta em algo que não está em você, quer dizer, pode até haver algo incipiente, mas que não terá a força necessária para prosseguir. Acredite, é louvável sua intenção literária neste misterioso terreno, mas saiba, nosso público logo vai farejar a anemia de seu texto, vão considerá-lo um impostor, um oportunista, seria melhor para você desistir agora e não perder seu precioso tempo. – a tarde caía lá fora, atirando sombras sinistras ao fundo do bar; uma delas atingia, caprichosa, o rosto de Rodolfo. A metade da cabeça do escritor adquiria, então, um ar mais sombrio quanto mais submergia em uma penumbra misteriosa, que deixava à mostra um brilho que refletia algo de insano em seu olhar. Parecia que quanto mais a sombra engolia o autor, mais sombrio ficava também seu semblante aos olhos de Enzo. Embora tivesse de reconhecer que o homem emanava uma força que o fascinava, como se realmente aqueles momentos fossem fundamentais para sua carreira; preferiu seguir quieto. O veterano autor liquidou o uísque com dois goles e ao colocar o copo de volta à mesa perguntou: – E então, como ficamos? Você vai mesmo querer bater às portas do inferno carregando letras mortas nas mãos? Vai querer pisar em um mundo desconhecido, carregando apenas sua ingenuidade literária? Ou finalmente vai injetar sangue nisso? Digo, sangue de verdade, não imaginário.

– Sabe, – disse Enzo, saindo de uma espécie de torpor – não me decidi ainda se me assusto com o que você me diz, ou não levo em consideração nada disso. Quem me garante que você não passa de um autor ressequido pela mágoa, que gostaria de ter sido algo que não foi, talvez um Poe?

– Ah, Poe… bem lembrado, quando o corpo de Mary Rogers subiu à tona do rio Hudson, trouxe a sombra de Poe agarrada a ele. Que crime! Passional, intenso! Digno de um homem como Poe!

– Chega! – explodiu Enzo – agora gostaria que se fosse!

– Calma, amigo, só quero lhe demonstrar uma verdade que, me parece, lhe dói à consciência. Você não vai poder fugir disso. Quem não tem sombras não pode escrever sobre elas, se o fizer, é um impostor! Você, meu caro amigo, é um impostor. Deveria ver em mim a única saída, mas age como um garotinho mimado. Assim não irá muito longe, acredite, você invadiu inadvertidamente um pântano brumoso, onde só pode andar quem sabe onde pisa. Você, decididamente, não sabe. Seu arroubo de raiva só demonstra sua falta de frieza em momentos cruciais, realmente, você não sabe nada sobre o que escreve. – o rapaz sentiu um traço de vergonha, quase pediu desculpas pelo seu destempero, mas achou que aí já seria demais. Sentiu no corpo e na mente um cansaço, uma fraqueza, e a sensação de que aos poucos depunha as armas, e se o homem tivesse razão? resolveu então, fazer um pouco o jogo de Zattan.

– Bem, e se eu lhe dissesse que gostaria de escrever para esse público de quem você fala, o que teria de fazer?

– Não bancar o espertinho seria a primeira coisa. Você está falando com a boca, não com o íntimo, assim não funciona. É preciso que queira realmente, mais que isto, é preciso que queira aprender, penetrar em você, escarafunchar seu inconsciente, saltar em abismos escabrosos, mas vejo que infelizmente esta é uma propensão que você não tem. Isto será rapidamente desmascarado em sua incipiente obra, aí você vai lembrar de mim e de nossa conversa. Tomara que quando esse dia chegar não seja tarde, se é que você ainda vai querer ser um escritor, pelo menos de terror. – Zattan puxou um cartão do bolso de sua gabardine e entregou a Enzo – Fique com meu cartão. Se um dia quiser realmente entrar neste estranho e fascinante mundo e escrever sobre ele, se quiser satisfazer um imenso público ávido por nossas histórias, me ligue. Se quiser fingir que produz ‘terror’ continue escrevendo suas apostilas colegiais e mude de profissão mais adiante. Fique bem. – o escritor levantou-se, apanhou seu chapéu e deixou uma nota sobre a mesa, que cobria com folga a despesa do uísque. Enzo apenas fez um gesto com a cabeça e em seguida o homem se foi. Olhou então para o cartão e neste apenas tinha o nome do autor e um número de telefone. Agora o fundo do bar estava imerso na penumbra.

 

 

 

 

Na noite seguinte houve uma seção de autógrafos em uma pequena livraria no centro da cidade. Pouca gente. Alguns amigos e alguns curiosos; sem contar com aqueles que aparecem do nada, gente desconhecida que vem faturar uma boca livre, pois havia alguns salgadinhos, e algumas taças de vinho branco também foram servidas. Na hora das dedicatórias e autógrafos, Enzo sentou-se junto a uma acanhada mesa e as pessoas organizaram-se em uma pequena fila. Ao seu lado, em pé, sua namorada Elisa animava os convidados a virem para a fila, pois o autor já estava pronto. Enzo dificilmente levantava a cabeça, estava sentindo um misto de vergonha e orgulho; se era verdade que autografava seu primeiro livro, também era verdade que imaginava uma pequena multidão neste evento. Um sonhador? Quem sabe, mas o certo é que sentia um desconforto frio. E as coisas pioraram quando duas mãos trêmulas lhe entregaram o livro para autografar. Era uma senhora de idade avançada e simpática que com um sorriso maternal disse ao autor:              – Adorei seu livro, querido, adoro livros de terror, adorei aquela parte em que o homem sai detrás da  porta com uma faca! Nossa, que medo! – a bonomia das palavras da velha contrastavam com o que julgava de sua obra. Seria isso um deboche? Como assim? Queria aterrorizar, matar de medo, arrepiar; no entanto, recebe o aço frio daquela voz trêmula, ‘adorei’. Só faltou a velhota alisar sua cabeça e sorrir piedosa, enquanto seus olhinhos lentamente se cristalizassem pelas lágrimas. Ora, que espécie de autor era ele? Uma velha! Possivelmente afeita às coisas religiosas e mortificadas pelo uso, vem lhe dizer que ‘adorou’ seu livro. Escreveu qualquer coisa, assinou e devolveu à idosa, que se retirou alegre. Em seguida um amigo lhe alcançou um exemplar: – Porra, cara! Você é doidão mesmo! Que piração, meu! Valeu, dei boas risadas! – Enzo não conseguiu sorrir para o amigo, porra, ‘boas risadas’, diz ele. Seguiu autografando meio constrangido, e em sua frente então parou um garotinho: – Oi, faz uma dedicatória pra mim? – Claro – finalmente sorriu. Enquanto fazia a dedicatória o menino sentenciou: – Minha mãe também gostou. Só que ela disse que aquele cara bem podia usar um martelo em vez de faca! Haha… – Foi a gota d’água. Enzo atirou o livro na mesa e levantou se num gesto abrupto, espantando à todos em volta. Ato contínuo, saiu andando às pressas, os demais queriam saber o que houve, mas Elisa fez alguns gestos para que todos ficassem onde estavam e seguiu atrás do escritor, que saiu porta afora. Caminhou ignorando os chamados da namorada e mais adiante parou e escorou-se em um velho muro pixado. As pessoas passavam apressadas e indiferentes. Elisa botou a mão em seu ombro e finalmente Enzo virou-se para ela.

– Sou uma fraude, Elisa… uma fraude…

– Mas… por que você diz isso? Porque não vieram milhões de pessoas à sua noite de autógrafos, olhe…

– Ora, não nos enganemos, – cortou Enzo – Elisa, por favor! Eu não sou um escritor! Sou um humilde empilhador de palavras, nada mais que isso!

– Querido, no começo é assim mesmo…

– Você não entende não é? Não consigo me comunicar, passar verdade em meus textos, se conseguisse, as pessoas chegariam quietas até mim, com a voz embargada e me olhariam com quem analisasse uma espécie de extraterrestre. Até meio temerosas eu diria, – como esse homem escreveu isso?- pensariam no íntimo de suas mentes chocadas. Mas não, minha noite de autógrafos parece mais um aniversário de criança. Talvez eu tenha mesmo que escrever livros infantis, quem sabe.

– Certo, certo, você quer chocar as pessoas. Então saiba, acho que conseguiu, com seu arroubo temperamental… que é isso, homem? Fazer uma coisa destas, você no mínimo deve respeito às pessoas que vieram lhe prestigiar. Você não acha?

– Me prestigiar… há, essa é boa! Meia dúzia de gatos pingados que…

– Hei, Enzo! – uma voz de homem cortou sua frase, era Alexandre, seu amigo editor e responsável pelo evento. Achegava-se ao casal visivelmente contrariado – Que é isso, meu? Você tem um contrato a cumprir, não faça fiasco, deixe isso para quando for um autor consagrado, vão achar charmosa sua reação, mas até lá, respeite quem lhe deu guarida. Não me decepcione.

Enzo respirou fundo, desculpo-se com a namorada e o amigo e voltou para a livraria para cumprir seus compromissos.

 

 

 

– Não consigo lhe entender! – disse Elisa ao entrar em seu apartamento, juntamente com Enzo, enquanto jogava seu sobre-tudo em uma poltrona. Sua grande noite e você estraga tudo! O que você tem na cabeça?

– É o que eu queria saber, meu amor. – respondeu o namorado enquanto dirigia-se ao bar para servir-se de uísque – Bebe?

– Claro! Preciso urgente de uma dose.

– Então, vamos beber. Pois é, meu amor, preciso rever muitas coisas neste meu trabalho. Tenho só trinta e cinco anos, dá tempo de achar os trilhos certos. – Enzo alcançou um copo com uísque e gelo para a amante – sim, sim, dá tempo.

– Querido, acho bom. Não posso ficar emprestando dinheiro a você o tempo todo. Faço o que posso, e se lhe cobro alguma coisa é justamente que você aproveite as chances que você mesmo cavou. Diga-me se estou errada? – Eliza atirou-se no sofá, retirando e jogando os sapatos de salto alto em direção à porta de seu quarto. Era um belo apartamento de dois quartos, equipado com os melhores móveis e tapetes. Quadros caros ocupavam quase todas as paredes e uma imensa porta corrediça de vidro na sala dava para uma grande sacada com uma bela vista da cidade, que agora sorria, silenciosa, apenas brilhando suas luzes.

– Olhe Elisa, se você quer uma discussão, deixe para amanhã, hoje estou totalmente desarmado. Preciso pensar na vida.

– Não, não quero discutir, querido, é que não fica bem para uma promotora de Justiça ficar desfilando por aí com um João Ninguém, já lhe disse isto, não? Quero que você se dê bem logo, quero dizer a plenos pulmões que vou me casar, se for o caso, com o famoso escritor Enzo Caio. Você me deve isso! Sou a mulher mais boazinha que você pode encontrar, e tenho quase trinta e cinco, meu velho, não posso vacilar. Bem, agora vou tomar um banho bem gostoso, trepar com você e dormir como um anjo.

Enzo estava parado com o copo na mão e mantinha um sorriso sarcástico. Em sua mente tentava montar um quebra-cabeça intrincado. Gostava daquela bela mulher, de cabelos pretos, pele muito branca, olhos grandes, negros e interessados, boca carnuda e provocante. Elisa era magra e alta, porém mantinha formas em sua silhueta. Quando saiu para o banho, o escritor foi à sacada e a brisa noturna desalinhou, mansa, seus cabelos castanhos e finos; bebericou uísque mantendo os olhos nas luzes cintilantes da cidade. Calmamente botou a mão no bolso do paletó e retirou o cartão de Rodolfo Zattan. – É.. – pensou – é difícil saber qual o lado certo desta porra toda!

 

 

 

Na manhã seguinte Enzo andou a esmo pela cidade. O Sol esquentava as ruas e o rapaz tirou o paletó e o levava no ombro, preso ao seu dedo indicador. Uma velha camiseta branca e a calça jeans totalmente desbotada combinavam com o tênis quase furado. Lá pelas tantas parou em frente a um espelho em uma vitrina. – Que estilo, hein, camarada? – falou lá com seus botões – Sim, isto é um escritor! Que desespero embutido neste olhar! Que serenidade falsa nesta postura! – olhou-se nos olhos claros e levemente puxados, o rosto quadrado, a barba por fazer, o vento ameno acarinhando seus cabelos finos, finos como o aro preto de seus óculos. Seguiu andando e a imagem da velha do autógrafo veio à sua mente, – velha filha da puta! Eu poderia matá-la para provar que não sou o que ela pensa! – foi quando seu pensamento desapareceu feito uma bolha de sabão que estoura no ar, pois avistou do outro lado da rua, parado, olhando em sua direção, embora estivesse com óculos escuros, Rodolfo Zattan. A mesma gabardine, o mesmo chapéu, a mesma postura solene. Enzo atravessou a rua em sua direção e um sentimento estranho de felicidade lhe invadiu o espírito; abriu um sorriso para que o velho escritor percebesse que ele vinha portando o cachimbo da paz. Zattan também sorriu. Ao chegar à frente do veterano, saudou: – Nunca imaginei que fosse ficar feliz em lhe ver, mas é a mais pura verdade.

– Eu sei, meu garoto,  hehe… posso lhe pagar um café?

– Aceito, mas me diga, está me seguindo? Ou quer que eu acredite que isto foi coincidência.

– Digamos que estou facilitando as coisas. Sei de sua noite frustrada, achei que iria gostar de me ver.

– Você é bem informado, não?

– Faz parte do meu trabalho.

– Pensei que seu trabalho fosse escrever.

– Você já viu um escritor mal informado? Hehe…  – ambos riram e saíram à procura de um bar, quando encontraram, sentaram em uma pequena mesa redonda na calçada, havia pouca gente nas outras mesas. Zattan botou seu chapéu sobre a mesa e passou a mão pelos cabelos molhados de suor; puxou um lenço e passou no rosto – Puxa, como esquentou? – pediram dois cafés e Enzo se lamentou:

– Foi uma droga, a noite de autógrafos. Acho que você tem razão, escrevo como um menino. Diga-me, qual o segredo do sucesso dos autores de terror?

– É simples, meu caro, cordeiro não lê cordeiro, cordeiro quer saber do lobo! O que o lobo pensa. É quase um mecanismo de defesa. Ninguém quer saber mais do que já sabe, quer saber das sensações que lhes são proibidas. Quer que alguém lhes descreva as pulsões mais malditas, mais infames, pulsões inomináveis. Coisas que sabem que existem dentro delas, mas que são cimentadas na mais profunda escuridão da existência. É um desejo mórbido, latente, desviado, disfarçado, mas não morto. Sabe, tenho comigo que a civilização é um grande baile de máscaras, e de hipocrisia também, pois basta que você tire a sua, para que todos vejam o que há por detrás de tudo, isso basta aos demais; mais que isto, os reconforta. A máscara passa a ser tudo que eles têm, que eles são, afinal.

– Você diz ‘eles’, por que, você não usa máscara?

– Meu caro, não dá para viver sem máscara, mas lhe garanto, é impossível escrever com ela. Aí está seu problema, você não tira a máscara para escrever, então, não tem entranha no seu texto, não tem sangue, não tem olhos injetados e assassinos, instintos maus; temos que escrever nus, ou então procurar outra coisa para fazer, algo que justifique a máscara, até porque, você então vive dela. Qualquer coisa, menos ser escritor, ainda mais do gênero a que se propõe. Terror não é para qualquer ingênuo. Você tem que chocar, e hoje em dia não há mais nada que realmente choque… bem, a não ser que você realmente prove que sabe o que está dizendo. Uma coisa é romancear, outra é descrever; aí pode estar o segredo do sucesso.

– Zattan, você está me assustando novamente…

– Mas é a verdade, você não pode descrever o que não conhece, ou pode? Como quer que acreditem no que escreve? Você já olhou nos olhos de alguém enquanto lhe empurra uma adaga na barriga? Viu o pavor e o pânico em seus olhos? E então, meu caro escritor, me responda. – Enzo acusou o golpe, sentiu um mal-estar. Parecia que Rodolfo lhe encurralava, lhe testava os nervos, resolveu então devolver a pergunta.

– E você, já fez isso?

– Ah, mas que deselegância, amigo, haha… – divertiu-se Zattan – respondendo com outra pergunta! Pois bem, e se eu lhe dissesse que sim, já fiz, e que isso me ajudou muito em minhas narrativas, o que você acharia? Que eu sou um monstro assassino? Ou um profissional zeloso de meu trabalho, indisposto a mentir ao meu público. Que tenho respeito por meus clientes. Esta é uma questão moral difícil para você? Então se afaste deste negócio ou escreva sobre outra coisa. A Moral é a primeira coisa que rasgamos quando sentimos que atrapalha nossa arte. Temos clientes, sim, muitos, milhões eu diria, compreenda, não posso arriscar perder um mercado milionário por causa de um aventureiro qualquer… Bem, não se ofenda, apenas compreenda, estou lhe oferecendo a chance de seguir adiante, mas para isso terá de ser um dos nossos. È isso.

– Um dos nossos?

– Sim, um dos nossos. Puxa, que droga esse calor! Deveríamos ter pedido algo gelado. Por que você acha que este mercado cresce tanto? Porque somos unidos. E quem não é dos nossos, das duas uma: ou entra ou sai. Você ouviu bem, ‘ou entra ou sai’, lhe procurei na esperança de que entre, mas se desistir eu compreenderei. O que você não pode fazer é escrever livros de ‘terror’ que não aterrorizam, e pior, pode fazer até com que viremos motivo de chacota; acredite, nosso ramo não é dos mais bem vistos pelos chamados ‘literatos’. Já somos malditos suficiente para termos que aturar críticas por causa de livros inóspitos com algumas pinceladas de hemoglobina. Agora você vai me perguntar: e se eu quiser continuar assim mesmo? Como vai me impedir? Bem, não faria isso se fosse você… não vou me aprofundar, pense o que quiser, mas lembre-se, somos antigos e poderosos. Não surgimos ontem, e talvez você queira puxar um pouco pela memória, e lembrar o que aconteceu com muitos autores do gênero que não quiseram seguir nossos conselhos.

Enzo ficou sério e não conseguia tirar os olhos de Zattan; este nem precisava ir mais longe, tudo vinha na mente do rapaz agora, sim, sabia do desaparecimento de muitos autores do gênero ao longo dos anos, voltando atrás com sua lembrança chegou ao século dezenove onde coisas aconteceram sem uma explicação plausível. Por um momento ficou paralisado e mudo, aquilo era uma novidade assustadora, escandalosa até; as peças se encaixaram com clareza na cabeça do autor novato. Não discernindo a sensação que lhe acometia agora, Enzo preferiu seguir calado. Mas Zattan prosseguiu:

– Claro que você conhece a obra de Thomas de Quincey, certo? bem, espero que conheça; pois é, Thomas escreveu o famigerado livro Do Assassinato como uma da Belas Artes, uma obra obviamente provocativa e irônica, porém, à época, e olhe que estou falando do século dezenove, esse maluco quase nos desmascara! Pois muitas pulgas foram parar atrás de orelhas moralistas e desconfiados. Não, os nossos, naquele tempo, não fizeram nada com ele; não havia nada a fazer, foi só uma brincadeira ácida do autor. Thomas não tinha a mínima idéia de que existíamos, aliás, se tivesse, acho que não brincaria com coisas sérias.

– Se entendi bem, – disse Enzo com a voz embargada – vocês levam o crime e o assassinato muito a sério. É isso?

– Levamos nossa arte muito a sério. Se você quer saber, acho mesmo que estamos bem mais acima desse senso comum da condição humana. Somos os artistas da verdade, não mentimos aos nossos clientes. É o que esperam de nós.

– Bem, afinal, o que são vocês.

    – Somos… O Clube.

– O Clube? Que clube, um clube de sangue, formado por escritores criminosos, psicopatas e assassinos?

– Já lhe disse – cortou Zattan, cravando seus olhos negros e agora assustadores, nos olhos do interlocutor – escreva sobre outras coisas. Você não tem escolha fora do que lhe propus. Está muito quente, vou embora, hoje você paga os cafés. – levantou-se, pegou o chapéu e antes de sair encarou mais uma vez o rapaz, sorriu um sorriso desafiador e disse com sua voz forte e aveludada: – Ia me esquecendo, fale de nossa existência à sua namorada promotora, ou para quem for, se você quiser conhecer de perto ‘o que’ somos nós. Fique bem. – o homem partiu apressado e logo desapareceu por entre os transeuntes na rua. Enzo estava paralisado, talvez não quisesse ter escutado o que escutou, mas agora era tarde; ou aquilo se tratava de uma grande zombaria, ou estava realmente encrencado, teria de achar outra coisa para fazer. A ser verdade o que Zattan lhe disse, realmente seria uma péssima idéia afrontar a sinistra irmandade, ademais, ficara claro que sabiam dos pormenores de sua vida. Sentia uma espécie de desconforto mórbido, mas algumas idéias brotam de pântanos inomináveis, sendo assim, algo lhe ocorreu: – vamos ver quem é gato e quem é rato nessa história, Sr. Zattan. – levantou-se, deixou algumas moedas na mesa e saiu andando calmamente em direção à uma livraria próxima.

 

 

 

À noite, em seu pequeno apartamento, deitou-se com o livro Assassinato nas Sombras de Rodolfo Zattan nas mãos. A luz fraca e amarelada do abajur incidia tímida naquelas páginas reféns da escuridão circundante do pequeno quarto. Quase uma metáfora assustadora. Já no prefácio, as tinturas do que viria já se deixavam desvelar: ‘O que diferencia o assassino deste livro, é que ele tem o hábito de olhar nos olhos de sua presa enquanto lhe enfia a afiada adaga. Seu prazer está no olhar da vítima, ele ama aquele desespero apavorado e suplicante nos olhos de quem embarca através da dor lancinante da lâmina para a viagem sem volta da morte. Fica sempre e sempre um ‘por que’ naqueles olhos, ao que ele responde: porque eu quero. Pudesse ele satisfazer esta obsessão pelo olhar da vítima de outra maneira, com certeza não teria de purificar tantas vezes sua faca através das águas cristalinas, mas pouco nobres, do remorso. – Enzo fechou o livro de supetão. – Meu Deus! Quem seriam essas vítimas?… ‘ ele é louco, totalmente louco! – a idéia de que possivelmente aquilo tudo era verdade lhe fazia borbulhar o sangue, passou algum tempo até que retomasse a leitura, e quando isto aconteceu, não tirou mais os olhos do livro.

Quando o recém-nascido sol da manhã entrou pela janela do quarto, encontrou Enzo dormindo com o livro aberto sobre o peito nu. Despertou abruptamente, de um salto, sentando em seguida na cama; tinha a respiração ofegante e desencontrada – Meu Deus! Que pesadelo! – aos poucos, as imagens do sonho fugiam ao Sol, escondendo-se furtivas na escuridão materna do inconsciente. Ainda restava viva a imagem de Rodolfo Zattan, com seu sorriso demoníaco, enfiando-lhe a afiada faca na barriga e dizendo: ‘– Olhe para mim, olhe nos meus olhos, vamos, olhe para mim!’ – Caralho! Terei forças para levar meu plano adiante? Esta é a historia de uma vida, o sonho de qualquer escritor de menor quilate como eu! Tenho que continuar… – levantou-se e cambaleou através de móveis velhos e objetos espalhados pelo caminho, seguiu até o banheiro. Olhou-se no espelho. – Coragem, meu velho, a chance de sua vida apareceu, jogou-se aos seus pés… agarre-a! Não vá fraquejar! – sim, Enzo havia planejado entrar para o Clube. A ser verdade o que velho escritor lhe confidenciou, havia uma grande história por desvendar, enfim, um grande livro a ser escrito. Iria sacudir o Ocidente! Tudo de um golpe só! A celebridade, o reconhecimento, a coragem, o desmantelamento de uma organização criminosa! O grande Enzo Caio! Escritor destemido, que entrou no ventre da serpente para acabar com ela! Isso tudo o excitava muito, quase lhe tirava o fôlego; porém havia um problema: como convencer Zattan de que estava apto a pertencer ao Clube? E se o criminoso percebesse o ardil? Com certeza desapareceria sem deixar vestígios. Um jogo perigoso, mas para quem não tem nada, este perigo era tudo que tinha. Precisava dissimular, persuadir, mentir… olhar nos olhos de Rodolfo sem deixar que este tivesse a mínima chance de ler a falsidade na qual estaria travestido. Jogo duro. Não, não… não poderia deixar passar a chance dourada de sua vida, tão pobre em oportunidades. Tinha que encontrar forças, principalmente por ser esta uma jornada perigosamente solitária, nem Elisa poderia saber, até porque, conhecendo a namorada, sabia que esta de imediato iria querer tomar providências, pondo tudo a perder; ademais, lembrava-se das palavras perigosas e ameaçadoras de Zattan. Não iria botar ninguém em risco, só a sua própria pele. Estava decidido.

 

 

 

 

Publicado por Roberto Axe em: Agenda | Tags: , , , , , ,

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