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Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

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O medo de mudar

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             Se a vida está em constante mudança por que há tantas pessoas com medo de que isso ocorra? Não me refiro a modificações externas como um corte de cabelo diferente ou o novo estilo de roupa que aderiu. Refiro-me a verdadeira mudança que transcende qualquer superficialidade que o próprio tempo trata de deteriorar.

             De acordo com a ciência, todos os dias várias células de nossos corpos morrem e novas células nascem. Aplicando a essência da tese no cotidiano… Quantas vezes você já sentiu como se uma parte do seu ser tivesse morrido devido a algum acontecimento? E quantas vezes teve a sensação de que estava nascendo novamente quando algo que tanto aguardava finalmente se realizou?

            tumblr_o118xbibI51ttyyvwo1_500          As transformações estão em andamento á medida em que vivemos e normalmente nem se quer as percebemos. Se admirarmos o horizonte podemos acreditar que está tão distante, no entanto basta aguçar o olhar para entender que não existe perto nem longe, nem mesmo cedo ou tarde, ao passo que adquirimos a consciência de que o ‘’cedo’’ de hoje pode terminar se tornando um ‘’tarde demais’’ para o amanhã.

           Indivíduos determinados não hesitam em afirmar que a espécie humana jamais aproveitaria a vida se não tivessem esperança, por menor que seja em um futuro prospero. Futuro esse que parece nunca chegar, porque não podemos viver o futuro senão em nossa própria concepção criativa, nem se quer regressar ao passado senão por meio de recordações.

          Portanto, a mudança é tão necessária quanto acordar todas as manhãs com o pensamento no dia bom que ficou para traz ou na ansiedade do que ainda não aconteceu, se lembrando de que o momento presente não seria nada sem aquilo que passou e possivelmente virá.

         tumblr_mc1gwgjee71qbvy6q          No final das contas o destino é como uma densa camada de névoa após o orvalho da madrugada… Faz o caminho que precisa percorrer mais interessante, especialmente quando a dificuldade de enxergar vem com a incerteza do que encontraremos pela frente.

         Feliz ou infelizmente, a mudança não surge com um comentário de alguém que lhe diz ‘’ Nossa, como você está diferente’’. Mas sim de você reconhecer que não é mais a mesma pessoa de alguns anos atrás, até porque, a cada dia uma parte de nós padece enquanto outra aparece, não importa se os outros reparam ou não nisso.

      tumblr_n08wjy7Etj1qecqoco1_500         Afinal toda alteração implica em consequências, a cada vez que definimos uma nova rota mudamos a direção do nosso próprio destino, deixamos um pedaço de nós para trás, já que todo inicio também é um fim.

Apesar dos diversos impactos possíveis que uma nova decisão pode nos causar,  continuará sendo algo magnifico compreendermos que a melhor paisagem é aquela que sempre vemos, embora nem sempre paramos para observá-la, uma vez que o significado intrínseco das coisas está onde ninguém ver…

Você pode querer dar todas as constelações que existem para uma pessoa que considera importante, ou presenteá-la com um jardim inteiro, sem saber que bastaria o brilho das estrelas em uma noite serena ou a mais delicada rosa do jardim para satisfazê-la.

A simplicidade consegue nos fazer enxergar a beleza naquilo que há de mais íntegro. Da mesma maneira é a real modificação interior, visto que é tão singela, singular e sutil que somente aqueles que possuem um olhar genuinamente sincero conseguem notar algo tão simples, embora muitas vezes oculto.

Talvez essa seja uma das mais admiráveis capacidades humanas, se tornar alguém totalmente diferente se assim desejar. É como os antigos aconselhavam: ‘’Você é aquilo que acredita, porque nem sempre será quem a sua mente te diz ser. ’’

É muito fácil reparar quando uma pessoa tinge o cabelo de outra cor ou quem começou a usar roupas de marca… Nisso qualquer um repara. Contudo, poucos se arriscam em olhar no fundo das expressões dessas pessoas para tentar enxergar a pequena parte que recentemente nasceu e a outra que faleceu para juntar-se ao todo.

heraclito_de_efeso1-247x300         De certa forma, há séculos já dizia o filosofo pré-socrático Heráclito: Tudo flui e a vida está em constate movimento… ’’Nada permanece o mesmo, exceto a mudança. ’’

 

Publicado por Dharmacarth em: Agenda | Tags: , , , ,
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Crime em andamento – Jim Knipfel

Imagem | Russell Christian

Imagem | Russell Christian

Tradução | Eder Capobianco Antimidia

Minha cabeça estava em outro lugar. Não deveria estar. Eu deveria ter prestado atenção ao que estava acontecendo ao meu redor, mas em vez disso estava pensando sobre A Genealogia da Moral de Nietzche, por algum motivo esquecido por Deus, bem como o velho Robert Klein¹ e o stand-up que vi na TV em 1976 (“Me dê o frango, porcolino!”). Os dois, até onde eu sabia, não estavam ligados de forma alguma. Em suma, minha mente estava em toda parte, menos onde deveria estar.

Eu não estava usando a bengala também, o que só multiplicou a estupidez. Ainda estava escuro. O sol não tinha nascido totalmente, e estava chovendo. Eu estava indo para oeste na 23rs St., e deveria ter pegado a maldita bengala, mas estava ocupado demais pensando sobre Robert Klein ter se inspirado nos filmes da Disney para me preocupar com isso. Eu só seguia em frente, de cabeça baixa, meu casaco aberto para a garoa, imaginando se meus pés sabiam bem o suficiente para onde tinham que me levar. Minha camisa estava com pizzas de suor.

Escutei algumas pessoas gritando mais a frente. Pensei pouco sobre isso, supondo que eram apenas as vozes dos lixeiros. Havia um caminhão de lixo arrastando a sujeira sentido oeste na calçada paralela a minha, e acabei de ligando as duas coisas. Lixeiros estavam sempre gritando uns com os outros.

Duas silhuetas estavam se movendo em minha direção pela escuridão, vindas do fim de uma longa fila de andaimes. Eu estava concentrando-me nas formas, tentando descobrir a melhor maneira de evitá-los, quando ouvi passos molhados se aproximando por trás de mim. Então do nada havia um homem do meu lado, com um guarda-chuva na mão. Meu passo vacilou por um instante.

“Oh”, ele disse. “Me desculpe”. Então ele se virou e correu de volta para o lugar de onde tinha vindo.

Eu não tinha idéia do porque ele poderia se desculpar. Ele não tinha me empurrado ou trombado em mim ou pego qualquer coisa. Quem sabe? Ele quase não desviou minha atenção do que acontecia. Eu olhava para o par de silhuetas na minha frente, então dei um passo para o lado e deixei eles passarem.

Com certeza tinha muita gente trafegando pela rua para 6:15 da manhã. E em ação, também, para um deprimente dia perdido. As pessoas estavam indo e vindo por todas as direções. Eu continuei fazendo meu caminho, passando pelos ambulantes, a banca de jornal e a estação do metrô, pensando sobre isso e aquilo, ainda muito deprimido comigo mesmo e deixando a mente a deriva.

“Basta dar o dinheiro a ele!”, um homem atrás de mim gritou. “O dinheiro! Apenas dê a porra do dinheiro para ele!” Escutei o som das pessoas correndo.

Olhar para trás para ver o que estava acontecendo a poucos metros de mim teria sido inútil. Rapidamente virei a esquina para a 7th Ave., abaixei a cabeça e continuei andando. Estava tudo certo agora.

Acho que só passei por um crime em andamento, pensei.

Era perfeitamente possível que não fosse um crime também – talvez tivesse sido uma simples transação de negócios, ou algum lixeiro resolvendo uma aposta no jogo dos Mets, mas preferia pensar que era algum tipo de crime, e que tiros irromperam o ar no momento que eu estava fora do alcance da voz.

Então comecei a me perguntar quantas vezes tropecei num crime em progresso sem perceber. Não me surpreenderia se tivesse acontecido várias vezes.

Algumas semanas atrás estava falando para um amigo meu sobre umas coisas que ele tinha escrito. Envolvia uma criança que começava a ficar obsessiva por crimes muito cedo. Não é que ela própria se torna uma criminosa, mas o crime e os criminosos começam a orbitar em torno dela, se aproximando e se tornando mais íntimo a cada ano que passa.

Foi uma idéia, como expliquei para ele, que bateu realmente perto do meu quintal. Eu estava obcecado com o crime como uma criança (ainda sou, eu acho). Mas como cresci, crimes reais e tangíveis começaram a cruzar minha vida de maneira estranha frequentemente.

Cresci a 40 milhas de onde Ed Gein² morou. Ensinava alemão para um nerd quando estava na escola, sem saber que ele só queria aprender alemão para impressionar seus companheiros da Irmandade Ariana. Um amigo que eu tinha desde o jardim de infância explodiu o próprio irmão. Outro amigo começou a conversar com a televisão e antes do que você imagina matou seis pessoas a tiros em um escritório no centro. Descobri que minha mãe cruzou com Charley Starkweather³ pela vida. Um cara chamado Jessie Lee Wise4 queria que eu o ajudasse a fazer sua carreira musical decolar, mas o fato de que ele estava no corredor da morte no Missouri tornou isso um pouco complicado. Conversei com ele 20 minutos antes que a agulha picasse ele. Ele pediu camarão no jantar.

Posso falar disso sem parar. Não era pela minha própria vida cheia de pequenos crimes, e todos os criminosos de uma forma ou de outra, na sua maioria de baixa renda, que eu havia me tornado insensível ao crime.

Eu não digo nada disso com orgulho – mas é assim que as coisas aconteceram. Eu sempre achei que o crime poderia ser interessante. Como se diz mesmo? Uma outra forma de trabalho duro5?

Enfim, bem, é por isso que não fiquei surpreso com tudo que estava acontecendo, de fato, quando passei por um crime em andamento na 23rd St. naquela manhã. Andei em canteiros de obras, desviei de balas – até do fogo – sem estar ciente disso. Afinal de contas, na maioria das vezes, os crimes são muito mais silenciosos do que as pessoas imaginam. Participar de um crime não teria sido nada demais. De menos, até. Apenas algo mais para acrescentar à lista.

1 – Robert Klein: Comediante, cantor e ator estadunidense famoso na televisão durante a década de 1970. (http://en.wikipedia.org/wiki/Robert_Klein). Um homônimo dele se envolveu em um processo contra a Walt Disney Company depois de ser demitido por justa causa por assédio sexual (http://www.hollywoodreporter.com/thr-esq/disneys-archivist-sues-company-firing-424852).

2 – Ed Gein: Ladrão de lápide de Wisconsin condenado pelo homicídio de duas pessoas, e suspeito no desaparecimento de outras cinco (http://pt.wikipedia.org/wiki/Ed_Gein).

3 – Charley Starkweather: Foi um serial killer adolescente estadunidense que matou onze pessoas nos estados de Nebraska e Wyoming num período de dois meses, entre Dezembro de 1957 e Janeiro de 1958 (http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Starkweather).

4 – Jessie Lee Wise: Assassino condenado a pena capital por matar Geraldine Rose McDonald depois de um assalto, em 1988, no Missouri. (http://murderpedia.org/male.W/w1/wise-jessie-lee.htm).

5 – Referência ao filme O Segredo da Jóia (The Asphalt Jungle, 1950). Num determinado momento do filme, durante um dialogo, um ladrão justifica seus atos criminosos como uma forma de trabalho alternativo (http://en.wikiquote.org/wiki/The_Asphalt_Jungle).

Texto Original | http://www.missioncreep.com/slackjaw/2006/crime.htm

Sobre Jim Knipfel | http://en.wikipedia.org/wiki/Jim_Knipfel

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O Demônio

demonio

Ele corria como não houvesse outra coisa no mundo, apenas corria, corria para se salvar.

Olhou para trás e viu o vulto, a criatura ainda o perseguia. Desceu umas escadas de ferro pulando alguns degraus, quase caiu, mas se equilibrou segurando nas barras de apoio e conseguiu se manter de pé.

Era jovem, não mais que vinte e cinco anos, praticava exercícios e tinha boa saúde, mas seu coração disparava como se fosse explodir, seu peito doía, os pulmões estavam exaustos, não aguentava mais correr. Suava bicas, ofegava e ofegava, mas não poderia parar, não com aquilo atrás dele. Não sabia o que era aquilo, um homem? Talvez. Quando foi abordado por esse ser, podemos dizer assim, na saída da boate, conseguiu ver de relance seus olhos que brilhavam um vermelho amarelado intenso como brasa acesa.

(more…)

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Na reunião

Uma mosca se meteu no nariz de Carmelita Caldas, no meio de uma importante reunião. Poderia espantar aquela criatura, mas não faria isso. Seria demasiadamente deselegante. O nariz estava coçando e a mosca não queria sair. Carmelita nem cogitava a hipótese de espirrar. Era sua vez de falar e ela disse, em poucas e pausadas palavras, o que achava. Nada muito surpreendente, mas dito de forma perfeita e profissional, sem nenhum mínimo erro. A mosca não parava de atormentar a jovem, mas Carmelita estava imóvel.

Não foi aplaudida depois de dizer suas palavras e nem esperava isso. As pessoas não faziam nada além de explicar aqueles gráficos maçantes, era um ambiente extremamente profissional. Não podendo fazer nada para espantar a mosca, que agora havia pousado em sua testa, voltou a alisar o tecido de sua roupa graciosamente recoberta por seda, algodão e caxemira, a qual mandara passar três vezes e engomar caprichosamente para a ocasião.

A mosca pousara em seu caprichoso rabo de cavalo que fizera com tanto esforço. Tudo tinha que estar muito bem feito e Carmelita achava que ocorreriam coisas horríveis se ela se distanciasse, mesmo que minimamente, da perfeição. Mas a mosca persistia.

Todo mundo havia notado o que estava acontecendo, mas ninguém se expressava. Na mente de Carmelita, estavam todos olhando para ela, o tempo todo. Carmelita ouvia as risadas abafadas da colega ao lado, não iria aguentar isso. A mosca pousou no seu sapato cuidadosamente engraxado e sem a menor sujeira; Carmelita tentou esmagar o inseto, bem discretamente, mas não conseguiu. Depois se dirigiu para o dedo da moça e pousou naquelas unhas impecáveis. Não aguentaria tanta agonia.

Tentou espantar a mosca com um movimento discreto, mas o inseto se refugiara em seu queixo e não parecia disposto a sair. “Calma”, pensou ela, “só faltam três horas e meia para a reunião acabar”. Teve uma ideia: engolir a mosca e acabar com a perturbação. Não, nojento demais, aquele bicho carregava toneladas de germes nas patas. Ideia descartada. Mas era tarde demais, a mosca entrara em sua boca. Tinha que arriscar.

Tomou seu copo d’água, com cuidado para não deixar a mosca escapar. Tentou mastigar a criatura, mas ela se movia rápido demais. Até que mastigou de leve, do modo mais discreto que conseguiu. Parecia impossível engolir, precisava cuspir. Mas não havia lenço. O jeito era mesmo engolir. Tinha ânsia de vômito, mas não vomitaria. Eu sou forte, pensou, engolirei isto.

O chefe da moça e a colega ao lado, ao ver sua palidez, perguntaram em coro ” Você está bem?” Não ouvia-se resposta. A boca dela permanecia fechada e nunca mais se abriria. Carmelita estava imóvel, para sempre. Mas, pelo menos, não passara vexame.

Publicado por Júlia Carvalho em: Agenda | Tags: , , , ,
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Recomeço

A mulher de branco abre a porta e diz que está na hora. Apenas que está na hora, e nada mais. Ela não entra, não vem até a janela para abrir as cortinas. Não porque não queira. É porque sabe que não gosto. O nome da mulher de branco é Rogéria. Ela não é nem jovem nem velha e, como eu, tem algumas cicatrizes visíveis no rosto e nos pulsos.

Vou sentir sua falta agora que vou sair daqui. Agora que vou para casa. No escuro, eu olho para o crucifixo na parede aos pés da cama. Uma cruz de madeira com um Cristo magro e ferido pregado. Deve ser mesmo muito angustiante ser filho de Deus e ter de se deixar arrastar para a morte, para a humilhação nas mãos de seres tão ignorantes quanto essa gente humana, é o que penso, sempre, ao me deparar com ela.

Levanto-me. Não me aproximo da janela, não abro as cortinas, vou direto ao banheiro. Não acendo as luzes. Caminho no escuro. A escuridão me faz bem. Depois que saio, Rogéria está de volta ao quarto. Traz uma pequena bandeja com os remédios. Todo dia tenho de tomar uma batelada deles. Antidepressivos. Calmantes. Diuréticos. Moderadores de apetite. Veneno para saciar meus demônios. E nem sei mais o quê. Às vezes acho que estão me matando lentamente.

Mas depois penso que não, que Rogéria não faria isso comigo. Não ela, que gosta de mim. Neste lugar é a única que me olha com olhos que não são de desprezo. Ela faz sentar na cama para tomar as várias pílulas, uma de cada vez. Como uma criança, obedeço. Todo dia é assim. Depois de me entupir de drogas, recebo seu sorriso ameno e a ouço dizer que preciso abrir as cortinas para deixar o sol entrar, que tenho de me acostumar com a luz. Eu digo que sei disso e sorrio um sorriso falso, desses que se vê aos montes por aí em comerciais de margarina.

Finalmente dou o braço a torcer, e digo: sim, pode abrir as cortinas se isso te faz feliz. Então ela abre. No entanto, ao contrário do que eu esperava, o sol não brilha lá fora. Parece que esqueceram de avisar a natureza que o inverno acabou, que a primavera nos espera de braços abertos. Tudo o que vejo da janela do meu quarto são nuvens densas, cinzentas. Há sim alguma luz, mas não o suficiente para me incomodar. Não vou nem precisar de usar óculos escuros para sair na rua. É o que Rogéria diz. Depois pergunta se quero ajuda para me vestir. Digo que não. Ela sempre pergunta e eu sempre respondo a mesma coisa. Não quero parecer um inválido.

Além disso, tem essa coisa de ela ser freira. Isso é suficiente para me inibir. Verdade que uma vez sonhei um sonho estúpido onde a gente corria numa praia, de mãos dadas, ela não usava a roupa branca, estava de biquíni, e seu corpo era até bem bonito. No fim a gente rolava na areia e se beijava. Nesse dia acordei excitado e evitei falar com ela o dia inteiro com medo de que desconfiasse de alguma coisa. Rogéria vai embora e me deixa sozinho no quarto outra vez. Vou até o pequeno roupeiro de fórmica escura. Abro uma das portas. A da esquerda tinha um espelho por dentro. Dava quase para me enxergar por inteiro nele.

Antes. Agora, não. Uma das primeiras coisas que fiz no dia em que me trouxeram praqui foi quebrá-lo em pedacinhos. Já tive mesmo todo o azar que podia ter na vida. Não gosto de espelhos. Nunca gostei. E pronto. São por causa disso essas cicatrizes nas minhas mãos. Uma vez pensei que poderia existir um tipo de espelho que refletisse a imagem da alma.

Depois me arrependi porque às vezes parece que a alma da gente é ainda mais feia e velha que o corpo. Muitos de nós envelhece mais rápido por dentro que por fora. Se pudesse ver, eu veria que a minha alma é desajeitada, estúpida, que está intoxicada pelo veneno da vaidade e da arrogância urbana. Não sei quando foi que notei isso pela primeira vez. Talvez tenha sido quando eu tinha uns oito anos, e procurava uma ferramenta para o meu pai no galpão nos fundos de casa, e encontrei uma ninhada de ratinhos pelados dentro de uma lata. Todos recém-nascidos. Eles eram rosados e tinham a pele tão fina que dava para enxergar os órgãos.

Meu pai era marceneiro, e ainda não havia sucumbido ao câncer no pulmão. Levei a ferramenta para ele, depois voltei, peguei a lata, levei-a para dentro de casa, enchi a pia da cozinha de água, joguei os bichinhos lá dentro, e fiquei olhando-os se debater, tentando nadar, se esforçando para não morrerem afogados, lutando num desespero irracional por suas vidas insignificantes. Até que não sobrou nenhum vivo. Só corpinhos inertes boiando na água. Quando me cansei da brincadeira, tirei o tampão para a água escoar.

E ela escoou levando os minúsculos cadáveres para o esgoto. Achei aquilo tão lindo. Gostar de matar não devia ser uma coisa boa, pensei. Era. Mais tarde, quando fui para a aula de catequese, perguntei para a professora, uma gorda enorme e estrábica, para onde iam as almas dos animais depois que morriam. Ela respondeu que não iam pra lugar algum porque os bichos não são como nós, eles não tem alma. Só as pessoas é que tem. Fiquei aliviado. E pensei o quanto deve ser triste não ter alma.

Depois de me vestir, pego as roupas dentro do roupeiro, coloco-as sobre a cama. Tiro o pijama, escolho uma camisa branca e uma calça cinza. Visto-me. Ponho o cinto, depois as meias; enfim, calço os sapatos. Guardo as roupas e tudo o mais que me pertence dentro de uma mala velha que alguém deixara esquecida dentro do roupeiro vagabundo. Dobro as peças com cuidado, um cuidado que antes eu não tinha. Deixo a mala pronta sobre a cama, e saio. Antes de ir pra casa, vou tomar café no refeitório. Assim aproveito para me despedir de todos. Eu preferia não fazer isso. Mas é melhor assim, preciso mostrar que estou bem, recuperado.

Tenho medo que pensem que de nada adiantou o tempo que fiquei aqui. Quero estar em paz quando a minha mulher chegar para me levar para casa. Na verdade, nem era para eu estar aqui. Não neste muquifo. A maioria só vem pra cá porque não tem dinheiro para pagar coisa melhor. O que não é o meu caso. Sou um empresário bem-sucedido. Antes eu estava internado numa clínica particular. Com direito à tevê e frigobar no quarto.

Nas paredes, obras originais de pintores brasileiros. No meu, um Iberê. Piscina, sala de jogos, academia de ginástica, computador com internet banda larga eram alguns dos outros atrativos. Tudo feito para você se sentir bem. E eu estava bem. Estava quase recuperado. Fazia semanas que não botava uma gota de álcool na boca, quase não sofria mais com a abstinência. Faltava muito pouco pra eu poder voltar pra casa, para a minha vida, para os meus filhos. Não sei o que aconteceu. Por que tudo deu errado.

Lembro bem daquela noite. Faz mais de um ano. Eu tentava dormir. O enfermeiro entrou no meu quarto sem fazer barulho. O que me alertou foi o seu cheiro, um perfume forte, embriagante, e enjoado. Abri os olhos e me deparei com ele pronto pra me atacar. Não sei o que ia fazer comigo. Não esperei para saber. Pulei da cama e corri em direção à porta. Não consegui abri-la. Estava trancada, e sem a chave. Comecei a esmurrá-la desesperadamente. Gritei por socorro. De repente senti uma picada na bunda. Apaguei quase instantaneamente. Quando acordei já havia amanhecido.

Minha cabeça doía. Olhei ao redor: estava na rua, deitado no chão, metido numa camisa de força. Caía uma chuva delgada e fria. Eu estava encharcado até os ossos. Tentei me levantar. Consegui, apesar de toda a dificuldade. Comecei a perambular, desorientado, sem saber o que fazer, nem para onde ir. Passavam algumas pessoas, e eu pedia ajuda. Mas ninguém me dava atenção, alguns saíam correndo, eu tentava dizer que não era louco nem nada, inutilmente.

Vi quando um homem parado no ponto de ônibus do outro lado da rua pegou um celular no bolso, e começou a falar enquanto não tirava os olhos de mim. Fiquei intrigado. E logo entendi o que ele estava fazendo. Ele tinha ligado para a polícia. Decerto devia pensar que eu era um foragido do Hospital São Pedro, e se pensara isso, a polícia ia pensar a mesma coisa. Por isso fugi, saí correndo feito um louco, não estava nem aí com o trocadilho. Era demais tarde. Instantes depois uma Blazer da Brigada Militar parou na minha frente.

Dois brigadianos desceram e andaram na minha direção. Um era mais velho e mais gordo, a barriga caindo por cima do cinto, e tinha a cara do Sargento Garcia. O outro, bem mais novo, levou a mão ao coldre e ordenou que eu ficasse parado. Não me mandou por as mãos pra cima. Era óbvio que eu não tinha como fazer isso. O gordo olhou pra ele e disse: deixa que eu falo. E falou. Perguntou se eu estava fugindo de algum lugar. Pensei um pouco antes de responder. Só consegui pensar numa coisa; dizer que sofrera um sequestro relâmpago. Que tinham me colocado dentro do porta-malas do meu carro e rodado a noite inteira comigo lá antes de resolverem me dopar com umas pílulas e me abandonar na rua.

Vi que o brigadiano mais novo me olhava sem acreditar muito na minha estória. É isso mesmo?, perguntou o gordo. É isso, falei. Pedi pra me levarem para casa, pois minha mulher e meus filhos deviam estar aflitos com minha ausência inesperada. Reforcei o pedido com a promessa de dar uma gorda recompensa aos dois homens da lei por me ajudarem. Então a coisa toda mudou de figura e os policiais me colocaram na viatura e seguiram para o meu apartamento. Só não tiraram a minha camisa de força.

Uma vez lá, o mais novo desceu e foi falar com o porteiro. Depois de ouvir o policial falar, o porteiro entrou na guarita, pegou o interfone, e depois de falar ficou algum tempo só ouvindo e escrevendo alguma coisa num pedaço de papel. Ao sair da guarita, levou o papel junto e o entregou na mão do brigadiano. Fiquei intrigado com aquilo.

Quando voltou, o brigadiano magro entregou o papel na mão do brigadiano gordo que disse: vamos. Apenas isso. Perguntei o que tinha acontecido e a única coisa que ouvi foi um cala boca ríspido. Aí me trouxeram pra cá. Onde, para a minha surpresa, já me esperavam. Antes de me entregar nas mãos dos enfermeiros da clínica, o brigadiano mais novo disse: isso é pra tu aprender a não ficar inventando estória, e me deu uma coronhada na nuca. Apaguei outra vez.

Acordei numa cama, os pulsos presos por correias de couro. Foi assim que cheguei aqui. Tenho certeza que foi tudo um mal-entendido. Hoje, porém, vou voltar pra casa e esquecer tudo o que passou. Minha família vem me buscar. Minha mulher e meus filhos. Devem estar todos ansiosos por me ver. Tenho esperado este dia com ansiedade. E agora que ele chegou não quero estragar tudo. Não, não vou estragar tudo. No meio do caminho resolvo voltar para o quarto, para ficar no meu canto até a hora chegar. Jogo a mala no chão, sento-me na cama, fecho as janelas, mergulho no vazio. Se me perguntarem não vou falar das luzes. Não, das luzes, não. Nem dos sonhos. Nem do medo. Talvez da angústia. Mas só talvez.

Publicado por Maximiliano da Rosa em: Agenda | Tags: , , , , , , , , ,

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