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conto da noiteO Conto da Noite
Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

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A conta

Imagem | Antimidia

Imagem | Antimidia

Eu estou morrendo. Sei que todo mundo está, mas eu tenho enfisema pulmonar. Não consigo mais fumar e minha vida é um inferno por causa disso. Tenho que passar o dia na cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo. Nunca me importei muito com como seriam esses tempos, mas sabia que eles iam chegar. Você desenvolve uma certa consciência depois de passar 30 anos fumando dois maços de cigarro por dia. Sabia o que ia acontecer. Assim como quando aceitei ser governador, sabia no que estava me envolvendo. Quando disputei minha primeira eleição para vereador era porque eu queria me envolver. Não é só fazer política ou filantropia, é um estilo de vida. Tem haver com manter tudo como esta: bom para todo mundo. Nem de longe imaginei que as coisas poderiam se desenvolver desta forma. O que você tem que entender é que sempre fiz o que achei que era certo para manter o nosso estilo de vida. Eu tenho esposa, filhos, netas. Sempre achei que quando este dia chegasse seria o fim de um outro começo. Sei que isso não me absolve dos meus pecados, mas eu estou morrendo de enfisema pulmonar. E todo mundo que esta morrendo merece alguma compaixão. Porque todo mundo fez alguma coisa de bom para alguém um dia no vida, e quando se esta numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo, é isso que tem que ser lembrado.

Quando vi a Fernanda pela primeira vez ela estava começando o estágio na Assembleia Legislativa. Era uma jovem estudante de direito, linda. Os longos, e encaracolados, cabelos morenos, o olhar penetrante, as coxas grossas. O conjunto da obra era hipnotizador. Ninguém conseguia resistir aos seus encantos. Admito que quando convidei ela para assumir um cargo em meu gabinete eu já tinha tudo planejado. Sempre fui daqueles que não faz nada sem ter pensado em tudo. Ela não era a primeira, nem eu. Todo mundo faz assim. Acontece. Eu tenho esposa, filhos, netas. Quando ela aceitou o cargo ela sabia o que estava fazendo. Porque o cargo também incluía um apartamento no centro, com cartão de crédito e carro na garagem. Então, se você aceita tudo isso, você sabe que seu trabalho não será exatamente no escritório. E durante dois anos tudo foi uma maravilha. Nós nos víamos de duas a três vezes por semana. A vida pública exige que algumas coisas sejam realmente privadas. Eu não ia no apartamento dela para não ser visto. Nunca éramos vistos juntos. Se você usa uma aliança no dedo anelar esquerdo, e ocupa um cargo público, você não quer que as pessoas te vejam fazendo o que elas fazem. Elas votam em você exatamente porque elas acham que você não faz como elas fazem. Elas votam em você para poderem continuar fazendo o que elas acham que só elas fazem. Se todo mundo soubesse o que todo mundo fez e faz, o que seria desse mundo? E agora, que estou numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo, agora isso vai ser importante?

O que você tem que entender é que jamais imaginei que aquilo ia terminar como terminou. Eu tenho esposa, filhos, netas. Não teria feito o que fiz se não julgasse que havia extrema necessidade. Era muita coisa que estava em jogo. Todos os meus grandes feitos não podem ser ignorados por um incidente. Eu também construí escolas, creches, hospitais. Toda uma história não pode ser questionada por causa de uma estagiária num momento de devaneio. Não é porque estou numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo, que estou contando tudo isso. É porque a imprensa vai fazer um escarcéu, vai supervalorizar tudo. Eu tenho esposa, filhos, netas. Não vão respeitar elas e elas não merecem isso. Não estou aqui pedindo absolvição, é só que vejam que fiz o que fiz porque precisava manter outras coisas, que eram boas para todos. Pode não ter sido a melhor escolha, mas era a única que eu tinha. Quando ela apareceu grávida, na casa da minha família, vociferando que eu era um monstro, ela mesmo não deu valor a tudo isso. Em tudo que eu representava, em tudo que eu era. Ela não me deu opções. A questão não é quem é a vítima, é como se reage as coisas. Ninguém é santo. O mundo é muito maior que uma pessoa só, e exitem os seus problemas e os do mundo, e perto dos do mundo, o seu sempre vai ser pequeno. Uma coisa que pode parecer pequena para você, pode ser grande para o mundo. Não era só a minha honra que ia ser atingida, era a honra de todo mundo.

Quero deixar claro que antes de matar ela asfixiada, e incinerar o corpo numa pilha de pneus, tentei todos os outros meios ao meu alcance para evitar que as coisas terminassem dessa forma lastimável. Não foi fácil fazer o que fiz. Eu não queria. Eu chorei, pedi, implorei. Mas ela tinha vídeos, fotos, conversas. Eu poderia ter dado tudo que ela jamais imaginou ter. Hoje ela poderia estar vivendo bem em qualquer lugar que quisesse. Tentei garantir, com todas as palavras possíveis, que ela e a criança jamais passariam nenhum tipo de necessidade. Muito ao contrário, viveriam sem nunca terem que se preocupar com dinheiro. Teriam até direito a herança. Eu reconheceria o filho quando deixasse a vida pública. Mas ela queria causar um escândalo. Queria usar uma criança para acabar com tudo. O que ela queria era ver tudo que eu tinha construído destruído. Eu fiz o que qualquer um no meu lugar faria. Eu tive que matar ela asfixiada, e incinerar o corpo numa pilha de pneus, para garantir que tudo continuasse como estava, porque estava bom para todo mundo. Eu tenho esposa, filhos, netas, e estou numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo.

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Antes da morte

 

Ela está definhando. Logo ela. A mais poderosa de todos. O ser mais temido e vangloriado que existe. O culto a ela (ou ele), não descobri ainda, é gigantesco no mundo. Mas está aqui, se acabando, e não sebe lidar com isso, com essa nova sensação. Já levou tantos, já buscou tantos, inspira todos os seus discípulos com louvor[ pelo menos é o que me diz], mas não sabe o que acontece com ela mesma. ente, sempre com muita destreza, com muita calma. Que criou um sistema sem erros, que ensina sem erros. Não aceita nenhum desvio de conduta por parte dos seus colaboradores, e que agora não aceita o que acontece com ela. Que não entende de forma alguma isso, e não quer entender, quer sair dessa situação, mas não consegue. Está pior, sempre pior, se acabando, se deteriorando. E com isso está causando um furor na sua comunidade, e afetando as outras também, porque ninguém sabe o que vai acontecer se de fato ela se for. Dá pra imaginar isso. Eu não consigo. Um ano, e não consigo nem pensar, nem passa pela minha cabeça, pela minha mente estrada e perturbada, essa ideia. E olha que sou estranho, aliás, sou o senhor dos estranhos, de verdade. Mas essa não assimilo. Não mesmo. E nem ela. E isso que me deixa encucado, como chegou a esse ponto. Se nem a criadora e mantenedora da causa, sabe, imagina o restante? Totalmente perdidos.

A cada hora vem algum dos seus funcionários verificar como ela está. E cada um sai mais desolado que o outro. E são muitos, tantos que eu nem sabia que era possível. Mas também, com uma causa tão comum ultimamente, com tanta gente no planeta, é claro que o quadro de colaboradores teve que aumentar proporcionalmente. E criados os departamentos para lidarem com esse tanto de gente. E ela sempre como a líder suprema, superior de todos. A superior de todas as causas, de todos os seres, a mais temida e mais cultuada de todos. Aquela de que sempre procuram como fugir, como adiar a vinda. A criadora. Isso mesmo, estou falando da morte da MORTE.

Demorou pra entender isso. Eu demorei um bom tempo, primeiro, achei que era uma brincadeira. Depois, tinha certeza que tinha ficado louco, alucinando por conta dos remédios e do tratamento, da chegada do fim. E por último, quando aceitei que não estava maluco, demorei a entender o motivo de eu ter sido escolhido, praticamente a força, para cuidar dela e tentar decifrar o enigma da morte. Vou contar em duas partes a trajetória, não vai ser longo, pra não ficar chato.

Antes da morte: Há dois anos fui ao hospital, uma gripe mesmo, eu pensava. Nariz escorrendo, corpo mole, febre. Eu, com 38 anos, nunca fumei, bebi ou usei qualquer tipo de droga. Sempre me alimentei bem, mas sem essa baboseira da moda de ser fitness. Por isso nunca fui muito ao médico, nunca senti nada demais. Somente fui dessa vez, com essa gripe, por causa de um surto de dengue, e no trabalho praticamente me obrigaram a ir. Muito a contra gosto, já que sempre passava essas gripes quando eu tinha, decidi ir ao hospital. Eles sempre são cheios durante o dia. Então trabalhei normalmente, ou quase, porque estava com o corpo ruim mesmo, dessa vez ela veio mais forte. Esse dia demorou a passar. No trabalho sempre era tranquilo. Ser diretor de operações em uma empresa de roupas não é ruim. O salário é muito bom, os benefícios excelentes, mas o trabalho é intenso. Papéis pra assinar toda hora,liberações, contratações, demissões. E como gosto de estar no controle de tudo, o trabalho é maior ainda. O pior de tudo isso, é ter que lidar com as intrigas dos colaboradores. Uma bosta isso, adultos com problemas que nem meus sobrinhos tem. Mas no geral, o trabalho é bom, mas não quando se está gripado, com 38º C de febre, o corpo todo dolorido e ter que escutar que fulano falou que ciclano era corno. Ninguém merece, por isso esse dia custou a passar.

Quando acabou o expediente, fui pra casa, pra esperar a hora de ir pro hospital. A noite era melhor, no inicio da madrugada. Ninguém iria no hospital essa hora, numa terça feira. Ninguém iria pegar atestado, não era final de semana e nem tinha feriado, e jogo é somente na quarta feira, então a ressaca dos doentes não iriam precisar de um médico. Cheguei no hospital era quase meia noite. Iria de carro, mas o medo de dormir no volante me fez desistir, peguei um taxi mesmo. Nem sei como me lembro quase tão bem naquele dia, deve ser por causa do choque, mas me lembro. Tinha somente uma pessoa esperando na recepção quando cheguei no hospital. Fiz o cadastro, tudo certo. Sentei para esperar, como sou avesso a hospital, sentei longe da pessoa. Também não queria conversar ali. Estava mais interessado no sudoku nível médio, que estava quase terminando já. A pessoa foi chamada rápido. Depois de alguns minutos, fui chamado também. Ai a ladainha toda, as mesmas perguntas. O que eu estava sentindo, há quantos dias, bla bla bla. Depois exame de sangue, chapa de pulmão. E espera, e como demora, dizem que é uma hora, mas na minha cabeça demora um dia inteiro. Eu já estava esperando os resultados, depois falar com o médico da reavaliação, pegar a receita dos remédios, ir até a farmácia de plantão, tomar os remédios, dois dias de descanso, e tudo certo. Mas não foi bem isso que ocorreu.

No exame de sangue já tinha algo estranho, foi o que o médico disse. E na tomografia, algo mais estranho ainda, mas ele não tinha certeza do que era(não sabia mesmo). Pediu mais alguns exames. Me passou um remédio, mas me indicou para um hepatologista, que é especialista em rins. Me disse para ir o mais urgente possível. Fiquei com medo daquilo, credo, nunca tive nada, e me pedem para ir em um especialista que eu nem sabia que exista. Eu não ia ser besta de não ir, Sai do hospital, não precisei de atestado, claro. Essa também era a vantagem de ser um diretor de empresa. Podia faltar sem precisar de atestado. Ainda mais eu, com quinze anos de empresa, acho que faltei uns dois dias, e sempre com uma justificativa. Nunca dei atestado. Mas agora iria nesse médico. Descobri que na cidade somente tinha dois hepatologistas, e por sorte, sorte demais mesmo, um deles era marido de uma das gerentes da empresa, que era do meu setor. Descobri isso pelo sobrenome. Se não fosse isso, a consulta iria demorar quatro meses, e pelo que o clinico disse na emergência, eu não tinha esse tempo. Ele nem atendia pelo plano. Ela levou os meus exames pra ele dar uma olhada, outra vantagem de ser diretor. Será que se eu fosse um “oreia” qualquer ela faria isso? Acho que não. Mas não sou. Dois dias depois, isso em uma sexta feira, ela veio correndo ao meu escritório. Eu tinha ficado somente um dia em casa, e o trabalho já tinha se acumulado demais. E na sexta, eu já estava bem melhor, quase curado. Quando ela chegou no escritório quase eufórica. Até me assustei.

– Enrico, você vai lá no meu marido agora, nesse momento. Ele tá esperando você no consultório dele.

– Mas agora?

– É, agora. Ele me ligou, disse que você tinha que ir lá, os seus exames, ele viu, e quer você lá.

Não tem como descrever a expressão dela agora. Mas era de um desespero verdadeiro, e me assustei, e muito. Nem pensei, sai e fui até o consultório do marido dela. Ele realmente estava me esperando. Bem chique o local, bonito, a consulta era o olho da cara, mas felizmente eu tinha como pagar e nem sentir muito. Dr. Elias, o nome dele. Devia ser da minha idade. Com uma fala tranquila, ele começou, parecia que estava falando pra uma criança que estava começando a falar agora, ou quando se explica algo pra alguém que não entende nada de um assunto ( e claro, eu não entendia). Ele falava com voz de dó mesmo.

– Elias, vou ser direto. Você tem algo raro no seu rim. Nunca tinha visto antes. Vou tentar de explicar de um modo que possa entender melhor, já que eu nunca tinha visto isso. É como se você tivesse levado uma pancada, sem levar realmente. Seu rins praticamente não funcionam, e pelo jeito, já tem tempo. Nem sei como você está vivo, pra dizer a verdade. Nunca vi isso na minha vida. Seus nefrônios não funcionam. Eles filtram seu sangue, mas já não estão fazendo isso há um bom tempo. Não sei mesmo com você ainda está vivo, se existe milagre, esse é um deles.

– Mas como isso foi acontecer?

– Deles pararem e você ainda estar vivo? Não sei. Não mesmo, mas temos que começar um tratamento agora, literalmente agora mesmo. Vou ser direto mesmo. Sua sorte é que você tem como bancar tudo. Têm recursos pra isso. Minha esposa já deve ter dito que não aceito plano de saúde, e mesmo se aceitasse, duvido que ele iria bancar esse tratamento antes que você entrasse na justiça.

– É tão grave mesmo?

– Sim, eu peguei seus exames anteontem, e quando vi sua ressonância, fiquei de queixo caído. Comecei a ver alguns tratamentos, nem dormi a noite por isso. E tem alguns experimentais, pra tentar resolver isso. Vi alguns orçamentos, e são esses os preços. Mas temos que começar agora mesmo. Isso é o preço dos remédios e equipamentos, nem vou cobrar minha parte não, pois não sei se dará certo, nunca vi antes.

O preço era alto mesmo, mas pra minha saúde, nem me importei. Tinha aquela grana guardada, claro, e sem modéstia, muito mais. Ali mesmo já fiz uma transferência pra conta dele, pra ele já pedir os remédios, que vinham de fora. Ele mesmo disse que não tinha como bancar aquele valor seu eu pagar antes. Os materiais, todos com valor muito elevado também. Isso foi na sexta feira, e na quarta iria começar o tratamento. Na empresa consultei o advogado,e ele disse que o plano tinha que cobrir aquilo. Então iria entrar com a ação contra eles, claro. Mais de meio milhão de reais não se acha no lixo.

Comecei o tratamento, e foi doloroso. Antes de saber que meus rins não funcionavam, eu estava bem. Quando descobri, comecei a sentir dores, e com o tratamento, mais ainda. Foi tenebroso esse tempo. Ia no hospital a cada dois dias, para o tratamento experimental. E eram uns vinte comprimidos diários, para suprir essa deficiência do figado. Um tratamento cabuloso, que nem vou explicar porque nem sei o que faziam. Me dopavam, e quando acordava, estava todo dolorido nas costelas. O tratamento durou 12 meses, sem resultado. Então o Dr. Elias aumentou a dosagem dos remédios, e também sem resultado nenhum. Quando tinha 16 meses que havia sido diagnosticado com aquilo, eu parei de tomar tudo. Cansei, desisti mesmo. Estava com muita dor, muito cansado, nem pensava mais direito. Tinha acabado de ganhar a causa contra o plano de saúde, que tiveram que me pagar tudo que eu havia desembolsado. Pelo menos isso tinha dado certo. Mas o tratamento não. Já tinha feito o testamento, dividindo pra quem eu deixaria meus bens e meu dinheiro. E era uma boa grana, por sinal. No 17º mês, fui internado. Meu corpo já estava ruim, debilitado demais. Já não comia quase nada, até a água doía. Por causa desse problema, tudo meu começou a parar. Maldita hora que fui a emergência tratar de uma gripe. Quase nas últimas, literalmente, em uma noite no hospital, que estava bem fria, eu vi que ia morrer. Era uma quinta feira, 18 meses depois de ser diagnosticado. Meu sobrinho estava no quarto, o único que realmente me acompanhou em todo o processo. E claro, pra ele que ia deixar praticamente tudo que tinha. Ele tem 19 anos, e me ajudou muito em tudo, principalmente nos últimos meses, que eu fiquei muito fraco. Nessa noite fria, eu estava com muita dor, mas já nem importava isso. Nem me lembrava da vida ser a dor, era parte de mim já. Era como se a dor fosse um órgão vital do meu corpo. Algo que eu já pudesse ficar sem. Penso que a dor me mantinha vivo, alerta, como um medo constante de ir embora. A dor era minha única aliada naquele momento, por mais absurdo que parece, eu não queria que ela fosse embora. O sofrimento eu não queria, mas a dor sim. E foi naquela noite fria, de quinta feira, em um quarto de hospital, com o meu sobrinho Alan dormindo na poltrona cama, que o meu medo se tornou real. A dor foi embora. Totalmente. Junto, não posso negar, veio um alivio imenso, mas um sofrimento maior ainda. Minha hora tinha chegado, meu breve momento na Terra, como Diretor de operações, com 39 anos, quase quarenta, ia acabar. Enrico Mathias, seu tempo terminou. A sua contagem foi interrompida. Isso tinha na minha mente. Fiquei preso nesses pensamentos, só esperando o barulho do aparelho que media meus batimentos, começar. Alan acordar bruscamente, correndo chamando algum enfermeiro, enquanto tudo meu parava. Mas não acontecia. E a dor também não voltava. E aquilo me fazia sofrer mais e mais. Porque tudo meu não parava, porque eu não sentia mais dor? Tinha morrido já, subitamente, sem avisar pra ninguém, nem para os aparelhos ligados a mim? Isso era bem possível. Minha doença era possível, porque isso não? 18 meses, e ninguém sabia o que eu tinha. Porque tinha ocorrido aquilo e eu ainda estava vivo. Não havia explicações ainda. A ciência não podia explicar. E a dor tinha ido embora.

Eu apaguei, e me vi apagando, e pensei que ali tinha morrido mesmo. Fiquei pensando no meu enterro, um monte de gente que quase nunca falei, chorando. Meu sobrinho triste, esse eu sei que ficaria mesmo. Mas um dia depois, quando recebesse a herança, ficando feliz e me agradecendo muito por isso. Como eu pensei em pouco tempo. Mas simplesmente acordei. 06:00 da manha de sexta – feira. Sem dor nenhuma, sem nada. Batimentos normais, nada diferente. Alan ainda dormindo na cadeira cama. E nada da dor. Mas em compensação, uma fome que não sentia desde a adolescência. E que fome infernal. Que vontade de comer um mcdonalds, com uma grande porção de batatas fritas e um copo gigantesco de coca cola. Levantei, mas antes, tirei o tubo que conectava pra medir meus batimentos. Eu não tinha nada com soro em mim, e até assinei um termo me responsabilizando por isso, e só estava com a parafernalha do meu coração por muita insistencia só meu sobrinho e da mãe dele. Nada de dor para andar. No banheiro, nada de dor para mijar. A gente não entende as coisas simples da vida, mas ali eu entendia como eu sentia falta de mijar sem dor, sem sofrer. Como era bom lavar o rosto, lavar as mãos e sentir a água fria sem machucar os dedos. Respirar sem arder o nariz. Como era bom, e ali eu vi o que era felicidade plena. Quando voltei pra cama, o Alan estava com os olhos arregalados. Já tinha até chamado um enfermeiro. Sentei na cama, pedi um lanche. Estava ha duas semanas lá, e nunca tinha pedido nada. Depois, vieram conversar comigo, como eu estava. O Dr. Elias veio, e me levou pra fazer uns exames. Com grana, ficaram prontos antes das 18:00 daquela sexta feira, porque eu mesmo tinha pedido mais urgência. E para surpresa de todos, não tinha mais nada. Nada mesmo.

– Elias, seu corpo agora está mais saudável que o de uma criança de 12 anos.

Ouvir aquilo do médico que me condenou ( agradeço muito ele por ter feito aquilo), era bom demais. Fizeram os exames novamente, mais umas três vezes, a todos com a mesma coisa. Na terça feira, fui liberado. Sem nada. Fui pra casa naquele dia. Mesmo sendo contra, tomei um banho de uma hora. Fiquei vendo uns filmes, e dormi. No outro dia, fui pro trabalho, já tinha avisado isso. E meu lugar estava lá, intacto. Não tinham contratado ninguém, depois fiquei sabendo que estavam esperando eu morrer pra isso. E como não, deram uma festa quando voltei, ninguém acreditava. Nem eu mesmo. E só ia me atentar para isso, que estava vivo mesmo, com o que viria depois. Mas até ali, a minha aliada tinha ido embora, e nunca fiquei tão feliz na vida.

 

Depois da morte: Já havia se passado dois meses da minha recuperação. Eu estava bem demais. Mais esperto, com mais energia. Realmente eu já devia estar com aquele problema nos rins há bastante tempo mesmo. Mas agora já não tinha. Recebi um aumento excelente, junto com os outros diretores, e agora a parte financeira estava melhor do que nunca. A vida pessoal ótima como sempre. Até que aquilo aconteceu.

Em casa, numa boa, assistindo The Big Bang Theory, apareceu na minha frente. A morte, nossa, a morte. Não como fantasiam, mas elegante. Com uma roupa parecida com um terno, aliás, era um terno, só que muito chique mesmo. Com uma gravata azul, e a roupa era cinza. E como eu sabia que era a morte? Não sei, mas sabia.

– Meu chefe quer te ver.

– Quem?

E já era. Desmaiei. Quando acordei, estava em algum tipo de quarto de hospital, de novo eu pensei, uma merda mesmo. Mas muito diferente, nem cheiro de hospital tinha. Eu só sabia eu era, por causa da cama, era de hospital, diferente, mas era. E nela tinha alguém deitado. Sem tubos conectados, mas com a respiração lenta, dolorida, mas constante. Eu estava em uma cadeira, somente cadeira, perto. O quarto era grande, com uma janela grande, aberta, bem arejado. Não tinha ar condicionado, mas não não precisava, o tempo era muito agradável.A iluminação perfeita também. Olhei na porta, e não tinham enfermeiros andando de um lado para o outro, e nem ninguém vigiando, então não era um sequestro. Parecia uma casa mesmo. No quarto tinha um banheiro. Bonito, com uma pia em granito. A torneira parecia de ouro. Uma banheira de hidro, gigante, devia caber umas 4 pessoas. E no quarto, somente a cama, aquela pessoa em cima. Um guarda roupa no canto. Uma TV de 42” polegadas na parede, com um aparelho de tv a cabo da net. O controle estava em uma mesa de cabeceira, ao lado da cama. Entre a minha cadeira e a cama. Quando sentei na cadeira, estava tranquilo, estranho aquela sensação. Em um lugar que não conhecia, com uma pessoa esquisita na cama, mas numa boa. Nem fugir eu queria. Então peguei o controle, liguei a TV, quando fui começar a passar os canais, aquela voz.

– Quero assistir uma série, pode colocar por favor?

A voz era calma, mas não sabia se era de homem ou mulher. Eu confesso que quase cai da cadeira quando falou, mas me segurei. Imagina eu cair ali, de bunda ou de cara no chão. Não respondi nada, estava com medo mesmo. A voz era calma, mas diferente de tudo que já tinha escutado. Já me acostumei, mas escutar aquilo, uma primeira vez é aterrorizante.

– A série é The Big Bang Theory. Procura por favor.

Eu sem falar nada, coloquei na série. Deixei legendado mesmo, e a pessoa não falou nada. Assistimos os últimos três episódios da oitava temporada. No primeiro, fiquei sem graça. quase não ria. Mas vendo como a pessoa ria, nos outros não me segurei também. Assistimos os três em seguida, sem parar para nada.

– Essa é minha série favorita. – A pessoa falou.

– É uma das minhas também. Me divirto demais com ela.

– Muito simples e boa a linguagem dela. Bom que vou ter companhia para assistir o restante.

– Vai?

– Sim, se você quiser, é claro. Você não é prisioneiro, nem nada. É livre pra ir. Só te trouxe daquela forma ontem, pois tenho certeza que não aceitaria. E nem acreditaria.

– Não mesmo. Ainda mais depois de tudo que passei. Eu pensei que era a morte ontem, deve ser por isso que desmaiei, loucura não é?

– Você acha?

– Sim, e muita. E você não?

– Não Enrico, não mesmo. Ontem não era a morte, era somente um enviado dela. Mas hoje você está vendo a morte.

– Aonde?

– Você riu com ela.

– Ri?

– Sim, e fala com ela. Eu sou a morte Enrico, e estou morrendo.

Quando me disse aquilo, fiquei sem reação. Meu coração parou, minha respiração travou. Até a terra deve ter parado de girar. Tudo ficou lento, denso. Eu sentia o ar em minha volta. porque sabia que era verdade. Era verdade, aquela era a morte. Como podia ser? A morte. A lenda do mundo, bem ali. E morrendo ainda por cima. A morte morrendo. Fiquei desse jeito, sem reação, durante vários minutos. Eu olhava pra ela, e ela não dizia nada, estava esperando eu me recuperar, voltar ao normal, para continuar a conversa.

Voltei ao mundo, a realidade. E conversamos durante muito tempo, e começou a me explicar tudo. Que ficou naquela situação depois que eu me recuperei. Ela já estava no meu quarto, esperando eu morrer naquele dia, quando, do nada, eu fiquei bom. Ela não entendeu o porque, agora imagina eu?

Disse que são poucos os casos em que vai buscar ela mesmo alguém. Sempre manda os colaboradores dela. Mas o meu ela decidiu que iria, já que aquela seria a primeira doença daquele tipo, e nem ela sabia explicar. Que acompanhou todo o sofrimento. Disse que não interferia em nada, nem na morte. Isso era um processo natural, e que nada podia mudar aquilo. Aquela era uma regra que ela tinha criado, e quem descumprisse, pararia de existir. E nenhum dos seus pupilos ( ela chama de pequenas mortes – mortinhas) ousaram mudar aquilo. E que agora estava mudando. Depois de mim. Depois do que ocorreu comigo, da minha doença e da minha cura repentina. Nunca tinha visto aquilo, nunca ninguém se recuperou da morte certa, da chamada do fim. Ninguém, eu tinha sido o primeiro. Era o privilegiado. Agora o mais conhecido no mundo deles, no mundo da morte.

A gente terminou de assistir a série, e começamos várias outras. Sempre quando saia do serviço, ia até a casa em que a morte estava. Imagina, eu ia ver a morte todos os dias. A morte ria comigo. Depois de um tempo, aquilo virou fantástico na minha vida. Eu adoro meu trabalho, o dinheiro que ganho, mas aquilo era bom demais. Todos os dias, várias mortinhas vinham visitar a suprema morte. Algumas eram chatas, outras gente boa. Mas todas, sem exceção, tinham uma veneração extrema com ela. Um respeito inquestionável, algo que nunca consegui na empresa. Eu sou respeitado, mas nunca que nem a morte. Todos que iam lá, saiam chorando. Seres que levavam as vidas das pessoas, agora choravam pela vida da morte. Isso é um paradoxo muito louco. Mas interessante de se viver.

A morte me contou que todos as suas mortinhas, já foram humanos um dia. Desde os velhos tempos, vem selecionando para sua empreitada. Nunca obrigou ninguém a aceita, mas ninguém nunca recusou. Ela não se lembra desde quando existe, sempre disse pra mim desde sempre. Se lembra de tudo sendo criado, do surgimento da estrelas, das galáxias, da Terra, de tudo. Um dia, perguntei a ela:

– Você se sente triste por estar morrendo?

– Triste? Porque estaria. Não mesmo. Está tudo certo. Você estava triste quando estava morrendo?

– Também não, mas também, eu sofria tanto, que nem tinha tempo pra isso.

– Isso é mesmo, eu via. Você até ria as vezes não é? Era pra não chorar?

– Isso mesmo, você via isso? Que massa. Literalmente, era isso, ria pra não chora.

E depois demos gargalhada o dia inteiro sobre isso. Um cara de tinha escapado da morte, e a morte rindo da morte. Loucura não? Eu também acho. Nossas conversar eram muito boas, e tenho certeza que o tempo parava. Certeza mesmo, já que tínhamos tempo de comer, assistir algumas séries, e ainda conseguia voltar pra casa e dormir bem.

A casa era próxima a minha. Não sei como ninguém percebia nada, mas não percebiam. Aquela movimentação, pessoas saindo e entrando. Afinal, ela era o ser mais famoso do universo. Quem nunca ouviu falar da morte? Ninguém, literalmente ninguém. Até os irracionais sabem que a morte existe.

Ela me contou que tem uma equipe especifica para os bichos também. Que ela que pega a consciência deles. Isso me intrigou demais. Achei de outro mundo aquela coisa. Os bichos tinham consciência, e era forte. Por isso que ela decidiu que também cuidaria da consciência deles, e algumas eram melhores e mais evoluídas que as humanas. Por isso valia a pena cuidar daquelas também. Não me disse nunca para onde levava elas. Que era um segredo, o mais guardado de todos. E que somente ela sabia, nem as mortinhas sabiam disso.

Depois de um mês de conversas, comecei a ficar triste por ela. A ficar triste pela morte. Ela era tão gente boa, tão engraçada. Nada daquilo que falam, o mito que criaram. Divertida, cômica, dramática, mas nunca pra baixo. Nunca triste. Mesmo definhando, e definhando mesmo, cada dia pior. Praticamente sumindo, nas ultimas semanas, era um trapo na cama. Não dava para diferenciar do lençol que a cobria, mas mesmo assim, não a ouvi reclamar nem uma vez. A morte era demais mesmo, e ainda falam que a morte é ruim.

Na última semana, ela praticamente tinha se acabado. Depois de tantas conversas, tantas gargalhadas, riamos até chorar as vezes, aquela era seu ultimo dia. Fora da casa, tinha um batalhão de gente. Muita mesmo, mas ela me disse que eles estavam invisíveis aos humanos, mas não entendia como eu estava vendo, mas ia em breve. O choro fora da casa era gigante, um choro triste mesmo, pesado. Eu não tinha vontade de choras, mas estava triste, a morte ia partir.

– Morte, o que vai ser do mundo sem a morte?

– Mas o mundo não vai ficar sem a morte.

– Eu sei que não, tem as mortinhas, mas você que controla tudo.

– Sim, mas a morte vai continuar.

– Como, se você ta indo embora?

– Você gostam de pessoas diretas não é? Não gosta de enrolação.

– Isso mesmo.

– Então lá vai. Agora você é a morte.

– …

– Isso mesmo, eu estou indo, mas passei toda minha força pra você, desde o dia que você chegou. Agora, você toma conta da morte.

– Para com isso. Sério? Porque?

– Porque sim. No dia que você se curou, eu fiquei doente, então tinha que passar a vida da morte pra alguém, e tinha que ser você. Não me pergunte como, mas tinha. E agora você é. Aliás, você quer?

– Mas assim, de supetão?

– É, se não quiser, só falar, passo pra outro.

– Por isso me contou tudo, sobre a organização, colaboradores, como seleciona, por isso?

– Sim, e você assimilou tudo. E se quiser, nem precisar sair do seu atual emprego.

– Obrigado Enrico, agora fiquei na boa. Até mais. Nosso tempo junto foi muito bom, me diverti bastante. Cuide de tudo, boa sorte não precisa. Agora, sua primeira levada. Já sabe né?

–  Calma ai, eu vou levar a morte?

– Isso mesmo, a nova morte vai levar a morte pra viagem. Agora, é sua vez.

– Eu sei pra onde é, que massa.

– Isso, e nunca conte a ninguém, isso gera muito poder. E você sabe lidar com isso. Agora, vamos?

E assim, a morte se foi. Deixei ela no canto pra ela. O final dela foi legal. Descobrir que eu era a nova morte foi interessante. Quando eu sai, todos me olhavam com um ar de respeito, que nem olhavam para a morte. Vieram falar comigo, aliás, falavam comigo pela mente. Eu sabia que sim. Eu disse a todos, que as regras continuariam por enquanto, mas que nada seria diferente do que a morte já tinha feito. Um deles me questionou com me chamariam. Eu, na hora, falei, sem querer.

– Continua o mesmo.

E assim eu me tornei a morte. Até agora, não sei bem como lidar com isso. É diferente, as vezes estou no trabalho, e tenho que resolver algum assunto. Mas pedi as mortinhas que somente me chamassem após meu expediente como diretor, e que só me chamassem ali se fosse muito urgente. E seguiam isso, e é muito bom isso. Um respeito na boa. Confiança total. Somente no dia da morte da morte, a Terra ficou sem mortos. Algo que chocou o mundo. Mas no outro dia, tudo voltou ao normal. A vida seguiu seu rumo. Mas a morte antiga não existia mais. Agora era eu, a morte. Vou tentar conciliar os dois trabalhos, mas sendo o ser mais poderoso de todos, é difícil, mas pelo menos não subiu ( ainda) a cabela o poder da morte.

 

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Cordão Umbilical

– Você ainda me ama?
– Não.
 E dois tiros foram disparados em sequência, com apenas alguns segundos de diferença. Silêncio.
  12 anos depois (13 de outubro)
 “Dois corpos foram encontrados no casarão da 8º Avenida. Policias desconfiam que eram um casal, e se suicidar…”
 – Mamãe! Você viu? – gritou o pequeno George, de doze anos recém-completados, da sala de Tv.
 – O que, meu querido?
 – Mais um. – olhou para a mãe e percebeu sua expressão de confusão – Mais um casal morreu naquela casa perto do hospital que eu nasci. Foi lá, não foi?
 – Foi, George. Mas já disse para parar de assistir esses noticiários violentos. – disse a mãe, com preocupação no olhar.
 – Ah, mãe, também quero investigar. Igualzinho o papai. – o menino parecia refletir profundamente sobre suas convicções – Queria estar lá com ele, e descobrir o que acontece nessa casa…
 – Deixe que as pessoas certas cuidem disso agora, meu bem. Seu pai é a pessoa certa, não é?
 – É… Mas você não acha estranho que essa casa continua sendo alugada, mesmo depois de várias mortes? – indagou para a mãe, decididamente curioso.
 – Vamos mudar de assunto, tudo bem? Que tal um sorvete, para comemorar seu aniversário?
 – Claro… – George ficara decepcionado com a falta de interesse da mãe no assunto, mas resolveu parar de insistir. Estava ansioso para a chegada do pai e sua mente borbulhava de perguntas sobre a casa misteriosa.
   Um dia depois (14 de outubro)
 – Dizem que um demônio assombra aquela casa. Atrai casais para lá e depois os mata.
 – Ouvi dizer que ele destroça os corpos. Tripas pra todos os lados.
 – Legal! Nunca mostram essa parte na Tv…
 George mal chegara na escola e já podia perceber que os colegas só comentavam sobre uma coisa: a casa e seus supostos poderes sobrenaturais. Cada um dizia uma coisa diferente. Espíritos, possessão, loucura repentina, maldição… disseram até que a casa apenas atraia psicopatas e também que um serial killer passava por lá sempre que era alugada e deixava rastros de sangue por todas as paredes.
  O menino ouvia as histórias dos colegas com atenção, às vezes até sentia um pouco de medo. Sentia um arrepio quando mencionavam o hospital em que nasceu, já que ficava na mesma avenida que o casarão.
  As mortes inexplicáveis dos casais que alugavam a casa, dadas como suicídios, começaram no dia em que nasceu, 13 de outubro. Aconteciam uma vez por ano, sempre no dia do seu aniversário. Quando perguntou aos pais sobre seu nascimento, disseram que foi tranquilo e lindo. A coisa mais linda que acontecera na vida dos dois. Com uma expressão de devaneio, seu pai contou que nesse dia o céu estava limpo e azul desde seis da manhã e, assim que Geroge nasceu, uma tempestade extremamente forte começou.
  Seus pais dizem que foi um sinal de Deus, e eles agradeceram nesse momento por seu bebê ter nascido forte e saudável. E na mesma fração de segundo, dois tiros foram ouvidos por todos no hospital. Algumas horas depois, dois corpos foram encontrados em uma gigante poça de sangue e resquícios acinzentados. A mulher estava grávida de nove meses, e podia ter dado a luz a qualquer momento caso aquela tragédia não tivesse acontecido – era o que constava nos laudos post mortem.
   Uma semana depois (21 de outubro)
 – George, querido. Eu sei como está se sentindo, mas precisamos ser fortes agora. Vamos nos despedir de seu pai.
 O dia estava fresco e o céu azul. Esse tempo não era justo. Estava calmo demais. Feliz demais. George observava enquanto o coveiro jogava a terra marrom acinzentada sobre o caixão de seu pai. Lágrimas corriam por suas bochechas.
  Uma semana antes (14 de outubro)
  – Meu bem, preciso voltar ao trabalho. É urgente. Seu pai pode chegar a qualquer momento. Não saia de casa, por favor. – a mãe instruía o filho rapidamente, que acabara de voltar da escola; os pensamentos correndo a mil, e uma sensação ruim bombardeava seu coração.
  – Posso comer os cookies de chocolate?
  – Pode, querido. Só deixe alguns pra mim. – disse ela, sorrindo para o menino. – Volto já.
  Assim que a mãe saiu, ele foi correndo para a cozinha. Avistou o pote com os doces e, todo triunfante, foi finalmente pegá-los. Quando se preparava para dar a primeira mordida, ouviu um sussurro perto de si.
  – Mãe? – chamou, quase murmurando. Todos seus músculos travados por conta do susto. Arrepiado de medo. Fechara os olhos com força.
  De repente ouviu gritos. Gritos de dor. Visualizou um jardim. Havia uma árvore, as folhas murchas e vermelhas. Cor de sangue. Elas caiam dos galhos. Não, elas escorriam. No galho mais alto e grosso um corpo. Viu seu pai, pendurado pelo pescoço. Os olhos apagados.
  Balançou a cabeça para dissipar a visão. Seu pai. Não, aquilo não tinha acontecido. Era apenas sua imaginação. Queria manter os olhos fechados até seus pais voltarem e o resgatassem dali, mas sua curiosidade fulminante não deixou. Quando abriu-os viu uma sombra fantasmagórica andando pelo corredor. Seu cérebro tentava decidir entre se esconder embaixo da mesa e fechar os olhos com todas as forças novamente ou sair correndo, quando a porta da frente foi violentamente aberta.
  – George! Meu bem? George! – era a voz de sua mãe. A sombra sumira e os gritos também, no momento em que a porta foi aberta. Ele não conseguia responder a mãe. Apenas esperou-a. Ela finalmente entrou no cômodo, logo percebendo a palidez e a careta de susto do filho. Ambos choravam. Ela o abraçou. – Seu pai, George…
  – Eu sei, mamãe. Eu sei.
  Naquela noite George dormiu seu sono mais profundo. Não teve sonhos. Nem pesadelos. Sua mãe ficou ao seu lado, a noite toda em claro chorando a morte do marido e vigiando seu filho, temendo por sua vida. E sua curiosidade mortal.
10 dias depois do enterro (31 de novembro)
  Depois do dia que vira a sombra passando pelo casa e ouvira os gritos, o mesmo dia que recebera a notícia da morte de seu pai, George odiava ficar em casa sozinho. Mas decidira não contar para a mãe sobre o ocorrido. Ela já estava lidando com muita tristeza, não precisava de mais um problema.
  Ele sabia que a mãe trabalharia até tarde. Era dia de plantão. Não queria passar o dia inteiro sozinho em casa. Assim que saiu da escola foi direto para uma banca de jornais perto da 8º Avenida, dez minutos de sua escola. Queria apenas comprar chicletes e ão viu como sua mãe poderia achar aquela desviada de caminho um problema. George conservara sua inocência infantil.
  E sua curiosidade.
  8º Avenida. Rua da banca. Do hospital. E do casarão.
  Nunca se conformaria com a morte do pai. Ainda mais tão estranha do jeito que foi. Um dos guardas noturnos do hospital percebeu uma movimentação no jardim do casarão, mas não estranhou pois as investigações sobre o “suicídio” do casal ainda estavam acontecendo. No dia seguinte o corpo do perito principal fora encontrado pendurado por uma corda no galho mais alto da única árvore do jardim. Enforcado. Suicídio?
   Porém George sentia que seu pai não se suicidara. Estava tudo errado. Os policiais, os jornais. A mãe estava errada, pois ela acreditava e inclusive se culpava. E ele queria descobrir o que realmente acontecera. Finalmente poderia investigar – igual seu pai costumava fazer.
  Desviou o conhecido caminho até a banca e rumou para o casarão. Estava circundado por uma fita de plástico amarelo, onde lia-se “CENA DO CRIME proibida a entrada”. Esperou alguns minutos em silêncios e, como não ouviu barulhos, decidiu entrar. Curvou-se um pouco e passou pela fita amarela.
  Olhou para a árvore. A única do quintal. O galho não estava mais lá. Recolheram para análise no dia da morte. Uma mancha clara de vômito cobria uma pequena porção do chão. George concentrou-se para não chorar. Analisando a árvore, sentiu que as respostas não estavam ali. E sim dentro da casa.
  Não tinha porta. Provavelmente os policias arrancaram-na. Talvez seu pai tinha feito isso. Para o laudo do crime anterior. Num impulso, suas pernas não obedeceram seu cérebro e foram contra seu medo, e o menino correu para dentro da casa. Conforme chegava mais perto, uma força invisível o puxava ainda mais.
  Agora corria o mais rápido que podia, esquecendo de todo o resto. A sombra, os gritos, o medo e até seu pai. Subiu as escadas, tropeçando algumas vezes. A casa era grande, cheia de corredores. Em um momento de lucidez, quase parou. Mas não conseguiu. A força puxava-o cada vez mais, e ele não conseguia parar de correr.
  Corria. Subia escadas e virava vários corredores. Via portas abertas e sombras dentro dos quartos. Ouvia gritos de dor. De alguma forma, sabia que era gritos femininos. Dor da perda. Sabia também que todas as mulheres que gritavam estavam grávidas. Prestes a dar a luz. Via armas, munição, pólvora. Sangue e miolos. Mais sombras, e gritos e sangue e…
  Parou. Estático. Quando voltou à consciência, percebeu que estava num quarto grande. Sem móveis. Vazio. Fechou os olhos e ouviu uma voz.
  – O escolhido… – uma mulher murmurou. Ou eram várias? Não sabia. – Abra os olhos, querido.
  Contrariando sua vontade, abriu-os. Os gritos cessaram.
  – O menino que esperávamos. Finalmente, nosso filho chegou.
  Mulheres de todos os tamanhos e jeitos o olhavam com um ar de urgência, as mãos estendidas para o menino, a expressão de medo e tristeza. De morte. O último grito não dado circundava seus lábios. Mas uma coisa chamava mais a atenção do que qualquer outra: todas elas, sem exceção, tinham um cordão umbilical pendurado em seus ventres. Externamente.
  As mulheres, todas juntas, começaram a mover na direção do menino. Suas mãos estendidas, os cordões como tentáculos, prontos para embalar-lo num abraço maternal de muito esperado.
 Como dizem, a curiosidade matou o gato.
 Ou quase.
 Os transeuntes juram que até hoje – 40 anos depois do último caso de suicídio -, gritos podem ser ouvidos vindos do casarão. Gritos e a voz de uma única criança. Um menino.
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O caso Dellarck (Parte I)

Teria sido um crime comum, como o detetive John Rogers já estava acostumado, no entanto, aquele tinha seu toque especial, era artístico. O corpo da jovem havia sido deixado no jardim da casa do namorado, o que o colocaria como primeiro suspeito, se ele não estivesse morto também. A jovem estava sentada, sorrindo, nua com a barriga cortada formando desenhos surrealistas, assim como o corpo do seu namorado havia sido encontrado ao seu lado. Ambos sorrindo.

– Rogers, enfim você encontrou um caso à sua altura – disse Loren, também detetive, ajeitando seus longos cabelos morenos- Isso é obra de um novo psicopata nessa cidade, olha esses desenhos no corpo deles, essa posição, é como se o assassino…

– Estivesse brincando de boneca? Sim, também percebi- anunciou o perito ao aproximar-se dos corpos.

– Você já falou com a família dos jovens, Loren? – perguntou Rogers

– Sim. A garota é Juliet Prescoll, tem dezessete anos e namora o rapaz ao seu lado, Filipe Franco, que tem dezoito anos. Os familiares estão conversando com a polícia- apontou para a esquerda- Falaram comigo que não conhecem ninguém que faria algo assim com eles.

– Vejam isso – disse Lucke, o perito- Esses desenhos são símbolos, símbolos satânicos, reconheço isso de longe. Rogers, você se lembra…

– Do assassinato de Ruby Dellarck? Sim. Exatamente os mesmos símbolos, mas não pode ser, o assassino foi preso a mais de dez anos.

– Mas o filho não está, não é mesmo? – comentou Loren- Denyel Dellarck foi para um lar adotivo, talvez devêssemos fazer uma visitinha.

– Sim, vamos. Luck, qualquer novidade nos avise.

O Caso Dellarck acontecera em 2005. Uma família comum comemorava o aniversário de oito anos do filho, Denyel, até que o marido começa uma discursão e ataca a esposa. Tudo já tinha sido planejado, o assassinato foi feito para ensinar ao filho como matar, como seguir determinado ritual.

‘’ Eu tinha que matá-la, ela não entendia a história da minha família, não entendia a linhagem Dellarck, tenho que ensinar para o meu filho aos oito anos como manter a história viva.’’ – havia dito antes de ser preso.

O filho, que presenciou tudo, foi enviado para um lar adotivo e teve acompanhamento de diversos psicólogos durante esse período.

Ao chegarem no lar adotivo perguntaram imediatamente sobre o jovem.

– Senhor, infelizmente, o Danyel já foi embora, ele completou dezoito anos ontem. Mas, segundo a faxineira, ele não levou nada daqui, está tudo no quarto dele. – disse a recepcionista

– Obrigada, podemos ir até o quarto?- perguntou Loren- Ele pode ser suspeito por um assassinato e só queremos ver se as informações batem.

– Precisamos ter contato com a Dra. Frescop, ela era a psicóloga dele. – adicionou Rogers.

– Lamento informar que a psicóloga está de férias, mas vocês podem ir no quarto. Não acredito que o loirinho tenha matado alguém, ele é tão frágil e meigo, não seria capaz- disse enquanto entregava a chave do quarto 245.

Subiram dois andares de escada até chegarem no quarto. Quando abriram a porta perceberam o quanto aquele quarto era fora dos padrões. Ele não tinha colegas de quarto, segundo a direção, ele tinha problemas em socializar. As paredes eram da cor de sangue, havia uma estante de revistas e livros, e sem contar nos diversos posters de bandas, mas o que realmente chamava a atenção e Rogers era o quadro cheio de palavras, frases e desenhos.

Eram desenhos surrealistas, frases como: ‘’ A morte está por vir, a história deve se manter viva’’. Havia também fotos negativas, provavelmente de ruas, de pessoas, e também de Juliet.

– Rogers, acho que o nosso pequeno Danyel está seguindo os passos do papai. Veja essa frase- apontou para a parede do outro lado do quarto.

‘’ ELA NÃO ME AMOU, ELA É COMO MINHA MÃE E DEVE MORRER, DEVO MANTER A HISTÓRIA VIVA.’’

– ‘’ manter a história viva’’… nunca imaginei que essa frase voltaria a ser usada. – disse Rogers analisando outros papeis- Temos que encontrá-lo, ele não vai parar.

– Ele matou Juliet porque ela não o amava, então temos o perfil de um garoto de dezoito anos que mata as jovens que não o ‘’amam’’. – comentou Loren- E pelo visto a Juliet não é o único alvo do Sr. Dellarck. Veja essas fotos, não são apenas da Juliet, são outras garotas também.

-Chame a polícia e comunique o fato. Temos que identificar as garotas imediatamente, antes que ele ataque de novo.

Saíram do lar adotivo e comunicaram a polícia.

– Onde um jovem de dezoito anos iria para encontrar essas garotas? – perguntou Rogers no carro enquanto iam até a casa da Juliet.

– Não sei, mas talvez a mãe da Juliet saiba. A jovem deve ter dito aonde ela e as amigas iriam, e sabemos que aqui, cidade pequena, todos vão sempre ao mesmo lugar.

Chegaram a casa da Sra. Prescoll e foram muito bem recebidos, sentaram-se ao sofá e conversaram um pouco com a mãe da Juliet até conseguirem as informações que precisam para continuar a investigação. A jovem havia conhecido Danyel por uma rede social (ele podia usar a internet no lar adotivo), assim com suas amigas, e todos iriam hoje a uma festa no clube Royals.

– Obrigado pela atenção, Sra. Precoll, e desculpe-nos o incomodo. – disse Rogers antes de sair.

– Bom, Loren, acho que hoje vamos em uma festinha.

– Nossa, não vejo a hora!- brincou enquanto ligava o carro.

Publicado por Maria Thereza Chehab em: Agenda | Tags: , ,
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Lua Branca

Cheiro a noite enquanto ela voa ao meu redor.
O ar tem o perfume da lua branca e então continuamos casados.
Nós estamos nos jardins da Morte.

*rumanesk.wordpress.com

Publicado por dracula rumanesk em: Agenda | Tags: , , , , ,

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