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conto da noiteO Conto da Noite
Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

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2

A casa dos espelhos – Parte 3.1

chapeleiro

Autor: Sombra Posthuman

 

– Deus te ama, Alice. – Acordei com Oneiros na minha frente. – Você estava certa, se eu amo cada indivíduo que conheço, o que dirá Deus, que está dentro de todos nós! Impossível seria não nos amar!

– Bom dia pra você também!

– Esse é o segredo de seu poder infinito, a essência de tudo é o amor!

– Deus também te ama, Oneiros!

– Eu sei. A propósito, desculpe por tudo aquilo o que eu disse no funeral.

– Tudo bem, eu entendo que eu tenho sido muito inconveniente para vocês.

– Não, Alice, você não é nenhum inconveniente, e eu fui muito cruel com você, realmente sinto muito.

Sem pensar, me aproximei e beijei seus lábios devagar. Ele não disse nada. Fomos tomar café.

– Oneiros, eu estou morta?

Ele fez uma cara de surpreso.

– Não sei, está?

– Uma mulher no cemitério disse que estou.

– Você devia procurá-la, talvez ela saiba algo sobre o que aconteceu com você.

– Mas eu não sei nem mesmo seu nome!

– Gostei da sua nova cor.

Só então percebi que estava com minha cor normal novamente.

Passei a manhã ajudando Helena nos afazeres de casa. Mesmo achando errado o que ela fez com o bebê, sinto como se tivesse uma grande dívida para com ela. Depois do almoço, Oneiros disse:

– Vamos ao teatro? – Ao que respondi:

– Em plena segunda-feira?

– Por que, é proibido?

E fomos todos. A peça se passava em um mundo onde o aborto era proibido. Havia duas amigas, Jarilene e Jéssica. Jarilene era pobre e Jéssica era rica. A jovem pobre era a sétima de doze irmãos, que a mãe solteira não tinha condições para criar. Dois de seus irmãos mais velhos se tornaram criminosos, e o outro, viciado. Uma de suas irmãs foi morar com um traficante e apanhava frequentemente, outra estava devendo aos traficantes e acabou se prostituindo para sustentar o vício, e a outra havia sido jogada no lixo quando nasceu. Um dos criminosos e o viciado morreram, e a mulher de traficante foi presa. Seus irmãos mais novos faziam as tarefas de casa ou vendiam bala na rua. Nenhum deles estudava. Jarilene tinha uma filha, que abandonou na casa da tia e alguns anos depois acabou sumindo. Jéssica engravidou por acidente e, com medo de que aquilo fosse arruinar sua carreira, resolveu pagar caro a um médico para abortar. Mais tarde, Jarilene engravidou novamente e não queria que seu filho tivesse o mesmo destino de sua outra filha ou de um de seus irmãos. Resolveu, então, seguir o exemplo da amiga. Mas ela não tinha dinheiro para pagar o médico que ajudou Jéssica, e seguiu o método aconselhado pela tia. O aborto não saiu como o planejado e Jarilene acabou morrendo.

Parecia que a peça tinha sido escrita para mim, é claro que ela falava sobre o meu mundo! Perguntei a Oneiros quem era o autor da peça, seja quem fosse, conhecia o meu mundo.

– Gulliver Swift.

– Como eu posso encontrá-lo?

– É só ir ao cemitério da cidade.

– Ele está morto?

– Há muito tempo, ele foi professor do velho Tirésias.

– Tirésias… devia saber que tinha alguma coisa a ver com ele.

À noite fui até o cemitério procurar aquela mulher. Andei, andei e não encontrei, encontrei apenas o túmulo de Gulliver Swift.

Na terça e na quarta eu fui até a praça, mas desta vez, não para ensinar, e sim para aprender. Por que eles adoram símbolos sexuais? Porque sexo é vida, é o poder do ser humano de criar vida. É também a comunhão carnal entre dois seres, na qual um proporciona prazer intenso ao outro. O sexo é, realmente, algo muito bonito! Mais descobertas sobre esta sociedade: crimes aqui não são punidos. Cada um deve ser seu próprio juiz e carrasco. Aqui não existem direitos autorais, toda informação e cultura pertencem a todos, podendo ser acessada e reproduzida livremente. Todas as profissões são igualmente importantes. Perguntei:

– Por que eu iria me tornar uma médica se posso servir cafezinho? – Anne, a mulher politizada, respondeu:

– Um médico sempre poderá servir cafezinhos, mas a pessoa que escolher servir o café pode salvar vidas?

Mas, na verdade, qualquer um pode salvar uma vida, não é? Prostituição aqui não existe, claro! As pessoas só trocam sexo por sexo. Drogas têm, mas ainda não vi nenhum viciado. Comecei a aceitar a ideia de que talvez nunca saísse dali, talvez nunca voltasse pro meu mundo. “Aqui não existem freiras, então o que eu sou? Apenas uma pessoa estranha.”

Cheguei cedo a casa, não havia ninguém, só a Branquinha. Tive uma vontade de comer frango! Olhei praquela galinha, ela olhou pra mim, eu peguei a faca e disse:

– Eu vou matar você!

Ela saiu correndo pelo quintal. Foi difícil, mas eu a peguei, e ela começou a gritar.

– Não, por favor, eu sou inocente!

– Ninguém é inocente!

– Poupe minha vida e eu farei o que quiser!

– O que eu quiser, humm… eu sei o que eu quero. Comer frango assado!

Uma vez eu ouvi dizer que se você tiver pena da galinha, ela não morre, ela não precisa de pena, já tem muitas. “Por pouco tempo…” A lâmina afiada desceu sobre o fino pescoço da ave, separando a carne como se fosse manteiga. Trabalho com convicção, trabalho bem feito, o sangue jorrou, a cabeça escandalosa rolou pelo chão. O corpo da galinha saiu correndo sem rumo, e eu fiquei imaginando a Branquinha saindo do forno.

– Você arrancou minha cabeça, sua assassina!

– Cala a boca, Branquinha! Galinhas mortas não falam!

O almoço foi ótimo! Dália estava brincando com um carrinho e nem deu falta da branquinha.

– A comida tava boa, Dália? – Ela fez que sim com a cabeça.

– O último desejo da Branquinha foi que nós a comêssemos, então eu fiz questão de preparar um ótimo frango assado.

Ela, então se deu conta da falta da galinha:

– Cadê a Branquinha?

E Helena respondeu:

– Você acabou de comer, Dália.

– Eu comi?

– Sim.

– Mas eu quero brincar com ela!

– Não dá, minha filha, ela está dentro da sua barriguinha agora.

Dália ficou olhando e mexendo na barriga, confusa.

Oneiros chegou e falou para ela:

– Meu amor, não fique triste, eu tenho aqui uma nova amiga pra você.

Levantou a camisa e tirou um frango de borracha.

– Mas essa é de mentira!

– Mas ela faz barulho, olha!

Apertou a galinha e ela fez um barulho. Dália ficou olhando meio inconformada e eu lhe disse:

– Dê um nome pra ela.

Ela pensou e respondeu:

– Alice.

Perguntei a Oneiros de onde ele tinha tirado aquela galinha e ele disse:

– É só você desejar muito uma coisa, que ela aparece.

Engraçadinho…

Quinta-feira, de manhã, fomos ao cemitério inaugurar a lápide do filho de Helena que não nasceu, ou melhor, filha, era uma menina. Um homem horrível e deformado havia preparado a lápide. Helena levou flores e Oneiros disse:

– Vamos fazer uma visita ao mundo dos mortos.

– Sim, nós vamos meditar e viajar para o reino dos espíritos. Existe alguém que você gostaria de ver? – perguntou Helena

– Sim, minha mãe. – respondi.

– Então concentre-se na sua mãe. Xaninha, tome conta da Dália.

-Ah! – respondeu aborrecida.

Eles acenderam um incenso e começaram a meditar. Eu me sentei e me juntei a eles. O silêncio e o cheiro do incenso me fizeram viajar… Que tipo de incenso era aquele? Eu entrei em transe… Estava debaixo d’água. Nadei até a superfície, estava num lago. Havia pessoas nas margens. Nadei até elas. Um homem de roupas brancas e asas de penas brancas me recebeu:

– Estávamos esperando por você, Alice.

– Um anjo!

– Precisamos secar você, Alice, você ainda está molhada. Este é o reino dos mortos, você só poderá caminhar livremente por aqui quando estiver totalmente seca. Relaxe…

Ele estendeu as mãos sobre mim, eu fechei os olhos e me lembrei das palavras de Oneiros: “Concentre-se na sua mãe.” Senti um calor emanando das mãos do anjo, ele estava me secando. De repente, uma onda me engoliu e me levou de volta para o lago. E lago tem onda? Bem, esse tinha. A correnteza me levou para longe da margem e continuou me levando para Deus sabe onde. Eis que vi na margem uma cena muito estranha. Uma criatura meio mulher, meio pássaro coloca um bebê dentro do lago. Comecei a me sentir pesada e afundei, Não consegui respirar, então apaguei.

Acordei na minha cama, no convento.

– Eu estou de volta! Meu Deus, que sonho louco eu tive!

Saí do quarto e caminhei pelos corredores do convento em busca de algum rosto familiar, mas não encontrei ninguém. O lugar parecia estranhamente vazio. Ouvi uma voz na cozinha:

– Pobre irmã, tão jovem!

Segui a voz e encontrei a Irmã Clara falando com a Irmã Flávia.

– Olá, irmãs!

Elas não responderam. A Irmã Flávia disse à Lara:

– Mais um acidente de trânsito, devemos orar por essas ruas, esses motoristas…

– Irmã Flávia, eu estou aqui!

Ela me ignorou completamente, como se não pudesse me ver nem me ouvir, e a mesma coisa fez Clara.

Madre Celina chegou à cozinha.

– O que estão fazendo aqui na cozinha? Vamos logo! Chega de fofoca e vamos ao trabalho!

Eu segui as três e encontrei uma freira desconhecida no corredor com um sorriso amarelo. Ela estava parada, como se fosse uma estátua. Ao olhar bem de perto, percebi que estava usando uma máscara. Eu comecei a puxá-la e ela foi descolando do rosto da freira, esticando uma coisa pegajosa. Por trás da máscara não havia nada, não havia rosto, apenas uma superfície lisa de pele.

“Sabe de uma coisa? Eu não sinto a menor falta do convento!”, pensei. Joguei a máscara no chão e saí pela rua sem rumo, até que encontrei novamente aquela casa misteriosa. Entrei e comecei a examinar as coisas, mas ouvi um barulho no quarto. Fui verificar, era a mulher do cemitério. Ela estava sentada na cama, olhando um porta-retrato. Quando me viu, levou um susto e colocou-o sobre a cama, virado para baixo.

– Você de novo!

– Sim, você mora aqui?

– Moro.

– Qual é o seu nome?

– Você não se lembra?

– Não, eu conheço você?

– Meu nome é Vanessa.

– De onde você me conhece, Vanessa?

– O que importa, você está morta agora!

– Eu não estou morta. As pessoas falam comigo, eu como, eu durmo!

– Eu falo com você porque eu vejo pessoas mortas. E qualquer outra pessoa também pode ver, se quiser. O resto, você está imaginando.

– Como eu posso te provar que estou viva?

Ela se aproximou e tentou tocar minha mão, mas sua carne atravessou a minha.

– Está vendo? Não posso te tocar.

– Mas isso é porque eu estou fazendo uma viagem astral, meu corpo está no cemitério.

– Exatamente. Agora você entendeu. Me deixa em paz!

Virou-se e foi embora. “Ah, essa mulher tá doida, eu sei que estou viva” pensei eu. Ela havia deixado o porta-retrato em cima da cama, resolvi olhar a foto que ela estava admirando. Para minha surpresa, vi um rosto conhecido. Oneiros! Era ele que estava no porta-retrato! Qual seria a relação que essa Vanessa tinha com Oneiros?

Ah, estava cansada, hora de voltar, minha viagem acabara. Eu estava deitada, mas não conseguia abrir os olhos! Não conseguia mover um músculo! Gritei desesperada e vi que estava no cemitério, sentada, exatamente onde estava quando tudo começou. Xaninha, Dália e o homem horrível estavam olhando para mim, espantados. Xaninha disse:

– Alguém viajou bem longe!

Oneiros e Helena ainda estavam em transe. Xaninha olhou para uma jovem muito pálida deitada nua sobre uma mesa. Era uma jovem muito bonita e estava morta. Ela me lembrava muito uma prima minha que eu não via há muito tempo, só que com algumas características de lebre, como orelhas e focinho. Não me lembrava bem dela, o meu passado era muito nebuloso na minha mente, há quanto tempo era assim? Eu me questionei se o meu passado já era assim nebuloso antes de eu chegar àquele lugar, ou se aquele mundo estranho estava me fazendo esquecer o meu.

– Se deu bem, hein, Solfieri! – disse Xaninha para o homem e ele sorriu. Ele vestia um paletó velho e uma cartola com um papel onde se lia 10/6. Fitou o cadáver e mostrou novamente seus dentes podres. Acariciou o rosto da jovem, acariciou seus seios.

– O que está fazendo? Não tem respeito pelos mortos? – perguntei.

– Respeito? Sim. Seria falta de respeito enterrar uma coisinha tão linda assim…

– Ora, Alice, no seu mundo, vocês não aproveitam os corpos dos mortos? É como diz o ditado: sempre existe um sapato velho pra um pé descalço.

– Doar órgãos é uma coisa, mas isso é monstruoso! Por que alguém iria ter relações sexuais com um cadáver?

– E quem iria ter relações sexuais com ele? Você? Oh, Alice, todo mundo precisa de sexo! Deixe o homem em paz! Pra que mais iria servir aquele monte de carne morta? Esse é o único prazer que o velho tem na vida!

– Oh, pobre jovem! O que a família faria se soubesse!

Xaninha fez cara de entediada. O homem beijou a boca da jovem e tocou suas partes íntimas. Eu havia prometido que iria observar e aprender sobre esse povo, mas havia coisas com as quais não podia concordar. E eu não seria melhor que ele se permitisse essa monstruosidade! O velho Solfieri deitou sobre a moça e começou a beijar seus seios. Eu precisava fazer algo! Olhei para Oneiros, ele ainda estava meditando e, pensando bem, duvidei de que ele faria alguma coisa para interferir no estupro. O coveiro lambeu a pele da jovem e tocou a sua vulva.

– Pare! Tire as mãos dela! – Ao que o velho riu.

– Hahahaha! Você não é deste mundo, garota?

Aquilo me surpreendeu. Ele saiu de cima da moça e veio em minha direção.

– Eu também não. Mas aqui não há nada que você possa fazer pra me impedir! Ou você estaria disposta a me servir no lugar dela?

– Nem pense em tocar em mim, seu… seu necrófilo!

– Hihihihi. É uma pena! Há muitos anos eu não sei o que é o calor humano. – voltou para a jovem: – Mas não importa! Eu tenho aqui o que eu preciso. – disse, acariciando o rosto da garota.

Subiu novamente sobre seu corpo e colocou a mão dentro da calça. Virei o rosto para o outro lado e pensei em ir embora, mas não podia conviver com aquilo.

– Espere! Eu, no meu dever de cristã, não posso permitir que faça uma coisa dessas!

– Não vai ser a primeira vez, nem a última.

– Não importa, pelo menos eu estarei fazendo a minha parte. Além do mais, ela me lembra alguém importante pra mim… Pode fazer o que quiser comigo.

Solfieri deu um grande sorriso cheio de dentes podres.

– Ótimo! Trato feito! Você vai se acostumar logo com este mundo.

Ele acariciou meu rosto e, em seguida, tocou meu seio.

– Não.

Tirei sua mão de mim e olhei para Xaninha e Dália.

– Não na frente das garotas.

– Como quiser, milady.

Xaninha me olhou com um olhar de nojo. Dália agarrou a galinha com força e observou com os olhos arregalados e uma expressão de curiosidade. O coveiro abriu a porta de um casebre e fez sinal pra que eu entrasse. Minha pureza pela pureza da jovem morta, que provavelmente nem era tão pura, uma troca justa? Eu pensei que aquele rapaz do lago fosse do meu mundo e que, juntos, talvez pudéssemos descobrir um meio de voltar, mas estava enganada. Finalmente eu havia encontrado alguém que não era daqui, mas em que circunstâncias! Enquanto andamos, ele disse:

– Finalmente encontrei alguém do outro mundo além de mim!

– Você está aqui há quanto tempo?

– Eu não sei dizer, há alguns anos.

Chegamos ao seu quarto e ele se sentou na cama e fez sinal para que eu também me sentasse.

Podemos ser amigos, quem sabe, até mais.

– Faça logo o que precisa fazer!

– Sem nem conversar? Sem um chazinho, um vinhozinho? Não, eu esperei muito tempo pra permitir que seja assim, tão rápido! Sabe, eu nem sempre fui assim tão feio.

– Eu não estou interessada em ouvir a sua história! E não importa o que você faça, eu não vou ficar à vontade.

– Ah, mas vai ouvir! Você disse que eu podia fazer o que eu quisesse, então vamos conversar. Você não vai embora assim, tão cedo.

Ele pegou um vinho e duas taças e me deu uma delas.

– Eu não quero beber.

– Se você não cooperar, eu serei forçado a repensar nosso trato.

Peguei a taça e ele encheu as duas de vinho.

– Um brinde ao encontro dos perdidos.

Eu bebi e ele sorriu satisfeito. O vinho até que era bom.

– Antes de vir pra cá, eu era um homem normal. Mas eu sempre fui coveiro. Vou te contar sobre o meu primeiro amor.

Bianca era o seu nome. Ela era jovem, mas tinha pernas grossas e seios fartos. Tinha um rosto redondo, cabelos cacheados e um lindo sorriso. Mil homens caíam aos seus pés, mas ela não dava atenção a ninguém. Bianca só pensava em seu trabalho: lavar roupa para os mais bem afortunados, cuidar da casa e do irmão. Recebia cantadas de homens casados, homens de dinheiro, que prometiam lhe dar uma vida melhor. Mas a moça não tinha olhos para homem nenhum. Seus pais haviam morrido e a deixaram com um irmão pequeno. Ela teve que dar o seu jeito pra sobreviver e sustentar o irmão.

Eu a observava sempre e contava os minutos para vê-la levar as roupas. Tinha raiva de todos aqueles homens, ela ainda seria minha e de mais ninguém. Um dia eu lhe dei uma flor, ela sorriu e disse: “Você é um homem gentil, mas não tem ambição. Eu sonho um dia mudar de vida e você devia fazer o mesmo.” Ela nem sequer sabia meu nome, nem sabia que eu a observava. Mas eu precisava tê-la, estava obcecado.

Um dia eu disse a ela: “Eu vou arranjar dinheiro, muito dinheiro, e você casa comigo e vamos pra um lugar melhor que este.” E ela respondeu: “Dinheiro não é tudo. Vê o Senhor Pereira, ele tem muito dinheiro e vive só, mas eu não me junto com ele. Dinheiro é muito importante sim, mas existe coisa mais importante: dignidade. Foi o que minha mãe me ensinou, que Deus a tenha, e eu um dia vou ter uma máquina de costura e vou ter uma vida digna. Mas vou conquistar tudo com o meu próprio esforço.”

Eu não sabia o que fazer pra ter aquela mulher. Mas ela precisava ser minha, e se dinheiro não a conquistava, o que conquistaria? Numa manhã quente de verão, ela carregava as trouxas debaixo do sol, quando fui falar com ela. Bianca me contou que tinha achado nas coisas da mãe umas fotos com os irmãos do Rio de Janeiro, com os nomes deles anotados. Disse que resolveu que ia procurar por eles, que eles eram sua família e iriam ajudar a cuidar de seu irmão, que andava fraco e doente.

Os dias passaram, veio a chuva e o frio e eu já não tinha mais esperanças de conquistar a minha musa. O tempo passou e eu parei de vê-la. Imaginei que ela tinha ido para o Rio em busca de seus tios. Mas um dia, fui trabalhar e lá estava ela, em cima da mesa, deitada com duas moedas sobre os olhos. O patrão disse que foi pneumonia, que o irmão disse que ela já estava doente havia uma semana. Morreu tão jovem… Ele disse que ia se livrar do corpo no dia seguinte. Não havia quem pagasse seu enterro, ninguém quis se comprometer, e o senhor Pereira já tinha desistido dela e voltado para Portugal.

Anoiteceu e estávamos na sala, ela e eu. Nós iríamos passar a noite juntos, como eu sempre sonhei, mas ela estava morta. Aquele corpo maravilhoso deitado sobre a mesa, frio e pálido. Peguei as moedas dos seus olhos e disse: “Talvez essas moedas possam pagar o barqueiro, mas não dão para pagar um enterro. Mas para o meu espanto, ela abriu os olhos e respondeu: “Não! Por favor, não deixe que sumam com o meu corpo! Se algum dia você sentiu alguma coisa por mim, isto é tudo o que te peço! Me dê um enterro digno!” E eu respondi: “Cale a boca, mulher! Você está morta! E mortos não falam! Será que estou ficando louco?” Mas ela continuou: “Não seja tão cruel! Eu sempre fui honesta e trabalhadora, não estou pedindo demais!” Ao que eu respondi: “Você disse que dinheiro não era tudo, que mais importante era a dignidade, mas onde está a sua dignidade agora? É preciso ter dinheiro para ter dignidade!” Uma lágrima de sangue escorreu de seu olho e ela disse: “Dinheiro eu não tenho, nunca tive, mas posso te oferecer tudo o que tenho, meu corpo frio e pálido.” – E me mostrou seu seio nu, tão lindo e firme. Então eu a despi, como já tinha feito com muitos outros corpos. O que um morto tem para negociar a não ser seu próprio corpo? Que corpo magnífico tinha aquela mulher! Enquanto a admirava e a tocava, notei que tinha morrido virgem.

Na manhã seguinte, antes do sol nascer, eu já a havia enterrado. Enterrado no sentido literal, eu quis dizer. Ela pediu para enterrar e eu enterrei. Hehehehe. Mas só no sentido literal. Eu não fiz sexo com ela. E sobre seu túmulo, coloquei uma lápide, onde se lê: “Aqui jaz Bianca. Viveu e morreu com dignidade.”

– Você é doente! Quer que eu acredite que não tocou nela?!

– Eu não disse que não toquei nela.

A essa altura, Solfieri já havia bebido bastante, eu parei logo no início.

– Agora por que não me conta um pouco de você?

– Eu não tenho nada pra contar, e também não tenho o dia todo! Vamos, termine logo com isso!

– Você não aguenta mais esperar, não é? Se é isso o que você quer, eu vou te dar o que tanto pede!

Publicado por Sombra Posthuman em: Agenda | Tags: , , , , , , ,
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Carne II – Ossos do Ofício – Final

Escritor: Sombra Posthuman

Ukobach

Ukobach

 

Esta publicação é continuação de Carne I – Esqueletos no Armário e Carne II – Ossos do Ofício – Parte 1 e é recomendada para maiores de 18 anos.

Blood on her skin
Dripping with sin
Do it again
Living Dead Girl
Blood on her skin
Dripping with sin
Do it again
Living Dead Girl

Bem longe dali, Elisa algema os pulsos de Leandro à cabeceira e os pés aos pés da cama.

(more…)

Publicado por Sombra Posthuman em: Agenda | Tags: , , , , , , , , , , , , , , ,
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Diante de Ti

Escritor: Franz Lima

diante-de-ti

Estamos finalmente um diante do outro. Há anos esperamos por tal   oportunidade, em que as dúvidas seriam postas de lado e a mentira extirpada de nosso coração, onde ela já semeou a discórdia.

Nosso amor era tão belo e sólido. Mas a beleza de uma mesa encoberta por  uma  bela   toalha  acaba  se  esvaecendo, quando, ao retirarmos a toalha, verificamos que os cupins já a destruíram silenciosamente.

Eu olho para sua face. Há beleza nela. Há uma paz desconhecida para mim.
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