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Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

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Almoço fast-food

5973294420_088df0b9a2_zSeu Alcides entrou no flat desviando o olhar, um tanto quando encabulado, e carregando uma maletinha dessas de executivo. Tirou um envelope do bolso e agitou com a mão. “Olá baby…pode deixar isso aí em cima da mesinha.” “Oi….boa tarde…..posso ir no banheiro?” “Claro, fica ali.” Ele abriu a maletinha e tirou dois saquinhos zip locks. “Você pode vestir isso?” “Adoro fantasias amor. Tenho vários brinquedinhos aqui também.” Seu Alcides entrou no banheiro e abriu sua maletinha como um estojo de figurino. Antes de qualquer coisa tirou a aliança, colocou num saquinho zip lock desses pequenos e guardou a jóia no bolso de dentro do paletó. Pegou dois cabides, um para pendurar o terno e a calça e outro para a camisa e a gravata. Se despiu com cuidado para não amassar a roupa, removeu as toalhas de dois suportes que estavam atrás da porta, entulhou-as no terceiro e pendurou seus cabides com cuidado. Olhou no espelho, ergueu as mão para o céu e fez uma oração. Então começou a se preparar. Primeiro se maquiou espalhafatosamente. Batom, lápis no olho e pó de arroz. Em seguida colocou uma calcinha com cinta liga, meia três quartos e uma saia. Vestiu uma camisetinha branca apertada, um lenço no pescoço e saiu do banheiro carregando um consolo numa mão e um tubo de ky na outra. Sheilla já estava preparada deitada na cama. Usava um vestido preto, de mangas compridas, um pouco acima do joelho e uma meia calça. No peito um pequeno crucifixo de metal, um véu preto com elástico branco na cabeça e um chicotinho de couro na mão.

Aquela putaria toda na hora do almoço fazia Seu Alcides se sentir o Deus do mundo. Sem nenhum minuto de atraso, e sem nenhuma suspeita, às 13:30 em ponto ele estava sentado em sua sala no escritório contábil Estoril. Eram uma dúzia de mesas alinhadas no terceiro andar do edifício Mega Rich Tower. Cada uma com um computador, um telefone e quilos de papéis espalhados. De acordo com o senso comum estabelecido por ele quem não está focado no um, e/ou falando com alguém no dois, está enrolando. Depois de duas dezenas de anos dedicados à causa Seu Alcides era o dono da razão e da empresa. Sua conduta de legalista e implacável faziam dele o monstro mais temível de todo universo para quem dependia de sua benção para continuar pagando as contas no fim do mês. Sempre chegava meia hora antes que os funcionários de manhã e achava que quem cobrava o pagamento de hora extra não dava o devido valor ao emprego. Era sempre o último a sair. “Dona Suzana, com o rendimento que o seu departamento teve nos últimos dias o que a Senhora vai falar na reunião sobre produtividade?” Tudo que Suzana entendia era que estava no bico do corvo. “Esse mês está difícil, muitas empresas estão fechando Seu Alcides. Quase ninguém alcançou as metas.” Nos ouvidos de Seu Alcides isso soava como desculpa de aleijado é muleta.  “E se dependermos de pessoas com o pensamento da Senhora nós seremos os próximos. A Senhora já perdeu sete clientes este mês e repôs apenas um. Preciso de mais trabalho e menos desculpas. Cobre mais de sua equipe e se esforce mais também.” Na sua cartilha isso significava faça mais do que deve e se sinta feliz por isso. “Sim, senhor.” Suzana saiu com a certeza de que em breve seria uma desempregada.

Enquanto revisava alguns relatórios Seu Alcides relembrava das cenas do encontro com a madre superiora. Calculando quanto da piroca de Sheilla que ele conseguiu enfiar na boca concluiu que ela devia ter pelo menos 20cm. Era a maior piroca que ele já tinha visto. Os peitões dela eram uma delícia e não tinham gosto de plástico como os da Lana, nem eram caídos e moles como os da Gabrielle. Se sair com o mesmo travesti duas vezes não fosse tão arriscado para sua reputação Seu Alcides com certeza voltaria no flat da Sheilla de novo no fim da tarde. Seus pensamentos foram interrompidos pelo telefone. “Sim, Dona Luiza.” “O Dr. Ricardo está na linha dois.” “Pode passar.” “Seu Alcides?” “Boa tarde, Dr. Ricardo.” “Boa tarde, como está o Senhor?” “Estou bem, e o Senhor?” “Também, obrigado. Seu Alcides, eu não recebi as guias de recolhimento de impostos desse mês. O Senhor sabe como gosto de manter tudo organizado por aqui, e já é dia 12. Transferi o dinheiro no dia 5 como todo mês mas as guias não chegaram. O Senhor pode ver isso para mim?” “Claro que sim. Desculpe-nos, isso não pode acontecer.” Cinco minutos depois Paulo estava tremendo como vara verde na frente do chefe. “Mas Seu Paulo, como assim essas guias se perderam? Isso não existe.” “Desculpe Seu Alcides, talvez o office boy tenha esquecido elas no caixa do banco ou o caixa esqueceu de entregar para ele. Já solicitamos as segundas vias e até amanhã deve estar tudo com o Dr. Ricardo. Eu também já conversei com ele.” “Conversou o que, Senhor Paulo? Então porque ele me ligou?” “……..” “De qual você está falando? Daquele novo que vem trabalhar de boné e bermuda?” “Sim, senhor.” “Diga para esse moleque que qualquer hora dessas eu vou fazer ele ter que esquecer de vir trabalhar.”

Toda vez que ele se mexia na cadeira, e uma dorzinha na bunda lembrava Seu Alcides daquela pirocar enorme entrando e saindo freneticamente, seu pau ficava duro como uma pedra. Com medo de dar algum sinal de prazer, ele encarava Dona Luiza com um desprezo que beirava o insulto enquanto ela falava. “Aqui estão os relatórios de produtividade que o Senhor pediu da Suzana e do Paulo. A Dona Ana já está sob aviso no RH também e pediu para avisar que é melhor esperar o período de experiência do office boy acabar para mandar ele embora.” “Só isso, Dona Luiza?” “A Dona Kátia mandou pedir para Senhor passar na padaria e pegar umas coisas pro lanche antes de ir para casa, e de pegar pão integral para o Jorginho. Ela também mandou avisar que chamou o sogro e a sogra do Senhor para o lanche, para o Senhor não chegar tarde.” “Pelo amor de Deus Dona Luiza, é só isso?” “Sim, Senhor.” “Então pode ir. Até amanhã.” Já passava das 20h quando Suzana passou na sala dele e avisou que era a última a sair.

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E se…..?

Imagem | Antimidia

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Maria poderia ter saído de casa com 18 anos para fazer faculdade de direito no interior. Lá conheceria José, João e Gabriela. Juntos passariam por emoções e decepções que iriam marcar suas vidas. Descobririam tudo que se poderia saber sobre sexo, drogas e Rock’n Roll. Graças a uma empatia explicável apenas pelos fatos de estarem na mesma classe, no mesmo ano e com a mesma idade, montariam uma República, onde todos aprenderiam como conviver com as diferenças alheias, além de aprimorarem suas habilidades em lavar louça, cozinhar, limpar banheiro. Ela se apaixonaria por João, com quem namoraria por algum tempo antes de descobrir que, na verdade, João vinha de uma família tradicional que o havia convencido que lugar de mulher é em casa, cuidando do marido. Depois de muito chorar pela descoberta de um cretino João se aventuraria com Gabriela na busca de novos sabores.

Ainda no primeiro ano Maria entraria para o grupo de estudos aristotélicos e o Coletivo de Advogados Culturais. Descobriria anos mais tarde que o professor que orientava as discussões no grupo poderia ser seu orientador no mestrado. Também entenderia que as leis não são feitas para proteger as pessoas, e sim para proteger o sistema delas. Através do Coletivo teve contato com Mateus, um escritor de contos que estaria processando uma emissora de televisão que tinha usado um texto seu como argumento para uma novela. Mais uma vez se veria enterrada no poço sem fundo do amor. Seu novo namorado faria Maria conhecer os prazeres de Ovídio, passaria horas ouvindo o Bolero de Ravel com ele e finalmente entenderia que o sentido da arte abstrata é uma emoção que esta além dos signos. Frequentaria restaurantes e conheceria artistas que jamais imaginou ter algum contato. Se sentiria tão vislumbrada pela arte, e o estilo de vida que ela proporciona, que até pensaria em largar a faculdade de direito. Primeiro para ser artista plástica, depois apostaria na carreira de atriz, e no fim optaria pela independência que havia conquistado através da bolsa na faculdade às incertezas da vida de artista. Foi mais ou menos na mesma época que percebeu que o mundo em que Mateus vivia jamais seria o dela, e novamente se sentiria sozinha na busca de um sentido para a vida.

No fim do terceiro ano decidiria que iria ser juíza no Superior Tribunal de Justiça. Deixaria de morar em Repúblicas para ter seu próprio espaço, onde organizaria melhor as coisas e poderia aproveitar mais o tempo para estudar. Por obrigatoriedade acadêmica começaria a fazer estágio numa delegacia de polícia. Lá lutaria, bravo e inutilmente, contra um sistema que marginaliza cidadãos segundo sua origem, profissão, entre outros absurdos. Maria defenderia vagabundos, traficantes e pais de família contra as injustiças promovidas pela justiça. Seria quando se veria pela segunda vez em crise com a profissão de advogada. Cancelaria o projeto de ser juíza e o mestrado para, após o fim da faculdade, ter um ano sabático mochilando pela América do Sul. Faria o caminho da morte pelas estradas e trens da Bolívia até Machu Picchu, procuraria as tartarugas gigantes de Galápagos, veria a Cordilheira dos Andes como uma paisagem que jamais imaginou fora do cinema, chegaria a Patagônia com um fascinante brilho no olhar e cheia de confiança para recomeçar tudo como psicóloga. Ia querer entender as pessoas e realmente fazer a diferença em suas vidas. Continuaria a viver de bolsa e faria outra faculdade. Tomaria mais cuidados com as amizades e iria morar sozinha. Teria um caso com Ederson, do mestrado de letras, e sofreria de paixão por Valéria, uma garota mais nova de sua classe que ainda acreditava no poliamor.

Focada como nunca em atuar como psicóloga em zonas de guerra aprenderia inglês e francês para poder fazer parte da Cruz Vermelha. Mudaria de ideia antes do fim do segundo ano ao embarcar para um longínquo e quase perdido vilarejo no meio da Amazônia com o Projeto Rondom. Pensaria que primeiro era preciso mudar ela mesma para depois mudar o mundo. Para isso Maria precisaria se conhecer melhor. Entraria num grupo de estudos foucaultiano e começaria a fazer Yoga. O resultado natural seria uma aproximação com Ederson, que era praticante de técnicas de meditação, e o controle do sofrimento com Valéria. Cansada de viver de bolsa se lembraria do seu diploma, tiraria a carteirinha da Ordem dos Advogados do Brasil e começaria a advogar. No começo seriam apenas os casos designados pela Ordem como defensora pública, mas seu amplo conhecimento das leis, e seu profundo saber aristotélico da retórica, fariam ela se destacar entre seus pares facilmente. Antes do fim da segunda faculdade já estaria envolta em diversas propostas para se juntar aos mais prestigiados escritórios da cidade.

Por fim, o curso de psicologia lhe daria o equilíbrio necessário para lidar com as piores situações possíveis. Ficaria famosa por defender um pai e uma mãe do assassinato dos filhos por afogamento. Conseguiria uma pena branda num hospital psiquiátrico para os dois, alegando que a crescente pressão exercida pela sociedade para que eles fossem uma família de comercial de margarina havia os levados a um estado de surto incontrolável. Quando Ederson terminasse o doutorado os dois decidiriam morar juntos. No começo ele iria morar na casa dela, que teria muito mais estrutura. Mas isso seria por pouco tempo. Os dois se dariam tão bem que rapidamente comprariam um apartamento no centro da cidade, para ela ficar mais perto do escritório e do fórum. Planejariam o primeiro filho, que se chamaria Arnaldo, mas a segunda, Camila, viria por um descuido do amor. Se mudariam para uma casa com mais espaço e um pouco de grama para as crianças. Viveriam bem até a primeira crise financeira da família, que seria quando o escritório onde ela era sócia perderia uma série de causas trabalhistas e quase iria a falência, ao mesmo tempo que ele seria demitido da faculdade onde dava aulas por discordar abertamente do governo. Ele arrumaria aulas em outro lugar, e ela passaria num concurso público de promotora, e depois de uns dois anos patinando a vida seguiria no rumo do e eles foram felizes para sempre…….ou não. Mas Maria se casou com Manuel, para não sair da casa dos pais brigada, e foi trabalhar como caixa de supermercado.

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All Star #44

Imagem | Antimidia

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Já faz um tempo que descobri que estudar não é fundamental para terminar o colégio. Só precisa estar lá no dia-a-dia e fazer uma prova que quase sempre é coletiva. A escola não quer reprovar ninguém e os pais dos alunos não querem os filhos reprovados. Isso basta. Então, como diz o Gabriel Pensador, gosto de pensar que estou usando este tempo para aprender a viver. Não é fácil com um monte de gente dizendo que tudo é importante todo tempo, mas é agradável quando a Júlia vem conversar sobre qualquer coisa. “Você tem um cigarro pra mim fumar no intervalo?” “Mas você não fuma…” “Estou começando. Ontem fumei um com a Alina e o Enrolado. Hoje queria fumar com você no intervalo.” “Você que sabe, mas acho que isso não é legal.” “Por favor, não venha você, que fuma quase um maço por dia, dizer que fumar faz mal e blá blá blá…” “Nunca disse que me orgulho.” Ela me olhou com aquele sorriso de ironia, um pouco envergonhada. As borboletas estralaram por todo o meu estômago e gritaram em coro: “ela quer ficar sozinha com você idiota!” Um contido eu murmurou: “vamos no fundo da garagem dos ônibus então?” “Legal, vou falar com a Alina e o Enrolado também.” E as borboletas voltaram a ser lagartas parasitas que roubavam toda minha coragem de dizer para ela tudo que eu queria.

Fumar escondido no corredor entre os dois ônibus que ficavam na garagem era como sentir a liberdade inflando os pulmões. “Ontem, escutando National anthem conclui que Radiohead é pura arte.” Na verdade tinha passado a tarde de ontem inteira escutando este som. “Arte do suicídio?” A Julia tinha me dito uma vez que tinha medo de escutar Radiohead sozinha. “Arte é uma coisa que te diverte, tira você do ar, Radiohead deprime.” “Quem te disse isso cara?” “Que Radiohead deprime?” “Não, que arte é diversão.” “Não é?” “Não. Arte é uma coisa que causa estranheza e não tem finalidade por si só.” “Então você é arte!” Me sinto duas vezes mais idiota quando o enrolado faz eu parecer um idiota na frente da Julia. Já faz um tempo que descobri que um dia, que não vai demorar muito, tudo que acontecer aqui não vai significar absolutamente nada. Mas enquanto essa hora não chega qualquer coisa parece com hambúrguer para o apocalipse. Como sempre acontece trinta segundos antes do sinal do tacar o Sergião estava de olha na gente lá no fundo para ver se ninguém ia pular o portão para fugir daquele hospício. “Vamos fumar um lá na beira da pista para ver o pôr-do-sol no fim da tarde?” Jamais diria não para a Julia. “Nós temos que terminar o trabalho de inglês depois da aula hoje.” Quando a Alina tirou ela e o Enrolado do rolê as borboletas voltaram a estralar no estômago. “Eu topo.” “Legal, vou ver se o Jhony quer ir com a gente, tudo bem?” E as borboletas voltaram a ser lagartas parasitas que roubavam toda a minha coragem de dizer para ela tudo que eu queria.

Passei a tarde inteira pensando em um jeito de escapar do destino implacável de amar alguém. Escutei In my darkest hour do Megadeth, depois o acústico inteirinho do Alice in Chains, Lithium do Nirvana, e nada. Os contos do Bukowisky me diziam que as coisas ainda podiam piorar. Nem Holden Caulfield podia me salvar, e Beleza Americana confirmava um fim trágico para a vida se eu continuasse no caminho que os professores, meus pais, avôs, o mundo, traçava para mim. O melhor mesmo seria se jogar no abismo de uma faculdade pública qualquer longe daqui. Nos últimos tempos perdi umas horas pesquisando a relação candidato vaga em universidades do norte e nordeste. Da para passar em filosofia, sociologia ou um curso ia qualquer em um monte delas. Já faz um tempo que descobri que ainda não tenho a menor ideia do que quero ser na vida. Enquanto eu não souber o que vai ser o melhor a fazer é ganhar tempo. Uma temporada longe da Julia podia ser bom para ela sentir minha falta. Isso fazia as borboletas do estômago estralarem como nunca. Eu voltando para casa, formado numa faculdade pública, e a Julia morrendo de saudades, também formada, e a já casada com um cara qualquer que ela conheceu na faculdade. Era o mais provável. E as borboletas voltaram a ser lagartas parasitas que roubavam toda a minha coragem de dizer para ela tudo que eu queria.

A Julia passou em casa, com o Jhony, e o trio princesa, príncipe e o bobo saíram para passear. O jeito que um falava com o outro, e a empolgação deles em falar um com o outro, gritava que eu estava sobrando lá. Só quando já estávamos perto do limite da cidade, e acendi o baseado, minha presença foi notada com um comentário do Jhony. “Hummm….senti aquele cheirinho da erva vinda do norte.” Os dois riram como se o Ari Toledo tivesse contado uma piada. Não fiz questão de disfarçar um sorriso forçado, e a Júlia tentou criar alguma ligação entre nós três. “O Jhony tava me falando outro dia que começou a ler O senhor do anéis…..você já leu, né Neb?” “Não, eu acho o Tolkien muito descritivo, prefiro ficção científica.” Passei o baseado para ela e nem olhei para ele, que tentava invocar uma amizade que nunca existiu. “Eu gosto bastante de umas coisas mais mitológicas.” “O Neb me emprestou uma vez A revolução dos bichos e eu gostei muito. Mas não consigo ler O senhor dos anéis.” Os dois não concordavam em alguma coisa, foi o suficiente para as borboletas no estômago estralarem como a esperança que surge sem explicação todo começo de primavera. “Mas os filmes são sensacionais. Eu tenho os três.” “Nossa, eu nunca vi.” “A gente podia combinar de fazer uma maratona e assistir os três qualquer dia em casa.” Os dois se olharam e a Júlia deu pra ele um sorriso que ela nunca me deu. E as borboletas voltaram a ser lagartas parasitas que roubavam toda minha coragem de dizer para ela tudo que eu queria.

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A era da reprodutibilidade técnica avançada

Imagem | Antimidia

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Mirela, Mari, Evandro e Neto estavam ensaiando há semanas. O roteiro era da Mari e do Evandro, e nunca estava fechado. Eles não aceitavam começar a gravar enquanto tudo não estivesse completamente finalizado. Equipe de produção, pós-produção, técnica, tudo definido. Não basta só ter uma super-câmera “D qualquer coisa”, para gravar em HD a beleza de uma pombo cagando em cima de um careca engravatado na Berrini. Tem que ter o som das asas do pombo, tem que ter o barulho da bosta se espatifando na careca lustrosa, dividido em quadros sincronizados com um som angustiante e em ângulos jamais imaginados por Hitchcock. Tem que ter brilho, luz, câmera, ação!

– Vamos fazer um piloto.

– E quem vai editar?

– Eu e a Renatinha.

– Onde? No Movie Maker? Não…

– Ela tá com um canal no You Tube….tudo bem, é sobre moda…..mas são legais, e ela tem mais de mil visualizações em um vídeo já….

– Para com isso…..ela que seja feliz, mas a gente quer fazer uma coisa diferente………..

– Ela disse que topa, é só pôr o nome dela nos créditos…….e ela divulgaria no canal dela também………..a gente faz, se não ficar bom a gente não sobe na net…….

– Tudo bem, mas ainda temos o problema do microfone……só com o da câmera não dá……

– Para de colocar dificuldade em tudo………é só um curta de menos de cinco minutos!……..você dois estão achando o que?………que….que….sei lá……..aqui não é o NetFlix!

– Calma……

– Um monte de gente grava com uma câmera pior que a nossa, sem microfone, edita no Movie Maker, ou nem edita, e faz umas coisas muito legais……..faz quase um mês que a gente esta ensaiando, já temos o figurino, a maquiagem, tudo…….vamos fazer!

– Tudo bem, a gente faz um piloto no próximo ensaio.

Cena 1

Resumo – Dois caras estão numa mesa de bar no meio da noite. O número um é um taxista (Mari) e o número dois (Evandro) é um jornaleiro. Eles estão tomando suco e comendo um pedaço de bolo enquanto conversam. A balconista (Mirela) fica no fundo mascando um chiclete e fumando um cigarro vendo TV.

{Som de copos tilintando, pessoas conversando, barulho de televisão e carros passando de fundo.}

[Câmera em plano médio com os dois sentados na mesa em primeiro plano e a garçonete em segundo plano aparecendo no fundo.]

(Taxista) – “Sei que não temos muita intimidade, mas eu precisava conversar com alguém…….é que…..sei lá……ultimamente eu tenho visto tanta coisa……..me faz pensar……que……sei lá…………essa cidade…..”

(Jornaleiro) – “Acho que estou entendendo o que você quer dizer………um tipo de depressão……..todo mundo é feliz menos eu…….algo assim………”

(Taxista) – “Não sei……..acho que as pesso…”

(Jornaleiro) – “O que você precisa é se divertir cara………..pega umas minas fáceis, toma um porre, faz uma merdas……..aqui é a democracia………curte, se diverte……”

(Taxista) – “Estas foi uma das maiores merdas que eu já ouvi….”

CORTA! CORTA!

– Esta ficando bom……….Mirela, eu preciso que você masque esse chiclete como a Sally Sanders na cena do parque de diversões naquele filme com o John Travolta……você esta no fundo, desfocada, tem que ser bem performático para sair bem………..Mari, seja mais deprimida e menos malandro……..você esta bem Evandro, mas não olha para Mari quando você responde, fala meio de boca cheia, olhando para a direção do barulho da televisão……..você não esta se importando muito com o que ele esta falando……..falem mais alto que não temos mic aqui………vamos continuar da onde parou……..

Cena 1……continuação……ação…….

(Jornaleiro) – “É isso que os homens fazem…….”

(Taxista) – “Esse é o problema………não aguento mais essa sujeira, essa merda de lugar…….essas vagabundas na rua não percebem que são parasitas?……..”

(Jornaleiro) – “Você vive num país livre cara……se você gosta de homem procure um e seja feliz……..

(Taxista) – “Cala essa boca seu animal…..não sei porque estou perdendo meu tempo com você……..”

Fim da Cena 1

– Talvez tenha ficado legal galera……vamos arrumar tudo para a próxima………

Cena 2

Resumo – O taxista (Mari) esta na sala da casa de um vendedor de armas (Mirela). Ele tira uma mala debaixo de uma abertura escondida atrás do sofá e os dois começam a negociar.

[Câmera em plano geral, pegando toda a sala e mostrando toda movimentação dos personagens.]

{Sons de crianças brincando no quintal do vizinho e adultos gritando.}

(Vendedor de armas) – “Eu tenho tudo que você precisa……armas, munição, coletes a prova de bala……..”

(Taxista) – “Eu quero uma Magnum 44 com seis balas……”

(Vendedor de armas) – “Esta aqui esta belezinha……..robusta, pesada…….1,3kg de pura destruição…….o que ela acertar ela derruba……..”

(Taxista) – “Quanto é?”

(Vendedor de armas) – “Um barão e meio…….”

(Taxista) – “Com as balas?”

(Vendedor de armas) – “A primeira é sempre na faixa…….o que você esta pensando em fazer com isso……….”

(Taxista) – “Nada demais……..aqui esta o dinheiro…….”

(Vendedor de armas) – “O Tito disse que você era taxista……..que só queria se proteger……..se seus amigos também quiserem posso vender para eles também………mas nada de falar por telefone, a gente combina e você traz eles aqui……e se alguém me perguntar você nunca me viu……..e é isso que vou falar se alguém perguntar de você……..”

(Taxista) – “Entendi, eu sei como funciona…….”

Fim da cena 2

– Não sei isso esta dando certo. Nessa cena a câmera ficou muito longe de vocês………acho que não esta legal o som……..

– Roda aí na câmera mesmo pra gente ver como ficou………

[Filme rodando]

– O som esta horrível……..parece que é um banheiro…….

– Vamos terminar de gravar……..a Renatinha vai melhorar o som no computador e colocar os efeito……..eu estou achando ótimo……..vou arrumar tudo para a próxima cena………..

Cena 3

Resumo – O taxista (Mari) esta sentado numa cadeira na cozinha escrevendo um bilhete. A arma esta do lado do papel na mesa.

[Câmera em plano americano mostrando o taxista escrevendo o bilhete e a arma. Ele acaba de escrever, coloca a caneta do lado do papel, pega a arma e da um tiro na própria cabeça. A cabeça cai do lado do papel, sangrando, e a câmera vai fechando até focalizar o papel em detalhe.]

{Nenhum som, só o barulho do taxista escrevendo o do tiro.}

(Recado do bilhete) – “Eu não sou viado”

Fim da cena 3

– Adorei!

– Acho que ficou uma merda.

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A conta

Imagem | Antimidia

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Eu estou morrendo. Sei que todo mundo está, mas eu tenho enfisema pulmonar. Não consigo mais fumar e minha vida é um inferno por causa disso. Tenho que passar o dia na cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo. Nunca me importei muito com como seriam esses tempos, mas sabia que eles iam chegar. Você desenvolve uma certa consciência depois de passar 30 anos fumando dois maços de cigarro por dia. Sabia o que ia acontecer. Assim como quando aceitei ser governador, sabia no que estava me envolvendo. Quando disputei minha primeira eleição para vereador era porque eu queria me envolver. Não é só fazer política ou filantropia, é um estilo de vida. Tem haver com manter tudo como esta: bom para todo mundo. Nem de longe imaginei que as coisas poderiam se desenvolver desta forma. O que você tem que entender é que sempre fiz o que achei que era certo para manter o nosso estilo de vida. Eu tenho esposa, filhos, netas. Sempre achei que quando este dia chegasse seria o fim de um outro começo. Sei que isso não me absolve dos meus pecados, mas eu estou morrendo de enfisema pulmonar. E todo mundo que esta morrendo merece alguma compaixão. Porque todo mundo fez alguma coisa de bom para alguém um dia no vida, e quando se esta numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo, é isso que tem que ser lembrado.

Quando vi a Fernanda pela primeira vez ela estava começando o estágio na Assembleia Legislativa. Era uma jovem estudante de direito, linda. Os longos, e encaracolados, cabelos morenos, o olhar penetrante, as coxas grossas. O conjunto da obra era hipnotizador. Ninguém conseguia resistir aos seus encantos. Admito que quando convidei ela para assumir um cargo em meu gabinete eu já tinha tudo planejado. Sempre fui daqueles que não faz nada sem ter pensado em tudo. Ela não era a primeira, nem eu. Todo mundo faz assim. Acontece. Eu tenho esposa, filhos, netas. Quando ela aceitou o cargo ela sabia o que estava fazendo. Porque o cargo também incluía um apartamento no centro, com cartão de crédito e carro na garagem. Então, se você aceita tudo isso, você sabe que seu trabalho não será exatamente no escritório. E durante dois anos tudo foi uma maravilha. Nós nos víamos de duas a três vezes por semana. A vida pública exige que algumas coisas sejam realmente privadas. Eu não ia no apartamento dela para não ser visto. Nunca éramos vistos juntos. Se você usa uma aliança no dedo anelar esquerdo, e ocupa um cargo público, você não quer que as pessoas te vejam fazendo o que elas fazem. Elas votam em você exatamente porque elas acham que você não faz como elas fazem. Elas votam em você para poderem continuar fazendo o que elas acham que só elas fazem. Se todo mundo soubesse o que todo mundo fez e faz, o que seria desse mundo? E agora, que estou numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo, agora isso vai ser importante?

O que você tem que entender é que jamais imaginei que aquilo ia terminar como terminou. Eu tenho esposa, filhos, netas. Não teria feito o que fiz se não julgasse que havia extrema necessidade. Era muita coisa que estava em jogo. Todos os meus grandes feitos não podem ser ignorados por um incidente. Eu também construí escolas, creches, hospitais. Toda uma história não pode ser questionada por causa de uma estagiária num momento de devaneio. Não é porque estou numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo, que estou contando tudo isso. É porque a imprensa vai fazer um escarcéu, vai supervalorizar tudo. Eu tenho esposa, filhos, netas. Não vão respeitar elas e elas não merecem isso. Não estou aqui pedindo absolvição, é só que vejam que fiz o que fiz porque precisava manter outras coisas, que eram boas para todos. Pode não ter sido a melhor escolha, mas era a única que eu tinha. Quando ela apareceu grávida, na casa da minha família, vociferando que eu era um monstro, ela mesmo não deu valor a tudo isso. Em tudo que eu representava, em tudo que eu era. Ela não me deu opções. A questão não é quem é a vítima, é como se reage as coisas. Ninguém é santo. O mundo é muito maior que uma pessoa só, e exitem os seus problemas e os do mundo, e perto dos do mundo, o seu sempre vai ser pequeno. Uma coisa que pode parecer pequena para você, pode ser grande para o mundo. Não era só a minha honra que ia ser atingida, era a honra de todo mundo.

Quero deixar claro que antes de matar ela asfixiada, e incinerar o corpo numa pilha de pneus, tentei todos os outros meios ao meu alcance para evitar que as coisas terminassem dessa forma lastimável. Não foi fácil fazer o que fiz. Eu não queria. Eu chorei, pedi, implorei. Mas ela tinha vídeos, fotos, conversas. Eu poderia ter dado tudo que ela jamais imaginou ter. Hoje ela poderia estar vivendo bem em qualquer lugar que quisesse. Tentei garantir, com todas as palavras possíveis, que ela e a criança jamais passariam nenhum tipo de necessidade. Muito ao contrário, viveriam sem nunca terem que se preocupar com dinheiro. Teriam até direito a herança. Eu reconheceria o filho quando deixasse a vida pública. Mas ela queria causar um escândalo. Queria usar uma criança para acabar com tudo. O que ela queria era ver tudo que eu tinha construído destruído. Eu fiz o que qualquer um no meu lugar faria. Eu tive que matar ela asfixiada, e incinerar o corpo numa pilha de pneus, para garantir que tudo continuasse como estava, porque estava bom para todo mundo. Eu tenho esposa, filhos, netas, e estou numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo.

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