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conto da noiteO Conto da Noite
Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

>> Confira outros textos de Evandro Furtado

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* Se você é o autor deste texto, mas não é você quem aparece aqui...
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A Sereia, o Sátiro e Ninguém Capítulo II

Coral acordou na cama ao lado do Sátiro, o Mestre, único nome que ela sabia sobre ele, estava dormindo profundamente, seu peito se movia com a respiração ela observava fascinada, a noite anterior depois do beijo ambos tinham voltado para a casa, quando a chuva começou já tarde, eles já tinham jantado, conversaram, sorriram e acabaram na cama, ele tão selvagem e dominante quanto realmente parece, dormiram após horas…

Ela cansa destes pensamentos e se levanta da cama, sua pele, ardendo de leve, ela sabe muito bem porque, vai até o salão lá em baixo e mergulha em seu aquário, nadando, de olhos fechados, como se fosse uma dança hipnótica, um movimento circular ao redor, curtindo a sensação da água… Abre os olhos e Ninguém está olhando para ela…

Ninguém estava encantado pela jovem sereia, nunca imaginou ver alguém tão bonita por aqui, ele já vivia aqui a séculos, sabia que o Mestre sempre trouxera amantes para cá, mas nunca alguém tão linda… Ele olhava para ela dançando na água, hipnótica, bela, sua pele perfeita, parecendo uma pérola azulada, ele tinha visto os dois se beijarem, ele ouviu os dois se amarem, ele a desejava, pela primeira vez em séculos, ele desejava uma das amantes do mestre.

Quando ela percebe Ninguém os dois se olham nos olhos, ambos sentem a eletricidade, de algo no ar, ambos se acham interessante, ela sorri, ele sorri de volta e continua a varrer o chão, ele escuta o barulho da água, quando ela sai do tanque, escuta seu corpo pingando se aproximar, se vira e olha para cima.

– Posso ajudar Mestra Coral…

– Só Coral está bom… Você sempre já acorda trabalhando? – ela busca um lugar para se sentar e encontra um banquinho próximo, recolhe as pernas sentando sobre elas para não atrapalhar a limpeza do chão.

Ele sorri com a gentileza, ela não é como as outras, diz para si mesmo antes de responder.

– Sim, Ninguém sempre deixa a casa do Mestre em perfeito estado para ele trazer suas noivas…

No mesmo momento que diz isso ele se arrepende, por um momento ele pensa na punição do mestre, caso a sereia resolva ir embora por causa dele, mas depois vem o reconhecimento, de que ele precisava dizer por se importar com essa menina, por se importar com a Coral. Já que ela é tão gentil e parece mais delicada que as outras, talvez seja bom alguém que saiba como cuidar dela, ele diz para si mesmo.

– Noivas… – Ela repete meio que para si mesma, uma suave decepção passa por seus olhos, mas ela já deveria saber que sátiros não são de uma única mulher. Deveria?

Ele percebe sua confusão, ele percebe a decepção e até uma certa genuína tristeza, por um momento ele também se sente triste por ela, impensadamente, acaricia seus cabelos, ambos se olham mais uma vez e sorriem. Ela quem primeiro quebra o silêncio.

– Exceto trabalhar e ficar aqui sendo um enfeite, tem algo que podemos fazer nesta ilha.

A voz que responde não é de nem um dos dois, é a voz grave do mestre, inconfundível e irrepreensível.
– Pode ir na praia, nas pedras, pode caminhar, nadar, ver os pássaros ou o mar, só não acho que possa ir embora da ilha, sem me pedir para… – Ele sorri deixando no ar o que a última parte significa, usando a parte de cima de um sobretudo antigo, acinturado e uma cartola, parecendo uma roupa do século XVII, exceto, que sem calças, já que é um sátiro.
– Terei que sair agora, deixo a casa e MINHAS propriedades em suas mãos Ninguém… – A ênfase no minhas deixa bem claro o que ele pensa do que viu. – Leve a senhorita Coral para passear pela ilha por favor, assim que terminar seus afazeres… Com sua licença…
Dito isso ele se retira pela porta da frente, indo embora.

Os dois se olharam, o frio na barriga, se sentindo transgressores pelo que quase haviam feito, o mestre saiu e eles se sentiram aliviados, ambos os dois, sem motivo algum que não fosse o susto tomado, que não fosse o frio na barriga que se dispersou deram uma gargalhada, que fez ambos se sentirem mais leves, mais felizes, a risada acabou e antes que Ninguém ou Coral pensassem em tudo, ele segurou a mão dela e saíram pela porta.
– Vamos dar uma volta, vou te levar para a conhecer a ilha como o mestre mandou..

– Tah.

Sem nenhum problema ela saiu correndo atrás dele, de mãos dadas, só quando sentiu o sol na pele, lembrou que ainda estava de biquíni…

Os dois correm juntos pela parte aberta da ilha, Ninguém a vê sorrir e rir e lembra de nunca ter visto alguém tão cheia de vida, quase como se lembrasse alguém de uma passado distante, de séculos no passado. Ele a acompanha com os olhos enquanto apresenta a parte mais central da ilha, um grande jardim.

– Você sempre viveu aqui… – Ela mal sabe porque a pergunta, curiosidade talvez… Ou apenas para vencer o banal, ela sente curiosidade, pelos sentimentos que ele desperta, ela sorri.

– Sim, o Mestre me criou para cuidar da mansão, este é meu único propósito…

Ela sorri aceitando a explicação como uma possível verdade, ela olha para ele e sorri, sai andando de leve, se distanciando um pouco do duende, mal reparando o quanto assim como ela pensa sobre ele, ele também pensa nela e a segue com os olhos, olhos atentos a cada movimento, a cada detalhe.

Para ele ela é uma incógnita, diferente de qualquer noiva que o Mestre já teve, ele jamais pensaria em flertar com uma noiva do Mestre, isso seria terrível, mas ele não estava realmente flertando com ela. Ou estava? Olhando para ela agora, vendo ela encantada pelo jardim olhando os pássaros, ele percebe que sorriu, ela também percebe e sorri de volta.

Um sorriso doce um sorriso perfeito, um sorriso inesquecível, ele sente seu coração disparar, ambos se olham por um longo tempo apenas sorrindo, apenas achando impossível. Ele se pergunta se por ela ele teria coragem de enfrentar o mestre, se pergunta se por ela ele deixaria de ter uma casa, mas mais do que isso, ele se pergunta se ela faria o mesmo, quer dizer, poderia uma sereia se apaixonar por um duende? Existem histórias de ninfas e duendes, mas seriam reais?

Como se adivinhasse seu pensamento, Coral se aproximou dele, sorrindo, seu sorriso de pérolas, seu olhar do mar, ela sem perguntar nada, sem dizer nada, lhe deu um beijo no rosto, o qual foi carregado de calor, ela também não pretendia que fosse tanto, ela apenas se encantou pelo modo como ele lhe olhava.

– Vamos para as pedras, – ninguém disse isso baixo, sorrindo, com as bochechas vermelhas, para uma sereia sorridente, que fez que sim com a cabeça e lhe ofereceu a mão.

De mãos dadas eles foram, até as pedras na base da ilha, ele queria levá-la a praia, rever ela nadando maravilhosa, como havia visto no aquário, mas não poderia, isso significaria etrar na água sem permissão, sair da terra firme sem permissão, ambos chegaram nas pedras, conversnado sobre bobagens, pequenas bobagens, ela estava encantada com o tanto de coisas que tinham em comum.

Ao vê-la nas pedras, na luz do sol, Ninguém soube o que estava acontecendo com ele, por um leve momento, ele era “alguém”, alguém que amou, alguém que já havia sido humano, há séculos atrás, alguém que amou e perdeu, que foi burro demais para manter próximo, quem amou, ele começou a chorar.

– Não chora, – sem aviso, Coral disse olhando para ele, segurando seu queixo, com delicadeza os olhos nos olhos e um beijo na boca.

Um calafrio percorre o corpo de Ninguém, o mestre não ficará feliz, de forma alguma, mas Ninguém está feliz, Ninguém agora é alguém, alguém que tem amor.

– Como ousam com todo o abrigo que lhes dei…

O mestre surge, sua ira é como uma tempestade que se forma no mar, Coral tenta explicar, mas uma súbita tontura, a faz desmaiar, ela só consegue perguntar no que acontecerá com Ninguém, ao mesmo tempo que se sente culpada por tê-lo beijado.

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A Sereia, O Sátiro e Ninguém

A sereia o sátiro e ninguém

Ela se via sozinha fazia poucas horas, a briga com o namorado tinha sido um grande estopim, ele jamais a compreendeu totalmente e como poderia, como ele poderia sequer imaginar os seus sacrifícios, ela havia se libertado com ele, brigou com sua família, não tinha mais família, não tinha amigos, tudo para quê, para estar com ele, que agora a jogava fora, na rua, como se não fosse ninguém importante.
Ela chorou por um tempo, mas depois vencida pela fome foi para uma padaria, sorriu, desviando os olhos de quem olhava diretamente para ela, uns curiosos, alguns interessados, mas também haviam aqueles que obviamente não gostavam da presença dela ali.
Era uma jovem mulher de seus 18 anos, seu corpo magrinho enfiado em jeans azuis simples, uma camiseta branca folgada, seus cabelos em cachos escuros compridos e seu rosto delicado, sempre se pareceu com uma menina, talvez por isso tenha sido tão fácil seguir até aqui, se abrir para todos, mas obviamente nem todos viam esta mulher dentro de seu corpo atual.
Foi quando ela o viu, alto de cabelos negros como a noite e olhos negros, como poços sem fundo, onde você poderia se perder, ele tomava um café, usava jeans pretos, coturnos e uma blusa de gola alta… Sua primeira reação era pensar em quem em São Paulo usaria tal vestimenta, por ser uma cidade tão quente, mas tudo bem, ambos sorriram um para o outro e ele se aproximou.
– Você é muito bonitinha… – ela sorriu e corou, mas não conseguia desviar os olhos.- Tem certeza desse desejo intenso, esquecer completamente o passado, só se tornar uma mulher e desaparecer…
Como ele saberia, como ele poderia saber, quer dizer, sim, era eu iria fazer a cirurgia e mudar de nome e ninguém nunca mais me encontraria, por não ser mais a mesma pessoa, mas…
– Como… – calada com um dedo de forma suave, que se apoiou em seus lábios, olhando nos olhos um do outro um calafrio percorre pela sua espinha, subindo até gelar sua nuca.
– Apenas responda se é o que quer.
Ela sabia que era, não sabia o que estava acontecendo, mas sabia muito bem o que era, o que ela queria, o que abriria mão por isso, ela fez que sim com a cabeça, sentiu ficar zonza, vertigem a atingiu de repente, ela se vê caindo em um buraco enquanto ele ri lá em cima na borda.
***
Quando acordou a primeira coisa que percebeu é que estava embaixo d’água, mas o pânico foi momentâneo, porque não foi difícil perceber que realmente estava respirando na água… Ela olhou em volta, mas percebeu que se encontrava em um aquário, mas mais do que isso viu seu reflexo no espelho, mesmo sendo uma imagem difusa, ela parou para olhar, para ter certeza do que via acompanhava com as mãos.
Seu corpo agora era um corpo feminino, belos seios volumosos, um quadril largo, a barriga quase reta, seu rosto, suas bochechas, ela usava um biquíni, vinho como percebeu olhando para baixo, mas também percebeu sua pele suavemente azul, um azul clarinho, se assustou e viu suas mãos e pés, com membranas entre os dedos, ela era uma sereia… Assustada, subiu até o alto do aquário, pulou suas bordas e sentiu o frio do lado de fora sobre sua pele.
Viu um espelho e caminhou até ele… Seus olhos agora olhavam diretamente para o corpo belo, ela se virou para ver cada detalhe, brincos na forma de duas conchinhas estavam pendurados em suas orelhas, doloridas por terem sido furadas recentemente…
Mas seus dentes eram afiados, visivelmente perigosos, assim como suas mãos, com membranas, mas também com garras, seus pés eram pequeninos, mas uma nadadeira crescia ao redor deles, quando juntava os dois pés era uma calda de peixe, se abrindo para o lado de fora só o dedão ainda existia, todos os outros dedos haviam se unido, formando a pequena cauda que se abria como meia lança, formando a volta do pé. Ela estava linda é verdade, mas também assustadora e definitivamente não humana, um medo começou a nascer em seu coração.
– Enfim acordou… – A voz era completamente inesquecível, era ele, da padaria, daquele dia…
– Você… O que fez comigo…- Ela falou alto, quase sem controle se virando para ele, só para ver ele com as pernas de bode, chifres, enrolados ao redor de sua cabeça pelos lados e o torso de uma túnica vinho… Paralisada de boca aberta ficou olhando para ele sem saber o que dizer.
– O que foi nunca viu um sátiro. – ao dizer aquilo ele riu, seus dentes perfeitos, ele parecia alguma espécie de demônio enquanto ria e ria, ela estremeceu inteira, sentiu medo daquela risada, mas por fim, ela cedeu e começou a rir também, possivelmente sua mente cedia a loucura do que estava acontecendo.
Ele estendeu a mão para ela, oferecendo silenciosamente para ela conhecer sua morada, ela sorriu de mãos dadas com ele, ela saiu caminhando, devagar com calma, seus “novos pés” ainda precisavam se acostumar com seu novo formato, ao sair da sala, ele colocou sobre seus ombros uma capa leve, delicada de seda, que escondia seu corpo só de biquíni quase como um poncho mexicano.
Perguntas como porque eu, ou coisas assim eram silenciosamente ignoradas, ele apenas lhe mostrava os cômodos de sua mansão, do lado de fora um mar revolto, era uma ilha rochosa, com pouco espaço, então ele a leva para fora onde um jardineiro fazia seu trabalho ajeitando as roseiras, que formavam um verdadeiro muro ao redor da casa.
O jardineiro era um homem loiro, velho, curvado, um duende de orelhas pontudas, bem longas, magro, de olhos verdes, ele olhou para os dois que se aproximavam e parou por um momento olhando para a sereia, ela sentiu em seus olhos algo gostoso, algo quente, algo que ela não sabia identificar.
– Está pronto Mestre… – se afastando da roseira para mostrar o trabalho.
– Ótimo Ninguém, esta é Coral e ela é uma sereia que viverá conosco agora…
– Claro Mestre, – olhou para ela, causando um certo arrepio.- mestra Coral, vou me retirar agora… – ao chamá-la assim, algo em seu coração palpitou e ele foi embora deixando ela distraída.
– Ninguém é um servo leal… – o Sátiro sorriu vendo seu silêncio.- Algo há incomoda.
– Não, só é muito para entender… – sorri, olhando em seus olhos…
Os dois passam um curto tempo se encarando, o olhar intenso dos dois lados, ele com os olhos negros intensos e sem fundo que ela havia visto na padaria, ela agora com olhos verde-mar, tão intensos quanto, com uma selvageria que faria muitos recuarem ou se apaixonarem, por um curto momento os dois se encararam, suas mãos ainda uma na outra, ela fecha os olhos e ele a beija.
Coral não sabia de mais nada, nem lembrava de qual era seu real nome, agora era Coral, ela era amante do Sátiro na ilha do farol e tinham um servo chamado Ninguém, (isso talvez significasse algo), ela sentia que seja o que for que o futuro guardasse estava só começando, enquanto nuvens se formavam no horizonte.

>> Continua.

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A true love story

Imagem | Antimidia

Imagem | Antimidia

Preâmbulo

Contos dramáticos, longos romances, filmes, músicas, novelas, seriados, guerras, “what more in the name of love?”, perguntaria o U2. O que for necessário, responderiam os jovens. Amor não é um sentimento, é uma justificativa para uma atitude que poderia ser tida como débil. Sócrates diria que o amor é a ausência do belo e do bem, desembocando nos antônimos feio e mau. Ainda segundo os gregos, que conversavam enchendo a cara de vinho num banquete, o amor poderia ser um desejo ardente de se ter o que não se tem. Logo, quando se conquista o desejado o amor bau bau. Segundo o dicionário Aurélio, o amor também é enquadrado como uma inclinação forte por outra pessoa, geralmente de caráter sexual, mas que apresenta grande variedade de comportamentos e reações. Bem, certamente ele existe, e determina a vida de todos nós.

Personagens

Neb | Mais ou menos 1,70m, 100kg, 25 anos e cabelo comprido. Estudante do quarto ano de jornalismo. Se veste como repórter de rádio, sempre de xadrez, mas trabalha numa assessoria de imprensa. Gosta de ouvir Rock’n Roll e toca baixo. Como quase todo gordinho, Neb é inseguro e meio engraçado. Nunca teve uma namorada.

Júlia | Cerca de 1,73m, 65kg, 21 anos, cabelo nos ombros. Cursando o 3º ano de enfermagem. Tenta não se preocupar com a moda, gosta de blusinhas com alcinhas e casaquinhos de lã. Faz estágio num hospital público. Gosta de ver o pôr do sol num mirante e de praia. Não se acha bonita e é traumatizada pelas decepções da vida.

Tempo

Se conheceram no 2º ano de faculdade dela, mas Neb já a observava com carinho, de longe, antes de os dois se tornarem amigos. Em seguida ele entrou num projeto cultural que Júlia fazia parte só para ter mais contato com ela. Por uma coincidência da vida vieram a se tornar vizinhos seis meses depois. Foi nessa época que perceberam o quanto gostavam um do outro. Em pouco tempo estavam indo nos mesmos lugares e tinham os mesmos amigos. As coisas aconteciam cronologicamente e um futuro juntos, e felizes, era tão certo quanto o fogo é quente.

Espaço

No começo se encontravam na lanchonete da faculdade, naquelas mesas enormes que se formam com os amigos no frenesi do intervalo. Sem perceber os dois sempre estavam próximo. Nas reuniões para falar sobre os eventos que iam realizar dificilmente discordam da opinião um do outro. Quando morando lado a lado Júlia ia na casa de Neb todo dia, mas ele raramente retribuía as visitas dela, mas sempre comprava queijo porque sabia que ela gostava e fazia café quando ela chegava.

O período de vida universitária é marcado pelas novas experiências, e grande parte delas está ligada ao flerte. Qualquer espaço que reúne centenas de jovens, com os hormônios a flor da pele, é um convite para aventura, um lugar onde tudo se desenvolve.

Narrador

Eu era próximo aos dois. Na verdade eles começaram a ter mais contato porque o Neb sempre vinha me chamar para fumar um baseado com ele no intervalo. A Júlia também fumava, e um dia veio junto. Quando comecei a reparar no que estava acontecendo os dois já estavam sempre grudados, e ela sempre perguntava dele, e ele dela. Pareciam ter nascido um para o outro, mas tinham uma certa dificuldade de reconhecer isso. Nunca entendi o por quê. Os dois sempre foram bastante reservados, então ninguém falava sobre isso com eles, nem eles falavam com alguém, mas todo mundo falava disso longe deles. Era impossível não reparar no jeito especial que se tratavam e em como, as vezes, não se olhavam.

Enredo

Ela admirava o quanto ele era atencioso com as outras pessoas e a quantidade de amigos que tinha. Dava para perceber isso vendo como Júlia se esforçava para fazer a mesma coisa que Neb. Ele jogava futebol com os amigos, ela entrou num grupo de corrida. Ele sempre carregava um bom livro, ela começou a levar um na mochila também. Neb achava que Júlia era diferente de todas as outras garotas porque era bonita, inteligente e não ficava se exibindo. Sua admiração por ela ficava nítida na forma como a tratava, sempre tentando arrancar um sorriso dela e facilitando a sua vida. Neb sempre pensou que jamais teria alguma chance com alguém como ela, tanto que as indiretas dela demoravam dias para serem percebidas por ele, quando o momento já tinha passado. Júlia achava que Neb pensava que ela não estava à altura dele, porque ele sempre respondia as investidas dela com um sorriso desconcertado, e não com palavras românticas ou um amoroso beijo. No ritmo do “ninguém me ama, ninguém me quer”, os dois se identificavam cada vez mais um com o outro. As chances de ficarem juntos se multiplicavam a cada encontro. Numa festa, assistindo um filme deitados na cama ou uma tarde perdida, a todo momento pressentiam que uma coisa fantástica podia acontecer. Quando se tocavam acidentalmente, ou num abraço e beijo de “oi, tudo bem”, as borboletas no estômago diziam que aquele amor não tinha nada de cortês.

Diante da falta de iniciativa de Neb, Júlia arrumou um namorado…

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A conversão de um deus

Definitivamente Spuk é um deus mal. Não importa o que os sacerdotes do alto templo digam, não acredito neles.

Spuk é o deus do mundo, os Louvadores dizem que sentado em sua cripta em Aviloan ele escreve nossas histórias com sua pena de misericórdia. Tenho uma visão diferente. Acredito que Spuk, em sua sodomia, gargalhe com nossa desgraça, pois desde que apareceu restou-nos apenas o caos.

Há alguns anos tínhamos outros deuses. Rochedo, Senhor da Terra, Aurora Senhora dos Céus, Marinho, Senhor das Águas, Homo, Senhor dos Viventes e, Rajada, Senhora dos Ventos. Todos reinavam a partir de Aviloan, o grande monte redondo do céu noturno.

Eu era criança, mas lembro de momentos bons. Vivíamos do que o mundo provia. Caça, pesca e colheita. Essa era a vida de todos em Camposverdes.

Nós tínhamos uma pequena casa na Colina das Flores, atrás uma horta onde crescia nosso alimento e um pouco de nosso comércio. Ao lado o riacho proporcionava alguns peixes. Também descíamos em direção da mata para caçar; Kai e Kan, nosso casal de cães caçadores eram a vanguarda. Nosso pai montava o Crina Negra, nosso avô a Donzela Esguia, Carvin e eu íamos a pé com os arcos.

Foi na penumbra de um dia prestes a amanhecer que presenciamos o despertar do medo. Estávamos preparados para mais uma caçada quando bolas de fogo rasgaram o céu. Passavam rápidas e deixavam rastros luminosos que depois eram engolidos pela escuridão.

Os cavalos assustaram-se e os cães uivaram. Buscamos o olhar do nosso pai e ele procurou o do vô. O velho Sávio gaguejou antes de conseguir falar:

— Alguma coisa está acontecendo em Aviloan! Que Krainã a proteja!

— Que Krainã a proteja — Éramos ecos assustados.

Conta-se que nos ermos de Vavician conhecido como Campos do Fim do Mundo, existia uma grande cidade chamada Aluisia, era rica em ouro e pobre em honras. Sua perversidade causou a destruição de tudo o que havia ao seu redor, especialmente da Floresta Sagrada, habitação de Rajada, Senhora dos Ventos. Krainã era a rainha dos animais, uma leoa poderosa e orgulhosa que viu toda sua linhagem morrer pelas caçadas dos vavicianos. Em um ataque de fúria invadiu a cidade destroçou a família real antes de ser morta. Conhecida como “vingança dos ventos” foi elevada pela própria Aurora e colocada como guardiã de Aviloan. Suas lágrimas regam a terra quando está triste e, seu rugido é escutado entre as nuvens em dias de fúria.

Naquele momento em que o céu estava pintado de chamas ela era o que nos restava.

Spuk e sua hoste atacava Avalioan, dissera um dos sacerdotes de Homo. Tenho a certeza de ter escutado o rugido de Krainã, quando contei isso ao meu pai que disse ser imaginação de criança. Entretanto, fico com a memória que presenciei seu último rugido e, por conseguinte a queda dos deuses.

Colina das Flores permitia-nos ter uma vista, até então linda, do mar e foi por ele que as hostes de Spuk vieram flutuando. Suas bandeiras com a caveira anunciavam sua chegada, o inicio da era spukiana, o princípio do caos. Homens vestido de metal. Espadas sem compaixão.

Já se passaram quinze anos. Não há mais flores na colina. No segundo dia de desembarque eles nos atacaram, estupraram minha mãe e mataram-na, mas meu pai estripou em combate o mais importante de seus generais. Para nosso orgulho e desgraça total.

A colina foi completamente incendiada e sal foi lançado ao solo como um memorial de impiedade. Meu avô fugiu levando-me, não sei o que aconteceu com Carvin, provavelmente morto como todos que não foram escravizados em Camposverdes.

A vitória do meu pai naquele dia foi uma amostra de que nós não nos curvaríamos de maneira fácil. São quinze anos ininterruptos de guerra, mais navios desembarcam a cada dia e todo o sul foi dominado. Minha terra, meu lar.

Hoje comando as forças de resistência do leste, mas em certo ponto já fomos derrotados. Não nos entregamos e não o faremos de forma alguma. Entretanto, os invasores conseguiram uma grande vitória. Transformou o deus deles no senhor do nosso mundo. Era interessante ver meus soldados beijando um osso preso ao pescoço, símbolo de Spuk, antes de partirem contra os spukianos. No inicio obrigava-os a livrar-se dos objetos, em um momento de descontrole cheguei arrancar uma cabeça por isso, hoje nada preciso falar, comando os “Hereges” como somos conhecidos pelo inimigo. De certa forma tenho orgulho do nome.

— Meu lorde, todas as vilas da região foram queimadas.

— E a população?

— Na estrada.

Segui Sor Cane e vi mais uma das cenas terríveis que se tornaram cotidianas. Em toda extensão da estrada foram cravadas nas laterais estacas com cabeças de mulheres e crianças. “Sem crianças para virarem homens e sem mulheres para darem filhos como vocês lutarão futuramente?”. Tinha lido na carta enviada por Mardoc II imperador dos spukianos. Todas as cabeças tinha um buraco em alguma parte.

— Eles arrancam ossos para servir de amuletos.

Os guerreiros mais poderosos, chamados de “Filhos de Spuk”, arrancavam apenas dos inimigos mais bravos e tinham colares sem espaço para os ossos.

Meus olhos vasculharam o céu em busca de uma luz, mas há exatos malditos quinze anos o sol não apareceria, mesmo sendo dia, nuvens negras deixavam o céu cinza.

— Maldito seja Spuk e todos os que o adoram!

Alguns homens me olharam assustados, reagiam com temor sempre que eu falava dessa forma, por medo dos deuses, independente de qual fosse e, também por terem familiares entre os Louvadores.

— Avancemos. Pelas marcas do acampamento estamos praticamente em mesmo número e não dormirei enquanto não matar um desses malditos!

Cavalgamos rapidamente até que um dos batedores veio avisar.

— Senhor! Estão bem próximos e estamos praticamente no mesmo número. Também já fomos vistos.

— Ótimo.

— Tem outra coisa, os estandartes não são vermelhos.

Os estandartes de Mardoc II eram vermelhos. Só havia um grupo que usava outra cor.

— Pretos?

A confirmação do soldado fez muitos arregalarem os olhos. Eram os “Filhos de Spuk”. Finalmente as duas tropas mais letais se encontrariam no campo de batalha. Podia até imaginar alguém falando assustado no outro acampamento: “São os Hereges”. O pensamento fez-me gargalhar.

— Preparem suas carcaças, infames! É chegada a hora de por um fim nisso! Vamos arrancar Spuk de seu trono e mostrar que um deus pode ser estripado!

O encontro foi rápido. Outras companhias de batalha ficariam um tempo trocando provocações, propondo duelos, marchando para mostrar todo seu poderio. Não nós. Éramos assassinos, guerreiros, para isso viemos ao mundo.

Tem pessoas que conseguem detalhar as batalhas, eu me lembro de muita coisa, mas é complicado liga-las. Desci cavalgando em alta velocidade e com uma lança atravessei o peito de um comandante, com a espada rasguei um pescoço, abri um homem da virilha até o peito e depois disso recordo-me apenas de golpes, terra, sangue, gritos, estandartes encharcados, não faço ideia de como perdi a montaria, sei que levantei e acertei um jovem que tinha idade para ser meu filho, por fim a multidão de corpos no chão. Essa imagem jamais esquecerei.

Da minha companhia eu era o único ainda com condições de ficar em pé, apesar de ter o braço da espada sem movimentos. Do outro lado três cavaleiros spukianos vinham caminhando, dois tombaram alguns passos à frente devido os ferimentos. Restamos apenas nós, os dois lendários comandantes de duas míticas tropas.

Queria dizer que estava pronto para a batalha, mas já não tinha mais forças. Estava preparado para morte, entretanto, desejava a morte gloriosa de combate. O comandante tinha minha altura e usava um elmo fechado. Correu em minha direção acertando-me com um chute frontal e me jongando ao chão. Consegui segurar uma lança, queria morrer com ela na mão. O inimigo levantou sua espada para o golpe de misericórdia. Tentei reagir, mas já não tinha energia. Arregalei os olhos, pois se era hora de partir queria ver o rosto amaldiçoado de Spuk. A espada começou a descer…

O sol apareceu.

Há exatos malditos quinze anos o sol não apareceria, no entanto, sua luz rasgou as nuvens escuras que imperavam no céu. Meus olhos ofuscaram, o fenômeno era tão grandioso que por um momento esqueci-me da espada que vinha em minha direção. Pelos Porões dos Castigos, no dia em que o mundo muda estou partindo, pensei.

Entretanto, a espada também tinha parado. O inimigo olhava para o céu, não diferente esqueceu-se da batalha a ponto de virar as costas. Ele arrancou o elmo, o astro pareceu me dar novas forças; levantei. A luz nos iluminou-nos e falámos em uníssono:

— Irmão?

Enquanto Carvin e eu nos abraçávamos o céu abriu por completo. Crianças apareceram descendo a mata da colina, extasiados por verem o dia pela primeira vez.

E, em meio ao mar de corpos o mundo cruel em que vivíamos ganhou um novo sentido e seu povo uma nova vida.

***

Sentado em um Café no Rio de Janeiro, Roger Santos, conhecido pelo pseudônimo Spuk, fechou seu caderno surrado onde escrevia seus contos de guerra, cheirou as flores que tinha comprado para a mulher que acabara de conhecer e por quem estava completamente apaixonado e, em um novo rascunho iniciou uma poesia, sem trevas nem sangue.

Publicado por J.Nóbrega em: Agenda | Tags: , , , ,
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O Melhor Feitiço

Certa vez eu li que nos sonhos encontramos um mundo inteiramente nosso, e desde então passei a dar mais atenção aos meus, pois, se essa hipótese for levada em conta, analisar nossos sonhos é a maneira mais autêntica de autoconhecimento sem todos os preconceitos, medos, regras e infinitas barreiras do nosso cotidiano ‘‘real’’. E eis que eu encontrei várias respostas, dentre elas a mais óbvia de todas: a minha mente é uma completa bagunça.

O despertador tocou, a música de uma banda britânica de rock alternativo me retirou do mundo dos sonhos direto para a minha entediante vida de estudante do ensino médio. Ainda estava escuro, mas não era noite, como eu veemente gostaria que fosse. Desvencilhei-me das cobertas e levantei-me frustrado pela terceira vez naquela semana, era quarta-feira, e o único pensamento que me alegrava era o de que no final daquele dia só me restariam mais dois para o final de semana, quando eu teria dois míseros dias de descanso, ou melhor, ‘‘descanso’’, entre aspas, pois no tipo de escola que eu estudava o fim de semana servia para fazer os trabalhos que não foram concluídos nos cinco dias letivos e não necessariamente para ficar sem fazer nada.

Fui a passos lentos até o banheiro, saindo de lá minutos depois ligeiramente mais desperto, mas ainda com um ar sonolento. Na cozinha peguei alguns trocados que estavam em cima da geladeira, a minha mãe já estava de pé e começava a preparar o café da manhã. Vesti um casaco e saí de casa, tendo de enfrentar o frio matutino durante todo o caminho até a padaria. Felizmente eu morava em um bairro que ainda me permitia andar de pijama pelas ruas sem ser alvo de piadas, afinal, todos já estavam acostumados a fazer isso. Na volta para casa vislumbrei uma das poucas coisas interessantes do meu dia, o nascer do sol. Enquanto eu andava nas calçadas em frente às casas modestas ainda silenciosas e de portas fechadas o sol começava a fazer seu show de todo dia, lançando os primeiros raios dourados do dia e empurrando as temerosas sombras da noite para outra parte do mundo. Apesar de tudo eu já estava acostumado a ver aquele espetáculo, e no momento só conseguia imaginar em quantas pessoas estavam em seus mundos particulares fazendo sabe-se lá o quê e iriam ser forçadas a voltar para a realidade pelo astro impiedoso.

De volta em casa prossegui com a minha rotina matinal, que por sinal era tão sem graça quanto o resto do meu dia. O céu já estava completamente claro quando andei duas esquinas até a parada de ônibus, pronto para passar maçantes quarenta minutos no trânsito interiorano.

Felizmente o ônibus não demorou muito, me acomodei naquela engenhoca de metal sentando no último lugar ainda vago. ‘‘Quanta sorte’’ – Pensei com sarcasmo. A condução já partira quando o motorista freou de uma vez, provocando gritos de reclamação por parte de alguns passageiros, puras manifestações do mau-humor de todo dia.

Pus meus fones de ouvido a pressionei o ‘play’ do meu smartphone, havia uma notificação de mensagem numa das minhas redes sociais. Há algum tempo eu estava sendo estranhamente perseguido por alguém através da internet, recebendo periódicas mensagens anônimas de alguém intitulado ‘‘Ed’’, o que eu achava no mínimo inusitado, já que esse era o apelido pelo qual a maioria dos meus colegas me chamava. A mensagem da vez era tão excêntrica quanto às demais: ‘‘Você é feliz?’’

Levantei a cabeça, alguém havia entrado no ônibus enquanto estivera parado. A alguns assentos de distância da minha estava, de pé, um garoto que estudava na minha escola, há um ano. Eu nunca reparara direito, mas aquela era a primeira vez que ele pegara um ônibus no meu bairro. Forcei minha mente a lembrar o seu nome, mas fora inútil. Sim, dentre os meus – vários – defeitos estava a memória fraca, que também era grande responsável pelo meu desenvolvimento escolar nada glorioso.

O garoto segurava a barra de ferro amarela e enferrujada do ônibus, enquanto equilibrava uma mochila quase do seu tamanho em um ombro e um livro debaixo do outro braço. Eu entendia a sua dificuldade, afinal, nós estudávamos em uma escola que, para ser considerada antiquadra, só faltava a palmatória e outras torturas como castigo. Mas, apesar de querer ajudá-lo, eu mal o conhecia e seria hipocrisia da minha parte, pois iria ser uma gentileza, e eu definitivamente não sou gentil. Resolvi tomar a atitude mais fácil: ignorá-lo.

Voltei minha atenção para o celular novamente, a mensagem anônima ainda era exibida na tela, e pela primeira vez eu senti vontade de responder àquela pergunta. Enquanto o ônibus serpenteava pelo trânsito e as batidas do rock alternativo chegavam aos meus ouvidos comecei a pensar numa boa resposta. A minha primeira constatação foi que eu realmente não era feliz, mas isso só me levou a outro questionamento: em que era baseada a minha felicidade? Listei mentalmente algumas coisas que me deixavam feliz, e percebi que em grande maioria o que elas me proporcionavam era uma felicidade passageira e fútil, nada que me deixasse daquele jeito, como quando uma mulher que muito queria ser mãe tem um filho, alguém com câncer ganha um transplante ou um garoto que era mal na escola vence um campeonato de xadrez, pois essas felicidades, sim, são verdadeiras e nos fazem mudar para o resto da vida.

Digitei a resposta rapidamente, sendo, através das palavras, mais dramático do que gostaria. Enviei. A sensação de estar entrando em contato com alguém que eu nem ao menos conhecia não me era estranha, talvez porque aquelas mensagens haviam se tornado tão frequentes que me acostumara com elas.

O homem de meia-idade ao meu lado levantou-se e puxou a cordinha que sinalizava a parada, nós tínhamos atravessado já quase metade do caminho e o garoto ainda estava lá, em pé e submisso aos balanços do ônibus. Logo o lugar ao meu lado ficou vazio e ele veio na minha direção, eu podia não lembrar o seu nome, mas a sua aparência era inconfundível. O cabelo preto tinha vários tamanhos, com algumas mechas longas e curtas espalhadas pela cabeça, de modo que uma cobria todo o seu olho esquerdo, como um tapa-olho. Ele sentou-se ao meu lado e me encarou por alguns segundos, o único olho visível tinha um tom azul que contrastava perfeitamente com o seu rosto pálido.

Tirei um lado do fone, pois achava falta de educação falar sem escutar os outros.

-Bom dia. – Tentei esboçar um sorriso, mas quando está se sentindo mal por não conhecer alguém é meio difícil fazer isso.

-Bom. – O garoto respondeu inexpressivamente e continuou a me observar, como se eu fosse um animal estranho que merecesse sua atenção.

Desviei o seu olhar passando a ver, através da janela do ônibus, as construções domésticas dos bairros residenciais serem substituídas por prédios empresariais cada vez maiores, à medida que chegávamos ao centro. Eu ainda conseguia sentir o seu olhar, o que estranhamente estava me deixando nervoso.

-Ãh… – Virei na sua direção novamente e comecei a balbuciar, falando o que achava que ele queria escutar. -Foi mal não ter… Sabe, ajudado.

Fiz um gesto indicando o corredor. Eu realmente não me sentia bem por não ajudá-lo e também por nem saber o seu nome, apesar de vê-lo todos os dias. Por um segundo achei que o garoto fosse rir da minha cara, mas ele apenas abriu um sorriso torto e – finalmente – desviou o olhar, começando a desenrolar o fone de ouvido que acabara de tirar do bolso.

-Não. – Ele começou a falar enquanto desfazia os nós dos fios. -Você agiu muito bem, pelo menos não fez o que a sociedade acha que você deveria fazer, você foi autêntico. – E voltou a me observar.

A sua resposta foi tão elaborada que eu tive que lembrar sobre o que estávamos falando, e achei estranho por ser algo tão banal. O ônibus fez uma curva, o vento da janela fez seu cabelo se afastar do olho esquerdo, revelando uma íris de cor castanho-escuro, completamente diferente da direita. Pisquei algumas vezes e engoli em seco, me xingando mentalmente por não saber disfarçar o que estava pensando.

O garoto à minha frente soltou um suspiro e afastou a mecha de cabelo do olho, como se já estivesse feito aquilo milhares de vezes, do que eu não duvidava muito. Os olhos de cores diferentes faziam parecer que um era maior que o outro, de modo que se tornou ainda mais cruciante ser fitado pelos dois ao mesmo tempo.

-Heterocromia, uma anomalia genética que me fez nascer com mais melanina em um olho do que no outro, e não, eu não enxergo mais escuro de um lado. Por que as pessoas sempre têm essa dúvida? – Ele finalmente conseguiu separar os fones e logo colocou apenas um dos lados no ouvido, o que indicava que queria manter a conversa.

Eu não sabia se devia sentir pena ou inveja dele, afinal, ter olhos multicolores tinha lá seu lado bom e ruim.

-Legal. – Comentei, pois isso me pareceu a coisa mais inteligente a se dizer.

Ele me olhou com o cenho franzido e permaneceu em silêncio por alguns instantes, como se conversasse consigo mesmo, soltando após um tempo:

-Estranho, a maioria das pessoas me pergunta por que não uso lentes de contato pra disfarçar. – E continuou com um dedo no lábio inferior e o olhar meio perdido. -Mas a verdade é que isso não seria nada autêntico da minha parte, se você quer saber a resposta, e ter esses olhos é até legal e sexy, só é chato quando algumas pessoas me olham como se eu fosse uma aberração ou deficiente físico. Vamos?

Ele terminou com um sorriso divertido no rosto, e eu não pude evitar correspondê-lo. Olhei pela janela do ônibus, de fato nós já estávamos chegando ao ponto da escola e eu me surpreendi ao ver que o tempo havia passado tão rápido. Eu sempre ouvia falar sobre a relatividade do tempo quando estamos nos divertindo, mas raramente experimentava essa sensação.

Nos levantamos e descemos pela porta da frente. Algumas quadras ainda nos separavam da escola, onde possivelmente nós não trocaríamos sequer uma palavra. Segui logo atrás dele, alguns alunos também se locomoviam na mesma direção, mas o silêncio entre nós só era quebrado pelo barulho das correntes prateadas que iam de um lado a outro da sua calça, tilintando umas nas outras. O resto do seu visual era composto por um suspensório que transpassava em ‘X’ nas costas e várias pulseiras em ambos os braços, todas de couro preto e apinhadas de minúsculos espinhos de metal, algumas mais largas que outras. Além do braço esquerdo, que, até a altura do pulso, era coberto por uma tatuagem tipo psicodélica, cheia de cores vibrantes formando dezenas de desenhos aparentemente sem sentido, eu mesmo poderia passar horas distinguindo cada detalhe daquela tatuagem.

Ele andava lentamente e cabisbaixo, deixando o cabelo cobrir um dos olhos, como eu o vira no ônibus. Era impressionante como, mesmo convivendo tanto tempo com as mesmas pessoas, ainda ser possível descobrir algo novo sobre alguém, isso me faz perceber o quanto cada um é único, com seus segredos e peculiaridades, inclusive eu, com essa mania de tirar conclusões mirabolantes de trivialidades do cotidiano.

Estávamos a poucos metros da escola quando o garoto tirou do bolso da jaqueta um gorro azul com um floco de neve desenhado na frente e o colocou na cabeça, ajudando a manter o cabelo sobre o olho.

Não me preocupei em segurar uma risada, o contraste proporcionado pelo novo acessório o deixara – se é que possível – ainda mais excêntrico. Apesar disso, eu pareci ser o único a estranhar aquilo, toda a escola parecia acostumada com o seu estilo, e talvez estivesse mesmo, o que só comprovaria a minha falta de atenção com o que acontece ao redor.

Acompanhei com o olhar o garoto subir as escadas para o primeiro pavimento da escola e sumir em meio à multidão apressada pela sirene. Como de praxe, fui pra minha sala, que ficava no térreo, e passei longas duas horas tendo que aturar os professores entrarem com suas caras de tédio e saírem igualmente, senão piores.

Ao chegar a hora do lanche, peguei meu sanduíche e um copo de suco, seguindo para uma mesa vazia no pátio. Logo meus amigos se juntaram a mim. O meu grupo não era nada tão extravagante, ali à mesa estavam Caio, Hellen e Anastásia, cada um mais estranho e único que o outro. Nós havíamos nos conhecido no primeiro ano e desde então fazíamos – quase – tudo juntos. Até hoje eu não entendera o que realmente nos unira, já que pouco tínhamos características em comum. Mas, pensando bem, talvez esse era o nosso diferencial, por não nos encaixarmos em nenhum grupo acabamos por formar o nosso próprio. Sem regras, sem exigências, apenas quatro amigos unidos para enfrentar o tenebroso ensino médio.

Hellen e Ana eram as mais tagarelas, naturalmente. Sempre falando sobre seus livros e séries preferidos. Caio passava metade do dia com seus fones de ouvido na altura máxima e, quando tinha algo para nos falar, o fazia aos gritos. Às vezes acho que ele escutou tanta música alta que perdeu o senso de volume sonoro. E eu… Bem, sempre tento me interar nas conversas de todos, mas sempre me sinto à parte, como se não me encaixasse não só em algum grupo, mas no mundo em si. Se algum dia eu tivesse que me descrever em poucas palavras, eu diria que sou um mero observador do mundo, pois é isso que eu melhor sei fazer: observar.

E por falar nisso, enquanto os vinte minutos de liberdade se passavam aproveitei para olhar em volta atrás da figura que encontrara mais cedo. Não foi difícil achá-lo, o que me intrigava era o fato de que eu nunca havia notado como ele era diferente de todos por ali. Eu sempre via a população daquela escola através de uma máscara de preconceitos, para mim só havia dois tipos de pessoas: as patricinhas fúteis que se preocupam mais com a aparência do que com o próprio intelecto e os arrogantes e alienados garotos, que, ao invés de falar normalmente, gritam em um dialeto que eu pouco entendo, como em uma sociedade primitiva da idade da pedra. Mas aquele garoto não, ele parecia… Como nós, um deslocado.

Apesar da minha perícia em observar as pessoas, eu demorava um tempo para descobrir o que queria, e como estava curioso, chamei a atenção das garotas à minha frente. Elas não eram exatamente as mais bem informadas dali, mas eram garotas, e só isso já faz com que saibam mais coisas do que eu.

-Sem querer atrapalhar a resenha do dia de vocês, mas… O que sabem do gótico estranho ali?

Aparentemente confusas, elas olharam na direção em que eu havia apontado e voltaram pra mim.

-Primeiro: ele não é gótico, e sim, no máximo, um aspirante a rockeiro. Segundo: Não sei muito a respeito dele, só que é do outro segundo ano e era amigo da… Allana. – Disse Hellen.

Ela dissera o nome da garota num tom mais baixo, pois aqui remetia a um assunto ainda tratado como tabu na escola. Tudo por conta de uma longa história que ocorrera no ano anterior. Uma garota, a tal Allana, saiu da escola na metade do ano letivo, depois de vários acontecimentos estranhos terem ocorrido. A coordenação comunicou a saída da garota em todas as salas, dando como justificativa ‘‘problemas de saúde’’. Mas, como sempre acontece, a verdadeira versão do que aconteceu com ela veio à tona: o motivo que a tirou da escola foi nada menos que um surto psicótico, que lhe rendeu um laudo médico e uma longa estadia no hospital psiquiátrico da capital. Nunca mais tivemos notícias dela, mas mesmo assim todos acharam melhor esquecer o ocorrido.

-Humn… Ok, podem voltar a falar do… Qual é mesmo o nome do livro do momento?

Ana bateu um livro de capa vermelha no meu braço e se aproximou, inclinando-se sobre a mesa.

-Tsc, tsc… Por que perguntou sobre o estranho da outra turma? Você nunca pergunta sobre ninguém por aqui. – Ela semicerrou os olhos.

Engoli em seco, eu só estava curioso, mas duvida que elas fossem acreditar nisso.

-É só que… Talvez ele seja meu novo vizinho.

Levantei as sobrancelhas, como se esperasse que aquela resposta fosse o suficiente. Antes que elas pudessem dizer algo a sirene tocou sinalizando o fim do intervalo e eu me levantei às pressas. Toquei no ombro de Caio e fiz um sinal dizendo que era hora de voltar, ele assentiu e também levantou-se, me seguindo de volta pro inferno… Ou sala de aula, como preferir.

Só pra constar, as aulas começavam pela manhã e só terminavam no início da noite. Nós almoçávamos na escola e continuávamos lá por toda a tarde. Pode parecer, mas isso não era generosidade, era só um jeito de nos aprisionar ali por mais tempo.

Os últimos horários passaram relativamente rápidos, felizmente. Depois de mais quarenta minutos no caminho de volta, eu estava em casa novamente. Enquanto guardava meus materiais lembrei que não vira o garoto na volta da escola, mas não dei importância a isso.

O resto da minha noite foi o mais normal possível, com exceção do fim.

Deitado na minha cama, a minha cabeça estava tão absorta em pensamentos que eu poderia passar horas acordado só para organizá-los, o que, pra mim, era incomum. Depois de toda a maratona cotidiana eu costumava apenas encostar a cabeça no travesseiro e adormecer instantaneamente.

Para ajudar, coloquei os fones de ouvidos e selecionei a lista que eu preparara especialmente para essas ocasiões. Eu sei, cada um com as suas manias. Mas o que importa é que funcionou, em pouco tempo eu estava dormindo e, o melhor, começando a ter um sonho.

A hora de dormir sempre foi a minha preferida, não só porque eu sempre estava cansado de um dia estafante, mas também porque eu sempre gostei de sonhar e, como já falei, os sonhos são responsáveis por grande parte das minhas conclusões.

Eu estava em um lugar calmo, bem iluminado e arbóreo. O vento fazia as plantas ao meu redor se moverem com uma graciosidade nunca presenciada por mim, talvez vista apenas em filmes. O chão, porém, não parecia natural. Era um mármore alvo com finas veias negras desenhadas pela natureza. Dei alguns passos, eu me sentia tão leve quanto as folhas que tocavam meus braços, provocando uma sensação de frescor. À frente, uma sombra se movia para um lado e para outro, ao som de uma música que só agora vim perceber que estava tocando. Eu ouvia pouco, nada além de uma voz e um violão ao fundo. Inesperadamente me dei conta de algo, uma sensação, que se avultava no meu interior, chegando até minha garganta como uma onda, uma ânsia. Quase chegava a doer, mas era algo bom. Eu estava feliz.

Publicado por Renly em: Agenda | Tags: , , , ,

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