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conto da noiteO Conto da Noite
Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

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Um dia na vida de Madame Oriana

LZ127_Rio

 

Oriana espalhou os papeis sobre a mesa de mogno e os encarou, franzindo a testa delicada. Acendeu sua cigarrilha e cruzou as pernas.

– Percebes, senhorita? Eu não viria se…

– Eu prefiro madame, capitão – interrompeu ela, virando-se para o homem em trajes militares que estava de pé ao seu lado. –, mas sim, estou vendo. Todas as covas encontradas abertas eram de mulheres?

– Eram, e ainda tem mais. Todas se chamavam Rute, e vês aqui, – Ele apontou para um dos papeis. – levaram a cabeça desta última. O coveiro disse não ter notado nada durante a noite.

Madame Oriana (respeitemos sua preferência) observou mais de perto a fotografia preto-e-branca. Rute Montenegro Tavares, dizia a lápide, e um esqueleto sem cabeça jazia no caixão aberto.

– Já identificaram algum parente?

– Bem, sim, mais ou menos… – ele retirou o quepe verde escuro da cabeça e secou a testa com um lenço que pegara no bolso. Aquela mulher o deixava nervoso, e não só por sua beleza exótica e sua sapiência, mas também por seu perfume estonteante, que sentira com ainda mais intensidade quando se debruçara para lhe apontar a foto. – Os pais dela morreram ano passado e não possuía irmãos. Entretanto, há seu ex-marido e seu filho…

– Por que tanta hesitação? Onde eles estão?

– Aí que está, eles são boticários, a madame já deve ter ouvido falar do senhor Augusto Tavares. – Madame Oriana acenou, liberando uma baforada suave pela boca. – Pois bem, ele foi capturado pela Igreja semana passada e trazido para a Ecclésia, sob crime de prática de alquimia. O mancebo seu filho, Alberto, conseguiu fugir antes de ser pego.

– Excelente, capitão Albuquerque. É seu dia de sorte. Aceitarei este caso. – Ele esboçou um sorriso aliviado, enquanto ela se punha de pé e ia até a mesa de cabeceira que havia ao lado de sua cama com dossel. Era ali dentro que ela guardava Madalena, sua querida Remington mil oitocentos e cinquenta e oito, calibre ponto quarenta e quatro. Apesar da mais recente moda dos revólveres a vapor, que utilizava a tecnologia da água a alta pressão e superaquecida, Madame Oriana ainda preferia as boas e velhas armas de fogo. Mais caras e menos práticas, realmente, mas mais leves e charmosas.

– Vai ficar parado aí? Já pode se retirar, capitão. Entrarei em contato em breve.

– Sim, madame. Obrigado – disse antes de sair do quarto da pensão de luxo onde a dama morava. Ela revirou os olhos, ajeitando seu espartilho e prendendo a arma ao coldre em sua coxa, que permanecia coberto por seu vestido vermelho de seda.

Em seguida abaixou-se e pegou uma maleta debaixo da cama. Dentro dela havia seu estoque de Quintessência, em pequenos frascos cor de âmbar. Pegou um deles antes de sair.

Na sala da pensão, dona Josefina trabalhava numa máquina de costura e seu neto brincava no chão com uma locomotiva de brinquedo.

– Bom dia, Jô – disse Madame Oriana para a senhora, enquanto bagunçava com afeto os cabelos do garotinho.

– Bom dia, Ana. Tudo certo com aquele militar que acabou de sair?

– Tudo, minha querida. Vou trabalhar num novo caso.

– Parou de ir no jornal?

– Não, mas só estou escrevendo algumas matérias especiais de vez em quando. – Ela foi até a porta e pegou sua sombrinha branca que estava pendurada no cabideiro. – Estou de saída, não voltarei para o almoço. Fica com Deus.

Estacionado em frente à casa estava o belo Ford T de Madame Oriana, mas ela não o usaria naquela manhã. Seu destino era a Ecclésia, e esta se encontrava há pouco mais de três quarteirões dali.

Tinha três meses que ela comprara o carro. Seus feitos passaram a ser conhecidos em todo o Rio de Janeiro desde aquele dia em que desmascarara a Máfia do Aeródromo, e a partir daí seu trabalho de jornalista investigativa passou a se confundir com o de detetive particular, exigindo-lhe um automóvel. Os militares costumavam pedir sua ajuda em casos como aquele que acabara de aceitar. Eles eram receosos em se meter com a Igreja, mas ela não.

– Perdão, senhorita – disse um homem que quase se esbarrara com Madame Oriana ao virar uma esquina, deixando cair sua cartola, todavia ela não lhe deu atenção. Naquele momento estava pensando em Augusto Tavares. É claro que ela já havia ouvido falar daquele que era provavelmente o boticário mais renomado do Brasil, porém o motivo que levou alguém a violar o túmulo de sua finada esposa e ainda arrancar-lhe sua cabeça decomposta era um mistério que pairava nebuloso na mente dela.

Magia negra? Decerto que não. Ela acreditava que aquilo não passava de invenção da Igreja para se livrar de pessoas indesejáveis…

– Dá um Réis, dona. – pediu um mendigo imundo, sentado na calçada. Madame Oriana o olhou com repulsa e ignorou seu apelo, seguindo direto. Volta e meia ela precisava da ajuda de mendigos em suas investigações, mas imaginou que, pela data, a polícia logo apareceria para limpar o bairro e ela nunca mais veria aquele homem. Além do mais, a rua estava deserta. Qual o sentido de fazer caridade se não há ninguém para ver?

Em mais dois minutos de caminhada, a imponente Ecclésia cresceu diante dos olhos de Madame Oriana.

A Ecclésia era a central da Igreja no Brasil. Lar do famoso arcebispo Gregório Vasconcelos e todos seus subordinados responsáveis por grandes feitos que iam desde as missas do domingo às execuções em praça pública. Nalgum universo paralelo a este isto poderia ser visto como medidas medievais, mas não estou aqui para conjeturar.

Seu terreno tinha o tamanho de quatro quarteirões. Cercados por uma alta e grossa grade preta bem trabalhada havia um jardim verdíssimo e vários prédios majestosos de mármore branco numa arquitetura neoclássica marcada pelo uso de colunas coríntias que em nada se assemelhava ao barroco que dominara os edifícios sacros nos séculos anteriores.

No jardim, entre palmeiras, arbustos e paus-brasil tinham várias esculturas de cobre em tamanho natural de sacerdotes ilustres e reproduções de personagens bíblicos.

Madame Oriana localizou os portões, onde haviam dois guardas. Abriu seu frasco de Quintessência, passou um pouco do perfume no pescoço, guardou-o novamente num bolso discreto em seu vestido e foi até lá.

– Bom dia, oficiais – cumprimentou ela, abrindo um sorriso radiante.

– Bom dia, senhori… – começou um deles, antes de levar uma forte cutucada do outro.

– É madame, todo mundo sabe disso – murmurou, voltando-se então para ela, também sorrindo. – O que podemos fazer por ti, madame Oriana?

– O senhor Valdomiro está?

– Ah, certamente. No prédio dos escritórios. – Ele tinha uma expressão abobalhada, mas não vamos julgá-lo por isso. –  Posso acompanhá-la, se desejar.

– Não tem necessidade, Raul. Já conheço bem o caminho – disse ela, atravessando então os portões e deixando os dois homens a cochichar em suas costas.

Contornar o senhor Valdomiro, assistente do arcebispo, não era assim tão fácil. Há quem dizia que ele não caía nos encantos da dama porque era dado às pederastias (e, cá entre nós, as más línguas falavam a verdade), mas nem só de feromônios modificados era baseado o carisma de Madame Oriana.

– Desculpe-me, madame, mas Augusto é um prisioneiro da Igreja, nenhum civil pode falar com ele. – disse Valdomiro ao ouvir o pedido dela.

Madame Oriana sabia que a Igreja não fazia prisioneiros, o que só poderia significar uma coisa. Augusto era um alquimista talentoso o suficiente para despertar o interesse, e não o ódio, do arcebispo.

– Não sei se o senhor me entendeu. A polícia me mandou aqui. Só Deus sabe o que eles passam, não queriam se envolver num caso macabro como este. Apenas vou perguntar se ele sabe quem poderia ter feito aquilo.

– A madame que não me entendeu. Ele não está em condições de responder nada.

– É óbvio que eu entendi. E provavelmente eu não verei nada que já não tenha visto, ou pior. Quero falar com o arcebispo, então.

Valdomiro suspirou, cansado, e sentou-se na poltrona de couro que havia em sua sala.

– Ele não pode agora, o presidente veio vê-lo.

– Tenho certeza que tu sabes que eu trabalho n’O Paiz. Vocês estão perdendo popularidade, e eu não acho que mais publicações sobre os Carboríngios vão melhorar isso.

Há alguns anos ela poderia ser executada caso a Igreja se irritasse com seu comportamento intrusivo, mas não naqueles dias. Desde o primeiro atentado Carboríngio, as pessoas se mostraram menos sujeitas a aceitar o poder ditatorial da Igreja. Infelizmente a criminalidade aumentou em cinco por cento, mas isso era de se esperar.

Os Carboríngios eram uma espécie de seita revoltosa. Uma sociedade secreta cristã que lutava contra a forma como a Igreja vinha deturpando a Bíblia para benefício próprio. Mataram cinco em seu último atentado, mas isso são detalhes. Os fins justificam os meios, afinal.

Valdomiro não respondeu nada, apenas encarou-a, irritado, balançando a cabeça.

– Tudo bem, desisto. Confesso que estava curiosa para falar com Augusto, por motivos pessoais, porém é claro que eu já notei que foram vocês mesmos que violaram o túmulo da esposa dele. Mas a procura de quê?

Um momento de silêncio, enquanto Valdomiro pensava numa resposta.

– Façamos um acordo então. Sim, fomos nós, obviamente. Mas não espalhe isso, o que procurávamos não lhe diz respeito. Nos ajude a encontrar Alberto, o filho de Augusto. Traga ele para nós e publique no jornal que ele era o assaltante de tumbas. A polícia ficará satisfeita, você terá mais um caso bem sucedido e quanto a nós… bem, é sigiloso.

– Agora sim estamos conversando. É claro que vocês teriam uma dívida comigo após isso, estou certa?

– Naturalmente. – Valdomiro balançou a mão, num gesto de desinteresse.

– Vocês fazem ideia de onde esse Alberto está?

– Achamos que Augusto saiba, mas não conseguimos retirar nada dele. Mas venha, você deve conseguir – disse ele levantando-se e fazendo um sinal para que a mulher o acompanhasse.

Os dois saíram daquele prédio e seguiram por um caminho de pedras brancas. Alguns sacerdotes cruzaram com eles e os cumprimentaram. Uma grande sombra de um dirigível que sobrevoava ali cobriu-os por alguns segundos.

Entraram num novo edifício, este de paredes mais grossas e sob vigilância de dois outros guardas do lado de fora e outros dois dentro. Era a prisão da Ecclésia, mas, a não ser no interior das celas, tudo ali era tão suntuoso quanto nos outros prédios.

Augusto era um velho alto, magro, de ralos cabelos brancos e uma barba espessa. Seus óculos estavam caídos num canto do cubículo, quebrados, e sobre uma cama velha tinha uma mala com roupas e pequenos objetos revirados. Havia sangue seco por todos os lados, e o rosto do alquimista estava sujo e desfigurado.

Valdomiro usou uma de suas chaves para abrir a cela. Madame Oriana entrou e ele se afastou, indo conversar com um dos guardas à distância.

– Bom dia, Augusto – sussurrou ela. – Não tenho muito tempo, eu disse para eles que minha mãe estava morrendo e que queria te perguntar sobre um medicamento.

O velho ergueu a cabeça devagar, mirando-a com olhos confusos. Madame Oriana olhou para trás rapidamente, como que checando se Valdomiro não estava prestando atenção nela.

– Não sei se tu já ouviste falar de mim, sou jornalista e estou tentando desmascarar as atividades secretas da Igreja. Posso até conseguir com que você não seja executado. O governo estadunidense está do meu lado. Seu filho pode nos ajudar, mas não sabemos…

– Pronto, Oriana? – perguntou Valdomiro num tom arrogante que fazia parte da encenação.

– Já vou. – Madame Oriana arregalou os olhos para Augusto, nervosa, e percebeu que ele estava caindo. Seu perfume enchia o ambiente daquela cela fétida.

– Relógio – murmurou ele e lançou um olhar rápido para a mala na cama. – Doze e quarenta e dois.

Ela se pôs de pé e foi até a mala, onde, entre roupas amassadas, encontrou um relógio de bolso de latão, que rapidamente sumiu em suas vestes. Ela não sabia o que aquilo significava, mas torceu para que ajudasse. Saiu da cela e olhou para Augusto pela última vez. A agitação dele a deixou comovida, talvez com o que poderíamos chamar de pena.

Valdomiro perguntou se ela tinha descoberto alguma coisa, mas ela decidiu manter o sigilo naquele primeiro momento. Disse que ainda não tinha certeza e que voltaria em breve.

Ao se ver fora da Ecclésia, Madame Oriana analisou o relógio que pegara. Parecia normal, até que ela girou o mecanismo e acertou a hora para doze e quarenta e dois. Neste momento, algo pareceu estremecer dentro do objeto e este começou a tiquetaquear bastante lentamente, com um espaçamento de uns oito segundos entre um tique e outro.

No início ela não entendeu o que aquilo significava, até notar que, de acordo caminhava, a frequência dos tiques aumentava. Deu uns passos para trás e viu a frequência diminuir quase imperceptivelmente.

Excitada, Madame Oriana voltou para casa, pegou seu calhambeque novo e pôs-se a seguir o sinal do relógio.

Vinte minutos depois o tique-taque do relógio já era frenético. Madame Oriana deveria estar perto. Ela parou o carro em frente a um hotel numa rua movimentada quando o som proveniente do relógio tornou-se um apito baixo constante.

Estacionou e entrou no hall. Ignorou a saudação da recepcionista e subiu as escadas que levavam para os quartos. Logo no primeiro andar, o relógio começou a vibrar em sua mão. Caminhou devagar pelo corredor e parou quando o apito do relógio ficou alto o suficiente a ponto de incomodar.

Estava diante do quarto cento e três. Ela girou o mecanismo do relógio, mudando a hora e fazendo-o parar de funcionar. O silêncio foi bem-vindo aos seus ouvidos, mas não durou muito. Escutou o barulho de vidro se quebrando dentro do quarto e, ao que parecia, uma pesada respiração nervosa.

Esticou o braço. A porta estava trancada. Sem titubear, ergueu alguns centímetros do vestido e pegou seu revolver, apontando-o então para a maçaneta e estourando-a. A porta se abriu com violência no momento em que um rapaz pulava pela janela.

Vamos congelar esta cena por alguns instantes, pois há coisas importantes aqui e não voltaremos a ela depois.

O quarto do hotel é pequeno e tem um forte cheiro de mofo. Há um banheiro minúsculo na lateral, e na pia, de molho numa solução alcoólica suja de graxa, há várias engrenagens e peças mecânicas.

Em cima da cama desarrumada há um relógio idêntico ao que Madame Oriana tem nas mãos. O jovem, que aparenta ter seus vinte e um anos, está bem vestido, com camisa, calça e colete, possui uma grande pistola a vapor pendurada nas costas e se chama Alberto. Sua expressão é assustada, entretanto, naqueles milésimos de segundos, Madame Oriana nota a semelhança que ele tem com o pai.

Pronto, deve ser suficiente.

O rapaz pulou e Madame Oriana escutou gritos vindos da calçada. De súbito ela voou para as escadas e desceu para a rua, de onde foi capaz de vez o fugitivo mancando para longe dali. Ela deu um tiro para o alto e pôs-se a correr em seu encalço, empurrando sem dó qualquer um que estivesse em sua frente.

– Nossa Senhora, o que é isso! – exclamou uma velhinha quando viu a correria.

Alberto se agarrou a um bonde que passava e puxou a arma de suas costas, apontando para Madame Oriana e apertando o gatilho. Uma violenta esfera de vapor foi lançada, acertando Oriana no peito e jogando-a para trás.

Ainda do chão, ela mirou pacientemente seu revólver para o rapaz, e antes que o bonde virasse na esquina, ela atirou, acertando o jovem no ombro e derrubando-o no meio da rua.

Madame Oriana se ergueu, tirando a poeira do vestido, guardou sua arma e foi até Alberto, que havia desmaiado ao cair do bonde em movimento. Pessoas se juntavam ali ao redor, olhando assustados para ela.

– Tu estás é louca, minha filha? – exclamou um senhor, indignado.

– Perdoe-me o transtorno, meu senhor. Este rapaz é um procurado da lei – disse enquanto rasgava um pedaço da barra de seu vestido a amarrava com força ao redor do ombro de Alberto. Entretanto, o homem não estava mais embravecido. Nenhum deles ali.

– Pode me ajudar a levá-lo para o carro? – ela pediu para um mecânico encorpado que vira o ocorrido e encostara para ver. E seria redundante dizer quão rápido ele acatou o pedido.

Quando Alberto acordou, demorou a se situar. O ombro parara de sangrar mas ainda doía. Olhou ao redor e notou que se encontrava numa velha estação de trem abandonada. Como vim parar aqui? foi a primeira coisa que pensou, confuso, porém lembrou de tudo quando viu Madame Oriana sentada há alguns metros, perto dos trilhos. Ele tentou se sentar mais confortavelmente, mas uma corda que o atava a uma pilastra o impediu.

– O que vocês fizeram com meu pai? – perguntou ele, exaltado.

– Seu pai está na Ecclésia. Eu não sou da Igreja, se foi o que pensou ao fugir.

– O que você quer comigo? Porra, você atirou em mim!

– Por que a Igreja quer você e seu pai? – Madame Oriana se pôs de pé e se aproximou de Alberto. – Por algum motivo eles ainda não executaram Augusto.

– Eles querem o que meu pai descobriu. O Emplastro Panacético, o remédio universal. Seria a chave para eles saírem da fossa financeira.

Madame Oriana passou a mão pelos cabelos, pensativa. Aquilo era grande, inédito. Mas de que lado ela deveria ficar para tirar o máximo proveito?

Virou-se de costas, enquanto pensava, observando a paisagem dali. Aquela estação ficava na saída noroeste do Rio, e estava abandonada há cinco anos, desde que o fluxo grande de zepelins a tornou obsoleta. O mato nos arredores havia tomado conta do lugar e trepadeiras subiam pelas estruturas de metal enferrujado.

– Tu sabes como fazer este tal do Emplastro Panacético? – Ter algo como aquilo seria mais valioso que qualquer acordo que pudesse fazer com a Igreja, foi a conclusão que ela chegou.

Alberto hesitou. Será que seria sensato dizer a verdade?

– Seja sincero, quero te ajudar! – reforçou Madame Oriana.

– Não, eu não sei fazer. Meu pai que estava trabalhando nessa pesquisa.

– Tudo bem… – Madame Oriana foi para trás de Alberto e pôs-se a mexer nas cordas que o amarravam. – Uma última coisa. A Igreja abriu o túmulo de sua mãe. O que havia lá dentro?

O rapaz titubeou novamente, nervoso mas também aliviado por estar prestes a se ver livre.

– Como assim? Não faz sentido, eu não… AH! – Ele não pôde terminar a frase. Madame Oriana havia lhe dado uma coronhada, todavia não fora forte o suficiente para fazê-lo desmaiar. Ela deu outra, certeira dessa vez.

Fez um muxoxo aborrecido. O rapaz era inútil, mas ao menos, graças a ele, Madame Oriana cairia nas boas graças da Igreja.

Desamarrou-o e o arrastou até o carro. Jogou-o no porta-malas e partiu de volta para a Ecclésia.

Publicado por Caiuã em: Agenda | Tags: , , , , , , , , , ,
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Congelado

Eu nasci em uma época maravilhosa! Num mundo de vapor e engrenagens. Essa tecnologia nos permite cobrir enormes distâncias em pouquíssimo tempo, utilizando as sensacionais ferrovias. Utilizamos os engenho-contadores para fazer cálculos complexos quase que instantaneamente. Podemos voar como os pássaros, utilizando os balões dirigíveis e as asas à vapor. Sem contar as outras centenas de máquinas que nos ajudam em todos os campos de produção, desde a colheita na agricultura, a tecelagem, metalurgia, imprensa e etc.

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Publicado por cmoffatt em: Contos | Tags: ,
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A Máquina Diferencial

Um romance histórico de um passado que nunca existiu

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Capa do livro, muito bonita em minha opinião

William Gibson e Bruce Sterling são conhecidos principalmente pelo mérito de definir o que seria o Cyberpunk na literatura, com trabalhos como Neuromancer e a antologia Mirrorshades. No entanto, A Máquina Diferencial (Editora Aleph, 2012; 456 páginas; R$ 55,00)  não leva o leitor até um futuro distópico. O livro, escrito simultaneamente pelos dois autores durante um período de sete anos, traz à tona uma Era Vitoriana onde vapor e computadores fazem parte do cotidiano. Além de serem os precursores do Cyberpunk, os dois autores acabaram escrevendo uma das maiores referências do Steampunk.

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Colméia em chamas – Detrás do smoking

Escritor: Thiago Vieira

Uma série de contos steampunk¹ ambientados em Iarainn

 

EXISTEM LUGARES QUE PRECISAM FICAR POR BAIXO DO TAPETE, longe dos holofotes e do glamour. Em Iarainn há vários destes lugares. Os distritos periféricos, também chamados de ‘zonas negras’, constituem a poeira que precisa ser escondida na metrópole de ferro. Longe dos patamares elevados, da luz e do ar puro, imersos nas sombras, no vapor e no esquecimento. É exatamente assim com o distrito leste, também conhecido como a ‘antiga zona de expansão’. Há cerca de doze anos atrás este local esteve à pleno vapor, centenas de zangões – os donos das fábricas de aço, soldagem e escavações – contratavam milhares de operários para trabalhar nas galerias. Milhões de dinaros foram investidos naquele local, com a promessa de uma nova escavação e um novo acesso à luz por aquele lado, possibilitando novas moradas para a emergente camada dos investidores da criação daquela fabulosa cidade escarpada na rocha: os próprios zangões.

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Colméia em Chamas – O princípio das cinzas

Escritor: Thiago Vieira

colmeia-em-chamas

Uma série de contos steampunk¹ ambientados em Iarainn

AS RUAS LABIRÍNTICAS DA CIDADE EDIFICADA SOBRE O METAL E O VAPOR, IARAINN, reservavam um modo de vida organizado, sentenciado pelo trabalho e progresso. Desde a ascensão da nova imperatriz, Nóinin Cascadoura, um novo ímpeto tomou conta da cidade. Construída numa grande encosta rochosa a cidade se formou escarpando os paredões e adentrando sobre a força de grande furadeiras metálicas e vigas de sustentação, formando uma grande arquitetura em forma de colméia. Um grande ‘caixote’ encaixado sobre a rocha.

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