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conto da noiteO Conto da Noite
Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

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Chumbo e Bala


Por: gu1le

Olá para todos! Boa tarde, boa noite, bom dia! O tempo tá bom, os ventos macios, o céu tá varrido, eu tô quentinha e, o rio ainda corre para o mar. Então, olá! Tudo de bom para os senhores e para as senhoras. Meu alô mando também, pros menino e pras menina menor. Enfim, pra todos que estão lendo minha história. Agora permitam-me apresentar-me.

Eu sou a bala na cabeça de Burt. É isto mesmo, eu sou a bala na cabeça de Burt. Imagino que você deve estar decepcionado pois, se eu sou a bala na cabeça de Burt; então Burt deve estar morto certo? É, pois é aí que você se engana! Pensa de novo.

Hellouuu? Eu disse que era a bala que atravessou a cabeça dele?
Não.

Eu disse que era a bala que explodiu a cabeça dele?
Também não.

E eu disse, que era a bala que ao atravessar a cabeça dele a explodiu em pedaços como uma abóbora podre e, foi cravar-se num muro rajado de sangue?
Na-nani-na-não. Também não, também não.

Eu lhe disse que tipo de bala era? Ene-á-ó-til, não.

E se eu fosse uma bala de Extasy? O que claro, não é o caso pois, eu sou uma legítima bala de chumbo. Estou te explicando estas coisas, para que você abra a mente para esta história, a minha história de como fui parar na cabeça de Burt.

Ele modificou minha trajectória neste mundo. Me deu um lugar pra morar. Ele é importante pra mim, sabe? E eu? Eu mudei a vida dele. Mudei a forma dele ver o mundo. Mudei o mundo pra ele. De dentro para fora, do jeito certo que tem que ser feito.

Eu e meu mano, estamos correndo juntos já faz um tempinho uns anos, quatro ou cinco anos. Eu me hospedo numa parte do cérebro que, para minha sorte é muito pouco usada por Burt, por isto, aqui tenho bastante espaço. Estou bem não se preocupe comigo que, estou bem. Até agora. Preciso apenas redecorar o ambiente aí estarei em casa. Qualquer coisa eu te mando um SMS e e-mail com as fotos em jpg do meu cafofo. Burt é alto, moreno claro, não tem barriga, é um feixe de músculos careca. Tem pouco cabelo, então raspa a cabeça. Um bom lugar pra se morar.

Mas voltando a vaca fria, tem umas paradas me incomodando mas, num é béeem comigo.

Veja:

Quem tem problemas grandes mesmo é Burt. E estou sabendo, que tem uma porrada de outras balas querendo entrar na cabeça de Burt. Não só na cabeça. Nas perna, nos pulmões, no estômago, coração, nos intestinos deste meu mano que, me deu um lugar tão aconchegante pra ficar. Eu tenho muitos amigos aquí. Não vou sair. Não pago aluguel, por que eu invadí, mas protegerei ele até o fim e, se algum dia alguém tiver de mata-lo; este alguém será eu.

Existem recordações que não se apagam. A gente revive ela, várias e várias vezes como agora. Enquanto eu conto para vocês, eu estou lá. Entende?

————————————————————————————————————–

Estamos, fugindo em desabalada carreira. Tá escuro. Aqui é um vasto matagal que rodeia um lixão que nunca viu dias melhores. Estou dando uma dor de cabeça média que mantém meu amigão ligado. Estou também pressionando de tabela, uma parte do cérebro de Burt que o enche de endorfinas e, o alucina ligeiramente dilatando suas pupilas, coisa fundamental neste momento pois, a escuridão é grande ao nosso redor mas, ele graças a minha pressão enxerga como se fosse dia. Estamos deixando nossos perseguidores a pé comendo poeira, mas não estamos rendendo muito em relação a caminhonete e os cachorros Pit-Bull.

Sebo nas canelas cara! Corre, corre, corre mais mano! Mais! Corre mais porrta! Vai seu porrta! Miserável! Corre se não eu mesmo te mato seu fila da pula! Vái morfético infiliz!

Encho ele de adrenalina movendo-me um décimo de milímetro.

Há uma erosão bem á frente uns duzentos metros. Eu sei que você pode ver. Tá escuro, mas você pode ver. Seis metros de largura mais ou menos. Você vai saltar sobre ela Burt. Ora, cale esta boca Burt! Você vai saltar sobre ela sim! Não me diga que não consegue se não, eu paraliso seu lado direito agora junto com o fígado. É Burt seus olhos vão saltar pra fora. É cara, será pior do que a morte. Pior do que aqueles caras vão fazer com a gente. Não me venha com esta conversa de medinho de fresco não. Mais uma vez tâmo quase fud graças à suas bestagens. Vai Burt! Não cara! Não é pra parar na beira do abismo e aí saltar. Olha, vai correndo, isto corre mais, salta com uma perna só no ultimo momento para cima, isto. Pra cima, não para frente, isto. Agora continua correndo que nem um retardado, enquanto estamos no ar. Isto mesmo, por que também caminhamos pelo ar (resistência mínima) e aí, quando você tocar solo, ou você perde o equilíbrio e cai rolando de lado ou, continuamos correndo.

O macio pasto barba-de-bode do outro lado, recebe os pés da gente. E conseguimos. Sartamo fora. Saímo di banda. Iúrrrú! By-by otários. Vemos as luzes de uma auto-estrada. Não devemos nos expor. Vamos à ela. Vamos caminhando ao lado dela, abaixo dela de preferência. Vamos pela vegetação que esconde os campos dos motoristas. Acharemos muitas coisas por lá eu sei.

Apesar de eu estar vestida de Burt, sinto-me miserável ao ver ele em farrapos. Vamos Burt, procure. A estrada sempre deixa presentes para os andarilhos que sabem enxergar. Uma mala com roupas ou, um tênis semi-novo…

Um único pé de salto alto agulha metálico, nos coloca novamente em confusão. Foi momento meu de distração e, meu brow depois de catar o salto, ver que não cabia no pé dele atira-o sobre os ombros. O salto, cai na auto-estrada acima da gente uns dois metros. Caminhamos uns cinco metros, aí ouvimos o som de pneu explodindo, freiada, colisão, metal rompendo-se. Ô manoooooo? Poooooo**a Burt?!

What a Fuck?

Seu desmiolado!

De novo?

Já tava difícil. Agora, lascou de vez.

Ouvimos o ronco alucinado de um motor em giro total sem atrito e, primeiro um carro esportivo preto passa voando sobre nossas cabeças. Na seqüência uma caminhonete amarela cruza o ar, meio de lado. Ouvimos gritos. O carro bate de bico no chão espirrando grandes torrões de terra, grama e um passageiro. Ainda capota duas vezes e depois, fica com as rodas pra cima girando. Os faróis, iluminando a madrugada fria. A caminhonete. se choca lateralmente em gabiões, Brang! Prang! Scrrraaaatch! E fica parecendo uma panqueca, ou um omelete o que preferir, seus faróis também iluminando o sereno gelado da madrugada. O esportivo preto, ilumina a auto-estrada e parte da caminhonete. Já a amarelinha, ilumina um rio que passava ao fundo de uma ravina rasa de granito.

Fumaça de gasolina, cheiro de relva molhada e sereno da madrugada. Existe algo melhor que um aroma destes? E fumaça de gasolina, sereno da madrugada, mato molhado, piriguetes perfumadas em roupinhas apertadas, som auto-motivo, droga e escocês black label? Pois é meu amigo. Eu e burt temos agora tudo isto bem na nossa frente. Esmagado, partido, rachado e acho que vai explodir mas, por enquanto bem na nossa frente. Vamos a coleta. Não tem jeito a gente tem que viver né?

—————————————————————————————————————————————————————-

Olá para todos! Sem mais delongas vou também apresentar-me. Eu sou, o Chumbo da bala da cabeça de Burt. Sou por assim dizer, a alma da bala que está na cabeça de Burt. E lhes garanto uma coisa; não acreditem neles. Estes dois, são uns imprestáveis. Só vivem criando confusão e nos colocando a todos em encrencas. Um dia destes vocês vão saber a minha versão da história e, saberão a verdade. Agora eu tenho que ir, vou lavar uns pratos na cozinha que está uma bagunça. Não esqueçam-se de mim amigos. Eu sou o Chumbo da bala na cabeça de Burt.

————————————————————————————————

Ah… percebo! Vocês conheceram o Chumbo não é? Enquanto eu fui ali no banheiro, ele veio aqui tomou conta do corpo de Burt e meteu o pau na gente né? Pois bem. Eu não vou nem apagar. Nem apagar. Pois, o chumbo é um mentiroso de primeira. Só porque eu sou a forma, e ele é o conteúdo; não tem que ficar se achando melhor que ninguém não. Nós somos todos iguais e tâmo tudo na mesma médra. O que mata Burt eu acho, é o Chumbo. Pronto falei. O Chumbo é parte de mim, mas eu tinha que falar. E pior, o Chumbo ama Burt mais que eu. Ô vida complicada né?

Mudando de pau pra cacete, voltemos a vaca fria.

Grande foi nossa surpresa, ao percebermos que a caminhonete arrebentada era a mesma que nos perseguia pelo lixão. Imensa foi nossa alegria, por constatarmos que dois dos nossos perseguidores estavam vivos. Não por muito tempo. Eu e Burt iremos à forra!

Antes de irmos à forra primeiro, sexo, drogas e forró universitário. Vejamos este esportivo preto.

Nos agachamos e observamos o motorista era um jovem bombado. Já de cara, notamos que o sofisticado esportivo não tinha air-bags. O volante estava afundado na cara dele e, todo o painel sofisticadíssimo do carro, estava coberto de carne e sangue assim como o teto do carro. A passageira do banco da frente, que não usava cinto de segurança foi cuspida-ejetada no primeiro baque, e de onde estávamos, dava pra ver que agora namorava uma árvore cascuda ou então; estava tentando entrar dentro dela na marra. O carinha no banco de trás no lado do motorista, foi empalado no abdômen pela barra de direção, junto com o motorista morto; gemia baixinho sangrando pela boca. No teto, grandes bolas de sangue e vísceras estavam a ser formar. A garota ao lado dele chorava, mas não parecia ter sofrido nada de grave; apenas cortes superficiais. É, ela estava de cinto de segurança. Quando ela moveu uma perna debaixo do banco, apareceu uma garrafa de escocês lacrada junto com um saco branco e copos plásticos. O saco a gente jogou fora. O escocês, a gente derramou em um dos copos e bebeu umas belas goladas apenas para espantar o frio. Retiramos a menina pelo outro lado do carro, e a estendemos no chão de barriga para cima, só isto. Fomos para a traseira do carro e demos um chutão no porta-malas que se abriu derramando barraca de camping, mala com roupas masculinas, femininas, comida e garrafa d’água. Tiramos a sorte grande (temporariamente), graças ao azar de Burt. Aposto que tudo isto será péssimo para o Karma dele mas, temos que seguir em frente.

Agora Burt, arranca a roupa. É agora. É bicho, agora tipo neste momento. Ah, esquece o frio. Não! Não Burt, não pode mexer na mala de roupa agora véi! Vai na comida. Come pelado. Depois lava as mão. Aí então, é que você vai na mala de roupa e procura roupas e as veste. Temos que vazar logo daqui, mas vamos sair daqui limpinhos. Comer o quê Burt? Ah, coma o que quiser desde que não tenha uma caveira com dois ossos cruzados. O quê? Ah tá, bacon cru pode. Ovo cru quebrado? Pode. Queijo e presunto, claro que pode. Pão pode. Olha, você está me irritano carinha… Carne crua? Crua mesmo? Você gosta desta merdra assim? Hmmm… então pode. Acabou? Ok! Bebe água. Bochecha. Lava as mão. Ah esqueci, volta no carro e procura todo dinheiro que puder encontrar. Encontrou? Põe uma pedra em cima e vai caçar o que vestir mano. O quê? O bombado era policial? Melhor ainda. Pega os documentos dele também.

As roupas encontradas na mala do bombado, serviram bem em Burt apesar de, um pouquinho curtas. Mas é assim que eu gosto de ver meu brow. Casaco de couro, camisa pólo, calça jeans rústica e tênis importado. Adeus frio da madrugada. Mais golinho de escocês e, vamos ver a tal caminhonete amarela.

Nas proximidades da caminhonete amarela, encontramos um Taurus carregado e pegamos ele. Perto do riacho, vimos dois homens fortes meio grogues a se levantar. Deviam estar na carroceria, então caindo em campo aberto livre de obstáculos não feriram-se muito.
Burt ergueu a arma e apontou para o que estava mais longe, soltou a respiração bem devagar a seguir efetuou um disparo, atingindo o homem nos peito lançando-o aos berros dentro do rio que espero que o leve para o rio que desemboca no inferno. Fiquei feliz por um instante. Mais uma bala achou um lar. O outro, tentou correr em linha diagonal na direção a auto-estrada. Burt correu atrás, ligeiro como um lobo negro. Disparou um tiro e o homem caiu de joelhos. Disparou mais um e o homem arqueou as costas. Disparou o terceiro tiro e, a cabeça do homem explodiu. Tomamos mais um golinho de escocês por que estava muito frio demais, sabe como é né?

Dentro da caminhonete esmagada tudo era paz e quietude. Coletamos munição e algum dinheiro. Estes capangas aí, não irão escravizar despossuídos naquele lixão. É pagarem que a gente volta. Querendo, cinco famílias pobres podem juntar cinco mil reais em vinte dias. É só pagar que a gente volta.

Quando chegamos na auto-estrada vemos um caminhão atravessado na pista ligeiramente avariado. Está começando a congestionar a estrada. Burt dirige-se a ele e conversa com o motorista. Mostra a arma e lhe dá uma nota de 100. O faz beber o resto do escocês (quase cheia) depois mete um murro na têmpora dele. Arrasta discretamente o motorista desmaiado pro meio acostamento, rola ele suavemente dois metros lá pra baixo, melhor assim, vai ficar bem, vai ficar limpo. Remove o caminhão. Retira a carteira do bombado do bolso, dá uma carteirada de primeira; apresentando-a aos motoristas enquanto escolhe um carro para nossa fuga. Iremos de carona buscar reforços. Kkkkkkk. Foi tudo muito ligeiro. Polícia e bombeiros ainda demorarão uns vinte minutos. Até lá, eu e ele estaremos longe.

E é por causa deste tipo de vida que nós levamos, que eu sou a bala na cabeça de Burt.

Fim

————————————————————————————————————————————————
Ps1
Oi, eu sou Burt. Coitado do Chumbo, não sabe que é fruto da minha imaginação.
Ps2
Oi, eu sou Chumbo. Coitada da bala; ela não sabe que é fruto da minha imaginação.
Ps3
Oi, eu sou gu1le. Coitado do Burt, ele não sabe que é fruto da minha imaginação.
Ps4
Oi, eu sou a Mente. Coitado do gu1le, ele não sabe que é fruto da minha imaginação
Ps4
Oi, é a bala novamente. Estes todos acima estão delirando.
Todo mundo sabe que, quem manda nesta bagaça é a bala! Vai encarar?

Publicado por semanickzaine em: Agenda | Tags: , , , ,
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A Princesa do Castelo…

Era uma vez num castelo encantado, uma princesa. Uma princesa suja, maltrapilha e descuidada. Ah, e ela era preguiçosa, vale dizer. A danada da princesa era d´uma preguiça espantosa, preguiça essa que impressionava até os criados de seu pai, minúsculos duendes verdes que dia sim, dia não, fingiam fazer qualquer coisa – como trabalhar – para não serem despedidos. Afinal, eles gostavam de viver no castelo encantado.

A princesa era de tamanha preguiça que nem de seu quarto saía. Nunca era vista pelos corredores do castelo, zanzando e cantando com um vestido turquesa longo a flutuar no ar, como todas as princesas deveriam se portar. Nunca era vista fora de seus aposentos por ninguém.

Seu pai – o rei – fora um homem justo e honrado e nunca exigiu demais dos seus súditos. Exigia sim, aquilo que lhe era dado por direito. E ela devia isso a ele. Aprendera com ele, sabia o quanto lhe era permitido aceitar. Ou tomar, em tempos de guerra. Afora isso, era um rei calmo e cordial. Ela era uma princesa calma e cordial. A família toda era. Bem relaxados, sem essas crises que acometem os monarcas. Como limpeza, por exemplo.

O castelo era uma zona. Em todo canto viam-se sujeiras. Migalhas e farelos, restos deflagrados de comida eram fáceis de achar no chão da cozinha, no chão do refeitório e inclusive nos chãos dos quartos. Insetos disputavam os restos com pequenos roedores. Nunca se entendiam. A umidade impregnava tudo. A poeira que se juntava sobre os objetos acabava por se transformar numa pasta marrom de péssimo cheiro chamada lama. E essa lama tomava conta de absolutamente tudo no castelo. O que não era possuído por essa lama, era inexplicavelmente negro. Como se uma grossa camada de fuligem houvesse coberto tudo. Como se nunca tivessem tido outra cor. Não importava se era uma cama de feno de algum dos duendes ou se a mobília em mogno branco que a rainha usava para pentear os cabelos perante um espelho. Um espelho que já nem refletia mais, tamanha sujeira e gordura tinham se acumulado em seus longos anos de existência. Ocasionais tecidos rasgados eram vistos tremeluzindo no jardim. Sempre os mesmos, a mesmíssima bandeira. Sempre da mesma cor, sempre o mesmo estandarte, no mesmo lugar: A morsa azul, com suas presas pontiagudas e suas nadadeiras batendo no carvalho alto onde estava pendurada.

Certo dia, os moradores de um vilarejo nas proximidades resolveram fazer uma rebelião. Não agüentavam mais ter um rei. Não precisavam de um. O que um rei fazia por eles, exceto roubar-lhes a comida, a lã e o dinheiro pelo qual trabalhavam árduamente todo dia? Pelo qual plantavam e colhiam, não importando a estação. Pelo qual morriam e matavam, não importando a ameaça. Essas coisas lhes eram mais importantes. Um rei não precisava delas. Essas pessoas precisavam mais. Eram detentoras do direito de tê-las, elas a haviam criado e cultivado. A fabricado. Por quê continuariam depositando seus bens mais preciosos toda a volta da lua em frente a porta do castelo? A monarquia era coisa do passado. Ouviram boatos de que haviam lugares onde ela já fora aniquilada. Lugares onde não existiam mais reis, rainhas, princesas. Imaginem só, um lugar livre. Um lugar sem essa gama de prepotentes se apoiando docilmente em cima de nomes e berços. Cavaleiro disso, arcebispo daquilo, essas baboseiras de nomes infantis para ilustrar um lugar de prestígio na corte.

Iriam tomar o castelo e espetar a cabeça do rei numa vara, como um aviso, isso só para começar. Iriam pendurar bem na entrada, para que rei algum pensasse em chegar perto deles e daquele castelo novamente. Iriam arrancar os cabelos da princesa, cada fio, um a um. Depois a estuprariam, antes de enforcá-la. Iriam atear fogo na rainha, colada no trono. Que cada pedaço de metal inútil se unisse a essa porca gorda, queimando a pele e adentrando-lhe os poros, fundindo-lhe os ossos ao metal, um por um, um de cada vez. E qualquer outro morador do castelo iria morrer, não importava se era plebeu ou da corte. Quem é conivente com o pecado, é pecador. Quem trabalha para rei, será tratado como um.

Invadiram o castelo naquela mesma noite, sorrateiramente, sem fazer barulho. Aproveitaram a penumbra e avançaram por uma escada de madeira que haviam construído para esse fim. Eram em doze, sem contar as crianças que carregavam as adagas, espadas e tridentes. Subiram até uma janela do quinto andar da torre média, entraram e derrubaram a escada. Não queriam que algum guarda visse a escada alí e alertasse os outros. Chegaram a uma sala, atentos e com as armas em mãos, todos tentando prender a respiração, tentando escutar alguma coisa. Ocasionalmente um “xiu” era emitido por algum deles, tentando calar o mais próximo.

– Ouve alguma coisa?
– Porra nenhuma. E tu?
– Nada. Devem estar todos dormindo, já é tarde.
– Que fazemos? Matamos todos na cama?
– Não é covardia da nossa parte assim?
– É sim. Mas eu não me importo. E você?
– Eu não.
– Pensando bem, eu me importo sim. Vamos ficar aqui e esperar algum barulho, alguma coisa que indique que alguém acordou. Aí a gente ataca. Todo mundo de acordo?
– Sim!
– Sim!
– Sim!
– Xiu!
– Xiu nada! Acho que ouvi alguma coisa.
– O quê? Eu não ouvi nada.
– Nem eu.
– Eu também não.
– Tá, sinceramente nem eu. Comi um risoto de cogumelo no jantar, devo estar tendo alguma alucinação auditiva. Ou foi o vento, deixa pra lá.
– Certo. Mas fiquem em alerta, primeiro barulho e nós atacamos.

E assim ficaram até o amanhecer, esperando. Esperaram até a hora do almoço, e nada. Chegou o entardecer, trazendo seu sol alaranjado e sombras esmaecidas. Nada. Nenhum barulho foi ouvido.

Alguns se impacientaram. Caminharam os dez metros que os separavam da única porta do recinto e, fazendo o mínimo barulho possível tentaram abri-la. Era uma porta pesada de aço, com diversos trincos e entalhes adornando a superfície lisa. Os outros prenderam a respiração, a ansiedade apitando a cada passo, a cada guincho, a cada poeira levantada pelo movimento dos homens na porta. Mas a porta não se abriu com facilidade. Sequer se mexeu.

Para encurtar a história, nunca se abriu. Estava bem trancada e era muito resistente. Os aldeões todos faleceram alí mesmo, vítimas da própria burrada. Derrubar a escada, o único meio de sair dalí com os ossos intactos, quem foi o gênio que pensou nisso? Descobriram logo quem foi o idealizador dessa idéia e espancaram-no com socos e pontapés, tentando aplacar a própria fúria. Foi o primeiro a morrer. As crianças faleceram algumas horas depois, vitimas de desidratação e tédio. O frio, a umidade, a ausência de comida tomou conta do resto. O último sobrevivente, já meio fora de si por conta daquele cheiro nauseabundo e acre e dominado pela loucura, defenestrou-se pela janela gritando “gerônimo!”, acabando espetado numa muda de pinheiro em crescimento a um metro e meio do chão, sem conseguir se mover, pingando sangue na terra dura, gota a gota. Sofreu um choque hipovolêmico e faleceu poucas horas antes de ser encontrado por Bob, um camponês do outro vilarejo que vinha verificar se os aldeões do vilarejo vizinho haviam por acaso deixado as oferendas na porta do castelo, caso já fosse época da troca da lua. Como eram estúpidos, aqueles aldeões, pensava Bob. Acreditavam que ainda existia um rei para se pagar, um rei a quem responder. Que duendes trabalhavam alí. Os mesmos duendes que já haviam sido extintos há milênios de anos, por gente como eles. Que o castelo era encantado. Encantado pelo quê? Encantado para quê? Que havia alguém naquele castelo, exceto insetos. Todos alí já haviam morrido a centenas de anos no mínimo, inclusive a princesa, caso um dia houvesse existido uma. Era só ver a sujeira e o musgo se depositando nas pedras para verificar que ninguém nem ia alí, nem chegava perto. Ninguém vivia em castelos há anos, ninguém dava a mínima para eles. Eram grandes demais, davam muito trabalho limpar. Pois bem, aldeões burros. Se queriam desperdiçar comida, lã e dinheiro era problema deles. Mas que não ficassem chateados se outra pessoa que não o rei em pessoa viesse buscar os agradinhos. Sua vila ficava feliz com os presentes. Sempre ficava.

Moral da história: Planejamento e verificação. Planeje qualquer ato, qualquer situação e verifique qualquer possibilidade. Não é lá uma moral muito cívica e digna, mas tampouco a história acima o é. Mas é a única que eu posso oferecer esta noite…

Publicado por jozsadavid em: Agenda | Tags: , , , , , , , , , ,
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Cordão Umbilical

– Você ainda me ama?
– Não.
 E dois tiros foram disparados em sequência, com apenas alguns segundos de diferença. Silêncio.
  12 anos depois (13 de outubro)
 “Dois corpos foram encontrados no casarão da 8º Avenida. Policias desconfiam que eram um casal, e se suicidar…”
 – Mamãe! Você viu? – gritou o pequeno George, de doze anos recém-completados, da sala de Tv.
 – O que, meu querido?
 – Mais um. – olhou para a mãe e percebeu sua expressão de confusão – Mais um casal morreu naquela casa perto do hospital que eu nasci. Foi lá, não foi?
 – Foi, George. Mas já disse para parar de assistir esses noticiários violentos. – disse a mãe, com preocupação no olhar.
 – Ah, mãe, também quero investigar. Igualzinho o papai. – o menino parecia refletir profundamente sobre suas convicções – Queria estar lá com ele, e descobrir o que acontece nessa casa…
 – Deixe que as pessoas certas cuidem disso agora, meu bem. Seu pai é a pessoa certa, não é?
 – É… Mas você não acha estranho que essa casa continua sendo alugada, mesmo depois de várias mortes? – indagou para a mãe, decididamente curioso.
 – Vamos mudar de assunto, tudo bem? Que tal um sorvete, para comemorar seu aniversário?
 – Claro… – George ficara decepcionado com a falta de interesse da mãe no assunto, mas resolveu parar de insistir. Estava ansioso para a chegada do pai e sua mente borbulhava de perguntas sobre a casa misteriosa.
   Um dia depois (14 de outubro)
 – Dizem que um demônio assombra aquela casa. Atrai casais para lá e depois os mata.
 – Ouvi dizer que ele destroça os corpos. Tripas pra todos os lados.
 – Legal! Nunca mostram essa parte na Tv…
 George mal chegara na escola e já podia perceber que os colegas só comentavam sobre uma coisa: a casa e seus supostos poderes sobrenaturais. Cada um dizia uma coisa diferente. Espíritos, possessão, loucura repentina, maldição… disseram até que a casa apenas atraia psicopatas e também que um serial killer passava por lá sempre que era alugada e deixava rastros de sangue por todas as paredes.
  O menino ouvia as histórias dos colegas com atenção, às vezes até sentia um pouco de medo. Sentia um arrepio quando mencionavam o hospital em que nasceu, já que ficava na mesma avenida que o casarão.
  As mortes inexplicáveis dos casais que alugavam a casa, dadas como suicídios, começaram no dia em que nasceu, 13 de outubro. Aconteciam uma vez por ano, sempre no dia do seu aniversário. Quando perguntou aos pais sobre seu nascimento, disseram que foi tranquilo e lindo. A coisa mais linda que acontecera na vida dos dois. Com uma expressão de devaneio, seu pai contou que nesse dia o céu estava limpo e azul desde seis da manhã e, assim que Geroge nasceu, uma tempestade extremamente forte começou.
  Seus pais dizem que foi um sinal de Deus, e eles agradeceram nesse momento por seu bebê ter nascido forte e saudável. E na mesma fração de segundo, dois tiros foram ouvidos por todos no hospital. Algumas horas depois, dois corpos foram encontrados em uma gigante poça de sangue e resquícios acinzentados. A mulher estava grávida de nove meses, e podia ter dado a luz a qualquer momento caso aquela tragédia não tivesse acontecido – era o que constava nos laudos post mortem.
   Uma semana depois (21 de outubro)
 – George, querido. Eu sei como está se sentindo, mas precisamos ser fortes agora. Vamos nos despedir de seu pai.
 O dia estava fresco e o céu azul. Esse tempo não era justo. Estava calmo demais. Feliz demais. George observava enquanto o coveiro jogava a terra marrom acinzentada sobre o caixão de seu pai. Lágrimas corriam por suas bochechas.
  Uma semana antes (14 de outubro)
  – Meu bem, preciso voltar ao trabalho. É urgente. Seu pai pode chegar a qualquer momento. Não saia de casa, por favor. – a mãe instruía o filho rapidamente, que acabara de voltar da escola; os pensamentos correndo a mil, e uma sensação ruim bombardeava seu coração.
  – Posso comer os cookies de chocolate?
  – Pode, querido. Só deixe alguns pra mim. – disse ela, sorrindo para o menino. – Volto já.
  Assim que a mãe saiu, ele foi correndo para a cozinha. Avistou o pote com os doces e, todo triunfante, foi finalmente pegá-los. Quando se preparava para dar a primeira mordida, ouviu um sussurro perto de si.
  – Mãe? – chamou, quase murmurando. Todos seus músculos travados por conta do susto. Arrepiado de medo. Fechara os olhos com força.
  De repente ouviu gritos. Gritos de dor. Visualizou um jardim. Havia uma árvore, as folhas murchas e vermelhas. Cor de sangue. Elas caiam dos galhos. Não, elas escorriam. No galho mais alto e grosso um corpo. Viu seu pai, pendurado pelo pescoço. Os olhos apagados.
  Balançou a cabeça para dissipar a visão. Seu pai. Não, aquilo não tinha acontecido. Era apenas sua imaginação. Queria manter os olhos fechados até seus pais voltarem e o resgatassem dali, mas sua curiosidade fulminante não deixou. Quando abriu-os viu uma sombra fantasmagórica andando pelo corredor. Seu cérebro tentava decidir entre se esconder embaixo da mesa e fechar os olhos com todas as forças novamente ou sair correndo, quando a porta da frente foi violentamente aberta.
  – George! Meu bem? George! – era a voz de sua mãe. A sombra sumira e os gritos também, no momento em que a porta foi aberta. Ele não conseguia responder a mãe. Apenas esperou-a. Ela finalmente entrou no cômodo, logo percebendo a palidez e a careta de susto do filho. Ambos choravam. Ela o abraçou. – Seu pai, George…
  – Eu sei, mamãe. Eu sei.
  Naquela noite George dormiu seu sono mais profundo. Não teve sonhos. Nem pesadelos. Sua mãe ficou ao seu lado, a noite toda em claro chorando a morte do marido e vigiando seu filho, temendo por sua vida. E sua curiosidade mortal.
10 dias depois do enterro (31 de novembro)
  Depois do dia que vira a sombra passando pelo casa e ouvira os gritos, o mesmo dia que recebera a notícia da morte de seu pai, George odiava ficar em casa sozinho. Mas decidira não contar para a mãe sobre o ocorrido. Ela já estava lidando com muita tristeza, não precisava de mais um problema.
  Ele sabia que a mãe trabalharia até tarde. Era dia de plantão. Não queria passar o dia inteiro sozinho em casa. Assim que saiu da escola foi direto para uma banca de jornais perto da 8º Avenida, dez minutos de sua escola. Queria apenas comprar chicletes e ão viu como sua mãe poderia achar aquela desviada de caminho um problema. George conservara sua inocência infantil.
  E sua curiosidade.
  8º Avenida. Rua da banca. Do hospital. E do casarão.
  Nunca se conformaria com a morte do pai. Ainda mais tão estranha do jeito que foi. Um dos guardas noturnos do hospital percebeu uma movimentação no jardim do casarão, mas não estranhou pois as investigações sobre o “suicídio” do casal ainda estavam acontecendo. No dia seguinte o corpo do perito principal fora encontrado pendurado por uma corda no galho mais alto da única árvore do jardim. Enforcado. Suicídio?
   Porém George sentia que seu pai não se suicidara. Estava tudo errado. Os policiais, os jornais. A mãe estava errada, pois ela acreditava e inclusive se culpava. E ele queria descobrir o que realmente acontecera. Finalmente poderia investigar – igual seu pai costumava fazer.
  Desviou o conhecido caminho até a banca e rumou para o casarão. Estava circundado por uma fita de plástico amarelo, onde lia-se “CENA DO CRIME proibida a entrada”. Esperou alguns minutos em silêncios e, como não ouviu barulhos, decidiu entrar. Curvou-se um pouco e passou pela fita amarela.
  Olhou para a árvore. A única do quintal. O galho não estava mais lá. Recolheram para análise no dia da morte. Uma mancha clara de vômito cobria uma pequena porção do chão. George concentrou-se para não chorar. Analisando a árvore, sentiu que as respostas não estavam ali. E sim dentro da casa.
  Não tinha porta. Provavelmente os policias arrancaram-na. Talvez seu pai tinha feito isso. Para o laudo do crime anterior. Num impulso, suas pernas não obedeceram seu cérebro e foram contra seu medo, e o menino correu para dentro da casa. Conforme chegava mais perto, uma força invisível o puxava ainda mais.
  Agora corria o mais rápido que podia, esquecendo de todo o resto. A sombra, os gritos, o medo e até seu pai. Subiu as escadas, tropeçando algumas vezes. A casa era grande, cheia de corredores. Em um momento de lucidez, quase parou. Mas não conseguiu. A força puxava-o cada vez mais, e ele não conseguia parar de correr.
  Corria. Subia escadas e virava vários corredores. Via portas abertas e sombras dentro dos quartos. Ouvia gritos de dor. De alguma forma, sabia que era gritos femininos. Dor da perda. Sabia também que todas as mulheres que gritavam estavam grávidas. Prestes a dar a luz. Via armas, munição, pólvora. Sangue e miolos. Mais sombras, e gritos e sangue e…
  Parou. Estático. Quando voltou à consciência, percebeu que estava num quarto grande. Sem móveis. Vazio. Fechou os olhos e ouviu uma voz.
  – O escolhido… – uma mulher murmurou. Ou eram várias? Não sabia. – Abra os olhos, querido.
  Contrariando sua vontade, abriu-os. Os gritos cessaram.
  – O menino que esperávamos. Finalmente, nosso filho chegou.
  Mulheres de todos os tamanhos e jeitos o olhavam com um ar de urgência, as mãos estendidas para o menino, a expressão de medo e tristeza. De morte. O último grito não dado circundava seus lábios. Mas uma coisa chamava mais a atenção do que qualquer outra: todas elas, sem exceção, tinham um cordão umbilical pendurado em seus ventres. Externamente.
  As mulheres, todas juntas, começaram a mover na direção do menino. Suas mãos estendidas, os cordões como tentáculos, prontos para embalar-lo num abraço maternal de muito esperado.
 Como dizem, a curiosidade matou o gato.
 Ou quase.
 Os transeuntes juram que até hoje – 40 anos depois do último caso de suicídio -, gritos podem ser ouvidos vindos do casarão. Gritos e a voz de uma única criança. Um menino.
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O Conto do Sonâmbulo – parte 2

 

Jakson Nako

Esta é a segunda parte do Conto do Sonâmbulo. Se você não leu a primeira é só clicar aqui 😀 . Espero que gostem e me digam o que acharam.

 

NO DIA SEGUINTE, como ele já previa, ele foi motivo de assunto no café da manhã. Sua mãe lhe perguntava o que tinha acontecido, o que ele tinha sonhado, mas ele apenas falava que não se lembrava de nada, o que era uma mentira. Ele sabia exatamente de seu pesadelo com o cavalo. Tinha plena e total consciência de tudo que acontecera nesta madrugada. Sabia cada passo que tinha dado quando esteve em estado de sonambulismo, o que o deixou matutando: será que aquilo podia ser um caso de sonambulismo, uma vez que ele se lembrava de tudo? Toda aquela questão de sonhos, pesadelos e sonambulismo o estava deixando muito confuso. Tudo era tão real e ao mesmo tempo fantasioso como o sonho.

Quando ele foi para a escola, na parte da tarde, perguntou para um de seus colegas, que morava na mesma rua que ele, se por acaso ele ouviu algum cavalo que corria na rua durante aquela noite. O coleguinha respondeu que não. Que naquela madrugada nem ladrão passou pelo bairro. Tudo foi um silêncio profundo. Isso desanimou muito o menino. Era sinal que o cavalo tinha sido um sonho mesmo.

Na noite que se seguiu, ele de novo não queria dormir. Estava com medo de ter novos pesadelos. Ainda mais se novos sonhos fossem como o que teve na noite anterior. Estava sentado em sua cama matutando sobre  o que aconteceu e não conseguia chegar a nenhuma conclusão que explicasse o porquê ele jurava que o cavalo de fato era real e ao mesmo tempo um sonho. Mas de novo o sono o venceu e desta vez ele não notou quando isso aconteceu. No começo de seu sonho, tudo era um vácuo, um silêncio profundo, mas não tardou até um novo cenário tomar conta deste mundo que era o sonho. Ele pode ver claramente que estava ao lado de fora. O céu brilhava azul com poucas nuvens. Ele podia sentir-se perto delas e se assustou quando olhou para baixo e viu que estava em cima de um telhado inclinado de uma casa. Teve que se equilibrar para não cair com a tontura que sentiu ao ver a altura que estava. Ele não pode ver o chão, a imagem que viu ao olhar para baixo era confusa e embaçada, mas muitas coisas se mexiam lá embaixo. Aquele novo sonho era diferente ao anterior. Tudo era silencioso e calmo, mas o garoto sentiu vertigem de estar em cima de um telhado tão íngreme. Ele não sabia o porquê, mas não conseguia sair dali. Estava travado. Não conseguia mover um músculo se quer. Tinha medo de altura. Então, um novo susto o pegou de surpresa: ao olhar para sua esquerda, viu uma figura humana ao seu lado. Assim como o chão lá embaixo, esta figura era tão confusa e bizarra quanto. Ele não podia decifrar quem era. No segundo que viu a figura, ele sentiu que era feminina, no segundo seguinte, já lhe pareceu masculina. Mas o susto foi tão grande que, tão rápido quanto ver esta figura, foi rápido o que se passou em seguida; ele se desequilibrou e caiu da laje. Ele gritava um grito silencioso, batendo os braços em direção ao chão que se contorcia lá embaixo. A casa, do teto, parecia mais baixa, mas a queda do menino demorou. Ele parecia não chegar ao seu destino doloroso que seria ao cair. Nesta queda livre, ele sentia um movimento, até que agradável, de ir e vir. Era como se estivesse em uma piscina de ondas, que o jogava para lá e para cá em um movimento suave e silencioso. Quando, enfim, aproximou-se do chão, o garoto desperta de um sobressalto em sua cama. Com efeito do barulho que ele provocou, seu irmão acordou também e começou a xingágá-lo por perturba-lo. O garoto respirou fundo. Não sabia mais o que fazer para parar com tudo aquilo. Já estava cansado e ficando nervoso. Aqueles sonhos já vinham de semanas. Ele sentia suas pálpebras pesarem, mas não queria voltar a dormir; sabia que sonharia de novo. Sentia tanta inveja quando ouvia alguém falar que não sonhara aquela noite, ou que não se lembrava do sonho. Tudo que ele queria era o mesmo e não sonhar. Mas foi impossível. Assim que fechou os olhos, sonhou que estava em um lugar muito escuro. Ele sentia um calor real. Parecia estar próximo de uma chapa bem quente. Ele deu alguns passos para trás e sentiu bater em algo sólido. Voltou-se para trás para ver o que era. Era uma parede que se perdia de vista, tanto da direita, quanto da esquerda e de cima também. Quando ele tocou-a, sentiu que era úmida, com um líquido asqueroso e mal cheiroso. A iluminação era tão pouca, que ele só conseguia ver a parede cinza diante dele. Seu ângulo de visão era pouco, como se uma luz de um distante holofote o seguisse e iluminasse apenas  onde ele estava. Foi tateando a úmida e fria parede para ver até onde ia, mas parecia que andava sobre um círculo. Não chegava à lugar algum e o cenário diante dele era sempre o mesmo. Seu coração começou a bater forte. Sentiu uma angustia crescer dentro dele. Sentiu vontade de chorar; sentiu que estava preso ali, sem saída. Podia gritar, mas sabia que de nada ia adiantar: ninguém o ouviria. Então permaneceu calado… parado… respirando fundo. Estava preso em algo, em um lugar que nem sabia o que era, tão pouco onde era. Queria, desesperadamente, sair daquele sono, que alguém o acordasse. Sua vontade de despertar era tão grande, que ele sentiu, de repente, deitado em sua cama, de bruços, com a cabeça de lado. Acorda!, falou para si mesmo. Mas seu corpo ali na cama não despertou, ao contrário, era levado cada vez mais para seu sonho bizarro e claustrofóbico. Concentrou-se de novo para acordar. E de novo sentiu-se deitado em sua cama; mas não despertava. Era possível sentir seu irmão roncar ao seu lado na outra cama. Sentiu todo o clima da madrugada, mas também sentiu seu corpo emerge no sono, e não despertou. Então voltou profundamente para sua ilusão: estava de novo diante da parede. Virou-se para tás. O feixe de luz nele não alcançava uma longa distância, ao seu redor era apenas uma certeza de trevas. Com o medo dominado sua alma, o garoto começou a caminhar lentamente para frente, sem saber o que ia encontrar. E pelo visto não encontraria um ser vivo, uma vez que tudo ali era silêncio. Somente a sua respiração pesada e medrosa, assim como seus passos descalços, formavam o som que se ouvia. O que o deixava ainda mais com medo, era estar ali preso naquele lugar, vendo aquela escuridão, a luz que se afastava da parede e o seguia, e mesmo assim ele sentir o seu quarto. Parecia estranho, mas o cheiro e sua visão era de um lugar escuro e desconhecido, mas sua mente brigava falando que estava em seu quarto.

Quando ele deu mais alguns passos, pode notar o que surgia aos poucos na esfera da luz. Ao se aproximar mais depressa, viu que se tratava de uma espécie de grandes de ferro, igual as de algumas varandas. Ele se aproximou mais e, quando virou sua cabeça para olhar para trás, não pode mais ver a parede cinza que agora era engolida pelas trevas. Ele tocou na grade e constatou que, de fato, era de ferro; estava fria e também úmida, assim como a parede.

De repente, algo o pegou de surpresa. Ele  voltara a sentir seu corpo que descansava na cama e sentir o quarto fisicamente. Mas dessa vez não queria isso. Queria voltar ao sonho. Saber que lugar era aquele, para onde dava aquela grade. Tentou se acalmar e não abrir os olhos para voltar a sonhar, e logo aconteceu. Quando pegou no sono profundo de novo, lá estava ele no mesmo ambiente fechado e desconhecido de novo. Sem perder tempo, caminhou rápido para frente, mas bateu na parede já conhecida. Então, deu meia volta e caminhou mais rápido. Mesmo sem ter uma visão do que vinha pela frente, ele sabia aonde ia dar. Logo chegou na grade de novo, que permanecia fria e úmida. Ele não podia ver o que estava à sua frente, se não a grade, então foi caminhando para a direita, segurando-a. Notou que, assim como na parede, ele andava em círculos: estava preso um um lugar circular, com alta parede e uma grade no centro, também circular.

O garoto parou. Respirando fundo. De novo sentiu medo. Olhou para baixo, adiante da grade, e não viu nada. A grade provavelmente circulava em fundo e escuro buraco. Ele cuspiu lá embaixo, para ver se ouvia algum tipo de ruído. Assim que soltou a saliva, ouviu que ela bateu em algo solido com líquido. O buraco então não deveria ser tão profundo assim. Mas então por que ele não conseguia ver nada? Tentou mais uma vez: segurou firme na grade, apoiando bem seus pés descalços nela e sentiu um calafrio de tão gelado que o ferro estava. Então, inclinou levemente seu corpo para frente e olhou para baixo. De fato não via nada. Mas, de repente, a luz foi se alongando, e uma imagem foi se focando diante de seus olhos. A grade realmente circulava um fundo buraco. A imagem foi ficando cada vez mais nítida e o coração do garoto foi batendo cada vez mais forte. Seus olhos se arregalaram com o que se materializava em sua frente. Seu corpo todo tremia e suas mãos suavam muito, deixando a grade aquecida. Foi então que tudo entrou em foco. O que o garoto via no buraco eram várias cabeças humanas decepadas, sendo que, as duas de cima, era uma de seu irmão e a outra da sua mãe. Ele ficou sem fôlego. Não conseguia respirar e o choro ficou entalado na garganta. Aquela era a cena mais  feia que ele já vira na vida. Acorda!, ele gritava por dentro. Mas dessa vez não acordou. Tentava a todo custo puxar o fôlego para o pulmão, mas respirava com dificuldade. Queria olhar para outra direção que não fosse aquelas cabeças cortadas e ensanguentadas, mas não conseguia, por mais que tentasse, como se uma força o impunha que visse só aquilo. A visão dantesca congelou em seu olhar. Também tentou sair dali, deixar a grade, mas a mesma força invisível, como a de um imã, o grudava ali. Sonhos eram assim: te levavam a qualquer lugar ou insistia para que você ficasse ali. Sua falta de ar estava cada vez mais forte. A cabeça de seu irmão e de sua mãe flutuavam em cima da demais. Rápidos flashes de segundos mudavam  a visão das outras cabeças e ele pode ver que algumas delas eram sempre de  pessoas conhecidas. O menino se desesperou. O ar havia lhe faltando por completo. Oxigênio não entrava mais em seus pulmões e, de súbito, ele acorda com aquela falta de ar que lhe sufocava. Com isso ele se levantou rápido de sua cama. Desesperado, tateando tudo que encontrava pela frente. Com o barulho que ele fazia tentando puxar o ar, seu irmão acordou e logo se levantou. Pela expressão de dúvida em seu rosto, era de se notar que não sabia como lhe dar com aquilo. Vendo o desespero de seu irmão sem ar, ele se aproximou, segurou os ombros do outro e, em um segundo de impulso talvez, ele deu-lhe um tapa no rosto do garoto. Mas isso não  ajudou o menino a recuperar o fôlego. Só depois de alguns segundo angustiantes que ele pode respirar normalmente. Ficar sem fôlego fez com que o tapa que recebera do irmão não surtisse efeito algum de dor. Os dois estavam definidamente acordados. Perplexo e sem muita reação, o garoto volta para sua cama e se enrola por completo. O mesmo faz seu irmão. Mas ele, o garoto, não dormiu todo o resto da noite. Não queria mais sonhar.

Continua…

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A Voz da Loucura

— Zap! Este nem sempre fora meu nome… — Disse o individuo de roupas chamativas.

Seu rosto estava coberto por uma pasta branca, o que destacava ainda mais a maquiagem vermelha em volta de sua boca. Havia um sorriso assombroso estampado em sua face. O palhaço andava de um lado para o outro na escuridão que era o palco. Não dava se quer uma pausa entre suas palavras e suas risadas exageradas e confusas. A plateia permanecia imóvel em suas cadeiras. Aparentemente, apenas o palhaço achava graça em suas piadas. Zap continuou seu monologo:

— Está é minha historia… Eu aprendi com meus próprios erros, que rir é a melhor maneira de enfrentar os problemas. Meu senhor, disse que eu estava rindo quando ele me encontrou. Não lembro. Mas, sei que estava rindo quando o atirei da escadaria para depois esfaqueá-lo. Mark também riu. Disse que eu não poderia por um fim a sua não-vida daquela maneira. Então tentei o fogo. — Zap continuava falando, andando pelo palco e gargalhando.

A sala era escura. Havia algumas lanternas a querosene aleatoriamente espalhadas sobre o chão do palco, iluminavam o palhaço. Além de Zap, dava pra ver algumas silhuetas, eram cinco pessoas, estavam sentadas em poltronas da primeira fileira do teatro, mas a luz tremula das lanternas não era tão forte a ponto de clarearem seus corpos.

— Ah… Sim! O fogo funcionou muito bem. No começo, Mark também sorriu, mas aos poucos, enquanto o fogo ia consumindo seu corpo antigo, seu sorriso fora se transformando em gargalhadas doentias, que por sua vez se transformaram em gritos de dor e terror á medida que o fogo transformava seu corpo em brasa. Observei-o queimar até restarem apenas pó do Vampiro que ele um dia fora — Zap fez uma pausa, pensativo, era a primeira vez que falava a palavra vampiro para mortais, mas no fim deu de ombros e continuou: — Duas noites depois de sua morte eu comecei ouvir sua voz em minha mente. Maldito Mark! Mesmo depois de morto vinha me atormentar. Sua voz me passava algumas informações e vezes ou outra me fazia pedidos. Por isso hoj… — Um barulho interrompera o monologo.

Era um som baixo e abafado. Zap franziu o cenho irritado. Prestou atenção no som: Algo se movia na penumbra. Era uma das silhuetas, se remexia incessantemente soltando um som de desespero, um tipo de gemido abafado. O palhaço parecia assustado, pegou uma das lanternas que estava perto de seus pés e deu alguns passos em direção á plateia. A luz tremula da lanterna iluminou a primeira fieira da arquibancada, revelando os cinco ouvintes: Eram todos homens, estavam amarrados ás poltronas, suas bocas foram amordaçadas. Quatro dos cinco estavam aparentemente mortos, seus corpos mutilados e repletos de marcas de violência. Mas, para surpresa de Zap o quinto estava vivo.

“Termine o trabalho!” — Ordenou a voz.

Zap se aproximou do individuo. Ele estava visivelmente apavorado, respirava incontrolavelmente soltando pequenos gemidos de dor enquanto seu corpo se contorcia na vã tentativa de se libertar das amarras.

— Fique Calmo — Pediu Zap, enquanto se aproximava com a lanterna em mãos. Seus olhos brilhavam como os de uma criança que acaba de ganhar um novo brinquedo. Suavemente o palhaço passou sua mão livre no rosto do homem:

— Está tudo bem! — O prisioneiro soava frio. As lagrimas saiam em abundancia de seus olhos castanhos, escorriam por seu rosto pálido, até finalmente se juntarem ao liquido rubro e quente que saia por muitos dos cortes que havia em seu rosto.

— Está tudo bem… — Zap repetiu — Tudo bem! Em breve você vai QUEIMAR!

O palhaço se afastou das poltronas e jogou a lamparina com toda sua força na direção do prisioneiro. No momento em que a lanterna tocou o corpo do homem o fogo se expandiu. O som que veio a seguir fora um misto dos gritos abafados de dor do prisioneiro e as risadas histéricas do palhaço, depois se ouvia apenas as risadas e no fim apenas o crepitar das chamas consumindo os corpos e grande parte do teatro.

O palhaço dançava em volta dos corpos enquanto as chamas se espalhavam por toda a extensão do teatro, um verdadeiro demônio dançando ao som da morte.

“QUEIME, QUEIME!” — Cantarolava a voz em sua cabeça.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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