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conto da noiteO Conto da Noite
Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

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Duplicidade Vital

“Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz.” – Platão.

Vida. É uma palavra muito vaga não? Afinal todos a tem, mas nunca paramos para pensar o que é ela. Parece uma coisa muito obvia, mas se você perguntar a definição desta palavra a maioria das pessoas, não saberá lhe responder. De acordo com a web, vida é: propriedade que caracteriza os organismos cuja existência evolui do nascimento até a morte; tempo desde o nascimento até a morte; grande período de tempo. Tempo, tempo e mais tempo. Temos então por definição que vida é o período de tempo que procede do nascimento à morte.

22 de Abril de 1990

Caro amigo, creio que deve estar se perguntando por que estou aqui escrevendo para você, apesar de saber que não lerá estas cartas. A resposta, é simples. O ser humano precisa inevitavelmente de uma capsula de escape. Somos incapazes de acumular e controlar nossas emoções. Precisamos de algum modo, pô-las para fora. Necessitamos desabafar e descarregar. E meu modo de fazer isto, minha capsula de escape, é a escrita. São estas cartas que escrevo à você, então lhe peço, que apesar de não lê-las, as guarde com confidência.

Ribeirão Preto, Brasil. Foi para lá que eu me mudará após a morte de minha mulher. Havia sido encontrada morta no chão da cozinha, esfaqueada. Foi dado como suicídio. Lastimável, de fato. Consternado e desamparado, um ambiente novo, poderia mudar-me o foco, proporcionar-me novas experiências.

Eu era jornalista e rapidamente conseguira um emprego no jornal local. A cidade era pequena e desabitada. Suas ruas de lajotas hexágonas cobertas de lama, devido as eventuais chuvas noturnas que se misturavam a terra do chão. A cidade possuía um pequeno bar, que pelo jeito era o ponto de encontro da população da cidadezinha, e onde eu havia ido azular-me da vida nas ultimas noites.

Meu trabalho era inteligível, teria de entregar todas as manhas um texto datilografado, para coluna diária. Escreveria em casa, em uma máquina decrépita e obsoleta porém respeitosa. Havia anos que trabalhava com ela, minha falecida esposa havia me dado de presente em nosso segundo ano de casados. Mulher cativante e sedutora. Minhas lembranças de sua personalidade eram tão felizes. Seu suicido era uma incógnita.

Após minhas noites de bebum, eu voltava para casa inconsciente e capotava num sono que me parecia profundo, mas na verdade era muito mais superficial do que se podia imaginar.

Uma batida nada sutil em minha porta me acordou. Quem poderia ser a esta hora da madrugada? Pus um roupão sob meu corpo, e um pouco desconfiado dirigira-me para porta. Girei a maçaneta, um pouco hesitante. Era a polícia federal.

– João Alberto Montenegro?

– Sim? – Respondi com uma ponta de medo.

Quando sentimos medo podemos entrar em três estados como resposta a esta sensação opressora. Alguns de nós tentam fugir, as vezes até antes de experimentar a situação de que tememos, e por que isto? Por causa da nossa imaginação, que cria as mais terríveis historias em nossa mente. Outras pessoas respondem com reações agressivas, tentam incansavelmente lutar contra este medo.  E finalmente, outros apenas entram em choque, ficam paralisados. Por mais que esta reação possa parecer bem estranha na verdade ela não é. Vemos isto quando observamos o comportamento de certos animais que defronte algumas situações de medo, onde prevem sua possível morte, ficam imóveis, se fingem de morto.

– O senhor está preso pelo assassinato de Bruna Montenegro .

Bruna Montenegro, Montenegro, Montenegro…

Era a única coisa que passava pela minha cabeça. Estava correto? Aquele policial acabara de me dar um mandato de prisão pelo assassinato de minha esposa? Não, não! Não podia estar correto.

Fria, suja e temerosa, era a prisão em que me encontrava. Em suas paredes, encontravam-se marcas de unhas de pobres almas que enlouqueceram até chegarem ao seu último suspiro. Enquanto com muito pavor, observava aquelas marcas, comecei a sentir um desconforto nos pés. Que estranho! Pareciam estar molhados e a barra de minha calça, antes tão leve, agora pesava desconfortavelmente.

Em uma reação involuntária, virei a cabeça para baixo. Fiquei horrorizado. Sob meus pés havia uma poça de sangue vermelho escarlate, de origem desconhecida.

Me afastei uns dois passos e perdendo o equilíbrio, cai no chão. Continuei a encarar a poça até um zumbido estremecedor me tirar o foco.

Parecia um besouro, porem sua carapaça ao invés de negra, era de um verde tão atraente e chamativo, que chegavam a encobrir seu enorme ferrão.

Aos poucos foi chegando cada vez mais perto de mim. Estava tão encantado por aquele animalzinho, que nem percebi sua intenção até ele me picar subitamente.

Meu pescoço começou a latejar e eu suava feito um porco antes do abate.

A poça de sangue começou a aumentar e se irradiar pelo local. Subiu as paredes desafiando a gravidade, até encobrir o teto por inteiro. Estava enlouquecendo? Só tive certeza disso quando perante meus olhos, vi minha esposa.

Ela estava pávida, espavorida e aterrorizada. Seus olhos esgazeados e sua pele cadavérica. Andava para trás apreensivamente e entre seu choro e gemidos soltava berros de horror. Eu não estava entendendo aquela situação. Que coisa tão horrenda poderia estar causando aquela reação em minha mulher?

Eu. Era eu mesmo que havia deixado minha mulher daquele jeito. Eu sabia que aquela cadela estava dormindo com outro. Nem pensar que eu ia deixar aquela vagabunda pérfida e seu amante me traírem daquele jeito. Primeiro, trucidei seu querido homem, e extorqui seu coração. Na mesma noite, voltei para casa aguando pelo sangue de meu eterno amor. Quis lhe dar como presente de 20 anos de casamento, 20 segundos da pior agonia.

Ela estava na cozinha quando eu cheguei em casa.

– Boa noite amor. Que cheiro gostoso. Carne assada Bom, eu tenho uma coisinha especial que eu gostaria que você cozinhasse para mim. – Disse retirando o coração do sem-vergonha de meu bolso. Então o arremessei pelo ar em sua direção. Ela o pegou horrorizada. – É de seu amado, prostituta! E agora é seu ensejo, mas… fique tranquila. Lhe garanto que ficaram juntos. Para todo o sempre.

Publicado por Napolitanara em: Agenda | Tags: , ,
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CONTATO IMEDIATO DE 4° GRAU

“Baseado em fatos reais…”

Passava da meia-noite. A casa de Leda ficava na outra rua. Karla deveria estar dormindo, ela sabia. Mas as amiguinhas insistiram para ir até a casa de Leda.

– Pare de bobagem amiga – disse Pri – está será a primeira noite que vamos passar acordadas.
– Tá com medo Karla? – indagou Marie.
– Não, não é isso – Karla sentia o estomago embrulhar – eu não estou bem, só isso.
– Eu sei o que é – disse Leda. Ela era três anos mais velha que as outras – Medo! Vamos logo meninas, ou vamos perder a melhor parte da noite.

Karla deveria ter avisado seus pais. Ela os deixou dormindo e saiu pela janela para encontrar as amiguinhas na rua. Já tinha mostrado que era corajosa. Karla era a mais nova das quatro. Mas agora elas diziam que era medrosa. “Não sou”.
Deu um passo a frente.

– Vamos meninas. Eu trouxe comigo bolinhos de limão e biscoitinhos de aveia.

As meninas reviraram suas bolsinhas.

– Eu trouxe cervejas – disse Marie.
– Cervejas? Legal. Eu estou levando as fitas vídeo cassetes – disse Pri com duas fitas de filme de comédia nas mãos.

Leda fez uma careta.

– Porra, vamos passar a noite vendo filme de comédia?
– O que você queria?
– Sei lá. Terror?!

Karla levantou a sobrancelha.

– Terror era legal. Gosto de desafiar meus medos.
– Não era só para passar a noite em claro – disse Marie – Poxa, ficar conversando, trocando segredos e tal?
– Sim – respondeu Leda – Mas parece que da Pri quer passar a noite dando gargalhadas.
– Ah, deixa pra lá – disse Pri – sem fitas.

Havia duas formas de chegar à outra rua. Uma era ter que rodear o morro, coisa de 5 minutos. A outra era passar pelo caminhozinho que interligava as duas ruas, cruzando um terreno baldio. Era pouco usado, mas era melhor que dar a volta. Elas escolheram a segunda opção.

– Então – disse Pri animada – seus pais não estão em casa né?
– Poxa, eu já disse que não. Acha que eu ia dar esta mancada.

Estavam na metade do caminho. O vento soprava frio, assobiando por cima do mato colonião.

– Bem, não sabia que faria frio – disse Karla abraçando o próprio corpo.
– A noite sempre faz frio – disse Pri.
– Estamos perto da praia, dam! – Marie tocou a testa com uma sugestão de chacota.

Leda moveu um dedo até os lábios e chiou baixinho.

– Calem a boca suas idiotias. Ou vão acordar a todos. Não quero que os vizinhos contem para o papai que estou aprontando uma hora dessas.

Faltava pouco. A casa de Leda era de dois andares cercada por um muro ainda no chapisco. Ao lado, duas mansões se erguiam. A casa de Leda ficava comprimida e sem brilho diante das dos vizinhos, mas estava destinada a ficar bela, não fosse o orçamento do pai de Leda, que depois de dez anos não conseguia terminar o terraço.
Karla estava olhando justamente para o terraço. Era lá que iam virar a noite. Parou do nada. O coração gelou. As pernas tremeram de repente quando olhou novamente para o terraço e seus olhos filmaram “aquilo”.

– Viram? – disse. As amigas deram com as cabeças nas costas dela.
– Que diabo! – gritou Leda que vinha atrás – Por que parou?!
– Vocês não viram?! – Karla insistia apontando o dedo trêmulo para o telhado do terraço de Leda.
– Não há nada, a não ser aquela lua amarela lá no alto – disse Leda já ficando sem paciência.
– Não espere – disse Pri – eu estou vendo. Moveu de novo. Olhem!

Os cabelos da nuca de Karla se arrepiaram. “Aquilo” era real. As canelas tremiam. Os olhos ardiam.

– Meu deus o que é aquilo! – apontou Marie, os cantos dos olhos escorrendo lágrimas.

– Pare com essa best…

Leda também viu. Todas estavam olhando fixamente para o telhado da casa de Leda. Marie se agarrou a Karla que se agarrou a Pri. Leda se aproximou e abraçou as três juntas.

– Eu nunca tinha visto uma coisa tão esquisita – disse Karla gaguejando.

De cima do telhado, a figura disforme moveu-se tão rápida quanto seus olhos podiam ver. Parecia humanoide, a pele grossa, marrom escura. Espinhos nas costas. Mas era grande, cabeça pequena e corpo esguio. A criatura rastejava pelo telhado da casa de Leda como uma salamandra. Parou. Seus olhos vermelhos viraram na direção das quatro garotas. Não tinha boca. Então a criatura moveu-se na direção da grande janela do terraço e pulou para a escuridão. Sumiu…

– O que foi aquilo?
– Não sei – disse Pri – mas não vou pagar pra ver.

Então, os grandes olhos vermelhos espreitaram da murada do terraço. Estavam olhando para elas, como dois faróis milha, brilhando na escuridão, como um predador a espera de sua presa. A cabeça tinha a forma de um ferro de passar roupas.

Karla olhou para ela. Estava com medo. O coração acelerado. Estava paralisada, não podia mover um centímetro dali.

– Droga, meninas – disse Leda – vamos cancelar nossa virada de noite. Marie, podemos ficar na sua casa?
– Ah… Han?!…Acho que sim.
– Eu não quero nunca mais voltar para minha casa…

Leda saiu correndo, voltando para o ponto de onde tinham vindo.

Karla continuou olhando a figura, e a figura ainda olhava para elas. As meninas correram. Karla ficou um instante a mais. Paralisada. “Não posso ficar aqui”. Escutou um ruído vindo do terraço de Leda. “Mas meus pés não se movem!”. Era fino, como o sintonizar de uma estação de rádio. O ruído vinha baixo, começava em um ouvido, depois passava para o outro. Então se acentuava, agora como uma estação fora do ar. Era entranho.

“Que droga que eu estou fazendo. Não devia estar aqui, uma hora destas com estas malucas”.

Karla moveu uma perna para trás. Dura como concreto. A outra não movia. Os olhos vermelhos estavam nela. Sentiu a vista escurecer.

– Karla! Venha!

Escutava seu nome, longe, muito longe. “Se eu ficar ele vai me pegar”. As órbitas estavam fixas nela. A mente acelerada. Um filme rodava em sua mente, de tudo oque ela tinha feito naquela semana. Não parava, rodava cada vez mais rápido e mais rápido. Então diminuía. Agora lento, lento. E então quando ela pensava que ia parar. O filme rodava mais rápido do que antes. Sua cabeça girava.
Vomitou.

Agachada, segurava o estomago.

– Karla! Venha! Ande!

“Não posso…”

As órbitas estavam nela, pareciam mais perto, mais vivas. Agora podia ver toda a extensão da cabeça daquela criatura. Não tinha boca ou mesmo nariz. A testa franzida como se estivesse descontente com ela.

Karla levantou-se de repente, reunindo suas ultimas forças, as mãos suando geladas, quase sem vida. Correu o máximo que pode. Olhou para trás. Os olhos vermelhos em suas costas. Correu, o chão era um borrão. Não enxergava direito o caminho.

– Karla! Venha! Corra! Ele vai te pegar!

Ela tropeçou numa pedra e caiu com o queixo no chão. Dor. Sangue. O queixo se abriu em um corte profundo. Sangue. Muito sangue. Lágrimas escorriam pela face. Olhou para trás. Para o terraço. Os olhos vermelhos não estavam lá.

“Ele vai me pegar. Corra! Droga!”

Levantou-se e correu para os braços das amigas. Então o poste de iluminação mais perto piscou três vezes e a lâmpada explodiu violentamente. As meninas gritaram. Correram para a casa de Marie. As lâmpadas explodindo atrás delas. Desceram por um beco escuro, pularam as escadas. Enfim chegaram à casa de Marie, esbaforidas. O pai de Marie estava na varanda, sem camisa com um radinho de pilha nas mãos.

– O que houve? – disse Seu Floriano – até parece que virão um fantasma?!
– Talvez – disse Marie com os olhos do tamanho de uma cebola, abrindo as portas e correndo para o quarto. As amigas atrás dela.

A música do radinho de Seu Floriano foi interrompida para um plantão de última hora:

– “…Foi avistado cinco O.V.I.N.I’s cruzando os céus da cidade na tarde de hoje. Um morador conseguiu gravar em vídeo o momento. O governo descarta qualquer possibilidade…”
– Droga. Eu quero música – o pai de Marie trocou de estação.

“…acredite se quiser…”

Publicado por sansa em: Agenda | Tags: , , ,
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kaijus no mar do diabo

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Kaijus no mar do diabo

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Zi era um navio cargueiro chinês, fabricado nos anos oitenta. Quando afundou, rancorosamente arrastou para o fundo do oceano pacifico vinte e oito tripulantes e cento e cinquenta mil dólares em produtos. O navio afundou rápido e sem esperança, desfazendo futuros mais rápido que um golpe de estado. A narrativa de como esses vinte e oito marujos passaram seus últimos momentos é um conjunto de historias emocionante e poderoso, talvez o melhor. Mas ao invés do melhor vamos aprender a mais bizarra.

Mikio sobreviveu ao naufrágio por que no momento em que a tripulação percebeu o que estava prestes a acontecer, ele estava no convés fumando maconha com Júlio, um representante comercial paraguaio que se tornou melhor amigo de Mikio, durante a viagem. Por causa da tempestade, o convés estava vazio. Eles eram os únicos que já estavam lá quando os ratos assustados se pisoteavam e esmurravam tentando passar pelos estreitos corredores do navio em direção ao topo.

Sem a distração da internet ou TV, e com a prostituta do navio reservadas para o capitão, fumar maconha e conversar era o melhor passatempo. Antes daquela viajem Mikio nunca tinha fumado durante uma tempestade, ambos os amigos eufóricos com a experiência, corriam para o convés assim que o vento se agitava e as nuvens começavam a rugir.

Naquele dia eles passaram por dentro da cozinha para chegar mais rápido ao convés. No meio do caminho foram alertados por alguns velhos chineses aficionados por Ma Jong, que as tempestades eram sempre traiçoeiras no Triangulo dos Dragões e ficar no convés seria suicídio.

A região do Triangulo dos Dragões, também conhecida também como Mar do Diabo, é carregada de superstições. Explicações fantásticas para naufrágios, desaparecimento de navios, visões de óvnis e outros mistérios, fazem da infame região o equivalente asiático do Triangulo das Bermudas. De acordo com os relatórios, o tamanho da área abrangida pode variar entre cento e dez mil e duzentos mil quilômetros, mas a extensão exata é outro dos seus mistérios. Mikio ouviu algumas historias conversando com outros tripulantes. Descobriu que ao contrario do que pensava, as historias sobre o triangulo não eram exclusivamente contadas por japoneses e chineses, mas por todos os povos que já velejaram no triangulo, em tempos recentes ou remotos.

O mecânico do navio, que se gabava de quase ter se formado em historia, contou que entre 1952 e 1954 o Japão perdeu cinco embarcações militares nessa região, com mais ou menos setecentas pessoas dentro.  Em resposta o governo japonês enviou um navio de pesquisa com mais de 100 cientistas a bordo para estudar o Mar do Diabo, e este navio também desapareceu. Então, finalmente, a área foi declarada oficialmente uma zona de perigo. Os velhos do Ma Jong e o mecânico estavam mortos agora, seus cadáveres ainda presos dentro do navio, junto com uma vasta coleção de produtos eletrônicos que nunca chegariam à América latina.

Muito antes da popa do navio começar a se erguer como uma gangorra, homens trocavam socos, facadas e finalmente tiros pelo direito a um bote salva-vidas. Dois vencedores desceram um bote ao mar e remaram com toda força para não serem puxados para o fundo quando o navio inevitavelmente submergisse. Depois de passado o perigo os homens ficaram curiosos para saber que tipo de suprimentos havia no bote, se eles morreriam de fome ou teriam sorte suficiente de ter agarrado um bote com o suficiente de suprimentos para sobreviver até um resgate ou até encontrarem terra. Debaixo da lona eles encontraram Mikio e Júlio, espremidos e imóveis como peças de carne no chão do frigorífico.

A luta não pode ter durado mais que alguns minutos, mas nesses minutos novos animais nasceram e o som do rugido ecoaria para sempre nos túmulos aquosos dos derrotados. Júlio agarrou o homem armado, enquanto Mikio foi atacado pelo outro. Quando Mikio desenterrou seus dentes da garganta ensanguentada e quente, seu adversário já estava ficando branco e o chão do bote vermelho. Júlio ainda lutava com seu oponente, o dedo indicador enfiado na frente do cão do revolver apontado para sua barriga, o dedo anelar atrás do gatilho. Mikio envolveu o pescoço do homem com uma chave de braço e apertou forte até ele desabar, mas infelizmente Júlio já havia recebido dois tiros no estomago. Mikio jogou os dois corpos no mar e ficou ao lado de seu amigo inconsciente até ele morrer cinco horas depois.

Antes de morrer, Júlio pediu por sua mãe, por um médico, por Deus, enquanto Mikio tentava parar o sangramento com a camisa, se sentindo completamente inútil. Na ultima hora não tinha mais sangue para sair dos buracos, mas Mikio continuou pressionando. Eram duas da manhã segundo o relógio da bussola do kit de emergência, quando o corpo de Júlio começou a puxar ar tão profundamente que parecia que seu peito ia explodir, ele fez isso por dois ou três minutos, e depois não fez mais nada. Mikio olhou para o céu e agradeceu com sinceridade.

Júlio tinha vinte e seis anos, era paraguaio e essa era sua terceira viagem entre a China e o Paraguai. Ele não falava japonês ou chinês nem Mikio falava o castelhano, mas os dois falavam o suficiente de inglês para se entender. Júlio gostava de falar sobre mulheres e sobre seus sonhos. Ele confessou que se tornou contrabandista com o propósito de comprar um taxi. Ele dizia que dentro de cinco anos, teria três ou quatro rodando e não faria nada além de receber o dinheiro. Mikio havia prometido ao amigo alguns minutos após jogar o corpo dos dois marujos no mar que o sepultaria em terra, mas depois de dois dias de baixo do sol, o fedor que exalava do corpo inchado era insuportável e os restos tiveram que seguir o destino do restante tripulantes do bote. Somente Mikio continuava seco.

Por duas semanas o bote vagou sendo direcionado pelas marés, Mikio supunha ainda estar na região do mar do Diabo, mas não tinha como ter certeza, já que os limites da região não constavam nas cartas náuticas que possuía. O tamanho da área abrangida pode variar entre cento e dez a mil e duzentos quilômetros, ele pensou, olhando para o horizonte, se perguntando a que distancia estaria de Tóquio.

A situação estava se deteriorando a cada dia, depois a cada hora. Navios contrabandistas não se preocupavam em cumprir normas de segurança, os suprimentos no bote duraram somente cinco dias, a água oito. Dias passados debaixo da lona se protegendo do sol, e as noites andando pelo bote, falando sozinho. Se perguntando quanta urina poderia beber antes de morrer intoxicado, sua pele estava cheia de feridas e bolhas, que não sabia se eram causadas pelo sol, pela falta de água, pelo sal no ar ou qualquer outra coisa. A fome tão aguda que às vezes ele olhava para um dedo do pé como se não fosse seu. Uma vez se pegou pensando como jogar aqueles corpos no mar foi um desperdício. Em um momento pior, pensou a mesma coisa sobre o corpo de Júlio.

O sol do oceano é persistente e implicante. Sendo queimado vivo, Mikio se lembrou de um cartaz engraçado que estava colado na porta de sua escola anos atrás, em Chichibu, sua cidade natal. “Você é um fantasma pilotando um esqueleto coberto de carne feito de poeira estelar, então do que você tem medo?”, obra de algum estudante ensimesmado com aspirações poéticas.  Não era uma lembrança tão interessante, mas seu cérebro precisava da distração e o descanso de um fragmento de memoria estupido. Será que o estudante seguiu sua vida como um homem feliz, ou dirigiu seu carro até a floresta silenciosa de Aokigahara, para se enforcar em uma árvore?

Antes de deixar o Japão, Mikio dirigiu até o mar de árvores. Mas permaneceu em sua praia, nunca chegou a subir. No estacionamento ele viu alguns carros e motos imundos, cobertos de folhas. Carros abandonados ali por meses ou anos. Alguns quilômetros floresta adentro, os corpos de seus donos da mesma forma aguardavam dependurados em alguma árvore ou misturados na grama com uma lamina nas mãos.

As noites eram temperadas pelo medo de não acordar. Durante o dia, passava horas tocando o casco do bote com os dedos, à sensação da madeira contra suas unhas adiando a penetração lenta de sua alma no útero da insanidade. Ele podia também tocar algumas músicas em sua cabeça, mas essas ele guardava para as piores horas, quando o sol estava no centro do céu, e ele perdia a consciência por… quanto tempo?

Naquela noite ele imaginou que era o bote, seu corpo flutuando no oceano por décadas, sem nunca tocar outro. Consciente da existência de milhares de outros botes, mas sempre seguindo uma maré mais estranha. Refletindo sobre isso, ele se sentiu pronto, mas a morte não veio. Misericórdia nunca era concedida, ele pensou, se lembrando do dia em que saiu para fazer Cooper e viu um cachorro ser atropelado por uma lambreta. Ele viu quando o cachorro trocou a calçada pela rua e pensou que daria tempo, o sinal estava prestes a abrir. Ele não gritou, só sentiu um alerta em sua cabeça e o frio no estomago, no mesmo instante o cachorro congelou no meio da rua, hipnotizado pelas luzes do farol e bum.

Nas semanas seguintes Mikio não conseguiu resistir a acompanhar a decomposição do animal que antes de morrer havia se arrastado para a grama alta. Toda vez que passava por ali, parava por alguns minutos. Cada vez mais crente que se não tivesse percebido a inevitabilidade do acidente, talvez, o acidente não teria acontecido. Como se as leis do universo não fossem diferentes das leis criadas pelo homem, nesse sentido em particular. Sem uma testemunha, não havia necessidade de que elas fossem sempre aplicadas. Talvez se ele tivesse virado a cara no ultimo instante antes do impacto, a moto teria passado direto, por pouco, quase acertando um cachorro.

Sentindo a dor em suas costas e uretra, seu coração batendo tão lento quanto o balanço do bote, a ideia de suicídio se tornava mais atraente a cada balanço do bote. Mikio lutou sua vida para não ser um estereótipo, deixou o Japão aos dezesseis anos para viver na índia e depois na china e usava toda sua força de vontade e maconha disponível para não levar tudo a sério demais, a não ser o típico jovem japonês, um bishõnen. Cometer o seppuku agora seria jogar todo esse trabalho no lixo, mas deixar a insolação ou a desidratação encerrarem seu turno, parecia uma ideia ainda pior.

 All that she wants, da banda dos anos noventa, Ace of Base, estava tocando dentro de sua cabeça. Quantas vezes ele havia ouvido essa mesma musica, se sentindo melhor que os outros, por ser a única pessoa que conhecia capaz de perceber sua beleza energizante. A versão reconstruída da musica em sua memória parecia tão boa quanto a original. Ou será que não? Como ele poderia saber, sem uma segunda parte, para mesclar suas suspeitas memorias em algo um pouco mais digno. O que é a certeza de um único homem, que se baseia no resto da interpretação corrompida de eventos para definir a si próprios, para provar que existe, ou existiu. A consciência do coletivo é o mais próximo de certeza que se pode ter. É a única coisa que impede um homem de imaginar toda sua vida, e reimaginar todos os dias, sem ser contraditório. Então, é possível ter sanidade em completo isolamento?

Cerca de um quilometro ao norte ele viu as luzes, duas no começo, mas conforme elas se moviam em circulo mais três se tornaram visíveis. Pelo modo como se moviam não pareciam ser helicópteros. Ele tentou gritar, mas não tinha forças. Esticando seus braços até alcançar os remos, ainda deitado começou a se mover, toda força que seu instinto sobrevivência estava reservando empregada no esforço. Remando dez minutos na direção da área onde as luzes pairavam, uma nova surpresa o atingiu, e o teria feito chorar, se seus canais lacrimais não estivessem secos e inchados. Logo abaixo das luzes das aeronaves, o relevo do que parecia ser enormes arvores em pequenos montes. Outra meia hora de esforço, muito mais motivado e produtivo e era mesmo uma ilha.

Na distinguiu as enormes paredes rochosas, limitando a praia de ambos os lados. Como pequenos cânions, com paredes marrons, refletindo a luz da lua. Milhares de micro cavernas espalhadas pela superfície da parede fazia parecer pele humana, infestada por alguma doença repugnante. A lua é como uma placa luminosa acendendo e apagando, enquanto as arvores dançam de um lado para o outro, no ritmo do vento. A silhueta da ilha completamente delineada pelas arvores altas é móvel.  É como olhar para um sol em uma galáxia distante, um ponto que oscila de acordo com a órbita dos planetas. Parecia uma coisa viva se movendo lenta e inevitavelmente em sua direção. Um monstro marinho disfarçado de salvador. Mikio remou sem opção.

No centro da ilha uma colina é visível, bem abaixo de onde as luzes estavam antes.  Mikio rema contra o medo, se existem arvores, quer dizer água doce. Talvez frutas para comer. Sorte! Mais sorte que o restante da tripulação do barco.

O bote golpeou a areia, e depois de um momento de hesitação, Mikio cai nela. Ele planejava pisar, mas suas pernas estavam bambas e desabaram com o peso do resto do corpo. Sentindo a areia fria debaixo do corpo, poderia ter ficado ali até o amanhecer, mas o som de pequenos objetos rolando sobre madeira era um aviso. O aviso era que se ele não amarrasse aquele bote ou arrastasse para a areia, amanhã pela manhã, estaria preso naquela ilha. Parecia muito improvável que houvesse força restante no seu corpo suficiente para ficar de pé, mas o medo é como um cão correndo atrás de sua bicicleta. Jogando seu peso para traz, com os dedos enganchados na madeira, mais caindo que puxando, mas funcionou. Nunca tendo se sentido tão exausto, ele só queria entrar no bote e dormir até o próximo dia, mas não podia ainda. Por que em algum lugar, no interior da ilha, ele podia ouvir o som de água correndo.

Uma faca, um isqueiro, três cantis vazios, uma bússola, um saco de dormir, uma arma sinalizadora com munição, um kit de medicamentos, e a pistola que tirou do marujo. Isso foi tudo que colocou na mochila, antes de iniciar sua jornada. Com determinação ele manteve o ritmo, tentando não pensar em quando iria desmaiar. Depois do primeiro gole de água doce, ele sabia que nada seria capaz de derrubá-lo, ele tinha certeza disso. Tudo que precisava fazer era manter isso no centro de sua mente.

Menos de trinta metros, não tinha nem mesmo cruzado o ponto em que a grama alta e a areia se encontravam, e logo viu. No canto esquerdo de olho seu esquerdo, um detalhe que não se encaixava na paisagem natural. O brilho gasto de madeira polida por um segundo, antes de ser escondido pela grama alta, que se revezava entre mostrar e esconder, de acordo com o ritmo do vento. Chegando mais perto, não havia dúvidas, era um bote. Mas não qualquer bote, era um bote idêntico ao que Mikio havia usado para chegar ali. Pela conservação não poderia estar ali mais que alguns dias. Outra pessoa havia sobrevivido ao naufrágio, chegado àquela mesma ilha, provavelmente sendo levado pela mesma maré. E quem quer que fosse estaria em um estado de saúde muito melhor, por que de jeito nenhum Mikio teria conseguido arrastar um bote até aquele ponto, no estado em que se encontra. Estava vazio, mas talvez o sobrevivente já tivesse sido resgatado, talvez ele fosse o motivo das luzes acima da colina. Se isso for verdade, então eles vão voltar para procurar outros sobreviventes. De qualquer a ideia de não estar mais sozinho nessa tragédia colocou um sorriso em seu rosto e um novo pique em suas pernas.

Depois de meia hora de caminhada Seguindo o som de água corrente, como esperava encontrou uma pequena nascente. A água desceu por sua garganta, preenchendo e restaurando seu corpo, como se fosse um pano de chão seco. Deitou-se na nascente deixando a água doce lavar o sal e a sujeira. Entre espasmos e arrepios, gargalhava baixo. Deitado de costas na terra, olhando para as estrelas, se sentiu como uma criança. Como se fosse se levantar dali, pegar sua bicicleta e pedalar por Roppongi até sua casa, até sua mãe. A ideia o fez pensar em Júlio, que nunca mais veria sua própria casa, que estava morto. Agora ele estava se sentindo um pouco enjoado, com tanta água em seu estomago. Mas ele não iria desperdiçar vomitando, então fez pausas, respirou fundo e continuou.

Com três cantis cheios de água e a sensação de limpeza, caminhou mais rápido. Seu novo objetivo era o topo da colina. A terra ao pé da colina era escura e úmida. Quando Mikio encheu sua mão com e cheirou, aquele odor que nunca havia sentido em lugar algum. O cheiro era frio e nauseante, kimoi!

Quando finalmente alcançou o topo da colina seu estomago queimava de fome, ele estava tonto, e  uma veia em sua cabeça insistia em latejar, desprezando os esforços da respiração profunda e meditação em movimento. De relance viu uma forma correndo rápido pelo chão e depois parando abrupta e perfeitamente em uma posição de guarda. Estreitando os olhos podia ver que era um pequeno lagarto, algo parecido com um Kanahebi, mas maior. Com paciência e tempo para criar uma armadilha, decidiu que poderia pegar um desses, caso não houvesse outra fonte de comida na ilha. Bom ter opções.

O topo daquela colina se revelou ser sem duvida a visão mais perturbadora de sua vida, tanto real quando imaginaria. Nem mesmo nos delírios de sua infância havia conjurado em sonhos algo tão uterinamente espantoso. Perplexo ele se manteve de prontidão, como um gárgula aterrorizado pela imaginação do escultor. A sua frente uma aberração gigante se estendia por pelo menos quinhentos metros de área circular.

Encostando a lateral de sua cabeça no chão para ter certeza que não era uma ilusão de ótica ou percepção, se fez clara a improvável realidade.  Não havia engano quanto a isso, toda a superfície da colina era plana. Não era uma planície, ou um campo plano, era chata, reta e simétrica até onde podia ver.  Como se o topo da montanha tivesse sido arrancado, como se um gigante com uma colher de sorvete houvesse desferido um único golpe. Não, não uma colher, uma faca, um bisturi. As arvores cresciam normalmente por toda a colina, até o ponto em que a aberração começava, então subitamente desapareciam. Por todo o caminho Mikio havia observado pequenas plantas e ervas crescendo esporadicamente na terra, mas essas também desapareciam ali, junto com qualquer coisa verde. E as pequenas  pedras espalhadas no chão também eram únicas, reluzindo com um brilho cinza metálico.

Tudo isso teria sido normal se ele tivesse percebido qualquer traço de ocupação humana na ilha, uma cabana que fosse. Mas exceto pelo outro bote, aquela ilha parecia intocada.  Mikio poderia ter ficado ali por horas, indeciso entre a logica que indicava a sua frente sua melhor chance de sobreviver e seus que instintos diziam para dar meia volta e vasculhar a ilha em busca de outra opção. “Vá embora, entre naquele barco e se arrisque no mar… Só mais um passo e você estará amaldiçoado!”. A ideia sem logica o fez lembrar-se de sua infância, quando costumava ludicamente se desafiar a pisar somente nas pedras brancas no passeio, por que se ele pisasse nas pretas seus pais morreriam.

O dilema poderia ter durado horas não fosse à rajada de vento que soprou em sua direção trazendo consigo o cheiro de sangue. O cheiro de sangue ao céu aberto o colocou em movimento, a fome aguda o havia presenteado com os instintos de um lobo. Ele estava flutuando no rastro do cheiro como o Perna Longa em direção a uma torta. A cada metro era possível distinguir com mais clareza a fonte do aroma. Uma forma acinzentada, semicircular, mas não uniforme. Com certeza não era uma torna, pelo tamanho, poderia ser um porco. Mas o que um porco estaria fazendo em uma ilha desabitada?

A carcaça tinha um metro de uma ponta outra, sem contar o rabo ou a tromba. Os olhos do animal estavam abertos, encarando o céu. Todas suas observações encolhiam em comparação com a conclusão inegável de que sim, era a carcaça de um elefante, um pequeno elefante. Dois metros de uma extremidade a outra, sem contar a tromba ou a calda. Pelo tamanho tinha que ser um filhote, mas o couro parecia excessivamente enrugado e marcado, para um animal tão jovem. Uma laceração no abdômen, onde um pedaço de carne fora removido apontava a causa da morte. O corte sem dúvida havia sido feito com uma lamina, e apesar da carne exposta e o sangue, não havia moscas. O corpo estava frio, mas não estava em decomposição, estava fresco. Olhando mais de perto encontrou outro ferimento na nuca, também feito com lamina, mas sem retirada de carne, somente um corte profundo. A verdadeira causa da morte!

Ele podia voltar pela trilha e recolher material para uma fogueira, mas não voltou. A carne crua era dura, o couro impossível de se cortar com os dentes. Usou a faca para raspar a carne do couro, cortando em pequenos pedaços e engolindo após o dolorido processo de mastigação. Quando ficou satisfeito seu estomago estava tão cheio que teve medo de tossir e vomitar. Suas gengivas já enfraquecidas pela desnutrição sofreram vários cortes tentando destrinchar a carne rígida, e agora estavam ensanguentadas. Mas agora ele tinha agua, comida e o sol ainda iria demorar a nascer, então se deitou usando a mochila como travesseiro. E pela primeira vez desde o naufrágio dormiu confiante.

A confiança era infundada, por que naquela noite seus sonhos foram povoados por aterrorizantes pesadelos. Primeiro viu a si próprio caminhando por uma terra de formigas gigantes. Uma delas carregava nas mandíbulas uma mulher inconsciente, gravemente ferida, que gemia baixo, como um gato. Elas vinham em sua direção roboticamente, enquanto ele paralisado de medo, era incapaz de se mover. Depois disso, a nova ilusão, muito mais realista; uma vista em terceira pessoa de seu próprio corpo, suas mãos com o céu como fundo. Um vapor branco e fétido emanando de sua pele, enquanto seus membros minguavam. Antes de ver a si própria virar um esqueleto, o pesadelo cedeu lugar a outro. Um tormento claustrofóbico agora, seu corpo estava preso sob o peso de uma longa rede de exageradamente grossas cordas, encharcadas com um liquido salgado como a agua do mar. As cordas cruzavam formando um padrão, e uma massa única. O peso dessa massa mantinha seu corpo junto ao chão. Através da rede de cordas uma luz laranja emanava com intensidade. Fazendo um esforço para se mover ele virou a cabeça o suficiente para perceber que o chão também era feito da mesma matéria, a mesma gama de cordas. Seu corpo estava preso entre as duas camadas, como um peixe na rede. Inclinando a testa para baixo ele viu uma fonte de luz muito mais intensa e pura transbordando das cordas. Calculando que ali deveria ser uma saída, começou a se arrastar naquela direção, puxando seu peso com as mãos e empurrando com os pés, como se nadasse de barriga para cima. Logo alcançou a fonte de luz, era uma saída.

Sem o peso da rede, pode ficar de pé. Protegendo seus olhos da luminosidade, ele observou o seu redor. A primeira vista todo o cenário parecia completamente alienígena. Grama gigante, arvores colossais e um sol que parecia arder mil vezes mais forte que o normal. Olhando para baixo viu a mais vertiginosa descida, ele estava na parte alta de alguma montanha, no que parecia ser uma terra de gigantes. Tão simlpes e realista o sonho era, que produzia medo real. Mikio ficou parado ali por algum tempo, esperando o sonho desenrolar seu enredo, que com certeza o guiaria a outro ou ao amanhecer.

Foi durante esta espera que uma sensação fria e herege começou a crescer em seu cérebro. Que parecia estar se adaptando a essa nova dimensão das coisas, e começando a fazer as ligações e deduções. Subitamente a rede de cordas que se estendia a sua frente parecia mais uma camisa suada, deixada no meio do mato. Algumas das formações mais abaixo também tornaram formas familiares. Um descomunal pé de bota, e a longa formação negra, não era terra, mas as calças que estava usando antes de dormir.

Vendo essas coisas, pela primeira vez olhou para si próprio e se viu nu. Olhando para cima em busca de outros sinais, ele podia ver o fim abrupto da montanha. Uma linha reta cortando o horizonte. Esse não era um pesadelo em uma localidade fictícia, era um pesadelo em um barranco, um pouco abaixo de onde havia se deitado para dormir.

Passando pelos obstáculos formados por suas roupas gingantes alcançou novamente a planície artificial no topo da colina, em seu sonho transformada em montanha. Chegando à divisa, logo pôde ver seu cantil e sua faca, espalhados no chão a certa distancia um do outro, mais a frente à carcaça do pequeno elefante, que agora parecia um Kaiju abatido. Olhando de baixo para cima, toda a cena se recompunha com clareza. Durante a noite, ele rolou pelo barranco, caindo ali onde estava sua roupa. Então ele encolheu até o tamanho que estava agora, ficando preso dentro de sua própria camisa. Que exótico e aterrorizante sonho, tão original que mesmo ainda encurralado, não conseguia deixar de sentir orgulho. Os objetos gigantes, o elefante em miniatura que ofereceu suspeito sustento. Uma fantasia aterrorizante, com a sugestão brutal de que passaria o resto de sua vida aprisionado em uma ilha de monstros gigantes.

Curioso em testar as possibilidades desse pesadelo, Mikio deu seu primeiro passo na direção do prato. Imediatamente foi lançado de volta, em reação convulsiva à enorme onda de choque e dor que percorreu todo seu corpo. A sensação era de que havia pisado dentro de um forno industrial. A dor absoluta, o fez pensar em sua mãe, desejar que ela estivesse ali para socorrê-lo. Pensar em sua mãe trouxe a lembrança das aulas de meditação, na academia militar. Respirar fundo, concentrado em seu mantra, realmente o ajudou a superar a primeira e mais aguda fase da dor.

Quando seu cérebro se sentiu livre para dar atenção a outros assuntos, a possibilidade ganhou voz pela primeira vez; talvez aquilo tudo não fosse um sonho. O vento estava soprando forte, as arvores estavam dançando lentamente, de um lado para o outro. De repente Mikio se sentiu exposto e olhou com medo para o panorama ameaçador da ilha, sua vegetação densa, escondendo uma infinidade de predadores. Predadores gigantes!

“Será que o objetivo coletivo de manter-se são é a barreira que protege o homem das ameaças do outro mundo, onde nossos cérebros vibrariam em ondas tão antigas e poderosas, que nosso frágil órgão se aniquilaria?” Ele se perguntou, observando uma trilha de formigas que descia pelo caule de uma planta carregando o diminuto corpo de uma mulher.

 

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A maldição bate à porta

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Noite adentro ele caminhava desesperadamente para a sombria floresta, a procura de sua filha. Portava em uma das mãos uma lanterna e na outra uma espingarda, queria entender como tudo aconteceu; como a filha tinha sido levada por aquela velha senhora, bondosa e amorosa?

Então já sem forças no coração da terrificante floresta ele se depara com uma luz ao longe, desacelera os passos apagando a lanterna, vê uma pequena casa. Agacha-se perto de um velho cipreste e olha pela janela, ali ele vê algumas silhuetas – são imagens disformes -. Mas ele consegue perceber que era a sua filha e a velha senhora!

Sem pensar duas vezes ele levanta e como se recobrasse todas as forças, avança em direção a porta de madeira e com uma ombrada a coloca abaixo. Ao se levantar do impacto em punhos a espingarda, fica horrorizado com a cena que os seus olhos lhe projeta. Era a filha amarrada em uma cadeira e a velha senhora, com um livro negro nas mãos que continha na capa a seguinte inscrição: “Libro Mortuorum.”

Olha para aquela senhora com a arma apontada em sua direção e lhe faz uma pergunta:

– Por que a senhora esta fazendo isso?!

Virando de repende para ele com os olhos vermelhos, os dentes pontiagudos e o nariz imenso, dando a ela uma aparência aterrorizante. Olhando bem fundo nos olhos dele, como se estivesse procurando a alma pronuncia algumas palavras:

– Pobre homem, seria melhor se não tivesse vindo! Conversus Petrus.

Após proferir essas últimas palavras o homem fica parado como uma pedra, vendo a filha e a velha bruxa. Então se lembra daquele crepuscular chuvoso e como tudo isso aconteceu há três dias.

Continuação…

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Welcome to the Hotel California

Esse conto faz parte de um desafio que fazemos no grupo “Escritores Desconhecidos” no facebook onde a galera aqui do ONE tem se reunido. Junte-se a nós!

Os trechos da música do Eagles ficarão em itálico.

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Os faróis de um Mitsubishi conversível romperam a escuridão da estrada, onde antes reinava apenas o neon azul da placa do hotel. Felder estacionou meio relutante, pegou o celular, mas não tinha sinal. Passar a noite ali ou dormir no carro eram as únicas alternativas. Abriu a carteira e não gostou do que viu. “Droga! Esses hotéis que ficam no meio do nada custam o olho da cara”, pensou.

Fechou a capota, abaixou o banco, ligou uma música do Eagles e para relaxar acendeu um baseado. Estava quase dormindo quando sua visão foi preenchida por uma jovem parada na porta do hotel. Era maravilhosa. Seus cabelos loiros iam até a cintura, mesmo a distância os olhos verdes brilhavam, o corpo era esbelto e ficava muito atraente no vestido branco. Ela sorria. Não um sorriso normal, mas algo que preenchia o vazio que existia dentro dele, que o levava a pensar nos momentos mais maravilhosos da vida, ela também segurava uma vela o que lhe dava um ar angelical.

Rapidamente desligou o som pegou a carteira, mas quando abriu a porta ela tinha sumido.

— Seja bem vindo ao Hotel Califórnia, senhor. — Falou o recepcionista quando ele entrou no recinto. Era um homem negro, de terno e um chapéu que tampava os olhos. — Deseja ver nossos preços?

—O senhor viu uma moça loira? — Apenas isso importava naquele momento para Felder.

— Ah, fala de Laura. Sim, ela está no baile. Encantadora não?

— Laura… Baile?

— Todos os anos no “Dia de Todos os Santos” fazemos um baile à fantasia para os hóspedes, se o senhor for ficar encontrará no guarda-roupa algumas fantasias.

Felder subiu as escadas conforme indicara o recepcionista entrando em um longo corredor. A decoração era clássica, papel de parede listrado em cores mornas e com várias fotografias de pessoas em molduras de madeira. Observou um a dessas; mostrava quatro homens que pareciam serem grandes amigos, sorriam abraçados em frente a um dos quartos do hotel. Uma legenda falava: “ Glenn Frey, Don Henley, Bernie Leadon e Randy Meisner.”

Leu uma pequena placa: Quarto 112. Pegou as chaves, notou que ao lado da porta havia o que fora um retrato, estranhamente as pessoas tinham sido recortadas ficando apenas duas silhuetas na moldura.

— Welcome to the Hotel California — sussurram diversas vozes no corredor vazio. O arrepio fez com que abrisse a porta do quarto rapidamente e se trancasse.

Atribuindo as vozes às alucinações e à qualidade do cigarro de maconha que comprou com alguns brasileiros, ele se acalmou, abriu o armário e escolheu a fantasia de Zorro.

Depois de um banho gelado saiu do quarto mais tranquilo, dessa forma observou como o local era belo e preenchido por uma atmosfera de mistério.

Welcome to the Hotel California. — Os sussurros ecoaram novamente.
Such a lovely place. — Felder pegou-se respondendo.
Any time of year you can find it here. — As vozes responderam em um tom de sorriso.

Em prol de sua sanidade ignorou isso. Não se importava; apenas a linda mulher ocupava seus pensamentos e desejos desde que chegara ao local.

Desceu seguindo o som de uma valsa, dobrou um corredor e deparou-se com um grande salão de festas, estava lotado. De início ficou parado na porta impressionado, pois o pequeno prédio visto de fora de forma nenhuma demonstrava ter um ambiente tão enorme. Luminárias douradas pendiam no teto, cortinas brancas estavam nas paredes e por todo lado pessoas fantasiadas dançavam felizes, era como se tivesse sido transportado para outra época.

E lá estava ela. Dançando com vários rapazes em volta. Felder foi ao bar e pediu:

— Por favor, traga-me vinho.

Desculpe, nós não temos essa essência desde mil novecentos e sessenta e nove.

— Hã? — Mil novecentos e sessenta e nove? Vocês precisam rever seus fornecedores. Então me traga um whisky . — Ele sequer olhava para o atendente, estava completamente fixado nos movimentos dela e no olhar retribuído sempre que ela executava um gracioso giro.

— Ela é inebriante, senhor. Rouba completamente o juízo. Aconselharia não se deixar envolver.

Felder bebeu a dose em um gole e foi andando, os dois se olhavam de forma tão intensa que um vácuo de pessoas foi aberto quando se encontraram. Ele tocou a mão dela e ela não resistiu quando foi segurada pela cintura. Felder sentiu o perfume e cada parte do corpo de Laura quando se abraçaram. Ela podia escutar as batidas do coração dele. Trocaram poucas palavras e insignificantes para o momento, os lábios eram imã e metal e assim beijaram-se carinhosamente, apaixonadamente, intensamente e por fim, fogosamente.

Sequer percebam quando saíram do salão, entretanto, agora estavam no quarto dele, despidos em um prazer avassalador que arrancava a noção de vida fora dali. E assim passaram dias, semanas, meses ou talvez apenas horas; não sabiam, sequer lembravam-se do tempo.

Ele tinha acabado de tomar banho e se vestia quando escutou a confusão. Homens arrastavam Laura escada abaixo. Saiu em desespero na captura e encontrou uma confusão generalizada. Pessoas corriam por todos os lados, impressionou-se com a quantidade de gente ali, certamente não tinha espaço suficiente para todos. De onde saíram? Não ia perder-se em indagações quando a mulher da sua vida corria perigo.

— Me soltem! — Escutou Laura gritando enquanto empurrava as pessoas na escada para conseguir espaço para passar.

— É nossa chance de sair, Laura. — Alguém respondeu.

— Matem a besta! — Um homem gritou logo atrás de Felder.

Ele finalmente venceu a multidão e chegou à portaria. Laura correu e o abraçou. Sentiu um alívio inigualável seguido de raiva. Parou para ver o que ocorria. Quatro homens estavam com facas cercando o recepcionista que sorria por baixo do grande chapéu.

— O que está acontecendo? — Perguntou.

— Vamos sair daqui. — Pediu Laura.

— O que está acontecendo?

— Dia de Todos os Santos, é o único dia em que pode haver libertação. Glenn , Don Henley, Bernie e Randyr vão tentar.

— Libertação de quê, Laura?

—Vamos sair daqui.

Felder cessou os questionamentos quando a briga começou. O recepcionista não esboçava reação, pelo contrário, segurava duas facas de braços abertos em uma posição provocadora e ostentosa. Os homens avançaram, começaram a esfaqueá-lo, eram os maiores e os mais fortes da multidão e mesmo com o recepcionista no chão continuaram o massacre. Por fim, se afastaram e a multidão gritou.

Quando o primeiro tentou passar por ele em direção da porta uma faca cortou-lhe a perna e em seguida entrou no coração. O recepcionista levantou. O corpo desfigurado estava se curando. Tirou o chapéu e Felder deu um passo para trás junto com toda a multidão.

Não havia face, onde devia existir os dois olhos, tinha apenas cicatrizes. Rapidamente com as duas facas ele derrubou os outros três. Os corpos deles começaram a desintegrar na frente de todos, virando uma fumaça negra, sendo tragada pelo recepcionista e logo em seguida cuspida em uma moldura vazia.

— Você está certa vamos sair daqui.

Buscou a mão de Laura, porém ela não estava mais ali. Virou-se para procurá-la, mas para sua surpresa o monstro recepcionista estava parado na sua frente com as facas na mão.

— Se você quiser pode ir embora, Felder. Não te impedirei. — Disse sorrindo.

Com medo e os olhos fixos nas facas ele deu um passo em direção da porta. O recepcionista não se moveu, no entanto, falou:

— Você vai deixar ela? — Apontou para Laura.

— Laura, venha!

— Desculpe, não posso.

— Por quê? — Laura se aproximou dele, acariciou seu rosto e falou:

Nós todos somos prisioneiros aqui, por nossa própria conta.

Ele não entendeu, porém não teve tempo de perguntar. Uma faca atravessou-o. Gemeu, sentiu sua vida escorrendo, porém o mais doloroso é que era Laura que  segurava a arma. Ela chorava, observou.

O recepcionista se aproximou:

Você pode registrar a saída quando quiser, mas você nunca vai partir.

Felder viu a luz da vida sumir e rendeu-se.

No outro dia, um carro parou em frente ao hotel. Carla estava registrando-se quando seus olhos encontraram outros azuis. Ficaram um tempo olhando-se e ela deixou escapar um sorriso.

Welcome to the Hotel California. — Teremos um baile à fantasia hoje à noite, no guarda-roupa encontrará algumas. Podemos contar com sua presença? — Meio sem graça ela respondeu:

— Claro que sim, adoro bailes. — Quando ele saiu ela perguntou:

— Ele trabalha aqui?

— Não, é um hóspede fiel. Aqui está moça, quarto 112, boa estadia.

— Obrigada.

Entrou pelo corredor e observou a decoração. Ao abrir a porta parou diante de um quadro. Era ele, o lindo homem que conversara com ela na recepção, na foto ele abraçava uma loira encantadora e a legenda dizia: “Felder e Laura”.

— Aff casado, só podia ser.

Welcome to the Hotel California. — Vozes sussurradas vindas dos quadros causou pânico nela paralisando-a. No entanto, assustou-se ao responder sem saber como:

— Such a lovely place. — As vozes em som de sorrisos disseram:

Any time of year you can find it here.

Ela abriu a porta rapidamente, trancou-se, respirou fundo e para tentar esquecer tal loucura abriu o guarda-roupa e começou a escolher uma fantasia.

 

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