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As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

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Crime em andamento – Jim Knipfel

Imagem | Russell Christian

Imagem | Russell Christian

Tradução | Eder Capobianco Antimidia

Minha cabeça estava em outro lugar. Não deveria estar. Eu deveria ter prestado atenção ao que estava acontecendo ao meu redor, mas em vez disso estava pensando sobre A Genealogia da Moral de Nietzche, por algum motivo esquecido por Deus, bem como o velho Robert Klein¹ e o stand-up que vi na TV em 1976 (“Me dê o frango, porcolino!”). Os dois, até onde eu sabia, não estavam ligados de forma alguma. Em suma, minha mente estava em toda parte, menos onde deveria estar.

Eu não estava usando a bengala também, o que só multiplicou a estupidez. Ainda estava escuro. O sol não tinha nascido totalmente, e estava chovendo. Eu estava indo para oeste na 23rs St., e deveria ter pegado a maldita bengala, mas estava ocupado demais pensando sobre Robert Klein ter se inspirado nos filmes da Disney para me preocupar com isso. Eu só seguia em frente, de cabeça baixa, meu casaco aberto para a garoa, imaginando se meus pés sabiam bem o suficiente para onde tinham que me levar. Minha camisa estava com pizzas de suor.

Escutei algumas pessoas gritando mais a frente. Pensei pouco sobre isso, supondo que eram apenas as vozes dos lixeiros. Havia um caminhão de lixo arrastando a sujeira sentido oeste na calçada paralela a minha, e acabei de ligando as duas coisas. Lixeiros estavam sempre gritando uns com os outros.

Duas silhuetas estavam se movendo em minha direção pela escuridão, vindas do fim de uma longa fila de andaimes. Eu estava concentrando-me nas formas, tentando descobrir a melhor maneira de evitá-los, quando ouvi passos molhados se aproximando por trás de mim. Então do nada havia um homem do meu lado, com um guarda-chuva na mão. Meu passo vacilou por um instante.

“Oh”, ele disse. “Me desculpe”. Então ele se virou e correu de volta para o lugar de onde tinha vindo.

Eu não tinha idéia do porque ele poderia se desculpar. Ele não tinha me empurrado ou trombado em mim ou pego qualquer coisa. Quem sabe? Ele quase não desviou minha atenção do que acontecia. Eu olhava para o par de silhuetas na minha frente, então dei um passo para o lado e deixei eles passarem.

Com certeza tinha muita gente trafegando pela rua para 6:15 da manhã. E em ação, também, para um deprimente dia perdido. As pessoas estavam indo e vindo por todas as direções. Eu continuei fazendo meu caminho, passando pelos ambulantes, a banca de jornal e a estação do metrô, pensando sobre isso e aquilo, ainda muito deprimido comigo mesmo e deixando a mente a deriva.

“Basta dar o dinheiro a ele!”, um homem atrás de mim gritou. “O dinheiro! Apenas dê a porra do dinheiro para ele!” Escutei o som das pessoas correndo.

Olhar para trás para ver o que estava acontecendo a poucos metros de mim teria sido inútil. Rapidamente virei a esquina para a 7th Ave., abaixei a cabeça e continuei andando. Estava tudo certo agora.

Acho que só passei por um crime em andamento, pensei.

Era perfeitamente possível que não fosse um crime também – talvez tivesse sido uma simples transação de negócios, ou algum lixeiro resolvendo uma aposta no jogo dos Mets, mas preferia pensar que era algum tipo de crime, e que tiros irromperam o ar no momento que eu estava fora do alcance da voz.

Então comecei a me perguntar quantas vezes tropecei num crime em progresso sem perceber. Não me surpreenderia se tivesse acontecido várias vezes.

Algumas semanas atrás estava falando para um amigo meu sobre umas coisas que ele tinha escrito. Envolvia uma criança que começava a ficar obsessiva por crimes muito cedo. Não é que ela própria se torna uma criminosa, mas o crime e os criminosos começam a orbitar em torno dela, se aproximando e se tornando mais íntimo a cada ano que passa.

Foi uma idéia, como expliquei para ele, que bateu realmente perto do meu quintal. Eu estava obcecado com o crime como uma criança (ainda sou, eu acho). Mas como cresci, crimes reais e tangíveis começaram a cruzar minha vida de maneira estranha frequentemente.

Cresci a 40 milhas de onde Ed Gein² morou. Ensinava alemão para um nerd quando estava na escola, sem saber que ele só queria aprender alemão para impressionar seus companheiros da Irmandade Ariana. Um amigo que eu tinha desde o jardim de infância explodiu o próprio irmão. Outro amigo começou a conversar com a televisão e antes do que você imagina matou seis pessoas a tiros em um escritório no centro. Descobri que minha mãe cruzou com Charley Starkweather³ pela vida. Um cara chamado Jessie Lee Wise4 queria que eu o ajudasse a fazer sua carreira musical decolar, mas o fato de que ele estava no corredor da morte no Missouri tornou isso um pouco complicado. Conversei com ele 20 minutos antes que a agulha picasse ele. Ele pediu camarão no jantar.

Posso falar disso sem parar. Não era pela minha própria vida cheia de pequenos crimes, e todos os criminosos de uma forma ou de outra, na sua maioria de baixa renda, que eu havia me tornado insensível ao crime.

Eu não digo nada disso com orgulho – mas é assim que as coisas aconteceram. Eu sempre achei que o crime poderia ser interessante. Como se diz mesmo? Uma outra forma de trabalho duro5?

Enfim, bem, é por isso que não fiquei surpreso com tudo que estava acontecendo, de fato, quando passei por um crime em andamento na 23rd St. naquela manhã. Andei em canteiros de obras, desviei de balas – até do fogo – sem estar ciente disso. Afinal de contas, na maioria das vezes, os crimes são muito mais silenciosos do que as pessoas imaginam. Participar de um crime não teria sido nada demais. De menos, até. Apenas algo mais para acrescentar à lista.

1 – Robert Klein: Comediante, cantor e ator estadunidense famoso na televisão durante a década de 1970. (http://en.wikipedia.org/wiki/Robert_Klein). Um homônimo dele se envolveu em um processo contra a Walt Disney Company depois de ser demitido por justa causa por assédio sexual (http://www.hollywoodreporter.com/thr-esq/disneys-archivist-sues-company-firing-424852).

2 – Ed Gein: Ladrão de lápide de Wisconsin condenado pelo homicídio de duas pessoas, e suspeito no desaparecimento de outras cinco (http://pt.wikipedia.org/wiki/Ed_Gein).

3 – Charley Starkweather: Foi um serial killer adolescente estadunidense que matou onze pessoas nos estados de Nebraska e Wyoming num período de dois meses, entre Dezembro de 1957 e Janeiro de 1958 (http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Starkweather).

4 – Jessie Lee Wise: Assassino condenado a pena capital por matar Geraldine Rose McDonald depois de um assalto, em 1988, no Missouri. (http://murderpedia.org/male.W/w1/wise-jessie-lee.htm).

5 – Referência ao filme O Segredo da Jóia (The Asphalt Jungle, 1950). Num determinado momento do filme, durante um dialogo, um ladrão justifica seus atos criminosos como uma forma de trabalho alternativo (http://en.wikiquote.org/wiki/The_Asphalt_Jungle).

Texto Original | http://www.missioncreep.com/slackjaw/2006/crime.htm

Sobre Jim Knipfel | http://en.wikipedia.org/wiki/Jim_Knipfel

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Os Hippies – Hunter S. Thompson

 

Imagem | Flickr CC Arnooo

Imagem | Flickr CC Arnooo

Tradução – Eder Capobianco Antimidia

O melhor ano para ser hippie foi 1965, mas não se tem muito a escrever sobre isso, porque muito do que aconteceu não foi em publico e muito do que aconteceu em lugares privados era ilegal. O verdadeiro ano hippie foi 1966, apesar da falta de publicidade, que em 1967 veio como uma avalanche em âmbito nacional na Look, Life, Time, Newsweek, a Atlantic, o New York Time, o Saturday Evening Post, e até a Aspen Illustrated News, que fez uma edição especial sobre hippies em agosto de 1967 e teve um recorde de vendas de seis cópias de uma tiragem de 3.500. Mas 1967 não foi realmente um bom ano para ser um hippie. Foi um bom ano para vendedores e exibicionistas que chamavam a si mesmos de hippie e deram entrevistas coloridas para beneficiar os meios de comunicação de massa, mas os hippies sérios, com nada para vender, descobriram que tinham pouco a ganhar e muito a perder virando figuras públicas. Muitos foram perseguidos e presos por não outra razão que senão a sua repentina identificação com o chamado culto de sexo e drogas. O barulho da publicidade, que parecia só uma piada no começo, se transformou em um deslizamento de terra ameaçador. Então algumas pessoas que poderiam ter sido chamadas de hippies originais, em 1965, tinham caído fora da vista no momento em que os hippies se tornaram um modismo nacional, em 1967.

Dez anos antes a Geração Beat passou pelo mesmo caminho confuso. De 1955, a cerca de 1959, havia milhares de jovens envolvidos em uma subcultura boêmia próspera que era apenas um eco no momento em que os meios de comunicação chegaram em 1960. Jack Kerouac foi o romancista da Geração Beat, da mesma forma que Ernest Hemingway foi o romancista da Geração Perdida, e o clássico“beat” de Kerouac, On the Road, foi publicado em 1957. Ainda no começo da década de 1960 Kerouac aparecia em programas de televisão para explicar a “explosão” do seu livro, os personagens em que se baseou já tinham caído limbo, para aguardar a sua reincarnação como hippies cerca de cinco anos mais tarde. (O mais puro exemplo disso foi Neal Cassidy (Cassady), que serviu de modelo para Dean Moriarty em On the Road, e também para McMurphy em Um Estranho no Ninho). A publicidade acompanha a realidade, mas somente até o ponto onde um novo tipo de realidade, criada pela publicidade, começa a emergir. Assim, os hippies, em 1967, foram colocados numa posição estranha, como heróis da anti-cultura, ao mesmo tempo em que eles também estavam se tornando uma propriedade comercial lucrativa. Sua bandeira de alienação parecia estar sendo fincada em areia movediça. A própria sociedade que eles estavam tentando abandonar começou e se idealizar neles. Eles eram famosos de uma maneira obscura, que não era bem infâmia, mas colorida ambivalente, e ainda vagamente perturbadora.

Apesar da publicidade da mídia de massa os hippies ainda sofrem, ou talvez não, da falta de um conceito que os defina. O dicionário Random House de língua inglesa foi um best-seller em 1966, ano de sua publicação, mas não tinha uma definição para hippie. O mais próximo que chegou disso foi a definição de “hippy”: “Ter quadris largos; uma garota hippy.” O verbete “hip” estava mais próxima ao uso contemporâneo. “Hip” é uma gíria, segundo o Random House, que significa “familiarizados com as últimas idéias, estilos, desenvolvimentos, etc.; informado, sofisticado, experiente (?).” Essa interrogação é suspeita, mas parte significativa de comentário editorial.

Todos parecem concordar que os hippies tem difundido algum tipo de apelo, mas ninguém pode dizer exatamente o que eles representam. Nem mesmo os hippies parecem saber, embora alguns possam ser muito articulados quando se trata de detalhes.

“Eu amo o mundo todo”, disse uma menina de 23 anos de idade de São Francisco, no distrito de Haight-Ashbury, capital mundial dos hippies. “Eu sou a mãe divina, parte de Buda, parte de Deus, parte de tudo.”

“Eu vivo um dia de cada vez. Eu não tenho dinheiro nem posses. O dinheiro só é belo enquanto esta girando; quando se acumula se torna desnecessário. Nós cuidamos um do outro. Há sempre algum para comprar arroz e feijão para o grupo, e as pessoas sempre sabem que tenho “mato” (maconha) ou “ácido” (LSD). Eu estive em um hospital psiquiátrico uma vez, tentei me conformar e jogar o jogo. Mas agora estou livre e feliz.” Ela foi perguntada se usava drogas com freqüência. “Bastante”, respondeu. “Quando me vejo ficando confusa saio e tomo uma dose de ácido. É um atalho para a realidade; ele te joga direto dentro dela. Todos devem tomar, até mesmo as crianças. Por que elas não devem ser iluminadas cedo, vamos esperar até ficarem velhas? Os seres humanos precisam de liberdade total. Isso é o que Deus diz. Nós precisamos nos livrar da hipocrisia, da desonestidade e da falsidade, e voltar à pureza dos nossos valores de infância.”

A próxima pergunta foi “Você reza?” “Ah, sim”, disse ela. “Eu rezo no sol da manhã. Ele me nutre com energia para que eu possa espalhar meu amor e beleza, e nutrir os outros. Eu nunca rezo por qualquer coisa; Eu não preciso de nada. Qualquer coisa que me excita é uma eucaristia: LSD, sexo, meus sinos, as minhas cores….Essas são as comunhões santas, sacou?” Isso é definitivamente um comentário de alguém que sempre vai ser um hippie praticante. Ao contrário dos beatniks, muitos dos que estavam escrevendo poemas e romances pensando em se tornar a segunda onda de Kerouacs ou Allen Ginsbergs, os formadores de opinião hippie cultivaram entre os seus seguidores uma forte desconfiança em relação à palavra escrita. Jornalistas são ridicularizados, e os escritores são chamados de “aberrações”. Por causa desta ignorância estilizada, alguns hippies conseguem ser extremamente articulados. Eles preferem se comunicar pela dança, ou pelo toque, ou percepção extra-sensorial (PES). Eles falam, entre si, sobre as “ondas de amor” e “vibrações” (“energias”) que vêm de outras pessoas. Isso deixa muito espaço para a interpretações subjetivas, e é aí que reside a chave para o apelo dos hippies.

Isso não quer dizer que os hippies são amados universalmente. De costa a costa as forças da lei e da ordem confrontam os hippies com extrema repugnância. Aqui estão alguns comentários representativos vindos de Denver, Colorado, de um tenente da polícia. Denver, disse ele, estava se tornando um refúgio para os “cabeludos, vagabundos, anti-sociais, psicopatas, usuários de drogas perigosas, que se referem a si mesmos como “subcultura hippie, um grupo que se rebela contra a sociedade e comprometido com o abuso de substâncias e narcóticos perigosos.” A idade deles varia, ele continuou, entre 13 e o início dos 20 anos, e eles pagam por suas necessidades básica como “parasitas, mendigando, e emprestando dos um dos outros, seus amigos, pais e completos estranhos….Não é incomum encontrar até 20 hippies vivendo juntos em um apartamento pequeno, de forma compartilhada, com seu lixo e tranqueiras amontoados do chão ao teto em alguns casos.”

Um de seus colaboradores, um detetive de Denver, explica que os hippies são uma presa fácil para serem presos, pois “é fácil procurar e localizar drogas e maconha porque eles não tem nenhuma móvel para esconder, só um colchão para deitar no chão. Ele não acreditam em nenhuma forma de produtividade,” ele disse, “e ainda tem repulsa por trabalhar, dinheiro e posses materiais, os hippies acreditam no amor livre, na legalização da maconha, queimar os RGs, ajuda e amor mutuo, na paz, e no amor incondicional. Eles são contra a guerra e acreditam que tudo e todos, exceto a polícia, são maravilhosos.”

Muitos dos chamados hippies gritam “amor” como uma senha para o cinismo, e usam isso como uma obscura cortina de fumaça de suas próprias ganâncias, hipocrisias ou deformidades mentais. Muitos hippies vendem drogas, e enquanto a grande maioria dos traficantes de merda vendem apenas o suficiente para pagar só suas próprias contas, alguns poucos tem um lucro de US$20.000 por ano. O quilo (2.2 libras) de maconha, nestas ocasiões, custa cerca de US$35 no México. Depois de cruzar a fronteira (como um quilo) para qualquer lugar o valor gira entre US$150 e US$200. Quebrado em 34 onças, passa a valer entre US$15 e US$25 a onça, ou entre US$510 e US$850 o quilo. O preço vária de cidade para cidade, faculdade para faculdade, ou costa para costa. “Mato” é geralmente mais barato na California do que no Leste. A margem de lucro se torna maior, independentemente da geografia, quando um quilo mexicano de US$35 é dividido em “trouxinhas”, ou cigarros de maconha, vendidos nas esquinas das ruas da cidade por cerca de um dólar cada. O risco aumenta naturalmente com o potencial de lucro. É uma coisa para pagar uma viagem ao México, trazendo de volta três quilos e vendendo dois para um círculo de amigos: O único risco que há é a possibilidade de ser vistoriado e apreendido na fronteira. Mas um homem que é preso por vender centenas de “trouxinhas” para estudantes do ensino médio em uma esquina na rua em St. Louis pode esperar o pior quando o seu caso chegar no tribunal.

O historiador britânico Arnold Toynbee, com 78 anos, fez uma excursão pelo distrito Haight-Ashbury, em São Francisco, e escreveu suas impressões para o London Observer. “Os líderes do establishment”, disse ele, “estão cometendo o erro de suas vidas se estão desconsiderando e ignorando a revolta dos hippies, e de muitos dos hippies não hippies contemporâneos no chão, alegando que também são vagabundos vergonhosos ou traidores, ou apenas crianças tolas que estão semeando suas veias selvagens”.

Toynbee realmente nunca apoiou os hippies; ele explicou sua afinidade apenas pelo foco na história. Se a raça humana quer sobreviver, ele disse, a ética, moral e os hábitos sociais do mundo devem mudar: A ênfase deve ser em mudar do nacionalismo para a humanidade. E Toynbee viu nos hippies um ressurgimento esperançoso dos valores humanitários básicos, parecendo com o que ele e outros pensadores antigos pensavam sobre uma causa, tragicamente perdida na atmosfera envenenada pela guerra da década de 1960. Ele não tinha certeza do que os hippies realmente representavam, mas desde que eles fossem contra as mesmas coisas que ele era contra (a guerra, a violência e a especulação desumanizada), ele naturalmente estaria do seu lado, e vice-versa.

Há uma continuidade clara entre os beatniks dos anos 1950 e os hippies da década de 1960. Muitos hippies negam isso, mas como um participante ativo em ambas as cenas, tenho certeza que é verdade. Eu estava vivendo em Greenwich Village, em Nova York, quando os beatniks chegaram à fama durante 1957 e 1958, me mudei para São Francisco em 1959 e depois para a costa Big Sur em 1960 e 1961, então, depois de dois anos na América do Sul e um no Colorado, eu estava de volta em São Francisco, vivendo no distrito de Haight-Ashbury, durante 1964, 1965 e 1966. Nenhuma dessas mudanças foram intencionais em termos de tempo ou lugar; elas só tinham que acontecer. Quando me mudei para o Haight-Ashbury, por exemplo, nunca tinha ouvido esse nome. Mas tinha acabado de ser expulso de um outro lugar depois do prazo de três dias, e o primeiro apartamento barato que encontrei foi na rua Parnassus, a poucos quarteirões da Haight.

Naqueles tempos os bares no que hoje é chamada de “a rua” eram predominantemente negros. Ninguém nunca tinha ouvido a palavra “hippie”, e toda a música ao vivo era jazz do tipo Charlie Parker. Há muitos quilômetros de distância, descendo pela baía, no bairro relativamente elegante e caro Marina, uma nova boate chamada Matrix estreou, completamente sem publicidade, com uma banda igualmente sem publicidade chamada Jefferson Airplane. Mais ou menos ao mesmo tempo, o autor “hippie” Ken Kesey (Um Estranho no Ninho, 1962, e Sometimes a Great Notion, 1964) estava conduzindo experiências com luz, som e drogas na sua casa em La Honda, nas colinas arborizadas cerca de 50 milhas ao sul de São Francisco. Como resultado de uma rede de circunstância, amizades casuais, e as conexões no submundo de drogas, a banda Merry Pranksters, de Kesey, logo foi ao palco junto com o Jefferson Airplane, e depois com o Grateful Dead, outra banda descontroladamente elétrica que mais tarde se tornaria conhecida de costa a costa, com o Airplane sendo os heróis originais do som acid-rock de São Francisco. Durante 1965, o grupo de Kesey encenou, com bastante publicidade, testes com ácido, que contou com a música do Grateful Dead e suco em pó enriquecido com LSD. As mesmas pessoas estavam na Matrix, nos testes com ácido, e na casa de Kesey em La Honda. Eles usavam roupas estranhas, coloridas e viviam em um mundo de luzes selvagens e música alta. Estes foram os hippies originais.

Foi também em 1965 que comecei a escrever um livro sobre os Hell’s Angels, uma notória gangue de motociclistas foras da lei que havia atormentado a Califórnia por anos, e o mesmo tipo de estranha coincidência que concretizou todo o fenômeno hippie também trouxe o Hell’s Angels a cena. Eu estava tomando uma cerveja com Kesey uma tarde, em uma taverna em São Francisco, quando mencionei que estava a caminho do quartel-general dos Frisco Angels para pegar um tambor brasileiro que um deles queria me emprestar para uma gravação. Kesey disse se estava tudo bem que ele fosse junto, e quando se encontrou com os Angels convidou eles para uma festa no fim de semana em La Honda. Os Angels foram e assim conheci um monte de gente que estava morando em Haight-Ashbury pela mesma razão que eu (aluguel barato e bons apartamentos). Pessoas que vivem a dois ou três quarteirões um do outro nunca se percebem até que se conheçam em uma festa pré-hippie. Mas de repente todo mundo estava vivendo em Haight-Ashbury, e essa união acidental assumiu um estilo próprio. Tudo o que faltava era um rótulo, e o San Francisco Chronicle veio rapidamente com um. Essas pessoas eram “hippies”, disse o Chronicle, e eis que o fenômeno foi lançado. O Airplane e o Grateful Dead começaram a anunciar suas festas pouco frequentadas com cartazes psicodélicos, que eram doados no início e depois vendidos por US$1 cada, até que, finalmente, os cartazes ficaram tão populares que alguns dos originais estavam sendo vendidos nas melhores galerias de arte de São Francisco por mais de US$2.000. A essa altura tanto o Jefferson Airplane, quanto o Grateful Dead, tinham contratos de gravação de ouro, e uma das melhores peças do Airplane, “White Rabbit”, estava entre os singles mais vendidos no país.

Nessa época, também, o Haight-Ashbury tornou-se uma porra de uma Meca barulhenta para loucos, traficantes de drogas e curiosos, e já não era um bom lugar para se viver. A rua Haight estava tão lotada que os ônibus municipais precisavam ser desviados por causa dos engarrafamentos.

Ao mesmo tempo, “Hashbury” estava se tornando um imã para toda uma geração de jovens abandonados, todos com suas reservas canceladas na grande linha de montagem: os enroladores, as almas rasgadas concorrendo por status e segurança na sempre gorda, ainda que cada vez mais estreita, economia americana do final dos anos 1960. Como as recompensas pelo status eram maiores para os ricos, a competição ficou mais dura. A nota de reprovação em matemática em um boletim do ensino médio tinha implicações muito mais graves do que simplesmente uma redução na mesada: pode alterar as chances de um menino de entrar na faculdade e, no próximo nível, de conseguir o “trabalho certo”. A medida que a economia exigiu habilidades cada vez maiores, produziu cada vez mais abandonados tecnológicos. A principal diferença entre os hippies e outros abandonados foi que a maioria dos hippies eram brancos e voluntariamente pobre. Suas origens eram de classe média, em grande parte; muitos tinham ido para a faculdade por um tempo antes de optar por uma “vida natural” mais fácil, sem pressão existencial, à margem da economia do dinheiro. Seus pais, segundo eles, estavam caminhando pela falácia americana do “trabalhe e sofra agora para viver e relaxar depois.”

Os hippies reverteram essa máxima. “Curta a vida agora,” eles dizem, “e se preocupe com o futuro amanhã.” A maioria sobrevivia de favores e coisas compartilhadas, mas em 1967, com seus redutos em Nova York e São Francisco já cheios de peregrinos sem dinheiro, ficou evidente que simplesmente não havia comida e alojamento suficiente para todos.

Uma solução parcial emergiu na forma de um grupo chamado Diggers, algumas vezes citados como “pastores-operários” do movimento hippie. Os Diggers eram jovens e agressivamente pragmáticos; eles montaram centros de alojamento gratuito, refeitórios gratuitos e centros de distribuição de roupas de graça. Eles fizeram um pente fino nos bairros hippies solicitando doações de tudo, desde dinheiro para fornos velhos de pão até equipamento de camping. Em Hashbury foram espalhadas pelas lojas locais caixas Diggers, pedindo doações de martelos, serras, pás, sapatos e qualquer outra coisa que hippies errantes podem usar para serem, pelo menos parcialmente, auto-sustentável. Os Diggers de Hashbury foram capazes, por um tempo, de servir refeições gratuitas, não interessa se sujos, todas as tardes no parque Golden Gate, mas a demanda era maior que o fornecimento. Mais e mais hippies famintos apareciam para comer, e os Diggers foram forçados a ir cada vez mais longe para conseguir comida.

O conceito de compartilhamento em massa vem junto com o escopo tribal indígena americano, que é a base para todo o movimento hippie. O culto ao tribalismo é visto por muitos como o segredo para a sobrevivência. O poeta Gary Snyder, um dos gurus hippies, ou guia espiritual, vê o movimento de “volta à terra” como resposta para o problema da alimentação e moradia. Ele incita os hippies a sair das cidades, formar tribos, adquirir terras, e viver em comunidades em áreas remotas. No início de 1967 já havia uma meia dúzia de assentamentos hippies funcionando na Califórnia, Nevada, Colorado e no norte de Nova York. Eram barracos primitivos, com cozinhas comunitárias, pomar de frutas e vegetais, e um espetacular futuro incerto. De volta as cidades a grande maioria dos hippies tinha que viver um dia de cada vez. Na ruaHaight aqueles sem emprego remunerado podiam facilmente ganhar alguns dólares por dia pedindo esmola. O fluxo de voyeurs nervosos e curiosos investigadores era uma árvore de dinheiro para a legião de mendigos psicodélicos. Os frequentes visitantes de Hashbury acharavam conveniente manter algumas moedas no bolso porque eles não queriam ter que pechinchar troco. Os pedintes geralmente estavam descalços, sempre jovens, e nunca pareciam arrependidos. Eles iriam compartilhar o que recolhessem com qualquer um, então parecia inteiramente razoável que os estranhos compartilhem com eles. Ao contrário dos beatniks, alguns hippies tem uma caída por bebidas fortes. A birita é supérflua na cultura de drogas, e comida é considerada como uma necessidade a ser adquirida à um custa que seja o menor possível. Uma “família” de hippies vai trabalhar horas a fio por um guisado exótico ou curry, mas a idéia de pagar três dólares para uma refeição em um restaurante esta fora de questão.

Alguns hippies trabalham, outros vivem com dinheiro vindo de casa, e muitos tem um bico de meio período, empréstimos de velhos amigos ou transações ocasionais no mercado das drogas. Em São Francisco os correios são a maior fonte de renda hippie. Trabalhos como separar correspondências não requerem pensar muito ou esforço. O único provedor de um “clã” (ou família, ou tribo) era um hippie de meia idade conhecido como Admiral Love, dos Psychedelic Rangers, que tinha um trabalho regular entregando cartas especiais durante a noite. Lá também tinha uma agência de empregos rápidos para hippies, na rua Haight; qualquer um que precisasse de trabalhador temporário, ou algum tipo de trabalhador especializado, poderia ligar e pedir qualquer talento certo que estivesse a disposição no momento. Significantemente os hippies atraiam uma ceticismo maior, e mais sério, dos seu compatriotas de fileiras da Nova Esquerda do que o vindo de quem seriam seus antagonistas naturais, os políticos de direita. O conservador William Buckley, da National Review, disse numa ocasião, “os hippies estão tentando esquecer o pecado original e isso pode ser difícil para eles depois da morte.” Os editores da National Review estavam completamente perdidos sobre como os argumentos dos hippies sérios já tinham desmistificado a concepção do pecado original, e a idéia de vida após a morte tinha sido derrubada como uma bobeira, uma piada anacrônica. A concepção de algum Deus vingativo, sentado e julgando os pecadores, era estranha para toda ética hippie. Este Deus é gentil e abstrato, e não se importa com o pecado ou o perdão, mas Se manifesta na pureza e instinto de “Seus filhos.”

A marca da crítica da Nova Esquerda não tem nada a ver com teologia. Até 1964, de fato, os hippies eram uma parte muito importante da Nova Esquerda, que ninguém sabia diferençar. “Nova Esquerda”, como “hippie” e “beatnik,” foram termos cunhados por jornalistas e escritores de manchetes, que precisam de definições curtas sobre qualquer assunto que tenham que lidar. O termo veio da rebelião estudantil na Universidade de Berkeley, campus da Califórnia, em 1964 e 1965. O que começou como Movimento Liberdade de Expressão em Berkeley logo se espalhou para outros campi no Leste e Centro-Oeste, e foi visto na imprensa nacional como uma explosão de ativismo estudantil na política, um confronto saudável com o status quo.

Com a força publicitária da liberdade de expressão, Berkeley se tornou o eixo da Nova Esquerda. Seus líderes eram radicais, mas eles também estavam profundamente comprometidos com a sociedade que queriam mudar. Uma comissão de professores da prestigiada Universidade da Califórnia disse que os ativistas eram a vanguarda de uma “revolução moral entre os jovens”, e muitos professores aprovaram. Aqueles que estavam preocupados com o radicalismo dos jovens rebeldes, pelo menos, concordavam com a direção que eles estavam tomando: direitos civis, justiça econômica, e uma nova moralidade na política. A raiva e o otimismo da Nova Esquerda parecia sem limites. Tinha chegado o momento, segundo eles, para se libertar do jugo político-econômico de um establishment que era, obviamente, incapaz de lidar com as novas realidades.

O ano da publicidade da Nova Esquerda foi 1965. Ao mesmo tempo houve menção a alguma coisa chamada esquerda do pot (maconha). Seus membros eram geralmente mais jovens do que os típicos políticos sérios, e a imprensa tratou-lhes como uma gangue frívola de “drogados” e sexo “maluco” apenas para curtição.

No entanto, pouco antes da primavera de 1966, os comícios políticos em Berkeley estavam começando a se tornar festivais da música, insanidade e absurdos. O Dr. Timothy Leary, ex-professor de Harvard, cuja os primeiros experimentos com LSD o tornaram, em 1966, uma espécie de sumo sacerdote, mártir e relações públicas para a droga, estava substituindo Mario Savio, líder do Movimento Liberdade de Expressão, como o herói underground número um. Os alunos, que antes eram ativistas furiosos, começaram a deitar em suas almofadas e sorrir para o mundo através de uma névoa de fumaça de maconha, ou se vestindo como palhaços e índios e ficando “bicudos” de LSD por dias. Os hippies estavam mais interessados em cair fora da sociedade do que em mudá-la. A chance veio no final de 1966, quando Ronald Reagan foi eleito governador da Califórnia com quase um milhão de votos. Nesse mesmo novembro o Partido Republicano ganhou 50 cadeiras no Congresso e, servindo como um claro sinal de alerta para a administração Johnson a respeito das chamadas da Nova Esquerda, a maioria do eleitorado era muito mais conservadora do que os radares da Casa Branca tinham indicado. A lição não foi esquecida pelos hippies, muitos dos quais se consideravam, pelo menos parcialmente, ativistas políticos. Uma das vítimas mais óbvias das eleições de 1966 foi a ilusão da Nova Esquerda sobre seu próprio alcance. A aliança radical-hippie contava com os eleitores para repudiar os elementos “de direita, belicistas” do Congresso, mas em vez disso foram os democratas “liberais” que dançaram. Os hippies viram o resultado da eleição como uma confirmação brutal da inutilidade da luta contra o establishment com suas próprias ferramentas. Tinha que haver um cenário todo novo, segundo eles, e a única maneira de fazer isso era criar uma grande mudança, tanto no sentido figurado quanto no literal, de Berkeley para Haight-Ashbury, do pragmatismo ao misticismo, da política para erva, a partir do envolvimento em protestos numa retirada pacífica de amor, natureza e espontaneidade. A crescente, e rápida, popularidade da cena do hippie era motivo de preocupação desesperada nos jovens ativistas políticos. Eles viram toda uma geração de rebeldes caindo no limbo das drogas, prontos para aceitar quase tudo, desde que tivesse “soma” o suficiente (como Aldous Huxley chamou a droga psíquica de fuga do futuro em seu romance de ficção científica Admirável Mundo Novo, 1932). Escritores e críticos da Nova Esquerda primeiro elogiaram os hippies pela a sua franqueza e originalidade. Mas logo ficou claro que poucos hippies se importavam com as diferenças entre as políticas de esquerda e direita, menos ainda entre as diferenças da Nova Esquerda e da Velha Esquerda. “Flower power” (o termo deles para o poder do amor), disseram, era apolítico. E a Nova Esquerda rapidamente respondeu com acusações de que os hippies eram “intelectualmente frouxos”, que eles não tinham “energia” e “estabilidade”, que eram realmente “niilistas”, que tinha um conceito de amor “tão generalizado quanto impessoal, assim como sem sentido.”

E era tudo verdade. A maioria dos hippies são demasiadamente orientados pela droga para ter qualquer sentimento de urgência para além do momento. Seu slogan é “Agora”, e isso significa instantâneo. Ao contrário de ativistas políticos de qualquer tipo, os hippies não têm nenhuma visão coerente do futuro, que pode ou não existir. Os hippies são afligidos por um tipo debilitante de fatalidade que é, de fato, lamentável. E os críticos da Nova Esquerda são heróicos, à sua maneira, por seguir em frente por eles. Mas a terrível possibilidade dos hippies estarem certos existe, o futuro é deplorável então por que não viver o agora? Por que não rejeitar todo o caráter essencial da sociedade americana, com todas as suas obrigações, e fazer a paz em outro lugar? Os hippies acreditam que estão fazendo estas perguntas por toda uma geração e ecoando as dúvidas de uma geração mais antiga.

– Artigo escrito originalmente para a revista Collier’s, em 1968.

– Mais sobre Hunter S. Thompson | http://pt.wikipedia.org/wiki/Hunter_S._Thompson

– Texto original | http://distrito47.wordpress.com/2014/02/03/the-hippies-by-hunter-s-thompson

*Nota do tradutor: Alguns termos foram mantidos em inglês por não terem uma expressão com o mesmo sentido em português. Assim como os nomes de ruas, bandas, estabelecimentos ou movimentos.

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Canibal – Chuck Palahniuk

Desenho | Marco Wagner

Desenho | Marco Wagner

Tradução: Eder Capobianco Antimidia

Este é ele. Assim é como ele faz, o capitão do Red Team. Ele era tudo, “Escutem.” Ele está desesperado porque eles ainda estão escolhendo os times. Porque todas as boas escolhas já tinham sido feitas, o capitão diz, “Vamos fazer um acordo.” Ele cruza os braços sobre o peito, e o capitão do Red Team berra: “Vamos ficar com o Fumaça, o Quatro-Olhos e o Cucaracha – se você vai ficar com o Canibal”. porque a educação física esta quase acabando, o capitão do Blue Team pensa rápido, torcendo os pés contra o chão da quadra. O capitão berra de volta, “Nós ficamos com o Fumaça e o Quatro-Olhos, o Cucaracha, o Judeu, o Aleijado, o Manco e o Retardado – se você ficar com o Canibal.”

Porque quando você está na escola sabe o que as notas de Interação significam: Você faz parte dos rejeitados sociais? E quando eles dão uma nota para Esportes significa: Você marginaliza aqueles que são diferentes? Por causa disso o capitão do Red Team grita, “Vamos enfiar 100 pontos.”

Escutando isso, o capitão do Blue Team grita de volta, “Nós vamos enfiar um milhão.”

O Canibal, ele acha que é um figurão, por causa disso fica olhando fixamente para suas unhas, sorrindo e cheirando seus dedos, sem ter noção de como ele mantém todo mundo refém. Isso é o oposto de um leilão de escravos. E todo mundo sabe o que ele está pensando. Por causa do que a Márcia Sanders disse a todos. Ele esta pensando em um filme que não sai da sua cabeça, um filme preto-e-branco que ele viu na TV a Cabo, onde uma garçonete com cara de tacho, nos velhos tempos, fatia alguma coisa em um restaurante de beira de estrada. O Canibal estava pensando em como elas estalam suas bolas de chicletes, as garçonetes. Elas mascam o chiclete enquanto falam, “Me dê este gado morto na panela com o sangue ainda na faca.” Elas berravam, “Me dê o pedido da mulher original com um nervo na sua carne.”

Você sabia que era antigo porque na conversa do jantar dois ovos com torrada eram “Adam and Eve on a raft*”. E “mulher original” significava um pedido que se referia a alguma coisa da Bíblia. Um pedido como “Eve whit a lid on*” era a mesma coisa que torta de maçã por causa da história da serpente. porque nos dias de hoje ninguém, exceto Pat Robertson**, sabe alguma coisa sobre o Jardim do Éden. Por aqui, quando o capitão do time de beisebol fala sobre comer um pastel de pêlo, ele fala sobre cair de boca no pãozinho rosa, e ele realmente se gabava da sua língua lambendo aquele pãozinho sujo. As garotas tem suas próprias comidas, como quando falavam sobre Marcia Sanders ter um bolo no forno, que significa que o Chico não desceu.

De qualquer forma, muito do que sabia sobre sexo Canibal aprendeu com o canal da Playboy, onde as senhoras nunca estão de absorvente, então quando as crianças sussurram sobre afogar o ganso ou esconder a cobra num bolo de carne, eles sabem que isso é a mesma coisa que os coelhos fazem com as coelhinhas da Playboy, fazendo do mesmo jeito que uma cascavel treme sua língua para sentir o cheiro de algo que pretende morder no Animal Planet. O Canibal tinha visto uma notícia num deste programas de televisão. Sabe aquela foto, de uma antiga Miss América bebendo direto do copinho do cú. Estas fotos pervertidas dela vinham a confirmar que ela gostava de enfiar qualquer coisa para dentro, porque era isso que duas garotas sem um croquete de carne ou um careca lançador de iogurte fazem para consumar o casamento. Porque é isso que as garotas fazem, as vezes, quando suas periquitas precisam afogar o ganso.

Porque nunca ninguém explicou outra forma, ele estava pronto para entrar até o pescoço no furo do tacho da Marcia Sanders. porque seu pai, o velho Sr. Canibal, só assistia o canal da Playboy, e a Sra. Canibal só gostava do The 700 Club***, eles esqueceram de explicar para o seu garoto como coisas sobre sexo e o Cristianismo se parecem. Por isso a TV a cabo nunca falha. Quando você sintoniza e vê uma garota quase bonita, quase atuando num cenário, isso parece quase real, Canibal sabia que a história dela ia acabar com ela toda respingada. Ou isso, ou ela ia ter que sugar todo aquele suco de pau escorrendo pela sua cara. Sendo assim, o Canibal estava com o pinto alerta quando Marcia Sanders olhou para ele no dia dos direitos civis americanos. Não importava o quanto ele tentava esconder isso, sua pele já estava cheia de bolinhas de arrepios com a conversa do bolo na janta, que gritava pela janelinha. Do mesmo jeito que os católicos vão na igreja falar perversões para sua própria janelinha.

Porque não importa como eles o chamavam, sacanagens faziam o Canibal babar. Aquelas palavras que a imaginação transformava, como biscoito de bigode ou cortinas de carne, quando as crianças falam realmente significa um delicioso suflê. No ensino médio, quando eles matriculam você em Espirito Comunitário, significa: Você vai fazer coreografias e torcer nos jogos? E quando as crianças fazem piadas sobre o Canibal, elas estão falando sobre a vez em que Marcia Sanders era uma veterana prestes a se formar. Porque ela era a super musa, ela era a mais popular, e era a líder das estéricas e por causa disso ela era a presidente da classe e por causa disso ela era o prato perfeito. Porque ela não tinha nada no quarto período e ela era voluntária do dia dos direitos civis, quando se aproximou do Canibal, porque ele ainda estava na sétima série e porque ela sabia que ele nunca diria não porque estava chapado de puberdade.

Ela era tudo, “Você gostou do meu cabelo, não gostou?” Sua cabeça gingava e seu cabelo parecia de espaguete, e ela vai, “Estou com o cabelo mais longo do que nunca.”

A forma como ela falava soava como sacanagem, porque qualquer coisas soa como sacanagem quando sai da boca de uma garota sexy. E porque o Canibal não conhecia nenhuma melhor, o Canibal concordou com um encontro amoroso junto com Marcia Sanders na casa dela, porque o Sr. e a Sra. Sanders foram para a casa do lago naquele fim de semana. Ela pede para ele apenas porque ela diz que seu namorado, o capitão do time de todos os esportes, não vai usar ela como uma máscara de gás. Isso era ela, aqui está ela, ela diz isso, Marcia Sanders, ele diz, “Você realmente quer transar comigo, garoto?” E porque o Canibal não tem idéia do que isso significa, ele diz, “Sim!”

Por causa disso, então, ela diz para ele ir na sua casa depois do anoitecer no sábado, e chegar pela porta da cozinha porque ela tem uma reputação a zelar. E porque Marcia Sanders diz que ele pode ser seu namorado secreto, o Canibal não pensa duas vezes. Porque na escola de ensino médio Jefferson quando você se forma em Boa Cidadania significa: você lava as mãos depois de comer um par de coxinhas? Porque metade do tempo o Canibal não sabe no que esta pensando, ele vai no sábado a noite e Marcia Sanders prepara a cama king-size com colchão d’água do quarto de seus pais. Ela espalha duas camadas de toalhas de banho do outro lado do colchão e diz que é para encaixar sua cabeça no meio delas. Ela diz que não é para ele tirar a roupa, mas o Canibal vai pensar nisso mais tarde, porque ela abre o zíper da calça jeans e a joga nas costas de uma cadeira, e por causa disso ele olha a calcinha dela com tanta força que ela fala para ele fechar os olhos. Por causa disso Canibal finge não olhar ela se ajoelhar no trilho acolchoado na borda do colchão d’água, e ele pode ver porque chamam ela de pacote carnudo. Depois disso ele não conseguiu mais ver o pacote porque ela trançou a perna pelo se rosto e agachou até que o quarto se resumisse aquelas panquecas cobrindo tudo, exceto o som subaquático da voz de Marcia Sanders lhe dizendo o que fazer a seguir. Canibal encontra-se enfiado de cabeça no fundo do colchão d’água, com as abas de água em torno de seus ouvidos, ouvindo voltas como ondas no mar. Seu corpo estava tremendo da cabeça ao pé, ouvindo seu batimento cardíaco, ouvindo os batimentos de alguém. Por causa disso Marcia Sanders do nada diz para ele, “Chupa, já, seu boneco inflável estúpido!,” e o Canibal chupa.

Por causa disso ela diz, “Vamos acabar logo com isso!” ele chupa como quem quer entrar dentro dela para aspirar tudo.

O Canibal não pode ir para cima, porque quando as crianças dizem que suas pernas são grossas como troncos de árvores elas estão falando de um salgueiro. E quando o The 700 Club*** fala sobre satisfação, com histórias de vida inspiradoras, isso não é simples, porque quanto mais o Canibal suga mais difícil fica, porque a sucção esta sugando de volta. Porque ele esta lutando contra as entranhas molhadas dela neste cabo-de-guerra por nada. Canibal esta usando Marcia Sanders como uma máscara de gás, chupando como se ela fosse uma picada de cobra, com as coxas dela espremendo sua cabeça, ele não pode ouvir que ela estava gritando. Porque no canal da Playboy, quando ela esta gritando é porque você esta indo bem. O Canibal se apavorou porque aquele pãozinho sujo apertado cheira como qualquer coisa que sua mãe cozinha no andar de cima. Porque o pacote de carne na televisão nunca faz nada, o Canibal suga do mesmo jeito que um tornado no Canal do Tempo, que vai arrebentar a janela e virar a casa de cabeça para baixo.

Porque o Canibal nunca comeu um pãozinho rosa, ele pensa que o colchão d’água tem um vazamento porque eles escuta um estampido dentro da sua cabeça. É como o estampido do seu ouvido quando você sobe rápido no elevador até o topo da Torre Sears****. Como quando você explode uma bola de chiclete ou morde um tomate cereja maduro. Ele calcula que o colchão estourou por causa do que acontece depois, ele começa a tossir uma água que tem gosto de lágrima. Porque eram litros, como Tammy Faye Bakker***** que chorou centenas de anos por dentro, e porque o Canibal nunca devorou um pãozinho rosa e próxima coisa que ele pensou é que tinha matado ela porque todo caldinho dela estava descendo pela sua garganta. Porque ela esta gritando como carne mal passada num restaurante de caminhoneiro. Tudo isso acontece em não mais que duas batidas do coração, mas porque ele assistiu ao canal da Playboy a próxima coisa que o Canibal sabe é que tem que mandar todo aquele caldinho que esta jorrando daquela senhora direto para dentro. Porque ele viu aqueles vídeos aonde as senhoras jorram aquele caldinho depois de bater uma ciririca, grandes espumas, como as baleias no Animal Planet espirram, ou como aqueles barcos em chamas que passaram pela Estátua da Liberdade durante o Bicentennial Moment******. Porque ele viu os grandes jatos saindo da caverna da senhora indo direto para o carpete laranja-queijo onde eles estavam transando, como ele sempre viu nos filmes da Playboy, Canibal sabia o suficiente sobre caldinho de senhora para não cuspir nada, porque a pior maneira de insultar alguém é não engolir o que ela está servindo.

Porque sua única experiência com molhos de senhora é da TV a cabo, Canibal não percebe que um pedaço de alguma coisa sólida misturado naquilo. Não imediatamente. Porque batendo entre a sua língua e o céu da boca, agora, está um feijão de geleia com sabor de sal. É um tipo de feijão que tem gosto de água de conserva de picles. Esta batendo por todo lado como uma última azeitona num jarro de água fervendo. E porque é tão pequeno o Canibal simplesmente engole.

Porque metade do tempo o Canibal não sabe o que esta pensando, ele diz, “Você conseguiu.”

Marcia Sanders está tirando o absorvente da sua bolsa e diz: “Eu juro para você que não sabia.” Ela não tinha tirado seu top, e agora esta fechando a calça jeans.

E o Canibal diz, “Eu fiz você chegar lá.”

Ela abre a boca mas não diz coisa nenhuma porque a campainha da porta toca, e era o seu namorado real. Porque o Canibal fez Marcia Sanders jorrar tão forte que ela tem que tomar Tylenol e usar um trapo para tapar a buceta, Canibal sabe que é um garanhão. Por causa disso Marcia Sanders deve ter se gabado para Linda Reynolds, porque Linda Reynolds se insinua para ele do lado do prédio de química e pergunta se ele pode ser seu namorado secreto também. Porque o Canibal devora bolo de carne tão bem Patty Watson também quer um pouco de ação, porque ele faz com que cada pastel de pêlo jorre molho especial. Porque o caminho mais rápido para o coração de uma mulher é através do estômago de um homem.

Por causa disso, quanto poderia se importar um colegial em ter que levar isso para o resto da vida? E por causa disso o Canibal está dando a todas estas pessoas outra chance de serem virgens. Ele é o pequeno segredo sujo de todas, só que ele não é tão secreto. Porque ele não é tão pequeno, não mais. Por causa disso o Canibal esta vendo os erros que cometeu no ensino médio engordar, e Marcia Sanders diz que tem que mante-lo calado. Linda Reynolds acompanha Canibal num encontro atrás do Prédio Profissional, com uma barra de ferro para a cabeça dele, na sexta-feira a noite, porque o Canibal anda se gabando por aí, muito esperto para se dar bem, mas burro demais para saber que esta se dando mal. Porque agora quando o Canibal arrota, é o gosto de suas escolhas erradas que ele sente. E quando o Canibal peida cheira ao neto morto de seus pais.

Porque, se você acredita em Pat Robertson, The 700 Club*** diz que Jesus, certa vez, pediu para uma legião de espíritos sujos abandonar um homem aflito, e os demônios se foram como uma manada de porcos. Por causa disso que estes porcos se lançaram de um penhasco no mar da Galiléia, que é como Canibal tem que morrer. É o único caminho descente para seguir. Porque até os padres quando cometem pecados na janela da cozinha de uma igreja católica, quando estão cheios disso, até eles precisam ser destruídos. É por isso que um bode expiatório tem que ir para o abate. Porque você acredita que a evolução do mundo é apenas todo mundo cantando e saltitando numa estrada de tijolos amarelos em Technicolor, “Porque, porque, porque, porque, porque……..” Quando a real verdade esta no Velho Testamento, aonde as sete tribos andavam, perdidas, sempre dizendo: “Gerou, gerou, gerou, gerou, gerou….”

Por causa disso é que, talvez, Canibal vá para o Céu, desde que, exceto sua boca, ele ainda seja virgem.

Por causa disso é que na escola não importa quem o capitão do time escolha agora, nunca vai ser o Canibal, que personifica aquilo que, eventualmente, vem para todos nós, para dizer: “Dá-nos cinto de segurança e dar-nos o exame Papanicolau e nós vamos pegar a pobreza e nos vamos pegar a velhice, apenas não deixe o Canibal ficar do nosso lado. Não deixe a sombra do Canibal cair sobre nós.”

Escolhido os lados, o capitão do Red Team diz, “Vamos mandar para vocês nosso melhor arremessador….”

E nós vamos pegar as crianças que enfiam o dedo no nariz e comem. E nós vamos pegar o garoto que cheira a mijo. E nós vamos pegar o leproso, o satanista canhoto, o hemofílico infectado com AIDS, o hermafrodita e o pedófilo. Nós vamos pegar os viciados em drogas, e vamos pegar JPEGs do mundo ao invés do mundo, MP3 em vez de música, e vamos trocar a vida real para sentarmos num teclado. Nós vamos apontar sua felicidade e vamos apontar a humanidade, e nos vamos fazer sacrifícios piedosos se você manter o Canibal num canto.

Porque Marcia Sanders não gerou nada, seu namorado de verdade se formou e foi para Michigan fazer faculdade de contabilidade, por causa de tudo isso Patty Watson marcou um encontro com o Canibal na sexta a noite do lado do Prédio Profissional e Linda Reynolds disse que ela deveria levar um pé de cabra. E todas concordaram em usar luvas de látex. Por causa disso talvez todos eles possam voltar a jogar desde que o Canibal se foi.

– Publicado originalmente na revista Playboy dos Estados Unidos da América na edição de Maio de 2013. (http://www.playboyph.com/feature.php?feature_id=43#.U7LX2M1ax-b).

– Mais sobre Chuck Palahniuk | http://pt.wikipedia.org/wiki/Chuck_Palahniuk

– Notas do tradutor

* Referência a história bíblica de Adão e Eva e o pecado original. As traduções literais dos pratos seriam “Adão e Eva numa canoa” e “Eva com uma tampa”.

** Marion Gordon “Pat” Robertson (22 de março de 1930), pastor pentecostal, advogado e ex-candidato à presidência da República dos Estados Unidos pelo partido Republicano. Apresenta o programa Clube 700, fundou a rede de televisão TBN, Christian Broadcasting Network e a Christian Coalization, organização destinada a influenciar a política norte-americana. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Pat_Robertson

*** Programa de televisão apresentado por Pat Robertson.

**** Sears Tower: maior arranha-céu dos Estados Unidos da América, localizado em Chicago, estado de Illinois. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Willis_Tower

***** Tammy Faye Bakker: pertencente ao Clube 700, e é uma atriz e cantora evangélica estadunidense que ficou marcada por chorar muito na televisão ao falar sobre a condenação a prisão de seu marido, Roe Messner, por envolvimento em crimes que envolviam abuso sexual e suborno nos Estados Unidos da América. Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Tammy_Faye_Messner

****** Bicentennial Moment: comemoração dos 200 anos da revolução americana, muito comemorado nas escolas. Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Bicentennial_Minutes

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Conselho para um jovem escritor (Tradução)

Danilo Kiš – Advice for the young writer
Tradução: Eder Capobianco (Antimidia)

– Duvide das ideologias estabelecidas e da elite.

– Mantenha-se longe das elites.

– Tenha cuidado para não contaminar seu discurso com linguagens ideológicas.

– Acredite que você é tão poderoso quanto os que estão no poder, mas não meça sua força com eles.

– Acredite que você pode falhar como os que estão no poder, mas não meça sua resistência com eles.

– Não acredite um utopias, exceto aquelas que você mesmo cria.

– Seja igualmente duro com as elites assim como com as massas.

– Tenha consciência tranquila pelos privilégios que a vida de escritor oferece.

– Não confunda as aflições de sua profissão com opressão de classes.

– Não seja obsessivo com a urgência da história e não acredite em metáforas sobre “o trem da história”.

– Não embarque, consequentemente, no “trem da história”, que não é nada senão uma metáfora boba.

– Mantenha isso em mente: “Quem consegue vencer frustra todo o resto”.

– Não escreva sobre viagens a países como um turista; não escreva sobre nenhum acontecimento, você não é jornalista.

– Não acredite em estatísticas, números, em declarações públicas: realidade é o que não se pode ver a olho nu.

– Não visite fábricas, “kolkhoz”*, obras: progresso é o que não se pode ver a olho nu.
*Termo russo usado para se referir as propriedades rurais coletivas, estabelecidas na antiga União Soviética. (Fonte: Wikipédia – http://pt.wikipedia.org/wiki/Kolkhoz).

– Não se preocupe com a economia, sociologia ou psicanálise.

– Não siga filosofias orientais, Zen Budista etc: você tem mais o que fazer.

– Tenha consciência que a fantasia é irmã da mentira, e portanto perigosa.

– Não se associe com nada: o escritor é sempre solitário.

– Não acredite em quem diz que este mundo é o pior dos possíveis.

– Não acredite em profetas, você é o profeta.

– Não faça profecias, a dúvida é sua arma.

– Tenha a consciência tranquila: a elite não podem te atingir por que você é a elite.

– Tenha a consciência tranquila: os operários não podem te atingir por que você é um operário.

– Saiba que o que não é dito pelos jornais não esta perdido para sempre.

– Não escreva de acordo com a ordem do dia.

– Não jogue todas suas cartas num único momento, você se arrependerá.

– Também não jogue suas cartas na eternidade, você lamentará de ter feito isso.

– Não se contente com o seu destino, apenas idiotas se contentam com isso.

– Se contente com o seu destino, você é o escolhido.

– Não procure justificativa moral para os traidores.

– Esteja tranquilo com a “absoluta perseverança”.

– Esteja tranquilo quanto as falsas analogias.

– Acredite em quem paga um alto preço pela suas inconsistências.

– Não acredite em quem paga um alto preço pela suas inconsistências.

– Não promova o relativismo dos valores: existe uma hierarquia de valores.

– Aceite os prêmios ofertados pela elite com indiferença, mas não faça nada para merece-los.

– Acredite que a linguagem que você escreve é a melhor linguagem de todas, para você não existe outra linguagem.

– Acredite que a linguagem que você escreve é a pior linguagem de todas, entretanto você não trocaria ela por nenhuma outra.

– Não seja servil, por que a elite tratará você como um empregado.

– Não seja arrogante, por que assim você vai se parecer com os empregados da elite.

– Não se deixe convencer de que sua literatura é inútil para a sociedade.

– Não pense que o que você escreve pode ser considerado “útil para sociedade”.

– Não pense que você ou suas coisas podem ser útil para os membros da sociedade.

– Não se deixe convencer por eles que por causa disso você é um parasita social.

– Acredite que suas palavras são mais valiosas do que os discursos dos políticos e da elite.

– Tenha uma opinião sobre tudo.

– Não diga sua opinião sobre tudo.

– Para você suas palavras não custam nada.

– Suas palavras são as coisas mais preciosas que você tem.

– Não represente sua nação, quem é você para querer representar qualquer coisa que não seja você mesmo?!

– Não seja oposição, ou siga junto a elite, você esta abaixo disso.

– Não se aproxime do governo ou da elite, você esta acima deles.

– Lute contra as injustiças sociais, mas não faça disso um manifesto.

– Não deixe que a luta contra as injustiças sociais desvie você de seu caminho.

– Conheça o pensamento dos outros, e descarte eles depois.

– Não invente programas políticos, não crie nenhum programa: você cria a partir do magma e do caos do universo.

– Seja cuidadoso com soluções finais mirabolantes.

– Não seja o escritor das minorias para as minorias.

– Assim com a sociedade te questiona sobre você, questione-se sobre o que você esta fazendo.

– Não escreva para um “grupo de leitores”: todos os leitores são o grupo.

– Não escreva para as elites, não existe elite; você é a elite.

– Não contemple a morte, e não esqueça que você é mortal.

– Não acredite na imortalidade dos escritores, isso é uma coisa sem sentido ensinada pelos professores.

– Não seja extremamente sério com o trágico, isso é cômico.

– Não seja um comediante, os ricos estão acostumados a usar eles apenas como entretenimento.

– Não seja o bobo da corte.

– Não acredite que sua escrita é a “consciência dos homens”: você já viu muitos filhos da puta.

– Não deixe que eles te persuadam a acreditar que você não é ninguém: você sabe que os ricos temem os poetas.

– Não morra por nenhum ideal, e não deixe que ninguém morra.

– Não seja um covarde e deprecie os covardes.

– Não se esqueça que o heroísmo cobra um alto preço.

– Não escreva para festas ou júbilos.

– Não escreva louvações, você vai se arrepender disso.

– Não escreva obituários aos heróis da nação, você vai se arrepender disso.

– Se você não puder falar a verdade – fique quieto!

– Se afaste das meias-verdades.

– Quando alguém esta celebrando alguma coisa próximo a você não há razão para você celebrar também.

– Não faça favor a elite e aos ricos.

– Não peça favores a elite e aos ricos.

– Não seja tolerante por cortesia.

– Não discuta sobre justiça com qualquer um: “não debata com imbecis.”

– Não acredite que todos tem razão igualmente e que gostos não se discutem.

– “Quando duas pessoas estão erradas em uma discussão não que dizer que alguma delas esta certa”. (Karl Popper)*
* Karl Raimund Popper (Viena, 28 de Julho de 1902 – Londres, 17 de Setembro de 1994) foi um filósofo austríaco naturalizado britânico. É considerado por muitos como o filósofo mais influente do século XX a tematizar a ciência. Foi também um filósofo social e político considerável, um defensor da democracia liberal e um oponente do totalitarismo. (Fonte: Wikipédia – http://pt.wikipedia.org/wiki/Karl_Popper)

– “Admitir que outra pessoa pode ter razão não nos protege de um grande perigo: acreditar que talvez todo mundo tenha razão”. (Karl Popper)

– Não discuta com idiotas sobre assuntos que eles ouviram pela primeira vez de você.

– Você não está em nenhuma missão.

– Tome cuidado com quem está em alguma missão.

– Não acredite na “opinião científica”.

– Não acredite na intuição.

– Tome cuidado com o cinismo, inclusive o seu.

– Evite ideologias com soluções mágicas e o “lugar comum”.

– Tenha coragem de dizer que o poema de Aragorn e a glória de Gepeua são uma blasfêmia.*
*Nota do tradutor: possível menção a J. R. R. Tolkien e a clássica trilogia Senhor dos Anéis (informação que carece de mais pesquisa).

– Não se deixe convencer que na polêmica entre Sartre e Camus os dois tem razão.

– Não acredite na escrita automatizada e na “inconsciência consciente” – você busca a transparência.

– Rejeite todas as escolas literárias que forem impostas a você.

– Quando o “socialismo real” for mencionado abandone a conversa.

– Quando o tema da conversa for “literatura social engajada” permaneça em silêncio absoluto: deixe esta discussão para os professores.

– Aos que compararem campos de concentração nazistas a prisão de Sante* mande-os “caçar coquinho”.
*Prisão La Sante (França): Esta prisão ficou famosa pela sua falta de condições. Os detidos eram obrigados a viver em celas cheias de ratos e piolhos, e alguns dos prisioneiros ficaram literalmente loucos. (Fonte: Dementia.pt –http://www.dementia.pt/10-prisoes-mais-perigosas-do-mundo/)

– Aos que disserem que “Kolyma”* foi pior que Auschwitz mende-os ao inferno.
*Região extrema da Sibéria, Rússia. Durante os anos de governo de Stalin presos políticos ou inimigos do partido eram enviados para lá no campo de concentração de Gulag. (Fonte: Wikipédia – http://en.wikipedia.org/wiki/Kolyma)

– Como quem disser que apenas pulgas foram exterminadas em Auschwitz – proceda do mesmo modo que com os citados acima.

Danilo Kiš

Danilo Kiš (Fevereiro 22, 1935 – Outubro 15, 1989) foi um escritor iugoslavo/sérvio. O texto “Advice for the young writer” foi publicado no livro Homo Poeticus, 1983, que consiste numa coletânea de ensaios e entrevistas concedidas por ele.

Fontes

Wikipédia (http://en.wikipedia.org/wiki/Danilo_Ki%C5%A1)
Danilo Kis.org (http://www.danilokis.org/en.htm)

Links

Texto em inglês: http://writingmaniacs.wordpress.com/danilo-kis-advice-for-the-young-writer
Texto em espanhol: http://elpais.com/diario/1985/03/10/opinion/479257215_850215.html                                                       Texto em português: http://antimidiablog.wordpress.com/2012/05/20/danilo-kis-advice-for-the-young-writer

 

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Porque não conseguimos contato com ETs

ETs: Alô?

Humanos: Alô?

ETs: Alô Terra! Que bom que vocês entraram em contato. Estamos muito felizes que vocês acharam o Transcomunicador Interestelar 8.5 (com Autotranslator ®) que mandamos para vocês. Demorou, mas finalmente chegou. Bem vindos à nossa rede galáctica de comunicação. Estamos ansiosos por trocar experiências e aprender sobre a sua história e cultura. Conte-nos sobre vocês.

Humanos: Alá?

ETs: Lá onde? Ah… o Autotranslator deve estar se configurando ainda, leva um tempinho para ele funcionar direito. Vocês não receberam nossa última mensagem? Bom, não tem problema, às vezes a comunicação morre, mas logo volta. Deem uma olhada se a antena (uma peça um pouco grande em forma de pirâmide que veio junto com o Transcomunicador) está em um local aberto e de preferência apontando para Orion, isso ajuda bastante. Estávamos dizendo que estamos muito felizes por estarmos falando com vocês. Como é a Terra? Estamos ansiosos por saber. Queremos muito trocar experiências então, por favor, nos conte sobre vocês, seu planeta e seu sol.

Humanos: Rá Deus Sol, todo poderoso. Já construímos as pirâmides gigantes, mas as pessoas continuam morrendo e não voltam. Continuamos esperando pela bênção da vida eterna.

ETs: Bom, a gente não sabe o que ou quem é esse tal Rá. Vai ver o Autotranslator está com algum problema. Parece que tem uma versão nova que vai ser lançada logo. Espera ai? Vocês estão falando sobre a gente? Não, não, vocês não entenderam. Não somos Deuses nem temos poderes, é tudo baseado em matemática, geometria, trigonometria, engenharia, essas coisas, sabe? Alias, somos bem fraquinhos perto das outras espécies, não conseguimos pular muito, não jogamos coisas longe e mal conseguimos correr. O Record do nosso melhor campeão foi de só 42 km, quase nada. Quando puderem mandem uma foto das pirâmides para a gente ver como ficou e nos mantenha informado sobre esse lance de ressurreição e vida eterna. Temos interesse nisso também.

Humanos: Zeus reis dos imortais, em sua honra e homenagem, estamos correndo os 42 km ao redor de formas geometricamente perfeitas. Por favor, nos ajude a destruir os Troianos.

ETs: Não, não. Já falamos que não somos Deus. E Deus é um “D” e não com “Z”. Deve ser essa porcaria do Autotranslator de novo, tomara que eles construam essa atualização a tempo. Nós somos seres mortais como vocês, pelo jeito até mais fracos. Moramos na quarta luas do terceiro planeta do sistema de Mu Arae que fica ao sul do Escorpião e a oeste de Virgem. É um planeta bem grande, parecido com o seu Júpiter.

Humanos: Grande Júpiter! Já construímos templo e estamos sacrificando periodicamente as virgens com picadas de escorpiões como você nos ordenou. Por favor, nos ajude a dominar o mundo.

ETs: Gente, o que é isso? De onde vocês tiraram essa ideia de que tem que sacrificar virgens? Não é nada disso! Foi essa porcaria de Autotranslator de novo! E essa versão 8.6 que não sai nunca. Verifiquem se o colisor de partículas de gálio está soldado direitinho, deve ter algum mau contato lá. De qualquer forma, estamos impressionados que ainda existam virgens ai, não vão sair matando todas porque elas estão quase extintas na galáxia. Lutamos muito para preserva-las, mas parece que as poucas que sobraram estão em um sistema estrelar na constelação Leão.

Humanos: Grande Júpiter. Já construímos o Coliseu, colocamos os gladiadores e soldados para lutarem até a extinção e damos as sobras para os leões como você nos comandou. Também paramos de matar as virgens, mas elas não são mais virgens.

ETs: Esse bendito Autotranslator de novo. Já abrimos um chamado no site do fabricante, mas eles ficam em um planeta no sistema tríplice de Acrux na constelação do Cruzeiro e a resposta vai demorar. Mas acreditamos que a salvação vai ser mesmo o upgrade. Enquanto isso experimentem fixar o comunicador em algum lugar para ver se melhora um pouco. E mais uma coisa: não matem mais ninguém.

Humanos: Certo. Pregamos o que comunicava a salvação na cruz, mas a situação se agravou. Ele ressuscitou e disse que era o filho de Deus e que se a gente não se arrepender vamos todos para o inferno. O que fazemos agora?

ETs: Barbaridade! Pregaram o cara na cruz! Chega a ser difícil de crer. Bom, pelo menos ele ressuscitou e está prometendo uma viajem para vocês. Nos não sabemos onde esse tal de inferno fica, mas se vocês descobrirem nos mandem as coordenadas. Temos diversos cruzadores interestelar no lado oeste da galáxia e podemos mandar um lá para ver como é. Obs: Aqui não deu certo esse lance de ressuscitar, nem mesmo depois de construirmos as pirâmides gigantes. Como é que vocês fizeram?

Humanos: Mandamos o pessoal das cruzadas barbarizar no meio oeste. Não vai sobrar pedra sobre pedra para os infiéis incrédulos na palavra do filho de Deus.

ETs: Olha, não é por nada não, mas está complicado falar com vocês. Vocês devem ter uma língua muito avançada porque o maldito Autotranslator não está conseguindo traduzir quase nada direito. Agora sério, o cara que vocês pregaram na cruz não era o filho de Deus. A gente já provou matematicamente que Deus não existe. O lance de onipotência, onipresença e onisciência quebram todas as regras de todos os livros de ciência. Não tem como.

Humanos: Blasfêmia, infiéis malditos! A santa trindade prevalece sobre as vozes das bruxas que saem desta caixa do demônio. Queimem todos os livros de ciência! Queimem as bruxas e suas caixas mágicas na fogueira!

ETs: Bom, tá complicado conversar assim, Mas a boa notícia é que a versão 8.6 saiu (finalmente!) e para fazer o upgrade basta elevar a temperatura do Transcomunicador até uns 150C e o resto deve ser automático. Depois disso a gente conversa mais.

Humanos: e!(H)[email protected] ) H!h90 -)!H308h4 *!h97b971 )*!h(!979!(e!*&9re )*H! h18 184h10

ETs: Quê?

Humanos: !@)H12rh!( 12h 0!*H 8 12h)*H) 108 h10 11028g 028g 08018. *(!018hr018h2 208!)U02 h2mhg09 (*HR(*RR 180rh8rhr88888! 01her.

ETs: Porcaria de Autotranslator…

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