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Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

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Crime em andamento – Jim Knipfel

Imagem | Russell Christian

Imagem | Russell Christian

Tradução | Eder Capobianco Antimidia

Minha cabeça estava em outro lugar. Não deveria estar. Eu deveria ter prestado atenção ao que estava acontecendo ao meu redor, mas em vez disso estava pensando sobre A Genealogia da Moral de Nietzche, por algum motivo esquecido por Deus, bem como o velho Robert Klein¹ e o stand-up que vi na TV em 1976 (“Me dê o frango, porcolino!”). Os dois, até onde eu sabia, não estavam ligados de forma alguma. Em suma, minha mente estava em toda parte, menos onde deveria estar.

Eu não estava usando a bengala também, o que só multiplicou a estupidez. Ainda estava escuro. O sol não tinha nascido totalmente, e estava chovendo. Eu estava indo para oeste na 23rs St., e deveria ter pegado a maldita bengala, mas estava ocupado demais pensando sobre Robert Klein ter se inspirado nos filmes da Disney para me preocupar com isso. Eu só seguia em frente, de cabeça baixa, meu casaco aberto para a garoa, imaginando se meus pés sabiam bem o suficiente para onde tinham que me levar. Minha camisa estava com pizzas de suor.

Escutei algumas pessoas gritando mais a frente. Pensei pouco sobre isso, supondo que eram apenas as vozes dos lixeiros. Havia um caminhão de lixo arrastando a sujeira sentido oeste na calçada paralela a minha, e acabei de ligando as duas coisas. Lixeiros estavam sempre gritando uns com os outros.

Duas silhuetas estavam se movendo em minha direção pela escuridão, vindas do fim de uma longa fila de andaimes. Eu estava concentrando-me nas formas, tentando descobrir a melhor maneira de evitá-los, quando ouvi passos molhados se aproximando por trás de mim. Então do nada havia um homem do meu lado, com um guarda-chuva na mão. Meu passo vacilou por um instante.

“Oh”, ele disse. “Me desculpe”. Então ele se virou e correu de volta para o lugar de onde tinha vindo.

Eu não tinha idéia do porque ele poderia se desculpar. Ele não tinha me empurrado ou trombado em mim ou pego qualquer coisa. Quem sabe? Ele quase não desviou minha atenção do que acontecia. Eu olhava para o par de silhuetas na minha frente, então dei um passo para o lado e deixei eles passarem.

Com certeza tinha muita gente trafegando pela rua para 6:15 da manhã. E em ação, também, para um deprimente dia perdido. As pessoas estavam indo e vindo por todas as direções. Eu continuei fazendo meu caminho, passando pelos ambulantes, a banca de jornal e a estação do metrô, pensando sobre isso e aquilo, ainda muito deprimido comigo mesmo e deixando a mente a deriva.

“Basta dar o dinheiro a ele!”, um homem atrás de mim gritou. “O dinheiro! Apenas dê a porra do dinheiro para ele!” Escutei o som das pessoas correndo.

Olhar para trás para ver o que estava acontecendo a poucos metros de mim teria sido inútil. Rapidamente virei a esquina para a 7th Ave., abaixei a cabeça e continuei andando. Estava tudo certo agora.

Acho que só passei por um crime em andamento, pensei.

Era perfeitamente possível que não fosse um crime também – talvez tivesse sido uma simples transação de negócios, ou algum lixeiro resolvendo uma aposta no jogo dos Mets, mas preferia pensar que era algum tipo de crime, e que tiros irromperam o ar no momento que eu estava fora do alcance da voz.

Então comecei a me perguntar quantas vezes tropecei num crime em progresso sem perceber. Não me surpreenderia se tivesse acontecido várias vezes.

Algumas semanas atrás estava falando para um amigo meu sobre umas coisas que ele tinha escrito. Envolvia uma criança que começava a ficar obsessiva por crimes muito cedo. Não é que ela própria se torna uma criminosa, mas o crime e os criminosos começam a orbitar em torno dela, se aproximando e se tornando mais íntimo a cada ano que passa.

Foi uma idéia, como expliquei para ele, que bateu realmente perto do meu quintal. Eu estava obcecado com o crime como uma criança (ainda sou, eu acho). Mas como cresci, crimes reais e tangíveis começaram a cruzar minha vida de maneira estranha frequentemente.

Cresci a 40 milhas de onde Ed Gein² morou. Ensinava alemão para um nerd quando estava na escola, sem saber que ele só queria aprender alemão para impressionar seus companheiros da Irmandade Ariana. Um amigo que eu tinha desde o jardim de infância explodiu o próprio irmão. Outro amigo começou a conversar com a televisão e antes do que você imagina matou seis pessoas a tiros em um escritório no centro. Descobri que minha mãe cruzou com Charley Starkweather³ pela vida. Um cara chamado Jessie Lee Wise4 queria que eu o ajudasse a fazer sua carreira musical decolar, mas o fato de que ele estava no corredor da morte no Missouri tornou isso um pouco complicado. Conversei com ele 20 minutos antes que a agulha picasse ele. Ele pediu camarão no jantar.

Posso falar disso sem parar. Não era pela minha própria vida cheia de pequenos crimes, e todos os criminosos de uma forma ou de outra, na sua maioria de baixa renda, que eu havia me tornado insensível ao crime.

Eu não digo nada disso com orgulho – mas é assim que as coisas aconteceram. Eu sempre achei que o crime poderia ser interessante. Como se diz mesmo? Uma outra forma de trabalho duro5?

Enfim, bem, é por isso que não fiquei surpreso com tudo que estava acontecendo, de fato, quando passei por um crime em andamento na 23rd St. naquela manhã. Andei em canteiros de obras, desviei de balas – até do fogo – sem estar ciente disso. Afinal de contas, na maioria das vezes, os crimes são muito mais silenciosos do que as pessoas imaginam. Participar de um crime não teria sido nada demais. De menos, até. Apenas algo mais para acrescentar à lista.

1 – Robert Klein: Comediante, cantor e ator estadunidense famoso na televisão durante a década de 1970. (http://en.wikipedia.org/wiki/Robert_Klein). Um homônimo dele se envolveu em um processo contra a Walt Disney Company depois de ser demitido por justa causa por assédio sexual (http://www.hollywoodreporter.com/thr-esq/disneys-archivist-sues-company-firing-424852).

2 – Ed Gein: Ladrão de lápide de Wisconsin condenado pelo homicídio de duas pessoas, e suspeito no desaparecimento de outras cinco (http://pt.wikipedia.org/wiki/Ed_Gein).

3 – Charley Starkweather: Foi um serial killer adolescente estadunidense que matou onze pessoas nos estados de Nebraska e Wyoming num período de dois meses, entre Dezembro de 1957 e Janeiro de 1958 (http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Starkweather).

4 – Jessie Lee Wise: Assassino condenado a pena capital por matar Geraldine Rose McDonald depois de um assalto, em 1988, no Missouri. (http://murderpedia.org/male.W/w1/wise-jessie-lee.htm).

5 – Referência ao filme O Segredo da Jóia (The Asphalt Jungle, 1950). Num determinado momento do filme, durante um dialogo, um ladrão justifica seus atos criminosos como uma forma de trabalho alternativo (http://en.wikiquote.org/wiki/The_Asphalt_Jungle).

Texto Original | http://www.missioncreep.com/slackjaw/2006/crime.htm

Sobre Jim Knipfel | http://en.wikipedia.org/wiki/Jim_Knipfel

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Fatos Cotidianos 17 – A vida dói

Não sei qual o dia da semana. Não faz diferença desde que a dor de cabeça passe. Nem é motivo suficiente para sair da cama. Será que existe um mundo sem dores? Um lugar onde todo pecado fica impune. Ficar me martirizando pela noite de ontem e os últimos trinta anos, ou pela garota da minha vida que se foi, também não vai me levar a lugar nenhum. Já que sem ela, melhor sozinho que mal acompanhado. Não estou sozinho, ou tenho três braços?

Talvez seja ela que esteja mal acompanhada. Não sou recomendável para convívio em sociedade antes de duas cervejas e uns cigarros. Com estes vermes cavocando o meio do meu lóbulo frontal me torno uma verdadeira ameaça publica. Se eu tivesse três desejo agora pediria coca-cola gelado, cigarro nacional e uma vida nova. Deus? Você esta aí? Iria considerar um sim se o Senhor fizesse esta alma penada sumir do meu lado. Não? Senhor? O Senhor não esta aí?

“Você está falando sozinho?” Não era para fazer ela falar, era para levar ela embora. “Talvez? O que eu estava falando?” Não reconhecia nem aquela cara, nem aquela voz. Ela virou para o lado. Continuei minha conversa com o Senhor, mas nada acontecia. “Já vou embora. Preciso só de um banheiro.” “Você lê pensamentos ou também tem uma conexão direta com Deus? Primeira porta a direita.” “Leio pensamentos.” Ela se voltou para mim com uma cara de desprezo que me deixou com uma expressão assustada.

Enquanto ela vomitava na privada eu pensava: “Faz café e vai embora, faz café e vai embora…” Ela só leu metade do pensamento, e foi embora sem se despedir. Fiquei deitado sentindo o mundo rodar e alguma coisa cavocar a minha cabeça. Abri a gaveta do criado mudo e peguei uma aspirina, um relaxante muscular e um Plazil.

Era pouco mais de dez horas quando consegui fazer com que todas as minhas energias superassem as dores e fobias e me tirassem da cama. Foi a necessidade de trabalhar que me deu este impulso na verdade. Entrei no carro, levantei a bandeira um e comecei a rodar pela cidade. Passando pela Nove de Julho uma mulher fez sinal para eu parar. Ela entrou, bateu a porta com força e falou: “Quero ir para o mais longe possível”.

Olhei pelo retrovisor e vi que ela estava chorando. Não gosto de ver mulher chorando. Começo a dar tudo que elas pedem. Atravessei a Paulista, desci a Augusta, cruzei a Faria Lima e quando já estávamos perto da Praça Pan Americana falei: “Senhora, já estamos andando a quase um hora. Preciso de um destino.” “Me deixe em qualquer bar pela Lapa.” Parei em um na Barão de Jundiaí. “Você não quer tomar alguma coisa comigo? Não quero ficar sozinha.”

Descemos do táxi e sentamos em uma mesa. “Desculpa minha situação. Acabei de sair do emprego. Não posso mais viver assim. Cansei de ser enrolada. Aquele cretino nunca vai se separar.” Então ela desatou a chorar. Antes dela tomar o primeiro copo eu já estava no segundo. Agora parecia que as dores nunca tinham existido. “Mais eu amo ele”, ela murmurava. “A quanto tempo vocês são amantes?” “Um ano.” Não era tanto tempo para amar alguém tanto assim.

Pedi mais uma cerveja e uma vodka. O humor dela começou a melhorar. “Obrigado por me fazer companhia. Não quero chegar em casa assim e escutar minha mãe falando: “eu avisei, eu sabia…” Depois da terceira cerveja ela já estava sorrindo. “Você é casado? Nunca mais quero ficar com um homem casado.” “Não. Estou tão livre quanto aquele táxi.” Saímos do bar com algumas cervejas e uma garrafa de conhaque. Fomos para minha casa. Não lembro dela ter ido embora. Acordei pela manhã no sofá com todas as dores que um homem é capaz de sentir.

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