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conto da noiteO Conto da Noite
Rituais
As pessoas trabalhavam felizes em meio aos limoeiros. Homens e mulheres contentes colhiam os frutos que surgiam abundantemente naquele lugar.

Em meio ao tumulto, um casal arrumava tempo para brincar.


Publicado por Evandro Furtado

– que publicou 95 textos no ONE.

Ocupações: Estudante de Letras (sim, isto é ocupação) e escritor amador em tempo vago.

Base de operações: Lavras/MG (por mais que eu duvide que esteja realmente aqui, às vezes).

Interesses: Cinema, música, literatura, professional wrestling e uma boa pizza se for possível.

Autores Influentes: Stephen King, Dan Brown, Agatha Christie, Paulo Coelho, Tolkien.

Objetivos: Parafraseando o Coringa de Heath Ledger: “I just do things!”

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A vida e morte do senhor X

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Oi, deixa eu me apresentar, meu nome não interessa, mas podem me chamar de Senhor XY, por que XY? Bem eu devo dizer que sou duas pessoas em uma só, interessante não? Não, não é nada interessante. Aparentemente eu me transformei nessas duas pessoas, de acordo com o tempo percebi que não era uma pessoa e sim duas e essas duas pessoas se tornaram uma só.

     Confuso não ? Não é tão confuso assim, imagine o seguinte, você é uma pessoa que ninguém gosta e se torna uma pessoa que todos gostam, anulando aquilo que você era mas, de repente você percebe que nunca deixou de ser aquilo ,que ninguém gostava você, só se tornou outra pessoa dentro de você mesmo, que você era, mas estava escondida dentro de si, a sua pior parte, mas aí percebe que você não é nem um nem outro, você é a perfeita mistura dos dois.

       Deixa eu explicar, primeiro vou situar vocês onde estou. Estou em cima do altar, prestes a me casar e quando esse momento chega, você começa a pensar. Porra, como eu cheguei até aqui? Vou começar do inicio, eu nasci em uma cidade qualquer, de uma família qualquer, realmente não tinha nada de especial, minha mãe e meu pai fizeram tudo que podiam para mim, nasci como senhor x, era apenas senhor x , mas como era o senhor X? Bem, vocês já devem ter visto aqueles filmes de comedia romântica, sabe aquele cara apaixonado pela moça que sempre é o amigo dela o retardado que acha que vai ter alguma chance com as mulheres sendo sensível e acessível toda hora? O sonhador que acha que encontraria um grande amor e se apaixonaria perdidamente por ela e os dois seriam felizes para sempre? Pois é, eu era esse cara, ninguém gostava de mim ,os homens me chamavam de bicha e as mulheres sempre queriam amizade. E cá entre nós, ser adolescente homem não e nada fácil, ou você é o pegador ou você é a bicha   ( nada contra os gays, contudo eu não era e cai na pressão psicológica bastante machista do mundo). Bem eu só queria alguém para amar, conhecer aquela merda que os filmes pregam para gente, mas como sempre a vida, essa vadia miserável, só nos mostra que não é possível isso acontecer. Não, sem um longo caminho a percorrer.

       Foi então que me construí, outro eu, alguém que todos gostassem, alguém que ninguém julgaria, e como fiz isso? Bem primeiro observei o que as mulheres bonitas dos filmes gostavam e bem era dos babacas que não estavam nem aí pra elas e de repente elas se apaixonavam e tudo acontecia para o final feliz. Bem me tornei o senhor Y, e ele particularmente era a pior parte de mim, passei a esconder o senhor x e me tornei alguém totalmente diferente as pessoas gostavam eu me tornei um cara interessante basicamente com algumas regras:

1-      Nunca se apaixone;

2-      Nunca lembre-se do nome da garota, na verdade nem pergunte;

3-      Nunca se importe com o que dizem sobre você, sempre rebata rebaixando a outra pessoa;

4-      Seja engraçado;

5-      Romantismo só para trazer uma mulher para cama, depois saia o mais rápido possível.

       Não me julgue, o senhor Y era minha pior parte, era todo ressentimento e sofrimento por cada pedaço do meu coração que despedaçaram, por um certo tempo gostava de ser ele afinal dessa forma você não sofre e nem fica pensando em coisas desnecessárias e o melhor ninguém julga você.

      Todavia eu sentia que faltava algo, então o senhor Y decidiu namorar, como era de se imaginar ele fez tudo errado pois ele só fez o que eu chamo de relacionamentos descartáveis, num prazo de um mês sempre venciam e ele se cansava. Dentro de mim o senhor X se escondia e foi quando ele se libertou pela primeira vez que eu pude sentir o verdadeiro amor, fiquei meses, hora sendo senhor X hora senhor Y, uma confusão interna que transformou meu relacionamento num inferno, pois eu nem sabia quem eu era e me apaixonei, mas estraguei tudo. Eu me culpei, terminei esse relacionamento simplesmente me culpando. Eu estava errado, não foi só culpa minha, simplesmente não era para ser eu, não sabia mais quem eu era.

       Achei que o amor não era para mim e que nada iria dar certo de novo, mas foi aí que ela apareceu. Bem, mas antes dela aparecer, vamos dizer que nos meses que fiquei solteiro o senhor Y aproveitou bastante e o senhor X foi se descobrindo. Afinal não poderia deixar nenhum dos dois fora de mim, eu me descobri pelo menos um pouco, sabia o que era ou não era bom pra mim, experimentei tudo que queria e tudo que podia afinal eu era livre, mas sempre faltava algo, um vazio inexplicável .

       Nesse momento infeliz da minha vida, essa garota apareceu, me mostrando que eu podia amar de novo e como em uma comédia romântica bem escrita o babaca se torna um homem perfeito pela primeira vez. Eu peguei o melhor do senhor X e o melhor do senhor Y e me tornei um só, já não precisava me esconder, me sentia livre pela primeira vez e acredite, é muito estranho quando descobrimos quem somos, temos medo de seguir em frente, sabe por quê ? Não importa se eu era X ou Y sempre teria alguém que me julgava mal, alguém que não me entenderia, eu só tentei me encaixar, como um quebra cabeça .

       Mas meu quebra cabeça é diferente, eu sou diferente, me aceitem como sou, como ela me aceitou, ela tirou tudo de bom de mim e assim termina minha caminhada em busca de amor, eu encontrei a peça que faltava.

        Bonita minha historia, não é? Uma merda de vida que poderia dar um livro, mas que no final sempre dá certo. Não sei por quê, mas acho que o roteirista gosta de mim.

        Se eu pudesse dar um conselho a você que não sabe seu lugar no mundo eu lhe diria: se conheça e realmente seja você mesmo, não compensa se anular para agradar ninguém, eu consegui afinal. Antes de esperar dos outros aprovação faça você mesmo sua aprovação, só assim você vai ser feliz.

Publicado por danilo barros em: Agenda | Tags: , ,
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Eu e Eu

Lá estava eu
No meu canto, sendo eu
Mas logo com tudo isso que aconteceu
Eu já não estava sendo mas eu.
Eu tinha me tornado o verdadeiro eu
O eu completamente vazio e com ódio na face
O ódio me define, mas eu não o demonstro
O monstro que dizem ser eu.
Vocês jamais o conheceu.
Numa tarde bela, tudo esta indo tão bem
Mas na outra semana, tudo desaba, por que, meu bem ?!
Tento sempre fazer o bem, e faço.
Mas ninguém consegue reconhecer, esse meu vazio, ingrato…

Publicado por ViniciusMiranda em: Agenda | Tags: , , ,
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Os Desafiantes – 1

Inicio

Uma vida simples, não muito empolgante e nada extraordinário, essa era a vida de Dillian, um jovem prestes a sair da puberdade, jogador de games online na internet, mau sabia ele que iria fazer algo interessante naquele dia…

1 Desafio

Dillian estava de ferias, jogando seu game online em sua casa, de repente chega uma mensagem privada em seu celular com a seguinte mensagem: “Você foi Desafiado”.

Pessoas comuns achariam que isso seria apenas um trote, mas, para alguem curioso como nosso garoto, é uma forma de conseguir algo diferente da sua rotina.

A partir dessa mensagem, Dillian procura o dia inteiro sobre quem mandou ou quem foi o autor do texto. Quando ele encontra uma certa pessoa:

– Ei você, lembra de mim? – Diz o estranho

Surpreso Dillian o cumprimenta:

– Você é irmão do meu amigo.

-Sim, me chame de New, então estava observando, está procurando algo?

– Estou procurando a pessoa que me enviou essa mensagem.

Dillian mostra a mensagem de texto para New:

– Eu sei do que se trata, venha comigo – diz New decidido

Os dois seguem para a casa de New e la começam a conversar

– Todo ano ele reuni um seleto grupo de pessoas para que elas cumprem certos tipos de desafios, ainda não sei os requisitos que ele usa para escolher essas pessoas, mas normalmente são adolescentes.

– Não sei o motivo de ter sido escolhido, não tenho nada de especial, mas afinal quem esse cara que você falou? – Diz Dillian curioso

– Ninguém sabe, na verdade, são poucas pessoas que sabem, pois sempre que são escolhidas, no final de tudo elas mudam de cidade ou desaparecem – diz New apreensivo.

Nesse momento abre-se um buraco no teto de New e cai uma caixa lacrada nos pés de Dillian, então ele abre e dentro contém um objeto, uma espécie de clips.

– O que é isso?, um clips? – diz Dillian confuso

– Vai começar em breve, você não deve perder isso de jeito nenhum – diz New com certeza

Nesse momento está perto de anoitecer e New manda Dillian para sua casa, mas antes ele pergunta

– Você ja foi escolhido? – Diz Dillian

– Percebeu isso agora? – diz New surpreso

Chegando em casa, é noite e Dillian resolve ligar o computador novamente, mas escuta um barulho na frente de sua casa, é um grupo de adolescentes:

– O que fazem aqui? – Diz Dillian assustado

– Calma, a mensagem do cara dizia que o endereço do evento do tal de desafio seria aqui – Diz rudemente uma garota do grupo

– Ai meu deus, não passaram na mente de vocês que poderia ser um maníaco? – Diz Dillian

– Ah qual é, até parece que um maníaco ia pensar em “desafios” – diz um garoto do grupo

Em meio a discussão aparece uma luz e uma voz é ouvida:

“Todos aqui presentes, só poderam participar quem estiver com o dispositivo, coloque-o em algum lugar de sua roupa e ele se prendera a você e em alguns segundos serão transportados, mas somente quem estiver com o dispositivo em seu corpo.” E a luz some e começa uma contagem de exatos 10 segundos.

– Deve ser esse clips – diz a menina rude colocando na manga de sua camisa comprida

Enquanto todos colocavam em algum lugar Dillian derruba o clips:

– Ai caramba, eu nem estou preparado – diz Dillian tentando rapidamente pegar o seu clips do chão

Enquanto isso a contagem vai diminuindo faltando cinco segundos

– Cara você vai ficar ai – diz a garota rindo

Quando a contagem acaba Dillian coloca o seu clips totalmente “alargado” em seu dedo, assim que a contagem foi terminada, o cenário muda e parece exatamente a mesma rua e casa de Dillian:

– Nossa, não acredito que zuaram a gente e foi apenas um truque de luzes – Diz um rapaz do grupo furioso

Enquanto isso, eles percebem que o clips foi transformado, e se tornou uma espécie de chave e que se adaptou a cada um no seu corpo como por exemplo no Dillian que virou um anel, e cada tipo de chave havia uma cor diferente.

– Cara, o meu virou uma pulseira, que droga – Diz a menina rude

A frente deles estava um tipo de superfície que havia varias fendas e estava sobre uma forma de uma bola, enquanto se deparam com aquilo ouvi-se uma voz

“Aqui está o primeiro desafio, não desçam de cima da superfície, se caírem ou saírem de cima, serão desqualificados e perderam a chance de passarem para o próximo passo.”

Após a mensagem, todos eles sobem em cima daquela superfície e la permanecem, nisso, Dillian encontra um amigo seu de escola sentado com uma garota:

– Você aqui também John – diz Dillian feliz

– Pois é cara, parece que não sou o único louco – Diz John meio sem vontade de conversar

Os desafiantes tem uma certa dificuldade para ficar em cima da superfície, porém alguns como John estavam sentados sem problema algum e então Dillian pergunta:

– John como você está conseguindo?

– Cara sinto muito, mas se eu disser, outros podem fazer o mesmo e ai teremos mais concorrência não acha?

Dillian não ligando muito para o que John disse, sai a procura do “truque” de John e os outros, mas com muito cuidado para não cair, no momento, ele para e raciocina, olha para as fendas na superfície e em seu anel:

– Pera, eu acho que sei – Diz Dillian para si mesmo sussurrando

Dillian coloca seu anel entre uma das fendas com o formato correto do anel e se prende la, John o olha e faz um sinal de jóia, nesse momento a superfície começa ficar mais agitada e alguns caem, nisso Dillian fica quase pendurado por noventa graus e aparece um garoto:

– Ei você, me diga como fez para ficar ai sem cair, me mande o macete – Diz o garoto com assustado

Dillian lembra do que seu amigo John falou:

– Cara, eu não posso dizer, desculpa

Depois disso a superfície volta ao normal, se agitando um pouco, no mesmo momento o garoto pula por vontade própria da superfície, Dillian se acalma pois sabe que ele ja foi desqualificado, mas o garoto entra na casa de um dos vizinhos de Dillian e os rende:

– Tudo bem cara, se você não me dizer agora qual o truque, vou matar eles agora!

Todos ficam assustados e surpresos, no momento Dillian tenta pedir ajuda, mas percebe que não tem ninguém na rua, apenas nessa casa havia pessoas:

-CARA TA LOCO? PARA COM ISSO VOCÊ JÁ FOI DESQUALIFICADO – Diz Dillian gritando assustado

– Socorro Di – diz a garotinha filha dos moradores

Alguns dos desafiantes descem da superfície para tentar parar o cara, outros só para observar, mas não sabendo o que fazer, Dillian fica confuso, porém ele quer descobrir o final de todo esse negócio de desafios e não quer descer. Ele lembra de New ter dito de desafios inimagináveis e como Dillian é muito lógico, ele pensa que isso é só parte do desafio e nada é real:

-Cara escuta, não adianta eu dizer o que você quer, você está fora do evento e não vai ganhar nada fazendo isso, algo que não sabe o que é direito – diz Dillian calmamente e firme

John tenta descer mas Dillian o impede:

-NÃO VÁ, ISSO É O QUE ELE QUER, CONFIA EM MIM

– DILLIAN, ELE VAI MATAR AQUELA GAROTINHA CARA, VOCÊ SEMPRE FOI FRIO ASSIM, EU VOU LA – diz John furioso

-JOHN, NÃO VAI É SERIO, FICA AGORA, VOCÊ VAI SER DESQUALIFICADO!! – insiste Dillian

Enquanto isso o garoto mira na cabeça da garotinha, e ela está chorando

-Ninguem vai fazer nada? ela vai morrer em – diz a garota rude

– NÃO SE MECHA JOHN – diz Dillian firme

Todos olhando aquela cena, todos focados e ninguem se meche ouvindo o que Dillian disse, e quando estava prestes a atirar, os moradores, a criança e o garoto somem, e a superficie some e os que estavam em cima caem no chão:

– o que aconteceu? – diz John surpreso

– parece que eu estava certo – diz Dillian

Enquanto isso aparece uma luz e a voz pode ser ouvida novamente:

“Parabéns a todos que continuaram na superfície e confiaram em seu colega, esse foi o desafio da confiança, e aos que não obedeceram e ficaram fora da superfície por favor coloque seus dispositivos na bolsa e adeus”. E a voz some novamente, os dispositivos que são grudados e não podem ser retirados foram pulados para fora de seus donos desqualificados, e um gato aparece com uma bolsa e os dispositivos são colocados lá e o gato desaparece voando:

– Cara isso é completamente sobrenatural – diz um dos desqualificados

– Que droga, foi tão sem graça mesmo – diz outra desqualificada

Agora os que sobraram estão a espera do segundo desafio que está por vir.

 

 

FIM DO PRIMEIRO CAPITULO. O que acharam? é minha primeira historia, quem quiser ajudar só falar, não sou muito bom em escrever corretamente kk

 

 

 

Publicado por joaocastree em: Agenda | Tags: , , , , , , , , ,
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E eles foram felizes para sempre…..

Imagem | Antimidia

Imagem | Antimidia

Quando Dona Maria levantou para começar a preparar o café-da-manhã Seu Eduardo nem se mexeu na cama. Nos quartos de Alex e Cristiane também não havia o menor sinal de movimento. Primeiro ela limpou a pia dos assaltos noturnos à cozinha. Deixou a água do café e o leite para fervendo e foi regar as flores da entrada. Por fim colocou comida e trocou a água do Rex. Tempos depois do cuco anunciar que já eram seis horas ela foi acordar as crianças. O marido já estava no banho, o Alex fingiu que estava dormindo e a Cristiane reclamou de cólicas. Ela voltou para cozinha e cortou maçã, mamão e melão e preparou dois queijos-quentes na tostequeira elétrica. “Hoje tem reunião da equipe no escritório depois do expediente, então não me espere acordada.” Seu Eduardo pegou uma banana na fruteira e saiu apressado sem um beijo de tchau. Três minutos antes da perua da escola chegar os dois estudantes sentaram na mesa. “Mãe, preciso do dinheiro para pagar o acampamento na escola.” “Depois da aula vou na casa da Natália fazer trabalho.” A buzina tocou e os dois saíram comendo queijo quente.

As frutas intocadas Dona Maria colocou num pote e guardou na geladeira. Assim como o leite, mas como ela não tomava café preto esvaziou a garrafa térmica na pia. Tirou a mesa e lavou a sujeira antes de subir para os quartos. Abriu as janelas, arrumou as três camas, tirou o lixo dos banheiros e recolheu as roupas sujas no chão. Desceu até a lavanderia e pôs a máquina de lavar para funcionar. Então começou a limpar a sala. Tirou o pó de todos os bibelôs espalhados pelo ambiente e passou lustra-móveis nas madeiras. Arrastou os sofás, cadeiras e a mesinha para varrer o chão. Depois passou aspirador nos tapetes. Antes de estender as roupas passou pela cozinha. Picou uma cebola e dois dentes de alho e começou a preparar arroz. Tirou o feijão congelado do freezer e colocou no microondas. Enquanto o cheiro de fome se espalhava pela casa ela estendeu as roupas. Não eram nem dez da manhã quando ela começou a temperar e cortar os bifes e a salada do almoço. Deixou tudo pré-pronto e foi tomar um banho.

Dona Maria se preparou com sua melhor lingerie e passou óleo de amêndoas pelo corpo. Quando estava pronta sentou na escada, usando um roupão de hotel, olhando para porta da frente. Exatamente as 10:03 A.M. a campainha tocou. Paulo era jardineiro do condomínio, e gostava de usar tênis Nike e Iphone de última geração. Ela levantou com aquela sensação de aventura no estômago e abriu a porta com aquele sorrizinho sacana de quem sabe o que quer. Dona Maria se virou e saiu desfilando pela sala. Deixou o roupão cair pelas suas costas no caminho e deitou de lado na escada. Ele fechou a porta com cuidado e foi atrás dela já tirando a roupa. Sem nenhuma proteção nem camisinha eles foderam ali mesmo. Até o relógio soar décima primeira badalada. Ele se levantou, colocou o macacão, pegou o envelope que estava na mesinha do lado da porta e saiu prometendo voltar na outra semana. Ela ficou caída curtindo aquela porra gosmenta escorrendo pela sua coxa por um momento. Aí se levantou e foi se lavar.

Alex abriu a porta da frente e gritou: “Cheguei!” Dona Maria já estava na cozinha fritando os bifes e requentando o arroz com feijão. O garoto deixou a mochila no sofá, sentou na mesa da cozinha, comeu assistindo Chaves e se trancou no quarto. A mãe almoçou assistindo Jornal Hoje e depois limpou toda cozinha. Ainda eram duas da tarde, então se sentou na varanda para ler um pouco e passar o tempo. Como se casar com um marquês, Julia Quinn. Cinco páginas depois estava na lavanderia engomando camisas, passando blusas encardidas e dobrando meias e cuecas. Percebeu que Cristiane chegou quando escutou a porta da frente abrir, fechar, passos na escada, porta do quarto abrir, fechar. Alex acordou do cochilo da tarde e fez uma imundice na cozinha montando um lanche para comer enquanto jogava vídeo game. Cristiane estava escutando música num volume ensurdecedor. Dona Maria se fechou no seu quarto e ligou para sua irmã. Cheia de entusiasmo ficou uma hora e meia no telefone falando sobre a visita de Paulo.

Saiu do quarto chamando as crianças para a janta. Pegou umas salsichas, batata palha, pão de hot-dog, ketchup, mostarda e maionese e preparou um lanche. Colocou uma Coca-Cola gigante na mesa e ficou observando os filhos comerem enquanto petiscava as frutas do café-da-manhã. “Come devagar Alex!” “Melhorou a cólica filha?” Os dois voltaram para os quartos ainda mastigando. Ela arrumou a cozinha de novo e sentou na sala para ver novela. Na hora do Jornal Nacional ligou para sua mãe para falar sobre o tempo. Assistiu a novela das nove, checou se estava tudo bem e deu boa noite para o Alex e a Cristiane antes de ir dormir. Seu Eduardo chegou pouco lá pra uma da manhã. Entrou no quarto sem fazer muita questão de ser silencioso. Se trocou no banheiro e deitou ao lado de Dona Maria, que tinha acordado na hora que o carro chegou na garagem. Estava agitado e não conseguia pegar no sono, e ficava se virando de uma lado para o outro. E ele fedia azedo e suava como um porco.

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Um dia na vida de Madame Oriana

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Oriana espalhou os papeis sobre a mesa de mogno e os encarou, franzindo a testa delicada. Acendeu sua cigarrilha e cruzou as pernas.

– Percebes, senhorita? Eu não viria se…

– Eu prefiro madame, capitão – interrompeu ela, virando-se para o homem em trajes militares que estava de pé ao seu lado. –, mas sim, estou vendo. Todas as covas encontradas abertas eram de mulheres?

– Eram, e ainda tem mais. Todas se chamavam Rute, e vês aqui, – Ele apontou para um dos papeis. – levaram a cabeça desta última. O coveiro disse não ter notado nada durante a noite.

Madame Oriana (respeitemos sua preferência) observou mais de perto a fotografia preto-e-branca. Rute Montenegro Tavares, dizia a lápide, e um esqueleto sem cabeça jazia no caixão aberto.

– Já identificaram algum parente?

– Bem, sim, mais ou menos… – ele retirou o quepe verde escuro da cabeça e secou a testa com um lenço que pegara no bolso. Aquela mulher o deixava nervoso, e não só por sua beleza exótica e sua sapiência, mas também por seu perfume estonteante, que sentira com ainda mais intensidade quando se debruçara para lhe apontar a foto. – Os pais dela morreram ano passado e não possuía irmãos. Entretanto, há seu ex-marido e seu filho…

– Por que tanta hesitação? Onde eles estão?

– Aí que está, eles são boticários, a madame já deve ter ouvido falar do senhor Augusto Tavares. – Madame Oriana acenou, liberando uma baforada suave pela boca. – Pois bem, ele foi capturado pela Igreja semana passada e trazido para a Ecclésia, sob crime de prática de alquimia. O mancebo seu filho, Alberto, conseguiu fugir antes de ser pego.

– Excelente, capitão Albuquerque. É seu dia de sorte. Aceitarei este caso. – Ele esboçou um sorriso aliviado, enquanto ela se punha de pé e ia até a mesa de cabeceira que havia ao lado de sua cama com dossel. Era ali dentro que ela guardava Madalena, sua querida Remington mil oitocentos e cinquenta e oito, calibre ponto quarenta e quatro. Apesar da mais recente moda dos revólveres a vapor, que utilizava a tecnologia da água a alta pressão e superaquecida, Madame Oriana ainda preferia as boas e velhas armas de fogo. Mais caras e menos práticas, realmente, mas mais leves e charmosas.

– Vai ficar parado aí? Já pode se retirar, capitão. Entrarei em contato em breve.

– Sim, madame. Obrigado – disse antes de sair do quarto da pensão de luxo onde a dama morava. Ela revirou os olhos, ajeitando seu espartilho e prendendo a arma ao coldre em sua coxa, que permanecia coberto por seu vestido vermelho de seda.

Em seguida abaixou-se e pegou uma maleta debaixo da cama. Dentro dela havia seu estoque de Quintessência, em pequenos frascos cor de âmbar. Pegou um deles antes de sair.

Na sala da pensão, dona Josefina trabalhava numa máquina de costura e seu neto brincava no chão com uma locomotiva de brinquedo.

– Bom dia, Jô – disse Madame Oriana para a senhora, enquanto bagunçava com afeto os cabelos do garotinho.

– Bom dia, Ana. Tudo certo com aquele militar que acabou de sair?

– Tudo, minha querida. Vou trabalhar num novo caso.

– Parou de ir no jornal?

– Não, mas só estou escrevendo algumas matérias especiais de vez em quando. – Ela foi até a porta e pegou sua sombrinha branca que estava pendurada no cabideiro. – Estou de saída, não voltarei para o almoço. Fica com Deus.

Estacionado em frente à casa estava o belo Ford T de Madame Oriana, mas ela não o usaria naquela manhã. Seu destino era a Ecclésia, e esta se encontrava há pouco mais de três quarteirões dali.

Tinha três meses que ela comprara o carro. Seus feitos passaram a ser conhecidos em todo o Rio de Janeiro desde aquele dia em que desmascarara a Máfia do Aeródromo, e a partir daí seu trabalho de jornalista investigativa passou a se confundir com o de detetive particular, exigindo-lhe um automóvel. Os militares costumavam pedir sua ajuda em casos como aquele que acabara de aceitar. Eles eram receosos em se meter com a Igreja, mas ela não.

– Perdão, senhorita – disse um homem que quase se esbarrara com Madame Oriana ao virar uma esquina, deixando cair sua cartola, todavia ela não lhe deu atenção. Naquele momento estava pensando em Augusto Tavares. É claro que ela já havia ouvido falar daquele que era provavelmente o boticário mais renomado do Brasil, porém o motivo que levou alguém a violar o túmulo de sua finada esposa e ainda arrancar-lhe sua cabeça decomposta era um mistério que pairava nebuloso na mente dela.

Magia negra? Decerto que não. Ela acreditava que aquilo não passava de invenção da Igreja para se livrar de pessoas indesejáveis…

– Dá um Réis, dona. – pediu um mendigo imundo, sentado na calçada. Madame Oriana o olhou com repulsa e ignorou seu apelo, seguindo direto. Volta e meia ela precisava da ajuda de mendigos em suas investigações, mas imaginou que, pela data, a polícia logo apareceria para limpar o bairro e ela nunca mais veria aquele homem. Além do mais, a rua estava deserta. Qual o sentido de fazer caridade se não há ninguém para ver?

Em mais dois minutos de caminhada, a imponente Ecclésia cresceu diante dos olhos de Madame Oriana.

A Ecclésia era a central da Igreja no Brasil. Lar do famoso arcebispo Gregório Vasconcelos e todos seus subordinados responsáveis por grandes feitos que iam desde as missas do domingo às execuções em praça pública. Nalgum universo paralelo a este isto poderia ser visto como medidas medievais, mas não estou aqui para conjeturar.

Seu terreno tinha o tamanho de quatro quarteirões. Cercados por uma alta e grossa grade preta bem trabalhada havia um jardim verdíssimo e vários prédios majestosos de mármore branco numa arquitetura neoclássica marcada pelo uso de colunas coríntias que em nada se assemelhava ao barroco que dominara os edifícios sacros nos séculos anteriores.

No jardim, entre palmeiras, arbustos e paus-brasil tinham várias esculturas de cobre em tamanho natural de sacerdotes ilustres e reproduções de personagens bíblicos.

Madame Oriana localizou os portões, onde haviam dois guardas. Abriu seu frasco de Quintessência, passou um pouco do perfume no pescoço, guardou-o novamente num bolso discreto em seu vestido e foi até lá.

– Bom dia, oficiais – cumprimentou ela, abrindo um sorriso radiante.

– Bom dia, senhori… – começou um deles, antes de levar uma forte cutucada do outro.

– É madame, todo mundo sabe disso – murmurou, voltando-se então para ela, também sorrindo. – O que podemos fazer por ti, madame Oriana?

– O senhor Valdomiro está?

– Ah, certamente. No prédio dos escritórios. – Ele tinha uma expressão abobalhada, mas não vamos julgá-lo por isso. –  Posso acompanhá-la, se desejar.

– Não tem necessidade, Raul. Já conheço bem o caminho – disse ela, atravessando então os portões e deixando os dois homens a cochichar em suas costas.

Contornar o senhor Valdomiro, assistente do arcebispo, não era assim tão fácil. Há quem dizia que ele não caía nos encantos da dama porque era dado às pederastias (e, cá entre nós, as más línguas falavam a verdade), mas nem só de feromônios modificados era baseado o carisma de Madame Oriana.

– Desculpe-me, madame, mas Augusto é um prisioneiro da Igreja, nenhum civil pode falar com ele. – disse Valdomiro ao ouvir o pedido dela.

Madame Oriana sabia que a Igreja não fazia prisioneiros, o que só poderia significar uma coisa. Augusto era um alquimista talentoso o suficiente para despertar o interesse, e não o ódio, do arcebispo.

– Não sei se o senhor me entendeu. A polícia me mandou aqui. Só Deus sabe o que eles passam, não queriam se envolver num caso macabro como este. Apenas vou perguntar se ele sabe quem poderia ter feito aquilo.

– A madame que não me entendeu. Ele não está em condições de responder nada.

– É óbvio que eu entendi. E provavelmente eu não verei nada que já não tenha visto, ou pior. Quero falar com o arcebispo, então.

Valdomiro suspirou, cansado, e sentou-se na poltrona de couro que havia em sua sala.

– Ele não pode agora, o presidente veio vê-lo.

– Tenho certeza que tu sabes que eu trabalho n’O Paiz. Vocês estão perdendo popularidade, e eu não acho que mais publicações sobre os Carboríngios vão melhorar isso.

Há alguns anos ela poderia ser executada caso a Igreja se irritasse com seu comportamento intrusivo, mas não naqueles dias. Desde o primeiro atentado Carboríngio, as pessoas se mostraram menos sujeitas a aceitar o poder ditatorial da Igreja. Infelizmente a criminalidade aumentou em cinco por cento, mas isso era de se esperar.

Os Carboríngios eram uma espécie de seita revoltosa. Uma sociedade secreta cristã que lutava contra a forma como a Igreja vinha deturpando a Bíblia para benefício próprio. Mataram cinco em seu último atentado, mas isso são detalhes. Os fins justificam os meios, afinal.

Valdomiro não respondeu nada, apenas encarou-a, irritado, balançando a cabeça.

– Tudo bem, desisto. Confesso que estava curiosa para falar com Augusto, por motivos pessoais, porém é claro que eu já notei que foram vocês mesmos que violaram o túmulo da esposa dele. Mas a procura de quê?

Um momento de silêncio, enquanto Valdomiro pensava numa resposta.

– Façamos um acordo então. Sim, fomos nós, obviamente. Mas não espalhe isso, o que procurávamos não lhe diz respeito. Nos ajude a encontrar Alberto, o filho de Augusto. Traga ele para nós e publique no jornal que ele era o assaltante de tumbas. A polícia ficará satisfeita, você terá mais um caso bem sucedido e quanto a nós… bem, é sigiloso.

– Agora sim estamos conversando. É claro que vocês teriam uma dívida comigo após isso, estou certa?

– Naturalmente. – Valdomiro balançou a mão, num gesto de desinteresse.

– Vocês fazem ideia de onde esse Alberto está?

– Achamos que Augusto saiba, mas não conseguimos retirar nada dele. Mas venha, você deve conseguir – disse ele levantando-se e fazendo um sinal para que a mulher o acompanhasse.

Os dois saíram daquele prédio e seguiram por um caminho de pedras brancas. Alguns sacerdotes cruzaram com eles e os cumprimentaram. Uma grande sombra de um dirigível que sobrevoava ali cobriu-os por alguns segundos.

Entraram num novo edifício, este de paredes mais grossas e sob vigilância de dois outros guardas do lado de fora e outros dois dentro. Era a prisão da Ecclésia, mas, a não ser no interior das celas, tudo ali era tão suntuoso quanto nos outros prédios.

Augusto era um velho alto, magro, de ralos cabelos brancos e uma barba espessa. Seus óculos estavam caídos num canto do cubículo, quebrados, e sobre uma cama velha tinha uma mala com roupas e pequenos objetos revirados. Havia sangue seco por todos os lados, e o rosto do alquimista estava sujo e desfigurado.

Valdomiro usou uma de suas chaves para abrir a cela. Madame Oriana entrou e ele se afastou, indo conversar com um dos guardas à distância.

– Bom dia, Augusto – sussurrou ela. – Não tenho muito tempo, eu disse para eles que minha mãe estava morrendo e que queria te perguntar sobre um medicamento.

O velho ergueu a cabeça devagar, mirando-a com olhos confusos. Madame Oriana olhou para trás rapidamente, como que checando se Valdomiro não estava prestando atenção nela.

– Não sei se tu já ouviste falar de mim, sou jornalista e estou tentando desmascarar as atividades secretas da Igreja. Posso até conseguir com que você não seja executado. O governo estadunidense está do meu lado. Seu filho pode nos ajudar, mas não sabemos…

– Pronto, Oriana? – perguntou Valdomiro num tom arrogante que fazia parte da encenação.

– Já vou. – Madame Oriana arregalou os olhos para Augusto, nervosa, e percebeu que ele estava caindo. Seu perfume enchia o ambiente daquela cela fétida.

– Relógio – murmurou ele e lançou um olhar rápido para a mala na cama. – Doze e quarenta e dois.

Ela se pôs de pé e foi até a mala, onde, entre roupas amassadas, encontrou um relógio de bolso de latão, que rapidamente sumiu em suas vestes. Ela não sabia o que aquilo significava, mas torceu para que ajudasse. Saiu da cela e olhou para Augusto pela última vez. A agitação dele a deixou comovida, talvez com o que poderíamos chamar de pena.

Valdomiro perguntou se ela tinha descoberto alguma coisa, mas ela decidiu manter o sigilo naquele primeiro momento. Disse que ainda não tinha certeza e que voltaria em breve.

Ao se ver fora da Ecclésia, Madame Oriana analisou o relógio que pegara. Parecia normal, até que ela girou o mecanismo e acertou a hora para doze e quarenta e dois. Neste momento, algo pareceu estremecer dentro do objeto e este começou a tiquetaquear bastante lentamente, com um espaçamento de uns oito segundos entre um tique e outro.

No início ela não entendeu o que aquilo significava, até notar que, de acordo caminhava, a frequência dos tiques aumentava. Deu uns passos para trás e viu a frequência diminuir quase imperceptivelmente.

Excitada, Madame Oriana voltou para casa, pegou seu calhambeque novo e pôs-se a seguir o sinal do relógio.

Vinte minutos depois o tique-taque do relógio já era frenético. Madame Oriana deveria estar perto. Ela parou o carro em frente a um hotel numa rua movimentada quando o som proveniente do relógio tornou-se um apito baixo constante.

Estacionou e entrou no hall. Ignorou a saudação da recepcionista e subiu as escadas que levavam para os quartos. Logo no primeiro andar, o relógio começou a vibrar em sua mão. Caminhou devagar pelo corredor e parou quando o apito do relógio ficou alto o suficiente a ponto de incomodar.

Estava diante do quarto cento e três. Ela girou o mecanismo do relógio, mudando a hora e fazendo-o parar de funcionar. O silêncio foi bem-vindo aos seus ouvidos, mas não durou muito. Escutou o barulho de vidro se quebrando dentro do quarto e, ao que parecia, uma pesada respiração nervosa.

Esticou o braço. A porta estava trancada. Sem titubear, ergueu alguns centímetros do vestido e pegou seu revolver, apontando-o então para a maçaneta e estourando-a. A porta se abriu com violência no momento em que um rapaz pulava pela janela.

Vamos congelar esta cena por alguns instantes, pois há coisas importantes aqui e não voltaremos a ela depois.

O quarto do hotel é pequeno e tem um forte cheiro de mofo. Há um banheiro minúsculo na lateral, e na pia, de molho numa solução alcoólica suja de graxa, há várias engrenagens e peças mecânicas.

Em cima da cama desarrumada há um relógio idêntico ao que Madame Oriana tem nas mãos. O jovem, que aparenta ter seus vinte e um anos, está bem vestido, com camisa, calça e colete, possui uma grande pistola a vapor pendurada nas costas e se chama Alberto. Sua expressão é assustada, entretanto, naqueles milésimos de segundos, Madame Oriana nota a semelhança que ele tem com o pai.

Pronto, deve ser suficiente.

O rapaz pulou e Madame Oriana escutou gritos vindos da calçada. De súbito ela voou para as escadas e desceu para a rua, de onde foi capaz de vez o fugitivo mancando para longe dali. Ela deu um tiro para o alto e pôs-se a correr em seu encalço, empurrando sem dó qualquer um que estivesse em sua frente.

– Nossa Senhora, o que é isso! – exclamou uma velhinha quando viu a correria.

Alberto se agarrou a um bonde que passava e puxou a arma de suas costas, apontando para Madame Oriana e apertando o gatilho. Uma violenta esfera de vapor foi lançada, acertando Oriana no peito e jogando-a para trás.

Ainda do chão, ela mirou pacientemente seu revólver para o rapaz, e antes que o bonde virasse na esquina, ela atirou, acertando o jovem no ombro e derrubando-o no meio da rua.

Madame Oriana se ergueu, tirando a poeira do vestido, guardou sua arma e foi até Alberto, que havia desmaiado ao cair do bonde em movimento. Pessoas se juntavam ali ao redor, olhando assustados para ela.

– Tu estás é louca, minha filha? – exclamou um senhor, indignado.

– Perdoe-me o transtorno, meu senhor. Este rapaz é um procurado da lei – disse enquanto rasgava um pedaço da barra de seu vestido a amarrava com força ao redor do ombro de Alberto. Entretanto, o homem não estava mais embravecido. Nenhum deles ali.

– Pode me ajudar a levá-lo para o carro? – ela pediu para um mecânico encorpado que vira o ocorrido e encostara para ver. E seria redundante dizer quão rápido ele acatou o pedido.

Quando Alberto acordou, demorou a se situar. O ombro parara de sangrar mas ainda doía. Olhou ao redor e notou que se encontrava numa velha estação de trem abandonada. Como vim parar aqui? foi a primeira coisa que pensou, confuso, porém lembrou de tudo quando viu Madame Oriana sentada há alguns metros, perto dos trilhos. Ele tentou se sentar mais confortavelmente, mas uma corda que o atava a uma pilastra o impediu.

– O que vocês fizeram com meu pai? – perguntou ele, exaltado.

– Seu pai está na Ecclésia. Eu não sou da Igreja, se foi o que pensou ao fugir.

– O que você quer comigo? Porra, você atirou em mim!

– Por que a Igreja quer você e seu pai? – Madame Oriana se pôs de pé e se aproximou de Alberto. – Por algum motivo eles ainda não executaram Augusto.

– Eles querem o que meu pai descobriu. O Emplastro Panacético, o remédio universal. Seria a chave para eles saírem da fossa financeira.

Madame Oriana passou a mão pelos cabelos, pensativa. Aquilo era grande, inédito. Mas de que lado ela deveria ficar para tirar o máximo proveito?

Virou-se de costas, enquanto pensava, observando a paisagem dali. Aquela estação ficava na saída noroeste do Rio, e estava abandonada há cinco anos, desde que o fluxo grande de zepelins a tornou obsoleta. O mato nos arredores havia tomado conta do lugar e trepadeiras subiam pelas estruturas de metal enferrujado.

– Tu sabes como fazer este tal do Emplastro Panacético? – Ter algo como aquilo seria mais valioso que qualquer acordo que pudesse fazer com a Igreja, foi a conclusão que ela chegou.

Alberto hesitou. Será que seria sensato dizer a verdade?

– Seja sincero, quero te ajudar! – reforçou Madame Oriana.

– Não, eu não sei fazer. Meu pai que estava trabalhando nessa pesquisa.

– Tudo bem… – Madame Oriana foi para trás de Alberto e pôs-se a mexer nas cordas que o amarravam. – Uma última coisa. A Igreja abriu o túmulo de sua mãe. O que havia lá dentro?

O rapaz titubeou novamente, nervoso mas também aliviado por estar prestes a se ver livre.

– Como assim? Não faz sentido, eu não… AH! – Ele não pôde terminar a frase. Madame Oriana havia lhe dado uma coronhada, todavia não fora forte o suficiente para fazê-lo desmaiar. Ela deu outra, certeira dessa vez.

Fez um muxoxo aborrecido. O rapaz era inútil, mas ao menos, graças a ele, Madame Oriana cairia nas boas graças da Igreja.

Desamarrou-o e o arrastou até o carro. Jogou-o no porta-malas e partiu de volta para a Ecclésia.

Publicado por Caiuã em: Agenda | Tags: , , , , , , , , , ,

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